terça-feira, 18 de agosto de 2009

Evangelhos e desinformação

Vladimir Volkoff, no instrutivo “Pequena História da Desinformação. Do Cavalo de Tróia à Internet” (Editorial Notícias, 2000), diz a certa altura (pág. 21), de passagem: “Se as impressões concordam demasiado bem, é suspeito. Para mim, são as contradições entre os quatro evangelistas que me fazem acreditar na sua veracidade e a Igreja tem toda a razão em apresentar-nos versões parcialmente divergentes do que considera ser a verdade”.

Distinguindo propaganda, publicidade e desinformação, apresentando conceitos e casos e desmontando estratégias ("a posteriori"), esta “pequena história da desinformação” é preciosa para compreender o mundo actual, onde abundam as teorias da conspiração e a desorientação informativa. Neste blogue espero apontar algumas referências à fé cristã e aos seus protagonistas. O livro aborda a desinformação na Igreja somente de passagem, mas o autor tem uma grande cultura cristã, pelo que espalha pelos seus textos uma ou outra alusão ao universo cristão. Como esta: “Sobretudo na época em que o KGB era o principal artífice na matéria [desinformação], era fácil ver desinformadores por todo o lado, como outros viam judeus, maçons ou jesuítas, perdão, eu actualizo: membros da Opus Dei” (pág. 24).

18 de Agosto. Casamento da rainha Margot

1572. Casamento de Marguerite de Valois, católica, que ficaria para a História como “Rainha Margot”, com Henrique de Navarre (futuro Henrique IV de França), protestante, numa tentativa de reconciliar protestantes e católicos em França. Antes disso tentaram casá-la com D. Sebastião de Portugal.

Apesar dos esforços conciliatórios, seis dias depois acontece o “massacre de S. Bartolomeu”, em que os huguenotes são dizimados pelos católicos.

Mais tarde, Henrique IV renuncia ao protestantismo. Terá dito que "Paris vale bem uma missa".

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A propósito da piada do cristianismo

Félix Núñez Uribe, “Deus é Humor” (Gráfica de Coimbra)

A capa deste livro de 1997 não tem lá grande piada. O castanho. O desenho. A repetição do “Deus é humor”… O conteúdo não é nem um ensaio sobre Deus e Humor ou Teologia e Humor nem anedotas religiosas, mas um conjunto de textos sobre “doutores do humor” (Cortés, Quique, Mingote, João XXIII, entre outros), santos (Francisco de Assis, Cecília, Francisco de Sales…), narrativas edificantes, piadas bíblicas, disparates eclesiais. Como estes, sobre os pecados: “Que é pecado mortal? O que se comete com perigo de vida”. “Espécies de pecados: Mortais, veniais e geniais”. E estes, inspirados na Bíblia, provavelmente recolhidos nas redacções da catequese: “Apresentou-se um mudo [a Jesus] e disse-lhe: «Podes curar-me»?”; “Jesus ressuscitou muitos doentes”; “Temos de amar os nossos inimigos, mesmo que os matemos”.

Viver um cristianismo com piada

O cristianismo não é propriamente conhecido por ser a religião da alegria, e é uma pena

Se dissermos que Deus é Amor, ninguém se espanta. A afirmação tornou-se até um pouco banal à força da repetição. Mas se dissermos que Deus é Humor, ficamos em estado de alerta, porque nos parece que alguém está a tentar entrar, no território de Deus, “pela entrada dos fundos” e não pela “porta principal”. A verdade é que o Amor não dispensa o Humor.

O cristianismo não é propriamente conhecido por ser a religião da alegria, e é uma pena. «O cristianismo seria muito mais credível se os cristãos vivessem em alegria», escreveu Nietzsche, e não podemos dizer que sem razão. O nosso testemunho fica muitas vezes refém de uma gravitas insonsa. Esquecemos demasiado o Evangelho da alegria que arrisca-se a tornar uma espécie de tópico marginal.

Por exemplo, quando citamos uma frase bíblica, raramente ela diz respeito à alegria. E, no entanto, a Bíblia é uma espécie de gramática do Humor de Deus. Por incrível que pareça, aquela biblioteca tão séria é também hilariante e está cheia de risos, embora esta dimensão seja, entre nós, escassamente referida. Há páginas que constituem um puro alfabeto da Alegria e muitos momentos que só são compreendidos por quem arriscar sorrir. É que a Revelação de Deus propaga-se numa dinâmica que é claramente jubilosa. Talvez tenhamos de levar mais a sério o verso brincado que o Salmo 2 nos segreda: «O que habita nos Céus, sorri». Ou perceber que a expressão crente é chamada a desenvolver-se como uma coreografia festiva, à maneira do que descreve o Salmo 33: «Alegrai-vos no Senhor, louvai o Senhor com cítaras e poemas, com a harpa das dez cordas louvai o Senhor; cantai-lhe um cântico novo, tocai e dançai com arte por entre aclamações».

O humor abre espaço nas nossas vidas à surpresa. Rimo-nos porque, sem esperarmos, uma palavra cheia de graça vem ao nosso encontro. Na verdade, também a Fé não é, de todo, uma experiência previsível, um mapa prévio muito detalhado, mas uma abertura ao inesperado de Deus que nos convoca...

Texto de Tolentino Mendonça, na Ecclesia

17 de Agosto. 1945, publica-se “O Triunfo dos Porcos”

Em 1945, era publicada em Inglaterra a obra “O triunfo dos Porcos” (“Animal Farm”), de George Orwell. Esta efeméride não tem carácter religioso directo, como as outras deste blogue. Mas é sempre oportuno recordar a lei da quinta dominada pelos porcos:

1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupas.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais.

E ainda mais as modificações depois que os porcos passam a viver na casa dos antigos fazendeiros:

4. Nenhum animal dormirá em cama com lençóis.
5. Nenhum animal beberá álcool em excesso.
6. Nenhum animal matará outro animal sem motivo.
7. Todos os animais são iguais mas alguns são mais que outros.

