terça-feira, 6 de março de 2012
Agustina, leitora da Bíblia
terça-feira, 22 de março de 2011
Deus pode estar nas palavras, mas não se resume ao texto
domingo, 20 de março de 2011
Duas capas sobre Deus mais uma sobre a Bíblia
sexta-feira, 18 de março de 2011
"Ler" pela centésima vez
A revista “Ler” publicou o número 100. É uma revista que de vez em quando passa por este blogue. Aqui pode-se ler sobre algumas dessas passagens.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Saramago era feminista
quinta-feira, 8 de abril de 2010
A modéstia de De Gaulle, agora em anedota completa

Recolhi aqui uma anedota incompleta sobre a humildade do general De Gaulle. Onésimo Teotónio de Almeida conseguiu finalmente ter a anedota toda, ligeiramente diferente do que já conhecia. Deve-a a Tito Magalhães Rodrigues, um poeta açoriano que vive no Porto.
Transcrevo-a aqui como o cronista a publicou na revista “Ler” de Abril de 2010.
“O bispo de Lourdes convida De Gaulle a visitar o santuário. O general aceita e vai em dia de Páscoa. No altar, junto de uma cruz, depõe uma flor e, num envelope, uma esmola e a mensagem: «Du Premier de la France à la deuxième personne de la Trinité».
Indignado, Sua Excelência Reverendíssima fez Monsieur le Général tomar consciência da ignomínia. Por isso, ao voltar segunda vez, no Natal, o Presidente procurou exibir mais modéstia quando, junto do presépio, deixou aos pés do Menino novo óbulo e a nota: “Du Grand De Gaulle au Petit Jésus”.
O bispo já tinha contido a fúria quando mais tarde voltou a convidar o Presidente. A ocasião era o 11 de Fevereiro, aniversário das aparições. O general foi paternalmente admoestado a assumir o seu papel de simples e modesto cristão. De Gaulle ouviu e, compungido, escreveu nova mensagem, que depositou com a sua esmola aos pés da imagem de Nossa Senhora de Lourdes: «A la vierge, à l’occasion de ma troisième apparition à Lourdes».
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Qual a sua ideia de paraíso?, na "Ler"
A revista "Ler" também tem a sua pergunta sobre o paraíso (como o DN aos sábados, aqui). Em concreto: "Qual a sua ideia de paraíso?"domingo, 7 de fevereiro de 2010
A humildade de De Gaulle

De uma crónica sobre a humildade e a falsa humildade, mas não numa perspectiva espiritual (o sermão cada um pode tirá-lo de qualquer texto), cheia de boas histórias como costumam ser os textos de Onésimo Teotónio de Almeida (OTA), retiro as seguintes, que se contam de Charles De Gaulle. Vêm na “Ler” de Fevereiro de 2010. Mas antes, o que uma freirinha dizia a outra: “Sou muito mais humilde do que a irmã”.
As histórias de De Gaulle
1. (Note-se que falta o terceiro elemento, elemento final, a “punchline”; se alguém souber, diga-me, que terei todo o gosto em comunicar a OTA, que faz apelo similar na sua crónica; diz que já contou a história a muitos francófonos, mas nenhum foi capaz de dizer o que falta, já que não há duas sem três). “O Presidente foi confessar-se e o padre lembrou-lhe que se esquecera de referir o seu grande pecado – o orgulho. Em penitência, impunha-se uma oferta na caixa de esmolas. De Gaulle cumpriu, acompanhando o óbulo de uma mensagem: «Du Grand De Gaulle au Petit Jésus». Vendo o envelope, o sacerdote foi todo bons modos admoestar Mr. le Président que, contrito, substituiu: «Du Premier de la France à la 2.ème personne de la Trinité».
2. De Gaulle a rezar: “Sagrado Coração de Jesus, tem confiança em mim!”
3. A mulher, no seu primeiro encontro com ele inteiramente desfardado, exclamando: “Mon Dieu!” E o general: “Na intimidade trate-me por «tu»”.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
"O papel nosso (meu?) de cada dia"
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
A fé é nocturna, como o combate de Jacob, diz Tolentino Mendonça
Fé, luz, noite, poesia e, de caminho, uma explicação para a origem deste blogue, tudo neste excerto da entrevista que Carlos Vaz Marques fez a Tolentino Mendonça para a “Ler” n.º 86 (Dezembro de 2009).
