terça-feira, 14 de setembro de 2010

Pago por ter nascido "indevidamente"

Vem no “Público” de hoje e conta-se em dois parágrafos a história relatada por Ana Gerschenfeld. Os dilemas jurídicos e morais que acarreta exigem mais algumas linhas, mas não os trago para aqui, embora, quanto a mim, sejam falsos problemas, se a vida, tanto intra como extra-uterina, for tida como um valor absoluto que só se secundariza em confronto com outro valor absoluto.

A história em resumo

O Supremo Tribunal de Espanha condenou há umas semanas uma administração regional de saúde e uma universidade a pagarem 1500 euros por mês a uma criança que, na sequência de um erro de diagnóstico pré-natal, nasceu com síndrome de Down. A questão é que a criança poderia não ter nascido se os pais tivessem sido devidamente informados e tivessem optado por interromper a gravidez. As instituições terão ainda de pagar 75 mil euros a cada um dos pais da criança.

O que os pais dizem

Pode-se perguntar como é que os pais do menino conseguem conciliar o seu amor pelo seu filho - entrevistados esta semana pelo diário espanhol El País (que qualificou a sentença do Supremo como "pioneira em Espanha"), declararam que gostam dele "do fundo da alma" e que ele é "o que há de mais importante" nas suas vidas - com o facto de invocarem perante um tribunal a violação do direito da mãe a impedir que ele nascesse, mas esses são os factos, por contraditórios que possam parecer.

Impossível ficar indiferente

Gerschenfeld aponta o pragmatismo dos pais. O filho vai ter uma pensão que o ajudará a viver. E logo aqui há algo de muito estranho: quem poderia matar o filho mas não o mata devido a um erro clínico, tem direito a uma pensão (de quem se enganou nos testes). Quem assume um filho síndrome de Down não devia ter a igual pensão (do tal Estado que supostamente deve proteger a vida)?

Mas o pragmatismo não desfaz o dilema da situação: pais que dizem que amam o filho, mas que preferiam que ele tivesse morrido. Leis e tribunais que reconhecem o direito a não nascer, que dizem que se a lei tivesse sido cumprida a pessoa que está vida devia estar morta. Se isto são leis humanistas… Um jurista português explica que não há paradoxo nenhum. Pois não. Há é um enorme absurdo.

A história pode ser lida aqui. Se deixar de estar on-line, posso enviá-la por e-mail.

14 de Setembro de 1523. Morre o último Papa não italiano antes de João Paulo II

Túmulo de Adriano VI na Igreja Santa Maria dell'Anima, em Roma

Adriano VI (1459-1523) foi Papa de 9 de Janeiro de 1522 a 14 de Setembro de 1523. Ano e meio apenas. Além de ser o último papa não italiano antes de João Paulo II, foi dos únicos na modernidade, a par de Marcelo II, que manteve o nome de Baptismo, que era Adriaan Florenszoon Boeyens.

Adriano VI era holandês (“dutch”), de uma família modesta de Utreque, mas aos olhos dos cardeais eleitores, na maioria italianos, deve ter parecido germânico (da Deutschland). Ou pelo menos parecia ser a pessoa indicada para resolver os problemas gerados por um antigo monge alemão, Martinho Lutero. O Papa lançou de facto o princípio da Contra-Reforma, mas morreu cedo, provavelmente sem a noção das mudanças que os reformadores estavam a fazer. Não era querido dos romanos e houve quem dissesse que devia ser feita uma estátua ao seu médico.

B sixteen in UK

A visita ao país culturalmente mais influente da Europa e um dos mais secularistas (porque "secularizado" é positivo) merece atenção por parte dos católicos europeus. Confesso que a aguardo com mais expectativa do que a que fez a Portugal, onde jogava num terreno mais fácil.

Completar o que foi feito

O homem foi posto por Deus no meio da natureza para a concluir e lha oferecer.


Paul Claudel (1868-1955)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

13 de Setembro de 1877. Morre o autor de "Eurico, o Presbítero""

Alexandre Herculano, historiador (iniciador da História moderna em Portugal), jornalista e romancista, morreu no dia 13 de Setembro de 1877, em Santarém. Nascera a 28 de Março de 1810, em Lisboa.

Talvez mais conhecido pela sua “História de Portugal” e por “Lendas e Narrativa”, dele prefiro o romance histórico “Eurico, o Presbítero”, o único livro que li três vezes.

Passa-se no século VIII, nas Astúrias. Eurico é um soldado de condição humilde. Luta ao lado do rei. Apaixona-se pela nobre Hermengarda, mas esta não lhe dá troco, pelo que o soldado se entrega à vida religiosa. É uma espécie de monge. “Só e triste”. Mais tarde, com a invasão muçulmana, regressa ao combate como cavaleiro negro, vendo-se obrigado a resgatar Hermengarda das mãos do mouro. Hermengarda apaixona-se pelo salvador, mas Eurico é consagrado...