Na minha leitura preferida das férias (“A obsessão do Fogo”), Umberto Eco diz que um editor norte-americano escreveu a George Orwell: “É impossível vender uma história de animais nos Estados Unidos”. Esta e outras recusas integrarão um eventual capítulo da “História das asnidades” dedicado à rejeição de obras-primas literárias pelos editores.

16 de Agosto de 1773. Dissolução da Companhia de Jesus

Clemente XIV (1705-1774), eleito no mais longo conclave da história: 179 escrutínios ao longo de três meses, publica o breve “Dominus ac Redemptor noster”, que extingue a Companhia de Jesus. Seria restaurada em 1814.

“Quando as notícias da dissolução dos Jesuítas chegaram a Lisboa, o Marquês de Pombal ordenou, num gesto de extravagante floreado, que as luzes da cidade ardessem toda a noite em celebração”. Jonathan Wrigth, in “Os Jesuítas. Missões, mitos e histórias” (Ed. Quetzal).

15 de Agosto. 1537, fundação de Asunción

1537. Fundação da cidade de Nuestra Señora de la Asunción, mais conhecida por Assunção (Asunción), capital do Paraguai.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O homem por quem Kolbe deu a vida


Maximiliano Kolbe foi canonizado por João Paulo II no Vaticano, no dia 10 de Outubro de 1982. O homem que pôde viver graças à imolação de Kolbe esteve presente. Franciszek Gajowniczek (1901-1995), na imagem diante de um retrato de Kolbe, voltou a ver a sua mulher mas não os seus filhos, porque morreram num bombardeamento soviético em 1945, e dedicou o resto dos seus dias à memória do mártir polaco.
“Mr. Gajowniczek attended the canonization ceremony in St. Peter's Square and spent much of his life after World War II bearing witness to the sacrifice made for him by Father Kolbe. He traveled across Europe and the United States, giving talks about the priest and helping dedicate new churches in his name”.
In “The New York Times”, de 14 de Março de 1995 (aqui).

14 de Agosto. 1941, morre Maximiliano Kolbe

Há 68 anos (14 de Agosto de 1941) morreu no campo de concentração de Auschwitz Maximiliano Kolbe. Padre franciscano polaco, ofereceu-se para morrer na vez de um pai de família que ia ser castigado pela fuga de um prisioneiro. Antes de Auschwitz, Kolbe fundou o jornal “Cavaleiro da Imaculada” e foi missionário em Nagazaki, Japão. Foi canonizado no dia 10 de Outubro de 1982.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Cultura indo-portuguesa em perigo

Paulo Varela Gomes escreve no “Público”, no “P2”, às quartas-feiras. Chama-se “Carta de cá” a sua secção semanal. O “Cá” refere-se a Goa, onde o historiador está. Mas está de partida. No dia 26 de Agosto – disse-o ontem – escreve a última das cartas de lá, a 84.ª. Espero que continue a escrever a partir de qualquer outro sítio.

Esta semana o historiador fala do oratório (um móvel em forma de “grande armário”, diante do qual os católicos goeses entoaram ladainhas na oitava de Santa Ana, no dia 2 de Agosto) e dos próprios católicos goeses. Não é a primeira vez que fala deles. Aprecio a seriedade com que escreve sobre a religião.

No texto desta semana diz que a cultura católica goesa está a morrer, o que significa que a cultura indo-portuguesa está perto do fim. Desvanece-se “na penumbra da história”. Afirma:

“Pesa sobre os católicos de posição social mais elevada – os pobres, felizmente, não pensam nisso – a culpa de se terem convertido, há séculos, ao catolicismo, e de o serem ainda, muitos deles.

Os católicos seriam a classe dominante, indignos de interesse, até mesmo académico. Mas hoje são uma minoria, tantas vezes acossada, certamente incompreendida. A sua existência, tanto no passado como hoje, causa embaraço a todos os que gostariam de ver um mundo mais a preto e branco, colonialistas de um lado, indianos de outro, dominadores de um lado, dominados de outro. São estes, os do mundo a preto e branco, indianos e portugueses, que deixam morrer a cultura indo-portuguesa na culpa e no silêncio”.

Água benta para a crise

O uso da linguagem de origem religiosa nos assuntos do dia-a-dia é sempre sugestivo. Gosto de apontar aqui essas inspirações. Na revista de Julho dos CTT, a "aposta" (n.º 75), sempre com excelentes capas, António Manuel Amaral, responsável pela Área Estratégia, escreve ao comentar a actual crise económica (itálicos meus):

“A solução é o trabalho. Sempre foi, sempre será. Não existem paliativos: o único exorcismo para os demónios económicos é trabalhar. A única água benta e único colar de alho é inovar. Trabalhar, poupar e investir. Esta trindade é a chave de um futuro mais próspero”.

13 de Agosto: Hipólito, o antipapa santo

No dia 13 de Agosto de 235 (há 1774 anos), morria nas minas da ilha da Sardenha Hipólito de Roma, mártir. Foi canonizado pelo Papa Dâmaso (séc. IV), apesar ter sido durante 20 anos antipapa. Opôs-se aos papas Zeferino, Calixto e Urbano, reconciliando-se com Ponciano. Embora romano, Hipólito escreveu em grego, o que fez com que mais tarde fosse ignorado pela igreja latina. São Jerónimo dizia que Hipólito era o “mais santo e eloquente” do seu tempo.

A loucura de Jesus

A obra “A Loucura de Jesus”, de Charles Binet-Sanglé, existe em português. Foi publicada em 1909, logo após a edição original (1908), numa tradução de Manoel Ribeiro. Edição da Guimarães & C.ª (Lisboa). A segunda edição saiu em 1910. Um sucesso.

