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sábado, 22 de junho de 2013

Anselmo Borges: "Atenienses e mélios, Portugal e a Europa, poder e política"

Final do texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

Qual é o problema? Nos tempos modernos, nos Estados-nação, houve durante cerca de duzentos anos um casamento entre poder e política, e julgou-se que "poder e política deveriam continuar de qualquer maneira a viver juntos: a arte política como o poder de fazer coisas, diga-se um poder regulado, compensado e orientado pela política". Ora, o que está a acontecer é que numa globalização meramente negativa não conseguimos ainda instituições políticas de carácter global e o poder tende a evaporar-se no ciberespaço, num mundo planetário. Em síntese, "o poder globaliza-se enquanto a política permanece local". O poder já não está subordinado à política nem é por ela limitado. "A política encontra-se cada vez mais desprovida (e torna-se cada vez mais destituída) de poder, e os Estados-nação, como tal, podem fazer cada vez menos do que faziam antes."

sábado, 6 de abril de 2013

Anselmo Borges: "Desafios para o século XXI"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:


São muitos os desafios que se nos apresentam neste século XXI, ao mesmo tempo com imensas vantagens e imensos riscos.

A sua ordem é um pouco arbitrária, mas começaria pela globalização. Pela primeira vez, somos verdadeiramente uma "pequena aldeia". Devido às redes de transportes e comunicações, fluxos de bens, serviços, capitais, conhecimentos e pessoas, os países e os povos do mundo estão cada vez mais integrados numa sociedade global. O que vai então significar a globalização: simples liberalização económica? Que nova configuração vai ter o mundo, com a emergência dos BRICS e, concretamente, das potências asiáticas, nomeadamente da China e da Índia? E o que será da Europa, se não caminhar para estruturas federativas?

A globalização contemporânea, a partir de 1945, tem características próprias e coloca problemas gigantescos, como escreveu A. Sasot Mateus: as tendências monopolistas do capital, a ausência de mecanismos para a fiscalização da especulação financeira à escala planetária, o terrorismo global, a falta de mecanismos efectivos para a resolução dos conflitos internacionais, os problemas ligados à sustentabilidade mundial, a desintegração da coesão social, o desemprego, os défices democráticos nas instituições estatais e supra-estatais e as ameaças à própria democracia devido à subordinação à ditadura financeira, tráficos ilegais de todo o tipo: armas, pessoas, drogas, órgãos, com máfias poderosíssimas à mistura, paraísos financeiros que fomentam a falta de solidariedade e branqueiam capitais de origem duvidosa... No quadro da globalização, com os problemas globais, é evidente que é necessário pensar numa governança global.

Este mundo globalizado, é, também por força dos fluxos migratórios, um mundo multicultural e a questão que se coloca é se vamos entrar num choque de culturas e civilizações ou se, pelo contrário, seremos capazes de abrir portas para uma aliança de culturas, mediante o diálogo intercultural e inter-religioso. Como impedir a homogeneização cultural? Por outro lado, como proteger a diversidade cultural, sem permitir a lesão dos direitos humanos?

E aí está uma nova cultura: a cibercultura, que o sociólogo M. Castells estudou, analisando a estrutura da "era da informação" como "sociedade da rede". As novas gerações nascem sob o impacto das novas tecnologias electrónicas, que modelam a sua visão da existência e do mundo. Navegando por infindos ecrãs de textos e imagens, ligando-se em fóruns de discussão e intervenção, trocando mensagens de simultaneidade generalizada, perdendo a noção do tempo e da realidade mediante a entrada no virtual, marcando encontros cibersexuais, experimentam uma nova revolução em curso. Então, que novo tipo de homem, que nova imagem do corpo, que nova relação com a memória e o tempo? Na relação universal virtual, não se perde a relação com o outro face a face, mergulhando na insuportável solidão? E não cresce o perigo de novas formas de exclusão, com o novo analfabetismo: o cibernético? E no meio de tsunamis de informação, como analisá-la criticamente e distinguir? E não se ergue um risco maior: o de, esquecendo a dimensão vertical, sem referências, a Rede transformar-se, na expressão feliz de João Maria André, num Labirinto?

