quinta-feira, 23 de julho de 2009

Madeleine Albright: "Acredito fortemente na separação da religião e do Estado"

Madeleine Albright, secretária de Estado dos EUA no tempo de Bill Clinton, deu uma entrevista ao "Público" (20 de Julho). No final, Teresa de Sousa perguntou-lhe: «Escreveu em 2006 “Os poderosos e o todo-poderoso: reflexões sobre a América, Deus e o Mundo”. A diplomacia deve ter em conta a dimensão religiosa?»

E a norte-americana que nasceu na Checoslováquia em 1937, foi educada catolicamente, mas entretanto aderiu à Igreja Episcopal (anglicanos dos EUA), respondeu:

“Como americana, acredito fortemente na separação da religião e do Estado. O meu país foi criado sobre isso. Mas também sou realista. O que escrevi no meu livro foi que precisamos de perceber o background religioso de muitos dos conflitos. Falou do conflito do Médio Oriente – há pessoas que lutam porque acreditam que aquela pequena porção de terra lhes foi dada por Deus.

O que argumento no livro é que os nossos diplomatas entendam esta dimensão religiosa [dos conflitos]. Que os líderes religiosos, mesmo que não estejam envolvidos directamente na mesa das negociações, devem estar envolvidos na prevenção dos conflitos. E também sugiro que, uma vez encontrado um acordo entre os negociadores, os líderes religiosos podem servir como validadores. ‘Nós pensamos que este compromisso faz sentido, pode ajudar, devemos tentar aplicá-lo’.

Também tento explicar um pouco o Islão, porque há pessoas que pensam que é uma religião monolítica, que não é. Como não o são o cristianismo ou o judaísmo.

Observei o que os religiosos podem fazer. O Vaticano tem essa comunidade religiosas de santo Egídio, que trabalhou em Moçambique e na Bósnia e que conseguiu juntar as pessoas.

Mas não quero que as pessoas me interpretem mal sobre a relação entre religião e o Estado. Como americana acredito profundamente na separação” (fim de citação).

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Como dormir bem

"Feito o exame de consciência e rezadas as minhas orações, porque não deverei dormir tranquilo? Se me perturbasse, não estaria a seguir com seriedade o Evangelho que nos lembra, sem agradecimentos, que cada um de nós não passa de um ‘servo inútil’. Devemos levar até ao fim os nossos deveres, mas conscientes que a Igreja não é nossa, é daquele Cristo que deseja usar-nos como instrumento mas que nos deixa sempre o Senhor e o Seu caminho. A nós ser-nos-ão pedidas contas pelo nosso empenho, não pelos resultados".

Cardeal Ratzinger em entrevista conduzida por Vittorio Messori.

Códice de Efrém Reescrito (Codex Ephraemi rescriptus)

Origem do nome: O texto bíblico original foi raspado no séc. XII para serem copiadas as obras de santo Efrém, o Sírio (que viveu no séc. IV). Trata-se de um palimpsesto, ou seja, um pergaminho que foi raspado para ser reescrito. O texto original foi em grande parte decifrado a partir do séc. XVIII.
Onde está: Biblioteca Nacional de Paris. Chegou a Florença, Itália, vindo do Oriente, no séc. XVI, e foi levado para França por Catarina de Médecis.
Quando foi escrito: Séc. V, provavelmente no Egipto.
O que contém: Quase todo o Novo Testamento, em grego, excepto 2 Tessalonicenses e 2 João; do AT, contém alguns livros sapienciais.
Outro nome: Manuscrito C ou 04.
Imagem: Evangelho de Mateus.

Códice Alexandrino (Codex Alexandrinus)

Origem do nome: Julga-se que foi escrito na cidade egípcia de Alexandria. Era propriedade do patriarca desta cidade.
Onde está: Biblioteca Britânica (British Livrary). Foi oferecido por Cirilo Loukaris, patriarca da Constantinopla (que fora patriarca de Alexandria), a Jaime I de Inglaterra em 1624. O rei morreu antes de o receber.
Quando foi escrito: Séc. V, provavelmente em Alexandria.
O que contém: Todos os livros da Bíblia (incluindo os deuterocanónicos) e ainda os livros 3 e 4 de Macabeus (no AT) e duas cartas de S. Clemente (no NT). Estes quatro livros não entraram no cânone católico.
Outro nome: Manuscrito A
Imagem: Evangelho de Lucas