“A Loucura de Jesus”. Conteúdo: Hereditariedade, Constituição e Physiologia - A exegese evangelica. Os documentos relativos a Ieschou. 1.ª parte. A hereditariedade de Ieschou bar-Iossef. 2.ª parte. A constituição e a physiologia de Ieschou bar-Iossef.

As doenças de Jesus

Lendo o espantoso “A Obsessão do Fogo", de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière (para quem gosta de uma conversa estimulante sobre história, literatura, livros, cinema, cultura, tecnologia e ideias), da Difel, dou com dois capítulos sobre idiotia (“Nada impedirá a vaidade” e “Elogio da Idiotia”).

Jean-Claude Carrière recorda-se de uma obra extraordinária em três tomos, “La Folie de Jésus” (“A Loucura de Jesus”), de Binet-Sanglé, “um professor de medicina reputado”, que publicou o seu estudo em 1908. Binet-Sanglé afirma que Jesus foi na realidade “um degenerado físico e mental”.

Jean-Claude Carrière cita o professor francês (pág. 179-180): “Apresentando uma anorexia de longa data e uma crise de hematidrose, morto prematuramente na cruz de uma síncope de deglutição facilitada pela existência de um derrame pleurítico, provavelmente de natureza tuberculosa e localizado do lado esquerdo…” E diz que Binet-Sanglé considera que a humanidade está enganada, pois vive há mil e novecentos anos num “erro de diagnóstico”. Jesus era de pequena estatura e de fraco peso, era originário de uma família de vinhateiros…

Remata Carièrre (que noutros pontos se afirma agnóstico): “É um livro de um alucinado, mas composto com tal seriedade que obriga ao respeito”.

Há muito que não ouvia falar deste Binet-Sanglé. Aliás, é a segunda vez que leio algo sobre ele. A primeira foi nas “Hipóteses sobre Jesus”, de Vittorio Messori (Salesianas). E cito (pág. 127-128): “(…) Binet-Sanglé, professor de psicologia na Sorbonne, (…) escreveu quatro volumes com mais de duas mil páginas «para classificar cientificamente o carácter de Jesus». Jesus que, para o professor francês, foi teómano (maníaco religioso, pela degeneração do afecto pelos pais), sitófobo (detestava alimento, como é testemunhado pelo jejum de 40 dias), dromómano (não podia estar parado, como se vê nas contínuas deslocações), impotente (pelas exortações ao celibato), homossexual (pela predilecção por João), insone (pelas noites de oração)…”

Bíblia Hebraica de Lisboa


Entre os livros mais valiosos da British Library está a "Bíblia Hebraica de Lisboa" (imagem acima), da comunidade judaica da capital portuguesa, composta no final do séc. XV, antes da expulsão e conversão forçada de D. Manuel I, e comprada pelos ingleses no séc. XIX. Pode ser vista a partir daqui.


Se pretender ter acesso a ainda mais livros, partituras, pinturas e outras obras de arte de algum modo impressas, siga por aqui.


"Bíblia Etíope": Negações de Pedro e Aprisonamento de Jesus

Livro de notas de William Blake

No sítio da British Library encontra-se um "Livro de Notas" de William Blake que podemos ler e desfolhar, com notas explicativas e uma lupa para aumentar os pormenores, aqui. O difícil é desfolhar apenas um livro entre os imensos tesouros que nos são apresentados.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

11 de Agosto. 1253, morre Clara de Assis

Há 756 anos, num 11 de Agosto, morria Clara de Assis (1194-1253), fundadora do ramo feminino da ordem franciscana (Clarissas) e padroeira da televisão porque, quando já estava doente, assistiu à missa sem sair da cama.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A idade de Cristo

A túnica do Papa tem 33 botões. Na imagem de Bento XVI mais abaixo parece faltar um. Noutras fotografias é mais claro. Mas não haja dúvidas. São 33.

Arte aborígene e a Paixão de Cristo

"Aquando de uma viagem à Austrália, fiquei particularmente sensibilizado com a experiência de vida dos aborígenes, não aqueles, hoje praticamente dizimados pelo álcool e pela civilização, mas os que viveram nessas terras antes dos ocidentais aí desembarcarem. Ora, o que faziam eles? No imenso deserto australiano, nómadas como eram, prosseguiam a sua exploração avançando sempre em círculos. Ao cair da noite, capturavam um lagarto, uma serpente, de que faziam a sua refeição e de manhã voltavam a partir. Se, em lugar de avançar em círculo, tivessem prosseguido em linha recta, teriam chegado ao mar onde os aguardava um festim. Em todos os casos, hoje como ontem, a sua arte é feita de círculos que nos evocam uma espécie de pintura abstracta, aliás bastante bela. Um dia, durante essa viagem, chegámos a uma reserva onde havia uma igreja cristã como o seu sacerdote. Este mostra-nos um grande mosaico ao fundo do edifício, onde naturalmente apenas se vêem círculos. O sacerdote diz-nos que esses círculos, segundo os aborígenes, representam a Paixão de Cristo, embora não saiba explicar porquê. O meu filho, então adolescente e sem grande educação religiosa, apercebe-se de que os círculos são em número da catorze. Trata-se, evidentemente, das catorze estações da Via Crucis.

Para eles, o caminho da cruz era representado como um tipo de movimento perpétuo e circular, pontuado por catorze estações. Assim, não podiam desligar-se dos seus próprios motivos, do seu imaginário".

Umberto Eco, pág. 101 de “A Obsessão do Fogo", de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière (Difel).

O Papa e os seus botões

Há dias, numa fotografia a corpo inteiro do Papa (com o pulso engessado), contei o número de botões da túnica. Nesta também é possível contar.

Blasfémia

No livro “A Obsessão do Fogo", de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière (Difel), Eco diz que os espanhóis “têm a mais terrível blasfémia do mundo” (pág. 286). Mas não ousa citá-la.