Tolentino Mendonça - O silêncio é um caminho. Não basta, por exemplo, estarmos calados para estar em silêncio. Podemos estar calados e o rumor ser ensurdecedor. Há uma qualidade de silêncio que é uma conquista, que é um processo em que nós entramos.
Carlos Vaz Marques – Talvez esta insistência na noite e no silêncio sirva para explicar uma frase sua na qual dizia que “a fé é um salto no escuro”.
TM - A fé tem a ver com a noite.
CVM – A fé não é diurna, não é luminosa?
TM – Não. A fé é claramente nocturna.
CVM – Mas uma das construções imagéticas mais presentes ao falar da fé é a ideia de “ver a luz”.
TM – Mas a luz só se vê à noite, como as estrelas. As estrelas brilham no céu nocturno. A luz da fé brilha na noite. A fé é um lugar sem certezas. A fé é um lugar de abertura. A fé é uma forma de hospitalidade radical. Para mim, as grandes imagens bíblicas da fé são as da luta de Jacob com o anjo (quando ele, no amanhecer ainda escuro, ao atravessar um riacho, luta com o próprio Deus sem saber que está a lutar com Deus; mas essa imagem do combate nocturno, agónico, um bocado imperceptível mas que nos fere e deixa depois no nosso corpo a ferida, é a imagem mais prodigiosa do que é a fé no Antigo Testamento) e a do percurso que as mulheres fazem de manhãzinha, com o dia ainda muito escuro, a caminho de um sepulcro que encontram vazio. A fé tem necessariamente esse lado nocturno de indagação e de expectativa. A fé é uma expectativa. E é nesse sentido a imagem do salto no escuro.
CVM – A sua poesia é um acto de fé?
TM - A minha poesia é o mapa da minha procura. É o testemunho de que eu busquei. Nem sempre diz o que busco mas diz sempre que eu busquei.
domingo, 15 de novembro de 2009
Universidades e crucifixos

A propósito de crucifixos, e uma vez que referi aqui hoje Universidade Georgetown, note-se que entre 1966 e 1999 resolveram pôr crucifixos nas salas de aulas desta universidade. Os quartos do hospital e algumas salas históricas já os tinham há muito tempo, mas a generalidade dos espaços não.
A colocação atraiu a atenção dos média e da opinião pública. Aconteceu então algo curioso. A comunidade católica do campus exigiu a remoção dos crucifixos, mas os líderes das outras crenças defenderam a sua colocação.
Já agora, sobre crucifixos e universidades norte-americanas, não resisto a transcrever duas histórias de Onésimo Teotónio de Almeida (OTA), na “Ler” de Junho de 2008. Espero transcrevê-las sem erros porque há precisamente oito dias copiei uma – aqui – com gralhas e ele escreveu-me um mail simpático a apontá-las.
As histórias têm como referência a University de Notre Dame (salvo erro, aquela em que Obama foi apupado por militantes anti-aborto; fundada em 1842 pela Congregação da Santa Cruz). Diz OTA:
“Na altura [ou seja, há décadas] o seu reitor, o famoso Padre Hesburgh, emergira como verdadeiro jet-set viajando pelo mundo inteiro, pois decidira fazer da sua pequena universidade católica uma Ivy League do «Meio Oeste» americano. Cruzava os espaços aéreos nacional e internacional a mobilizar os antigos alunos (alumni), a ponto de circular por aqui a piada: «Qual a diferença entre Deus e o Padre Hesburgh? Deus está em toda a parte, o Padre Hesburgh em toda a parte está, excepto em Notre Dame»”.
A segunda, esta sim, com um crucifixo:
“Havia que convencer um brilhante físico judeu, recém-doutorado em Harvard, a vir para Notre Dame. Pretendentes eram várias universidades com muitos mais pergaminhos. O Padre Hesburgh interveio. Quis servir de guia na visita que o candidato vinha fazer a inteirar-se da situação in loco antes de se decidir. Percorrido o campus, restava a famosa basílica. A entrada deixou-o em frios suores. «Padre Hesburgh, não lhe disseram que sou judeu?» Irónico, disfarçado de bonomia, o reitor: «E era preciso? Com esse nome, Isaac Choen?! Homem, já sabe que aqui não somos religiosos fanáticos. Temos professores de todos os credos. Creio que isso não constitui qualquer problema».