Outras revoluções estão em curso: a genética e as neurociências - o cérebro é o infindável novo continente em exploração. Poderemos, com as novas tecnologias, vir a vencer a dor, o envelhecimento e a própria morte? Assistir-se-á à transformação da natureza do humano? Caminharemos para o pós--humano e um transhumanismo, que fazem inclusivamente alguns pensarem na possibilidade de uma bifurcação da Humanidade? Os novos desafios: manipulação genética, manipulação da actividade cerebral, investigação em embriões, clonagem, híbridos, criação do super-homem...

Não se pode deixar de apontar o desafio ecológico, quando o planeta está em risco e a Humanidade pode deixar de ter futuro.

Poderá esquecer-se o Transcendente, ao menos enquanto questão? E abandonar a afirmação de Cícero: "res sacra homo" ( o ser humano é realidade sagrada)?

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Diz o velhinho aos adolescentes


A geração atual é a primeira geração planetária da história. Vai ser condenada a três realidades.

Tudo saber e, portanto, nunca mais poder dizer «eu não sabia».

Partilhar a terra, o trabalho e os saberes: para enfrentar a explosão demográfica e as novas pobrezas.

Ocupar o tempo livre; para afrontar a pré-reforma e o desemprego maciço nos países industrializados.


Abbé Pierre (1912-2007) numa mensagem às crianças de dez a catorze anos da Génération Planète (meados dos anos 90)

sábado, 11 de agosto de 2012

Anselmo Borges: Golpe de Estado financeiro

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui).


O pior que pode acontecer é o medo, porque não há confiança nem horizonte a abrir caminho. Mesmo sem se ser pessimista, percebe-se que a humanidade se encontra numa encruzilhada e é preciso estar preparado para o pior.

Nestas circunstâncias, não bastam boas intenções. É preciso reflectir e tentar ver claro. Deixo aí alguns pensamentos sobre a crise, a partir de reflexões do teólogo José Ignacio Calleja, prestigiado professor de Teologia Moral Social na Faculdade de Teologia de Vitoria, num texto em que afirma precisamente que "há um golpe de Estado financeiro no mundo, gerido por políticos", sendo necessário "impedir o fascismo social, para poder sair da crise".

É verdade que a crise é também de cultura moral e espiritual, mas não é possível avançar sem uma implicação séria e a fundo na social. Não se pode pretender fugir ao problema social, invocando apenas o caminho da crise espiritual e de valores. "Nada mais alienante e falso do que a religião desencarnada."

Aí ficam, pois, algumas reflexões fundamentais.

1. Na base, está "uma globalização económica, gerida no quadro do neoliberalismo, que apodreceu especulativamente todo o sistema financeiro e social". Para se ganhar dinheiro, este já não tinha de passar pela produção, pois o lucro tornava-se incomparavelmente mais fácil e vantajoso num mercado de capitais, "único, opaco e sem controlo sério". A apregoada auto-regulação não funcionou e o vírus especulativo tudo infectou e tornou-se incurável. Agora, há quem queira baixar a febre, mas, sem se ir às causas profundas, não se consegue. Sem reconhecer as causas desses efeitos e "os grupos sociais enriquecidos" que os protagonizam com vantagem, não se vai lá.

2. Com o objectivo de encontrar paliativos para esses efeitos, mas sem descer ao fundo do mal, "há um golpe de Estado financeiro no mundo, com especial efeito nos elos mais débeis do sistema dos ricos e subordinação das democracias e dos gestores políticos do momento ao poder financeiro".

3. No sentido de pensar uma resposta alternativa, J. I. Calleja apresenta algumas pistas.

Uma: "Impedir socialmente o que alguns já chamam o fascismo social", ou seja, que cada sector da população, encostando-se ao velho princípio do "salve-se quem puder e cada um que se arranje", aceite tudo o que viola os direitos dos outros, desde que os nossos não sejam afectados.

Outra tem a ver com a justiça e a equidade nos impostos e com o modo como estão a ser repartidos os esforços e as dificuldades, sem capacidade para tocar nos privilégios injustos inclusivamente da classe politico-partidária. Entre parêntesis - lembro eu -, não se pode esquecer que Portugal continua a ser um dos países ou mesmo o país da União Europeia onde o abismo entre os muito ricos e os muito pobres é mais fundo. "Sem uma reforma fiscal, orçamental e política profunda, não há saída para a solidariedade, imprescindível hoje."