10 de Agosto. 1492, eleição de Alexandre VI

Há 517 anos foi eleito o Papa Alexandre VI (10 de Agosto de 1492), dos Bórgia, provavelmente o maior corrupto que ocupou o trono de Pedro. 215.º Papa, de origem valenciana (Espanha), teve pelo menos sete filhos, comprou cargos para si e para os seus, deu azo a todos os protestos e acusações. Teria havido pretexto para a reforma protestante sem Alexandre VI? No seu tempo foi assinado o Tratado de Tordesilhas.

domingo, 9 de agosto de 2009

Anselmo e o capitalismo

Anselmo Borges escreve sobre o capitalismo, no DN (aqui). Pergunta se é moral. E, com umas referências a Kant, Platão e André Comte-Sponville acaba por concluir que não é moral nem imoral, mas amoral. Sem moral.

“O capitalismo é, pois, amoral. Não funciona pela virtude nem pelo desinteresse ou pela generosidade, mas pelo interesse pessoal ou familiar, pelo egoísmo. Se funciona bem, é precisamente porque egoísmo é coisa que não falta, mas, também por isso, não basta. O mercado, que mostrou ser o sistema mais eficaz, não tem a capacidade de regulação socialmente aceitável e a moral também não consegue”, escreve.

Tenho algumas objecções às considerações do padre filósofo. O capitalismo é uma actividade humana. Ou melhor, é o nome que se dá a um conjunto de actividades económicas humanas. Anselmo Borges não explica o que entende por capitalismo e esse será a primeira fonte de mal-entendidos. Dando o exemplo do comerciante que é honesto por causa do seu próprio interesse, tirado de Kant (mas que faz lembrar o talhante, do cervejeiro e do padeiro do professor escocês de Moral chamado Adam Smith), parece reduzir o capitalismo ao mercado. Ao negócio de compra e venda.

Mas o capitalismo é também livre iniciativa, liberdade de fazer e investir, de criar. O capitalismo é tão questão de negócio como de liberdade e criatividade. E estas são questões essencialmente humanas. E aqui entra a ética e a moral.

Perguntar se o capitalismo é moral é como perguntar se a indústria é moral ou se a agricultura é moral, se uma faca, um automóvel ou uma folha de papel são morais… Depende. Só o ser humano é que é moral. Todas as actividades são morais ou imorais apenas na medida em que nelas participam os seres humanos.

Os problemas que o capitalismo apresenta, tal como em todas as outras actividades, são problemas humanos. Têm rostos e nomes. Procedem de acções imorais.

Por outro lado, penso que é injusto identificar “interesse” com “egoísmo” na generalidade. Interesses teremos sempre, mas podem ser egoístas ou não. Anselmo Borges não é o único a identificar capitalismo com egoísmo. Há toda uma corrente com ligações à Igreja, a alguns socialismos, comunismos, anarquismos que assim pensa. Está latente. Mas penso que essa identificação não serve nem a verdade nem o bem comum da sociedade que somos.

9 de Agosto. 1942, Edith Stein morre em Auschwitz

Edith Stein morreu na câmara de gás de Auschwitz no dia 9 de Agosto de 1942. Há 67 anos. De ascendência judaica, foi professora de Filosofia (discípula de Husserl) e carmelita. Tinha 51 anos. Foi canonizada por João Paulo II.

sábado, 8 de agosto de 2009

Deus, a Era da Informação e o Espelho


Capa da “Egoísta” de Outubro de 2001. Tem como tema “Por Amor de Deus”. A frase está escrita ao fundo, do lado direito. A capa é prateada, difícil de digitalizar. Funciona como um espelho.

Capa da “Time” de 1 de Janeiro de 2006. É o número habitual da “Person of the Year”. E diz: “You. Yes, you. You control the Information Age. Welcome to your world”. O centro da capa é prateado, difícil de digitalizar. Funciona como um espelho.

8 de Agosto. Experiências de Bartolomeu de Gusmão

Há 300 anos, Bartolomeu de Gusmão, o “padre voador”, mostrava que é possível andar pelo ar, fazendo elevar um balão de ar quente. Presenciaram a demonstração no Paço Real de Lisboa, entre outros, D. João V, a rainha D. Maria e o cardeal Conti, futuro Papa Inocêncio XIII (8 de Agosto de 1709).

(Chamava-se "de Gusmão" este luso-brasileiro por ter nascido no dia de S. Domingos de Gusmão? Nasceu em 1685, em Santos, Brasil, e morreu em 1724, em Toledo, Espanha, convertido ao judaísmo. Tinha ascendência judaica o primeiro grande brasileiro.)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Almodóvar e o Papa

Ao procurar a entrevista no "Die Zeit", para quem souber alemão (aqui), dei com imensos ecos desta entrevista. Almodóvar é um papa com imensos sacristães. E o que diz sobre o Papa e a Igreja é sempre um bom golpe de publicidade ainda que ofusque a estreia do filme na Alemanha, que é o pretexto das declarações.

"Expresso": Realizador Pedro Almodóvar rejeita modelo de família defendido pelo Vaticano. O cineasta espanhol Pedro Almodóvar sente-se uma espécie de Deus e considera que o retrato da sociedade actual dos seus filmes está muito mais próximo da realidade do que o modelo de família defendido pelo Vaticano.

"IOL": Pedro Almodóvar é anti-Vaticano. «Um director é uma espécie de Deus. Digo-o eu, que não sou crente», sustenta.

"DN": Almodóvar rejeita modelo familiar defendido pelo Vaticano.

"I": Almodóvar: "Uma família pode ser formada por transexuais e travestis" "Sou anticlerical, mas como indivíduo não tenho nenhuma necessidade de lutar contra a igreja. Para mim não é um fantasma de que tenha de me defender".

