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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Anselmo Borges: Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

É a primeira vez que se celebra, de 1 a 7 de Fevereiro, a Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa, na sequência de uma Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas, tomada por unanimidade no dia 20 de Outubro de 2010 e proclamando precisamente a primeira semana de Fevereiro de cada ano a "World Interfaith Harmony Week" (Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa), semana da harmonia entre todas as religiões, fés e crenças. A sua adopção seguiu--se a uma proposta do rei Abdullah II da Jordânia, no dia 23 de Setembro de 2010.

A Assembleia Geral fê-lo, lembrando várias resoluções e declarações suas anteriores, todas no sentido da promoção de uma cultura de paz e não-violência, compreensão, harmonia e cooperação inter-religiosa e intercultural, diálogo entre as civilizações, eliminação de todas as formas de intolerância e discriminação com base na religião ou na crença, louvando múltiplas iniciativas a nível global, regional e local para a mútua compreensão e harmonia inter-religiosa, e reconhecendo, por um lado, a necessidade imperiosa do diálogo entre os diferentes credos e religiões em ordem a uma maior compreensão mútua, harmonia e cooperação entre os povos, e, por outro, que os imperativos morais de todas as religiões, convicções e credos fazem apelo à paz, à tolerância e ao mútuo entendimento.

A Assembleia Geral reafirma que a compreensão mútua e o diálogo inter-religioso "constituem dimensões importantes de uma cultura de paz" e encoraja todos os Estados a apoiar a difusão da mensagem da harmonia e boa vontade inter-religiosa em todas as igrejas, mesquitas, sinagogas, templos e outros lugares de culto durante esta semana, "fundada no amor de Deus e do amor ao próximo ou no amor do bem e do próximo, cada um segundo as suas próprias tradições ou convicções religiosas".

Na sua mensagem de 1 de Dezembro de 2010 sobre esta Semana, Jorge Sampaio, alto-representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, depois de declarar que a Aliança procura reduzir tensões criadas por divisões culturais que ameaçam a estabilidade e a paz das e entre as comunidades e sociedades, e, por conseguinte, apoiar os esforços dos Estados, da sociedade civil e de outros actores na construção de bases de confiança e respeito entre as diversas comunidades, incluindo as religiões, saúda com entusiasmo esta Resolução das Nações Unidas. "O seu objectivo é abrangente e inclusivo, vinculando as pessoas de todas as religiões, fés e crenças." Por isso, convida os membros da Aliança das Civilizações, as organizações da sociedade civil, comunidades religiosas, escolas, universidades a informar-se sobre a iniciativa e a promovê-la.

Penso que o diálogo inter-religioso tem, como aqui tenho sublinhado, vários pressupostos. O primeiro diz que, antes de sermos religiosos ou não, somos seres humanos: une-nos a humanidade comum. Outro pressuposto essencial tem a ver com a separação da(s) Igreja(s) e do Estado e o fim da leitura literal dos textos sagrados das religiões.

Os pilares desse diálogo poderiam sintetizar-se assim: 1. Embora não sejam igualmente verdadeiras, todas as religiões são reveladas e contêm verdade. 2. Nenhuma tem a verdade toda, pois todas estão referidas ao Absoluto, mas nenhuma o possui. 3. O fundamentalismo é uma questão de ignorância ou estupidez. De facto, quem é o ser humano, finito, para ter a pretensão de possuir o fundamento? 4. O diálogo inter-religioso impõe-se pela própria dinâmica religiosa: se nenhuma religião possui a verdade toda, devem todas dialogar e exercer a autocrítica. 5. Os ateus que sabem o que isso quer dizer podem dar um contributo fundamental, já que mais facilmente se apercebem da superstição e inumanidade que as religiões podem transportar.

Tomamos cada vez mais consciência do que Hans Küng há anos vem repetindo: "Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos global, um ethos mundial."


Nota deste blogue: Sobre a Semana Mundial da Harmonia Inter-Religiosa ver aqui. 

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Livra-nos do medo

Santificado seja o teu nome,
não o meu.
Venha o teu reino,
não o meu.
Seja feita a tua vontade,
não a minha.

Dá-nos paz contigo,
paz com os homens,
paz connosco,
e livra-nos do medo.

Dag Hammarskjöld (1905-1961)

Segundo Secretário-geral da ONU. Morreu em 1961, num acidente de aviação na Zâmbia, quando tentava apaziguar as partes em conflito no Congo.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

2 de Outubro de 1979. João Paulo II discursa na ONU

João Paulo II visitou os EUA de 1 a 7 de Outubro de 1979. E afirmou na ONU, num discurso que obteve muito eco:

"O primeiro género de ameaça sistemática contra os direitos do homem anda ligado, num sentido global, com a distribuição dos bens materiais, muitas vezes injusta, quer em cada uma das sociedades singularmente, quer em todo o globo. É conhecido que estes bens são dados ao homem não somente como riquezas da natureza, mas na maior parte são por eles usufruídos como fruto da sua multiforme actividade, desde o mais simples trabalho manual e físico, até às mais complicadas formas da produção industrial, e às pesquisas e estudos de especializações altamente qualificadas. Várias formas de desigualdade na posse dos bens materiais, assim como no gozo dos mesmos, explicam-se frequentemente por diversas causas e circunstâncias de natureza histórica e cultural. No entanto, tais circunstâncias, se bem que possam diminuir a responsabilidade moral dos contemporâneos, não impedem que as situações de desigualdade se achem marcadas pela injustiça e pelo dano social" (o discurso pode ser lido aqui).

