quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Bento XVI no Vaticano II, há 50 anos: "Foi um dia maravilhoso"



Bento XVI escreveu sobre o dia 11 de outubro de 1962, o início do Vaticano II. Começa assim: “Foi um dia maravilhoso”. No entanto, há pouco de memórias pessoais sobre o dia em que há 50 anos começou o II Concílio do Vaticano. Vale a pena ler. Extraí daqui o que me pareceu mais relevante. O títulos negritos sãos meus.

Um concílio convocado sem problemas concretos. Os concílios anteriores tinham sido quase sempre convocados para uma questão concreta à qual deviam responder; desta vez, não havia um problema particular a resolver. Mas, por isso mesmo, pairava no ar um sentido de expectativa geral: o cristianismo, que construíra e plasmara o mundo ocidental, parecia perder cada vez mais a sua força eficaz. Mostrava-se cansado e parecia que o futuro fosse determinado por outros poderes espirituais. Esta perceção do cristianismo ter perdido o presente e da tarefa que daí derivava estava bem resumida pela palavra «atualização»: o cristianismo deve estar no presente para poder dar forma ao futuro. Para que pudesse voltar a ser uma força que modela o porvir, João XXIII convocara o Concílio sem lhe indicar problemas concretos ou programas. Foi esta a grandeza e ao mesmo tempo a dificuldade da tarefa que se apresentava à assembleia eclesial.

Bélgica, França e Alemanha abrem caminhos. Obviamente, cada um dos episcopados aproximou-se do grande acontecimento com ideias diferentes. Alguns chegaram com uma atitude mais de expectativa em relação ao programa que devia ser desenvolvido. Foi o episcopado do centro da Europa – Bélgica, França e Alemanha – que se mostrou mais decidido nas ideias. Embora a ênfase no pormenor se desse sem dúvida a aspetos diversos, contudo havia algumas prioridades comuns. Um tema fundamental era a eclesiologia, que devia ser aprofundada sob os pontos de vista da história da salvação, trinitário e sacramental; a isto vinha juntar-se a exigência de completar a doutrina do primado do Concílio Vaticano I através duma valorização do ministério episcopal. Um tema importante para os episcopados do centro da Europa era a renovação litúrgica, que Pio XII já tinha começado a realizar. Outro ponto central posto em realce, especialmente pelo episcopado alemão, era o ecumenismo: o facto de terem suportado juntos a perseguição da parte do nazismo aproximara muito os cristãos protestantes e católicos; agora isto devia ser compreendido e levado por diante a nível de toda a Igreja. A isto acrescentava-se o ciclo temático Revelação-Escritura-Tradição-Magistério. Entre os franceses, foi sobressaindo cada vez mais o tema da relação entre a Igreja e o mundo moderno, isto é, o trabalho sobre o chamado «Esquema XIII», do qual nasceu depois a Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo. Atingia-se aqui o ponto da verdadeira expectativa suscitada pelo Concílio. A Igreja, que ainda na época barroca tinha em sentido lato plasmado o mundo, a partir do século XIX entrou de modo cada vez mais evidente numa relação negativa com a era moderna então plenamente iniciada. As coisas deviam continuar assim? Não podia a Igreja cumprir um passo positivo nos tempos novos? Por detrás da vaga expressão «mundo de hoje», encontra-se a questão da relação com a era moderna; para a esclarecer, teria sido necessário definir melhor o que era essencial e constitutivo da era moderna. Isto não foi conseguido no «Esquema XIII». Embora a Constituição pastoral exprima muitos elementos importantes para a compreensão do «mundo» e dê contribuições relevantes sobre a questão da ética cristã, no referido ponto não conseguiu oferecer um esclarecimento substancial.

Liberdade religiosa. Inesperadamente, o encontro com os grandes temas da era moderna não se dá na grande Constituição pastoral, mas em dois documentos menores, cuja importância só pouco a pouco se foi manifestando com a receção do Concílio. Trata-se antes de tudo da Declaração sobre a liberdade religiosa, pedida e preparada com grande solicitude sobretudo pelo episcopado americano. A doutrina da tolerância, tal como fora pormenorizadamente elaborada por Pio XII, já não se mostrava suficiente face à evolução do pensamento filosófico e do modo se concebia como o Estado moderno. Tratava-se da liberdade de escolher e praticar a religião e também da liberdade de mudar de religião, enquanto direitos fundamentais na liberdade do homem. Pelas suas razões mais íntimas, tal conceção não podia ser alheia à fé cristã, que entrara no mundo com a pretensão de que o Estado não poderia decidir acerca da verdade nem exigir qualquer tipo de culto. A fé cristã reivindicava a liberdade para a convicção religiosa e a sua prática no culto, sem com isto violar o direito do Estado no seu próprio ordenamento: os cristãos rezavam pelo imperador, mas não o adoravam. Sob este ponto de vista, pode-se afirmar que o cristianismo, com o seu nascimento, trouxe ao mundo o princípio da liberdade de religião. Todavia a interpretação deste direito à liberdade no contexto do pensamento moderno ainda era difícil, porque podia parecer que a versão moderna da liberdade de religião pressupusesse a inacessibilidade da verdade ao homem e, consequentemente, deslocasse a religião do seu fundamento para a esfera do subjetivo. Certamente foi providencial que, treze anos depois da conclusão do Concílio, tivesse chegado o Papa João Paulo II de um país onde a liberdade de religião era contestada pelo marxismo, ou seja, a partir duma forma particular de filosofia estatal moderna. O Papa vinha quase duma situação que se parecia com a da Igreja antiga, de modo que se tornou de novo visível o íntimo ordenamento da fé ao tema da liberdade, sobretudo a liberdade de religião e de culto.

Religiões não-cristãs. O segundo documento, que se havia de revelar depois importante para o encontro da Igreja com a era moderna, nasceu quase por acaso e cresceu com sucessivos estratos. Refiro-me à declaração Nostra aetate, sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs. Inicialmente havia a intenção de preparar uma declaração sobre as relações entre a Igreja e o judaísmo – um texto que se tornou intrinsecamente necessário depois dos horrores do Holocausto (shoah). Os Padres conciliares dos países árabes não se opuseram a tal texto, mas explicaram que se se queria falar do judaísmo, então era preciso dedicar também algumas palavras ao islamismo. Quanta razão tivessem a este respeito, só pouco a pouco o fomos compreendendo no ocidente. Por fim cresceu a intuição de que era justo falar também doutras duas grandes religiões – o hinduísmo e o budismo – bem como do tema da religião em geral. A isto se juntou depois espontaneamente uma breve instrução relativa ao diálogo e à colaboração com as religiões, cujos valores espirituais, morais e socioculturais deviam ser reconhecidos, conservados e promovidos (cf. n. 2). Assim, num documento específico e extraordinariamente denso, inaugurou-se um tema cuja importância na época ainda não era previsível. Vão-se tornando cada vez mais evidentes tanto a tarefa que o mesmo implica como a fadiga ainda necessária para tudo distinguir, esclarecer e compreender. No processo de receção ativa, foi pouco a pouco surgindo também uma debilidade deste texto em si extraordinário: só fala da religião na sua feição positiva e ignora as formas doentias e falsificadas de religião, que têm, do ponto de vista histórico e teológico um vasto alcance; por isso, desde o início, a fé cristã foi muito crítica em relação à religião, tanto no próprio seio como no mundo exterior.

Barretes amarelos


Conde de Oeiras

Apócrifa ou não, num livro que ando a ler sobre a Inquisição [“A Inquisição. O Reino do Medo”, de Toby Green, na Presença], volto a encontrar esta história:
Diz-se que, em 1773, [o Marquês de Pombal] ficara irritado com uma proposta de D. José I; tal como os reis que o antecederam e os que se lhe seguiram, sugerira que quem tivesse antepassados judeus devia usar um barrete amarelo. Uns dias depois, Pombal entrou no paço real com três barretes debaixo do braço. Como era de prever, D. José mostrou-se admirado e perguntou para que serviam; Pombal respondeu que estava apenas a obedecer às ordens reais. «Mas por que me trazeis três?», teria perguntado D. José, ao que o ministro respondeu: «Um é para mim, outro para o inquisidor-geral e o terceiro é para o caso de Nossa Majestade desejar cobrir a cabeça».
Este blogue tem sido invadido por comentários que são promoção de valium, viagra e outros medicamentos não necessariamente começados por "v". Quase todos os textos, às centenas nos últimos dias, são reconhecidos como spam. E ainda bem. Porém, nos últimos dias, também alguns comentários não-spam foram lidos pelo blogger como se fossem spam. Vou ver o que posso fazer para mudar a situação. E um pedido de desculpa a quem comentou e não vi o seu comentário publicado.