Ainda que se assemelhe a outros, este é o romance português que mais gostava de ver em filme.

O que está à porta do Inferno?

Dante morreu no dia 13 de Setembro de 1321. Ou talvez no dia 14 desse ano. Seja de que maneira for, é sempre bom lembrar a frase que está à porta do seu "Inferno": "Deixai toda a esperança, ó vos que entrais!"

Bento XVI no meio de uma mistura tóxica de apatia e hostilidade

A primeira coisa que o Papa vai querer fazer ao chegar ao Reino Unido não será beijar o chão, como João Paulo II, mas escavar um túnel de fuga, diz o correspondente da BBC citando um jornal escocês no DN de hoje (13 -09-2010).


Como Pio XII antecipou Stephen Hawking

Convém lembrar que o físico e padre belga Georges Lemaître [evocado aqui], que inventou o conceito do big bang (mas com outro nome, “átomo primevo”), disse que não se deve identificá-lo com a criação do Universo por Deus. Quando soube que o Papa Pio XIIiria fazer um discurso para a oitava Assembleia Geral da União Astronômica Internacional em Roma, em 1952, viajou à capital italiana para pedir ao Papa que não apresentasse o big bang como o ato de criação do Universo por Deus. O Papa seguiu a orientação do Pe. Lemaître. O fato de Hawking não reconhecer o big bang como criação por Deus foi antecipado mais de meio século pelo Papa Pio XII.

Quem crê na fé cristã tem razões de outra ordem para a sua fé. A dimensão espiritual da realidade se manifesta na nossa experiência da consciência pessoal, do “eu”. A tradição do encontro com o Cristo vivo depois da sua morte terrível na cruz dá a dimensão histórica da nossa fé. E o cristão que procura viver a fé percebe nela uma sintonia com tudo o que existe e uma orientação para a vida que responde aos anseios mais profundos do seu coração.

Excerto de um artigo de Paul Schweitzer, padre jesuíta e membro da Academia Brasileira de Ciências, publicado no jornal "O Globo" de 13-09-2010. Copiado daqui.

Pela unidade de todos os fiéis no mundo

Tu te revelaste, Senhor, como invisível:
tu és um Deus oculto e inefável.
Mas surges visível em todo o ser:
a criatura é a menina de teus olhos.
O teu olhar manifesta o ser, ó meu Deus,
tu és visível na criatura.
Sou incapaz de te dar um nome,
estás além do limite de toda a humana definição.
Socorre os filhos do homem!
Tu és venerado por eles numa grande diversidade de figuras,
e és para eles causa de guerras religiosas.
Apesar disso, eles te desejam, Único Bem,
ó Inefável e Sem nomes.
Não permaneças sob o véu, mostra o teu rosto
e seremos salvos.
Atende o nosso pedido:
a espada e o ódio vão desaparecer,
encontraremos a unidade na diversidade.
Tem piedade, Senhor, a tua justiça é misericórdia,
tem piedade de nós, frágeis criaturas.

Nicolau de Cusa (1401-1464)

Sonho

Não é porque eu sonho com Deus que Ele existe, é porque Ele existe que eu sonho com Ele.

Auguste Valensin (1879-1953)

Hawking versus Carlos Fiolhais

Carlos Fiolhais, há dias num programa da RTP2, respondendo à questão do que havia antes do Big Bang, e Stephen Hawking na Universidade de Berkeley (Califórnia), há três anos. Cinco vídeos. No último diz que que estamos perto de ter as respostas às velhas questões: "Por que é que estamos aqui? De onde viemos?" E termina: "Obrigado por me terem ouvido". Gostava de saber as respostas e ele nunca as diz.



Nos cinco vídeos de Hawking (1, 2, 3, 4, 5), quando a religião é focada, é quase sempre motivo de riso para a plateia (o deus Bumba, o Bispo Usher, Santo Agostinho - apesar de deturpado na citação -, o inferno...), o que me leva a supor que a religião (e Deus) continua a ser o assunto mais importante, mesmo que espantado à base da ironia e do sarcasmo.

domingo, 12 de setembro de 2010

Hawking: Um nada que é tudo

Admiro Stephen Hawking. É uma mente científica brilhante. E embora não se realcem os seus feitos com o facto de estar numa cadeira de rodas, só poder mexer uns dedos e falar por meio de um processador de voz – julgo que por causa do pudor socialmente correcto em dizer que “ele é doente” ou “ele é deficiente” –, essas circunstâncias não só contribuem para a aura do cientista frágil por fora mas iluminado por dentro (o mesmo se aplica ao genial mas despenteado e distraído Einstein) como são um bom exemplo de que as limitações exteriores não são impeditivas de façanhas brilhantes. Um exemplo de catequese, se Hawking fosse crente. Na realidade até é crente, já lá chegarei, mas não em Deus, seja Ele qual for, suponho, nem da teologia ou em qualquer igreja.

