sábado, 11 de fevereiro de 2012

Lepra

Jesus, ao curar o leproso, quer dizer para todos nós, cristãos, que nem a beleza, nem a feiúra, nem o cheiro, nem a cor são critérios para que as nossas peles se aproximem.


J.B. Libânio citado por Pedro José (aqui)

"Preciso daquela cara, sim", texto Ferreira Fernandes no DN


Foto vencedora do Word Press Photo do Ano 2011, de Samuel Aranda

Nas Pietà, todas, a de Miguel Ângelo, de El Greco, de Van Gogh, o objeto da compaixão é Cristo, corpo sem sopro. Juntamo-nos ao outro personagem do quadro ou da escultura, Maria, para partilhar o que o seu olhar, a inclinação do pescoço e o rito da boca mostram: piedade. O duo foi feito em função dele, mas a força emana dela. Por ela, vamos para ele. A vencedora do Word Press Photo do Ano 2011, do espanhol Samuel Aranda, parece uma Pietà, mas não é. Numa mesquita de Saná, no Iémen, convertida em hospital durante manifestações, um corpo de homem, magro como Cristo, sofrido, abandona-se sobre uma mancha. Esta é uma makrama, veste negra que cobre as iemenitas da cabeça aos pés, com nesga por onde os olhos mal se adivinham. O homem é vítima de alguma coisa mas não comove. Ao contrário de Cristo, para quem vão as nossas emoções - impelidas pela força de Maria -, aquele iemenita não existe. A foto vencedora do Word Press Photo do Ano 2011 tem personagem única, tão forte quanto nem aparece. Adivinha-se para lá do negrume das vestes. Mais bordoada, menos bordoada, o homem da foto é uma vítima banal, talvez alguém que exigia uma passagem de peões em Queluz e escorregou. Mas o ser apagado pela makrama, tão apagado que nem sabemos se chora, esse, é uma tragédia tão enorme que anula tudo à sua volta. Se alguém me diz que não preciso daquela cara para saber o que ela exprime, desminto. Preciso, até para saber o que há à sua volta.


Ferreira Fernandes no DN de hoje (aqui).



 "Pietà" de Miguel Ângelo

 ...de El Greco

...de van Gogh

Anselmo Borges: Deus e a pergunta final


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Quatro momentos de uma reflexão sobre Deus, o Homem, o niilismo e a pergunta final.

1. Conta-se que uma vez alguém se aproximou de Buda e lhe perguntou: "Deus existe?" Buda respondeu: "Sim". Depois de comer, veio outra pessoa, que queria saber: "Deus existe?" E Buda disse: "Não, não existe." No final da tarde, uma terceira pessoa veio com a mesma pergunta: "Deus existe?" "Terás de decidir isso tu próprio", respondeu Buda. "Mestre, que absurdo!", disse um dos seus discípulos. "Como podes dar respostas diferentes à mesma pergunta?" "Porque são pessoas diferentes", res- pondeu o Buda, o Iluminado. "E cada uma delas aproximar-se-á de Deus à sua maneira: através da certeza, da negação e da dúvida."
Jean Paul (1763-1825)

2. No ano de 1796, Jean Paul escreveu um dos textos mais sublimes e ao mesmo tempo mais terríveis da grande literatura alemã: Rede des toten Christus vom Welgebäude herab, dass kein Gott sei (Discurso do Cristo morto, desde o cume do mundo, sobre a não existência de Deus).

Nele, o grande escritor descreve um sonho. Pela meia noite e em pleno cemitério, numa visão apavorante, o olhar estende-se até aos confins da noite cósmica esvaziada, os túmulos estão abertos, e, num universo que se abala, as sombras voláteis dos mortos estremecem, aguardando, aparentemente, a ressurreição. É então que, a partir do alto, surge Cristo, uma figura eminentemente nobre e arrasada por uma dor sem nome. E, com um terrível pressentimento, "os mortos todos gritam-lhe: 'Cristo, não há Deus?' Ele respondeu: 'Não, não há Deus.' Então, a sombra de cada morto estremeceu, e umas a seguir às outras desconjuntaram-se. E Cristo continuou, anunciando o que aconteceu no instante da sua própria morte: 'Atravessei os mundos, subi até aos sóis, voei com as galáxias através dos desertos do céu; e não há Deus. Desci até onde o ser estende as suas sombras, e olhei para o abismo, gritando: 'Pai, onde estás?' Mas apenas ouvi a tormenta eterna, que ninguém governa". Quando, no espaço incomensurável, procurou o olhar divino, não o encontrou; apenas o cosmos infindo o fixou petrificado "com uma órbita ocular vazia e sem fundo, e a eternidade jazia sobre o caos e roía-o e ruminava-se". O coração rebentou de dor, quando as crianças sepultadas no cemitério se lançaram para Cristo, perguntando: 'Jesus, não temos Pai?' E ele, debulhado em lágrimas, respondeu: 'Somos todos órfãos, eu e vós, não temos Pai'. "Nada imóvel, petrificado e mudo! Necessidade fria e eterna! Acaso louco e absurdo! Como estamos todos tão sós na tumba ilimitada do universo! Eu estou apenas junto de mim. Ó Pai, ó Pai! Onde está o teu peito infinito, para descansar nele? Ah! Se cada eu é o seu próprio criador e pai, porque é que não há--de poder ser também o seu próprio exterminador?"

