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domingo, 29 de setembro de 2013

O Papa das frases coordenadas sucede ao das subordinadas

Diz o cardeal Ravasi que enquanto Bento XVI usava mais frases subordinadas, Francisco usa mais coordenadas. 

Por outras palavras, Bento era mais "que", já Francisco é mais "e". Compreende-se. Um era da escrita; o outro, da oralidade. Um era mais racional; o outro é mais emotivo. O primeiro era mais tímido; o de agora é mais expansivo. Onde um hesitava, o outro é mais direto. Um preferia livros, o outro prefere pessoas. Bento era o intelectual, preferido de professores, filósofos e jornalistas; Francisco é o pastor, preferido de cidadãos em geral, políticos e ateus hesitantes.

Quando Bento foi eleito, comentei com amigos que era um erro eleger um intelectual para Pastor da orbe. Bento nem se saiu mal e eu emendei-me, continuando, no entanto, a criticar a ratzingerização da teologia. Quanto a Francisco, só lhe peço que não faça teologia, coisa que deve estar bem longe dos seus planos. Outros a farão a partir do que ele diz e faz.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Jesus Cristo foi o primeiro homem no mundo a tweetar, diz Ravasi


"Jesus usou o tweet antes de todos, com as suas frases cheias de essência e que tinham menos de 45 caracteres, por exemplo 'Amai-vos uns aos outros'", disse o cardeal Ravasi, "ministro da Cultura" do Papa Francisco na sessão romana do Pátio dos Gentios com jornalistas. Li aqui no "Público". Notícia da Ecclesia aqui.

Faltou dizer, acrescento eu, que um dos tweets de Jesus falava do símbolo do twitter: "Olhem os passarinhos. Não semeiam e Deus cuida deles" (52 caracteres).



quinta-feira, 28 de março de 2013

Pirotecnia

Se examinarmos atentamente os evangelhos, ficamos estupefactos dando-nos conta de que na realidade eles não descrevem o ato da ressurreição de Jesus. São somente os apócrifos, isto é, os escritos populares fantasistas , que se ocupam de reconstruções pitorescas e pirotécnicas.

Gianfranco Ravasi

segunda-feira, 25 de março de 2013

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Tradicionalistas, estudem latim – pede o cardeal Ravasi



O Cardeal Ravasi pede aos tradicionalistas para estudarem latim. Imagino que ele considera que o latim é uma bandeira dos tradicionalistas e é claro que sabe que alguns não tradicionalistas podem interpretar a promoção do latim "como um exercício que busca voltar ao velho, ao obsoleto". Por isso, além de esclarecer o porquê da incentivo do latim (por questões de herança e de cultura) afirma: «Acima de tudo, comecemos por pedir aos chamados “tradicionalistas” que voltem a estudar o latim, porque muitas vezes eles querem que as missas sejam em latim, mas provavelmente conhecem pouco a língua. Tive a experiência com alguns que, apesar de celebrar com força o rito da missa ou da liturgia em latim, não conseguiam decifrar alguns pontos precisos da língua». Realmente, para alguns, basta um livrinho com latim de um lado e português do outro (mas se é para compreender, porque não missa em português e um livrinho com tradução em latim?). 

Copiei daqui a seguinte entrevista.

Instituída no dia 10 de novembro com a carta apostólica “Latina Língua”, a academia tem como objetivo principal “oferecer um conhecimento maior e um uso mais competente da língua latina, tanto no âmbito eclesial como no mais vasto mundo da cultura”. Em entrevista ao Vatican Insider, o próprio Ravasi explicou os alcances reais desta iniciativa.
Qual é o significado da criação desta Pontifícia Academia Latinitatis?
Não queremos somente recuperar a grande herança do passado composta de cultura, literatura, pensamento, teologia e filosofia expressada em latim, queremos que o latim retorne, sobretudo, aos seminários, para que os seminaristas possam ter a possibilidade de compreender no texto original os documentos fundamentais e talvez alguma página dos padres da Igreja. Por outro lado, queremos também que nas escolas de todos os países do mundo o latim seja recuperado, porque permite compreender a cultura contemporânea já que sua estrutura – embora conhecida em seus componentes básicos – é uma ajuda para bem pensar, refletir e raciocinar com qualidade.
Como evitar que isto seja considerado como um exercício que busca voltar ao velho, ao obsoleto?
Acima de tudo, comecemos por pedir aos chamados “tradicionalistas” que voltem a estudar o latim, porque muitas vezes eles querem que as missas sejam em latim, mas provavelmente conhecem pouco a língua. Tive a experiência com alguns que, apesar de celebrar com força o rito da missa ou da liturgia em latim, não conseguiam decifrar alguns pontos precisos da língua.
 Como é evidente, a cultura ocidental, sobretudo aquela dos idiomas europeus mediterrâneos, foi fundada sobre o latim. Algo similar ocorre com o direito e a linguagem científica, ainda hoje os nomes dos fármacos, por exemplo, derivam dessa língua morta. A cultura nobre em geral tem necessidade do latim para compreender o significado profundo de algumas palavras da própria linguagem. Mas, sobretudo, o latim pode estimular a usar muito mais a racionalidade.
Esta Academia substituirá a fundação vaticana Latinitas, que na realidade não funcionava há anos. Como evitar que esta nova iniciativa se perca como a anterior?
Essa era um pequeno cenáculo que buscava reverdecer o uso do latim, mas a utilização prática desta língua é apenas funcional a algumas questões específicas. Não se pode falar em latim, está morto como língua. Pode-se aplicá-lo ainda para algumas formulações, diversas expressões ou como língua solene da Igreja, em algumas ocasiões.
 De maneira particular devemos recordar que esta Academia será constituída por acadêmicos procedentes de todo o mundo, que falam diversos idiomas, da Austrália, Estados Unidos ou Canadá. Serão tantas chamas espalhadas que querem propor novamente o passado e seus valores.
Então, o objetivo principal da Academia não é o uso frequente do latim?
Algumas vezes se poderá fazer, especialmente em nível didático. Sempre com a finalidade de aprender, mediante esta língua, um modo de pensar com rigor.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Crise de ofertas nas missas



No "Público" de hoje. Card. Ravasi tem mais de 18 mil seguidores no twitter. No final do ano passado, tinha quase quatro mil (aqui).