Da democracia em todo o lado

Churchill dizia que a democracia é o pior dos regimes à excepção de todos os outros (fui ver e o que disse mesmo foi: "Democracy is the worst form of government except from all those other forms that have been tried from time to time"; discurso na Câmara dos Comuns, no dia 11 de novembro de 1947).

Abbé Pierre, que com certeza sabia que não há ditaduras que não sejam abomináveis, disse, em 1990, citando um amigo, mais ou menos o mesmo por outras palavras: "Como dizia um dos meus velhos amigos que fora parlamentar durante muito tempo, «é preciso que a ditadura seja uma coisa abominável para ser pior do que a democracia»".

É bom lembrar estas duas frases nestes tempos de crispação - e mesmo exasperação - democrática. Na realidade, não há democracias serenas.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Poder de Deus

Afonso Annes, um trabalhador cristão-velho do Porto, foi acusado à Inquisição em 1559. Motivo: dizia "não poder estar Deus no ceo e na Igreja" ao mesmo tempo.

Terá a Inquisição considerado que o portuense limitava o poder de Deus ou tê-lo-á julgado como anticlerical?

Embate entre Paulo VI e a Cúria Romana


Paulo VI e D. Pericle Felici

Faz amanhã 50 anos que começou o II Concílio do Vaticano. Entretanto, decorre o sínodo dos bispos sobre a nova evangelização. A grande figura que une estes dois acontecimentos, por ter concluído o primeiro e ter inventado o segundo, é Paulo VI.

Gianni Gennari , no "Vatican Insider", num texto em que diz que a Cúria Romana pode, no fundo, boicotar os desejos e decisões dos bispos (os sínodos só são consultivos), conta uns episódios curiosos sobre o embate entre Paulo VI e a Cúria Romana. Texto todo aqui. Mais uma vez, a grandeza de Paulo VI.

No verão de 1963, exatamente três meses após a sua eleição ao pontificado, portanto no dia 21 de setembro, falando com a Cúria Romana, ele [Paulo VI] afirmou que se o Concílio então em andamento prospectasse a ideia de "associar alguns representantes do episcopado de um certo modo e para certas questões (…) ao Chefe supremo da própria Igreja (...) seguramente não será a Cúria Romana que se oporá a isso".

Quem conhece a história daqueles tempos e a história pessoal de Giovanni Battista Montini entende também o não dito dessa expressão. Ele se tornara papa há três meses e sabia bem que "a Cúria Romana" em grande parte não havia sido entusiasta da sua eleição. Era aquela Cúria Romana que sempre o havia considerado como um vigiado especial e que 10 anos antes o havia afastado de Roma, enviando-o certamente a Milão, a diocese italiana mais importante, mas sem prover a sua elevação à púrpura cardinalícia. Em 1958, recém-eleito papa, João XXIII imediatamente havia agido, como primeira nomeação, para preencher esse vazio...

E mais: eu me lembro de um episódio significativo. No momento da eleição de Paulo VI (21 de junho de 1963), foi forte o desconforto em alguns ambientes da Cúria, e mesmo um homem da Igreja muito estimado, de grande cultura e de grande espiritualidade, Dom Pericle Felici, então "secretário-geral do Concílio" em andamento, muito estimado por João XXIII, que o quisera nesse papel até a antepreparação do evento, chegou a comentar diante de testemunhas: "Para nós – e ele se referia aos homens da Cúria Romana – realmente acabou!".

Essa era a realidade nas previsões humanas, que, na verdade, eram muito humanas, e eu posso contar o seguinte, com testemunhas ainda vivas: alguns dias depois da sua eleição, Paulo VI recebeu em audiência justamente os homens da Cúria Romana, e uma das primeiras coisas que ele fez quando se encontrou diante da multidão dos curiais foi chamar Dom Felici pessoalmente para perto dele. Este se aproximou, e o papa o abraçou e, na frente de todas, pediu que continuassem ajudando-o na difícil tarefa de levar adiante o Concílio, reconfirmando-o no posto de secretário-geral. É inútil lembrar que o pobre Felici chorou na frente de todos!

 Gianni Gennari

Os contemplativos são como glaciares

Os contemplativos podem parecer inúteis. Na realidade, nos momentos mais dramáticos da vida espiritual interior ou coletiva do mundo inteiro são como glaciares. Nada neles é inerte. Tudo estala por todos os lados. Não cessa a vida. É debaixo do glaciar que jorram as torrentes que fazem os nossos rios e as nossas águas mais puras. Elas são o sal da terra... Nós somo s sopa... E a sopa, sem sal, não presta...


Abbé Pierre, 1991

Ilha rodeada por um mar de ignorância

Vivemos numa ilha rodeada por um mar de ignorância. À medida que cresce a ilha do nosso conhecimento, também cresce a costa da nossa ignorância.

John Wheeler, físico falecido em 2008, citado por Miguel Esteves Cardoso no "Público" de hoje

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Hildegarda não queria misturar-se com outras mulheres

Iluminura da obra "Scivias", de Hildegarda

Hildegarda de Bingen (1098-1179; foi contemporânea da fundação de Portugal; tinha 45 anos em 1143; será que ouviu falar deste país?), a nova doutora da Igreja, é apreciada por feministas, mas só q.b. O texto de António Marujo, no “Público” de domingo, aqui postado, também dá isso a entender. Porquê? Talvez porque – e este é um aspeto que não tem sido referido nas notícias sobre esta nova doutora – Hildegarda, oriunda de uma família da pequena nobreza, opunha-se à entrada de mulheres do povo nos conventos beneditinos. Pensava que havia que preservar o privilégio de nobreza quando, por esta altura, já os mosteiros masculinos mais influentes tinham abandonado as ideias de privilégio de nascimento. Os dois mosteiros que Hildegarda fundou acolheram meninas e mulheres nobres.

As duas as leis que regem as sociedades

São apenas duas as leis que regem as sociedades. A lei de ódio e de morte, que se dedica a servir em primeiro lugar o mais poderoso. E a lei da paz e da vida, que quer servir em primeiro lugar o mais sofredor.

Abbé Pierre

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

"A inventora da lavanda é doutora da Igreja", no Público de ontem





Texto de António Marujo, na "2" ("Público") do dia 7 de outubro.

Roma interessa. Notícia da "Flash"

Roma interessa. Notícia da "Flash".

João César das Neves: A surpresa do Concílio


João César das Neves escreve no DN de hoje sobre "A surpresa do Concílio" (aqui).


Na próxima quinta-feira passa o cinquentenário de uma das realizações mais espantosas da humanidade. O início do 21.º concílio ecuménico da Igreja Católica constitui um acontecimento decisivo para os fiéis mas, mesmo em termos meramente históricos, é um facto ímpar.

Primeiro porque envolve uma das instituição mais notáveis da humanidade. Não só é a maior comunidade religiosa mas, em certo sentido, é também a maior, mais antiga e influente organização de sempre. Só que, como dizer isto criaria irritação em certos sectores, será mais pacífico afirmar que constitui indiscutivelmente uma das mais vastas e relevantes instituições mundiais.

Mais surpreendente, praticamente inédito, é que tal entidade possa entrar voluntariamente num processo de profunda reforma interna. É raríssimo que organizações desta dimensão e influência consigam sequer simples reestruturações, quanto mais esforços desta magnitude. A coisa fica ainda mais incrível ao notar que o projecto foi provocado, não por necessidade premente ou acontecimento externo, mas por intuição profética de um homem providencial. Isto faz que, até na longa lista dos concílios, o último seja único.