Códice Sinaítico (Codex Sinaiticus)

Origem do nome: Foi encontrado pelo Constantine Tischendorf a partir de 1844 no mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai (Egipto).
Onde está: A maior parte está na Biblioteca Britânica, que comprou 347 folhas ao governo soviético em 1933. 43 folhas estão na Universidade de Leipzig (Alemanha). Seis folhas estão na Biblioteca Nacional da Rússia, em São Petersburgo. 12 folhas e quarenta fragmentos continuam no mosteiro do Sinai.
Quando foi escrito: Em meados do séc. IV.
O que contém: O NT e o AT (versão dos Setenta). Inclui 1 e 4 Macabeus. Exclui 2 e 3 Macabeus (o cânone católico aceita e1 e 2 Macabeus).
Outro nome: Manuscrito Aleph (1.ª letra hebraica) ou Manuscrito S.
Imagem: Evangelho de João.

Códice Vaticano (Codex Vaticanus)

Origem do nome: Não se sabe qual a sua origem do manuscrito (Roma? Cesareia?), mas integra desde o início da Biblioteca do Vaticano, que foi criada em 1448 pelo Papa Nicolau V. Napoleão Bonaparte chegou a levá-lo para Paris, mas o Vaticano recuperou-o.
Onde está: Biblioteca do Vaticano.
Quando foi escrito: Primeira metade do séc. IV. Provavelmente mais antigo do que o Sinaítico.
O que contém: O AT na versão dos Setenta (ou LXX ou Septuaginta), com excepção dos Livros dos Macabeus; e o Novo Testamento, mas sem 1 e 2 Timóteo, Tito, Filémon e o Apocalipse.
Outro nome: Manuscrito B.
Imagem: Parte da Carta aos Hebreus

Grand Slam dos manuscritos bíblicos

Desde os inícios de Julho, pode ser consultado na Internet o Códice Sinaítico (“Codex Sinaiticus”), um dos manuscritos mais antigos e mais importantes da Bíblia - pretexto para conhecermos nesta breve apresentação os quatro mais importantes Códices da Bíblia, todos eles escritos em grego. São eles, além no Sinaítico, o Vaticano, o Alexandrino e o de Efrém. São o Grand Slam dos manuscritos bíblicos.

[Uma nota: Um “códice” (ou “codex”) é um conjunto de folhas (de papiro ou pergaminho) escritas à mão e agregadas num volume. Antes dos códices, os livros tinham a forma de rolos. Com o advento da imprensa, os códices deixaram de ser produzidos, embora alguns inadaptados (e ricos) no séc. XVII comprassem livros e mandassem copiá-los].

Gripe A e ritos católicos: solidariedade e higiene

A Comissão Nacional da Pastoral da Saúde está a dar indicações às paróquias sobre cuidados a ter para evitar a propagação da gripe A (aqui). Parece que o Cardeal-Patriarca acha que está a haver algum alarmismo. Se os ritos foram feitos com “qualidade litúrgica” não há riscos por aí além (aqui). Mas o que me espanta são as considerações do jornalista do “Público” José Vítor Malheiros (edição de 21-07-2009):

“(…) Que o abraço da paz seja substituído por “um pequeno sinal ou inclinação de cabeça sem o contacto físico” já perece contrário ao sentido da coisa.

O sentido da missa é a comunhão. A reunião dos crentes, as orações em uníssono, só são importantes porque são sinais de comunhão – como a eucaristia é símbolo de comunhão, mesmo para aqueles que têm alguma dificuldade conceptual com a transubstanciação.

Que as Orientações para as Comunidades Cristãs da Pastoral da Saúde seja compatíveis com as indicações da Direcção-Geral da Saúde (DGS) sobre a gripe A é positivo, mas esperaríamos ver aí a tónica na solidariedade, na inclusão e na responsabilidade pessoal e institucional que a Pastoral tem abordado noutras ocasiões. As pandemias são uma excelente oportunidade para aprender a não contagiar e a não ser contagiado, mas da religião esperamos que venham não lições de higiene mas de humanidade. Mesmo, ou principalmente, em tempos de pandemia”.