No programa «Larry King Live», na CNN, emitido no dia 10 de Setembro, afirmou que a “teologia é desnecessária” e que “a ciência está cada vez mais a responder a questões que eram um território da religião”. Não sei se disse quais as questões que "eram" da religião. O resumo que saiu na imprensa não esclarece. Mas a grande questão, tendo em conta anteriores tomadas de posição, é: por que é que existe o universo em vez do nada?

Não sendo eu cientista de formação nem por lá perto, ainda que tenha lido uns bons livros da colecção “Ciência Aberta”, da Gradiva, incluindo a “Breve História do Tempo”, de Hawking, no início dos anos 90, considero, no entanto, que as grandes questões devem ser do alcance de todos. É uma espécie de dogma em que acredito, como Hawking também acredita em coisas não provadas – lá chegarei. A origem e o fim do universo, o sentido da vida, os porquês e para quês últimos devem estar ao alcance de todos, porque somos feitos da matéria do universo mas temos consciência, que é quando a materialidade se ultrapassa. Se um cientista me faz como Euler fez a Diderot, sinto-me defraudado em vez de derrotado. Discutindo a existência de Deus, Euler escreveu uma fórmula matemática e concluiu: “Logo, Deus existe”. Diderot sentiu-se derrotado. E suponho que frustrado. Euler sabia bem que Deus não se provava, mas aquilo era para dar uma lição ao iluminista, grande humanista e anticlerical, mas pouco dado às ciências positivas. Por vezes Hawking parece ser um novo Euler ao dar a entender, no meio de teorias de que já ouvimos o nome, mas que não percebemos realmente, que Deus não existe, que é desnecessário, que não pode ter criado o mundo.

É que, mesmo que alguém informado diga que compreende que a energia é igual à massa vezes a velocidade da luz ao quadrado (equivalência massa-energia), por exemplo, o mais certo é que saiba que é assim, mas não compreenda realmente como pode ser assim. Compreender é outra coisa. Felizmente, não precisamos de compreender a mecânica para conduzir um automóvel. Temos de confiar nos mecânicos e nos construtores de automóveis.

Se Hawking junta meia dúzia de teorias, a relatividade, mais a quântica, mais a Teoria-M e as supercordas, e diz que isso explica o como e o porquê do universo e dispensa Deus, se confiarmos nele como confiamos nos mecânicos, dispensamos Deus. Mas, no geral, os mecânicos da ciência dizem que a ciência não trata de Deus. Como os mecânicos da teologia dizem que a teologia não trata do como do mundo. E logo aqui há uma dissonância.

Mas o pior é que, apesar de não compreendermos as tais teorias, não podemos deixar de questionar o que o cientista nos diz. Afirma, por exemplo: “Dada a existência da gravidade, o universo pode criar-se a si mesmo do nada”. “Dada?” Como “dada”? Se é no sentido de “observada”, ou “já que existe”, a questão que logo se impõe é por que é que existe a gravidade em vez do nada? E quanto ao nada, para Hawking e outros cientistas, é um nada que é tudo. Na filosofia dizia-se que do nada, nada pode vir. Os cientistas, ou Hawking, andam a dizer que do nada tudo pode vir. Até compreendo – ou penso que compreendo – o que querem dizer. Se o cosmos é uma soma de energia zero, o universo que existe é uma flutuação de energia, é uma separação da matéria (onde nós estamos e somos; curiosa essa ideia de separação, como nas primeiras páginas da Bíblia) e da antimatéria (que andará escondida algures no universo, ou noutro universo, e que é matéria de bestsellers). Por isso dizem que há o universo e o multiverso. E porque não inverso?

Mas se matéria mais antimatéria dá nada, zero, equilíbrio, convém notar que é um nada muito especial. Um nada que é tudo. Ora, se me dizem que há ou houve lá muito no princípio, ou antes do princípio, um nada que é bem nada, um nada que é a soma de tudo, que é tudo, isto soa-me a algo incongruente e, em certo sentido, quase dogmático.

