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sexta-feira, 28 de março de 2014

Um Papa impecável

Julgo que os outros também o faziam, mas nunca tinha visto um papa confessar-se.


Fotografia e notícia na Ecclesia. Não inclui a lista dos pecados do Papa Francisco.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

As indulgências, outra vez


No JN de hoje. Nunca percebo esta teologia das indulgências (repito-me, eu sei), mesmo que digam que a notícia não está bem feita, que omite isto e aquilo, que o documento diz mais não sei o quê, ou que a indulgência só vale para quem fizer mais uma série de coisas (a confissão entre elas). Neste último caso, a indulgência será inútil, o que está a montante é o que interessa. A indulgência será só uma declaração. É o que é. Resquícios medievais e renascentistas que teimam em não desaparecer. E razão terá o P.e Mário da Lixa. É marketing. Do foleiro.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Do argumento das nódoas da Igreja


Há aquele velho argumento de que conhecendo as sujidades da Igreja temos que admitir que se a Igreja continua é porque é obra divina. Mutatis mutandis, o mesmo se pode dizer de Portugal, neste dia dele e do seu anjo, tendo em conta os sucessivos governos. Quem diria que os países também têm um anjo.

Mas quem usou pela primeira vez o argumento das nódoas? Até os Padres da Igreja o conheciam, visto que alguns deles aplicaram profissões pouco recomendáveis à Mãe Igreja. Mas não sei se alguém o levou tão a sério como Ludwig von Pastor (1854-1928). Escreveu 16 volumes (na edição inglesa, disponível online, são 40, cada um com cerca de 400 a 600 páginas, o que dá cerca de 20 mil páginas) sobre os Papas (título original: “Geschichte der Päpste seit dem Ausgang des Mittelalters”), mas só dos finais da Idade Média até Pio VI, que morreu em 1799.

O que aconteceu a von Pastor? Converteu-se ao catolicismo. E com fervor. Não por causa das glórias dos Papas, mas por causa dos crimes, das infidelidades, dos pecados. Se a Igreja sobrevive apesar de tudo, só pode ter origem divina.

Consta que , no leito de morte, von Pastor pediu: "Digam ao Papa que a última batida do meu coração é para a Igreja e o Papa". Não sei o que pensou ou respondeu Pio XI.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Santas e pecadoras

 No DN de hoje.


Entretanto, no "Público", uma notícia fala do escândalo da pedofilia ("abusos sexuais") no escutismo dos EUA (aqui). Agradeço a F.d'C., que me alertou para a notícia, perguntando: "Ainda continuarão a dizer que a pedofilia do clero é uma consequência do celibato sacerdotal?"

Como a pergunta foi feita neste espaço (nos comentários daqui), devo dizer que, na minha opinião, tal ligação não deve ser feita. Ou antes, julgo que não há correlação estatística para fazer tais afirmações. 

A questão é que - e essa é a perspetiva de abordagem da pedofilia neste blogue - enquanto houver a exigência do celibato para o exercício do sacerdócio ministerial, a Igreja, como instituição, não pode "lavar as mãos" deste crime e de outros crimes ou desvios - e mesmo sem ser desvios - de ordem sexual. E a prova de que a Igreja, de facto, sente este problema como seu está na emanação de normas para a admissão ao sacerdócio sobre esta questão em concreto.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O cristianismo torna possíveis os novos começos

Com o anúncio, aparentemente fora de moda, sobre o perdão dos pecados, o cristianismo pretende ser a possibilitação de um novo começo e libertação para o futuro. Enquanto dom de um início qualitativamente novo, constitui, ao mesmo tempo, a força e a coragem para conduzir à novidade não-derivada, a despeito dos poderes estabelecidos. Ele é o futuro dos nossos esforços pelo futuro, vindo corresponder à profunda necessidade e perplexidade da nossa época; constitui a resposta às intenções últimas dos movimentos de contestação, de que somos atualmente testemunhas.