Não questiono a sua qualidade para falar das celebrações litúrgicas católicas, porque, hoje em dia, qualquer um é especialista instantâneo de tudo, embora o facto de usar a expressão “sentido da coisa” (logo na primeira frase da citação) me leve a pensar que não é frequentador assíduo dos ritos católicos. Tal como a expressão “eucaristia é símbolo de comunhão” dificilmente será usada por um crente habituado a reflectir sobre aquilo em que acredita e que pratica…

Mas o que diria ele (ou outro colunista) se a Comissão Nacional da Pastoral da Saúde desse indicações contrárias à DGS? Recusaria(m) a oportunidade para denunciar que não poderá haver solidariedade sem higiene? Vou perguntar ao jornalista.

DSI 20: "Populorum Progressio" - 2

A pobreza combate-se com educação

Jean-Yves Calvez, padre jesuíta e teólogo francês, especialista em doutrina social da Igreja, afirmou recentemente ao jornal “Público”, a propósito da "Populorum Progressio", que "toda a gente" imaginava na altura da sua publicação que era uma questão de "curto prazo" acabar com a miséria.

Porém, “toda a gente falhou: economistas, políticos, todos os que se implicaram na questão do desenvolvimento nos anos 50-60. Imaginavam que, com uma política monetarista e meios financeiros, se poderia elevar o nível de toda a população que tínhamos deixado ao abandono no tempo colonial", afirmou em 2007, quando se comemoravam os 40 anos da PP (lançada a 26 de Março de 1967).

Já em 2008, num congresso em Roma para comemorar o documento papal, alertou-se para o fracasso das ajudas exteriores para promover o desenvolvimento. Uma investigação sobre um programa de hospitais rurais no Chade revelou que apenas 1 por cento do dinheiro foi gasto nos projectos dos hospitais. E foi dito, também, que 40 por cento dos gastos militares africanos é involuntariamente financiado pelas ajudas. “As ajudas recompensam as elites governantes naqueles países nos quais essas mesmas elites mantêm os seus povos na pobreza. As ajudas tornam mais provável o facto de o governo incompetente, corrupto ou brutal sobreviver, porque as ajudas proporcionam recursos com os quais as elites governamentais podem aliviar alguns dos problemas internos provocados por governos pobres e injustos”, afirmou na ocasião Philip Booth, do Institute of Economic Affairs de Londres.

Não chega ajudar. É preciso que a ajuda chegue ao sítio certo e incida nas actividades e pessoas certas, a começar pela alfabetização e pela família. Paulo VI aponta o caminho: “Pode mesmo afirmar-se que o crescimento económico depende, em primeiro lugar do progresso social que ela [a alfabetização] pode suscitar, e que a educação de base é o primeiro objectivo dum plano de desenvolvimento. A fome de instrução não é menos deprimente que a fome de alimentos: um analfabeto é um espírito subalimentado. Saber ler e escrever, adquirir uma formação profissional, é ganhar confiança em si mesmo e descobrir que pode avançar junto com os outros”.

Desta encíclica ficaram para a história meia dúzia de frases de Paulo VI que mostram a perspectiva cristã do desenvolvimento. Acho que fazem parte da cultura geral católica:

* “Fiz-me, na ONU, o advogado dos povos pobres” (4)
* “O desenvolvimento não se reduz a simples crescimento económico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todas as pessoas e a pessoa toda” (14)
* O desenvolvimento é um “dever pessoal” e “comunitário” (15-17)
* “O dever de solidariedade é o mesmo, tanto para as pessoas como para os povos” (48)
* “O supérfluo dos países ricos deve pôr-se ao serviço dos países pobres” (48)
* “O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre as pessoas e entre os povos” (66)
* “O desenvolvimento é o novo nome da paz” (76)
* Cristãos e não-cristãos são convidados “a trabalharem, de todo o coração e com toda a sua inteligência, para que todos os filhos dos homens possam levar uma vida digna de filhos de Deus” (82)
* “Se o desenvolvimento é o novo nome da paz, quem não deseja trabalhar para ele com todas as forças?”

Primeira frase da "Populorum Progressio"

“O desenvolvimento dos povos, especialmente daqueles que se esforçam por afastar a fome, a miséria, as doenças endémicas, a ignorância; que procuram uma participação mais ampla nos frutos da civilização, uma valorização mais activa das suas qualidades humanas; que se orientam com decisão para o seu pleno desenvolvimento, é seguido com atenção pela Igreja” (PP 1).

Para terminar o dia

O desejo de felicidade não é uma questão de psicologia ou química cerebral, mas de origem divina. "Deus pô-lo no coração do homem para o atrair a Si, pois só Ele o pode satisfazer" (Catecismo da Igreja Católica, 1718).

