quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Os "pingos amargos" do sr. Pingo Doce



Bento Domingues referiu há dias (ver aqui e comentários), na sua crónica, a entrevista que Alexandre Soares dos Santos deu a Anabela Mota Ribeiro (revista “2” do “Público” de 2 de setembro). Aqui ficam os “pingos amargos” do acionista principal da Jerónimo Martins.

(…) Sou católico, crente, praticante, e gostava, se na realidade houver alguma coisa para lá, de encontrar o meu pai (…). 
Tem na sala uma fotografia com o Papa João Paulo II. Foi importante para si o encontro com ele? O que é que representou? 
Foi importante conhecê-lo, mas o Papa que conheci era um Papa com muita idade. Era uma reunião privada, organizada por um padre muito nosso amigo. Eu tinha esperado uma hipótese de… falar. 
Sobre o quê? 
Por que é que a Igreja é tão lenta a reformar-se? São coisas que discuto como bispo D. Manuel Clemente. Por que é que não se devem admitir mulheres padres? Por que é que não se há-de admitir o casamento? Por que é que a Cúria Romana é constituída por uns tipos que têm 80 anos, que não sabem nada de nada da vida, que estão ali fechados? (…) 
A conversa com o Papa seria para discutir a sociedade. Não seria para falar dos seus problemas íntimos. Tudo está direccionado para o domínio social. 
Filha, quando se chega à minha idade, sei exactamente para onde vou. (...)
Tanto diz coisas que politicamente consideraríamos à esquerda como outras à direita. 
Mas isto não é um problema de esquerda ou de direita. Eu não sou de esquerda nem de direita. O António Barreto diz-me que sou um conservador liberal. Sou é cristão. Não digo que sou católico. Sou cristão. Como tal, tenho um conjunto de valores e princípios que tenho de respeitar (...).

"Jornal de Negócios" atento à viagem do Papa ao Líbano


É uma viagem importante, a de Bento XVI, às "Suíça do Médio Oriente", na próxima sexta, sábado e domingo. Mas importante todas as do Papa devem ser, porque ele não tem tempo a perder. Veio no "Jornal de Negócios" desta quarta-feira. De assinalar.

Cardeal Maradiaga: "No podemos seguir haciendo más de lo mismo"


O cardeal Maradiaga (arcebispo hondurenho, presidente da Cáritas Internacional, por alguns apresentado como “papabile” em 2005, quando se pensava que a Igreja poderia virar ao sul - mas este último aspeto não faz parte do seu currículo) esteve em Espanha, nos Pirinéus, para dar um retiro. E deu também uma entrevista. Pode ser lida aqui. Extraí o que chamou a atenção. Pareceu-me “mais do mesmo”, mas ele diz que não se deve ir por aí. Ou então, desejos vinho novo sem reparar que os odres estão velhos. E rotos.
Experiência de Cristo 
No habrá nueva evangelización sin nuevos evangelizadores, sin una auténtica "conversión pastoral". No podemos seguir haciendo "más de lo mismo", sino renovar el corazón misionero y no esperar que las personas vengan a nuestras parroquias, sino salir a buscar las ovejas. Hay nuevos areópagos y patios de los gentiles que esperan la Palabra de Dios. Si estamos llenos del ardor misionero de San Pablo, cuyo corazón palpitaba ¡"Ay de mí si no Evangelizo"!, el año de la Fe será una fuerte motivación para transmitir la "antorcha de la Fe" siempre ardiente y radiante a las nuevas generaciones de este milenio. No se trata simplemente de comunicar ideas sino de favorecer un encuentro personal con Cristo vivo, una auténtica experiencia de Cristo. 
Medo do risco e da aventura 
La juventud de hoy como ayer vibra ante las causas nobles. Si sabemos comunicar la alegría del Evangelio también ellos responden. El problema está muchas veces en el lenguaje. A veces pienso que en nuestras parroquias necesitaríamos ayuda de "foniatras espirituales". Vivimos en un mundo nuevo, lo que significa un territorio por explorar. Podemos tener miedo al riesgo y a la aventura. Nos parece que en el siglo XXI ya no hay nada que explorar. Pero...la humanidad sigue cambiando, no es estática. La gente cambia. Se siguen formulando nuevas maneras de ser en el mundo. 
Se nos presenta una nueva humanidad por interpretar: interpretar a fondo lo que está sucediendo. Debemos esforzarnos para entender a los jóvenes. Y entonces debemos considerar la comunicación de la Buena Nueva. 
Não nos entendem 
Hemos dejado de hablar el lenguaje del mundo actual. Cada vez menos gente nos entiende. Por eso pocos nos escuchan. Otra vez enfrentamos el problema de la comunicación. El lenguaje supone emisor y receptor. No estamos en la frecuencia y el receptor no nos entiende. ¿Cómo interpretar a la nueva humanidad, a la nueva juventud si no conocemos el lenguaje del mundo de hoy? 
Mundo mediático 
Vivimos un nuevo contexto cultural y mediático: lo que se mueve es el mundo de las percepciones, no de las realidades. Toda la herramienta mediática actual crea percepciones. Los Medios de Comunicación Social modifican la percepción social. La herramienta más espectacular es internet. En muchos países el adolescente promedio pasa 28 horas o más ante internet a la semana. Si va a la Iglesia, ¿lo máximo sería una hora? Se está produciendo un tipo de joven nuevo. A veces en ambientes hostiles a la Fe y en campañas constantemente sostenidas contra la Iglesia.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Gore Vidal e a Igreja Católica. Detesta-a, pois.


Gore Vidal morreu no dia 31 de julho de 2012. Eu devia (queria) tê-lo referido aqui, mas afazeres inadiáveis – como as férias – não me possibilitaram tal texto. Não foi a única coisa que queria ter feito e não fiz cá por estes lados.