Walter Kasper, "Introdução à fé", pág. 175

terça-feira, 3 de julho de 2012

Rui Tavares: "Viver com o pecado"

"Amálgama político-teológica" de Rui Tavares no "Público". Dívida e pecados, jesuítas e jansenistas. E santo Agostinho, sempre ele a pairar sobre tudo.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O banco que faz o “trabalho de Deus”



O “Público” de hoje diz que o Goldman Sachs (não deixo de pensar que em inglês seria um bom título “Goldman sucks”) é o “banco que faz o «trabalho de Deus”. A peça pega no livro recente do jornalista belga Marc Roche, que tem como título “O Banco: como o Goldman Sachs dirige o mundo”, e refere logo no início que Lloyd Blankfein, presidente executivo do banco, ironizou um dia: “Eu faço o trabalho de Deus”.

Eu não sou anticapitalista, pelo contrário, acho que a economia de mercado, com pessoas éticas e dentro da lei – e de uma lei de princípios humanistas –, ainda é o melhorzinho para orientarmos a vida. A economia de mercado geralmente anda a par da democracia. E, até hoje, nunca duas democracias liberais andaram em guerra uma contra a outra. Deve querer dizer algo. Não seria possível o mundo inteiro viver em democracia liberal (note-se que há mercados livres sem democracia, mas não há democracia sem mercados livres)? Não sou anticapitalista, dizia, mas quando ouço “Goldman”, penso sempre não no homem dourado, mas no bezerro de ouro. Este deus é para a idolatria.


Marc Roche, diz o artigo, explica "como o banco americano se tornou omnipresente e, tantas vezes, omnipotente - dois atributos divinos.

Aqui vai, então, o B-A-BA deste deus, apenas usando passagens do artigo do “Público”.

Qual é o trabalho deste deus?
Consultor de empresas e governos
Trading de matérias-primas e taxas de juro
Marcado cambial
Marcado de derivados
Gestão de fundos de investimento

E que ascese exige este deus?
"Os candidados têm de passar por 30 a 30 entrevistas de seleção"
Assumem uma "rigorosa dieta de trabalho": “Não há outro banco onde se sacrifique assim a via pessoal”
"A própria alimentação é controlada"

E quais os pecados que este deus não tolera?
“Férias sem telemóvel e sem email são mal vistas”
“Ligações extraconjugais afastam pretensões de ascensão”

Tem segredo messiânico?
Sim. “Fora das paredes do banco, reina o secretismo”.

sábado, 24 de março de 2012

Os "mea culpa" de João Paulo II


Quando num comentário falei dos pedidos de perdão de João Paulo II, em nome da Igreja, que culminaram no grande pedido do Jubileu 2000, pareceu-me que falava de uma novidade, a julgar pelas respostas ao meu comentário.


Para que não haja dúvidas, aqui fica um livro de 1997 (1998 em Portugal), quando os pedidos de João Paulo II já iam em 94 sobre 21 questões. Evidentemente, em algumas das questões, das Cruzadas a Galileu, da Inquisição à relação com os ortodoxos e protestantes, houve intervenções diretas dos papas.

Lembro-me bem de que no final do milénio passado alguns sectores da Igreja não aceitaram bem estes pedidos – como hoje, pelos vistos. Não era possível pedir perdão pelos erros do passado sem pensar que alguns deles foram cometidos com o consentimento e mesmo com a liderança do papado. Isso só causa problemas a quem tem uma ideia errada da identidade da Igreja. João Paulo II pediu perdão para purificar a memória. A de alguns ficou tão purificada que se esqueceram desta história recente.

Curiosamente, ao reler o prefácio desta obra, também me lembrei de algumas coisas de que já tinha esquecido. Esta, por exemplo: Paulo VI também pediu perdão. E, antes dele, o último a confessar os pecados da Igreja foi Adriano VI (1522-1523), o último papa não italiano antes de João Paulo II. Entre Adriano VI e Paulo VI (do séc. XVI ao séc. XX) sabemos bem o que aconteceu e qual a eclesiologia dominante. Aconteceu Trento, por exemplo, e o Vaticano I, entre outras coisa boas e más. Em Trento e no Vaticano I a eclesiologia dominante foi a da Igreja como sociedade perfeita. Numa sociedade perfeita por definição como poderia ter lugar um pedido de perdão? Os perfeitos não erram.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Banco encerra conta do Vaticano