George Weigel, A Verdade do Catolicismo (Bertrand Editora), pág. 83

terça-feira, 21 de julho de 2009

Graham Greene, a garrafa de vinho e o café de Tunes


A revista The Strand Magazine vai começar a publicar um romance inacabado de Graham Greene (1904-1991) que foi encontrado recentemente. Publica-o ao longo de cinco edições, um capítulo por semana, esperando que um autor ou os próprios leitores o completem.
O romance chama-se The Empty Chair, A Cadeira Vazia, e conta a história de um assassinato misterioso. A notícia vem no "Público" de hoje, na última página. “O enredo começa quando Alice Lady Perriham, uma actriz casada com um aristocrata, dá uma festa em sua casa, onde os convidados encontram o corpo do «taciturno, mal-humurado, bruto» Richard Groves, com uma faca espetada no peito”.
Trago-a para aqui por dois motivos, um que tem a ver com o espírito deste blogue e outro de ordem pessoal (mas que se alicerça no primeiro).
O primeiro: O romance foi iniciado em 1926, quando Greene tinha 22 anos. Foi nesse ano que Graham Greene “se converteu ao catolicismo, começou a trabalhar como subeditor no jornal londrino Times e decidiu tornar-se um escritor de sucesso”, diz o "Público". Para este romancista, o catolicismo é importante tanto para a vida (em todos os sentidos, incluindo o mais contraditório, porque abundam referências sobre as suas incoerências entre fé professada e fé vivida, no que diz respeito ao adultério e a outras vivências de cariz sexual) como para a arte. Sem a fé católica não se compreendem os romances “O Poder e a Glória”, “O Fim da Aventura” ou “Monsenhor Quixote”. E talvez por essas mesmas referências católicas se explique o facto de este ser um escritor esquecido, porque, como diz Clara Ferreira Alves (estou a pensar numa crónica do "Expresso"), está preocupado com dilemas que já não lembram a ninguém: o pecado e a graça, o desejo e a fidelidade, a perdição e a salvação… Já não lembram a ninguém, diz ela.
O segundo: Interessei-me por este autor, em finais da década de 1980, por um dia ter lido que em “Monsenhor Quixote” a Trindade era "explicada" à base de garrafas de vinho. Tinha uma vaga noção do catolicismo do autor e isso levou-me a ler durante uns tempos tudo o que encontrava dele, a começar pelo cómico “Monsenhor” (papel amarelo da Europa-América), passando pelo “Nosso Agente em Havana” e os outros acima referidos. Em ambiente de faculdade, eu era pelo Graham Greene, um colega era pelo Morris West e um outro pelo Unamuno. (A seguir vieram os católicos franceses, Bernanos, Mauriac…, mas isso já é outra história). Foi uma fase de tal modo greeniana, que sei onde estava no dia seguinte à morte do romancista inglês. Estava num café que há (havia?) ao pé da estação CP de Tunes, a caminho do Algarve. Nesse Março ou Abril de 1991, com mais alguns escuteiros, ia para uma actividade que o Agrupamento 115 intitulara de “Na Rota do Infante”. Enquanto esperávamos pelo comboio, à noite, li no “Correio da Manhã” do café que Graham Greene tinha morrido. Não sei se posso dizer que fiquei abalado. Mas senti que alguém que me era próximo desaparecia e eu não podia fazer nada. Greene era-me próximo, de uma proximidade feita de ler as suas palavras, uma proximidade que só se consegue quando a leitura raia a obsessão, uma proximidade que eu só viria a sentir em relação a mais três autores (até hoje – um deles também é romancista inglês e é considerado discípulo de Greene). Greene morrera e entretanto chega o comboio e temos de prosseguir viagem. Já com o comboio em andamento, lembro-me de que não paguei a despesa do café. Foi só uma bica, mas ainda um dia destes hei-de voltar ao café de Tunes para saldar a dívida. Graham Greene vai-me lembrando que tenho uma pena a expiar.
Graham Greene morreu no dia 3 de Abril de 1991, informa a Grande Teia. O episódio do café de Tunes deve ter acontecido no dia 4 de Abril de 1991, se o antigo espião tiver morrido antes do fecho da edição daquele Correio da Manhã.

