quinta-feira, 19 de julho de 2012

O de lá de cima e o outro



O cardeal Tardini não concordava com muitas das ideias e iniciativas de João XXIII, a quem considerava excessivamente «progressista». A todos os que a ele se queixavam de determinadas «novidades» dizia-lhes, estendendo os braços: "Eu não posso fazer nada em relação a isso. É o que quer o de cima..."


Informado daquele modo de se expressar, João XXIII, numa ocasião em que se encontrou com Tardini, disse-lhe: "Eminência, esclareçamos as coisas. O de cima é o Pai Eterno. Quando falar de mim, diga antes: «O do quarto andar»".

E mais limpeza

No JN de hoje.

Limpeza

No DN de hoje.

Da troika à trindade

No editorial do "Público" de ontem abundava a linguagem religiosa para falar da situação político-financeira portuguesa atual. Cito.
A que amo deve obedecer o Governo, agora que a santíssima troika já não é una nem indivisível?
(...)
Habituámo-os a ver os três tecnocratas da Comissão Europeia, Branco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional como os portadores do verbo divino do equilíbrio orçamental. E que, tal como a santíssima trindade, comungavam da unidade em que três são um e um são três. Acontece que o FMI decidiu armar-se em espírito santo (nenhuma conotação bancária) e alterou o texto sagrado da troika.
(...)
O PSD, pela voz de Jorge Moreira da Silva, não abdicou do primeiro mandamento da teimosia; à troika não pedirás mais tempo nem mais dinheiro.
(...)
O primeiro-ministro precisa de sinais (...).
Se não nem a santíssima troika está unida em torno da inflexibilidade das metas (...).

quarta-feira, 18 de julho de 2012

D 04 - Mais uns apontamentos sobre o diabo. Inclui uma fotografia dele


Um defensor da DTDD (doutrina tradicional do diabo e dos demónios) coloca três questões que entendo responder para todos os que passam por este lados, em vez de me limitar a uma resposta nos comentários.


As perguntas são:
a) o Diabo existe?
b) o Diabo pode exercer efeitos negativos sobre o ser humano, até ao cúmulo da possessão?
c) a Igreja tem poder para o evitar ou remediar?

a) o Diabo existe?

Sinceramente, creio que não existe. Há motivos para o sim e para o não. Julgo que há mais e mais fortes para o não (dados bíblicos, dados da história, da psicologia, da antropologia cultural e da teologia), entendendo "existir" no sentido mais comum que esta palavra tem. Existe como símbolo do mal, como personificação simbólica. Não existe como ser pessoal, como “anjo caído”. De qualquer forma, o tema é secundário na fé cristã-católica. A Congregação para a Doutrina da Fé afirma o seguinte e julgo que não deixa grande espaço para dúvidas sobre a pouca pertinência da questão: “É verdade que ao longo dos séculos a existência de Satanás e dos demónios nunca foi objeto de uma afirmação explícita do seu magistério”.

O mal existe? Sem dúvida. Mas não vejo porque tem de existir o diabo para explicar a questão do mal. Só complica. E soa a desculpa irresponsável.

b) o Diabo pode exercer efeitos negativos sobre o ser humano, até ao cúmulo da possessão?

Mesmo que exista, sendo sobrenatural, não possui ninguém. Não há casos de chamadas possessões que não sejam explicados por outras razões (culturais, médicas, psicológicas, histeria, sugestões, superstições, obsessões, síndromas, alucinações, paranoia, etc. etc. e, claro, embustes). Diz o velho princípio que não devemos invocar razões mais complicadas quando os fenómenos são explicáveis por razões mais simples.  

Quem diz que há possessões, apresente-as. O apelo tem sido infrutífero. A resposta de alguns que nos comentários têm defendido a teologia tradicional do diabo, incluindo as possessões, é zero. Mesmo os casos históricos clássicos (Ursulinas de Loudun, por exemplo) e aparentemente misteriosos por o possuído falar corretamente línguas desconhecidas são hoje explicados sem qualquer recurso ao sobrenatural.

O mal tem efeitos negativos sobre o ser humano? Claro. Mas essa é outra questão.

c) a Igreja tem poder para o evitar ou remediar?

Reformulo: a Igreja tem poder para o evitar ou remediar o mal?