A Igreja Católica é sem dúvida a instituição mais reformada de sempre. Os sete primeiros concílios trataram da pureza da doutrina contra heresias, mas os 14 seguintes, ao longo de 1097 anos, ocuparam-se de reorganização eclesial. Em todos, porém, existia um problema urgente que exigia resposta dos padres conciliares. No maior e mais influente, em Trento de 1545 a 1563, fez-se o ajustamento ao humanismo, que criara já uma suposta "reforma" por parte dos luteranos, que realmente fora uma ruptura. Coube ao Concílio a verdadeira, e tão esperada, reforma. Mas em 1962 ninguém esperava nada. Foi surpresa total.

Realmente em meados do século XX a Igreja não defrontava nenhum desafio visível. É verdade que há mais de 200 anos sofria a atitude hostil, muitas vezes violenta, da modernidade. Pode dizer-se até que fora essa dificuldade a motivar o Concílio anterior, Vaticano I, aliás interrompido brutalmente à mão militar em 1870. Mas 92 anos depois a pressão já não era candente. O motor do Concílio foi apenas o ardor pastoral de João XXIII.

Uma vez deflagrado o processo, tornou-se evidente a razão por que outras instituições nunca o fazem: é muito difícil equilibrar a neces- sidade de mudança com o risco de fractura ou distorção. A ânsia que sempre motivou a Igreja nos sucessivos concílios foi o regresso à pureza da sua identidade e missão, mas a multidão histórica de heresias mostra a dificuldade de fazê-lo com verdade. O processo foi longo e doloroso mas 50 anos depois vemos hoje que foi coroado de um êxito espantoso e inesperado. Ainda existem os que recusam a mudança ou condenam a inércia, mas a verdade é que o II Concílio do Vaticano conseguiu uma transformação formal mais profunda do que alguém poderia prever, enquanto reforçava a fidelidade doutrinal e a concórdia interna. Ninguém esperaria mais e melhor dos padres conciliares.

O propósito da reunião era claro: "O que mais importa ao Concílio Ecuménico é o seguinte: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz" (João XXIII, discurso na abertura do concílio, V.1). Porquê a doutrina?

Vivemos numa época que pensa poder viver sem colocar as perguntas fundamentais da existência, embriagado num utilitarismo míope. Reduzindo a Caridade a mera solidariedade e sem saber onde radicar a Esperança, torna-se cada vez mais claro que o que falta no mundo é a Fé. Ignorando o significado da vida, tudo o resto perde sentido. "O mundo actual apresenta-se, assim, simultaneamente poderoso e débil, capaz do melhor e do pior, tendo patente diante de si o caminho da liberdade ou da servidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade ou do ódio" (Gaudium et Spes, 9).

O mundo, que nunca seria capaz de fazer um concílio, precisa da Fé que este proclamou. Meio século depois Bento XVI, último dos papas do Concílio, propõe um Ano da Fé.

Leis

Acreditamos que nenhuma sociedade, nenhuma nação pode viver se as leis não forem respeitadas. Mas travaremos a batalha precisamente para que as leis sejam respeitáveis.

Abbé Pierre na década de 1950

domingo, 7 de outubro de 2012

Música e iluminuras da nova Doutora da Igreja



Bento XVI declarou hoje que Hildegarda de Bingen é Doutora da Igreja. A quarta, depois de Teresa de Ávila, Teresa de Lisieux e Catarina de Sena.

Bento Domingues: "A religião terá futuro?"


Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje. "É próprio da idolatria absolutizar obras das nossas mãos. (...) A verdade é fruto de uma busca humilde e do acolhimento da divina graça".

Vedeta

Se quereis fazer uma patifaria a um amigo, desejai-lhe que seja uma vedeta...

Abbé Pierre, 1992

sábado, 6 de outubro de 2012

Anselmo Borges: "E se Jesus tivesse sido casado?"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Aí está uma pergunta recorrente: Jesus foi casado? Agora, de repente, pensou-se que se tinha encontrado a resposta definitiva, na sequência da investigação de Karen King, professora da Harvard Divinity School, Massachusetts, do fragmento de um papiro em copta, do século IV. Aí, lê-se: "Jesus disse-lhes: a minha mulher... poderá ser minha discípula."

Mas nem sequer para a investigadora, que acaba de apresentar as conclusões do seu estudo no Congresso Internacional de Estudos Coptas em Roma, a que se deu imensa publicidade, o fragmento do papiro prova que Jesus foi casado. Do que se trata é que "desde o começo, os cristãos estavam em desacordo sobre se era melhor não contrair matrimónio, mas só um século depois da morte de Jesus começaram a dissentir sobre o estado marital do Messias para defender as suas posições".

Embora seja necessário aprofundar ainda a questão, pois desconhece-se a origem exacta do fragmento, propriedade de um coleccionador anónimo - é sabido como pululam no mercado textos antigos falsos -, vários especialistas de renome, como Antonio Piñero e Xabier Pikaza, pensam que o papiro é autêntico e poderá ser uma tradução de um texto gnóstico grego do século II (à volta do ano 160).

De qualquer modo, não é por esta via que ficamos a saber se Jesus foi ou não casado. De facto, o texto pertence ao contexto da gnose e, assim, como explica Xabier Pikaza, "não pode utilizar-se de modo nenhum para falar de um possível casamento de Jesus com Maria Madalena ou outra mulher, pois não trata de um casamento 'físico', mas de uma presença espiritual do Revelador Celeste na alma dos fiéis". Nos evangelhos gnósticos, chega a dizer-se que "se beijavam na boca", mas isso tem apenas sentido simbólico, como explica Antonio Piñero, um dos maiores peritos nesta temática: "os gnósticos gostam de metáforas sexuais para designar a união espiritual forte", e, portanto, comparando com outros textos gnósticos, "o texto do papiro pode ter o mesmo significado 'místico' ou simbólico".

Continuamos, portanto, na situação em que estávamos: "Este texto não nos ensina nada sobre o Jesus histórico e o seu possível casamento." Mas a pergunta permanece: o Jesus histórico foi casado? O mesmo X. Pikaza responde em síntese: "Não se pode 'demonstrar' que Jesus foi celibatário, mas todos os indícios apontam nesse sentido."

É certo que o celibato não era o estado civil comum. Diz o Talmude: "Quem não tem mulher é um ser sem alegria, sem bênção, sem felicidade, sem defesa contra a concupiscência, sem paz; um homem sem mulher não é um homem." Por isso, há quem argumente que, se o Novo Testamento nada diz sobre o estado civil de Jesus, é porque se supõe que estava casado. Antonio Piñero contrapõe que Jesus não era um rabino estrito e entre os essénios da época de Jesus havia muitos que não se casavam. Afirma, pois, que poderia ser viúvo, mas durante o seu ministério público não teve mulher. Jesus andava rodeado de mulheres juntamente com os discípulos homens e, se estivesse casado, seria normal que os Evangelhos o dissessem, como se fala com naturalidade da sogra de S. Pedro.

Embora não haja provas definitivas, a maioria dos grandes exegetas, apoiando-se nas fontes fiáveis, coincidem na afirmação de que Jesus não foi casado. Assim, um dos maiores historiadores sobre Jesus, o americano John Paul Meier, afirma: "Jesus nunca se casou, o que faz dele um ser atípico e, por extensão, marginal na sociedade judaica convencional." Por outro lado, é certo que Jesus teve especial predilecção por Maria Madalena, "mas casá-la com Cristo é um disparate", assegura o teólogo jesuíta Juan A. Estrada.

De qualquer forma, o celibato de Jesus não é dogma e a mim, pessoalmente, não me causaria incómodo nenhum, se se demonstrasse que foi casado. Como disse ao Expresso, embora compreenda a situação, do que mais me impressiona é verificar que, "quando aparecem estas coisas, a curiosidade das pessoas é superior à curiosidade que têm pela mensagem de Jesus, que é o essencial", uma mensagem decisiva, também para os tempos dramáticos que estamos a viver.

Denúncia

Quem dirá ao príncipe o seu feito, se o profeta se lhe torna semelhante?

Abbé Pierre, 1994

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Ah, está explicado o papiro da mulher de Jesus

No "Inimigo Público" de hoje. Mais papiro aqui.

Bizantinice


Teófilo, imperador bizantino do séc. IX, afirma, reportando-se a Eva:
- A fonte e causa de todas as tribulações humanas foi uma mulher.
A poetisa Cássia argumentou:
- E toda a regeneração humana partiu de uma mulher.