Para Jean Paul, a morte de Deus não é ainda um destino espiritual inevitável, mas apenas a tentação de uma possibilidade ameaçadora, contra a qual quer prevenir. Quando acordou do pesadelo ateu, a sua alma "chorava de alegria, por poder de novo adorar a Deus - e a alegria e o choro e a fé nele era a oração".

3. Um século depois (1882), o louco de Nietzsche proclamou a morte de Deus: "O louco saltou para o meio deles e trespassou-os com o olhar. 'Quem vos vai dizer o que é feito de Deus sou eu', gritou! "Quem o matou fomos todos nós, vós mesmos e eu!"

"Nunca existiu acto mais grandioso." Mas, ao mesmo tempo, Nietzsche não se mostra completamente eufórico. "Para onde vamos nós, agora? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?"

4. O filósofo Gilles Lipovetsky escreveu, comentando, que Deus morreu e os homens não estão preocupados com isso. Mas outro filósofo, Leszek Kolakowski, disse que desde então nunca mais houve ateus serenos.

Lá está, pelo menos, a pergunta dos versos de H. Heine: "E continuamos perguntando,/uma e outra vez,/até que um punhado de terra/nos cale a boca./Mas isto é uma resposta?"

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Morreu o P.e Martina, dos livros de História da Igreja



Morreu o historiador Giacomo Martina. Quem, como eu, estudou história da Igreja pelos quatro volumes de “La Iglesia, de Lutero a nuestros dias” não deve deixar de assinalar o facto.

Martina, jesuíta, morreu no dia 6 de fevereiro, véspera do dia da morte de Pio IX, a quem o historiador dedicou uma obra de três volumes e de quem foi um opositor da beatificação.

Eu nem sabia que Martina ainda era vivo há dias. Ou que publicou 397 títulos. Mas como tenho os seus quatro volumes de História da Igreja sempre à mão, na edição espanhola (ver foto ao fundo), por causa das efemérides que às vezes assinalo por aqui, quero prestar-lhe a minha homenagem.

Cito que o que Andrea Tornielli publicou no “Vatican Insider” (aqui). Um historiador livre, como devem realmente ser os historiadores (e os teólogos). Mais admiro Martina s.j.
"Ele tinha – observou ainda Grazia Lo Parco – um modo totalmente próprio de ensinar a história da Igreja, de buscar as fontes, de escrever com lealdade, sem remorso. Quem vinha de uma formação literária antes que teológica sintonizava com ele sem dificuldade, porque a história é história, sem outros adjetivos tendenciosos. A sua leitura, superando no tempo antigos separações, alargava horizontes, levantava perguntas, dava orientações sóbrias e seguras. Como sábias pinceladas, a história saía esboçada em sínteses inesquecíveis, jamais cansativas". 
E quando ele participava de algum congresso distintamente secular, talvez sobre o Risorgimento, ele brincava lembrando ser o único secular da assembleia. "Ele sempre convidou os seus alunos – conclui Lo Parco – a estarem presentes nos espaços culturais amplos, a não se fecharem em um gueto, a se confrontar, a se deixar interrogar, a se pôr em discussão. A sua lealdade lhe custou caro, mas também lhe abriu muitas portas e muitas consciências. A sua dedicação é uma herança preciosa". 
É significativa a recordação de Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, professor, historiador e hoje ministro italiano para a Cooperação Internacional e a Integração: "Fiquei profundamente triste com o falecimento do padre Giacomo Martina, esplêndida figura de estudioso e de sacerdote".

Atualizado no dia 11, às 21h.

Kenosis

O Porto só tem "dois mil fiéis"



No JN de hoje. Deve ser uma figura de estilo a diocese do Porto, com mais de quatrocentas paróquias e outros tantos padres ter só dois mil fiéis. Mas não me admira que interpretem à letra. Na realidade, pelo texto, quase parece que é isso que D. Clemente quer dizer.


Acrescento depois do meio-dia (agradeço a Rui Almeida, que me alertou para a informação):



Os teólogos estão sem parceiros


Os teólogos estão sem parceiros: a cultura moderna não tem apreço pela disciplina deles. O público julga-a difícil; os cientistas consideram a sua argumentação inverificável; os filósofos censuram-lhe o seu carácter híbrido, pois ela quer seguir um caminho de razão sem renunciar a uma fidelidade incondicional à Escritura bíblica ou a uma Igreja instituída; os políticos acusam-na de idealismo: as suas exigências éticas pertenceriam mais ao domínio da convicção do que ao da responsabilidade. A cultura contemporânea condenaria os teólogos ao exílio: eles não compartilham dos grandes interesses das nossas sociedades, habitam as margens onde se refugiam as questões encobertas.