Em terceiro lugar, é necessário aprofundar a convicção de que "não há saída, sem o controlo 'social-democrático' do sistema económico e financeiro internacional e nacional, na sua opacidade, desregulação, acumulação e 'soberania expropriada'". Os governantes do G20 não se podem esquecer do que disseram no início da crise - Bento XVI juntou-se-lhes com entusiasmo na sua encíclica "Caridade na Verdade" -, exigindo "refundar o capitalismo, regular o sistema financeiro internacional, acabar com os paraísos fiscais (aqui, lembro que os média davam conta nestes dias dos biliões dos super-ricos nesses paraísos, sem pagamento de impostos), desenvolver a taxa Tobin". De outro modo, não há democracia, pois o que fica é "a obediência a um golpe de Estado financeiro".

Talvez não se esperasse a última exigência, mas estou de acordo com ela e julgo que é fundamental. Escreve: Se se quiser uma saída justa e duradoura, é imprescindível uma vida moderada, "o decrescimento no desenvolvimento, para viverem todos com menos e bem". Isto é muito difícil politicamente, mas é necessário a curto prazo. Nem os recursos nem o ecossistema geral da vida nos permitem outra alternativa.

terça-feira, 15 de maio de 2012

15 de maio de 1961. João XXII publica a encíclica social “Mater et magistra”



João XXIII publicou no dia 15 de maio de 1961, precisamente nos 70 anos da “Rerum novarum”, a carta social “Mater et magistra”.

As encíclicas sociais dos Papas costumam fazer logo no início uma recapitulação da matéria dada desde a “Rerum novarum”, de Leão XIII. Neste caso, João XXII escreve o seguinte sobre o documento leonino, que é a Magna Carta da Doutrina Social da Igreja:
Como é sabido de todos, o conceito do mundo económico, então mais difundido e posto em prática, era um conceito naturalista, negador de toda a relação entre moral e economia. O motivo único da ação econômica, dizia-se, é o interesse individual. Lei suprema reguladora das relações entre os operadores econômicos é a livre concorrência sem limites. Juros dos capitais, preços das mercadorias e dos serviços, benefícios e salários, são determinados, de modo exclusivo e automático, pelas leis do mercado.
Embora aborde muitas questões (o bem público e o privado, a propriedade privada, industrialização, desenvolvimento, justiça, etc.), esta é a primeira encíclica da globalização. A "questão social" tornou-se global. João XXIII afirma nos números 199 e 200:
Os progressos científicos e técnicos multiplicam e reforçam, em todos os setores da convivência, as relações entre os países, tornando a sua interdependência cada vez mais profunda e vital. 
Por conseguinte, pode dizer-se que os problemas humanos de alguma importância - qualquer que seja o seu conteúdo, científico, técnico, econômico, social, político ou cultural, apresentam hoje dimensões supranacionais e muitas vezes mundiais.
Encíclica toda aqui.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"Vivemos na primeira civilização ateia", diz Vaclav Havel



“Vivemos na primeira civilização ateia, por outras palavras, numa civilização que perdeu a conexão com o infinito e a eternidade”, disse Vaclav Havel (1936-2011) na abertura da 14.ª Conferência do Forum 2000, em Praga, e repetiu uma série de vezes, como recordou Jorge Almeida Fernandes, num artigo do “Público” no sábado passado, a propósito da morte do estadista checo (18-12-2011).

Quando li estas palavras, pensei que se referia à realidade checa. O seu país é o que tem maior número de ateus na Europa – facto abundantemente recordado a quando da visita de Bento XVI à República Checa, em Setembro de 2009. Mas Havel pretendeu abarcar a realidade europeia e mesmo mundial. Disse em 2007 ao “Nouvel Observateur” (em relação a Vaclav Havel cito sempre o mesmo texto do “Público” de 24-12-2011) que a sua grande preocupação não era o terrorismo: “É a dinâmica suicidária da evolução da nossa civilização planetária”. Neste sentido geográfico, o checo concordaria com Marcel Gauchet, que afirmou em 2004 que o séc. XXI se anunciava como “o século da marginalização social e política do cristianismo”. Isso já acontece na Europa, a qual, diz o francês, “neste ponto, anuncia o futuro”.