Não certamente devido a esta discordância imperial, Cássia, apaixonada por Teófilo quando este ainda não tinha subido ao trono (ele, iconoclasta, casar-se-ia com Teofora, defensora dos ícones), terminou a sua vida como muitas mulheres que procuravam protagonismo: num convento.

Anticlericalismo dos santos

Abbé Pierre como figura dos "Les Guignols de l'Info"

Na véspera da minha ordenação, quando me confessei ao padre Lubac, na encosta de Fourvière, tinha acabado de ser publicado o seu magnífico livro Catholicisme. Ofereceu-mo. Pedi-lhe que escrevesse qualquer coisa. E escreveu: "Amanhã, quando estiveres estendido sobre as lajes da capela para a ordenação, faz apenas um pedido ao Espírito Santo. Pede-lhe que te conceda o anticlericalismo dos santos".
Tentei aproveitar a lição...

Abbé Pierre, 1966

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

“Aos jovens, como podem tirar proveito das letras pagãs”


Quando o bizantino Manuel Crisolora foi para Florença, no ano de 1397, pago pela signoria da cidade para ensinar grego aos florentinos, levou consigo a sua biblioteca.

Sabe-se que incluía obras de Homero e Tucídides, Platão e Plutarco e de mais alguns. Entre os volumes, um teve especial influência no Renascimento que havia de vir: “Aos jovens, como podem tirar proveito das letras pagãs”.

Não é errado pensar que este livro teve uma influência gigantesca no amor pelos clássicos, tão essencial ao Humanismo. O autor? São Basílio, o capadócio, o grande teólogo do Espírito Santo no séc. IV e inventor dos hospitais.

Quem poderia hoje escrever um novo: “Aos jovens, como podem tirar proveito das letras ateias?”

Basílio Magno

Antes de agir

A primeira regra antes de agir é pôr-se no lugar do outro. Nenhuma verdadeira procura do bem comum é, sem isso, possível.

Abbé Pierre, 1965

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

"Então interessar-nos-emos por tudo"

A um grupo de mulheres que se dirigiram a uma das "mães do Concílio" [uma das 10 religiosas e 13 leigas que estiveram no Vaticano II] para pedir que se interessasse pelas coisas que diziam respeito às mulheres, esta respondeu: "Então interessar-nos-emos por tudo".
Contou Fabrizio Mastrofini, no sítio Vatican Insider (li aqui), e acrescentou: A tentação é sempre a de relegar as mulheres na Igreja a tratar das temáticas que se referem às mulheres, sem saber que todas as temáticas lhes dizem respeito e sobre todas elas têm a sua contribuição a oferecer.

Começa amanhã, em Roma, um congresso que tem como tema "Teólogas releem o Vaticano II. Assumir uma história, preparar o futuro".

Agostinho via Ratzinger: Assim como na Igreja Católica pode-se encontrar o que não é católico, assim também fora da Católica pode haver algo de católico


Bento XVI disse isto no Angelus de domingo passado, ecoando as leituras das missas de domingo, que falavam de gente que andava a profetizar sem a autorização de Moisés e de gente de fora do círculo de Jesus que expulsava demónios em nome de Jesus, deixando incomodados os seguidores mais próximos:               
"Assim como na Católica – isto é, na Igreja – pode-se encontrar o que não é católico, assim também fora da Católica pode haver algo de católico" (Agostinho, Sobre o batismo contra os donatistas: PL 43, VII, 39, 77). Por isso, os membros da Igreja não devem sentir ciúmes, mas se alegrar se alguém externo à comunidade faz o bem em nome de Cristo, contanto que o faça com reta intenção e com respeito. Mesmo dentro da própria Igreja pode acontecer, às vezes, que se custe a valorizar e a apreciar, em um espírito de profunda comunhão, as coisas boas realizadas pelas várias realidades eclesiais. Em vez disso, todos devemos ser capazes de nos apreciar e estimar reciprocamente, louvando o Senhor pela infinita 'fantasia' com a qual ele age na Igreja e no mundo."
Comentário de Christian Albini no blogue Sperare per Tutti:
Essas palavras de Bento XVI, pronunciadas durante o Ângelus desse domingo, pertencem àquela parte do seu magistério que muitos de seus laudatores mais entusiastas parecem esquecer. São os intransigentes da identidade e do exclusivismo. Não querem admitir que o Espírito está presente fora das fronteiras eclesiais, gostariam de cercá-lo, de reconduzi-lo à sua própria medida. 
Se palavras desse tipo, que, de fato, são uma paráfrase do Evangelho desse domingo, são ditas pelo papa, no máximo são ignoradas. Se, ao contrário, são ditas por outros, acusa-se-lhes de querer se comprometer com o "mundo" e de relativismo. Isso aconteceu e acontece com muitos expoentes de um catolicismo mais aberto e dialogante.
Copiei daqui. Em italiano pode ser lido aqui.

Levantar o véu

A primeira tarefa dos que querem agir é levantar o véu, mostrar à opinião pública o que ela não quer ver.

Abbé Pierre, 1990

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Banco quer mais fé para aumentar os rácios


Um banco que noutro milénio era conhecido pela ligação a uma certa obra da Igreja envia uma newsletter aos seus clientes com o título “Fides et ratio”. Procurei referências à “fides”, para além do título, e não encontrei. O texto fala, aliás, mais da “irratio” do que da ação da “fides”. Cito:
A crise europeia da dívida soberana leva já um imenso rasto de bizarras ocorrências. A mais recente consistiu na materialização de taxas de juro negativas nos instrumentos de dívida pública de alguns países europeus. Fundada pela Suíça, esta excêntrica agremiação chegou a contar com a Alemanha, a Holanda e a Finlândia. Os tempos conturbados que vivemos habituaram-nos a esperar o inesperado, mas taxas de juro negativas são uma aberração que testa os espíritos mais preparados. A noção de que as taxas de juro, como preços que são do dinheiro, possam assumir valores inferiores a zero é tão contranatura quanto a ideia de que os cabeleireiros paguem aos clientes pelo privilégio de lhes cortar o cabelo.
No contexto português, falar de bancos abre quase sempre espaço para referências pneumatológicas. Mas evito-as aqui, ainda que muitos acionistas do banco que enviou a newsletter tenham saudades do tempo em que a instituição era liderada por aquele que chegou a ser apelidado de “banqueiro catequista”. É que, se só a “fides” salva, também é verdade que uma “fides” sem obras é morta. E quem diz obras, diz ações. Ora, com ações que não valem quase nada, dificilmente se consegue empreender os altos voos de que falava João Paulo II no início da “Fides et ratio”. Precisamos de boas ações para animar a "fides".

Como todos os economistas dizem,  em grande parte a crise económica é uma crise de confiança, uma crise fiducial. Será que o Ano da Fé, quase a começar, é o princípio do fim da crise? De boas, grandes, altas ações? Ano da Fé, melhores rácios?

Igreja irritada com Neymar crucificado


No DN de hoje. Ler aqui, na íntegra, a breve nota dos bispos brasileiros.

Começar

Não devemos esperar ser perfeitos para começar qualquer coisa de bem.

Abbé Pierre

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Walter Kasper: Crise e futuro da Igreja


O texto é longo, mas tratando-se de um teólogo apreciado por estes lados, sobre uma questão de grandes consequências para qualquer católico - o ser e estar da Igreja - não hesito em colocá-lo todo aqui. Walter Kasper pronunciou-o em abril passado na Academia Católica de Bréscia. Copiei daqui.


Em primeiro lugar, gostaria de expressar a minha profunda gratidão pelo convite a vir a Bréscia. Devo confessar que é a primeira vez que venho pessoalmente a esta famosa e bela cidade. Mas, através da editora Queriniana, estou ligado a ele há décadas.

1. Experiências pessoais com a Igreja

O tema que tratarei a seguir é: "Crise e futuro da Igreja". Eu não me ocupo apenas atualmente com a Igreja. Esse tema me interessa desde quando eu posso pensar, e já são mais de 70 anos. Por isso, gostaria de começar esta conferência com algumas notas biográficas, para esclarecer que o tema da "Igreja" não é para mim um tema com o qual eu tenho a ver apenas em nível acadêmico ou por "dever de ofício". A Igreja tem alguma coisa a ver comigo, com a minha vida e com a minha experiência de vida. Trata-se da minha Igreja.