Christian Duquoc na introdução de "A Teologia no exílio. O desafio da sobrevivência da teologia na cultura contemporânea", Ed. Vozes, pág. 9

Dignidade e democracia


"A democracia não é simplesmente uma questão de procedimentos; a democracia é uma questão de ideias, ideais e compromissos morais. Que mais ensinou de importante para a democracia a civilização cristã da Idade Média à Europa Ocidental? O Cristianismo ensinou ao homem europeu a sua própria dignidade".

George Weigel

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Deus não cabe nas nossas fronteiras



Não podes fazer Deus católico, Deus está para lá das fronteiras e delimitações que construímos. Ele não se deixa dominar nem domesticar.

Card. Carlo Maria Martini

P.e José Nuno ao DN: "É preciso definir uma política da morte em Portugal"

No DN de 31 de janeiro de 2012. Resposta a um leitor que estranhava não se ter falado do Padre José Nuno neste blogue (aqui).

Alegre, Rio, Belém, Torgal, Bragança e Veiga falam dos feriados



Na "Visão" de hoje. Gosto muito de expressão "talibans do ultraliberalismo". Se há alguma coisa que os talibãs são é liberais. Pois. Continuo a achar - provavelmente para desgosto de alguns leitores que por aqui passam - que o que falta a Portugal é um decente liberalismo, com respeito pela lei democrática e premiador do mérito. Ditaduras, socialismos, comunismos, maoismos... já tivemos e temos em doses suficientes.


Quanto aos feriados, desde que não tirem o domingo... Quoniam sine dominico non possumus (aqui).

Uma grande cruz na capa do "i"

Capa do "i" de hoje.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O católico fala da presença; o reformado, da graça. Mas ambos concordam na alegria

A alegria é o sinal mais infalível da presença de Deus.
Pierre Teilhard de Chardin


O riso é o coisa mais próxima da graça de Deus.
Karl Barth

Não nos falte a memória



"Sucedeu-se uma nova geração, para a qual o Concílio é um evento muito distante e aparentemente de outro tempo, de um tempo em que ela ainda nem havia nascido e, com relação ao qual, ela não tem nenhuma relação pessoal, como, ao contrário, a minha geração tinha. A essa nova geração é necessário explicar com esforço o que aconteceu então e entusiasmá-la com relação a isso. Para isso, é preciso uma sólida hermenêutica do Concílio".

Card. Walter Kasper. Lido aqui.

Compreender um cão


Compreender um texto é como compreender um cão, uma previsão de tempo,
ou seja,
é aceitar que não se fala,
que se não compreende, excepto pela companhia.

Maria Gabriela Llansol

Êxito

A figura do Crucificado desvirtua totalmente qualquer pensamento orientado no sentido do êxito.


Dietrich Bonhoeffer

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

7 de fevereiro de 1778. Voltaire entra para a Maçonaria



Voltaire (1694-1778) entrou para a loja maçónica Les Neuf Soeurs de Paris, aos 84 anos, no dia 7 de fevereiro de 1778, três meses antes de morrer. Voltaire ingressou no templo maçónico apoiado no braço de Benjamin Franklin, que era então embaixador dos EUA na França (primeiro país a reconhecer a independência dos EUA). A sessão foi dirigida pelo "venerável" Mestre Lalande, na presença de 250 irmãos. O irmão Voltaire  morreu no dia 30 de maio de 1778.

O que sabe do Vaticano II?



O Concílio Vaticano II foi o maior acontecimento eclesial do séc. XX (há quem dê esse título às aparições de Fátima). Mas o que sabe realmente do Concílio? Faça este teste e avalie os seus conhecimentos sobre alguns aspetos mais factuais deste grande acontecimento.

1. O Papa que convocou o Concílio foi:
a) João XXIII
b) Paulo VI
c) João Paulo II
d) Bento XVI

2. Um concílio é…
a) Uma reunião de teólogos
b) Uma reunião de bispos
c) Uma reunião de leigos
d) Uma reunião de bispos, teólogos e leigos

3. Quantos bispos participaram no Vaticano II?
a) Mais de dois mil
b) Entre mil e dois mil
c) Menos de mil
d) Menos de 200, um por país

4. Quantos concílios ecuménicos houve até hoje?
a) 11
b) 21
c) 31
d) 41

5. Quantos anos durou o Concílio?
a) 1
b) 2
c) 3
d) 4

6. Quantos documentos saíram do Concílio?
a) 4
b) 8
c) 12
d) 16

7. Os documentos conciliares, como os do Papa, são identificados pelas primeiras letras das suas primeiras palavras em latim. O que significa GS?
a) Gratia et sacrificium (Graça e sacrifício)
b) Gadium et sapientiae (Alegrias e sabedorias)
c) Gaudium et spes (Alegrias e esperanças)
d) Gratia et salvatio (Graça e salvação)

8. No espírito de João XXIII, qual a palavra que melhor definia o espírito do Concílio?
a) Anatema sit
b) Perestoika
c) Statu quo
d) Aggiornamento

9. Após um concílio, quase sempre há católicos que não o aceitam. O grupo mais significativo que não aceita o Vaticano II são aos…
a) Lefebvrianos
b) Veterocatólicos
c) Protestantes
d) Jansenistas

Respostas
1. a) João XXIII. Os restantes papas estiveram no Concílio, Paulo VI (cardeal Montini) como arcebispo de Milão; João Paulo II (Karol Wojtyla) primeiro como auxiliar e depois como arcebispo de Cracóvia; Joseph Ratzinger, não sendo padre conciliar por ainda não ser bispo, colaborou enquanto teólogo. Era perito e consultor do cardeal Joseph Frings, arcebispo de Colónia.