No que acredita o Trabalhador Católico

(Da esq.: Ade Bethune, Dorothy Day,
Dorothy Weston, Jacques Maritain e Peter Maurin)

O Trabalhador Católico acredita
no personalismo dócil
do catolicismo tradicional.
O Trabalhador Católico acredita
na obrigação pessoal
de atender
às necessidades do seu irmão.
O Trabalhador Católico acredita
na prática diária
das Obras de Misericórdia
O Trabalhador Católico acredita
nas Casas de Hospitalidade
para o imediato alívio
dos que passam privações.
O Trabalhador Católico acredita
nas quintas comunais,
onde cada um trabalha
segundo a sua capacidade
e obtém segundo a sua necessidade.
O Trabalhador Católico acredita
na criação de uma nova sociedade
no seio da antiga
com a filosofia da nova
que não é uma nova filosofia
mas uma filosofia muito antiga
uma filosofia tão antiga que parece nova.

Peter Maurin

A via radical de Peter Maurin


Peter Maurin foi co-fundador, com Dorothy Day, do Movimento do Trabalhador Católicos (Catholic Worker movement), no âmago do liberalismo económico que os EUA habitualmente protagonizam.

Nascido no sul de França, no dia 9 de Maio de 1877, Aristode Pierre Maurin entrou aos 16 anos para os “Irmãos cristãos”, uma organização que ensinava a vida simples e o serviço aos pobres. Quando chegou à idade do serviço militar, emigrou para o Canadá para evitar pegar em armas. Mais tarde entrou nos EUA, onde, em 1933, em plena Grande Depressão, fundou com a jornalista Dorothy Day (1897-1980), convertida ao catolicismo (é considerada a leiga mais influente nos EUA – o seu processo de beatificação iniciou-se na arquidiocese de Nova Iorque em 1983), o Movimento do Trabalhador Católico.

Este movimento não é uma organização semelhante a um sindicato, mas antes constituído por comunidades de vida laical, talvez mesmo comunas, geralmente ligadas ao cultivo da terra (“No cultivo da terra nunca há falta de trabalho”, dizia o fundador). A principal característica é terem sempre as portas abertas para quem chega, incluindo mesa gratuita, desde que aceitem os princípios da paz, da acção não-violenta, da justiça social. Actualmente existem cerca de 150 “casas de hospitalidade” do Movimento do Trabalhador Católico, principalmente nos EUA, mas também no Canadá, Austrália, México e Nova Zelândia.

Peter Maurin era leigo, nunca casou, e quis que o seu movimento fosse descentralizado e independente de organizações políticas e mesmo da Igreja. Alguns vêm nisso uma espécie de anarquismo cristão. Outros, como ele próprio, dizem que se inspira em Francisco de Assis. Hoje, para criar uma comunidade tipo Trabalhador Católico não é preciso autorização de ninguém. Bastará assumir as instruções simples de www.catholicworker.com...

Para a difusão das suas ideias, Peter Maurin usava a pregação simples na rua (“a forma de alcançar o homem da rua é encontrar o homem na rua”) e o jornal “Catholic Worker”, que continua a ser publicado. A publicação esteve para chamar-se “The Catholic Radical ” (“O Católico Radical”), no sentido de regresso às raízes, mas Dorothy Day achava que devia ter o nome dos destinatários e não da finalidade. Ficou “Catholic Worker”. “O homem propõe, a mulher dispõe”, observou Maurin.

Pierre Maurin morreu no dia 15 de Maio de 1949. Deixou o seu pensamento nos “Easy Essays”, pequenas composições simples e directas. Vou colocar aqui um desses “ensaios fáceis”.

www.catholicworker.com

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Para terminar o dia

Dizei se era verdade
Se era verdade o que eles contam das criancinhas
À noite, antes de irem dormir
Vós bem sabeis
Quando eles dizem Pai Nosso
Quando eles dizem Mãe Nossa
Se era verdade tudo isso
Eu direi sim
Oh, certamente, eu direi sim
Porque é tão belo tudo isso
Quando se crês que é verdade

Jacques Brel

DSI 19 - Da RN à CV: A "Populorum progressio"

Quinze meses depois do encerramento do II Concílio do Vaticano, Paulo VI publica a sua primeira encíclica social, sobre um tema que na altura foi considerado inesperado: o desenvolvimento dos povos.

O mundo vivia uma fase de optimismo económico. No Ocidente, as taxas de crescimento, no pós-guerra, são elevadas. Surge a “sociedade da abundância”, de alguma forma simbolizada pela abertura do primeiro hipermercado. Abre em França, em 1963, com 2500 metros quadrados onde se pode comprar quase de tudo. Em África, com as independências políticas, pensa-se que chega uma era de desenvolvimento.