Eu cresci antes e durante a Segunda Guerra Mundial, no período do nazismo e da guerra, quando a Igreja, entre nós, na Alemanha, não estava bem. O bispo da nossa diocese havia sido expulso pelos nazistas. No campo de concentração de Dachau, havia um grande bloco para os sacerdotes e, no fim da guerra, muitas Igrejas estavam reduzidas a escombros. Quando menino, eu sabia que não deveria contar aos meus companheiros o que a minha mãe me dizia (meu pai era soldado) sobre os nazistas, porque senão eu acabaria em um campo de concentração. A discriminação era clara, havia um claro "sim" ou um claro "não". Mas justamente com essa identidade clara, a Igreja para nós era pátria, casa. Era, como se diz hoje, a Igreja pré-conciliar. Eu não a percebia como limitante. Tínhamos orgulho de pertencer a ela.

Depois da guerra, eu encontrei o reflorescimento do movimento juvenil, intimamente ligado aos movimentos litúrgico e bíblico. Depois do nazismo e dos horrores da guerra, foi um novo começo. Durante os meus estudos universitários nos anos 1950, eu tomei conhecimento da teologia de Tübingen. Não se tratava nem de uma neoescolástica cristalizada, nem de uma teologia liberal. Era, ao invés, uma teologia baseada na concepção da tradição viva da Igreja. Ela foi concebida por Johann Adam Möhler, um dos maiores precursores da teologia do século XX, que, analogamente a John Henry Newman, preparou a renovação eclesiológica do Concílio Vaticano II.

No entanto, para nós, foi uma surpresa absoluta que o Papa João XXIII, no dia 25 de janeiro de 1959, anunciasse que queria convocar um Concílio. Ninguém esperava. Mas nunca percebemos o Concílio como uma ruptura. Para nós, ele foi, ao contrário, a implementação de aspirações não ditas, que já estavam há muito tempo nos nossos corações. Propagou-se uma onda de entusiasmo, como os jovens hoje não podem nem sequer imaginar e que não poderiam mais reviver.

A experiência do Concílio me deu uma marca permanente. O Concílio se tornou para mim ponto de referência fixo da minha teologia. Posteriormente, algumas expectativas de então podem ser julgadas como ingênuas. No entanto, ainda hoje considero os documentos conciliares como uma bússola segura para o caminho da Igreja no século XXI e no ainda jovem terceiro milênio. Espero que o 50º aniversário da abertura do Concílio, que celebramos este ano, torne novamente presente e fecundas as riquezas dos 16 documentos conciliares.

Muitas vezes fala-se de uma crise da Igreja depois do Concílio. Sim, ela existe principalmente na Europa Ocidental. Mas nem tudo o que aconteceu depois do Concílio ocorreu por causa do Concílio. Ao invés, só aprofundando o conhecimento e a compreensão do Concílio e realizando melhor as suas intenções profundas, se lermos e compreendermos os textos conciliares em uma hermenêutica não de ruptura, mas sim de uma continuidade viva e inovadora, seremos capazes de superar as dificuldades atuais. Nesse espírito e com essa intenção, nos anos depois do Concílio, eu publiquei a cristologia [1] e o livro sobre a doutrina de Deus [2] para ajudar a reforçar os fundamentos sobre os quais a Igreja está construída.

Perto do fim do meu período na universidade, também quis publicar uma eclesiologia. Mas as coisas ocorreram de forma diferente. Depois de 25 anos de docência na universidade, fui chamado para ser bispo de uma grande diocese e tive que fazer uma eclesiologia prática. Foi o momento da verdade para a minha eclesiologia, antes mais do que nada teórica, e, ao mesmo tempo, foi uma experiência que me enriqueceu. Eu fiz uma experiência concreta do povo de Deus. Além disso, eu também era responsável pelas relações com a Conferência Episcopal do Terceiro Mundo. Eu viajei para muitas partes do mundo, conheci as jovens Igrejas da África, da América Latina e da Ásia, fiquei impressionado com a sua vitalidade, mas também fui confrontado com muitas situações de pobreza, miséria e perseguição. Os problemas da nossa casa, em comparação, pareciam modestos.

Eu também experimentei do que eram capazes de fazer as freiras católicas e os voluntários das organizações humanitárias. Foi uma experiência grandiosa pertencer a essa Igreja de tantas formas, mas que é uma só, universal; uma Igreja que é uma luz de esperança para inúmeras pessoas e em que em toda a parte estamos em casa, em um mundo que, por outro lado, está tão dilacerado.

Ainda hoje, a Igreja é, apesar de todas as suas divisões, o maior movimento pela paz que existe no mundo, é um sinal de esperança para inúmeras pessoas em todo o mundo. Assim, todas essas experiências eram para mim uma ampliação de horizonte formidável e positivo para além das palavras.

Quando, há 12 anos, fui chamado a Roma para o Pontifício Concílio para a Promoção da Unidade dos Cristãos, começou uma fase existencial totalmente nova. Vindo da Alemanha, país confessionalmente dividido, eu estava familiarizado com os problemas entre católicos e evangélicos. Da ortodoxia, eu só sabia o que se aprende nos livros escolares. Desde o início, ficou-me claro que não podemos nos ocupar do ecumenismo a partir da escrivaninha e que nem os documentos por si só são suficientes. Em vez disso, trata-se de construir relações ou, melhor, confiança e amizade com os outros cristãos. Isso me levou, novamente, a fazer muitas viagens ao redor do mundo e a viver muitas experiências comoventes. Eu conheci a Igreja universal e a cristandade mundial na sua variedade de cores. As Igrejas orientais pré-calcedonianas, ortodoxas e católicas, a Igreja Católica latina, as Igrejas protestantes tradicionais, as Igrejas livres e as novas comunidades carismáticas e pentecostais, as Igrejas do hemisfério Norte e do Sul. À primeira vista, tudo isso parece ser muito desorientador; a um segundo olhar, enriquece; por fim, contudo, é doloroso fazer uma experiência concreta da dilaceração do único corpo de Cristo.

Todas essas experiências de vários tipos, feitas como professor universitário, bispo de uma grande diocese e a responsabilidade na Igreja mundial reforçaram a minha fé católica e ampliaram a minha eclesiologia original. Era disso que eu queria prestar contas e também queria compartilhar com os outros, na obra que agora é publicada [3]. Ao mesmo tempo, eu queria dizer que, apesar das diferenças que existem, a experiência ecumênica de pertencimento de todos os batizados em Cristo, a cooperação e a amizade ecumênica indicam que a unidade plena de todas as Igrejas é uma grande tarefa. Essa é a vontade do Senhor, a tarefa que nos foi confiada pelo Concílio.

2. O método e os atuais desafios da eclesiologia

Depois de ter ilustrado o pano de fundo, coloca-se agora a pergunta: como se faz eclesiologia? Qual é, portanto, o método da eclesiologia? Como se sabe, a questão do método é constitutivo para toda disciplina acadêmica.

Eu já mencionei que venho da tradição da Escola de Tübingen do século XIX. Para ela, o método histórico é determinante. No entanto, o método histórico não significa apenas o uso dos métodos históricos críticos. Ele tem um significado teológico muito mais profundo. Significa que a fé e a doutrina da Igreja não são um sistema abstrato de dogmas, enunciados e princípios. O conteúdo da fé é uma história concreta, a história de Deus com as pessoas, que começa com Abraão, Moisés, os profetas e que se cumpre em Jesus Cristo.

Em última análise, a fé orienta para uma Pessoa concreta, Jesus Cristo, Filho de Deus, e, portanto, a alguém que testemunhou Deus como Pai misericordioso, precisamente na própria morte e na própria ressurreição. Mas Jesus Cristo não só viveu há 2.000 anos na Palestina, para depois ir embora. Ele está presente permanentemente, através do seu Espírito Santo, na história da Igreja, no seu anúncio, nos seus sacramentos e em toda a sua vida, especialmente a dos santos.