A visita à igreja, de traça franco-americana, prosseguiu com um Isaac mais calmo a secar na roupa o calafrio. A visita culminou junto do altar onde, à direita, numa coluna, está suspenso um crucifixo. Então o reitor: «Sabe o que aquilo significa?» Hesitando, meio sem jeito, o jovem acena afirmativamente. O Padre Hesburgh insiste como a ver se ele sabe a lição de cor. Isaac esquiva-se: «Claro que sei, mas o senhor saberá muito melhor, pois foi professor de Teologia Católica.» Hesburgh avançou: «Pois, qualquer que seja a versão que lhe tenham passado, creia que aqui em Notre Dame estamos convencidos de que Ele foi crucificado porque… não publicou»”.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
O misticismo de Richard Zimler

Richard Zimler diz numa entrevista à Ler (n.º 85, pág. 34):
“Aquilo que me atraía [no estudo de Religião Comparada], sempre, era o misticismo. A ideia, em primeiro lugar, de que existe qualquer coisa para além da nossa realidade – talvez não seja Deus mas é outra dimensão, algo de transcendente. Não faço a mínima ideia do que se trata, mas existe”.
Disse isso e deixou em mim algumas dúvidas. Como pode haver algo de transcendente que não seja Deus ou pelo menos da esfera do divino? Serão anjos? Deus, sobrenatural, transcendente não são a mesma coisa. Mas… poderá haver transcendência sem Deus? Poderá haver outra dimensão para lá da natural se não existir o que, há falta de outra palavra, teremos de nomear como Deus? Falar em deuses parece, evidentemente, irracional. Como poderiam existir vários deuses? A omnipotência é qualidade exclusiva de uma única entidade. Não pode ser dividida (na teologia cristã, esta questão foi imensamente debatida; e só há um deus, sendo três pessoas). Se admitirmos algo transcendente, como não nomear a isso Deus, ainda que não tenha a história do Deus judaico-cristão?
Comungando com o judeu Zimler toda uma tradição, ainda que o luso-americano provenha de uma família judaica laica, enquanto eu me insiro na revelação de Jesus Cristo e no grande rio que é a Igreja, poderia subscrever perfeitamente as suas palavras, com estas ligeiras diferenças. Tratando-se de Deus, não sei se a diferença é grande ou pequena:
“Aquilo que me atraía [no estudo de Religião Comparada], sempre, era o misticismo. A ideia, em primeiro lugar, de que existe qualquer coisa para além da nossa realidade –outra dimensão, algo de transcendente. Não faço a mínima ideia do que se trata, mas existe. Há falta de outra palavra, terei de dizer que é Deus”.
domingo, 8 de novembro de 2009
A hilariante interpretação literal
Já foi dito e repetido que ninguém fez tanto pela Bíblia, recentemente, ainda que de modo involuntário, como Saramago, ou melhor, como as declarações de Saramago. Tanto, em termos mediáticos e de interesse popular, não fizeram, por exemplo, o Ano Paulino, decretado por Bento XVI para 2008 e 2009, e o Sínodo da Palavra (Roma, Outubro de 2008). E digo que tanto não fizeram porque não ouvi ninguém na rua a discutir se Paulo tinha ou não caído do cavalo ou se “a história é prova de como a palavra de Deus é viva” (frase do início dos lineamenta do Sínodo). Mas ouvi, num café, no intervalo dum jogo da Liga Europa, uma discussão sobre a inspiração bíblica, em concreto sobre a definição do cânone no Concílio de Trento. Não conhecia ninguém e não me meti na conversa. Ouvi-a uns bons cinco minutos, na mesa ao lado, até começar a segunda parte do jogo num canal desportivo. E, pela aparência, não era um letrado que falava, mas alguém da working class.
Exemplos do interesse bíblico com génese em Saramago são os últimos números do JL (n.º 1020) e da "Ler" (n.º 85).