2. b) Uma reunião de bispos (“concilium”, do latim, quer dizer reunião, assembleia) para tratar de matérias de interesse para a Igreja. O Vaticano II foi uma reunião de bispos. Leigos e teólogos participaram na retaguarda, auxiliando os bispos.

3. a) Participaram mais de 2000 bispos. O último documento a ser votado teve 2391 votantes.

4. b) 21. O Vaticano II foi um concílio ecuménico, isto é, para toda a igreja, representada por todos os bispos católicos (“ecuménico” deriva da palavra grega que significa “terra habitada”; este termo também é usado, noutro sentido, para o diálogo entre confissões cristãs). Pode haver concílios regionais e nacionais.

5. c) O Vaticano II durou três anos e três meses, de 11 de outubro de 1962 a 8 de dezembro de 1965. Neste período realizaram-se quatro etapas conciliares, nos últimos três ou quatro meses de cada ano. Quando João XXIII convocou o Concílio esperava que este durasse cerca de um ano.

6. b) 16 documentos. Quatro são constituições (os de maior importância); nove são decretos e três são declarações.

7. c) Gaudium et spes, nome da constituição pastoral sobre “A Igreja no mundo atual”. O documento começa assim, sendo uma das frases mais citadas do Vaticano II: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”.

8.d) Aggiornamento, que se pode traduzir por atualização, adaptação, “estar em dia”. João XXIII deixou claro, desde o início, que o Concílio não seria dedicado a condenar erros mas a procurar a atualização da doutrina da Igreja face à sociedade contemporânea. (“Anatema sit”, “seja anátema”, era a expressão usada nos antigos documentos da Igreja para condenar os erros; “Perestroika” foi a expressão usada por Gorbachov para a “reestruturação” da URSS; “satu quo” é uma expressão latina para referir o “estado atual” da coisas).

9. a) Lefebvrianos. D. Marcel Lefèbvre (1905-1991), francês, bispo missionário, primeiro participou com entusiasmo no Concílio, mas no final repudiou tudo o que diz respeito à liberdade religiosa, à procura da união com as outras confissões cristãs e ao diálogo inter-religioso, à colegialidade episcopal e à liturgia na língua de cada comunidade. À sua volta congregou muitos dos que não gostaram da renovação conciliar. Atualmente a Igreja católica dialoga com este movimento. Porém, a não aceitação do Vaticano II tem impedido aproximações efetivas.

[Os veterocatólicos (ou Velhos Católicos ou Igreja de Utreque), oriundos principalmente da Áustria, Alemanha e Holanda, não concordaram com o que saiu do Vaticano I (1870), nomeadamente o que diz respeito à infalibilidade papal. Hoje integram a Comunhão Anglicana.

Os Protestantes não são a reação a um Concílio, mas de alguma forma estão unidos na rejeição do Concílio de Trento (séc. XVI), no qual a Igreja católica repudiou muitas das pretensões de Lutero e Calvino e iniciou a Contra Reforma.

O jansenismo foi um movimento surgido na França e na Bélgica, no séc. XVII, caracterizado por grande pessimismo antropológico e excessivo rigor moral. Influenciou quer católicos (por exemplo na exigência de um estado de perfeição quase impossível de alcançar para poder comungar) quer protestantes.]

Pais não deixam filhos únicos ser padres

Notícia do JN de ontem. Uma notícia, um estudo, deste tipo pode ter imensas leituras. Uma delas é que há uma  intermediação sociológica do chamamento divino. Afinal, na perspetiva católica, a vocação sacerdotal é um chamamento pessoal de Deus.

No fundo, o estudo leva a supor que Deus devia chamar mais os pais a terem filhos. O problema sacerdotal é um problema de sexualidade. Outra vez.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

6 de fevereiro de 1608. Nasce António Vieira, imperador da língua portuguesa

Lima Duarte a fazer de António Vieira no filme "Palavra e Utopia", de Manoel Oliveira


O Padre António Vieira nasceu no dia 6 de fevereiro de 1608. Nasceu em Lisboa e morreu na Baía, Brasil, no dia 18 de julho de 1697. Mas poderia ter morrido noutro sítio qualquer, porque,como dizia, "para nascer, Portugal; para morrer, o mundo".

