segunda-feira, 22 de junho de 2009

Mau gosto de jornalista do “Público”

O Provedor do Leitor do “Público” deu ontem conta dos protestos dos leitores contra um texto de São José Almeida. Na altura em que foi publicado pensei em protestar, escrevendo à autora (não seria a primeira vez), mas deixei passar. Afinal, vários autores protestaram. E ainda bem.

Diz o provedor Joaquim Vieira: “A jornalista São José Almeida finalizou assim a sua habitual crónica dos sábados do P2, em 23 de Maio, dedicada às posições do PS e da Hierarquia católica quando à educação sexual dos jovens: «Ou se optará por tentar criar condições reais para combater os números brutais da gravidez, do aborto e da sida entre os jovens, em vez de ceder à pressão dos que ficam felizes em celebrar encontros entre a Nossa Senhora de Fátima e o Cristo-Rei. Encontros esses que, seguramente, não precisam de preservativo». (…) Alguns leitores não gostaram. (…). [E disseram que se tratou de] «desrespeito e falta de elevação» (…), «lamentável e insultuoso para a grande maioria dos portugueses» (…).

Mais uma vez, o provedor declara que não põe em causa a opinião publicada, mas há aqui uma questão de bom gosto, pela ofensa gratuita dos dogmas de uma religião”.

Pode-se rir do sagrado? Eu penso que sim. Rir com o sagrado. Rir pelo sagrado. E até gostava de escrever algo sobre o assunto. Mas o mau gosto é sempre mau gosto.


Clássicos 7: "Nisso não acredito", de John A. T. Robinson

(Primeiro parágrafo:) “Não, nisso é que eu não posso acreditar! É uma reacção típica diante de grande parte da doutrina cristã, hoje em dia. E muitas vezes eu próprio me surpreendo a dizer: «No sentido em que penso ser obrigado a acreditar, também eu não acredito»”.

Nisso não acredito | But That I Can't Believe! | John A. T. Robinson | Moraes Editora, 1968, 194 páginas

John Arthur Thomas Robinson (1919-1983), inglês, foi professor de Novo Testamento e Bispo (anglicano) de Woolwich. O seu pensamento insere-se na teologia liberal e na teologia da secularização, como Harvey Cox e William Barclay.

A sua obra mais importante é “Honest to God”, de 1963, que, como esta agora citada, faz uma crítica às crenças tradicionais. John A. T. Robinson considerava-se de algum modo sucessor de Paul Tillich, Dietrich Bonhoeffer e Rudolf Bultmann e foi criticado por favorecer o relativismo teológico e ético (“ética situacional”). Em Inglaterra, nos anos 60 houve um interessante debate na imprensa entre este autor e C. S. Lewis, este último tido como defensor da ortodoxia.

Heresia e profecia

Na “análise iconoclasta” do cristianismo (a expressão é do “Nouvel Observateur” – na contracapa) que Slavoj Zizek faz em “A Marioneta e o Anão”, a religião tem dois papéis possíveis, no “quadro da nova ordem mundial” que é a globalização: “ou ajuda os indivíduos a funcionar cada vez melhor na ordem existente, ou procura afirmar-se como uma instância crítica e dizer o que está errado nessa ordem como tal, ou seja, enquanto espaço aberto às vozes contestatárias – neste último caso, a religião tende a assumir, como tal, o papel de uma heresia”.

Na verdade, neste parágrafo da instrodução de uma obra que pretende denunciar as “tendências perversas do cristianismo”, o filósofo esloveno não diz nada que ainda não tenha sido dito. Aliás, em linguagem mais pró-eclesial, no campo do cristianismo, dir-se-ia que esta fé terá sempre dois papéis: ser conferidor de sentido às existências individuais e colectivas e assumir-se como instância profética. Por outras palavras, orientação num mundo confuso e desejo de transformação desse mundo. Aquilo que Zizek refere ser um papel de heresia sempre na igreja foi reconhecido como profecia.

domingo, 21 de junho de 2009

Amo-te como um planeta em rotação difusa

Amo-te como um planeta em rotação difusa
E quero parar como o servo colado ao chão.
Frágil cerâmica de poros soprados no teu hálito
Vasilha que ergues em tua mão de oleiro
Cálice que não pudeste afastar de ti.

