Pão, só fazê-lo. Reparti-lo, nunca.
Este texto surge como resposta a um comentário de J.S. sobre a
oposição dos Padres da Igreja ao sacerdócio ministerial das mulheres (nos comentários daqui). Em vez de
escrevê-lo nos comentários, ponho-o no corpo principal do blogue (algo que farei mais vezes). Agora fala-se apenas de Tertuliano.
Temos então os Padres da Igreja e a condenação do sacerdócio
feminino. Foi unânime, é certo. Tão unânime que a respeito disso têm surgido
algumas teses, recentes, cujo valor seria interessante debater.
Uns, pró-mulheres (da apologética feminista), dizem:
- As heresias foram mais defensoras da mulher do que a
Igreja oficial.
Outros, antimulheres (do conservadorismo antifeminista)
dizem:
- As mulheres eram mais dadas a correntes heréticas, pelo
que a Igreja teve que proibir as mulheres de ensinar (entre outras coisas).
Não vou dizer o autor de onde colhi isto, mas, com ele, e
com a autora que aponta (Anne Jensen, uma católica convertida, filha de um
Nobel, falecida em 2008), também as considero erróneas.
Mais interessante, na mesma linha, seria verificar nos movimentos chamados
heréticos e que dão destaque às mulheres o que é causa de quê. Se o movimento é
herético por dar relevo a mulheres ou dá relevo a mulheres por causa de ser
herético ou coincidindo com o ser herético. Em alguns casos, a chamada heresia
está precisamente em dar relevo (mais protagonismo) às mulheres.
Outro dado significativo é o facto de “desde sempre”, em
“todo o lugar”, em “todas as circunstâncias” (as expressões são minhas, mas
apontam para a retórica dos que dizem que as mulheres não podem nem poderão vir
a ser ordenadas) a ordenação ser proibida. Isto quer dizer, pelo menos, que
“desde sempre”, em “todo o lugar”, em “todas as circunstâncias” o problema tem
sido posto, mesmo que teoricamente – ou seja, não é uma questão irrelevante, nunca está resolvida ou então a resposta é não satisfaz ou não é percebido e recebida como tal. E
o facto de “desde sempre”, em “todo o lugar”, em “todas as circunstâncias” a
resposta ser a mesma, o não (é mesmo? julgo que não, mas a oficialidade diz sim), não
significa que a justificação dessa resposta seja a mesma. Pelo contrário. E na maior parte da
história cristã está subjacente uma antropologia pouco recomendável (para hoje,
claro), que, entre outros aspetos, é pouco bíblica.
O caso de Tertuliano
= É curioso que um opositor à ordenação das mulheres me cite
Tertuliano. Curioso porque, num outro debate (o de diabo/demónio) com a mesma
pessoa, quando citei alguns autores, tentou desconsiderá-los porque em algum
momento tinham sido admoestados – ou algo do género – pela autoridade
eclesiástica. Pois Tertuliano, em alguns aspetos, foi considerado não ortodoxo.
Mas, obviamente, defendo que mesmo os não-ortodoxos podem ser chamados ao
debate. E no caso de Tertuliano, se é invocado aqui por um opositor à
ordenação, espero que não seja esquecido quando o assunto em debate for o
divórcio. É que Tertuliano (e não é por isto que era herético) defendeu o
recasamento cristão depois do divórcio. =
Tertuliano opõe-se a que as mulheres ensinem, debatam,
façam exorcismos, curas, oferecer (supõe-se que o Pão da Eucaristia)…
O que Tertuliano terá dito, por outro lado, sobre a
sexualidade e a mulher? Assim de repente (ou seja, sem grandes pesquisas), leio
o que ele escreveu sobre o papel da mulher na reprodução: “Ela não dá nem
esperma, nem pneuma, nem matéria para o embrião, mas apenas sem dúvida o seu
alimento, ao passo que o homem produz pneuma e matéria”.
E ele até explica com algum pormenor: “Enfim, na própria
febre do prazer extremo, pelo qual é emitido o suco gerador, não sentimos que
também se escapa de nós algo da nossa alma, ao ponto de contrairmos langor e
debilidade, ao mesmo tempo que a vista diminui? Eis a substância animada, a qual
vem direta da destilação da alma, como aquele suco é a semente corporal saída
de um desprendimento da carne”. Ainda faltava muito para Hildegarda, a nova
doutora da Igreja, descrever o orgasmo feminino.
Resumo: O homem sozinho faz tudo.
Se não há aqui uma desconsideração da mulher e conceções
antropológicas insuficientes (naturalmente baseadas no conhecimento
disponível na época), o que há? A mulher, que logo na reprodução tinha um papel passivo,
de mero depósito, e que, como sabemos, era considerada “algo que não chegou a
ser homem”, podia ensinar, ser líder, debater, fazer exorcismos, curas,
oferecer a Eucaristia? De certo que a coisa nunca iria ficar bem feita. Como é
que essas que não são fonte de “pneuma” querem presidir ou ser ministras para a
ação do Espírito (pneuma)? – podia bem ser este o raciocínio de Tertuliano.