Nascer pequeno e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra. Para nascer, Portugal: para morrer, o mundo. 
Sermão de Santo António, em Roma, na Igreja de Santo António dos Portugueses, 1670

Catedral para ateus

 
Recorte da revista "Visão"

Alain de Botton tem vindo a defender que os ateus precisam de um templo, já que têm direito às mesmas coisas que os crentes, pelo menos no que diz respeito a arte, ética, templos, espiritualidade, silêncio. A ideia aparece em embrião num livro sobre o trabalho (aqui referido). Num curso de empreendedorismo, relatado na obra, Botton propôs a criação de uma capela para ateus. Os outros empreendedores não acham lá grande piada ao assunto.



Botton desenvolveu a ideia e volta a propô-la no novo livro, "Religion for atheists", onde preconiza um Ateísmo 2.0, livro ainda sem tradução em português, que eu saiba, mas certamente com as edições D. Quixote já a trabalhar nisso.


O templo. Com umas pombinhas cima. Podiam ter arranjado outro pássaro. Ou querem dizer que o Espírito Santo paira sobre todo o projeto bem intencionado? 


A ideia do templo do ateísmo - que eu acho simpática, quem sabe se não se convertem ao transcendente? - tem sido bastante criticada pelos ateus mais duros como Richard Dawkins, que diz que um templo para ateus é uma contradição nos próprios termos. Alain de Botton responde que "há muita gente que não crê, mas que não é agressiva contra as religiões".



O templo, a construir em plena City londrina - parece que já existe metade da verba necessária, um milhão de libras no total -, já tem projecto de Thomas Greenall e Jordan Hodgson. Os seus 46 metros de altura simbolizam os 4,6 mil milhões de anos da Terra (1 milhão de anos por centímetro). O primeiro metro estará revestido a outro, representando a existência da humanidade.


Copiei as duas últimas imagens daquiAgradeço a Luís Custódio que me enviou o recorte da "Visão", quando estava, precisamente, a ler umas coisas sobre este assunto.

Dois bispos transformados em números

Na revista de domingo do "Correio da Manhã" (5 de fevereiro). O novo Bispo de Lamego.


Aproveito para acrescentar a página saída na mesma revista, no dia 24 de julho, para gáudio de uma série de frequentadores deste blogue.

Confiar

Mentira: As pessoas confiantes são mais ingénuas.
Facto: As pessoas confiantes não têm mais hipóteses de serem enganadas do que as desconfiadas.


John C.  Maxwell 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

5 de fevereiro de 1821. Abre o Museu do Hermitage


Madona Litta 

O Museu do Hermitage, em Sampetersburgo, abriu no dia 5 de fevereiro de 1821, embora a sua fundação remonte a Catarina, a Grande, no séc. XVIII. No Hermitage (seis edifícios históricos, incluindo o Palácio de Inverno dos imperadores russos, mais alguns edifícios fora do conjunto) há mais de três milhões de peças, o que faz deste museu um dos maiores do mundo em obras de arte. A sua coleção de pintura é reconhecidamente a maior e inclui estes duas Madonnas de Leonardo da Vinci ou dos seus seguidores.


Madona e o Menino com flores (ou  Virgem Benois)

Pregação de Frei Bento Domingues

Pregação de Bento Domingues no "Público" deste domingo. Nem abstrata nem chata. Os problema das pregações não está nas abstrações, que até podem ser úteis. Está na vagueza, nas generalidades ocas (felicidade, verdade, bem, justiça...), no desconhecimento da Escritura, na insignificância para a vida, na falta de beleza, até mesmo na ausência de sentimento.

O que me incomoda na Bíblia


O que me incomoda na Bíblia não são os textos que não compreendo. São justamente os que compreendo.


Mark Twain (1835-1910)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Teologia no exílio


Conta o teólogo A. T. Robinson (teólogo liberal e bispo da Igreja anglicana, autor do célebre "Honest to God"; e provavelmente ainda mais célebre pelos debates com C. S Lewis; morreu em 1983) que, num encontro do partido trabalhista, nos anos 60, Gaitskell propôs alterações aos estatutos do partido. Harold Wilson, que foi várias vezes primeiro ministro britânico até 1976, também trabalhista, opôs-se dizendo que tudo aquilo não passava de "teologia", no sentido de "afirmações teóricas acerca de coisas sem pertinência nenhuma para a ordem prática".

Robinson escreve que a reputação de teologia estava a mudar. Isto foi no final dos anos 60. Mais depressa mudaram os estatutos do partido, que só regressaria ao poder no final dos anos 90 com o New Labour de Tony Blair, "his Toniness", como lhe chamava Jeremy Clarkson, do que a percepção contemporânea do que é a teologia.

Christian Duquoc, num pequeno mas valiosíssimo da editora Vozes, diz que a teologia está no exílio ("Teologia no Exílio. O desafio da sobrevivência da teologia na cultura contemporânea"). Leitura para os próximos dias.

Grande Interregno dos valores

G. Gusdorf citado por Georges Minois citado por A. Borges no livro aqui referido:
A humanidade do ano 2000 "vive no Grande Interregno dos valores, condenada a uma travessia do deserto axiológico de que ninguém pode prever o fim".
Georges Gusdorf, um francês de ascendência alemã e judaica, nasceu em 1912, em Bordéus, e morreu no dia 12 de outubro de... 2ooo. Mais uma ideia dele aqui.