Na sempre hilariante “Diacrónica”, de Onésimo Teotónio de Almeida, este açoriano professor nos EUA escreve ("Ler", p. 93):
“Nos States, a assanhada moderadora de um programa radiofónico de linha aberta decretou a homossexualidade uma perversão, apoiando-se na Bíblia, mais precisamente no Levítico, capítulo 18, versículo 22: «Tu não te deitarás com um homem como te deitarias com uma mulher: seria uma abominação». Um ouvinte reagiu por carta, sim senhora, assim é que é, defender a moralidade pública com coragem impondo a Lei de Deus. Depois, todo falinhas mansas, pede conselho em jeito de perguntas inocentes. O leitor internetional já conhece certamente, mas para benefício dos outros cito aqui e ali. «Gostaria de vender a minha filha como serva, tal como vem indicado no livro do Êxodo, cap. 21,7. Na sua opinião, qual seria o preço mais justo? O Levítico, também, no cap. 25,44, diz que posso ter escravos, homens ou mulheres, desde que sejam comprados me nações vizinhas. Um amigo meu afirma que isto é aplicável aos mexicanos, mas não aos canadianos. Poderia a senhora esclarecer-nos sobre este ponto? Tenho um vizinho que trabalha ao sábado. O êxodo (25,2) afirma claramente que ele deve ser condenado à morte. Sou obrigado a matá-lo eu próprio? Outra questão: o Levítico (21,18) diz que não podemos aproximar-nos do altar de Deus se tivermos problemas de visão. Eu preciso de óculos para ler. A minha acuidade visual teria de ser de cem por cento? Seria possível rever esta exigência no sentido de baixarem o limite? Um último conselho: o meu tio não respeita o que diz o Levítico (19,19), plantando dois tipos de culturas diferentes no mesmo campo, da mesma forma que a mulher dele usa roupas feitas de diferentes tecidos: algodão e poliéster. Além disso, ele passa os dias a maldizer e a blasfemar. Será obrigatório levar o processo até às últimas consequências reunindo todos os habitantes da aldeia para lapidarmos o meu tio e a minha tia, como manda o Levítico (24,10-16)». E por aí foram terminando humildemente pedinte: «Confio em pleno na sua ajuda»”.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Cristianismo no n.º 82 da "Ler"

Li a “Ler” (n.º 82, de Julho de 2009) de uma ponta à outra. Ao princípio, comecei a lê-la só pelos artigos que me interessavam, um aqui, outro ali, uma crónica, uma entrevista, duas recensões… Mas a certa altura surgiu a questão: Se de vez em quando surgem referências à religião, por que não empreender uma busca exaustiva do fenómeno religioso e tentar encontrar uma tónica dominante nas referências? Haverá um uso típico da religião na revista “Ler”?
Como o tempo é um bem raro, demorei dois fins-de-semana na primeira metade de Julho a ler a “Ler” toda. Usei pequenos intervalos, cafés, esperas de alguém, intervalos noutras tarefas…
Eis as referências religiosas católico-cristãs explícitas que encontrei. Muitas outras há como a fé de Ray Bradbury nas biliotecas (“Foram as bibliotecas que me educaram. Acredito nas bibliotecas”), só para dar um exemplo. Mas essas não contam (entre parênteses, o número da página):
* Paulo Lopes reconstitui o que sentiam os portugueses em mares desconhecidos na época dos Descobrimentos. O texto é de José Riço Direitinho: “Gradualmente dá-se uma «transformação estruturante», em que o medo continua a ter uma presença importante, mas transfigurado num elemento «imbuído de carácter cristão» (não o dos primeiros séculos, o de santo Agostinho ou de Isidoro de Sevilha) acompanhado por novas soluções. Cria-se um conjunto de práticas com o «principal objectivo de cristianizar o mar anulando os seus elementos negativos e malignos», rituais propiciatórios que acontecem a bordo e em terra” (11).
* Pedro Mexia escreve no seu espaço “Biblioteca Fútil” sobre “O Segredo de Fátima”. Invoca as referências mariana para falar de um romance de Fátima Lopes. “O terceiro romance (e não o terceiro segredo) de Fátima chama-se A Viagem de Luz e Quim” (A Esfera dos Livros). Suponho que é a primeira aparição de “Quim” em títulos portugueses (…)”. Conclui deste modo, depois de perorar sobre o sucesso dos romances das apresentadoras de TV: “E há alguns, como Fátima, que descobriram o segredo” (19).