A igreja, na sua própria identidade, na sua génese e finalidade, é sacramental, sinal de salvação. E salvação é, claro, contra o mal, todo o mal. Tem sacramentos dados por Cristo, e, como uma espécie de apêndice - alguns dizem que são uma espécie de placebos espirituais -  tem bênçãos e exorcismos, porque a história pesa e por razões de eficácia pastoral. No seu cuidado pastoral para com as pessoas que pensam que estão sob influência do demónio, os exorcismos têm efeito positivo, ainda que muito relativo. Por outro lado, alguns teólogos vêm os exorcismos como um prolongamento da reconciliação (com o próprio; com ou outros e a igreja; com Deus). Têm a ver com o mal, sim, que antes era concebido em íntima ligação ao diabo.

Os relatos de possessões disponíveis, de pessoas sérias, são geralmente relatos dos exorcistas, obviamente interessados, e, em si, os relatos, são pouco sérios. Não se encontram relatos isentos. Ou pelo menos eu não consigo ter acesso a eles (de observadores críticos, por exemplo). Em muitos casos – estou a pensar em relatos de P.e Amorth – os exorcistas passam dezenas de sessões a convencer os pacientes (chamemos-lhes assim) de que têm o demónio (embora não reconheçam que fazem isso) para depois expulsá-lo. Mais do que possessões, há obsessões das pessoas que vão aos exorcistas e dos próprios exorcistas. Não está em causa a santidade ou não dos exorcistas nem o efeito benéfico dos seus gestos. Está, sim, a verdade do que fazem.

Por outro lado, os exorcismos são algo tão reservado, com tantas reticências, com licenças superiores e tão historicamente contextualizados (parece que a tipologia das chamadas possessões muda consoante muda a história humana; e felizmente o fogo já deixou de ser um procedimento comum para lidar com pessoas que lidavam com o diabo) que podemos dizer estão em regressão. Mas parece que ao longo da história há fases de maior e menor atividade demoníaca, correlacionáveis com determinados ambientes culturais, o que é estranho. Digamos que o demónio é muito tentado pela mente humana.

Contudo, não me admirarei se a Igreja um dia destes reformular ou suprimir o ritual, não devendo deixar de atender com amor as pessoas que se dizem tentadas ou possuídas pelo demónio. Geralmente não são pessoas más. São pessoas frágeis, muito mais mulheres do que homens. E precisam de cura para essa fragilidade.

É basicamente isto que eu penso, mas não é só isto. Ah, a fotografia do diabo:



Uma bênção com quinina

Um cardeal gravemente doente mandou pedir ao Papa Pio IX uma bênção especial que tivesse a virtude de o curar. O Pontífice satisfez o pedido, mas não deixou de escrever: "Envio-lhe de todo o coração esta bênção, mas, por segurança, recordo-lhe que não deixe de tomar a quinina que lhe receitaram".

Gnoseologia



Assim como nós só chegamos a conhecer o nosso verdadeiro eu deixando-nos conhecer em Cristo e através dele, também só poderemos chegar a conhecer os verdadeiros acontecimentos do nosso tempo no Cristo-acontecimento e através dele. A nossa verdadeira história revela-se mediante a história de Cristo.


Henri J. M. Nouwen

terça-feira, 17 de julho de 2012

D 03 - Do bom trabalho dos exorcistas para o difusão do adiabismo*


P.e Gabriele Amorth

Ando a ler “Mais fortes que o mal. O demónio, reconhecê-lo, vencê-lo, evitá-lo”, do mui célebre exorcista italiano Gabriele Amorth (na Paulus). Espero aqui fazer uma crítica alargada, mas para já digo que o livro começa por ser hilariante (um exemplo: alguém faz sopa de água benta e o possesso reconhece-a, pelo que nem toca na sopa) para a seguir, com a insistência nos métodos e na omnipresença do demónio (num exorcismo, um diabo disse: “Basta que vás aos manicómios para veres quantas gente eu possuo”), passar a preocupante, tal é credulidade que difunde (lembro-me sempre que no Evangelho de João, contra a incredulidade de Tomé, Jesus não nos pede para sermos crédulos, mas crentes, que é algo bem diferente), principalmente ao insistir que se deve ter medo dos malefícios e maldições. Em muitas passagens o P.e Amorth raia a superstição, ainda que supostamente queira combatê-la.

Porém, perante um olhar minimamente crítico, este livro faz muito pela convicção da não existência do demónio e, consequentemente, ou talvez mesmo em primeiro, pela inexistência de verdadeiras possessões diabólicas.