Se, portanto, quisermos conhecer e compreender a fé, então devemos estudar essa história. Certamente, os dogmas são importantes. Mas não caíram do céu. Eles são, ao contrário, na história, por assim dizer, o sedimento, a expressão da experiência de fé e da proclamação da fé por parte da Igreja. Se quisermos compreendê-los, devemos compreender como eles se formaram e, ao mesmo tempo, é preciso traduzi-los na história de hoje, nos problemas e nos horizontes de hoje. Nesse sentido, fala-se de uma tradição viva, que não é só um conteúdo fixo, mas também um processo de tradição ativa. Isso não tem nada a ver com o relativismo, mas, ao contrário, quer dizer e mostrar que, nessa tradição se expressa algo duradouramente válido, duradouramente importante e duradouramente meritório de reflexão. A tarefa da teologia é dar desse tesouro o que é duradouramente válido, torná-lo frutífera para hoje e, assim, transmiti-lo vivo para o futuro.

Então, eu sempre parto do testemunho do Antigo e do Novo Testamento e da sua interpretação, vivida e, muito frequentemente, sofrida, na História da Igreja. Nisso, reveste-se de uma especial importância o testemunho dos Padres da Igreja dos primeiros séculos e também dos grandes Santos. Justamente essa era a intenção do Concílio Vaticano II: ele queria um certo aggiornamento, mas não uma atualização que fosse uma adaptação para os dias de hoje. Ao invés, ele queria, como dizem os franceses, uma ressourcement, um retorno às fontes para nelas obter água fresca e refrescante. O Concílio, assim, não encaminhou uma Igreja nova, mas sim uma Igreja renovada, uma Igreja que está em linha de continuidade com a tradição até agora, mas uma continuidade viva, inovadora. A sua mensagem é a mesma em todos os séculos, que nunca é velha. Ao invés, é sempre jovem e sempre nova, porque Jesus Cristo é a novidade que nunca se desgasta, é a novidade eterna, jovem.

Esta História, às vezes, é complicada, mas também é enormemente reconfortante. Pois indica que a Igreja não se encontra em dificuldades só hoje, mas se encontrou em dificuldades, por assim dizer, desde o início e que já superou muitas crises, das quais saiu, normalmente, reforçada. Toda a História da Igreja é uma história de crise, e Jesus não anunciou nada de diferente aos discípulos: "Neste mundo vocês terão aflições, mas tenham coragem; eu venci o mundo" (Jo 16, 33).

Perguntamo-nos, então: quais são os desafios que temos pela frente hoje, e a quais desafios a eclesiologia hodierna deve responder? Eu vejo um tríplice desafio.

1. Há dificuldades e crises concretas, diferentes de acordo com os países. Por exemplo, nos últimos anos, os terríveis escândalos de abusos em diversas países, inclusive no meu país. Custaram muito à Igreja, em confiança, e lesaram gravemente o seu prestígio. Devemos nos perguntar, portanto: o que deu errado? E o que se deve fazer, como processo de cura, para ajudar as vítimas? A Igreja deve ser ecclesia semper purificanda et renovanda: Igreja que precisa continuamente de purificação e renovação (Lumen gentium 8). Uma eclesiologia, portanto, deve ser apologeticamente certa, no sentido de defender a estrutura permanente da natureza da Igreja desejada por Cristo, mas não deve defender tudo da Igreja; também deve indicar formas de renovação nas pegadas do Concílio.

2. A Igreja, para nós, na Europa, encontra-se atualmente em uma difícil fase histórica de transição. As premissas culturais e sociais do milieu católico e da Igreja popular de velho estilo estão no fim ou, em muitos lugares, já tiveram fim. Por Igreja popular de velho estilo, entende-se a situação em que a Igreja determina do modo mais amplo a vida pública e os parâmetros que valem publicamente, enquanto nos encontramos em uma situação amplamente secularizada e de pluralidade social. Em muitos países, estamos indo ao encontro de um novo tipo de situação de diáspora, em que os cristãos convictos e praticantes, católicos e não católicos juntos, ainda constituem uma grande minoria, mas não são mais a maioria. O Papa Bento XVI falou de minoria qualitativa, desperta e criativa.

Tal situação preocupa e assusta muitos cristãos. Mas se seguirmos o grande e famoso historiador Arnold J. Toynbee, então, nos períodos de maior crise e de revolução da história da humanidade, sempre foram minorias, despertas e criativas, que encontraram uma saída e uma solução, que depois também pôde ser seguida pela maioria. As minorias, portanto, não devem se tornar seitas; elas podem ter uma enorme influência cultural, se forem despertas e criativas. Por isso, não é preciso ter medo. Porém, esse desenvolvimento nos pões desafios significativos, por exemplo na reestruturação das nossas paróquias e na nossa atividade de cuidado pastoral, como já ocorre na França e na Alemanha e, parcialmente, também na Itália. Em última análise, no entanto, trata-se do problema eclesiológico: o que é uma Igreja local? O que é uma comunidade local (paróquia)? Como ela se parecerá no futuro e como se parecerá a relação entre Igreja universal e local?

3. O verdadeiro e mais profundo desafio, na nossa situação secularizada e pluralista, é a questão de Deus. Não nos referimos apenas, em primeiro lugar, ao novo ateísmo agressivo, que existe, mas sim à indiferença para com Deus, o obscurecimento da consciência de Deus e a aparente ausência de Deus. Muitos, na nossa sociedade, vivem como se Deus não existisse e pensam, assim, que podem viver muito bem. Além disso, também há muitos, muitos numerosos do que pensamos, que se definem como agnósticos, mas são, por assim dizer, agnósticos devotos que interiormente estão em busca, são em certo sentido peregrinos, e se encontram, por assim dizer, no átrio dos gentios. Eles não se interessam pelas questões estruturais internas à Igreja, como as do celibato, da ordenação de mulheres e similares, que atualmente muitas vezes são os insiders que colocam em primeiro plano.

Eles perguntam se e o que a Igreja tem a dizer sobre a questão basilar da sua existência, isto é, em última análise, sobre a questão de Deus que está indelevelmente impressa nos corações dos seres humanos criados à imagem de Deus. Estou convencido de que o futuro da Igreja nas nossas sociedades depende disto: se somos ou não capazes de responder a essa pergunta, e se não nos pronunciamos apenas com a boca, mas também se podemos testemunhar com credibilidade na vida.

E com isso nos encontramos diante da questão basilar da eclesiologia de hoje. Ela não pode tratar apenas de questões estruturais dentro internas à Igreja. Deve fazê-lo, também, obviamente. Mas, acima de tudo, deve pôr a questão da Igreja à luz da questão de Deus. A eclesiologia, portanto, pode ser não apenas hierarcologia, da qual se interessam os insiders, mas não as pessoas de fora. A eclesiologia deve ser teologia, isto é, discurso (logos) sobre Deus (theos). Isso é o que tenta fazer a eclesiologia que eu proponho. Mais exatamente, ele tenta tratar a eclesiologia no horizonte da escatologia, portanto, da mensagem do reino vindouro de Deus e da esperança que ele nos dá. A esperança hoje é mercadoria escassa. O próprio Jesus provavelmente nunca falou explicitamente da Igreja, mas sim do reino de Deus; a Igreja é o seu sinal e instrumento. Dito teologicamente: a Igreja é quase-sacramento, isto é, sinal que já torna presente e instrumento do reino incipiente de Deus, reino de verdade, de justiça, de santidade e de felicidade.

Os Padres da Igreja tinham uma bela imagem para expressar essa ideia. Eles diziam que a Igreja é como a lua: não brilha com luz própria, mas somente com a luz que recebe do sol. A Igreja também não tem um esplendor próprio, mas apenas o que cai sobre ela de Deus e de Jesus Cristo. Ela não é importante em si mesma, mas é importante como sinal e instrumento de Deus e de Jesus Cristo na história da humanidade e do mundo. As duas primeiras palavras da Constituição Dogmática sobre a Igreja do Concílio Vaticano II são Lumen Gentium (Luz das Nações), mas depois não se continua com "a luz das nações é a Igreja", mas sim com "Lumen gentium quod est Christus" (luz dos gentios, que é Cristo).