O documento de Paulo VI, ainda que tenha um fundo de optimismo – o sonho do desenvolvimento para todos –, está marcado pelo duro reconhecimento de que no mundo predomina o subdesenvolvimento. “Os povos da fome dirigem-se hoje, de modo dramático, aos povos da opulência”, escreve logo no n.º 3.

O documento começa, no entanto, com uma frase que além de lembrar a célebre primeira frase da Gaudium et Spes (“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos nossos contemporâneos… são também as dos discípulos de Cristo”) revela o tal tom positivo e a nova forma de a Igreja se relacionar com o mundo: “O desenvolvimento dos povos, especialmente daqueles que se esforçam por afastar a fome, a miséria, as doenças endémicas, a ignorância; que procuram uma participação mais ampla nos frutos da civilização, uma valorização mais activa das suas qualidades humanas; que se orientam com decisão para o seu pleno desenvolvimento, é seguido com atenção pela Igreja”.

À preocupação de Paulo VI com o desenvolvimento dos povos não terão sido alheias as grandes viagens que realizou à América Latina e a África, ainda cardeal, e a à Índia, já como Papa. Não há nada como ir aos locais onde se sofre para se perceber o que é a pobreza. Julgo que nenhum Papa antes de Paulo VI visitou outros continentes.

O tema da encíclica de algum modo foi inesperado, mas já em duas ocasiões fundamentais Paulo VI o abordara. Na visita à assembleia-geral da ONU, em 1965, em Nova Iorque, afirma: “Nós sabemos com quanto ardor vós vos dedicais a diminuir o analfabetismo e a espalhar a cultura no mundo. A dar aos homens uma assistência sanitária apropriada e moderna. A colocar ao serviço do homem os maravilhosos recursos da ciência, da técnica, da organização: tudo isso é magnífico e merece o elogio e o apoio de todos, incluindo o Nosso. Nós queríamos também dar o exemplo, mesmo se a pequenez dos Nossos meios impede de lhes apreciar o alcance prático e quantitativo: Nós queremos dar às Nossas instituições um novo desenvolvimento contra a fome do mundo e a favor das suas principais necessidades: é assim, e não de outro modo, que se constrói a paz”. Na encíclica afirmará, num título que ficará célebre: “O desenvolvimento é o novo nome da paz” (PP, 78). Entretanto, na visita á Índia (1964), tinha proposto a criação de um Fundo Mundial, “sustentado por uma parte da verba das despesas militares” – ideia que retoma no n.º 51 da PP.

Tornada pública há quase 42 anos, a Populorum Progressio conserva, infelizmente, grande actualidade. “Infelizmente”, porque o desenvolvimento dos povos continua adiado.

Vaticano aprova Harry Potter

“«Osservatore Romano» aprova filme de Harry Potter”, diz uma notícia do “Público” de 15 de Julho passado. A notícia não assinada refere que a propósito da estreia do filme “O Príncipe Misterioso” o Vaticano mudou de ideias, visto que em 2003 Ratzinger (ainda cardeal) escrevera que os livros de Harry Potter continham “seduções subtis” que poderiam corromper jovens cristãos. Já o novo filme, diz o jornal do Vaticano, “alcança um ponto de equilíbrio correcto”, graças a “uma clara linha de demarcação entre os que trabalham para o bem e os que praticam o mal”. O “Osservatore Romano” considera “O Príncipe Misterioso” o melhor filme baseado nos livros de J.K. Rowling, ainda que lhe falte “uma referência ao transcendente”.


Foi referido neste blogue um número da “Communio” que fala de “Imaginários contemporâneos” e dedica um artigo à “boa utilização da literatura fantástica”, por Suzanne Bray, referindo em concreto as obras de C.S.Lewis (principalmente as “Crónicas de Nárnia”), de J.R.Tolkien (“O Senhor dos Anéis”) e de J.K.Rowling (“Harry Potter”).

Suzanne Bray sintetiza em quatro pontos as razões “que podem impulsionar os responsáveis pela educação cristã a servirem-se da literatura fantástica nas suas estratégias pedagógicas”. Resumo-os:

1) A literatura fantástica (LF) pode ajudar a compreender aspectos difíceis da teologia cristã;

2) A LF torna a luta espiritual e a consagração mais atractivas ao sublinhar a doação de si mesmo para vencer o mal;

3) A LF oferece vocabulário, imagens e referências culturais para explicar a fé aos que estão afastados da cultura cristã;

4) A LF pode ensinar os jovens a ler de forma crítica mensagens ideológicas ou propagandísticas que fazem parte do quotidiano.