* Junot Díaz diz numa entrevista que ao ler um poema de Walcott pensou: “Meu Deus, isto é verdade”. Junot Díaz escreveu “Vida de Oscar Wao”, na Porto Editora (24).
* Francisco José Viegas (FJV) diz que Pedro Adão e Silva cita a Bíblia em “O Sal na Terra”, um livro sobre surf na Bertrand Editora (27). A propósito da nova edição da biografia de Eça de Queirós, de Maria Filomena Mónica (Quetzal), escreve: “Acho que ainda hoje me ressinto de ter lido O Crime do Padre Amaro no Inverno, suspeitando que Leiria viva debaixo de chuvas eternas e de um céu cinzento triste e enfadonho” (28). Revisitando o Dicionário de Khazar, de Milorad Pavic, FJV, a propósito de “livros sobre livros (e de livros sobre livros que falam de livros)”, refere a história - Pavic leu Borges, diz FJV – da queima da edição de Daubmannus, pela Inquisição, em 1692, restando apenas um exemplar envenenado. “O leitor morria, efectivamente, na nona página, ao ler as seguintes palavras: Verbum caro factum est (o verbo se fez carne)”, escreve FJV.
* Na secção “Livros no top” aparecem estes pelo menos no título relacionados com o tema em questão: Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert (Objectiva); Original Sin, de Tasmina Perry (Harper Collins); Pegadas na Areia, de Margaret F. Powers [Estrela Polar]. O resumo diz que “a história por detrás do poema de Fishback, escrito em 1964, é uma espécie de «renovação espiritual»”. Constata-se, ainda que o livro do Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, 1810-1910-2010 – Datas e Desafios está no top da Lello, no Porto (30 e 31).
* Na entrevista a Vasco Pulido Valente, abundam as referências cristãs. Vejamos: 1) VPV diz que se interessa pelas origens do cristianismo e que lê a Bíblia. O estudo das origens do cristianismo implica conhecimentos “de História, da doutrina e teologia cristã e um certo conhecimento do Império Romano”; 2) na adolescência VPV lia Mauriac e Bernanos (dois católicos franceses); 3) diz que Eça, “a meio da vida, escreveu dois romances religiosos que indicam que teve um grave problema religioso. O Mandarim e A Relíquia são, em última análise, uma declaração de ateísmo”; 4) sobre o talento literário, VPV diz: “As pessoas escrevem o que podem mas o valor daquilo que escrevem não depende da opinião das pessoas que compram os livros: Senão, o maior romancista do mundo era aquele rapaz – como é que ele se chama? – que escreveu a filha de Cristo…” [Dan Brown – diz Carlos Vaz Marques, que conduz a entrevista]; 5) diz que escrevia o que lhe vinha à cabeça no tempo de O Tempo e o Modo [a revista liderada por católicos progressistas] (32-43).
* “O padre Jovito Soares, um dos elementos da Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação, um sobrevivente que não tem piedade da sua própria dor, explicou-me que «não podemos contar com esta geração. Os que morreram, morreram como animais, não morreram como homens. É apenas o futuro que pode restituir-lhes dignidade», escreve Pedro Rosa Mendes, regressado de Timor (53).
* Rogério Casanova diz, ultrapassados uns diálogos inconsequentes e uma longa viagem de autocarro, que chegará ao País de Gales, mais concretamente a Tupperware e a um dos maiores festivais literários do mundo, “se Deus e a Rainha assim o permitirem” (57).
* António Manuel Baptista escreve sobre o livro de José Jorge Letria que se chama O Que Darwin Escreveu a Deus e Outras Cartas Que Nunca Chegaram ao Seu Destino (Oficina do Livro). Neste livro, Cristo escreve a Maomé e o autor, no final, a Deus (sendo cartas que não chegam ao destino, deduzo que o autor escreve como não crente, ou como desejando ser crente) (61).
* 1866 foi o ano da inauguração do Seminário-Liceu de S. Nicolau, diz Francisco Benard, a propósito da colectânea O Ano Mágico de 2006 – Olhares Retrospectivos sobre a História e a Cultura Caboverdianas (Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 2008) (63).