“Almodóvar desafia o Papa a andar por aí”

No “Público” de hoje (secção “Pessoas”). Copio integralmente:

“Pedro Almodóvar lançou um repto ao Papa: saia do Vaticano, ande por aí e veja como é a família dos nossos dias. Pais separados, travestis, transexuais, freiras doentes de sida, todos eles entram no que é a família hoje, acrescentou o realizador espanhol numa entrevista ao semanário alemão Die Zit, acompanhando a estreia do seu último filme na Alemanha. Almodóvar adianta que considera uma loucura o Papa não reconhecer o modo coo vivem milhões de pessoas”.


É sempre edificante dar conselhos ao Papa. A pretensão de qualquer um dar conselhos ao Papa, mesmo que seja realizador reconhecido (e este blogue não pode dizer que num momento não tenha sido tentado por essa pretensão ao sugerir potenciais incoerências entre o cardeal Ratzinger e Bento XVI, ainda que não tenha o desejo ou a ilusão de algum dia vir a ser lido por um vaticanense qualquer), revela o que no fundo esse opinador pensa sobre o papel do Papa (que é de suma importância) e sobre si próprio (que a sua visão do mundo é mais privilegiada ou mais consentânea com a realidade do que quem está no Vaticano e no topo da hierarquia). Num fundo, sente-se pelo menos um bocadinho Papa. Um papinha, digamos assim.

7 de Agosto: 1794, último auto-de-fé lisboeta

Há 215 anos realizou-se em Lisboa o último auto-de-fé (7 de Agosto de 1794). Mas ainda não seria o fim da Inquisição.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Há dez ou nove encíclicas sociais?

No sítio de Conferência Episcopal dos EUA (USCCB), surge este esquema com as dez encíclicas sociais dos Papas (aqui). Dez? Mas não eram oito, nove com a de Bento XVI?

Antes da “Caridade na Verdade” falava-se, no lado de cá do Atlântico, de oito encíclicas sociais. Acontece que os norte-americanos dizem que a “Evangelium Vitae” (“O Evangelho da Vida”, sobre a inviolabilidade da vida humana) é social. Não é.

A Doutrina Social da Igreja tem a ver com Moral Social. A “Evangelium Vitae” fala de questões da Moral Pessoal, Sexual e Familiar como sejam o aborto, a eutanásia, o homicídio, a pena de morte, o suicídio. Tudo questões que cabem sob o mandamento “Não matarás”. A doutrina social tem mais a ver com o “Não roubarás”.

Na “Evangelium Vitae” afirma-se: “A política familiar deve constituir o ponto fulcral e o motor de todas as políticas sociais” (n.º 90), mas de resto o documento não fala principalmente de economia ou de política. Será que a questão do aborto e o seu relevo na sociedade norte-americana fez puxar a “Evangelium Vitae” para o campo social?

As palavras que aparecem mais na "Caritas in Veritate"

“Desenvolvimento” e “Humano” são as palavras mais frequentes na encíclica “Caritas in Veritate”, a terceira de Bento XVI e primeira de carácter social, segundo esta nuvem de palavras que está no sítio dos Bispos Católicos dos EUA (aqui).

Faz lembrar que em toda a Bíblia aparece mais vezes palavra "pão" do que "oração".

Madrugar

“A quem madruga, Deus ajuda” – diz o povo. Para mim, isto não significa, em primeira análise, que eu, de manhã, trabalho de forma mais efectiva, para poder ganhar mais dinheiro. O ouro é, desde sempre, a imagem do divino. A hora matutina, com toda a sua frescura, respira qualquer coisa da Boa-Nova de Deus. Quando a campainha da entrada toca, às 4h40, acendo imediatamente a luz. Tomo consciência do dia em que nos encontramos. Isso não significa apenas o dia da semana, mas também qual a festividade que celebramos ou qual o santo que recordamos, os meus santos preferidos são ao dia, mesmo de manhã, um outro gosto. Quando celebramos a festa de Santo Agostinho, contacto com a nostalgia que o caracterizava. Santa Teresa traz ao dia qualquer coisa de leve e terno. Cada dia adquire uma tonalidade diferente, consoante aquele que é celebrado. Juntamente com os santos, as celebrações nos dias úteis são também importantes pata mim, como a Transfiguração, a 6 de Agosto, ou a Visitação de Maria, a 31 de Maio”.

Anselm Grun in "Ao ritmo do tempo dos monges. Sobre a relação com um bem precioso", Paulinas, 2006. Pág. 48

6 de Agosto. 1978, morre Paulo VI

Paulo VI morreu há 31 anos (6 de Agosto de 1978).

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Clássicos 18: “A Visão de Deus”, de Nicolau de Cusa

(Primeiro parágrafo do prefácio:) “Se por vias humanas me abalanço a conduzir-vos às coisas divinas é necessário que o faça recorrendo a uma comparação. Mas entre as obras humanas não encontrei imagem mais conveniente ao nosso propósito do que a de alguém que tudo vê, de tal maneira que o seu rosto por subtil arte de pintura se comporta como se tudo olhasse em seu redor. Imagens destas encontram-se muitas optimamente representadas como a do archeiro no foro de Nuremberga, a que se encontra em Bruxelas no quadro preciosíssimo pintado pelo egrégio pintor Rogério, a que estás em Coblença na minha capela de Verónica, a do anjo que em Bressanone segura o brasão da Igreja e muitas outras espalhadas por todo o lado. Todavia para que vos não desfaleçais na prática que tal figura sensível exige, envio-vos, pelo afecto que vos tenho, o quadro, que pude obter, que representa a figura de alguém que olha tudo em redor, figura essa que chamo ícone de Deus. Pendurai-o num lugar qualquer, por exemplo na parede do lado norte, e colocai-vos, irmãos, à sua volta, à mesma distância dele, olhai-o e cada um de vós experimentará, seja qual for o lugar a partir do qual o contemple, que é o único a ser olhado por ele. Ao irmão que se encontra a oriente parecerá que aquele rosto olha na direcção do oriente, ao que se encontra a sul, que ele olha na direcção sul e ao que se encontra a ocidente que ele olha na direcção de ocidente”.