Notícia do "Correio da Manhã" de hoje. Realmente, é estranho uma conta ficar a zero todos os dias. Mas se alguém quisesse "lavar" dinheiro procederia desse modo? Em todo o caso, na generalidade, a Igreja, do Vaticano à mais pequena paróquia, nunca foi transparente ao lidar com o dinheiro. Este é que é o pecado original eclesial.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Anonymous ataca sítio do Vaticano



O grupo Anonymous atacou o sítio do Vaticano. Há momentos, ainda não era possível aceder a www.vatican.va. Os hackers, em mais uma cruzada, criticam:
- doutrinas, liturgias e preceitos absurdos e anacrónicos,
- as intenções de lucro no mundo inteiro,
- a escravidão de povos inteiros,
- a proteção aos nazis e pedófilos,
- a condenação dos preservativos e do aborto,
- a negação de teorias aceites como válidas ou plausíveis,
- as riquezas do Vaticano.


Dizem que não estão contra a religião cristã, mas contra a corrupta Igreja Católica. Eu também estou contra a corrupta Igreja Católica. Todos os cristãos devem estar. A parte do corrupta. Mas nesta altura - e em geral nas outras - estou solidário com o Vaticano, que também é Igreja.


(Os Anonymous escolheram a cara de um católico, Guy Fawkes, mas o slogan, "we are legion", remete para um dos demónios expulsos por Jesus nos evangelhos).

sábado, 3 de março de 2012

Anselmo Borges: Anjos e víboras


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Confrontados com decisões vitais, é necessário reflectir longa e profundamente. E foi o que Jesus fez. Ele foi para o deserto meditar e rezar.

E foi tentado. E as três tentações são todas referidas à tentação do poder. O poder económico: "o tentador disse-lhe: 'ordena que estas pedras se tornem em pães'. Jesus respondeu: 'nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus'". O poder religioso: "o tentador colocou-o no ponto mais alto do Templo e disse-lhe: 'lança-te daqui abaixo'. E Jesus: 'não tentarás o Senhor teu Deus'". O tentador mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória: 'dar-te-ei tudo isto, se, prostrando-te diante de mim, me adorares'. Jesus respondeu-lhe: 'adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás'".

O poder é a maior tentação, porque, como disse quem sabe - Henri Kissinger -, ele é o maior afrodisíaco: o gozo de subordinar e dobrar as vontades alheias à sua própria vontade, ao seu domínio. No limite, o desejo de ser Deus, concebido como Omnipotência. De facto, omnipotentes, seríamos imortais, pois mataríamos a morte.

Evidentemente, é uma ingenuidade ridícula tentar pensar as sociedades sem o poder. De facto, alguém tem de tomar a iniciativa e coordenar esforços e promover o bem comum e evitar a violência. Se não houvesse iniciativas, as sociedades estagnavam. E lá estão, felizmente, os que movem a economia e os que, na política e nos diferentes domínios da sociedade, se propõem contribuir para congregar esforços no sentido da plena realização de todos. No quadro da política, lá estão, por exemplo, os Ministros. No domínio religioso, também há os ministros de Deus e do seu povo. Mas quantos se lembrarão que ministro vem do latim - minister -, aquele que serve, o servidor?

Qual era a questão para Jesus? Ele sabia que tinha uma missão decisiva da parte de Deus para os homens. E a questão era saber se havia de ser um Messias do poder enquanto domínio e dominação ou, pelo contrário, um Messias da entrega e do serviço. Depois da experiência que fez de Deus, o caminho só podia ser o do serviço: "eu não vim para ser servido, mas para servir". Essa experiência não lhe revelou um Deus omnipotente, no sentido de dominar e colocar todos ao seu serviço, ao seu controlo e arbítrio. Deus não é a Omnipotência no sentido narcisista da palavra. Ele é a Força infinita de criar e amar. Por isso, depois das tentações, Jesus começou a pregar o Evangelho, isto é, a Boa Notícia de Deus enquanto amor, cujo único interesse é a alegria, a felicidade, a realização plena de todos os homens e mulheres, de cada ser humano.