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

10 factos do Vaticano pouco noticiados em 2011 (1.ª parte)

Em 2011 houve notícias relativas à Igreja Católica e ao Vaticano que obtiveram amplo destaque na imprensa internacional. A beatificação de João Paulo II foi uma delas. Outras foram claramente “sobrenoticiadas” – como o são geralmente os escândalos com figuras da Igreja. Mas há ainda uma terceira categoria de notícias: as que, sendo importantes, não obtiveram o devido espaço na imprensa internacional. John L. Allen Jr., do semanário católico norte-americano “National Catholic Reporter” selecionou dez factos subnoticiados (Top 10 under-covered Vatican stories). Moisés Sbardelotto traduziu.  Eu resumi.

1. Scola para Milão
O cardeal Angelo Scola, 70 anos, já era candidato papal antes da sua nomeação, no dia 28 de junho, para arcebispo de Milão. Durante o século XX, dois papas foram eleitos de Milão, Pio XI e Paulo VI, e vários outros arcebispos de Milão foram considerados formidáveis concorrentes. Scola, oriundo do movimento Comunhão e Libertação, é um feroz defensor da identidade católica, mas prefere pôr o acento “no que a Igreja é” em vez de “contra quem ela é”.

2. Átrio dos Gentios
O "Átrio dos Gentios" de 24 e 25 de março, em Paris, foi um grande sucesso no mundo de língua francesa. Organizado pelo Conselho Pontifício para a Cultura, presidido pelo hipererudito cardeal italiano Gianfranco Ravasi, o encontro levou cristãos, ateus e agnósticos a um sério diálogo. Um sinal do sucesso é que o reputado filósofo agnóstico francês Jean-Luc Ferry ficou tão impressionado que pediu uma reunião urgente com Ravasi para propor uma colaboração a dois sobre o Evangelho de João. O encontro de Paris foi o primeiro de uma série de "Átrio dos Gentios".

3. Assis
O encontro de 300 líderes religiosos na cidade natal de São Francisco, promovido por Bento XVI, no dia 27 de outubro, não atraiu um interesse semelhante ao que cercou a primeira cúpula inter-religiosa promovida pelo Papa João Paulo II em 1986. No entanto, assinalar com um encontro inter-religioso o 25.º aniversário do evento de João Paulo II foi, sem dúvida, algo de extrema importância pelo que simboliza: a convocação dos líderes religiosos do mundo em prol da paz não era simplesmente um capricho pessoal de João Paulo II. Pelo contrário, tornou-se parte do trabalho do papado, algo que os futuros papas deverão repetir.

4. A viagem ao Benim
Na ausência de um novo tumulto em torno dos preservativos e da Sida, a viagem de Bento XVI ao Benim, nos dias 18 a 20 de novembro, não foi uma sensação mediática. No entanto, os papas votam com os pés, ou seja, as suas prioridades pastorais e geopolíticas são muitas vezes reveladas pelos locais que escolhem para visitar. África é o segundo continente mais visitado depois da Europa. Bento XVI apresentou um documento contendo as conclusões de um Sínodo dos Bispos para a África, de 2009, constituindo um plano papal para o continente onde o catolicismo cresceu quase 7.000% durante o século XX, alertou para a corrupção e desafiou os bispos a arrumarem a sua própria casa em termos de responsabilidade, transparência e bom governo.

5. Viganò para os Estados Unidos
A nomeação do dia 19 de outubro do arcebispo italiano Carlo Maria Viganò como o novo núncio ou embaixador papal para os Estados Unidos tem um significado negativo e outro positivo. Durante o seu período no governo da cidade do Vaticano, Viganò foi uma reformador financeiro, instaurando procedimentos eficientes de contabilidade entre os pequenos feudos independentes do Vaticano. No entanto, não terminou o que começou. O facto de estar agora nos EUA significa que está posicionado para ajudar os bispos norte-americanos a seguir em frente na boa gestão do dinheiro, num momento em que se teme que os escândalos financeiros possam tornar-se o segundo “round” da crise dos abusos sexuais enquanto fonte crónica de desordens.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Os bons e os maus ateus



Ainda a propósito de Christopher Hitchens, veja-se este texto de Giacomo Galeazzi no “Vatican Insider”, aqui traduzido. Acontece, de facto, que os crentes são mais capazes de dialogar com os ateus abertos (alguém já lhes chamou “mancos”, porque lhes falta qualquer coisa e é nessa qualquer coisa que se encontram com os crentes) do que com os ateus missionários, os que combatem militantemente a fé/religião. Os bold são meus.