A Visão de Deus | De Visione Dei | Nicolau de Cusa | Fundação Calouste Gulbenkian, 1988 | 244 páginas | Tradução e introdução de João Maria André


Nicolau Krebs ficou conhecido por Nicolau de Cusa ou Cusano, por ter nascido em Cusa (Tréveris, Alemanha). Viveu de 1401 a 1464, ano da morte de Pio II, com quem colaborou (e esse foi o pretexto para me lembrar deste livro). A sua obra mais conhecida é “Da Douta Ignorância”.

“A Visão de Deus” é “um escrito cujo estilo, atingindo momentos de rara beleza, procura colocar o leitor num contacto privilegiado com a experiência mística da sua finitude imersa no horizonte inexaurível e inatingível da plenitude infinita de Deus e por ela iluminada no seu tacteante desejo de auto-superação numa projecção permanente para a fonte inesgotável de um olhar que é criação, vida e acto absoluto de todas as possibilidades da visão humanamente contraída”, escreve João Maria André na “Introdução” (pág. 103).

A obra foi dirigida aos monges beneditinos de Tegernsee, cidade bávara na fronteira com a Áustria. Em cartas datadas de 22 de Setembro de 1452 e de 14 de Setembro de 1453, Nicolau de Cusa promete enviar à comunidade monacal “uma reprodução do rosto de Cristo, cujo olhar parecia fixar-se no espectador, qualquer que fosse a sua posição, e acompanhá-lo em todas as suas deslocações”, escreve João Maria André (pág. 102-3). No final de 1453 (o ano da queda de Constantinopla), os monges recebem a imagem e o "De Visione Dei".

terça-feira, 4 de agosto de 2009

O que diz Eneias

D. Eneias (futuro Pio II) no casamento de Frederico da Germânia
com Leonor de Portugal


Pio II, o humanista, disse: “Deixem ficar Enea; sigam Pio” (“Aeneam reicite, Pium recipite”). Mas quem foi este humanista, Eneias Sílvio, referido por Bento XVI (ver livro abaixo)?

Enea Silvio Piccolomini (1405 – 1464) morreu num dia 14 de Agosto (outra fonte diz que foi a 15), há 545 anos. A Wikipedia diz que foi o único Papa a escrever uma autobiografia, “Comentários” (e João Paulo II? Não escreveu uma autobiografia em três volumes?), e que “reurbanizou” a sua cidade natal, antes Corsignano, hoje Pienza (perto de Siena), em honra de Pio.

Noutra fonte li que, ainda bispo, Eneias tratou do casamento de Frederico III da Germânia com D. Leonor de Portugal. O casamento da filha de D. Duarte foi em 1451. Deste casamento nasceu Maximiliano I, avô de Carlos V.

E que Pio II canonizou Catarina de Sena.

Não encontrei nada de relevante sobre o seu gosto pelo saber e pelas letras, mas tal deve-se aos meus exíguos meios de pesquisa: a net e uma breve história do papado. Contudo, o “Esqueçam Eneias, sigam Pio” parece dever-se não ao seu humanismo mas às suas posições enquanto teólogo. Eneias Sílvio era um conciliarista (corrente que dizia mais ou menos isto: “o concílio manda mais do que o Papa” e que viria a entrar nos protestantismos) e apoiara o antipapa Félix V (o último antipapa), mas mais tarde, já papa, excomunga quem apelar ao concílio contra as decisões da Santa Sé. É o fim do conciliarismo (a infalibilidade papal, no séc. XIX, será o corolário desta discussão).

Curiosidade: Com Nicolau de Cusa delineou um plano de reforma que não chegou a ser posto em prática.

M.S. Lourenço, 1936-2009

Morreu no dia 1 de Agosto, aos 73 anos, M. S. Lourenço. O “Público” (03-08-2009 - edição impressa), onde li a notícia, diz que era “o filósofo e poeta «notável» que Portugal não chegou a conhecer”.

Por uma série de coincidências, este filósofo não me era estranho. Lia-o no “Independente” dos primeiros anos. Escrevia umas crónicas poético-filosóficas que eu recortava para coleccionar. Mas li-o também quando estudei a filosofia de Wittgenstein. A tradução do “Tratado Lógico-Filosófico” e das “Investigações Filosóficas” (um só volume nas edições da Gulbenkian) era dele. E li-o, ainda, num dos números especiais dos “Cadernos o Tempo e o Modo” (que são anteriores a tudo isto).

No que tinha como tema “Deus o que é” escreveu um poema e uma reflexão sobre Mt 6,9-13. Termina assim esse comentário ao Pai-Nosso:

“Sem a Graça expomo-nos a cair.
Esta exposição chama-se angústia.
Não há oposição entre a Graça e o mérito individual. Este simplesmente não existe”.

João Paulo II visto por Bento XVI

No domingo apontei para este livro. Não sei se cabe no lote dos livros úteis. Não certamente nos de referência, para consulta. Caberá antes no dos curiosos: “Deixa cá ver o que Bento XVI diz do seu venerando predecessor”. E ainda nos de “deixa ver se te apanho”. Este “te” refere-se a Sua Santidade Bento XVI. “Portanto, deixei-me cá ver, Sua Santidade, se vos apanho”.

O actual Papa não é tão dado ao humor como o anterior. Até há um livro de anedotas de e sobre João Paulo II, bem na linha das "florinhas" de S. Francisco. Coisa que só por milagre aparecerá em relação a Bento XVI. Mas creio que ele próprio compreenderá a minha ideia. É que se um Papa fala do anterior, só uma mente distraída ou demasiado ingénua não perguntará: E isto também se aplica ao actual?

O livro reúne textos escritos quando Joseph Ratzinger já se sentava no trono de Pedro e outros de quando João Paulo II ainda estava entre nós. Estes são os mais interessantes para avaliar o actual Papa. Foram escritos com mais independência, quando ainda não imaginava que poderia suceder a João Paulo II.