Quando se não entende isto, o poder pior é o poder sacro, religioso, controlador das consciências, que pretende mandar em nome do Deus omnipotente enquanto dominador universal, que apaga toda a autonomia e a liberdade e envenena a vida e a sua alegria.

Em consequência de tudo isto, como aqui escrevi na semana passada, problema maior da Igreja é a Cúria Romana e as suas intrigas de poder. Há já quem fale que Bento XVI poderia renunciar em Abril, quando completa 85 anos. Ele próprio declarou, há dois anos, numa entrevista ao alemão Peter Seewald, que, quando um Papa "tem a clara consciência de que não está bem física e espiritualmente para levar adiante a função que lhe foi confiada tem o direito e, em algumas circunstâncias, o dever de se demitir."

Um Papa idoso e de saúde débil, por um lado, e, por outro, com interesses mais intelectuais e de fé do que administrativos, parece cada vez mais impotente. Seja como for, em fim de pontificado, vivem-se no Vaticano tempos de intrigas para manobrar o poder, evitar reformas urgentes e influenciar a sucessão, de tal modo que L'Osservatore Romano, jornal oficioso do Vaticano, escreveu que Bento XVI se tornou num "pastor cercado por lobos".

Como lembrou há dias o cónego Rui Osório, já Santa Catarina de Sena prevenia: os servidores do Papa, umas vezes são "ninho de anjos"; outras, um "covil de víboras". Em 1970, o Papa Paulo VI declarou Santa Catarina de Sena Doutora da Igreja.

sábado, 14 de maio de 2011

Cobras e escadas, o jogo da salvação segundo David Lodge


A metafísica ou visão do mundo dos jovens católicos na década de 1950, em Inglaterra, segundo David Lodge no romance “Até onde se pode ir?” (ed. Asa, pág 14-15):
Lá em cima estava o céu e lá em baixo o inferno. O nome do jogo era Salvação e o objectivo alcançar o céu e evitar o inferno. Era como o jogo das Snakes na Ladders: o pecado fazia-os recuar cinquenta casas; os sacramentos, as boas acções, ao actos de mortificação davam-lhes a possibilidade de voltar a subir em direcção à luz. Tudo o que faziam ou pensavam era passível de contabilidade espiritual. Ou era bom ou mau ou indiferente. Os que tinham êxito no jogo eliminavam os maus e convertiam em bons o maior número possível de indiferentes. Por exemplo, uma banal viagem de autocarro (indiferente) podiam ser convertida em pontos se se rezasse o terço em silêncio, passando discretamente as contas entre os dedos, dentro do bolso, no decurso da viagem. Rezar o terço em voz alta e às claras na mesma situação já era mais problemático. Testemunhar a fé, mesmo suscitando a chacota dos não crentes (supondo que estes eram dotadas de paciência e tolerância), era, obviamente, bom - até heróico e virtuoso; mas, feito com o fim de impressionar os outros e chamar a atenção para a virtude própria, era pior do que indiferente, era mau – orgulho do espírito, uma serpente muito traiçoeira. O caminho para o céu estava cheio destas armadilhas. No fundo, existia uma regra que era garantida: qualquer coisa que detestássemos era com certeza boa, e uma coisa que gostássemos imenso de fazer era com certeza má, ou potencialmente má – uma «situação pecaminosa».

quinta-feira, 24 de março de 2011

Os novos pecados segundo a revista "Visão"

Notícia da revista "Visão" de hoje, com a habitual imparcialidade que a caracteriza quando aborda uma matéria católica e que leva um amigo a perguntar-me se para trabalhar lá se exige a profissão de algum credo anticatólico.

Eu ajudo a ler a notícia: "A Igreja Católica, esse museu, tenta adaptar-se, mas não consegue, à realidade do séc. XXI". A notícia avança a seguir com um encontro (secreto, mas a "Visão" sabe) em Roma. Estou mais ou menos atento ao noticiário religioso e não dei conta de tal encontro fundamental para a adaptação da Igreja aos luminosos tempos em que vive a "Visão".