Para superar o nada radical (e não o nada científico, que esse não o compreendo), só concebo um não-nada superior a tudo. A isso chamo Deus, embora o da fé, sendo esse, é mais do que isso. Aqui entra a filosofia e, na minha perspectiva, a religião. E não se confunde com a ciência. Que a ciência explique a origem do universo, ainda que me pareça uma explicação que não explica realmente, pelo menos no ponto em que nos encontramos, até poderei aceitar, mas terei de compreender o básico, ao contrário dos motores de automóveis ou dos computadores, que não respondem às questões do sentido, ainda que respondam a necessidades básicas. Não basta dizer: “Nós, cientistas, sabemos como é. Acreditem em nós, que é demasiado complicado para perceberem”. Mas parece-me que é o que está a acontecer. E isso requer muita fé.

Bento Domingues: Despolitizar as religiões

O texto deste domingo (12-09-2010) é principalmente sobre religiões, política e violência. No centro, a tese de que as religiões são violentas quando se politizam. Mas começa por outro assunto: As celebrações religiosas sem emoção são uma seca, mas uma religião dominada, apenas, por fluxos emocionais cai na cegueira fundamentalista. A fórmula “fé e razão” – fé viva e razão inteligente – é uma proposta saudável de mútuo estímulo e de vigilância recíproca.

Camuflar preconceitos

Um outro exemplo dessa linguagem ridiculamente eufemística é chamar aos ciganos “as gentes da viagem” (“les gens du voyage”) ou aos franceses da imigração “les français de la diversité”, o que no fim de contas apenas revela mais preconceito. No final do século XIX, princípios do século XX, para evitar o termo “judeus”, considerado pejorativo, passou-se a chamar “israelitas” aos judeus, o que acabou sendo adoptado pelas próprias comunidades. Que esta “delicadeza” de nada serviu, todos sabemos. Como a história o demonstra, camuflar o preconceito não acaba com ele.

Esther Mucznik

Público, 09-09-2010

Os ciganos e a nossa liberdade

Os ciganos são como os anarquistas ou os hippies ou os ateus. Não podem ser expulsos. Sendo nómadas, e apátridas, não podem ser fixados ou repatriados. São uma nação fluida, de muitas famílias.

São a nossa salvação e tê-los entre nós lembra-nos que somos livres, caso tivermos a coragem de pensar nisso.

Miguel Esteves Cardoso

Público, 12-09-2010

Lembrança

A fé é a lembrança de Deus.

Pierre Emmanuel (1916-1984)

sábado, 11 de setembro de 2010

Igreja belga de rastos

A Igreja belga está de rastos. O DN de hoje diz “padres belgas violaram 507 menores em 30 anos”. E ainda “13 vítimas de abusos, registados entre 1950 e 1980, cometeram suicídio”.

Foi revelado na sexta-feira um relatório da Comissão sobre Denúncias de Abusos Sexuais por parte de Religiosos na Bélgica (criado pela própria Igreja). Vai estar on-line aqui.

Ao longo de 200 páginas são recolhidos os testemunhos de várias centenas de ex-alunos de instituições educativas da Igreja que, nos anos 1960 e 1970, principalmente, sofreram abusos de religiosos. A partir dos anos 1980 os casos diminuem, porque os clérigos deixam de estar ligados ao ensino.

Como todos os outros, o caso belga é doloroso. Há os crimes e as dores mais o silenciamento. Mas aqui acresce o facto de ser um país sui generis para a Igreja católica, com um laicado forte (Acção Católica, movimentos juvenis que chegaram a ter jornais diários – até o Tintin nasceu à sombra a Igreja), grandes teólogos e missionários, onde até os monarcas eram crentes, embora respeitassem a laicidade do Estado.

Há tempos escrevia Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, no jornal Corriere della Sera (28-06-2010), que a Igreja católica era uma espécie de última reserva da alma belga, quando até o país se despedaça, sendo um sinal disso a intromissão das polícias nas reuniões, nos computadores e até nos templos católicos.

“A Igreja tem uma grande história de acção e de amizade com a liberdade na Bélgica. Esse país foi um mito para os liberais do século XIX (especialmente católicos), que agitavam o slogan: "Liberdade como na Bélgica". Ela está entre os fundadores da Comunidade Europeia. Mas são histórias distantes em um país cansado, que desmonta as suas instituições.

Nas últimas décadas, a Igreja tornou-se mais silenciosa e recuada, não só por causa da secularização, mas também por causa do processo de resignação. Porém, representa, apesar das sombras, uma reserva de esperança num país em dificuldade. Porque a Bélgica precisa de esperança e de futuro” (lido aqui).

Depois deste relatório, será a Igreja capaz de recuperar credibilidade, infundir esperança, ser sinal de futuro?

Como isolar um cretino

Cartune de José Bandeira e opinião de Ferreira Fernandes ("Como isolar um cretino") no DN de hoje.