Diz-se que a Igreja é somente um sacramento, isto é, sinal e instrumento de unidade com Deus e da unidade dos seres humanos. A Igreja está no seguimento de Cristo, testemunho de Deus servidor para os outros. Ela existe ouvindo a Palavra de Deus e pronunciando-a e dando a sua vida por muitos, isto é, por todos.

3. Redescobrir a Igreja

Movendo-nos a partir dessa visão teológica da Igreja, devemos redescobri-la. É como uma árvore, que só pode resistir à tempestade se tiver raízes profundas. Portanto, devemos nos interrogar sobre as raízes da Igreja e perguntar: Igreja, quem tu és? O que tu dizes sobre ti mesma? Hoje, o grande risco é o achatamento da compreensão da Igreja. Esse perigo não vem só de fora, mas muitas vezes da própria Igreja. É o risco da autossecularização da Igreja, que se envolve em muitas coisas, certamente importantes, com grande zelo, mas às vezes se esquece da sua missão fundamental. O que precisamos é de uma reviravolta teocêntrica. Uma visão teológica da Igreja.

O primeiro capítulo da Constituição sobre a Igreja do Concílio Vaticano II inicia, com razão, com um capítulo sobre o mistério da Igreja. Ela, portanto, não é, primeiramente, uma entidade social. Certamente, deve se comprometer com a caritas, com a justiça social, com o desenvolvimento e com a paz no mundo, e também o faz. Mas as suas raízes se espalham mais profundamente. Em última análise, ela está fundamentada no desígnio eterno de salvação, assumido por Deus antes de todos os tempos, para trazer novamente para casa a humanidade inteira e toda a realidade por meio de Jesus Cristo, no Espírito Santo. Recapitular e conduzir novamente para Cristo, única cabeça, todas as coisas (Ef 1, 10). Com a Igreja, Deus deu um início. Ela é, por assim dizer, a vanguarda do reino de Deus

As quatro grandes Constituições do Concílio Vaticano II indicam essa natureza, cada uma de um modo diferente. A Constituição sobre a Igreja [4]: A Igreja é o povo de Deus e o Corpo de Cristo, ela fará resplandecer a luz de Cristo no mundo, por meio da sua própria palavra e dos sacramentos e de toda a sua própria vida.

A Constituição sobre a Revelação [5] acrescenta: por isso, a Igreja deve escutar a Palavra de Deus, ela é, portanto, essencialmente, Igreja que escuta: assim, no entanto, também deve testemunhar a Palavra com energia e coragem. Deve dar orientação e ser uma lâmpada que dá luz na escuridão.

A Constituição sobre a Liturgia [6] afirma que, na liturgia, particularmente na celebração eucarística, o reino vindouro de Deus se faz presente, já agora, sob sinais sacramentais, como força e alimento no caminho da vida e da história. A Igreja é Ecclesia de Eucharistia (João Paulo II, 2003): Igreja que vive da Eucaristia.

Por fim, a Constituição pastoral [7] afirma que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias das pessoas de hoje são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. A Igreja, portanto, deve ser solidária com as desventuras e as alegrias das pessoas. Ela deve ser Igreja no mundo e para o mundo.

Nesse âmbito, gostaria de ir ao essencial e redescobrir o mistério profundo da Igreja: e assim também mostrar a beleza da Igreja como a Esposa de Cristo, apesar das suas manchas e rugas (Ef 5, 27). A Igreja, diziam os Padres da Igreja citando o Cântico dos Cânticos, é negra, mas bonita. Porém, as únicas reformas exteriores não ajudam a avançar. É como uma casa que deve ser reparada: não basta preencher as fissuras e renovar a pintura; é preciso, em primeiro lugar, assegurar os fundamentos. Assim é também para a Igreja: os meros reparos cosméticos não resolvem. É preciso uma renovação que venha da fé e uma renovação espiritual. Então, como a Igreja é uma realidade encarnatória, ou seja, uma realidade complexa de uma dimensão divina e uma dimensão humana (LG 8), tal renovação pode e deve conduzir também a reformas concretas. As duas coisas se integram. Eu gostaria de tratar, a partir desse ponto, ao menos de uma questão de reforma concreta.

4. Renovação da forma de communio da Igreja

Nas questões de reforma institucional, a abordagem deve ser feita a partir do lado da compreensão da Igreja como communio. Essa é a Leitidee, a ideia principal e diretriz da Igreja no Concílio Vaticano II. Mas o que se entende por communio? “Communio” não significa, simplesmente, comunhão, que se fundamenta na derivação e proveniência comum, ou que se origina por simpatia e interesses comuns e por meio da união e da fusão entre nós. Communio indica, no sentido do Novo Testamento, originalmente participação (participatio); mais exatamente, participação na realidade salvífica de Jesus Cristo, na vida e no Espírito de Jesus Cristo; em última análise, participação na communio trinitária, portanto, na vida trinitária de Deus.

Em tal acepção, a Igreja é entendida pelo Concílio no sentido dos Padres da Igreja como imagem, por assim dizer ícone da Trindade. Assim como nós adoramos um único Deus em três Pessoas, assim também a Igreja, como communio, é uma única unidade na variedade (Lumen gentium 4; Unitatis Redintegratio 3). A communio é fundada mediante o Batismo e a Eucaristia. Mediante o único Batismo, participamos do corpo de Cristo (Gal 3, 28, 1Cor 12, 13). Sobre Eucaristia, Paulo diz: "E como há um único pão, nós somos um só corpo" (1Cor 10, 16ss). Communio é, portanto, um conceito teológico e não sociológico.

Se entendermos a Igreja em sentido escritural, patrístico e conciliar, como a communio fundada por meio do Batismo e da Eucaristia, então toda renovação deve principiar com o Batismo e com a Eucaristia. Renovação do Batismo significa, acima de tudo, renovação da catequese para os sacramentos iniciação, o Batismo (juntamente com a Crisma) e a Eucaristia. Ela era o segredo do sucesso da Igreja antiga e o é também hoje na Igreja em missão. Entre nós, pelo fato de que muitos cristãos são batizados sem saber o que significa ser cristão, há atualmente um difundido analfabetismo cristão, que leva a um cristianismo certificado apenas no papel de um certificado de Batismo. Muitos se dizem cristãos, mas vivem como todos os gentios modernos. A renovação da catequese para os sacramentos de iniciação para as crianças e para os jovens, mas também para os adultos, é como o alfa e o ômega da renovação eclesial e é de primeira importância para o Ano da Fé que nos espera. Devo dizer que em Roma conheci algumas paróquias que, nesse aspecto, dão um notável exemplo e o fazem com grande sucesso.

Acrescenta-se a isso que a communio requer um estilo comunicativo na Igreja, isto é, um estilo dialógico e fraterno, que se distinga tanto daquele estilo vetusto, feudal, quanto daquele estilo novo, aparentemente moderno, burocrático. Tal forma de communio da Igreja não comporta a democratização da Igreja. A democracia tem o seu lugar legítimo no âmbito político. A Igreja não é um povo qualquer: ela é o povo de Deus, é uma realidade de gênero próprio. Trata-se, portanto, da realização da realidade do povo de Deus, onde todos são filhos e filhas de Deus, irmãos e irmãs na mesma família de Deus. Na revelação, Deus fala aos seres humanos como a amigos e se entretém com eles (DV 2). Daí, a vida da Igreja também deveria ser caracterizada por um estilo comunicativo, participativo e dialógico de fraternidade, amizade e confiança e por uma cultura do diálogo disposta à escuta e à aprendizagem.

"Diálogo" é uma palavra-chave do último Concílio, que se encontra nos documentos cerca de 30 vezes, em diversos contextos. Paulo VI escreveu a propósito uma encíclica sua, a Ecclesiam suam (1964), e João Paulo II abordou-a em profundas reflexões antropológicas: diálogo não só como partilha de ideias, mas também de dons (Ut unum sint, 1995, n. 28). Por isso, devemos nos admirar pelo fato de que, recentemente, alguns levantaram suspeitas sobre a pura palavra "diálogo", banindo-a do uso linguístico eclesial, quase querendo-a tornar objeto de um anátema.