E porquê assinalar a sua morte? Basicamente porque escreveu um livro sobre Jesus, “Em Directo do Calvário”. Subtítulo: “O Evangelho segundo Gore Vidal”. Saiu na Dom Quixote em 1994. Na altura, não me lembro de qualquer vestígio de polémica, mas o livro, apodado de “a mais escandalosa novela de Vidal”, “uma sistemática subversão de todos os valores”, diz a Newsweek, põe discípulos a sapatear, estações de televisão em guerra para a transmissão em direto do Calvário e Paulo com uma capacidade de persuasão que faz esquimós comprarem frigoríficos. O livro é narrado por um discípulo de Paulo, Timóteo, bissexual, que se converte porque “que mais se pode fazer aos domingos numa pequena cidade como Listra?”

O livro não tem qualquer pretensão histórica, embora use dos conhecimentos de história antiga de Gore Vidal, que é autor de “Juliano, o Apóstata”, e é claramente anticristão e anticatólico (e também antijudeu ou, talvez mais corretamente, antissionista). Mas fascina-me sempre que alguns arreligiosos ou ateus como Vidal não resistam a abordar a figura de Jesus Cristo, mesmo que tentem ridicularizá-lo. E parece que os alvos últimos da paródia são os republicanos e os sionistas dos EUA. Adiante.


Mas se me lembrei hoje de Gore Vidal foi porque li na “Ler” deste setembro, num texto de Eduardo Pitta, esta citação (Pitta diz que as suas preferidas não são citáveis na revista – citado e citador são homossexuais, é necessário dizê-lo –, pelo que, por exclusão, fica esta):
Se eu fosse Presidente ou estivesse, de qualquer outro modo, no governo de um país bem administrado, a primeira coisa que faria era proibir à Igreja Católica ensinar qualquer pessoa. Não lhe permitiria manter escolas, pois vejo a educação religiosa como contrária aos melhores interesses da República. Onde a Igreja Católica tem dominado, nunca a sociedade foi democrática.
Para terminar, nunca tinha pensado numa citação preferida de Gore Vidal, mas há uma que me vem com alguma frequência à memória quando se fala de assunto maior da política internacional. Está num dos prefácios (o livro tem dois; o outro é de Edward Said) de “História judaica, religião judaica. O peso de três mil anos”, de Israel Shahak (ed. Hugin, 1997):
 (…) Nenhuma outra minoria na história Norte-Americana conseguiu desviar tanto dinheiro dos contribuintes norte-americanos para investir no “lar nacional” [como os judeus dos EUA]. É como se o contribuinte norte-americano fosse obrigado a apoiar o Papa na sua reconquista dos Estados Pontifícios simplesmente porque um terço do nosso povo é católico.
Discordo de Gore Vidal em quase todos os assuntos (mas não, não defendo a restauração dos Estados Pontifícios). Só que ele bateu-se pelo direito a discordar, apesar de, pelos vistos, negar o direito de educação à Igreja Católica. Mas escreveu também: “Deixem pluralismo e diversidade ser o nosso objetivo”. A melhor comunhão é a de diferentes.

Gore Vidal (1925-2012)

Cardeal Martini no "Expresso". É de tirar o fôlego, mas no sentido literal


No "Expresso", o português, da semana passada. Julgo que nunca tinha lido um parágrafo tão grande na imprensa portuguesa como o primeiro deste texto. Perdi-me. Nem sei onde está o predicado.

Monumento português em Espanha

No "i" de hoje. Cá está um monumento português que nunca visitei. Passou mesmo à final. Pode-se votar aqui.

Mais

A vida é mais bela do que a prudência.

Abbé Pierre em 1995

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Dois bispos do Porto falam dos sacrifícios económicos dos portugueses

A entrevista a D. Januário Torgal Ferreira vem no DN de hoje. A de D. Manuel Clemente veio no "Correio da Manhã" de ontem. Ambos ligados ao Porto. D. Januário é natural do Porto. D. Clemente é bispo do Porto. Ambas as entrevistas em jornais da Lisboa. Mas tons, modos, conteúdos muito diferentes. Nesta caso concreto, porque o assunto de fundo é o mesmo, prefiro a clareza, os modos, a humildade, também, de D. Manuel Clemente. Basta ler a primeira resposta de cada entrevista.


Diz o velhinho aos adolescentes


A geração atual é a primeira geração planetária da história. Vai ser condenada a três realidades.

Tudo saber e, portanto, nunca mais poder dizer «eu não sabia».

Partilhar a terra, o trabalho e os saberes: para enfrentar a explosão demográfica e as novas pobrezas.

Ocupar o tempo livre; para afrontar a pré-reforma e o desemprego maciço nos países industrializados.


Abbé Pierre (1912-2007) numa mensagem às crianças de dez a catorze anos da Génération Planète (meados dos anos 90)

sábado, 8 de setembro de 2012

O "Ecce Homo" da senhora Giménez continua a inspirar

O "Ecce Homo" da senhora Cecilia Giménez tornou-se um fenómeno cultural digno de estudo. Não é só a questão do humor, da paródia. Nisto também está o poder do rosto, da imagem crística, da nossa cultura que oscila entre o iconoclasmo e a adoração da imagem.

Agora está no Wallpeople de Barcelona,uma espécie de muro das lamentações dedicado à criatividade pessoal, mais ou menos anónima.


FB e devidos links aqui.

Vídeo sobre o que é o Wallpeople:
Wallpeople Barcelona 2012 from Wallpeople on Vimeo.

Anselmo Borges: "Uma igreja outra é possível"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):



No dia 8 de Agosto, em jeito de testamento espiritual, deu a sua última entrevista, no Il Corriere della Sera, afirmando que a Igreja precisa de "uma mudança radical. A começar pelo Papa e pelos bispos". Preocupava-o uma Igreja 200 anos atrasada, sem vocações, agarrada ao bem-estar: "os nossos rituais e vestimentas são pomposos." "Na Europa do bem-estar e na América, a Igreja está cansada." Três instrumentos para sair deste esgotamento: "O primeiro é a conversão. Deve reconhecer os próprios erros. Os escândalos de pedofilia obrigam-nos a empreender um caminho de conversão. As perguntas sobre a sexualidade e sobre todos os assuntos que dizem respeito ao corpo são um exemplo. Devemos perguntar-nos se as pessoas ainda escutam os conselhos da Igreja em matéria sexual. A Igreja é ainda uma autoridade de referência ou apenas uma caricatura nos media?" O segundo conselho e o terceiro têm a ver com a recuperação da palavra de Deus e dos sacramentos como ajuda e não como castigo.