História do homem que nos possibilitou viver cada segundo



A história de Jost Bürgi, o homem que criou o primeiro relógio com a indicação dos segundos, é contada no Estação Cronográfica. Pelo meio aprendemos mais sobre o tempo, as torres das igrejas e a evolução da astronomia.
Jost Bürgi nasceu a 28 de Fevereiro de 1552, na aldeia de Lichtensteig, de que o avô era ferreiro e administrador de uns 400 habitantes, na região suíça de Toggenburg. Numa Europa varrida pelos ventos da Reforma, descendente de família católica, possivelmente dividido de sentimentos, Bürgi emigrou cedo, não se sabendo ao certo onde terá aprendido o ofício de relojoeiro, depreendendo-se que a arte metalúrgica lhe veio de casa. Terá passado por Nuremberga, Augsburg, Cremona, na altura grandes centros relojoeiros.

Guilherme IV, em carta de 14 de Abril de 1586, dirigida ao maior astrónomo da altura, Tyhco Brahe, fala-lhe de um relógio extraordinário, muito preciso, que Bürgi tinha construído no ano anterior e que, pela primeira vez tinha, além dos ponteiros das horas e dos minutos, um indicando os segundos, e que acumulava um erro de menos de um minuto em 24 horas. O landgrave estava maravilhado com o suíço, que tinha “a capacidade de inovação de um segundo Arquimedes”, traduzida no “pars minuta secunda” da nova máquina de medir o tempo.
Bürgi morreu no dia 31 de janeiro de 1631, a 2.419.200 segundos de fazer 80 anos.

"Feriados para quê?", pergunta Anselmo Borges


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Não esperava voltar aos feriados. Se volto, é por causa da troika e do debate que se gerou. Não creio que o atraso nacional se deva propriamente aos feriados ou que seja a sua supressão que nos vai fazer dar um salto em frente. As razões do atraso - a ordem é arbitrária - são mais fundas: sem negar manchas felizes de excelência, uma educação coxa; falta de produtividade; não temos uma cultura do trabalho - a religião também influenciou; uma industrialização atrasada; o velho encosto ao Estado protector, que engordou desmesuradamente; incompetência na governação; assimetrias sociais gritantes; a corrupção e a aldrabice atávicas - não apareceram agora, por causa do fisco, mais de cem mil filhos inexistentes, e, nos centros de saúde, dois milhões de utentes-fantasmas?; excesso de administradores nas empresas públicas, com privilégios e prémios imerecidos; justiça lenta e sentida como desigual; desemprego galopante; uma multidão ondulante pendurada da política e dos partidos; cumplicidades entre a política e interesses privados... Quando se lê o estudo recente "A Qualidade da Democracia em Portugal: a Perspectiva dos Cidadãos", há razões sérias para preocupação.

Mas compreendo até certo ponto o projecto em curso, sobretudo porque há a tendência para as "pontes" e todo o problema dos gastos por causa da produção em cadeia.

Claro que o homem precisa de trabalhar. Essa é mesmo uma das suas características: é transformando o mundo que se humaniza. E esta relação com o mundo é mais do que uma relação de trabalho para a produção de bens para a subsistência, porque o trabalho é também realização própria, social e histórica, já que é construindo o mundo que a humanidade ergue a sua história de fazer-se. Cá está: o desemprego não é então dramático apenas por colocar em risco a subsistência, mas também a realização de si e o reconhecimento devido ao facto de contribuição na obra comum. Portugal precisa de responsabilidade no trabalho, de boa gestão, de educação e formação excelentes, de iniciativa e empreendimento, justiça social, estímulos salariais.

Mas o ser humano não se define apenas pelo trabalho. A sua relação com o mundo e com os outros é também de gáudio, de gratidão, de criação, de contemplação da beleza. O seu ser não se esgota na produção: destrói-se a si próprio, quando vive para sobreviver. Pelo contrário, sobrevive para viver, e viver tem em si a sua finalidade, e, nesse viver, estão presentes e gozosos a festividade, o "luxo", o gratuito, a alegria genuína e expansiva de ser, o inútil do ponto de vista da produção - "o fascinante esplendor do inútil", escreveu George Steiner.

Feriado quer dizer, atendendo ao étimo, precisamente dia festivo. Vale em si mesmo e por si mesmo. Tem a sua finalidade em si próprio e não é meio para outra coisa, concretamente para que os trabalhadores recuperem forças para poderem trabalhar outra vez e mais. É da natureza do feriado ser um acontecimento não programado: é um "luxo", uma "graça" inesperada. Para haver tempo para a família e o homem lembrar-se de que é criador festivo e não simples besta de carga.

Dimensão essencial do feriado é também a comemoração de um acontecimento importante, constituinte da identidade de um povo. Lá está a memória, a história e a simbólica.