E Hitchens ficou de fora do Átrio dos Gentios. Faltou o convite do Vaticano para um intelectual anticonformista e um espírito livre. No post Consigli a un giovane ribelle do seu blog Parola & Parole, o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura conta: "Eu não consegui convidar Hitchens para entrar no Átrio. Teria me agradado a ideia de dialogar com [ele] fora de polêmicas e atitudes preconcebidas, isto é, como methórios, assim como definia o sábio Filão de Alexandria".
E, acrescenta, "é precisamente essa a ideia do Átrio dos Gentios: um espaço aberto à luz, em que se encontram e se desencontram o absurdo e o mistério, a pura racionalidade e o 'Tu Desconhecido'. Espero que a morte tenha sido para ele 'uma porta que se escancara e irrompe o futuro', retomando o aforismo de Graham Greene que ele tanto gostava de citar. Seria, para ele, como entrar em uma nova infância".
O purpurado parte de uma referência a outro grande laico: "Para Mitterrand que perguntava: 'Em cinco minutos, diga-me a substância da sua experiência de filósofo', Jean Guitton respondia: 'É a escolha entre duas soluções: o absurdo e o mistério'". E, especifica o cardeal, "Christopher Hitchens tinha escolhido a primeira solução, denunciando a religião como 'a principal fonte do ódio neste mundo'. Insistia Mitterrand: 'Mas qual é a diferença? O mistério também parece absurdo'. E Guitton: 'Não, o absurdo é um muro impenetrável contra o nos batemos em um suicídio. O mistério é uma escada: sobe-se de degrau em degrau rumo à luz, esperando'", para depois concluir: "Como homem de fé, a minha esperança é de ver o jovem rebelde voltar-se à luz e subir de degrau em degrau até o oceano de amor em que todo o ódio do mundo imerge". 
Porém, com apenas dois meses de vida pela frente, o polemista britânico Christopher Hitchens desferiu um último e duro ataque contra o Vaticano, acusando-o de cumplicidade com os regimes totalitários dos anos 1930 na Europa. Hitchens, ateu militante até a sua morte na semana passada [15 de dezembro] por causa de um tumor no esôfago, defendeu, na última entrevista com Richard Dawkins na New Statesman, que todo governo fascista da Europa daquela época era, na realidade, um "partido católico de extrema direita". 
Para Hitchens, autor de Deus não é Grande, "quase todos esses regimes chegaram ao poder com a ajuda do Vaticano e com a compreensão da Santa Sé". O polemista defendeu as suas posições como uma batalha contra todo totalitarismo, seja de direita, seja esquerda: "O totalitarismo para mim é o inimigo: aquele que quer ter o controle sobre o que você pensa, não só sobre as suas ações e os seus impostos. E a origem disso é teocrática". 
Não foi apenas Hitchens que ficou de fora do Átrio dos Gentios. Outros ateus ilustres ficaram de fora: por exemplo, Richard Dawkins, Piergiorgio Odifreddi e Michel Onfray. Odifreddi também escreveu um longo artigo em que manifestou seu próprio desacordo: "Na visão não só de Ravasi, mas de toda a Igreja Católica – escreveu – há ateus 'bons' e ateus 'maus'. Os melhores dentre os bons são aqueles como Cacciari: isto é, aqueles que não são ateus por nada e servem como útil cobertura laicista nos debates entre aqueles que acreditam abertamente e aqueles que acreditam de forma escondida. Se esse juízo parece impiedoso, basta olhar no YouTube o recente vídeo de Massimo Cacciari e Piero Coda em diálogo. Aqui, diálogo significa, na realidade, monólogo do primeiro, inserido entre duas frases do segundo. E qualquer um pode julgar por si só se as palavras de Cacciari sobre a Trindade são as de um ateu ou de um perfeito crente, como, aliás, confirma a opinião do teólogo. É óbvio que o cardeal Ravasi prefere escolher como interlocutores, para a passarela do Átrio dos Gentios, filósofos crentes em vez de matemáticos ateus. Até porque com os primeiros ele pode livremente desviar o discurso sobre assuntos como vida e morte, bem e mal, amor e dor, verdade e mentira, liberdade, solidariedade, bioética, medicina, economia".

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O que diz o assessor do ministro da Cultura da Igreja

Já hoje aqui reproduzi um poema de Tolentino Mendonça. Agora dei com a entrevista dele ao DN, no dia 12 de Dezembro, sobre a nomeação para consultor do Conselho Pontifício para a Cultura. Vale a pena ouvir o que diz o novo assessor do ministro da Cultura da Igreja Católica pelo programa que encerra quanto ao pode ser o diálogo fé-ciência-cultura.



quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Ravasi: Falar com o autêntico ateísmo é uma tarefa difícil



Da entrevista de António Marujo ao cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura

(…) Como fala hoje a Igreja com o ateísmo?
Esse é um problema grave. Falar com o autêntico ateísmo é uma tarefa difícil. Verdadeiros ateus como Nietzsche são pouquíssimos. Refiro-me aos que propõem uma visão do mundo e da vida realmente alternativa.
Muitos dos actualmente mais conhecidos procuram sempre uma frase ou a Bíblia lida de modo fundamentalista, para dizer que ainda acreditamos nestas coisas, sem se esforçarem em fazer hermenêutica. Diria que os últimos ateus foram os grandes pensadores marxistas e liberais…

Ernst Bloch…?
Bloch, sim. Penso também em alguns como Jean-Paul Sartre, Albert Camus ou grandes espíritos laicos em Itália como Norberto Bobbio. Eram grandes laicos que se batiam contra o poder clerical, mas que tinham grandes visões.
Os de agora são ateus que reflectem o clima do ateísmo actual, da indiferença. Tivemos a sociedade com Deus, depois a sociedade contra Deus, agora a sociedade sem Deus. É um problema, mesmo para alguns crentes, que acreditam em Deus mas para os quais acreditar ou não, não faz variar muito.
Dialogar com esses grandes pensadores constrangia-nos a reflectir e a reconstruir a nossa própria visão. Com os actuais, é um jogo de pergunta-resposta, em que se responde de maneira apologética.