Porquê “dinâmica suicidária”? Havel: “É como se estivesse obstinada em perseguir objectivos de curto prazo, quando a sorte do planeta exige um mais agudo e voluntário sentido de antecipação”. E ainda: “Pela primeira vez na História, assistimos ao desenvolvimento de uma civilização deliberadamente ateia. Deve alarmar-nos”. Noutro momento afirmou: “A transcendência é a única alternativa à extinção”. Esta frase não anda longe de outra de Remi Brague à revista católica “30 Giorni”: “O ateísmo não mata os homens, mas impede que eles nasçam”. Sociedade sem horizontes de futuro, principalmente meta-histórico, transcendência, não se reproduzem. Outra vez Havel: “O Ocidente democrático perdeu a capacidade de proteger e cultivar os valores que não cessa de reclamar como seus. (…) O pragmatismo dos políticos que querem ganhar eleições futuras, reconhecendo a vontade e os humores duma caprichosa sociedade de consumo, impede esses mesmos políticos de assumirem a dimensão moral, metafísica e trágica da sua própria linha de acção. (…) Uma nova divindade tende a suplantar o respeito pelo horizonte metafísico da vida humana: o ideal de uma produção e de um consumo incessantemente crescentes”.

Havel não se considerava crente – “sou apenas meio crente” –, mas estava convencido de que “há um ser, uma força velada por um manto de mistério”. “É o mistério que me fascina”.

Novamente Gauchet, que é agnóstico, para terminar, não sobre a sociedade, mas sobre a democracia numa sociedade pós-cristã: “O que ameaça a democracia, hoje, é o vazio, a futilidade, o esquecimento, a facilidade, o curto prazo, a superficialidade. As religiões e o cristianismo, em particular, têm o sentido do essencial, do trágico, do mistério da aventura humana, todas as coisas que a democracia facilmente ignora. Elas podem ser decisivas para a democracia”.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Vaticano responsável pela crise


A notícia veio no DN de hoje. Reflecte um texto do “Avante!”. Poderíamos pensar que era do “Incrível”, mas é mesmo do órgão oficial do PCP.

Há dias o Vaticano publicou um documento a exigir uma reforma do sistema financeiro e monetário mundial (ler aqui em português), que, curiosamente, tem sido muito desvalorizado pela direita norte-americana, principalmente por George Weigel, um “teocon” conhecido por ter publicado uma grande biografia de João Paulo II. Diz ele:
"A verdade em todo esse caso é que «o Vaticano» (se com a expressão se entende o papa, a Santa Sé, o ensinamento de autoridade do Magistério e as estruturas centrais de governo da Igreja) não tem nada a ver com isso. O documento é uma nota emitida por um escritório muito pequeno da Cúria. O documento não fala em nome do Papa, não fala em nome do Vaticano e não fala em nome da Igreja Católica" (aqui).
 Hoje, no "Público", diz-se que, apelando à cimeira do G20, "Papa e líderes religiosos pedem soluções urgentes e eficazes para enfrentar problema das desigualdades".

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Hans Kung dá música



Estreia amanhã a peça para coro e orquestra que tem como autor do livreto o teólogo Hans Kung. A música foi composta pelo britânico Jonathan Harvey. Dura hora e meia. Vai ser interpretada pela Orquestra Filarmónica de Berlim, conduzida por Simon Rattle, com a participação do Coro da Rádio-Televisão de Berlim e de um coro infantil.

O livreto de Hans Kung tem seis capítulos. Cada um deles corresponde a um princípio da Declaração de Ética Mundial de 1993, redigida pelo teólogo suíço que conta actualmente com 83 anos. Nos seis capítulos são invocadas as tradições musicais do budismo, hinduísmo, religiões chinesas, judaísmo, islamismo e cristianismo.

O livro “Projecto Ético Mundial”, de Hans Kung, defendendo que não há sobrevivência possível sem um ethos mundial das religiões, um mínimo ético acordado por todas, está publicado em Portugal pelas edições Piaget.

sábado, 30 de julho de 2011

Adriano Moreira: As seitas e o globalismo



Nota às 17h40 de sábado, 30 de Julho: Este texto que esteve on-line no sítio do DN como sendo de Anselmo Borges é de Adriano Moreira. Na edição em papel saiu como sendo de Anselmo Borges. É um erro que amanhã será corrigido na edição impressa. De qualquer forma, tratando-se de um texto em que entra a temática religiosa, vou mantê-lo neste blogue. 