O cardeal Carlo M. Martini morreu na semana passada. Lúcido, e depois de ter recusado a obstinação terapêutica. Perito em crítica textual do Novo Testamento, foi arcebispo de Milão durante 22 anos e um intelectual eminente. Homem de diálogo - é um best-seller a obra Em Que Crê quem não Crê, debate com o agnóstico Umberto Eco -, era a figura mais brilhante do Colégio dos Cardeais.

Em 2008, exprimiu, com coragem, o seu pensamento sobre questões fundamentais para a Igreja e para o mundo actual, num livro de conversas com outro jesuíta, G. Sporschill: Colóquios Nocturnos em Jerusalém. Aí, interrogava-se: "Quando o Reino de Deus chegar, como será? Como será, depois da minha morte, o meu encontro com Cristo, o Ressuscitado?"

Causava-lhe preocupação "a falta de coragem". "A Igreja deve ter coragem para reformar-se", pois ela "precisa constantemente de reformas". "Porque eu próprio sou tímido, digo a mim mesmo na dúvida: coragem!" Atreveu-se a pôr Lutero, "o grande reformador", como exemplo, recordando que "a Igreja católica se deixou inspirar pelas reformas de Lutero no Concílio Vaticano II". A Igreja actual tem "medo", mas, se Jesus voltasse, "lutaria com os actuais responsáveis da Igreja", recordando-lhes que "não devem estar fechados em si mesmos, mas olhar para lá da própria instituição".

Foi sempre fiel à "sua" Igreja, que devia ser "uma Igreja simples, com menos burocracia", pobre, humilde, que não depende dos poderes deste mundo, uma "Igreja inventiva", "jovem", que dá ânimo sobretudo aos mais pequenos e pecadores, que luta pela justiça, mais colegial, e que volte ao Concílio, pois "há a tendência de afastar-se dele".

Sobre a juventude e a sexualidade, incluindo as relações pré-matrimoniais: "nestas questões profundamente humanas, não se trata de receitas, mas de caminhos." A Igreja deve ir ao encontro de uma sexualidade que não está "reservada ao confessionário e ao âmbito da culpa", uma sexualidade "sã e humana", com "uma nova cultura que promova a ternura e a fidelidade".

Foi sensível no trato com os homossexuais e compreendia o uso do preservativo. Confessou que a encíclica Humanae Vitae, em 1968, com a proibição da "pílula contraceptiva", "é co-responsável pelo facto de muitos já não tomarem a sério a Igreja como parceira de diálogo e mestra". Mas estava convicto de que "a direcção da Igreja pode mostrar um caminho melhor do que o da encíclica". Procuramos "um novo caminho" para falar sobre a sexualidade, a regulação da natalidade, a procriação medicamente assistida. Contra o celibato obrigatório, disse que era preciso "debater a possibilidade" de ordenar homens casados e de abrir a ordenação às mulheres.

Reconheceu as suas "dúvidas de fé". "Combati com Deus", "porque, quando vejo o mal do mundo, fico sem alento e entendo os que chegam à conclusão de que Deus não existe". Mas acreditava que "o amor de Deus é mais forte", e o inferno está vazio.

Alguma imprensa inglesa definiu-o como o "Papa perfeito para o século XXI". Como seria a Igreja, se Martini tivesse sido Papa? De qualquer modo, ele foi um exemplo de que uma Igreja outra é possível.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

7 de setembro de 1867. Nasce Camilo Pessanha



O poeta Camilo Pessanha, autor de “Clepsidra”, nasceu no dia 7 de setembro de 1867, em Coimbra, e morreu no dia 1 de março de 1926, em Macau.

Voz débil que passas,
Que humílima gemes
Não sei que desgraças...
Dir-se-ia que pedes.
Dir-se-ia que tremes,
Unida às paredes,
Se vens, às escuras,
Confiar-me ao ouvido
Não sei que amarguras...
Suspiras ou falas?
Porque é o gemido,
O sopro que exalas?
Dir-se-ia que rezas.
Murmuras baixinho
Não sei que tristezas...
_ Ser teu companheiro? _
Não sei o caminho.
Eu sou estrangeiro.
_ Passados amores? _
Animas-te, dizes
Não sei que terrores...
Fraquinha, deliras.
_ Projetos felizes? _
Suspiras. Expiras.

O meu carro é mais papista do que o teu


A Renault ofereceu um carro elétrico ao Papa, notícia do DN de hoje, mas a germano-católica Mercedes já prepara um papamóvel híbrido. E Bento XVI, que decerto preferia estar com os seus livros nos tempos livres, lá tem de fazer o frete.


Por que razão não haverá um concílio nos próximos 50 anos



Ando a ler um livro maravilhoso (com tantos que há para ler, é uma insensatez perder tempo com obras menos do que isso) para assuntos como Deus, fé, crença, ciência, tradição e teologia: “Existe Deus? – Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo”, de Joseph Ratzinger e Paolo Flores d’Arcais. É de 2009, na Pedra Angular. E tem como texto inicial um célebre debate entre os dois autores da capa, realizado em 21 de fevereiro de 2000, no Teatro Quirino, em Roma.