Daniel Faria, "Poesia", Edições quasi, pág. 239

sábado, 20 de junho de 2009

Clássicos 6: "História de Cristo", de Giovanni Papini


(Primeiro parágrafo) "Há quinhentos anos para cá, os que se intitulam «espíritos livres» por terem desertado da Milícia pelos Ergástulos anseiam por assassinar Jesus pela segunda vez – por matá-lo no coração dos homens."
História de Cristo | Título original Storia di Cristo | Giovanni Papini | Livros do Brasil, 2006, 422 páginas

Giovanni Papini (1881-1956) nasceu em Florença. Começou por ser céptico e ateu e acabou católico, refugiado num convento de Viena, após o fim de Mussolini, de que fora apoiante e que lhe valera o lugar de professor universitário em Bolonha. Fundou a revista “Leonardo” e “L’Anima” e escreveu para “Il Regno” e para o “Corriere della Sera”. Principais obras: “História de Cristo”, de 1935, “Il crepuscolo dei filosofi”, "Gog", “O Diabo”, “Cartas aos Homens do Papa Celestino VI” e “Relatório sobre os homens”. Devido ao seu fascismo e anti-semitismo, Papini está “injustamente esquecido”, na expressão de Jorge Luís Borges. Ainda não é politicamente correcto citá-lo, mas a “História de Cristo” é, apesar de tudo, um clássico do pensamento católico do século XX.

Que nos espera?

"Conhecer Deus" era a maior esperança para João Bénard da Costa, que, por isso, podia dizer: "Acredito que esta vida não pode acabar aqui: nada faria sentido, para mim, se assim fosse". Último parágrafo da opinião de Anselmo Borges no DN.

Um outro fervor

“Todos os locais da cidade estão cheios destas conversas, as ruas, as encruzilhadas, as praças, as avenidas. Falam os vendedores de tecidos, os cambistas, os merceeiros. Se perguntas ao cambista o câmbio de uma moeda, ele responde-te com uma dissertação dobre o gerado e o não-gerado. Se queres saber da qualidade e do preço do pão, o padeiro responde-te: “O Pai é o maior, e o Filho está-lhe sujeito”. Quando perguntas nas termas se o banho está pronto, o gerente declara que o Filho proveio do nada. Não sei que nome hei-de dar a esta doença; exaltação, raiva…”

Gregório de Nissa (330-395), neste texto retirado de “Sobre a divindade do Filho e do Espírito Santo”, fala do fervor teológico, ou pelo menos cristológico, do ambiente em que viveu. As frases que cita são de adeptos do arianismo, uma heresia que submetia Jesus a Deus-Pai. Para o arianismo (do padre Ario, que viveu de de 256 a 336, em Alexandria), o Filho era uma criação do Pai e não eram da mesma substância. Contra o arianismo, o Concílio de Niceia proclamou que o Filho “é gerado, não criado, consubstancial ao Pai”.

Porquê o texto de Gregório de Nissa? É uma mera invocação de um clássico motivada pelo fervor missionário coreano.

Missionários em competição


A Coreia do Sul tem actualmente 16 mil missionários, só das comunidades evangélicas. Com os EUA, é o país com mais gente nas missões. Os sul-coreanos evangelizam a China, a Rússia e países muçulmanos, muitas vezes sob a capa do trabalho humanitário. No Afeganistão têm sido raptados por fundamentalistas, o que causa apreensão nas autoridades coreanas e desejo de outros missionários partirem para a missão.

O governo afegão desencoraja os missionários. Os sequestros, com resgates e venda de entrevistas dos missionários a jornais e televisões internacionais, são bons negócios para os criminosos.

A imprensa internacional diz que há uma competição crescente ente igrejas evangélicas. Vão para a China disfarçados de empresários e investigadores. O entusiasmo é tanto que às vezes há dezenas ou mesmo centenas de evangelistas numa pequena cidade, lutando entre si pelo trabalho humanitário, diz a imprensa coreana.

Na imagem, coreanos raptados de um autocarro no Afeganistão, em 2007.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Clássicos 5 – “O Pastor”, de Hermas


(Primeiro parágrafo) “Quem me criou, vendeu-me para Roma a uma tal Rosa. Passados muitos anos, vim a conhecê-la e comecei a amá-la como irmã. Algum tempo depois, vi-a banhar-se no rio Tibre, dei-lhe a mão e retirei-a para fora do rio. Ao ver a sua formosura, discorria no meu coração, dizendo: Seria feliz, se desposasse uma mulher com esta beleza e modo de ser. Nada mais me passou pela cabeça senão isto”.