Se temos em Gabriel Amorth um grande defensor da existência do diabo e dos demónios, porque eles, diz, são reais e fazem males reais às pessoas reais, temos que a crença no diabo sai muito mal. Convencer-se da existência do demónio depois de ler um livro como estes é capaz de ser tão improvável como alguém pôr-se a cavar à sorte no seu quintal e encontrar um baú cheio de ouro. Até pode acontecer.

Assim, se, segundo o dito de Baudelaire, a maior astúcia do diabo é ele fazer crer que não existe, temos em Gabriele Amorth um eficaz aliado do demo. Mas ele, exorcista com nome de anjo, não deve querer isso. Digamos que a credulidade ingénua - passe a redundância - dos exorcistas faz muito pelo diabo ao espalhar o ceticismo (geralmente por causa do sentido de ridículo da pessoa comum) quanto às possessões. É que apresentam imensos casos, mas nem um é extraordinário. Um demónio de mínimos, o que lida com os exorcistas que publicam livros. Mais importante seria, por exemplo, e é um conselho que dou a todos os exorcistas e demonófilos, arranjar um método credível para averiguar as possessões diabólicas. Vou em breve propor umas dicas para tal método. 


* O termo adiabismo acabei-o de inventar. Se existe ateísmo...


(Fiz uns acrescentos no último parágrafo cinco horas depois do post original.)

Menos foguetes, mais solideriedade

Já outro bispo, diz o JN de hoje, lembra, como dizem os escuteiros, que o dever começa em casa.

Alergia e aversão ao que dizem alguns bispos

Eu acredito em coincidências. E ainda mais em relações. Estava a ler um livro de Luis González-Carvajal Santabárbara ("Os cristãos num Estado laico", Gráfica de Coimbra), imediatamente depois de ter picado as notícias online (esta, por exemplo), quando dou com esta citação de Rafael Sanus, que foi bispo auxiliar de Valência:
Alguns bispos falam com tal arrogância e segurança, com um estilo tão peremptório e autoritário, que suscitam alergia e aversão naqueles que os escutam. Parece que falam sempre contra alguém ou contra alguma coisa.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

16 de julho de 1228. Clara de Assis recebe uma inesperada prenda no seu 32.º aniversário


Clara e Francisco

Suponho que não há qualquer relação no caso, mas Francisco de Assis foi canonizado no dia 16 de julho de 1228, dia em que a sua grande amiga Clara fazia 32 anos, pois nasceu em 1196.


Desconheço se Clara de Assis assistiu à cerimónia de canonização, presidida pelo Papa Gregório IX, em Assis, menos de dois anos depois da morte de Francisco (1182-1226). Mas onde quer que tenha estado, Clara deve ter sentido uma grande alegria. Uma alegria muito franciscana.

Lefebvrianos mais longe da Igreja Católica, essa pérfida?


Marcel Lefebvre, nos tempos em que era missionário no Senegal

"La Iglesia oficial languidece, ha abandonado la doctrina de Cristo, postulándose como socia del mundo ateo", diz um padre dos lefebvrianos. A frase só deixa admirado quem pensava que seria possível um regresso amistoso dos tradicionalistas à Igreja Católica.

Parece que a tentativa de união, tão promovida por Bento XVI, vai ser oficialmente repudiada pelos lefebvrianos (li aqui). Na verdade, quem pensa como o autor da frase, só faz mal se se une à Igreja Católica. E pensam assim todos os lefebvrianos. Desde o princípio. É genético na organização.

Por diversas vezes exprimi neste e noutros espaços a minha descrença quanto ao fim próximo do cisma, a par com uma certa perplexidade pelo regozijo de alguns por tal se apresentar como possível.

Quanto a mim, os lefebvrianos iriam ser uma espécie de cavalos de Troia nas paróquias, nas dioceses, nos movimentos. Dava-se-lhes uma prelatura pessoal, claro, tentando controlar os danos, mas a coisa acabaria por extravasar.

Alguns poderão pensar que tenho algo contra os tradicionalistas. Nadinha. Até gosto dos tradicionalistas, quaisquer que sejam. Há lugar para todos. Não gosto é que os tradicionalistas se arvorem em detentores do que quer que seja, geralmente da verdade.