O encontro consistiu em "acções de formação sobre os novos desafios" que se colocam aos sacerdotes e serviu para estes recuperarem certas práticas caídas em desuso, ou não se tratasse de um museu, como a penitência e a confissão, que, como se sabe, são dois sacramentos completamente diferentes. Num, trata-se de perdoar os pecados, no outro de absolver os pecados.

No encontro de Roma, diz a omnividente revista lusa (o será onividente?) que os padres tomaram conhecimento do renovado católogo de pecados do Vaticano. Foram a Roma para saber dos pecados do Vaticano? Costumam vir nas notícias. De qualquer forma teria sido mais fácil enviar o catálogo por correio, como o dos móveis. Quanto aos cinco exemplos, sem dúvida que há muita novidade. A novidade consiste nisto:  não matar; não roubar. 

domingo, 13 de março de 2011

Refeição para todos

Cartune de Cortés (12 de Março)
e texto de Timothy Radcliffe ("Ir à Igreja porquê?", página 296)

A Eucaristia é a nossa casa, seja o que for que tenhamos feito e sido. Muitas pessoas sentem-se excluídas por causa das suas circunstâncias pessoais, surpreendentemente, quase sempre por questões de sexualidade! As pessoas divorciam-se, recasam-se, vivem juntos, são homossexuais ou qualquer outra coisa, sentem-se malvistas ou cristãos de segunda classe. Mas estas são as situações em que as pessoas comuns se encontram na nossa sociedade, e estas são as pessoas que decerto Jesus convida a entrar, a sentar-se, a comer com Ele na praia [Jo 21,12]. Deus aceita os nossos amores limitados, frágeis e desleixados. Se há um lugar para Pedro, que negou Jesus, então há lugares para todos nós. Talvez, como Pedro na sua conversação com Jesus [Jo 21,15-19], seja necessário algum processo de cura, enfrentando corajosamente o que fizemos e pedindo perdão; mas não pode, decerto, haver uma exclusão permanente.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Sermão para mim próprio: Tentações intemporais


O relato das tentações, no caso segundo Mateus (Mt 4,1-11), é das passagens mais curiosas dos evangelhos (poderei escrever exactamente o mesmo de todas as outras, porque todo o evangelho é surpreendente).

Vejamos:
* Mateus conta como se lá tivesse estado. Ora esta é das poucas passagens em que não há testemunhas, só protagonistas. Como é que Mateus soube? Teria Jesus contado? Ou será um relato que condensa tudo o que o evangelho significa, já que está precisamente no início dos trabalhos de Jesus? 
* Jesus vai para o deserto conduzido pelo Espírito Santo, o que quer dizer que nem sempre o Espírito Santo leva por bons caminhos. 
* O deserto tanto é o lugar da comunidade e da solidariedade (foi no deserto que nasceu o Povo de Israel) como lugar de tentação, o que desmonta os que diabolizam a cidade. Todos os lugares podem ser bons ou maus. Os lugares não têm moral. 
* As tentações acontecem após 40 dias e quarenta noites de jejum, uma quaresma. O 40 aparece imensas vezes na Bíblia (40 dias de chuva, de pregação, de jejum, de mediação, de ultimato) para significar mudança, preparação, introdução, nova vida. 
* O Diabo tenta, cumprindo o que diz o que seu próprio nome, já que "diábolos", em grego, quer dizer “o que separa” (opõe-se a símbolo, “o que junta”). Há tentações. Não há possessões diabólicas. 
* O Diabo tenta usando frases da Bíblia, o que quer dizer, como há muito foi observado, que o Diabo conhece a Bíblia, ou seja, conhecer a Bíblia, mesmo de cor, não é garantia de nada. O Diabo é um bom exegeta. 
* As tentações acontecem “no deserto” (quem diria que lá não há nada), no “templo” (cuidado com a religião) e num “monte muito alto” (mania das grandezas) e são, respectivamente, sobre pão, espectáculo, poder. Ou então, consumo, magia, fama. Ou então, satisfação, êxito, audiências. Ou então… (é uma questão de reler Mt 1,11-11 e encontrar novos sentidos). 
* Jesus responde com frases bíblicas, todas elas ditas ou remetidas para Deus. Usa o ás de trunfo, ou o Joker (por vezes parecem diabinhos), e sai-se bem. A humildade derrota a magia. 
* As tentações são de Jesus, no início da chamada “vida pública”, mas nelas revêem-se os cristãos, a Igreja, o mundo em geral. Por isso é que Mateus as conta, mesmo não tendo estado lá.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Fumar