No primeiro ensaio, como balanço de duas décadas de pontificado joãopaulino, escreve o que, possivelmente, será a passagem mais valiosa para catalogar este livro na tal estante (Bento XVI fornece muitos para esta secção, porque escreveu bastante como teólogo).

“Quando o Papa fala, ele não fala em seu próprio nome. Naquele momento, em última análise não contam nada as teorias ou as opiniões privadas que ele tenha elaborado no decurso da sua vida, por mais elevado que possa ser o seu nível intelectual. O Papa não fala como um simples homem erudito, com o seu eu privado ou, por assim dizer, como um solista sobre a cena da história espiritual da humanidade, Ele fala atingido pelo «nós» da fé de toda a Igreja, por detrás do qual o eu tem o dever de desaparecer.

Vem-me à mente, a este propósito, o grande Papa humanista, Enea Silvio Piccolomini, o qual, como Papa, devia por vezes dizer, apoiando-se precisamente no «nós» do seu magistério pontifício, coisas em contradição com as teorias daquele douto humanista que precedentemente tinha sido ele próprio. Quando lhe eram assinaladas estas contradições, costumava responder: Aeneam reicite, Pium recipite” (Deixai ficar Enea, sigam Pio). Num certo sentido, não é por um fenómeno inócuo se o «eu» substitui o «nós»”.

Joseph Ratzinger in “João Paulo II. O meu venerando predecessor” (Gráfica de Coimbra 2), 13

Está assim explicado porque é que o cardeal Joseph Ratzinger dizia que não havia lugar para a Turquia na União Europeia, mas Bento XVI já afirma que sim. Ou porque é que o presidente da Congregação para a Doutrina da Fé dava por terminado o diálogo com Hans Kung, mas o Papa convida-o para conversar.

Estas minhas palavras tanto podem ser uma crítica ao magistério de Bento XVI como um sinal de compreensão das suas contradições. Mas são, de certeza, sinal de uma perplexidade que penso que todos sentem no exercício de determinadas funções (“penso assim pela minha própria cabeça ou pela função que desempenho?”). Talvez esta perplexidade seja própria de todos os que assumem uma missão. E é um apelo à humildade no exercício do poder.

Este livro é sobre João Paulo II visto por Bento XVI mas em algumas páginas não posso evitar ler textos sobre “Bento XVI visto por ele próprio”.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Só Anselmo porque Bento está de férias

Anselmo Borges continua as reflexões na senda da "Cáritas in veritate" ("A Caridade na Verdade"). E lança algumas críticas à CV, que, tanto quanto sei, são as primeiras na imprensa portuguesa de alguém que se identifica coma Igreja católica. No DN sábado passado escreve (aqui):

"São homens e mulheres, aos milhões - muitas crianças -, a quem foi negada a dignidade humana. Este é que é o problema maior da Humanidade, que tem de ter uma solução. Esperamos numa boa solução. Porque, se não for a bem, será a mal. De facto, quem julga que o tempo das revoluções acabou está enganado. Vem aí a revolução dos pobres e desesperados.

Na sua última encíclica, Caritas in veritate (A caridade na Verdade), Bento XVI tentou dizê-lo, mas, segundo alguns, sem a força necessária. Daí, a par do merecido aplauso, as justas críticas ao documento. Que é demasiado longo, num amálgama para todos os gostos, o que é verdade. Que, ao falar a partir de um lugar soberano de pureza moral, ignora a necessária autocrítica da Igreja, o que também é verdade. Que a crítica do mercado e do universo financeiro tinha de ser muito mais severa e concreta. Que é equilibrista e tem míngua de análise crítica e denúncia e anúncio proféticos".

domingo, 2 de agosto de 2009

O que diz um Papa ao outro (1): a doutrina social

Num livro interessante a diversos títulos e que será referido em breve neste blogue, o Papa actual – primeiro como “apenas” cardeal e depois como Papa – fala do Papa anterior. Sobre as três encíclicas sociais de JP2, a “Laborem Exercens”, a “Sollicitudo Rei Socialis” e a “Centesimus Annus”, escreve:

"As três grandes encíclicas sociais aplicam a antropologia do Papa à problemática social do nosso século. Ele sublinha a prevalência do homem sobre os meios de produção, a prevalência do trabalho sobre o capital, a prevalência da ética sobre a técnica. No centro está a dignidade do homem que é sempre um fim e nunca um meio; a partir daqui são esclarecidas as grandes questões da actualidade da problemática social, em contraposição tanto ao marxismo como a liberalismo”.

Joseph Ratzinger in “João Paulo II. O meu venerando predecessor” (Gráfica de Coimbra 2), 43-44

Terra da fraternidade

Zeca Afonso (Aveiro, 2 de Agosto de 1929 - Setúbal, 23 de Fevereiro de 1987) faria hoje 80 anos.

Disse, cerca de dois anos antes de morrer:

«A minha formação é de origem cristã. Até ao fim da adolescência eu ia regularmente à Missa, assistia ao Santo Ofício, confessava-me. Hoje, passa-se algo como o regresso às origens, não porque me tenha tornado de novo católico praticante, mas porque percebo que, no fundo, tenho uma concepção religiosa do universo. Vi, num dia destes, o filme ‘Evangelho segundo S. Mateus’, de Pasolini, e fiquei interiormente perturbado. Agora estou a ler autores como S. João da Cruz e S. Francisco de Assis. Há em mim uma espécie de reencontro com os ensinamentos de Cristo, não o Cristo institucional e eclesiástico da minha infância, mas o Cristo dos que têm fome e sede de justiça».