A certa altura (pág. 69), a concluir o debate, pergunta o entrevistador:
Quarenta anos depois, vê o Cardeal Ratzinger naquele acontecimento [II Concílio do Vaticano] um dos elementos da crise do cristianismo europeu? Ou seja, houve em si uma mudança?
Joseph Ratzinger responde:
Uma mudança, não. Penso sempre que aquele esforço era necessário, que era a altura de abrir novos trilhos da linguagem e do pensamento teológico, e de granjear um novo encontro com o mundo, uma nova profundidade da fé, sobretudo também no diálogo com os nossos irmãos, as Igrejas não católicas. 
Neste sentido, parece-me que foi um acontecimento providencial, necessário, mas… com a comparação da intervenção cirúrgica queria ainda mostrar que um acontecimento benéfico não implica logo, necessariamente, os efeitos positivos esperados. E tenho um ilustre predecessor, o grande teólogo Gregório de Nazianzo, justamente denominado, como “o” teólogo. Havendo sido convidado pelo imperador para o Concílio de Constantinopla, depois das anteriores experiências que tivera com outros concílios, disse: «Nunca mais irei a um Concílio, porque só cria confusão», tal era o seu desespero. 
Eu não me expressaria assim, mas foi ele que o disse: um Concílio, como mensagem, como ação, digamos como intervenção profunda na vida das Igrejas, é necessário, mas ao mesmo tempo suscita também novas complicações… e estamos numa fase quem que temos de enfrentar essas complicações.
Paolo Flores d’Arcais acrescenta, provocando risos e aplausos:
Também porque naqueles Concílios acabavam por decidir os imperadores; hoje, felizmente, são os Bispos que, pelo contrário, decidem.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Paulo e as mulheres



O bom das polémicas é que nos dão oportunidade de aprofundar temas, de procurar livros que de outro modo não seriam lidos, de descobrir novas perspetivas sobre assuntos mais ou menos consolidados. Foi assim com diabo/demónio e é assim as mulheres e a ordenação.

Uma abordagem desta última questão, numa linha clássica e segundo o velhinho método de escutar as fontes, exige que se veja o que pensou e disse São Paulo, para além das palavras e ação de Jesus e do que vem nos outros escritos neotestamentários, seguindo depois para a história pós-apostólica. São Paulo importa porque é o maior missionário, é o fundador de comunidades, leva o cristianismo (ou pelo menos é o grande impulsionador) para o centro do império romano. E o cristianismo é em grande parte paulino.

Ora, no Ano Paulino (2008-2009), um basicamente inútil ano para o conhecimento de Paulo e da Bíblia em geral, apesar dos esforços de Bento XVI, se pouco se ficou a conhecer de Paulo, ainda menos de “Paulo e as mulheres”. Mas foi publicado em português, nas Paulinas, um título que só aborda esta questão. O autor principal é o dominicano irlandês Jerome Murphy-O’Connor, que é reconhecidamente uma autoridade sobre São Paulo, com a colaboração das teólogas italianas Cettina Militello e Maria Luisa Rigato.

O livro é muito esclarecedor porque mostra (lista não exaustiva):
a) a perfeita igualdade mulher-homem no desempenho dos ministérios nas comunidade de Paulo;
b) que as mulheres eram “ministras” e lideravam comunidades;
c) que Júnia é mesmo apóstola (e "Junius" ou "Junias", termos que aparecem em algumas Bíblias, como a “de Jerusalém”, não aparecem em nenhum outro documento da época de Paulo);
d) que as mulheres podem falar e falam nas assembleias, sendo a proibição de 1 Co 14,34-35 uma intromissão posterior, na linha das outras cartas que também são atribuídas a Paulo, mas, sabemos hoje, não são do Apóstolo.

Concluindo uma parte, Jerome Murphy-O’Connor escreve um capítulo intitulado “Temos de escolher”. Visto que as cartas de Paulo e as atribuídas a Paulo (Cartas a Timóteo e a Tito) são contraditórias (as de Paulo afirmam a completa igualdade nos ministérios; as outras denotem posições antimulheres ou antifeministas), mas tanto umas como outras são canónicas (“o que conta é a aceitação pela Igreja e não a autoria”), “temos de escolher”.

Cito, porque penso que não podia ser mais claro:
Aqueles que querem ordenar mulheres, podem apelar para as cartas autênticas de Paulo. Não podem, todavia, ficar satisfeitos e pensar que estão a obedecer às Escrituras, porque isso não é verdade: observam apenas uma parte das Escrituras. Devem enfrentar o facto de que estão a rejeitar, implicitamente, a autoridade das outras cartas canónicas, que é idêntica. 
Do mesmo modo, os que não querem que as mulheres sejam ordenadas podem apelar para 1 Timóteo e Tito. Não podem, contudo, sentir-se fortalecidos ou justificados por terem as Escrituras do seu lado, porque estas, só em parte, os apoiam. Devem reconhecer que a sua opção significa, necessariamente que estão a rejeitar a autoridade de Paulo” (pág. 49-50).
 Como Paulo, neste assunto (e noutros), me parece mais fiel ao espírito de Jesus, estou com Paulo.

Eclesialmente estamos em 1812, no tempo de Pio VII

Na "Visão" desta quinta-feira.

A entrevista em questão, pode ser lida em português aqui na íntegra.

A Igreja ficou 200 anos para trás. Como é possível que ela não se sacuda? Temos medo? Medo ao invés de coragem? No entanto, a fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança, a coragem. Eu sou velho e doente e dependo da ajuda dos outros. As pessoas boas ao meu redor me fazem sentir o amor. Esse amor é mais forte do que o sentimento de desconfiança que às vezes eu percebo com relação à Igreja na Europa. Só o amor vence o cansaço. Deus é Amor. Eu ainda tenho uma pergunta para você: o que você pode fazer pela Igreja?

Jesus e o burro

Escreveram em hebraico, nas paredes do Mosteiro de Latrún, em Jerusalém, "Jesus é um burro" (li aqui).




Nada de novo, afinal, já que a primeira representação da crucifixão de Jesus, do início do séc. III, crucifica, precisamente, um destes animais.