Thierry Maulnier, à esquerda, com Jacques Hébertot e André Malraux

Segundo o velho dito que fazia dantes a alegria dos seminários, não se deve fumar orando, mas pode-se orar fumando. Não é permitido aos cristãos conhecer o pecado, mas quem quereria interditar ao maior dos pecadores de crer em Deus?

Thierry Maulnier (1909-1988)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

3 de Setembro de 590. Eleição do Papa Gregório I

Gregório I, num Antifonário do convento de Sant Gallen (Suíça)

Gregório I, que antes de ser Papa, eleito no dia 3 de Setembro de 590, foi prefeito de Roma e monge beneditino, é um dos grandes papas da história. Por isso tem o cognome de “Magno”, como Leão e poucos mais. (Há quem diga que João Paulo II também é Magno, mas ainda é cedo para saber se vai colar.)

Devem-se a este Papa, o primeiro com um passado monástico, três façanhas principais:

- o envio dos primeiros missionários para as Ilhas Britânicas (que viriam a ser, até aos primeiros séculos do segundo milénio, uma áreas cristãs mais dinâmicas);

- a compilação dos sete pecados mortais (ou capitais), a partir de tradições orientais

- a promoção do tipo de canto que ficou conhecido precisamente pelo seu nome: gregoriano.

Descubra os erros


Nesta breve, quantos erros há?
Três, sem qualquer esforço da imaginação.
1. Hildegarda de Bingen não é santo mas sim santa. Nasceu no ano de 1098, em Bermersheim, na actual Alemanha, e morreu em 1179, no Mosteiro de Rupertsberg, Bingen. Beneditina, foi mística, compositora, pregadora, naturalista, médica e escritora.
2. “Papa invoca pecados antigos?” Para quê? Para seu auxílio? Os novos não chegam? Não devia ser antes “evoca”, no sentido em que lembrar os erros também é pedagógico?
3. Pedofilia no antetítulo? Fala-se de Bento XVI e de pecados e pensa-se logo em pedofilia? Não há outros tipos de pecados? Lendo o texto de Bento XVI – o que pode ser feito aqui, por exemplo – percebe-se bem que o enfoque está na obediência à autoridade eclesial, à semelhança da Hildegarda, e não na questão dos pecados, os quais, como é claro, existiram em todas as épocas.
A notícia era do JN de 2 de Setembro de 2010.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

14 de Maio de 964. Morre o Papa João XII

Otão I, o Grande, imperador (962-973), confirma a João XII as doações feitas pelos seus predecessores Pepino e Carlos Magno e devolve à Santa Sé os territórios que tinham sido ocupados por Berengário II


Eleito a 16 de Dezembro de 955, João XII morreu no dia 14 de Maio de 964, assassinado. Ficou com a fama de ser um dos piores papas de sempre, por dois motivos: foi libertino e simoníaco (vendia cargos eclesiásticos).

João XII, que antes tinha o nome de Octaviano, foi “um pobre homem, preguiçoso, ímpio, de vida escandalosa, simoníaco”, diz o historiador Laboa Gallego. Acabou “assassinado enquanto se encontrava na cama com uma mulher casada, provavelmente pela mão do marido enganado”.

No entanto, houve uma coisa boa no tempo de João XII. Ao coroar Otão I como imperador da Alemanha (ou melhor Sacro Império Romano-Germânico) fez com que a influência de nefastas famílias romanas sobre o papado diminuísse.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...