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

17 de Setembro de 1961. Cai o avião de Dag Hammarskjold


Dag Hammarskjold (1905-1961), sueco, foi secretário geral das Nações Unidas, de 1953 a 1961, depois de ter sido ministro (o seu pai fora primeiro-ministro) e presidente do Banco da Suécia.

No tempo em que esteve à frente da ONU, em plena guerra fria, este cristão convicto actuou com independência e imparcialidade. Opôs-se à aliança anglo-franco-israelita que queria recuperar o canal de Suez que o Egipto nacionalizara e empenhou-se em promover a paz no antigo Congo Belga. No conflito que se seguiu à independência de 1960, recusou que as forças da ONU tomassem partido por uma das partes em confronto no Congo (o que fez com que Krustchev batesse com o sapato no ambão da ONU).

No dia 17 de Setembro de 1961, Hammarskjold desloca-se para o norte da Zâmbia para discutir um cessar-fogo com uma das partes. O seu avião cai pouco depois de avistar o aeroporto. Foi um acidente e não um atentado. Dag Hammarskjold morreria no dia seguinte.

Nesse ano, recebeu o Nobel da Paz a título póstumo (primeira e única vez). Hoje a ONU atribui uma medalha com o nome deste secretário-geral a quem morre ao serviço da organização.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

DSI 19 - Da RN à CV: A "Populorum progressio"

Quinze meses depois do encerramento do II Concílio do Vaticano, Paulo VI publica a sua primeira encíclica social, sobre um tema que na altura foi considerado inesperado: o desenvolvimento dos povos.

O mundo vivia uma fase de optimismo económico. No Ocidente, as taxas de crescimento, no pós-guerra, são elevadas. Surge a “sociedade da abundância”, de alguma forma simbolizada pela abertura do primeiro hipermercado. Abre em França, em 1963, com 2500 metros quadrados onde se pode comprar quase de tudo. Em África, com as independências políticas, pensa-se que chega uma era de desenvolvimento.

O documento de Paulo VI, ainda que tenha um fundo de optimismo – o sonho do desenvolvimento para todos –, está marcado pelo duro reconhecimento de que no mundo predomina o subdesenvolvimento. “Os povos da fome dirigem-se hoje, de modo dramático, aos povos da opulência”, escreve logo no n.º 3.

O documento começa, no entanto, com uma frase que além de lembrar a célebre primeira frase da Gaudium et Spes (“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos nossos contemporâneos… são também as dos discípulos de Cristo”) revela o tal tom positivo e a nova forma de a Igreja se relacionar com o mundo: “O desenvolvimento dos povos, especialmente daqueles que se esforçam por afastar a fome, a miséria, as doenças endémicas, a ignorância; que procuram uma participação mais ampla nos frutos da civilização, uma valorização mais activa das suas qualidades humanas; que se orientam com decisão para o seu pleno desenvolvimento, é seguido com atenção pela Igreja”.

À preocupação de Paulo VI com o desenvolvimento dos povos não terão sido alheias as grandes viagens que realizou à América Latina e a África, ainda cardeal, e a à Índia, já como Papa. Não há nada como ir aos locais onde se sofre para se perceber o que é a pobreza. Julgo que nenhum Papa antes de Paulo VI visitou outros continentes.

O tema da encíclica de algum modo foi inesperado, mas já em duas ocasiões fundamentais Paulo VI o abordara. Na visita à assembleia-geral da ONU, em 1965, em Nova Iorque, afirma: “Nós sabemos com quanto ardor vós vos dedicais a diminuir o analfabetismo e a espalhar a cultura no mundo. A dar aos homens uma assistência sanitária apropriada e moderna. A colocar ao serviço do homem os maravilhosos recursos da ciência, da técnica, da organização: tudo isso é magnífico e merece o elogio e o apoio de todos, incluindo o Nosso. Nós queríamos também dar o exemplo, mesmo se a pequenez dos Nossos meios impede de lhes apreciar o alcance prático e quantitativo: Nós queremos dar às Nossas instituições um novo desenvolvimento contra a fome do mundo e a favor das suas principais necessidades: é assim, e não de outro modo, que se constrói a paz”. Na encíclica afirmará, num título que ficará célebre: “O desenvolvimento é o novo nome da paz” (PP, 78). Entretanto, na visita á Índia (1964), tinha proposto a criação de um Fundo Mundial, “sustentado por uma parte da verba das despesas militares” – ideia que retoma no n.º 51 da PP.

Tornada pública há quase 42 anos, a Populorum Progressio conserva, infelizmente, grande actualidade. “Infelizmente”, porque o desenvolvimento dos povos continua adiado.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...