Grafito de Alexamenos, em Roma

A inscrição hebraica não estaria errada se em vez de "é um", tivesse "vai de". Jesus vai de burro. Os evangelhos confirmam.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Sacerdotes do “pensamento único”


Na polémica que começou no “Público” e extravasou para os blogues, sobre a "História de Portugal" de que Rui Ramos é autor e co-autor e que foi distribuída em fascículos pelo “Expresso” (basicamente, em resumo, começou com um artigo do historiador Manuel Loff a dizer que Rui Ramos suaviza a ditadura do Estado Novo), Fernando Rosas escreve (em apoio de Manuel Loff; mas só me interessa aqui o uso da linguagem religiosa):
O que julgo intelectualmente inaceitável é que alguns dos candidatos do costume a sacerdotes do “pensamento único” venham ameaçar com a excomunhão do seu mundo civilizado quem não aceitar o que eles parece quererem transformar numa espécie de cartilha “normalizadora” do salazarismo e da sua representação histórica.

Público: A liberdade do cardeal que discutia com Deus


No "Público" de hoje recorda-se o Cardeal Martini.

Adivinhe quem disse que a teologia deve pensar no que deve "deixar cair" e "inteiramente renovar"

Quem disse isto numa entrevista?

A teologia não atua num universo vazio e, por isso, deve continuamente interrogar-se sobre qual o horizonte em que está situada, a que ponto se chegou, que devemos deixar cair, que devemos inteiramente renovar. Perante uma visão do mundo, por muitos aspetos radicalmente nova, elaborada no século XX, a teologia vê-se perante a tarefa de repropor a questão de como poderá a fé conservar a sua identidade e, ao mesmo tempo, também renovar-se.

a) Joseph Ratzinger
b) Carlo Maria Martini
c) Karol Wojtyla
d) Hans Kung

Resposta: a) Joseph Ratzinger, numa entrevista de Patrick Bahners e Christian Geyer publicada em "Existe Deus?", de Joseph Ratzinger e Paolo Flores d'Arcais, ed. Pedra Angular, 2009.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Como um pedaço de madeira pode ter mudado a direção da Igreja

Martini no conclave de 2005

O jesuíta James Martin (ver a partir daqui algumas referências a este padre) conta na “America” (revista e sítio dos jesuítas dos EUA) um episódio curioso e engraçado do cardeal Carlo Maria Martini. Traduzo daqui.

Estou muito contente por o meu amigo Thomas J. Fitzpatrick, S.J., que há uns anos me contou esta história maravilhosa sobre o Cardeal Carlo Martini, s.j, me ter permitido partilhá-la consigo. Está apenas ligeiramente editada a partir do que ele me enviou hoje. É simultaneamente engraçada, provocadora e comovente, e fala bem alto sobre humildade. Ouvimos com regularidade este tipo de histórias, contadas e recontadas, e descritas como “apócrifas”, mas esta não é.
Quando eu era superior do Pontifício Instituto Bíblico de Jerusalém, levava com regularidade o Cardeal Martini ao aeroporto quanto ele tinha de viajar, ele que era membro da nossa comunidade de jesuítas. Antes do conclave papal de 2005, o núncio papal na Terra Santa, arcebispo Pietro Sambi, convenceu o Cardeal a usar os serviços VIP no aeroporto de Tel Aviv. Assim, no dia antes de o levar ao aeroporto por causa do conclave, informei a segurança do aeroporto de que iria chegar com o Cardeal Martini. Chegámos na manhã seguinte, pelas 4 da madrugada, e fomos guiados para uma sala num edifício reservado do resto do aeroporto. 
As viagens para o aeroporto com o Cardeal Martini eram ocasiões para conversas descontraídas, mas esta manhã particular tinha uma aura diferente. Eu estava espantado por um membro da minha comunidade, da qual era superior, não só participar no conclave, mas ser apontado com um dos principais favoritos. Eu sabia que o Cardeal Martini não queria ser Papa. 
Por isso, em parte a brincar, mas também com muita seriedade, disse-lhe quando foi chamado para embarcar: “Carlo, eu sei que não queres ser Papa; eu sou o teu superior religioso e os jesuítas devem obedecer aos seus superiores; permite-me que te diga que se fores eleito Papa, por favor, aceita”. Rimos; abracei-o e ele partiu para o conclave. 
Quando o Cardeal Martini regressou do conclave, voltei ao lugar especial para o cumprimentar, na sua chegada. Depois de passarmos pelos “check points” do aeroporto e estarmos a caminho de Jerusalém, disse-lhe que estava um bocado zangado com ele. Tinha visto muito do Cardeal nas reportagens televisivas, e reparara que estava a usar a sua bengala. 
Por isso, disse-lhe: “Eu sei que não tens de usar a tua bengala, e julgo que apareceste com ela para mostrar às pessoas como estás doente. Estou certo?” 
“Sim”, disse ele. 
Depois disto, na casa de Jerusalém, poderei apontar para a bengala do Cardeal e dizer: “Aqui está o pedaço de madeira que mudou a direção da Igreja Católica”.
Esta história alinha com o que diz o porta-voz dos bispos portugueses, um jesuíta, aqui

Multa ao Santuário de Fátima pode chegar aos 250 mil

No "i" de hoje. Assuntos do mundo. É curioso que a decisão passe pelo vereador Nazareno do Carmo. Nazareno multa Fátima.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Cardeal em más companhias


Cardeal Timothy Dolan

O arcebispo de Nova Iorque presidiu à oração conclusiva da convenção dos republicanos, na Flórida, e vai presidir a ato idêntico na convenção dos democratas, em Charlotte, no dia 6 de setembro. Depois vai ao jantar da fundação Al Smith, em outubro, com Obama e Romney (um de uma confissão protestante e o outro mórmon, ambos com vices católicos). As críticas ao cardeal Timothy Dolan têm chovido de todo o lado e ele teve de fechar os comentários do seu blogue (aqui). As pessoas não estão preocupadas com a ementa e a saúde do cardeal, mas sim com as companhias. Por isso D. Dolan deixou estas frases:

Afinal, sinto-me encorajado pelo exemplo de Jesus, que foi atacado pelos seus críticos por comer com aqueles que alguns consideravam pecadores; e tendo isso em conta, se eu só me sentasse à mesa com pessoas que concordam comigo e eu com elas, ou com aquelas que são santas, estaria sempre a tomar as refeições sozinho.