António Marujo, “Deus Vem a Público. Entrevistas sobre a transcendência. I volume” (ed. Pedra Angular), pág. 71.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Ravasi, o cibercardeal


Reportagem de Marco Ansaldo, no “La Repubblica”, sobre o cardeal Ravasi, “ministro da Cultura do Vaticano”, que está no Twitter (ver aqui), tem blogue, assina uma coluna num diário, organiza o Átrio dos Gentios, gaz um programa num canal televisivo e, podemos acrescentar, escreve prefácios nos livros de José Tolentino Mendonça (“O tesouro escondido”).

Gostei especialmente dos seguintes trechos, mas vale a pena ler tudo aqui.
"Ainda há um longo caminho a ser feito – explica o cardeal –, mas agora é o momento de estar na Internet. Existe um espaço que deve ser preenchido, depois do divórcio entre a linguagem dos sacerdotes e a dos fiéis da Igreja. A Igreja tem à sua frente um problema duplo. De um lado, deve conseguir encontrar uma nova abordagem. De outro, fazer com que a nova linguagem não desgaste o conteúdo: há grandes valores que, se reduzidos em um formato muito frio, correm o risco de desaparecer. Eis o complicado desafio: a alma deve entrar em um pequeno formato – e Ravasi parece se referir aos SMS – mesmo sendo infinita".
De fato, Ravasi é um homem capaz de conjugar instrumentos nascidos há pouco com meios amplamente consolidados. Sua Eminência insiste na necessidade de informação. "Este mundo, que às vezes parece um emaranhado de absurdos, é, no entanto, o nosso mundo. E a leitura do jornal – continua, citando Hegel – é a oração da manhã do homem moderno (aqui). É preciso ler os jornais. E é uma atitude esnobe aquela de quem diz que nunca lê os jornais, ou melhor, nem sequer os olha: uma atitude equivocada. O próprio fiel, de manhã, deve ter a Bíblia e o jornal, no qual verifica, mede, cruza a sua existência". 
Ravasi observa que, "nos últimos anos, houve uma mudança antropológica". McLuhan, explica, "ensinou-nos que os meios de comunicação tornaram-se a nossa prótese. E essa atmosfera tão permeante atravessa a todos, até mesmo aqueles que se obstinam a não TV em casa ou o computador. A Igreja também está envolvida. Devemos adaptar o diálogo, atualizando-nos.Giovanni Battista Montini, o futuro Paulo VI, dizia em 1950 ao filósofo Jean Guitton: 'É preciso ser antigo e moderno. De que serve dizer a verdade, se os nossos contemporâneos não nos entendem?"

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cardeal Ravasi: "O problema é a distribuição do mal"


Há dias, Anselmo Borges dizia aqui que “a nossa sociedade, afundada no ter, no poder, no cálculo, na eficácia, perante a morte, não sabe o que fazer”. “Uma sociedade poderosíssima nos meios, mas sem verdade e finalidades humanas, faz dela tabu: disso não se fala. Mas, se o pensamento sadio da morte reentrasse, faríamos a tempo o que temos a fazer e saberíamos finalmente distinguir entre o que realmente vale e as ilusões do que não vale e que é causa última da nossa crise”, acrescentou o padre e professor da Universidade de Coimbra.