"O reverendo já não vai queimar o Alcorão. Ainda bem, porque os livros não são para queimar. No entanto, quero dizer: o tal Terry Jones tinha, e tem, o direito de queimar o Alcorão, logo que o livro lhe pertença. Ou a Bíblia, ou a bandeira americana ou, se eu lho tivesse dado, o meu livro de cromos do Benfica Campeão Europeu. É cretino, já o disse, queimar o Alcorão como manifestação de desagrado ao livro. Mas a liberdade de expressão é também para os cretinos, e era isso que era - e só isso, liberdade de expressão - o acto que Jones ameaçou praticar. Todo o cretino deve poder dizer a cretinice de que o Alcorão é para queimar. Felizmente para os Estados Unidos, a Primeira Emenda da sua Constituição defende a liberdade de expressão, que é, aliás, uma das razões de eles serem um grande país. Foi também usando essa liberdade de expressão que Obama se opôs. À liberdade de expressão do cretino ele opôs a sua liberdade de expressão de homem que, apesar de muito forte, só usou a sua liberdade de expressão para combater o outro. Ainda bem. E se tudo corresse mal, e Jones tivesse queimado o Alcorão e por causa disso alguém fosse morto, não se devia confundir: Terry Jones continuaria a ser só um cretino e o assassino passaria a ser um assassino. Um para ser combatido com a palavra e o outro com a força".

Panikkar no "Público" de 11 de Setembro

No P2 do "Público", um texto sobre o teólogo Raimon Panikkar (1918-2010), "o teólogo católico que quis as suas cinzas nas águas sagradas do Ganges".

"A sua tese de doutoramento em Teologia, O Cristo Desconhecido do Hinduísmo, defendida em 1961, compara a filosofia de São Tomás de Aquino com a interpretação que um sábio hindu, Sankara, faz das escrituras sagradas do hinduísmo. Na tese, defende que Cristo não é um exclusivo do cristianismo, mas antes um símbolo da unidade entre o divino e o humano, ou o rosto humano de Deus", escreve António Marujo. Ler tudo aqui.

Anselmo Borges: Panikkar, "católico, hindu e budista"

Anselmo Borges escreve sobre Raimon Panikkar no DN de hoje. Texto retirado daqui.


Só estive com ele uma vez. Em Barcelona, em 2004, no Parlamento das Religiões. Morreu no passado dia 26 de Agosto, com 91 anos, em Tavertet, uma aldeia para onde se retirara, perto de Barcelona.

O Padre Raimon Panikkar era uma das maiores autoridades mundiais nas questões do diálogo inter-religioso. As suas raízes genéticas, religiosas, académicas, geográficas, deram um contributo decisivo para ser ponte entre Ocidente e Oriente: o pai era hindu e a mãe, catalã católica; era doutorado em Filosofia, Química e Teologia; viveu uma parte da sua vida na Europa, outra viveu-a na Ásia, uma terceira passou-a na América. Ensinou em várias universidades, entre as quais Santa Bárbara, na Califórnia, e Harvard. Deixou mais de 50 livros, em várias línguas. No meio de uma vida agitada e aparentemente dispersa, manteve, no Uno, a serenidade do monge.

O funeral, numa celebração solene e íntima, foi segundo o rito exclusivamente católico, mas Panikkar deixou instruções precisas para que as suas cinzas fossem repartidas entre a família, o cemitério de Tavertet e o rio Ganges, na Índia.

Regressado precisamente da Índia, disse que voltava hindu e budista, sem que isso significasse deixar de ser cristão: pelo contrário, agora, era mais cristão. Por isso, para lá do diálogo inter-religioso, defendia o diálogo intra-religioso, isto é, aquele diálogo que cada um deve estabelecer dentro de si mesmo entre as grandes religiões, cuja herança pertence a todos.

Depois dos períodos de isolamento e ignorância recíproca, indiferença e desprezo, condenação e conquista, coexistência e tolerância, chegou como "necessidade vital" o tempo do diálogo entre as religiões. É preciso superar tanto o exclusivismo, que afirma que só uma religião é verdadeira, rejeitando as outras, como o inclusivismo, segundo o qual a verdade de uma está implícita nas outras. O diálogo autêntico só pode ter por base o são pluralismo: todas as religiões são presença do Absoluto, mas nenhuma o possui definitivamente.

Este diálogo é constitutivo do ser humano enquanto tal, pois o homem não é uma mónada fechada, mas uma pessoa, um feixe de relações. Por isso, também é político, pois a religião não é uma questão privada e implica o diálogo com a Terra, a que chamou ecosofia.

E aí está a razão por que é necessário superar "três dualismos, seis dicotomias e três reducionismos", querendo dizer com isto que se torna imperioso unir o que tem andado separado.