Outra de D. Dolan aqui. E outra, sobre Igreja e imagem, aqui.

Nota: O realce é involuntário. Não sei porquê, de vez em quando isto acontece.

Aparição ou delírio de crente?


No "Expresso" de sábado passado.  Refere René Lamertin. Não será René Laurentin? Texto muito confuso. Mas assinale-se que é positivo que haja um saudável ceticismo. Ou uma crítica séria.

domingo, 2 de setembro de 2012

E o que disse ela?

Conta-se que São Bernardo estava a rezar diante de um altar de Nossa Senhora. De repente Maria abre a boca e começa a falar. "Cala-te! Cala-te!", grita Bernardo, desesperado. "As mulheres não podem falar na Igreja".

Cardeal Martini. Últimas palavras


Um texto no “Público”, só online, recorda o cardeal Martini. Excertos:
A edição deste sábado do jornal "Corriere della Sera" divulga aquela que foi a última entrevista do cardeal, que há dez anos sofria de Parkinson. Na conversa, gravada no mês de Agosto, o cardeal diz que "a Igreja está cansada... e os nossos lugares de oração estão vazios". 
Num dos últimos [livros], "Colóquios Nocturnos em Jerusalém" (ed. Gráfica de Coimbra), diz: “Sim, desejo uma Igreja aberta, uma Igreja cujas portas estejam abertas à juventude, uma Igreja com horizontes vastos. A Igreja não se tornará atraente por adaptações ou por ofertas tíbias. Eu confio na palavra radical de Jesus, nessa palavra que temos que traduzir para o nosso mundo como ajuda para a vida, como Boa Nova que Jesus quer trazer." 
Na entrevista publicada pelo Corriere della Sera, Martini – cujo funeral se realiza segunda-feira – dizia, referindo-se ao catolicismo: "A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes e estão vazias e a burocracia aumenta, os nossos ritos religiosos e as vestes que usamos são pomposos." 
No seu último livro, sobre a figura do bispo, o cardeal diz que aquele deve ser antes de mais "íntegro, honesto, leal, capaz de não mentir nunca, paciente, misericordioso, pronto a oferecer esperança a quem sofre, mas, acima de tudo, um homem verdadeiro, capaz de ouvir a todos, mesmo não crentes, separados, divorciados e homossexuais". 
A falta "dramática" de padres, o papel da mulher na Igreja e na sociedade, a sexualidade, as relações com os ortodoxos e o ecumenismo em geral, bem como a relação entre a democracia e as leis morais, eram temas para os quais Martini propunha novas abordagens da Igreja e a necessidade de debate num novo concílio.

Reproduzo também um texto do cardeal sobre a morte. A sua morte. Tirei daqui.
Mais de uma vez eu lamentei com o Senhor pelo fato de que, morrendo, não tirou de nós a necessidade de morrer. Seria tão bonito poder dizer: Jesus também enfrentou a morte em nosso lugar, e, mortos, poderemos ir para o Paraíso por um caminho florido. 
Ao invés, Deus quis que passássemos por esta "dura viela" que é a morte e que entrássemos na escuridão que sempre dá um pouco de medo. Eu me pacifiquei novamente com o pensamento de ter que morrer quando compreendi que, sem a morte, nunca chegaríamos a fazer um ato de plena confiança em Deus. De fato, em cada escolha comprometedora, nós sempre temos "saídas de segurança". Ao invés, a morte nos obriga a confiar totalmente em Deus. 
O que nos espera depois da morte é um mistério, que requer da nossa parte uma confiança total. Desejamos estar com Jesus, e expressamos esse desejo de olhos fechados, às cegas, colocando-nos totalmente nas suas mãos.
Desejamos também nós gozar daquela paz interior que vence toda ansiedade e se confia a Deus com todo o coração.

O último texto que o cardeal Martini assinou no espaço semanal que tinha no “Corriere della Sera” pode ser lido aqui.

sábado, 1 de setembro de 2012

A relação difícil da Igreja com as mulheres jovens

Sobre a Igreja e as mulheres nos dias que correm, vale a pena ler a entrevista do brasileiro IHU ao teólogos Benedetta Zorzi (freira beneditina, ligada à organização das teólogas italianas) e Armando Matteo (padre, ligado à pastoral universitária). Este último é autor de “La fuga delle quarantenni. Il difficile rapporto delle donne con la chiesa” (A fuga das quarentonas. A difícil relação das mulheres com a igreja).