Mais um apontamento para uma cronologia da DSI

1960-70 – Independências africanas: Senegal, Nigéria e Camarões (1960), Argélia (1962), Quénia e Zâmbia (1963), Zimbabué e Tanzânia (1964)…
1961 – (13 de Agosto) Início do Muro de Berlim
1962 – (Outubro) Crise dos mísseis de Cuba
1962 – (11 de Outubro a 8 de Dezembro) Primeira sessão do II Concílio do Vaticano
1962 – Vagem de Montini (futuro Paulo VI) pela África
1963 – (11 de Abril) Lançamento da “Pacem in terris”
1963 – Encíclica “Pacem in terris”. Morte de João XXIII (3 de Junho). Eleição de Paulo VI (21 de Junho)
1963 – (29 de Setembro a 4 de Dezembro) Segunda sessão do Concílio
1964 – Viagem de Paulo VI à Índia
1965 – Paulo VI na ONU (4 de Outubro). Encerramento do II Concílio do Vaticano (8 de Dezembro). Constituição pastoral “Gaudium et Spes”
1966 – Revolução cultural na China
1967 – Encíclica “Populorum Progressio” (26 de Março). Viagem a Fátima (13 de Maio).
1968 – Maio. Manifestações estudantis em Paris
1969 – Chegada do Homem à Lua. Surge a Arpanet, embrião da Internet
1971 – Carta apostólica “Octogesima adveniens”; documento final dos Sínodo dos Bispos “Convenientes ex Universo”
1973 – Primeira Crise do Petróleo
1974 – Revolução dos Cravos, em Portugal. Nixon renuncia à presidência dos EUA, na sequência do caso Watergate
1975 – Independência das antigas colónias portuguesas. Fim da Guerra do Vietname
1977 – A China adere à economia de mercado
1978 – Morte de Paulo VI. Eleição de João Paulo I. Morte de João Paulo I. Eleição de João Paulo II

domingo, 19 de julho de 2009

O cheiro de laranjeiras

Será alguém um dia
levado a pensar em mim
pelo cheiro de laranjeiras
quando eu também já for
«alguém há muito tempo»?

Shunzei (1114-1204)

Bento, Anselmo e Alberto

Bento Domingues, no Público de hoje, glosando Kennedy, que aconselhava aos jovens que não perguntassem sobre o que o país poderia fazer por eles, mas antes o que poderiam eles fazer pelo país:

"(...) Se renunciarmos à esperança de fazer do mundo uma fraternidade universal, que andamos a fazer? (…) O Reino de Deus é fruto da sua graça, mas não substitui a lentidão da natureza, nem os sobressaltos incontroláveis da liberdade humana. Não perguntes o que pode Deus fazer pelo mundo; pergunta, antes o que andas tu a fazer pelo mundo de todos (Mt 25,31)".

Anselmo Borges, no DN de ontem (aqui), diz que "a Caritas in Veritate foi recebida com indiscutível interesse".

E acrescenta isto: "O debate público à sua volta revela a grande autoridade do Papa não só no mundo católico, mas também entre políticos e organismos internacionais. Vários media mundiais de referência consagraram-lhe o editorial, sublinhando a sai importância e até a sua inesperada orientação à esquerda".

No DN de hoje, Alberto Gonçalves refuta a orientação à esquerda da CV. "A terceira encíclica de Bento XVI, "Caridade na Verdade", ou "Amor na Verdade", foi lida com certos abusos interpretativos. Nela, ao contrário do que se fez constar, nem por uma vez o Papa rejeita o mercado livre ou a globalização, e explicitamente refere que não pretende sugerir modelos de organização política ou alternativas ideológicas, aliás áreas incompatíveis com a religiosidade e a moral individuais e privadas de que o teólogo Ratzinger trata. Por azar, a subtileza do tratamento é excessiva para os que imaginaram nas suas palavras um apelo à "reinvenção" do sistema económico e, claro, um ataque à «ganância»" (ler mais aqui).

Pelo que já li, e no que à pretensa tendência esquerdizante diz respeito, parece-me que Alberto tem uma percepção mais acertada do que Anselmo.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...