É comum reservar o conceito de seita, com dificuldades de fixação geralmente aceites, para fenómenos relacionados com as religiões, e não faltam exemplos recentes que suscitam não apenas discussão doutrinal, também intervenções legislativas, algumas tendo maior relação com o direito criminal do que com os valores das crenças. Foi por exemplo o caso do suicídio colectivo dos novecentos e catorze membros do Templo do Povo na Guiana, ou o atentado com gás sarin no metro de Tóquio, tudo pelos fins do século passado, acontecimentos tão violentos que chegou a ser teoricamente defendido o direito de perseguição.


Acontece que o corte do poder político com a transcendência, apoiado na civilização técnica em que se traduz crescentemente a vida quotidiana, não dispensa sistemas delineados pela razão, ou pela imaginação de regra fazendo com que os valores instrumentais secundarizem no final os valores humanos.


A questão em relação ao reivindicado cientismo que serve de base ao corte com a transcendência é que o sistema, por vezes intitulado de transcendental, para organizar as sociedades, é criação em vista de objectivos, não é descoberta ou compreensão da realidade. Mas se a tradição já longa relacionou as seitas com as religiões, o facto é que o cientismo, o positivismo, as sociedades laicas, a lidar com os seus próprios valores racionalmente organizados em função dos objectivos, com supremacia dos valores instrumentais, também se envolvem frequentemente de dogmatismo, de uma proclamada respeitabilidade laica que é a sua forma de sacralização, numa atitude que é uma espécie de preparação para a ofensiva demolidora das divergências, todas consideradas perigos mortais.


Os totalitarismos que desencadearam a guerra mundial foram exemplos de uma violência sem precedentes finalmente considerados equivalentes a seitas em relação à civilização ocidental que pretenderam submeter a rupturas definitivas com as raízes e os futuros perseguidos.


De novo, os efeitos consequenciais da deriva para um globalismo sem governança, envoltos por isso num relativismo com equivalência em várias crises maiores da própria história, e que esqueceram os normativos da organização internacional depois do fim da guerra, incluindo esta a guerra fria, estão a despertar ferozes sectarismos de sinal contrário ao que de regra caracterizava as seitas. Enquanto estas, especialmente as referidas a religiões organizadas, se identificaram pelo corte com o sistema histórico e tradicional, agora trata-se de um regresso cego a um passado imaginado de suspensão transitória. A rutura é com a evolução, não é sequer com organizações finalmente estruturadas, é com versões do consequencialismo lido com reprovação nos sinais de mudança, repudiadas em nome de um passado nem sequer vivido, apenas lido em versões discutíveis de manifestos, em proclamações que se apoiam em dificuldades de vida para sonharem repor um imaginado modelo ideologicamente fundamentado. Não se trata de segurança humana que é uma referência cimeira da organização ocidental em mudança, e que sirva de referência à correcção de enganos de percurso, trata-se de confiar na violência pura, isto é, que atinge indiscriminadamente inocentes, que é a síntese do terrorismo, na convicção irracional de que dessa violência caótica nasceria a vontade ou submissão de voltar às impostas raízes.


O tremendo caso da Noruega, que enlutou sobretudo a Europa inteira e o Ocidente, é mais uma sangrenta demonstração de que não são apenas as chamadas grandes potências, como os EUA, ou a Espanha, ou o Japão, é antes todo o Ocidente que é chamado a enfrentar a explosão de seitas da época relativista em que entrou, com a gravidade acrescida de se multiplicarem os sinais de propagação desses terrorismos, organizados em células autónomas, um modelo recebido do multiculturalismo especificamente invocado no caso presente, e que exige uma resposta estratégica de defesa que seja solidária e ética.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

"Dinheiro e Paraíso" - nova edição

Agora sim, a capa da nova edição do livro "Denaro e Paradiso", da co-autoria do presidente do Banco do Vaticano. Aqui pode ler-se em italiano uma recensão mais alargada da obra. Gostava de o ler em português. Talvez a Principia o traduza.

Banqueiro dá ao Papa "Dinheiro e Paraíso"

Notícia do DN de hoje (27-09-2010). Note-se que a edição original do referido livro é de 2004. Mas deve ter tido uma reedição recente, porque conclui com um capítulo dedicado à "Caritas in veritate" (aqui), encíclica de Bento XVI que só foi publicada em 2009.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Anselmo Borges: "A humanidade sob ameaça"

Anselmo Borges escreve sobre quatro ameaças (revoluções: a económica, a cibernética, a genética e a ecológica) e deixa um dado, pontual mas significativo, lá mais para o fim do texto, sobre a evolução da percepção do valor da vida humana pelos estudantes universitários. Mais uma vez, fica a ideia de que sem Deus o humanismo não vai longe. Fonte: DN.