Duas perguntas e respostas:
IHU On-Line – Quais as dificuldades para se tentar construir uma Igreja “a duas vozes”, com homens e mulheres participando da mesma forma? 
Maria Benedetta Zorzi e Armando Matteo – De um lado, certamente há uma mentalidade segundo a qual o laicato e, portanto, obviamente, as mulheres – duas vezes leigas – são chamadas a participar plenamente da gestão da vida eclesial; de outro, as próprias mulheres não fazem o suficiente para mudar essa mentalidade e muitas vezes, tendo introjetado valores femininos androcêntricos, são as mais estrênuas defensoras de um sistema que as penaliza.
Outro elemento é a ignorância dos padres, sobretudo dos mais jovens, em nível histórico e teológico. Acrescente-se a isso a desorientação identitária do homem jovem ocidental. Diante de uma reflexão secular da mulher sobre a sua identidade, sobre os seus papéis e sobre a mudança da sua autopercepção, não houve uma reflexão equivalente do homem sobre si mesmo, sobre o seu papel, sobre quem ele deve ser com respeito a essa mulher que mudou. Se, como diz o Magistério, a antropologia católica é dual, então, se um polo muda, o outro também deve mudar necessariamente.
Cada vez mais temos homens jovens incapazes de fazer frente a uma relação com as jovens adultas de hoje, capazes, afirmadas socialmente, livres, autodeterminadas, pessoal, física e projetualmente... com todas as consequências que isso implica. A Igreja Católica ainda parece ser o único baluarte em que um jovem ocidental pode continuar não pondo em discussão a sua identidade masculina. Se pensarmos no que o padre deveria fazer na Igreja Católica, no modo em que esse papel é hoje apresentado, não é de se admirar que esse papel atraia pessoas com dificuldades identitárias. Também não devemos nos admirar se o resultado desse conúbio emerja com consequências muitas vezes desagradáveis. 
IHU On-Line – Por que, apesar dos inúmeros textos eclesiais do Concílio Vaticano II sobre a importância das mulheres, ainda existe na Igreja uma forte tensão entre as declarações de princípio e a prática em confiar a elas funções de responsabilidade? 
Maria Benedetta Zorzi e Armando Matteo – Porque não se refletiu o suficiente sobre o papel do padre, sobre as modalidades de gestão do poder, das paróquias, porque não se promove explicitamente e com força a formação teológica das mulheres, porque se conecta ainda muito estreitamente a liderança à ordenação ministerial. As aberturas da Igreja para as mulheres de 50 anos atrás nos parecem apenas tímidas hoje, mas eram apropriadas para as mulheres e para o mundo de 50 anos atrás. Hoje, depois de um Magistério que falou de gênio feminino, sim, mas tudo somado por uma perspectiva marcada também geoculturalmente, seria preciso dar mais um passo para compreender a fundo as demandas do mundo das mulheres que está mudando rapidamente.
Ler tudo aqui.

Alguém comentou neste blogue que a ordenação de mulheres, na Igreja católica, provocaria uma debandada. Afinal, parece que não é preciso tanto.

Anselmo Borges: A teologia da libertação na Doutrina da Fé?

Gerhard L. Müller

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Uma vez, num seminário na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, um juiz perguntou-me o que é que eu pensava sobre a teologia da libertação. Disse-lhe: "Permita que lhe responda com uma pergunta: o que pensa o senhor sobre a teologia da opressão?"

Percebe-se. Se a teologia não for teologia da libertação, não será urgente bani-la, excomungá-la? Mas ele referia-se, evidentemente, a um tipo de teologia que dá por esse nome e que quer trabalhar e pensar a partir e ao serviço dos mais pobres, passando, portanto, de um cristianismo "sacral" a um cristianismo "social", e à qual o cardeal Joseph Ratzinger teceu fortes reservas.

Em 1972, foi o livro do teólogo G. Gutiérrez, Teologia da Libertação, que acabou por consagrar o seu nome. Em 1983, Ratzinger enviou à Conferência Episcopal do Peru observações críticas sobre a teologia de Gutiérrez, acusando-o concretamente de utilizar um método de interpretação marxista, fazer uma leitura parcial dos textos bíblicos e pôr o acento na economia e na política, não acautelando suficientemente a realidade religiosa e transcendente do Reino de Deus. Os bispos do Peru foram chamados a Roma em 1985 e pressionados para que o condenassem. A condenação não aconteceu, pois, como conta o teólogo X. Pikaza, foram vários a dizer que não tinha sentido "obrigá-los" a condenar um irmão crente comprometido com os pobres.

O singular nesta história é o alemão Gerhard L. Müller, que foi catedrático de Teologia na Universidade de Munique, bispo de Ratisbona desde 2002 e que, em substituição do norte-americano William Levada, que abandona o cargo por motivos de idade, acaba de ser nomeado prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o organismo responsável pela vigilância da ortodoxia. Müller não esconde a sua amizade com Gutiérrez e, por isso, há quem chegue a pensar que esta nomeação é uma espécie de reparação de J. Ratzinger.

Müller escreveu: "A teologia da libertação está para mim unida ao rosto de Gustavo Gutiérrez." Em 1988, participou num seminário dirigido por ele, e confessa: "Operou-se em mim uma viragem na reflexão académica sobre uma nova concepção teológica dirigida para a experiência com as pessoas para as quais tinha sido desenvolvida essa teologia."

E pergunta: "Como se pode falar de Deus perante o sofrimento humano dos pobres, que não têm sustento para os filhos nem direito a assistência médica nem acesso à educação, excluídos da vida social e cultural, marginalizados e considerados um fardo e uma ameaça para o estilo de vida de uns poucos ricos?" A teologia de Gutiérrez "é ortodoxa, porque é ortoprática".

Durante 15 anos passou 2 ou 3 meses por ano na América Latina, vivendo em condições muito simples, o que, como confessa, "para um cidadão da Europa central implica um grande esforço". Mas isso marcou-o profundamente e, assim, é inclemente na condenação do capitalismo neoliberal, cuja expressão sem escrúpulos são os vulture funds. "Depois da queda do comunismo, alguns pensaram que se poderia conseguir o paraíso na terra com um capitalismo desenfreado. As forças auto-reguladoras do mercado à escala mundial trariam por si mesmas o bem-estar para todos ou, pelo menos, para a maioria. A realidade é muito diferente. Foi a cobiça de homens concretos que provocou a actual crise financeira mundial, cujas consequências, mais uma vez, os pobres e os mais pobres dos pobres têm de pagar com a sua vida, a sua saúde, a morte prematura e todas as perspectivas perdidas, previstas por Deus para eles."

Deu recentemente uma entrevista ao Osservatore Romano, onde reafirma que é necessário "distinguir entre uma teologia da libertação equivocada e outra correcta", mas "qualquer teologia boa tem que ver com a liberdade e a glória dos filhos de Deus".

A sua chegada ao Vaticano não significa uma revolução - também foi prevenindo contra a "ordenação" das mulheres -, mas pode ser um bom sinal. Quer, com Paulo VI, que o aspecto positivo esteja em primeiro plano na Congregação para a Doutrina da Fé: "Ela deve, sobretudo, promover e tornar compreensível a fé, e este é o factor decisivo."