A entrevista que Andrea Tornielli (“La Stampa”) fez ao cardeal Gianfranco Ravasi, no contexto do congresso da Associação de Médicos Católicos Italianos (existe associação similiar em Portugal? Não parece), ajuda a reflectir sobre estes dois temas. "Oculta-se a morte de todos os modos, ou talvez busca-se a possibilidade de viver até 120 ou 130 anos, continuando a afastar o encontro. Ao contrário, devemos ter a coragem de olhar para a doença e a morte de frente como componentes da existência". Copiei a entrevista daqui.
Como o senhor responde à questão sobre o porquê da doença?
A escritora norte-americana Susan Sontag, em 1978, contou a sua experiência de sofrer de câncer em um livro intitulado "A doença como metáfora". Definição interessante: a doença nunca é apenas uma questão biológica. Quando estamos doentes, precisamos ser confortados, olhamos para a vida de um modo diferente, as prioridades mudam e, se a doença se agrava, muda a escala dos nossos valores. E mesmo quem não crê pode chegar a perguntar a Deus o porquê do que lhe acontece. No entanto, a primeira resposta é simples, lógica e racional. 
Qual é a "racionalidade" inscrita na doença?
A dor é um componente da finitude das criaturas. Um dado que, na nossa sociedade orgulhosa e tecnológica, que alguém definiu de "pós-mortal", não se quer aceitar. Oculta-se a morte de todos os modos, ou talvez busca-se a possibilidade de viver até 120 ou 130 anos, continuando a afastar o encontro. Ao contrário, devemos ter a coragem de olhar para a doença e a morte de frente como componentes da existência. 
Uma capacidade que parece se perder no Ocidente, mas que ainda está presente em outras culturas...
É verdade. Quando eu estava no Iraque para fazer estudos arqueológicos, um dia, um dos meus colaboradores locais me convidou para a sua casa, para que eu pudesse ver seu pai que estava morrendo. Eu fui e vi aquele velho deitado no meio do centro da única grande sala da casa, com as mulheres que cozinhavam de um lado e as crianças que brincavam do outro e, de vez em quando, se aproximavam do avô para tocar em sua mão. 
A consciência da finitude não basta para explicar a dor inocente, a doença das crianças, o destino que persegue aqueles que já sofreram.
O problema é a distribuição do mal. Continua sendo dramática a página do "A peste", de Albert Camus, onde, perante a morte de uma criança, afirma-se: Eu não posso acreditar em um Deus que permite isso. É o excesso do mal. Aqui, começa a fronteira em que as religiões se atestam com as suas respostas, que não esgotam o mistério. No Livro de Jó, no auge do desespero humano, Deus fala e varre todas as explicações e as tentativas de racionalizar. A solução só pode ser metarracional, global e transcendente, e se encontra no encontro com Deus. 
E a resposta do cardeal Ravasi?
É a cristã, totalmente diferente das outras religiões. Porque, no cristianismo, é Deus mesmo, em Cristo, que não só se curva sobre nós para nos explicar o significado do sofrimento, não só em alguns casos cura graças à sua onipotência com os milagres, mas também entra na nossa humanidade e prova toda a dor do homem. A dor física, moral, o medo, o silêncio do Pai. E, no fim, até mesmo a morte, que é a carteira de identidade do homem, não de Deus. Ele se torna um cadáver, sem nunca deixar de ser Deus, sofre todo o sofrimento humano e nele depõe um gérmen de transfiguração, que é a ressurreição, fecundando a nossa natureza mortal. 
Porém, isso não anula a dor nem a pergunta. Mesmo para aqueles que creem.
Jesus Cristo, o Filho de Deus, não veio para apagar a dor, tanto é que ele a viveu. Mas ele a assumiu sobre si e a transfigurou com o gérmen do infinito, que é um prelúdio da eternidade para nós. O cristianismo é uma religião fortemente carnal e próxima do drama de quem sofre – ao contrário de muitas outras religiões –, porque, para os cristãos, Deus se tornou um homem e morreu na cruz. Os cristãos, como atesta o nascimento dos hospitais, sempre teve essa atenção pelos enfermos, porque acreditam em um Deus que foi sofredor, que conheceu a morte e ressuscitou. 
O seu dicastério organizou recentemente um congresso dedicado às células-tronco adultas, via alternativa ao uso das células embrionárias. Igreja e ciência podem se reencontrar?
A utilização das células embrionárias está obtendo resultados mínimos comparados aos obtidos com as células-tronco adultas: cancela-se assim o lugar comum que nos atribui a responsabilidade de não querer aliviar os sofrimentos de tantos doentes. Justamente as células-tronco adultas, que não têm nenhuma contraindicação de tipo ético, estão trazendo resultados encorajados no campo oncológico e contra o Parkinson e o Alzheimer.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Um ano sem homilias



O cardeal Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, biblista reconhecido e inventor do Pátio dos Gentios, fez há dias (3 de Novembro) umas afirmações que têm tido grandes ecos em alguns meios eclesiais e blogues. Vejamos o que ele disse. Excertos.
A palavra está sofrendo. Também para a comunidade eclesiástica, a Igreja e sua comunicação. A palavra é traída e humilhada. 
Com frequência, os sermões são tão incolores, insípidos, inodoros, que são irrelevantes. 
E necessário recuperar a palavra que ‘ofende’, fere, inquieta, julga. 
Palavra saudável, autêntica, que deixa marcas. 
(Citando Voltaire e a Montesquieu) A eloquência sacra é como a espada de Carlos Magno, longa e plana: aquilo que não pode dar em profundidade, o dá em comprimento. 
O sacerdote não deve aceitar que a palavra seja humilhada. Está claro que a capacidade de falar é, em parte, dom natural, mas também existe a formação, o aspecto pedagógico, os instrumentos técnicos com os quais se dotar. E isto é algo que hoje falta nos seminários.
E agora os ecos e reacções.