Entrevista conduzida por José Amaro Dionísio, «Expresso», 15/6/85

Os títulos, as condenações e as defesas

É óbvio (para quem se coloca do lado de dentro da Igreja) que as condenações da Igreja são, na realidade, defesa de bens maiores, a vida, o ser humano, o direito dos que hão-de vir, etc. Mas não "fica bem" um título do género: "Igreja defende a vida e por isso diz "não" à pilula abortiva". Mas, e um jornal católico? Poderá fazer um título destes sem parecer demasiado confessional?

sábado, 1 de agosto de 2009

Mini e selectiva revista de imprensa, aliás, é só o "Público" de 1 de Agosto de 2009

No "Público" de 1 de Agosto de 2009

Título: Pílula abortiva será comercializada em Itália apesar da condenação da Igreja Católica. Uma frase: O seu uso pode levar à “excomunhão dos médicos, das mulheres e de todos os que tornarem possível a sua utilização”. Comentário: É implacável a Igreja. Sempre a condenar. Há todo um género jornalístico que é o dos títulos que metem “Igreja” ou “Papa” e “condenação” e seus derivados. Algures no Vaticano, todos os dias alguém acorda pela manhã e pensa: “O que vamos condenar hoje?”, isto se tivermos em conta certas notícias. A apresentação da condenação da Igreja nunca mostra o real motivo de tal condenação. Até parece um desporto, tipo aeróbica, sempre a condenar, sempre a condenar.

Título: Bento XVI em CD. Álbum Alma Mater sairá em Novembro. Uma frase: A Rádio Vaticano cedeu excertos com a voz do Santo Padre para a produção do CD. Canta músicas em latim, italiano, espanhol, francês, alemão e português, que serão misturadas com gravações do coro da Orquestra Filarmónica de Roma e da Royal Philarmonic Orchestra de Londres. Comentário: Metem Bento XVI em cada uma.

Título: Jerusalém. Encontrada taça de pedra do século I. Explicação: A taça tem dez linhas em hebraico antigo ou em aramaico, ainda não decifradas. Servia aparentemente para um ritual de purificação. “É possível que tenha sido usado por Jesus”, disse o arqueólogo Shimon Gibson. Comentário: É estranho que se fale de uma taça e se diga “tenha sido usado”. Mas isso pode ser erro do jornalista. Poderá ter sido induzido em erro pela palavra “templo”, que também aparece na notícia. Por outro lado, a referência a Jesus faz lembrar aquela conclusão após a reconstituição de um rosto a partir de um crânio do séc. I encontrado ao acaso: Jesus teria este aspecto... Se em Lisboa encontrarmos um palito do séc. XIX poderemos sempre dizer: É possível que tenha sido usado por Eça de Queirós.

Título: Bobby Robson, o mineiro. Explicação: Morreu ontem o treinador inglês, que chegou a estar à frente do Sporting e do Porto. Era ele que treinava a Inglaterra quando esta equipa foi afastada dos quartos-de-final do Mundial de 1986 por Maradona ter metido um golo com a mão, a célebre “mão de deus”. O comentário é do próprio Robson: “Não foi a mão de Deus, foi a mão de um patife. Deus não teve nada a ver com isso”. O meu comentário: Ao futebol o que é do futebol, a Deus o que é de Deus.

Título: Bento XVI para Nobel da economia? Explicação: Nas “Cartas ao Director”, um leitor de São João de Ver diz que não se admira que tenham adiantado o nome de Bento XVI para o prémio Nobel da economia (o que apenas aconteceu na Itália, segundo sei). A “Caritas in veritate”, diz o leitor, “é um instrumento inovador, devidamente fundamentado, detentor de uma correcta leitura do espectro mundial e portador de consequências, que deve ser tido em conta nas operações de estudo, planeamento, gestão e avaliação”. Comentário: E se o Papa ganhar o Nobel e a seguir um grammy ou pelo menos um disco de ouro?

Título: Oxalá lhes passe. Explicação: Miguel Esteves Cardoso ironiza sobre a tentativa de boicote ao concerto de Leonard Cohen em Israel e diz do músico canadiano de origem judaica (e que passou há dias por Portugal): “Foi ele que me consolou quando eu e a minha mulher chumbámos, por falta de estudo, o pré-exame de conversão ao Judaísmo”. E diz ainda que Leonard Cohen (grande tribo, a dos Cohen) se “farta de falar em Deus, o mesmo de toda a grande que acredita ou não nele e Nele” . Comentário: Como não falar de Deus?

DSI 26: Ainda a "Centesimus Annus", o ano de 1991

Para chegar a 1989, o ano da mudança e que é o o motivo próximo da "Centesimus Annus" (o outro é a comemoração dos 100 anos da "Rerum Novarum"), foi preciso passar pelo Sindicato Solidariedade (1980) de Lech Walesa, pela Perestroika (1986) de Gorbachev, pelas viagens de João Paulo II ao Leste europeu... O Muro de Berlim cai em 1989 e a Alemanha reunifica-se em 1990.

Quando João Paulo II publica a CA, no dia 1 de Maio de 1991, está em curso um processo de desfecho incerto. Em Março desse ano, 76,4% dos cidadãos da URSS votam pela manutenção da União. Mas as três repúblicas bálticas, mais a Geórgia, a Moldávia e a Arménia, boicotam o plebiscito e sucedem-se as declarações de independência: Estónia (20 de Agosto), Letónia (21), Ucrânia (24), Moldávia (27); Azerbaidjão (30), Quirguistão (31)… A Lituânia já declarara no dia 10 de Março de 1990. O processo termina no dia 25 de Dezembro de 1991, quando Mikhail Gorbachov anuncia a sua renúncia e reconhece a desintegração da URSS, enquanto a bandeira vermelha soviética é retirado da cúpula do Kremlin e é içada a bandeira tricolor da Rússia. Tudo isto em directo na tv.

Entretanto, no laboratório do CERN, na Suíça, no dia 6 de Agosto de 1991, Tim Berners-Lee (na imagem) torna público um texto numa rede de computadores. Inicia-se a World Wide Web, que vulgarmente é tida como sinónimo de Internet. Nova revolução está em marcha.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...