Os dualismos são: Deus e homem, homem e natureza, natureza e Deus. Não se trata agora de confundir, mas de religar.

As seis dicotomias: alma e corpo, masculino e feminino, indivíduo e sociedade, teoria e praxis, conhecimento e amor, tempo e eternidade. Também aqui, não se trata de reduzir tudo ao mesmo, mas de tomar consciência de que uma realidade não existe sem a outra e de mostrar a sua relação intrínseca: o ser humano é uno, o masculino não se entende sem o feminino, o indivíduo não existe sem a sociedade, o conhecimento sem amor não passa de cálculo, o tempo está vinculado à eternidade - "tempieternidade", dizia.

Os três reducionismos: "O antropológico, que reduz o homem a um animal racional; o cosmológico, que reduz o cosmos a um corpo inerte; o teológico, que reduz a Divindade a um Ser transcendente." Afinal, o homem não é redutível a animal racional, e, quando se reduz o cosmos a um corpo inerte, esquece-se a sua dimensão sagrada e viva, e o modo de transcendência de Deus só pode ser este: no mundo, Deus é transcendente ao mundo.

Assim, a religião do futuro tem de religar o que tem andado separado: Deus, cosmos e homem. Ela irá vincular de modo harmónico as três dimensões últimas da realidade: o aspecto material e corporal, as diferentes facetas do homem e o princípio mistérico e transcendente, numa conexão de inter-in-dependência, de tal modo que uma não é sem as outras. A religião volta a ser central na vida humana, religando esses três pólos. Chamou a esta sua visão "A intuição cosmoteândrica", numa obra traduzida em português.

Ele disse isto?

O homem não é nunca tão grande como de joelhos diante de Deus.

Napoleão (1789-1821)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Templos (4): Igreja na Holanda

Igreja que foi dos dominicanos, em Maastricht, transformada em livraria pelos arquitectos Merkx e Girod. Mais imagens aqui. Tornou-se um dos grandes pontos de atracção da cidade.

Exterior da antiga igreja dos dominicanos de Maastricht

Templos (3): Capela em Coimbra

Capela que foi de Nossa Senhora da Vitória, em Coimbra, na Rua Corpo de Deus, transformada em centro cultural, ou seja, um bar, dedicado ao fado desde 2003. O àCapella tem sítio aqui.

Templos (2): Igreja nos EUA

Igreja em Pittsburgh, EUA, transformada em bar, restaurante e adega. Fica no n.º 3525 da Liberty Avenue. Antes de ser bar era a Igreja de S. João Baptista. Tem sítio aqui.

Templos (1): Igreja na Dinamarca

Igreja da Dinamarca transformada em livraria, ou talvez antes em loja de livros usados ou alfarrabista. Visto no Abrupto.

É mesmo a primeira vez que o Papa vai saudar uma mulher pastor?

Parece que não.

Bento XVI
verá também a reverenda Jane Hedges, mulher pastor empenhada na campanha pelas mulheres-bispo anglicanas; mas, no Vaticano não temem polêmicas: “É normal, o Santo Padre encontrou e apertou a mão inumeráveis vezes a mulheres pastor”. Aqui.

O Papa vai saudar uma mulher-padre


Jane Hedges ao centro
O Papa vai cumprimentar uma mulher padre (canon, canónica), anglicana, na viagem ao Reino Unido. Será a primeira vez na história, dizem. Está previsto para a sexta-feira, 17, na Abadia de Westminster. A reverenda a dar a mão ao Papa é Jane Hedges, defensora da ordenação de mulheres como bispos na Igreja Anglicana (li aqui; mas aqui, no penúltimo parágrafo, diz-se que não é a primeira vez).
Entretanto, na quarta-feira de manhã, o Papa assegurou que “as mulheres são capazes de falar com Deus com uma peculiar inteligência e sensibilidade”.
Ao ler isto, a primeira sensação foi a de espanto. O Papa disse isto? Isto é novo? Era preciso?
Mas não foi bem isto que o Papa disse. A afirmação, no final da segunda parte da catequese dedicada a Hildegarda de Bingen, é: “Invoquemos sempre o Espírito Santo, para que suscite na Igreja mulheres santas e valentes, como Santa Hildegarda de Bingen, que, valorizando os dons recebidos de Deus, ofereçam a sua preciosa e peculiar contribuição para o crescimento espiritual das nossas comunidades e da Igreja na nossa época”.
Assim até se compreende.

Calendário hebraico entrou ontem no ano 5771

Barracas das festas de Sukot, em Jerusalém,
na actualidade (foto da Wikipedia)

Os judeus entraram ontem no ano 5771 do calendário hebraico (9 de Setembro de 2010 é 1 de Tishrei de 5771), no dia do Rosh Hashanah (“cabeça do ano”).