Marco Tosatti, no “Vatican Insider”, fez três sugestões ao Papa:
A primeira ideia é um tanto radical. Proclamar um período (você pode decidir sua duração) de jejum de homilias. Isto é: estabelecer que, durante um ano nas igrejas (com exceção, obviamente, do Papa e dos bispos) não se façam homilias. Não me peça explicações nem razões. Não desejo ofender os sentimentos (bons) de ninguém. Peça explicações, caso desejar, a Giulio Andreotti, que – se não me falha a memória – procura(va) ir nas missas matutinas, exatamente para não ouvir homilias. Eu creio que, se a homilia fosse substituída por um breve momento de recolhimento e de meditação das palavras ouvidas nas Leituras, poderia ser benéfico para todos.
Segunda sugestão. Isto, obviamente, com um tom de brincadeira. Obrigar os sacerdotes a fazerem um curso de jornalismo e, em particular, de jornalismo de agência ou televisivo. Mais de uma vez nos disseram, durante a nossa presença já de longa data em redações, que em 50 linhas se pode descrever a história de uma vida. É possível que seja impossível escrever, no mesmo espaço, uma reflexão sobre o Evangelho do dia? 
Terceira possibilidade (também tem um tom de brincadeira, mas...): solicitar à Congregação correspondente a redação de um documento em que estabeleça taxativamente que o tempo dedicado à homilia não deve ultrapassar os cinco minutos. Um santo, ou um padre da Igreja, disse certa vez: “nos primeiros cinco minutos fala Deus, nos outros cinco fala o homem, nos restantes mais de cinco minutos fala o diabo”. Tendo a acreditar que, na realidade, depois dos primeiros cinco minutos em muitos púlpitos continua falando o homem; e, lamentavelmente, nem todos estão à Sua altura, ao escrever e pronunciar os discursos. E a experiência nos torna palpável – sem culpa de ninguém, os sacerdotes estão animados pelos melhores sentimentos, e estão cheios de santo entusiasmo – que uma homilia que se alonga, se perde, divaga, toca muitos pontos diversos, o que, muitas vezes, não ajuda a manter a concentração e a tensão espiritual criadas pelas Leituras. Pelo contrário. Naturalmente, estariam isentos o Papa, os cardeais, os patriarcas e os arcebispos metropolitanos. Sobre os bispos e os abades, pode-se discutir...
Ivan Rioufol, do “Le Figaro”, escreveu no seu blogue:
Essa admissão de conformismo eclesiástico é, obviamente, muito tardia com relação aos avanços da descristianização e do cansaço de inúmeros católicos (dos quais faço parte) frente a um clero pusilânime e politicamente correto.
O padre Christophe Delaigue, da diocese de Grenoble, defendeu-se:
Você [Ravasi] me critica, ok, mas o que você tem tentado fazer concretamente? Com o que você poderia contribuir hoje, em sua posição, assim como eu tento contribuir com a minha fé, a minha juventude e as minhas ideias, às vezes balbuciando, é verdade, mas com tudo o que eu sou?
David Lerouge, da diocese de  Coutances, escreveu:
Se eu fizesse comunicação, eu pegaria um microfone HF, me colocaria no meio do presbitério e falaria ao coração, a você, sim, a você na segunda fila, que quer ser convertido por Deus, eu estaria inflamado, eu seria cômico, eu seria delicado, eu seria... odiado no fim de três números desse tipo.
Porque a missa não é um número de magia, é o espaço do encontro com Cristo. A homilia pode lhe levar a esse encontro, mas não sozinha.
Tudo isto foi retirado dos seguintes textos:
Proponho um ano sem homilias
A pregação na era digital

sábado, 7 de maio de 2011

Umas frases de Tagore, no meio do texto de um cardeal

Tagore e Gandhi

O cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, analisou alguns dos escritos de Rabindranath Tagore, que nasceu há 150 anos, em Calcutá (ver aqui), num artigo publicado no jornal “Il Sole 24 Ore” (01-04-2011).
Tagore escreveu frases / poemas como estas, que retiro do texto do cardeal:
Deus cansa-se dos grandes reinos, jamais das pequenas flores.
e
Dá-me a força, ó Senhor, de nunca renegar o pobre, de não dobrar os joelhos diante da insolência dos poderosos.
e
O nosso verdadeiro valor está em nós mesmos, mas está espalhado em todas as pessoas do mundo. Devemos caminhar para nos unir, senão não nos reencontraremos.
e ainda
Eu sonhava que a vida fosse alegria. Despertei-me: a vida é serviço. Então, servi e, no serviço, encontrei a alegria.
Tagore deixou 150 mil linhas (de poesia, suponho), 300 mil linhas de prosa, 3 mil cantos musicais, sem contar artigos e discursos. Além das artes, empenhou-se na construção de estradas, hospitais e até de uma escola, que hoje é universidade. Ler artigo de D. Ravasi aqui.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Martini foi visitar Bento XVI. De que terão falado?

Bento XVI e Martini num encontro há alguns anos


Milão não é só uma das capitais da moda e sede de dois dos melhores clubes de futebol. É também a maior diocese do mundo, uma das mais históricas, local da conversão e do baptismo de Agostinho de Hipona, provavelmente a mais rica, a maior em número de padres, penso que a que mais papas deu a Roma. O último foi 1963, Montini-Paulo VI (1963-78). Martini poderia lá ter chegado se não fosse o Parkinson e o facto não ser admirado por sectores que gostam mais do olhar para o passado com saudades do que para o presente com criatividade.


Mas há dias o arcebispo emérito de Milão, cardeal Carlo Maria Martini, cada vez mais debilitado, foi ao Vaticano. A imprensa diz que pode ter havido dois motivos para o encontro Martini / Bento XVI: ou os escrúpulos de Martini antes da publicação de um livro sobre os problemas pastorais que assolam os bispos; ou a escolha do novo arcebispo de Milão (sucede a Tettamanzi, que sucedeu a Martini), o qual, acrescento, só pela força do cargo, poderá vir a ser Papa.


Ora, dizem as notícias que há cinco candidatos:
- Luciano Monari, bispo de Bréscia
-  Gianni Ambrosio, bispo de Piacenza
- Bruno Forte, arcebispo de Chieti
- Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura
- Angelo Scola, patriarca de Veneza.


Parece que Bento XVI não quer que seja um destes dois últimos. Como têm 69 e 70 anos, respectivamente, estariam menos de cinco em Milão (os bispos, excepto o de Roma, resignam aos 75 anos). Ravasi e Scola são também candidatos a suceder a Bento XVI, obviamente não declarados nem assumidos.