Não há dúvida de que estamos a viver uma transformação prodigiosa do mundo, uma revolução talvez só parecida com a do "tempo-eixo", como lhe chamou Karl Jaspers.

Há quatro revoluções em marcha. Uma revolução económica, com a mundialização, que significa a concretização da ideia de McLuhan de que formamos uma "pequena aldeia" e a chegada ao palco da História de grandes países emergentes. Outra é a revolução cibernética, que, como disse Jean-Claude Guillebaud, faz nascer um quase-planeta, um "sexto continente". A revolução genética transforma a nossa relação com a vida, a procriação e pode fazer bifurcar a Humanidade: a actual continuaria ao lado de outra a criar. Também está aí a urgência da revolução ecológica, que, se a Humanidade quiser ter futuro, obriga a uma nova relação com a natureza. Sem esquecer o perigo atómico e do terrorismo global.

Perante todas estas revoluções e face aos problemas que agora são globais, como a droga ou o trabalho, impõe-se, em primeiro lugar, pensar numa governança mundial. Depois, não sei de que modo o futuro será, como diz J.-Cl. Guillebaud, uma "modernidade mestiça", mas, para evitar o "choque das civilizações", impõe-se o diálogo intercultural e inter-religioso. Há anos que o famoso teólogo Hans Küng se não cansa de repetir que, sem paz entre as religiões, não haverá paz entre as nações, e essa paz supõe o conhecimento e o diálogo entre as religiões.

Coube também a Hans Küng o desafio para preparar o projecto do que em 1993 se tornou a "Declaração para uma ética mundial", aprovada pelo Parlamento das Religiões Mundiais, em Chicago. A Declaração é um documento humanista, que proclama programaticamente: "Frente a toda a inumanidade, as nossas convicções religiosas e éticas exigem que cada ser humano deve ser tratado humanamente. Isto significa que cada ser humano - sem distinção de idade, sexo, raça, cor da pele, capacidades físicas ou espirituais, língua ou religião, consideração política, origem nacional ou social - possui uma dignidade inalienável e inviolável. Todos - tanto o indivíduo como o Estado - têm de respeitar esta dignidade e garantir a sua defesa efectiva". Os direitos e os deveres humanos é aqui que assentam.

Este princípio fundamental de humanidade determina-se mais proximamente pela regra de ouro - o princípio da reciprocidade --, que constitui o segundo princípio de uma ética comum à Humanidade: "Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti" ou, formulado positivamente: "Faz aos outros o que queres que te façam a ti."

Mas onde se fundamentam a dignidade e os direitos humanos? Questão gigantesca, que tem a ver com a problemática do pré-jurídico e do pré-político, debatida há anos, num diálogo célebre entre o então cardeal J. Ratzinger e o filósofo J. Habermas, e a que se referiu também, pouco antes de morrer, L. Kolakovski: "Sem tradições religiosas, que razão haveria para respeitar os direitos humanos? Vendo as coisas cientificamente, o que é a dignidade humana? Superstição? Do ponto de vista empírico, os homens são desiguais. Como justificar a igualdade? Os direitos humanos são uma ideia a-científica."

Numa universidade portuguesa, o professor de Ética confronta há anos os estudantes com um experimento mental: "Suponhamos que um país vai invadir outro - nessa hipótese, vai haver, evidentemente, muitos mortos. Mas o país invasor suspende a invasão, se o Governo do país a ser invadido estiver na disposição de matar um inocente." Há quatro anos, todos os estudantes se revoltaram contra a perspectiva da morte do inocente. Há dois anos, já dois estudantes se pronunciaram a favor. No ano lectivo em curso, em 16 estudantes, só uma jovem se opôs ao assassinato do inocente. Os outros foram argumentando que, aceitando a invasão, muitos morreriam, eventualmente também o inocente. Portanto...