Já agora, registo que o meu conhecimento dos lefebvrianos vem de longe, em concreto de 1988, quando apresentei um trabalho académico sobre a comunidade tradicionalista. Marcel Lefebvre ainda era vivo. Na altura li em português o “Acuso o Concílio / J’accuse le concile!” (que obviamente faz lembrar o outro “J’accuse”, ainda que os lefebvrianos não tenham propriamente simpatias para com os judeus). Também por isso, não estou a ver estes tradicionalistas a renegarem uma obra fundacional.

Títulos


Leo Longanesi (1905-1957), escritor, pintor e humorista italiano, dizia que, no Vaticano, para receber títulos, "não basta recusá-los; é preciso não os merecer".

Toda a fé

No ato de crer, [o cristão] abraça fundamentalmente toda a fé, mesmo se não pode apropriar-se de todas as consequências que a Igreja, ao longo de quase dois milénios, derivou desta mensagem.


Walter Kasper, "Introdução à fé", pág. 185.

sábado, 14 de julho de 2012

Madres da Igreja, o livro


Alguém que traduza e publique em Portugal

Foi publicado nos EUA um livro sobre as “Mães da Igreja”, ou seja, as mulheres cristãs, das quais se conhece alguma coisa, do tempo dos Padres da Igreja. O título é “Mothers of the Church: The Witness of Early Christian Women”. Os autores são Mike Aquilina e Christopher Bailey. Tive conhecimento do livro por ter lido aqui que
é um livro tremendamente bom e preenche uma importante lacuna – aqui temos um livro que se centra na influência de importantes mulheres cristãs.
A obra
destaca o fato de que o cristianismo provocou um reconhecimento revolucionário da dignidade das mulheres. Dito de forma mais simples, filhas mulheres eram frequentemente descritas como um fardo. Uma análise cuidadosa da sociedade greco-romana revela que muitas bebês meninas eram simplesmente descartadas ao nascer, entregues à morte nos esgotos.
Sobre a condição da mulher desses tempos, vale a pena recitar uma carta de um tal Hilarion, homem de negócios, escrita à sua mulher grávida:
Saiba que eu ainda estou em Alexandria. E não se preocupe se todos voltarem e eu permanecer em Alexandria. Eu peço e imploro que você cuide bem do nosso filho bebê, e assim que eu receber o pagamento, vou enviá-lo para você. Se você der à luz uma criança [antes de eu chegar em casa], se for um menino, fique com ele; se for uma menina, descarte-a.
O cristianismo, como é sabido, mudou este panorama.

Na Amazon pude ler o índice e algumas páginas. Registo as figuras femininas abordadas:

- As santas mulheres do Novo Testamento;
- Mártires e heroínas: Tecla, Perpétua e Felicidade, Blandina, Agnes de Roma;
- Poetisas e pensadoras: Macrina, a poetisa Proba, Marcela, Paula e Eustáquia, Mónica;
- Mulheres independentes: Helena, Olímpia, a viúva Proba e a peregrina Egéria.

Já agora, quais destas eram conhecidas dos leitores?

Eu conhecia Tecla (algo venerada no norte de Portugal), Perpétua e Felicidade, das ladainhas e do cânone romano (pouco usado nas missas), Mónica, mãe de santo Agostinho, Helena, mãe de Constantino (suponho que é esta), a viúva Proba, referida por Bento XVI na “Spe Salvi”, e a peregrina Egéria. Quanto a leituras, só li excertos da peregrinação que Egéria fez à Terra Santa.

Parece que o livro vale principalmente pelos textos dos Padres da Igreja que falam destas mulheres, já que só duas ou três deixaram efetivamente textos.

Anselmo Borges: "A partícula de Deus"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Para que a teoria-padrão da Física fosse validada, estava previsto, desde há cerca de 50 anos, o famoso bosão de Higgs, para dar massa às outras partículas. No passado dia 4, festejou-se no CERN, porque, mesmo que se não tenha a certeza total da descoberta da célebre partícula, houve um novo avanço científico no sentido de percebermos melhor o mundo e nos entendermos melhor a nós próprios. Foi um acontecimento histórico, a ponto de Stephen Haw-king sugerir a atribuição do Nobel a Peter Higgs, que teorizou sobre a existência do bosão.
Peter Higgs

A linguagem jornalística refere-se ao bosão de Higgs como "a partícula de Deus" - claro, os físicos não o fazem. A expressão, se não estou enganado, vulgarizou-se e teve êxito, a partir do título de um livro do Nobel da Física, Leo Lederman, que devia chamar-se The Goddamn Particle (a partícula maldita), por causa da dificuldade em observá-la, mas que o editor, temendo o impacto ofensivo da palavra, pediu para mudar. Seja como for, o bosão de Higgs não é Deus, como, em ignorância apressada e atrevida, sugeriu uma jornalista, quando, num noticiário de uma rádio nacional, atirou: foi descoberta "a partícula que substitui Deus".