Devemos simplesmente saber o que se entende por diálogo. Diálogo não significa conversa informal, nem mesa redonda, nem disputa acadêmica, nem manifestação informativa, nem negociação política, nem procedimento quase parlamentar. No diálogo, não compartilhamos algo com o outro, mas compartilhamos com ele a nós mesmos ou, melhor, compartilhamos a nós mesmos. O diálogo, entendido teologicamente, significa dar-se um recíproco testemunho, cada um, da própria fé e, desse modo, participar da riqueza do outro, deixar-se enriquecer, mas depois compreender ainda melhor e mais profundamente a própria fé. Por isso, no diálogo, não nos encontramos no nível do mínimo denominador comum. O diálogo não tem nada a ver nem com o relativismo, nem com o sincretismo. Ao contrário; através do diálogo, somos introduzidos mais profundamente na verdade e, mediante isso, somos enriquecidos, especialmente no diálogo ecumênico, na nossa compreensão da verdade.

Se, nesse sentido, queremos traduzir na prática a realidade da communio da Igreja na realidade concreta, então disso faz parte a comunicação, e isso quer dizer dar nova vida e reforçar as instituições sinodais na Igreja, tanto em nível local quanto universal. Tal renovação não é algo a ser fazer ex novo. A Igreja, a partir do concílio dos Apóstolos, tem uma tradição sinodal, cuja redescoberta poderia dar à Igreja um rosto jovem, fresco e uma forma renovada.

O ideal me parece estar descrito na Regra de São Bento. Para São Bento, o abade tem um lugar importante na comunidade monástica; por assim dizer, ele representa Jesus Cristo. Mas, no caso de decisões importantes, diz Bento, ele deve ouvir o conselho dos coirmãos e deve ouvir também o mais jovem, porque o Espírito Santo também pode falar através dele. Depois de ter se consultado, continua Bento, o abade deve refletir sobre tudo, rezar por isso e depois deve decidir, isto é, ele não é o executor de nenhum voto democrático; decide livremente, mas decide com base em uma consulta. Autoridade e fraternidade, portanto, se integram e se condicionam mutuamente. Na Igreja, deve haver auctoritas, na acepção original da palavra, de augere, crescer. Autoridade que não oprime a vida, mas que fundamenta a vida, multiplica a vida, faz crescer a vida e promove a vida.

Tal conjunto comunicativo de ministério e comunidade ou, melhor, de Igreja deveria existir em todos os níveis da vida eclesial, paroquial, diocesana, universal. Em nível da Igreja universal, a Igreja precisa, por amor à unidade na variedade, em um mundo cada vez mais globalizado, mas interiormente dilacerado, de um centro forte. Precisamos de Pedro, que, com a sua profissão de fé em Cristo, é a rocha sobre a qual foi fundada a Igreja (Mt 16, 18) e que deve fortalecer os seus irmãos (cf. Lc 22, 32). Precisamente em tempos difíceis como os nossos, vale a pena reunir-nos em torno de Pedro. Da mesma forma, a Igreja precisa reforçar a estrutura colegial/sinodal. As duas coisas não estão em contradição. A integração, desejada pelo Concílio Vaticano II, dos dois pontos de vista poderia, ao invés, contribuir para reforçar a unidade interna e para superar um certo afeto antirromano, que infelizmente ainda está presente.

Ao diálogo voltado para dentro, corresponde o diálogo voltado para fora: o diálogo com o povo de Deus da Antiga Aliança; o diálogo ecumênico e o diálogo com as outras religiões; o diálogo com a cultura de hoje e com todos os seres humanos de boa vontade. Com esses diálogos, o Concílio indicou o caminho no futuro: de uma Igreja que se entende como uma rocha e fortaleza fechada a uma Igreja comunicativa e aberta ao diálogo. Diálogo não significa renunciar à própria identidade; significa, ao invés, crescer na própria identidade. Porque, para a identidade cristã, no seguimento de Jesus, é essencial o ser para os outros e com os outros. Isso exclui tanto a adaptação quanto uma mentalidade ansiosa, que se isola para cultivar o próprio território circunscrito.

Disso faz parte, particularmente na nossa situação, o diálogo ecumênico. É tarefa dada por Jesus e é impulso e obra do Espírito Santo. A decisão a propósito, portanto, é irreversível e irrevogável; é um canteiro de obras importante da Igreja do futuro. Alcançamos muito e já podemos colher frutos. Mas ainda há questões sérias diante de nós. Ainda não chegamos à meta. Não é só a questão do ministério, mas a questão do ministério em relação com a da Igreja. Pois – algo que nenhum especialista contestará – assim como nós temos com os protestantes uma concepção diferente da Igreja, nós também temos uma concepção diferente da unidade da Igreja. Aqui tocamos as dificuldades fundamentais do diálogo ecumênico hoje. Apesar dessas dificuldades, também devemos fazer juntos o que podemos já hoje, na verdade e no amor.

Obviamente, o diálogo inter-religioso também é um mandamento desta época. É a alternativa à violência e ao choque de culturas, etnias e religiões. Mediante tal diálogo na verdade e no amor, a Igreja, como povo escatológico de Deus, pode ser, em meio aos conflitos do nosso mundo, exemplo e instrumento da paz (shalom) escatológica.

5. Conclusão: alegria nova para a Igreja

Com os diálogos voltados para dentro e para fora, o Concílio Vaticano II iniciou desenvolvimentos que não podemos programar. O Concílio indicou a direção para uma nova época. Isso nos deu uma luz para o caminho que não é um farol capaz de iluminar uma pista inteira que leva ao futuro; ele pôs em nossas mãos uma lanterna que, como toda lanterna, faz luz apenas na medida em que avançamos. Fornece luz para cada passo individual, que deve e pode seguir o passo seguinte. Por isso, um programa detalhado para o futuro não é possível. O futuro está nas mãos de Deus.

O Papa João XXIII, ao convocar e abrir o Concílio Vaticano II, falou de um renovado Pentecostes. Se estamos convencidos de que, em última análise, só o Espírito do Pentecostes pode dar a renovação, então devemos, acima de tudo, fazer o que os primeiros discípulos e discípulas fizeram antes de Pentecostes. Naquele tempo, os discípulos e as mulheres que tinham acompanhado Jesus se reuniram com Maria, mãe de Jesus, assíduos e concordes na oração (At 1, 12-14). Hoje também o futuro da Igreja está determinado, em primeira linha, por aqueles que rezam, e a Igreja do futuro será, acima de tudo, uma Igreja de pessoas que rezam.

O Espírito pode vir, como no primeiro Pentecostes, na tempestade e com o fogo (Atos 2, 2ss): com a tempestade que varre algumas coisas e com o fogo que queima coisas que, hoje, ainda nos parecem importantes. O Espírito, no entanto, também pode, como no caso do profeta Elias, vir na brisa suave do vento (1Reis 19, 12ss), pode purificar e transformar a nós e ao mundo, com o seu ardor, a partir de dentro. Pode nos tornar novamente conscientes de que a alegria para Deus é a nossa força (Neemias 8, 10).

Se nós, movendo-nos a partir dessa alegria, como povo de Deus, regozijamo-nos na Igreja, a Igreja também viverá amanhã e terá futuro depois de amanhã. Então, ela se tornará esplendor que preanuncia o reino vindouro de Deus e atrairá pessoas que buscam e interpelam, jovens e velhos, e será novamente, para muito, pátria espiritual. O fato de se lamentar não atrai ninguém; alegria, ao contrário, é contagiosa. A alegria de ser cristão convence. Se eu pude contribuir um pouco com essa alegria, ficarei muito feliz.

Notas:

1. KASPER, Walter. Gesù il Cristo. Bréscia: Queriniana, 1986.
2. KASPER, Walter. Il Dio di Gesù Cristo. Bréscia: Queriniana, 1984.
3. KASPER, Walter. Chiesa cattolica. Essenza – Realtà – Missione. Bréscia: Queriniana, 2012.
4. Lumen Gentium.
5. Dei Verbum.
6. Sacrosanctum Concilium.
7. Gaudium et Spes.

Ou Papa ou...


A minha mãe disse-me: “Se fores soldado, hás de ser general. Se fores monge, hás de ser Papa”. Em vez disso, quis ser pintor. E tornei-me Picasso.

Pablo Picasso

Indignação na ação

Guardemos no coração a impaciência de fazer. E a indignação na ação.

Abbé Pierre, 1994

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...