A maior parte das informações deste texto foram recolhidas aqui.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Vaticano convoca bloguistas católicos


Notícia da Agência Ecclesia (aqui):
O Vaticano convocou um encontro de bloguistas católicos, no próximo dia 2 de maio, numa iniciativa conjunta dos Conselhos Pontifícios da Cultura e das Comunicações Sociais.
Em comunicado, os responsáveis pela iniciativa explicam que o encontro tem como objetivo “permitir um diálogo entre bloguistas e representantes da Igreja, partilhar experiências de quem trabalha diretamente neste campo e compreender melhor as necessidades desta comunidade”.
Os blogues, páginas da Internet da autoria de pessoas ou grupos (denominados «bloggers», bloguistas), são compostos por opiniões e notícias, em forma de texto e multimédia, frequentemente abertas à interação dos leitores através da publicação de comentários.
No Vaticano vão ser apresentadas iniciativas que a Igreja está a promover para “entrar em contato com o mundo” dos novos meios de comunicação.
Segundo o programa divulgado pelos Conselhos Pontifícios, os trabalhos do encontro vão estar abertos a uma “discussão geral” por parte dos participantes, incluindo um painel com cinco bloguistas, representantes de várias áreas linguísticas.
Outro painel vai oferecer testemunhos de pessoas ligadas à “estratégia comunicacional” da Igreja, com destaque para as iniciativas que visam assegurar “um compromisso efetivo” no mundo dos blogues.
Entre os presentes vão contar-se o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, o arcebispo Claudio Celli, presidente do Conselho Pontifício das Comunicações Sociais, e o padre Federico Lombardi, diretor da sala de imprensa da Santa Sé.
Este encontro acontece um dia depois da beatificação de João Paulo II, aproveitando a previsível presença em Roma de vários bloguistas católicos, que se podem inscrever através do mail blogmeet@pccs.it.
(Agradeço da Fernando Cassola Marques, que ma deu a conhecer. Mas eu não vou.)

quinta-feira, 24 de março de 2011

Começa hoje o Pártio dos Gentios. A Igreja só dialoga com ateus que são "patos mancos"?

Começa hoje, em Paris, a primeira edição do Pátio dos Gentios, “dois dias de trocas e diálogos entre crentes e não crentes”.

O cardeal Gianfranco Ravasijustificou em entrevista ao jornal italiano “Il Fatto Quotidiano” a escolha da cidade de Paris por ser um “estandarte de laicidade”, uma cidade onde encontrou “um mundo laico interessado num confronto verdadeiro sobre grandes temas”.

O diálogo é necessário porque, afirma o cardeal que coordena a iniciativa, “o crente e o ateu são, cada um, portadores de uma mensagem, que é «performativa», já que envolve a existência”. E acrescenta: “Estou contente por ter como interlocutores em Paris personalidades como Julia Kristeva, semióloga e psicanalista agnóstica, ou o geneticista Axel Kahn”.

Os assuntos a discutir hoje e amanhã são, segundo o cardeal, na Unesco, “o papel da cultura”, mas também “as mulheres na sociedade moderna”, o “empenho pela paz e a busca de sentido num mundo que é ao mesmo tempo secularizado e religioso”, na Sorbonne, “Iluminismo, religiões, razão comum”, no Institut de France, “economia, direito, arte”.

Esta vontade de diálogo a partir da Igreja obteve um curioso contraponto crítico num artigo de Paolo Flores d’Arcais (que em português, em co-autoria com Joseph Ratzinger, tem publicado “Existe Deus? Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo”, ed. Pedra Angular).

O filósofo ateu realça que por vezes a Igreja escolhe interlocutores que são “patos mancos”, segundo expressão do entrevistador de Ravasi, isto é, aqueles ateus que parecem sofrer a condição da falta de fé como uma amputação ontológica. (A observação é perfeitamente aplicável à Igreja portuguesa, que também tem os seus "patos mancos".) E provoca o cardeal:
Espero, por isso, sinceramente, que às suas palavras sigam-se os fatos. Não só em Paris, também na Itália. Nos últimos anos, a atitude foi, porém, de sinal oposto. O diálogo com o ateísmo foi sistematicamente rejeitado pela Igreja hierárquica e até pelo senhor, pessoalmente. Trata-se de uma verdade indiscutível, da qual, infelizmente, eu posso dar testemunho direto. (…) 
Convido-lhe, portanto, às"Jornadas da Laicidade", que ocorrerão em Reggio Emilia entre os dias 15 e 17 de abril, às quais se recusaram a participar os 15 cardeais que convidamos e nas quais o senhor poderá discutir com ateus não "patos mancos" como come  Savater,  Hack, Odifreddi, Giorello, Pievani, Luzzatto e, bom último, o subscrito. 
Se, depois, a sua agenda não lhe permitir acolher este convite, proponho-lhe organizar juntos, o senhor e eu, uma série de confrontos nos tempos e lugares que o senhor julgar oportunos. Devo, porém, dizer-lhe, com toda a franqueza, que não consigo libertar-me da sensação – nos últimos anos empiricamente consolidada – de que o "diálogo" que o senhor teoriza quer, ao contrário, evitar o próprio confronto com o ateísmo italiano mais consequente.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Anish Kapoor e a espiritualidade no espaço