No que se refere aos chamados "feriados religiosos", julgo que a Igreja lidou mal com o problema, ao situar-se no plano de reivindicação perante o Estado: dois feriados religiosos face a dois civis. No quadro de boas relações mútuas, a Igreja não pode nem deve colocar-se no plano da igualdade com o Estado, pois são ordens diferentes.

Deveria antes ir pela positiva e situar-se no plano daqueles feriados que, cultural e historicamente, estão para lá das pessoas religiosas, nos quais os portugueses em geral se vêem incluídos. Assim, a Páscoa celebra-se ao domingo. O Natal também é a festa da família. O dia dos Santos e dos Defuntos refere-se à memória, ao confronto com a morte e ao sentido da vida. A Imaculada Conceição é a Padroeira e lembra as mães. Na Sexta-Feira Santa, celebra-se o melhor: o amor, a entrega, a generosidade.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

3 de fevereiro, dia de S. Brás

Diz a lenda que o arménio Brás, de Sebaste, para fugir às perseguições, se escondeu num caverna, onde cuidou de animais doentes e feridos.


O esconderijo não durou sempre, foi descoberto e levado para ser torturado com um pente de cardador e decapitado.


No caminho, curou um jovem que quase morria sufocado com uma espinha na garganta. Por isso é o santo que se invoca nas dores de garganta. Morreu no ano 316. Os cardadores também o invocam como patrono.

D. Januário Torgal versus Camilo Lourenço

Ontem, D. Januário Torgal Ferreira, um bispo que não é propriamente conhecido pela prudência nas palavras, já que nem sempre a razão acompanha a contundência, falou ao DN sobre a situação social e política do país. Hoje, Camilo Lourenço responde-lhe no "Jornal de Negócios".



Resistir ao anti-intelectualismo


Num artigo sobre teologia e razão, Claude Dagens, que é bispo de Angoulême, diz que a superação do fideísmo, no interior da Igreja, é "uma tarefa sempre a recomeçar" . "E é uma tarefa de grande fôlego, pois supõe que saibamos resistir a este anti-intelectualismo tão tenaz, em virtude do qual há crentes que têm medo do trabalho da inteligência".

Sem endeusá-la, é preciso não ter medo do trabalho da inteligência. É um saudável princípio para o acção da Igreja, aquilo a que se chama pastoral. Pastoral com inteligência.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

2 de fevereiro de 2005. O Papa aceita a renúncia de D. Pedro Casaldáliga


Pedro Casaldáliga (Barcelona, 16 de fevereiro de 1938), uma das vozes maiores da teologia da libertação, deixou a prelazia de S. Félix do Araguaia, no Mato Grosso, do dia 2 de fevereiro de 2005, dia João Paulo II aceitou a sua renúncia por motivos de saúde.

Este bispo ordenado ao ar livre – a melhor catedral, como dizia – não tinha anel de ouro, nem mitra, muito menos brasão. Usava e usa um anel de tucum (há vídeos no youtube que explicam porquê). Tinha como lema “nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”.
Os seus escritos podem ser lidos aqui.

   AL MISIONERO ANÓNIMO
   
   Quizás no daba más tu teología,
   del Reino y de un imperio servidor,
   salvar y conquistar la paganía,
   cruzado entre las armas y el Amor.


   La espada tu Evangelio desmentía,
   los yelmos apagaban tu fervor,
   ¡la mucha sangre de tu Eucaristía
   no era sólo la sangre del Señor!


   ¿Pudo la Pascua hacernos gente esclava?
   ¿Qué nueva libertad nos liberaba
   en las violentas aguas del Bautismo?


   ¿Qué paz traían tus atadas manos?
   ¿Hacía de verdad hijos y hermanos
   el Padre Nuestro de tu catecismo?

Descer o nível

No JN de hoje. Sobre a sucessão do cardeal o que há? Nada de novo. Só o diz que diz que diz. Quanto às eleições da CNIS, a história é outra. Mas confundir o Manuel Germano com o género humano, como dizia  Mário de Carvalho, não é lá grande jornalismo.



Elevar o nível


W. G. Sebald

Um leitor queixa-se que o meu blogue está a descer de nível. É capaz de ter razão. Mas, como dizia o outro antes de fugir do pântano, “não é estrutural, é conjuntural”. Espero não ser desmentido pela realidade, como a crise que dura há mais de uma década desmente o antigo ministro.

É conjuntural, no meu caso, porque não se sai incólume de uma avaria do computador principal. Trabalho habitualmente em três, mas quando avaria aquele a que estamos mais afeiçoados, o trabalho ressente-se. Em janeiro só “postei” 103 vezes, muito abaixo da média. Mas as coisas estão a mudar, como dizia Bob Dylan.

Para aumentar o nível, nada como citar Mandelstam, que dizia que “o romance tem provavelmente as suas raízes nas respostas seculares às biografias dos santos”, o que quer dizer que mesmo os intelectuais (felizmente, intelectual não poder o “c”) não devem deixar de olhar para “aquele vasto brocado musical roído por traças” a que chamamos religião. Quer isto dizer que não faltam assuntos de grande nível para abordar aqui. Faltarão outras coisas, não matéria. O que está entre aspas é de W. G. Sebald, que, se ainda houver dúvidas, contribui decisivamente para subir de nível.