A conclusão é que o próprio Homem se tornou objecto de cálculo, coisa negociável. Assim, já não pode haver dúvidas: no meio das gigantescas crises mundiais, o núcleo mesmo da crise no nosso tempo é a crise de valores, a crise moral.

sábado, 18 de julho de 2009

DSI 18 - "Pacem in Terris", a primeira encíclica global

As encíclicas sociais de João XXIII (a “Mater et Magistra” e a “Pacem in Terris”) fazem parte de uma segunda geração do pensamento eclesial sobre as questões sociais. A doutrina social da Igreja (DSI) alarga-se em dois sentidos. Sai do campo estrito das questões relativas ao trabalho (direitos e deveres de patrões e trabalhadores, sindicatos, salário justo, etc.) e da oposição entre sistemas e doutrinas (socialismos/capitalismo e cristianismo) para abraçar as questões dos direitos humanos, do desenvolvimento, das desigualdades. No sentido geográfico, é o mundo todo que passa a destinatário da DSI. Não é que antes o não fosse, mas os efeitos da revolução industrial apenas se sentiam na Europa e na América do Norte.

Na década do início das comunicações globais, das viagens intercontinentais de avião a jacto, da maior parte das independências nacionais no Terceiro Mundo, da proliferação nuclear que todos ameaça, a “Pacem in Terris” é a primeira encíclica da globalização.

Vejamos três dos temas principais.

1. O primeiro é o dos direitos humanos (DH), vistos na dupla perspectiva dos direitos e deveres (algo que a Declaração Universal de 1948 não faz claramente). O Papa entende os DH não como consequência da ideia de tolerância (que parece ser hoje o grande modo de entender a vida social), mas alicerçados na dignidade que tem raiz “na lei natural que os confere ou os impõe”. “Ao direito de todos à existência, por exemplo, corresponde o dever de conservar a vida; ao direito a um nível de vida digno, o dever de viver dignamente; e ao direito à liberdade na busca da verdade, o dever de a procurar todos os dias mais ampla e profundamente” (PT 29). Hoje, mais do que nunca, é preciso falar dos deveres humanos – ainda que não seja simpático.

2. O segundo é a crescente interdependência das nações, em muitos aspectos, ao ponto de se falar de um “bem comum universal”, o “bem comum de toda a família humana”. “Cresce a interdependência entre as economias nacionais. Estas entrosam-se gradualmente umas nas outras, quase como partes integrantes de uma única economia mundial” (PT 130), escreve o Papa em 1963. “É claro de ver que cada Estado não pode atender como convém ao seu próprio proveito (…) isolado dos doutros, porque a crescente prosperidade de um Estado é, em parte, efeito e, em parte, causa da crescente prosperidade de todos os outros” (PT 131). Talvez na década de 1960 (a ONU tinha 15 anos) se pensasse que um governo mundial estivesse próximo.

3. Terceira ideia entre as muitas abordadas (desarmamento, refugiados, minorias, colaboração entre católicos e não-católicos): a gradualidade na acção social. “Não faltam pessoas dotadas de particular generosidade que, ao enfrentar situações pouco ou nada conformes com as exigências da justiça, se sentem arder no desejo de tudo renovar, deixando-se arrebatar por ímpeto tal, que até parecem propender para uma espécie de revolução” (PT 161). Hoje, perante a persistência dos problemas sociais (pensemos que em Portugal, ao longo de duas décadas o número de pobres manteve-se nos dois milhões), este princípio tem de ser lembrado precisamente pela razão oposta. É possível mudar.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Heresia e profecia

Na “análise iconoclasta” do cristianismo (a expressão é do “Nouvel Observateur” – na contracapa) que Slavoj Zizek faz em “A Marioneta e o Anão”, a religião tem dois papéis possíveis, no “quadro da nova ordem mundial” que é a globalização: “ou ajuda os indivíduos a funcionar cada vez melhor na ordem existente, ou procura afirmar-se como uma instância crítica e dizer o que está errado nessa ordem como tal, ou seja, enquanto espaço aberto às vozes contestatárias – neste último caso, a religião tende a assumir, como tal, o papel de uma heresia”.

Na verdade, neste parágrafo da instrodução de uma obra que pretende denunciar as “tendências perversas do cristianismo”, o filósofo esloveno não diz nada que ainda não tenha sido dito. Aliás, em linguagem mais pró-eclesial, no campo do cristianismo, dir-se-ia que esta fé terá sempre dois papéis: ser conferidor de sentido às existências individuais e colectivas e assumir-se como instância profética. Por outras palavras, orientação num mundo confuso e desejo de transformação desse mundo. Aquilo que Zizek refere ser um papel de heresia sempre na igreja foi reconhecido como profecia.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...