Alguns pensam que esta e outras descobertas diminuirão a importância de Deus na compreensão do universo. Mas é o físico Carlos Fiolhais, da Universidade de Coimbra, que tem razão, quando diz que "não haverá consequências para as crenças religiosas, pois desde o tempo de Galileu que a ciência é uma coisa e a religião é outra".

A ciência e a religião não só não são incompatíveis como são perfeitamente compatíveis, desde que se perceba o âmbito e o método de cada uma. A prova está em que há cientistas não crentes e cientistas crentes. O que é preciso entender é que a ciência como tal não é crente nem ateia. É pura e simplesmente ciência, de tal modo que crentes e não crentes avançam para o domínio científico em pé de igualdade, com métodos científicos. A ciência não demonstra a existência de Deus, mas também não demonstra a sua não existência. Não pode fazê-lo, porque Deus não é objecto de ciência, Deus não é da ordem do verificável empiricamente.

No plano da ciência, a questão de Deus não se põe. O que se passa é que os cientistas também são seres humanos, com múltiplos interesses e pondo questões em vários âmbitos, para lá do domínio científico. Por outro lado, a realidade é infinitamente complexa e exige múltiplas abordagens. Depois, a razão é multidimensional, de tal modo que se foi percebendo que a religião não é hegemónica - entendeu-se, por exemplo, que a Bíblia não é um livro de ciência, mas um livro religioso e que, mesmo se 46% dos americanos continuam a crer que a Terra e os humanos foram criados por Deus há menos de dez mil anos, não pode ser lido à letra, pois exige uma leitura histórico-crítica -, como também se superou o positivismo cientificista do século XIX, que pensava ter resposta para tudo - os físicos hoje já não têm a pretensão de uma "teoria de tudo", no quadro de uma equação que tudo explicaria.

Há, portanto, o ser humano que enfrenta a realidade nos seus múltiplos planos e com variados interesses e com metodologias diferentes. Costumo dar um exemplo simples, quase ingénuo. É evidente que um botânico, um químico, um artista, um poeta, um jardineiro, um casal romântico, um administrador, não encaram todos da mesma maneira um belo jardim botânico. Trata-se do mesmo jardim, mas perspectivado de modos diferentes. Com a realidade globalmente considerada passa-se a mesma coisa.

Existem, pois, várias abordagens para a realidade, com metodologias diferentes. Depois da suspeita de que se encontrou o bosão que Higgs previra, a ciência continuará num caminho interminável de investigação. E, para lá das vantagens tecnológicas que o saber científico nos traz, é fascinante conhecer pelo simples gozo de saber. E lá estará sempre aquela pergunta radical: Porque há algo e não nada? Qual o sentido último de tudo? Aqui, ergue-se a resposta filosófica e religiosa, e há uns que acreditam e outros não. De qualquer modo, a religião não é necessariamente o asilo da ignorância e da superstição.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Humor de Leão XIII

Leão XIII foi o primeiro Papa a ser filmado, em 1896


Em 1902, durante uma visita ad limina, um bispo americano, imaginando que a visita seguinte, passados cinco anos, já não seria com Leão XIII (e não foi, já que este Papa morreu em 1903, com 93 anos), disse, inesperadamente: 
- Dado que já não nos veremos mais neste mundo, adeus, Santidade, adeus...
O Papa, nitidamente alarmado, perguntou-lhe:
- Excelência, por acaso sofre de algum mal incurável?


A fé cristã irá simplificar-se no futuro

Os dogmas constituem respostas a perguntas que deixaram de nos dizer diretamente respeito. Tornam-se acessíveis, de modo progressivo e imediato, mas só para o historiador; também a consciência histórica, como é sabido, sofre agora de erosão. Se a fé cristã não quiser tornar-se vazia, sem substância, e recusar a simples adaptação ao que não passa de moda, então, a única coisa a fazer é crescer em profundidade, mais do que em extensão, e viver mais conscientemente a partir do centro que tudo engloba. Também neste sentido, a fé cristã irá simplificar-se no futuro.


Walter Kasper, "Introdução à fé", 184

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...