Na entrevista que o cardeal Ravasi deu ao “La Reppublica” (aqui) disse que esperava que o Vaticano estivesse representado na bienal de Veneza de 2013 e referiu dois artistas: Bill Viola e Anish Kapoor. Não conhecia este último, de maneira que invoquei São Google.
Claro que, para quem andar minimamente atento à arte contemporânea, as imagens das obras do indiano-britânico Anish Kapoor não serão completamente estranhas. Um artista é bom quando reconhecemos a obra mesmo sem sabermos nada do seu autor. É o caso.
Kapoor e Viola, suponho que entre outros, vão representar os primeiros onze capítulos do Génesis no stand do Vaticano em Veneza. Já anseio ver como serão essas representações. A Wikipedia diz que nos trabalhos de Kapoor estão os binómios terra-céu, material-espírito, luz-escuridão, vísivel-invísivel, masculino-feminino e corpo-mente.
À BBC Anish Kapoor disse: “Tal como não se consegues fazer algo belo, não consegues fazer algo espiritual. O que podes é reconhecer que pode estar lá. Normalmente tem algo a ver com o não ter muito para dizer. Parece haver espaço para o que vê, e é isso, por vezes, algo que identificamos como sendo espiritual. Tem tudo a ver com o espaço”.
“Fazer um trabalho tem a ver com ansiar por ir aonde eu não sei e esperar que indo aonde não sei, tu, o espectador, possas ir aonde também não sabes”.
Olhando para as obras de Anish Kapoor, aqui, parece-me que ele tem razão quanto à arte e ao seu próprio trabalho.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Gianfranco Ravasi e os canais de diálogo da Igreja com o mundo


Anish Kapoor

O cardeal Gianfranco Ravasi deu uma entrevista ao “La Reppublica” em que fala de Igreja e comunicação (do tempo em que era tudo mais simples à época, a actual, em que são precisas novas gramáticas de comunicação para não se ser atropelado pelo sistema mediático), relativismo e diálogo com a cultura. Reproduzo a segunda metade da entrevista, onde se fala da relação com a ciência e a arte. Copiei do IHU (aqui).

La Reppublica - Os canais desse diálogo [Igreja / mundo e cultura] são múltiplos. Um dos mais delicados é o com o mundo da ciência.
Gianfranco Ravasi - Stephen Gould, cientista não crente, formulou um princípio que destrói, com um só golpe, concordismo e fundamentalismo, mas também positivismo e neopositivismo. Sintetiza-se no acrônimo NOMA (Non-overlapping magisteria), com base no qual, para explicar a vida, concorrem magistérios diversos – ciência, teologia, literatura, arte – e não superponíveis. Entenda-se bem: trata-se de percursos paralelos que têm, todos, uma legitimidade, se dotados de coerência epistemológica. Essa teoria, embora preciosa, é insuficiente, porém. Porque, como o objeto de investigação é o mesmo – o homem –, os diversos magistérios inevitavelmente acabam por se cruzar. Por meio de duetos e de duelos.

O entomólogo Norman Lewis sugere um caminho, aparentemente, mais modesto. Visto que criacionistas e evolucionistas não concordam sobre o início do mundo, que o esforço comum se concentre na criação, na preservação de todo ser vivo.
Certamente é justo buscar o acordo onde é mais fácil encontrá-lo. Mas, a meu ver, é preciso confrontar-se também sobre as razões primeiras. Veja, frequentemente, criação e criacionismo, evolução e evolucionismo são usados como sinônimos. Eu, ao contrário, prefiro me concentrar no primeiro binômio, criação-evolução, porque, nesse caso, não necessariamente se vai ao encontro de uma colisão, ao contrário. Em âmbito teológico, o conceito de criação é elaborado com base em princípios de causalidade e finalidade. Dito isso, o homem pode escolher o fruto do bem ou do mal. Portanto, a palavra-chave, no Deus criador cristão, é relação, não domínio. Tanto é que se prevê a liberdade humana e o desenvolvimento da história. Como se vê, o diálogo com a ideia de evolução é possível.

Uma curiosidade, talvez boba. Como é que o senhor, assim como o Papa, além de Veltroni e Fini, citam Saint-Exupéry?
Talvez, porque certas frases dele soam como verdadeiras parábolas. Lembra-se daquela do navegador? Ao navegador, não se deve apenas ensinar como se constrói um navio, mas infundir nele a nostalgia do mar espaçoso e infinito. Os políticos a usam do ponto de vista mundano, mas na realidade é uma parábola da transcendência. No mundo contemporâneo, permanecemos sempre constrangidos na dimensão do acessível, enquanto devemos pensar mais no inacessível, no infinito.

Entre as tarefas do Pontifício Conselho para a Cultura, está também a da relação entre religião e arte, interrompida há muito tempo, como Paulo VI viu bem há 40 anos.
E pensar que arte e fé são irmãs, viajam em trilhos paralelos. Henry Miller, que certamente não era um crente, dizia que a arte e a religião não servem para nada, exceto para mostrar o sentido da vida. Por isso, é paradoxal que não se falem mais. E aqui a Igreja tem as suas responsabilidades. Desde o século passado, ela começou a usar recalques na arquitetura: o neogótico, o neoclássico. E, no lugar da grande arte sacra, ela se confiou a um artesão que muitas vezes ultrapassa o limite do mau gosto. Ou, pense-se em como ela se retraiu diante da música dodecafônica, enquanto no século XV ela havia acolhido uma revolução muito grande, quando se passou da voz monódica do gregoriano à polifonia. Eu estou me empenhando a fundo para retomar esse diálogo. Espero, por exemplo, que na Bienal de Veneza de 2013 possa haver finalmente o estande da Santa Sé, onde grandes artistas – de Bill Viola a Anish Kapoor – se confrontem com os primeiros 11 capítulos do Gênesis: a criação, o dilúvio e a decriação, o mal, a violência, o imperialismo da Babilônia. Nesses 11 capítulos, já estão todos os grandes temas da humanidade.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...