O "papabile" que queria uma Igreja mais aberta


Notícia de hoje, no "Público", sobre a morte do Cardeal Martini. O DN não traz nada na edição em papel, mas uma notícia pode ser lida aqui.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Morreu o Cardeal Martini

Morreu o Cardeal Martini. E sinto que morreu alguém da minha família.

Os preconceitos na história da relação do Vaticano com os judeus


Veio no "Q" (DN, aos sábados) de 11 de agosto. O autor é um dos colaboradores da seguinte obra (ler excertos aqui):


O grande iconoclasta


A minha ideia a respeito de Deus não é uma ideia divina. Ela tem que ser arrasada sempre de novo. O próprio Deus arrasa-a sempre. Ele é o grande iconoclasta. Não poderíamos quase dizer que essa destruição da ideia de Deus é uma das marcas da sua presença? A maioria das pessoas ofende-se com esta ação iconoclasta. Bem-aventurados os que não ofendem!

C. S. Lewis

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Tertuliano: As mulheres, essas sem pneuma, querem agora fazer ações do Espírito?

Pão, só fazê-lo. Reparti-lo, nunca.

Este texto surge como resposta a um comentário de J.S. sobre a oposição dos Padres da Igreja ao sacerdócio ministerial das mulheres (nos comentários daqui). Em vez de escrevê-lo nos comentários, ponho-o no corpo principal do blogue (algo que farei mais vezes). Agora fala-se apenas de Tertuliano.

Temos então os Padres da Igreja e a condenação do sacerdócio feminino. Foi unânime, é certo. Tão unânime que a respeito disso têm surgido algumas teses, recentes, cujo valor seria interessante debater.

Uns, pró-mulheres (da apologética feminista), dizem:

- As heresias foram mais defensoras da mulher do que a Igreja oficial.

Outros, antimulheres (do conservadorismo antifeminista) dizem:

- As mulheres eram mais dadas a correntes heréticas, pelo que a Igreja teve que proibir as mulheres de ensinar (entre outras coisas).

Não vou dizer o autor de onde colhi isto, mas, com ele, e com a autora que aponta (Anne Jensen, uma católica convertida, filha de um Nobel, falecida em 2008), também as considero erróneas.

Mais interessante, na mesma linha, seria verificar nos movimentos chamados heréticos e que dão destaque às mulheres o que é causa de quê. Se o movimento é herético por dar relevo a mulheres ou dá relevo a mulheres por causa de ser herético ou coincidindo com o ser herético. Em alguns casos, a chamada heresia está precisamente em dar relevo (mais protagonismo) às mulheres.

Outro dado significativo é o facto de “desde sempre”, em “todo o lugar”, em “todas as circunstâncias” (as expressões são minhas, mas apontam para a retórica dos que dizem que as mulheres não podem nem poderão vir a ser ordenadas) a ordenação ser proibida. Isto quer dizer, pelo menos, que “desde sempre”, em “todo o lugar”, em “todas as circunstâncias” o problema tem sido posto, mesmo que teoricamente – ou seja, não é uma questão irrelevante, nunca está resolvida ou então a resposta é não satisfaz ou não é percebido e recebida como tal. E o facto de “desde sempre”, em “todo o lugar”, em “todas as circunstâncias” a resposta ser a mesma, o não (é mesmo? julgo que não, mas a oficialidade diz sim), não significa que a justificação dessa resposta seja a mesma. Pelo contrário. E na maior parte da história cristã está subjacente uma antropologia pouco recomendável (para hoje, claro), que, entre outros aspetos, é pouco bíblica.

O caso de Tertuliano

= É curioso que um opositor à ordenação das mulheres me cite Tertuliano. Curioso porque, num outro debate (o de diabo/demónio) com a mesma pessoa, quando citei alguns autores, tentou desconsiderá-los porque em algum momento tinham sido admoestados – ou algo do género – pela autoridade eclesiástica. Pois Tertuliano, em alguns aspetos, foi considerado não ortodoxo. Mas, obviamente, defendo que mesmo os não-ortodoxos podem ser chamados ao debate. E no caso de Tertuliano, se é invocado aqui por um opositor à ordenação, espero que não seja esquecido quando o assunto em debate for o divórcio. É que Tertuliano (e não é por isto que era herético) defendeu o recasamento cristão depois do divórcio. =

Tertuliano opõe-se a que as mulheres ensinem, debatam, façam exorcismos, curas, oferecer (supõe-se que o Pão da Eucaristia)…

O que Tertuliano terá dito, por outro lado, sobre a sexualidade e a mulher? Assim de repente (ou seja, sem grandes pesquisas), leio o que ele escreveu sobre o papel da mulher na reprodução: “Ela não dá nem esperma, nem pneuma, nem matéria para o embrião, mas apenas sem dúvida o seu alimento, ao passo que o homem produz pneuma e matéria”.

E ele até explica com algum pormenor: “Enfim, na própria febre do prazer extremo, pelo qual é emitido o suco gerador, não sentimos que também se escapa de nós algo da nossa alma, ao ponto de contrairmos langor e debilidade, ao mesmo tempo que a vista diminui? Eis a substância animada, a qual vem direta da destilação da alma, como aquele suco é a semente corporal saída de um desprendimento da carne”. Ainda faltava muito para Hildegarda, a nova doutora da Igreja, descrever o orgasmo feminino.

Resumo: O homem sozinho faz tudo.

Se não há aqui uma desconsideração da mulher e conceções antropológicas insuficientes (naturalmente baseadas no conhecimento disponível na época), o que há? A mulher, que logo na reprodução tinha um papel passivo, de mero depósito, e que, como sabemos, era considerada “algo que não chegou a ser homem”, podia ensinar, ser líder, debater, fazer exorcismos, curas, oferecer a Eucaristia? De certo que a coisa nunca iria ficar bem feita. Como é que essas que não são fonte de “pneuma” querem presidir ou ser ministras para a ação do Espírito (pneuma)? – podia bem ser este o raciocínio de Tertuliano.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...