Ao décimo dia do ano novo, é celebrado o Yom Kippur (18 de Setembro ou 10 de Tishrei), ou festa da expiação, a data mais importante do calendário hebraico. Passados quatro dias, começam as festas de Sukot, “as festas da nossa alegria”, que implicavam (e para alguns ainda implicam) a peregrinação a Jerusalém. Na Bíblia,
as festas de Sukot correspondem à festa das tendas ou dos tabernáculos.

Ver calendário hebraico aqui.

"Ele sabe bem do que se trata", texto de J. H. Newman


Deus criou-me para fazer um serviço definido: confiou-me uma tarefa que não confiou a mais ninguém.
Eu tenho a minha missão. Talvez jamais a conheça nesta vida, mas na outra ser-me-á revelada.
Sou um anel de uma corrente, um vínculo de ligação entre pessoas.
Ele não me criou para o nada.
Executarei a sua tarefa. E bem.
Serei um anjo de paz, um pregador da verdade no meu próprio lugar, ainda que apenas observando os seus mandamentos.
Por isso, confiarei n’Ele. O que quer que seja, onde quer que seja, jamais posso ser deitado fora.
Se estiver doente, que a minha doença o sirva.
Se estiver angustiado, que a minha angústia o sirva.
Ele nada faz em vão. Ele sabe bem do que se trata.
Ele pode levar meus amigos.
Ele pode lançar-me entre estranhos.
Ele pode fazer que me sinta desolado, fazer o meu espírito naufragar e esconder-me o futuro.
Em tudo isso. Ele sabe o que faz.

John Henry Newman (1801-1890)

O que faz falta


Nós pedimos a Deus o que nos agrada e Ele dá-nos o que nos faz falta.

Léon Bloy (1846-1917)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

9 de Setembro de 1569. Morre o pintor Pieter Bruegel

“A luta entre Carnaval e Quaresma” (clicar para ampliar)

Pieter Bruegel, o Velho, morreu no dia 9 de Setembro de 1569, em Bruxelas. Terá nascido por volta de 1530. Com 26 anos entrou para a guilda de São Lucas (patrono dos pintores, já que segundo a tradição era pintor, além de médico e evangelista). Viajou pela Itália e foi dos primeiros a pintar paisagens por si mesmas (e não como fundo para outros motivos).


Uma das pinturas de Bruegel é “A luta entre Carnaval e Quaresma” (está no Kunsthistorisches Museum, em Viena), uma crítica aos conflitos entre cristãos durante a Reforma.


Em primeiro plano, o obeso, o príncipe carnaval, representa os protestantes. O indivíduo magro e triste, com uma colmeia na cabeça (à direita), representa os católicos. No centro do quadro, um palhaço guia duas pessoas com um archote aceso, apesar de ser dia. É sinal de que o mundo está às avessas.

Todos contra "ideia idiota e perigosa"

No "Público" de hoje. Uma coisa é certa. Mais uma vez, algo que não o merece, a comunidade de menos de cem pessoas chamada Dove World Outreach Center (mas "Dove" não é um símbolo da paz, a pomba?), obtém uma publicidade milionária.

Deus já não é Senhor


A Igreja Episcopal da Escócia (tradição calvinista) aprovou novos rituais que dispensam as palavras Senhor, Ele, Seu Lhe e Humanidade (Lord, He, His, Him, Mankind). Trata-se de mostrar que Deus está para além do género humano.


As alterações, de uso facultativo nos serviços litúrgicos, acolhem, claro, louvores, geralmente dos e das feministas (foram as mulheres ordenadas que levantaram a questão num sínodo), e críticas, dos mais tradicionalistas, que vêem nisso mais um episódio do “politicamente correcto”. Ou talvez, teologicamente correcto.


E em vez de “humanidade”, que em inglês tem “homem” no início (“mankind”), qual é a palavra que se usa? “World”. Mundo. Pode ser uma linguagem mais inclusiva. Mas é mais fria.


Lido aqui.

Mar de cânticos

Se a nossa boca fosse um mar pleno de cânticos,
se a nossa língua tivesse hinos incontáveis como as ondas,
se os nossos lábios tivessem louvores infinitos
como o firmamento,
se os nossos olhos brilhassem como o Sol e a Lua,
e os nossos braços se abrissem
como as asas da águia no espaço,
mesmo assim não seríamos capazes de te louvar, ó Eterno.

Excerto de uma oração judaica

Ideia

A ideia de Deus é de todas as provas da existência de Deus a mais irrecusável.