* “O ódio ao nazismo e ao catolicismo acompanhá-lo-á durante toda a vida, chegando a escrever que «ambos são doenças do espírito, nada mais»”, escreve José Riço Direitinho a propósito Thomas Bernhard, que só “por dinheiro” aguentava a “humilhação vergonhosa” das entregas de prémios (64).
* Há um jesuíta chamado Naptha (“arrivista e medievalista”) em A Montanha Mágica, de Thomas Mann (Dom Quixote) (67).
* O novo livro de Mia Couto chama-se Jesusalém (Caminho). Impossível não associar a Jerusalém. E lê-se como “Jesus além” – pelo menos assim lê Mia Couto, vi na TV (67).
* O novo livro de Nuno Júdice chama-se Os Passos da Cruz (D. Quixote) – a história de um escritor que investiga a história de Antónia Margarida, que se torna noviça no Convento da Madre de Deus, em Lisboa, e de Brás Teles, que acabou também num convento, no séc. XVII, diz Carlos Câmara Leme (73).
* Em A Potência de existir – Manifesto Hedonista (Campo da Comunicação), Michel Onfray (diversas vezes citado neste blogue) retoma temas que lhe são caros, como “a sexualidade liberta da ganga judaico-cristã e burguesa” e o “ateísmo pós-cristão” (77).
* De Laura Ferreira dos Santos, que se tem apresentado como católica, é referido o livro “Ajudas-me a morrer?” (Sextante) (80).
* Eduardo Lourenço no ensaio “Esquerda, para onde vais tu?” fala de “pecados políticos”, lembra João XXIII para dizer como ele disse da Igreja que “a esquerda não tem inimigos”, diz que não se espera que “salvemos o mundo que parece ninguém estar em condições de salvar” (82-83).
* Valter Hugo Mãe, que diz que não faz sentido assinar com maiúsculas já que escreve só com minúsculas (é lá com ele), diz: “Nunca esperei ser romancista, queria antes ser poeta porque os poetas convivem com o insondável, ou sejam, com Deus” (84).
* Finalmente, Pedro Adão e Silva (o do livro do surf) diz na secção “Ponto Final” que a política portuguesa, “mais do que de férias, precisa é de um retiro espiritual”. Na literatura portuguesa, quem destaca o professor universitário e surfista? “Estamos fadados a ser um país de poetas, logo, o José Tolentino Mendonça” (96).
Falta uma taxonomia destas referências. O cristianismo católico é abordado nos seus aspectos históricos, como referência cultural, como origem de metáforas, comparações e paródias, como objecto de reflexão (neste caso, a combater), quase nunca como convicção pessoal. Porém, as questões introdutórias deste elenco continuam por responder. Haverá um uso cultural (literário, intelectual) típico das referências católicas?
segunda-feira, 15 de junho de 2009
“Fui calvinista”
O jornalista e escritor Pedro Rosa Mendes diz numa entrevista a Carlos Vaz Marques, na revista “Ler” (Junho de 2009, pág. 42): “Eu fui para Timor pela Lusa e aí fui calvinista até ter voltado, agora. Não é exagero: eu não escrevi uma linha, em Timor, que não fosse como delegado a agência”.
Nunca tinha encontrado o adjectivo “calvinista” com o sentido de “escrupuloso”, “cumpridor até às mais ínfimas formalidades”, “rigorista”, embora o seu sentido se compreenda imediatamente. Poderia ter dito “puritano” e a ideia continuaria acessível.
(Não admira que o calvinismo tenha tido mais sucesso na Suíça, o país dos relógios, da pontualidade, da organização. Haverá verdadeiro calvinismo nos países latinos? Nos países quentes? Um calvinismo tropical?)
Sinodalidade e sinonulidade
Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...
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O que aqui vou deixar não é um tratado nem sequer um artigo académico sobre a questão. Trata-se simplesmente de dicas recolhidas de outros...
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Respondendo a alguns leitores, deixo aqui um artigo de Ariel Álvarez Valdés sobre a distinção, nos evangelhos, entre diabo e demónio. O tex...
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A fé começa precisamente onde o pensamento acaba. Kierkegaard