Para evitar o “genuíno fedor escolástico” - a expressão é de um antigo aluno de jesuítas, James Joyce – não vou dizer de onde tirei as citações de Mandelstam e Sebald. O meu caríssimo leitor que se queixa da descida de nível decerto saberá encontrá-las no agradável bosque de Jacob.

Está escrito


A escrita é um dispositivo de procura.

Mário Cláudio

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Bem apanhado

Alexandre Herculano com Almeida Garrett e José Estêvão. Na Assembleia da República.


Querer é quase sempre poder. O que é excessivamente raro é o querer.

Alexandre Herculano (1810-1877)

Qual o livro maldito?


O blogue Pós dos Livros lançou a votação para o "Livro Maldito por excelência". Aqui.
Qual o livro que tem implícito mais preconceito, mentira, racismo, etc.? Qual o livro que originou mais ideias perigosas? Em nome de que livro se praticaram as maiores atrocidades? Muitas listas de livros malditos poderiam ser feitas. As escolhas são sempre subjectivas. O nosso critério é tão subjectivo quanto outros. Tentámos escolher dez livros marcantes que abrangessem vários temas como religião, política, história, ciência, filosofia, educação, actualidade, etc. O mal poderá não estar nos livros em si, mas no uso ou interpretação que deles são feitos. Como se costuma dizer: «o perigo não vem de ler muitos livros, mas de ler apenas um».
Os livros em que se pode votar são:
- A Bíblia
- O Alcorão
- A Bíblia Satânica
- Mein Kampf
- Manifesto do Partido Comunista
- O Príncipe
- Autobiografia política
- A Origem das Espécies
- O Relatório Hite
- Meu Filho, Meu Tesouro

Quando consultei e votei, o livro de Hitler liderava com 42% dos votos, seguido da Bíblia, com 33%. Só votaram 219 pessoas e falta apenas um dia para terminar a votação. Obviamente, a votação não tem qualquer rigor, mas é curioso, significativo, talvez preconceituoso, que tenham inserido a Bíblia na lista. E sarcástico que esteja lá o de Cavaco. Não chega para ter piada.

Mística de olhos abertos

Disse Mestre Eckhart (1260-1328):
Se alguém estivesse num êxtase como S. Paulo e soubesse que um enfermo precisava que lhe levasse um pouco de sopa, eu consideraria muito melhor que por amor abandonasse o êxtase, servindo o necessitado com um amor maior.
E Ruysbroek (1293-1381), um pouco depois, afirmou:
Se estás em êxtase e o teu irmão precisa de um remédio, deixa o êxtase e vai levar o remédio ao ter irmão; o Deus que deixas é menos seguro que o Deus que encontras.
Lido em "Religião e Diálogo Inter-religioso", de Anselmo Borges.

"Religião e Diálogo inter-religioso", livro de Anselmo Borges


Só hoje tive acesso a um livrinho de Anselmo Borges, embora me lembre do entusiasmo de Bento Domingues num dos seus textos, na altura em que o livro saiu, Setembro de 2010 (recorde aqui).

"Religião e Diálogo inter-religioso", n.º 8 da coleção "Estado da Arte", da Imprensa da Universidade de Coimbra, é, muito provavelmente o que de melhor se escreveu sobre religião, religiões e diálogo inter-religioso nos últimos tempos. 136 páginas que me valeram uma maravilhosa manhã de leitura.

Num excursus, o professor e padre fala de A. Comte-Sponville. Não é irrelevante a particularização. Comte-Sponville, com a razão de afirmar que crê que Deus não existe (escreve Borges citando o filósofo francês: “Se alguém disser que sabe que Deus não existe, «não é em primeiro lugar um ateu, mas um imbecil», do mesmo modo que, se alguém disser que sabe que Deus existe, «é um imbecil que toma a sua fé por um saber». Cada um com as suas razões, tanto o ateu como o crente, têm fé”), é exemplo daqueles que procuram uma espiritualidade, “no quadro de um certo tipo de experiência mística, feito de evidência, de plenitude, silêncio, experiência oceânica, simplicidade, eternidade”.

A segunda parte, sobre o diálogo inter-religioso, tem de ser de leitura obrigatória para quem se interessa minimamente pelas religiões e culturas. E avança bastante em relação ao que há 50 anos ficou consagrado no Vaticano II.

Uma questão tauromáquica, por Dietrich Bonhoeffer


O fanático crê poder enfrentar o poder do mal com a pureza dos seus princípios. Mas, tal como touro, lança-se contra a muleta vermelha em vez de fazê-lo contra o toureiro. Desta forma, cansa-se e sucumbe. Enreda-se no acessório e cai na ratoeira de lhe põe o mais sagaz.

Dietrich Bonhoeffer (1943)
Nota: Não fazia a mínima ideia de que o pano com que o toureiro toureia se chama muleta. Mas assim é, tanto em espanhol como em português.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...