Nicolas Eugène Géruzez (1799-1865)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Uma terra suficientemente longe de Deus

O facto de procurar uma efeméride relativa ao dia em que escrevo quase sempre me traz boas surpresas. Pelo menos para a cultural geral.

Hoje, por exemplo, informando-me sobre o Estatuto de Kalisz, li que os judeus da Europa central se chamam asquenazes (ou asquenazitas), em oposição aos sefarditas, que eram os da Península Ibérica, porque na Idade Média a Alemanha era conhecida por Ashkenaz entre os judeus. Isto já é curioso. Mas mais curioso é que o termo já aparece na Bíblia. Génesis 10,3: “Filhos de Gomer: Asquenaz, Rifat e Togarma”.

Melhor do que isso, em termos geográficos, foi quando li, há muito mais tempo, que Társis (“as ilhas de Társis”) corresponde à Península Ibérica ou pelo menos ao sul da Península. Foi em direcção a Társis, evitando Nínive, que Jonas se dirigiu, “fugindo da presença do Senhor” (Jonas 1,3). Jonas pensava que isto por cá ficava suficientemente longe de Deus.

8 de Setembro de 1264. O duque Boleslav V proclama o Estatuto de Kalisz, que protege os judeus

Boleslav, o Piedoso

O Estatuto de protecção aos judeus proclamado na cidade de Kalisz pelo duque Boleslav V, o Piedoso (ou, segundo outras fontes, o Casto), no dia 8 de Setembro de 1264, é a mais antiga carta outorgada aos judeus da Polónia.

O "Estatuto de Kalisz" garantia a todos os judeus a liberdade de trabalho, comércio e movimentos.

Alguns artigos:

Art. 1. Em qualquer caso respeitante aos bens ou à pessoa de um judeu, um cristão não será admitido a testemunhar contra ele, a menos que o seu testemunho seja acompanhado do de um judeu.

Art. 10. Se um cristão mata um judeu, será punido, e todos os seus bens serão confiscados.

Art. 12. Um judeu pode ir onde quiser. Deverá pagar em todo o lado os impostos locais e as taxas que oneram o seu comércio, mas se nada mais que aquilo que é imposto aos habitantes locais.

Art. 31. É absolutamente proibido acusar os judeus de beberem sangue humano (…).

Art. 35. Se um judeu em aflição pedir socorro à noite e os seus vizinhos cristãos não se derem ao incómodo de o socorrer, a cada um desses cristãos será imposta uma multa de 30 szelags.

Art. 37. Os judeus são livres para comprar e vender qualquer coisa (…).

Fonte: "História Universal dos Judeus" (ed. Contexto), p. 118-9.

Como a imprensa laica ajudou Fátima

No P2 ("Público") de hoje, um texto sobre a imprensa na I República e Fátima. "Foi a imprensa republicana que mais ajudou a divulgar o fenómeno de Fátima, através das polémicas e dos ataques dirigidos ao fenómeno. Ali se traduzia um conflito de mentalidades, opondo o racionalismo à crença e à religiosidade popular", escreve António Marujo.


Também pode ser lido on-line, aqui.

A Arca e o Titanic

Um amador solitário construiu a Arca. Vários profissionais construíram o Titanic.

Diálogo, liberdade e fundamentalismos

O arcebispo de Milão pediu um lugar de culto para o Islão (ver aqui). Um leitor do meu blogue, nos comentários, vê tal atitude como sendo “relativismo e modernismo”, pois “fora da Igreja não há salvação”. Talvez não saiba que um padre foi excomungado (ou seja, posto fora da comunhão da Igreja) por defender a literalidade desse princípio (ver aqui), embora mais tarde tenha havido reconciliação.

De qualquer forma, a atitude de intolerância face às outras religiões não é lá muito católica. O diálogo inter-religioso ficou consagrado no II Concílio do Vaticano, principalmente no documento “Nostra aetate”, que afirma em relação ao islamismo: “Se é verdade que, no decurso dos séculos, surgiram entre cristãos e muçulmanos não poucas discórdias e ódios, este sagrado Concílio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreensão mútua e juntos defendam e promovam a justiça social, os bens morais e a paz e liberdade para todos os homens” (aqui). A atitude do cardeal Tettamanzi insere-se, sem dúvida, na procura de liberdade para todos os homens.

O contrário será, por exemplo, a atitude de Terry Jones, pastor da igreja carismática cristã Dove World Outreach, com sede na Florida, Estados Unidos.

“Este senhor está a organizar um evento que está a alertar o exército americano e até a NATO: o dia internacional da queima do Corão, precisamente a 11 de Setembro, no dia em que se assinalarão os nove anos dos ataques à Torres Gémeas” (li aqui).

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...