O pastor | Título original "POIMHN" | Hermas | Co-edição Alcalá / Faculdade de Teologia da UCP, 2003, 280 páginas

Não se sabe ao certo que foi Hermas, nem em que data (final do séc. I?, meados do séc. II?) ou local (Patmos? Éfeso? Roma?) a obra foi escrita. Orígenes dizia que este Hermas é o mesmo que Paulo saúda em Romanos 16,14. Mas é improvável.

“O Pastor” chegou a ser tido como livro inspirado por alguns cristãos dos primeiros séculos, graças às interpretações alegóricas (na mulher atraente do parágrafo acima citado viu-se o “símbolo da sedução que a cultura pagã exerce sobre os cristãos”).

Sobre a obra, Isidro Lamelas escreve na Introdução desta edição: “(…) É, sem dúvida, uma das mais fascinantes e surpreendentes de toda a literatura cristã dos primeiros séculos. Considerada e utilizada durante gerações como texto sagrado e inspirado, gozou de uma singular estima e notoriedade na Igreja antiga”.

Para ler tudo, tudo, tudo. Em breve


No “Público” de hoje (edição em papel), três assuntos que o Tribo de Jacob segue com interesse (e aos quais, provavelmente, ainda voltará):

* Foi o jesuíta Manuel Dias que ensinou aos chineses quem era Galileu (P2, páginas 4 e 5). Texto de Ana Machado (o único que encontrei on-line, aqui);

* “Etty, Rilke e Eckhart. Viagens pela mão dos místicos”. Textos de António Marujo e Tolentino Mendonça. Sobre as recentes edições das obras: “Cartas” (1841-43), de Etty Hillesum (Assírio & Alvim); “Livro das Horas”, de Rainer Maria Rilke (Assírio & Alvim); e “Tratados e sermões”, de Mestre Eckhart (Paulinas). O texto principal começa assim: “Há uma mulher num campo de concentração que lê o místico medieval Mestre Eckhart e faz récitas de Rilke – pelo meio tem que limpar retretes. Há um poeta que vagabundeia pela Europa e escreve em castelos como se fossem conventos. Há um frade dominicano que faz sermões sobre o desapego e é perseguido pela Inquisição” (“Ípsilon”, páginas 22-25). Imagem deste post: Etty Hillesum;

* “Portugal teria podido proteger muitos dos judeus de origem portuguesa, mas não o fez”, diz uma entrevista de José Manuel Fernandes ao académico alemão Carsten L. Wilke (“Ípsilon”, páginas 26-28).

“Deus está de volta”


O livro chama-se “God is Back: How the Global Revival of Faith is Changing the World” (algo como “Deus está de volta: Como o renascimento global da fé está a mudar o mundo”), de John Micklethwait e Adrian Wooldridge, na Penguin Press. Um é católico, o outro é ateu (não sei qual deles é o quê). Ambos são jornalistas da “Economist”.

Uma leitura sumária de críticas (na “Sábado” de 18 de Junho, no FT.com, no site da Amazon) revela o teor do livro: o capitalismo é benéfico para a religião e a religião é benéfica para o capitalismo. E isto faz-se por duas vias: 1.ª, o capitalismo, com a mudança permanente, deixa as pessoas vulneráveis e fá-las procurar segurança na religião; 2.ª, a religião usa os meios do capitalismo – a tecnologia e os mercados – para se expandir.

Mas o livro fala também de uma mudança de percepção na Europa, que vai “Da Necessidade de Ateísmo” (título do primeiro capítulo, que começa com a expulsão de Oxford do poeta Percy Bysshe Shelley, por ter escrito um panfleto precisamente intitulado “A Necessidade do Ateísmo”), às “Guerras culturais globais”, ao “Aprender a viver com a Religião” (conclusão).

O livro tem uma visão global, ainda que realce o arco Europa – EUA. A religião, dizem, está a deixar de ser vista como uma força da ignorância e obscurantismo. É “uma grande força para o progresso social no mundo em vias de desenvolvimento”. Sobre o Pentecostalismo dizem que “dá às pessoas uma predisposição psicológica para os conduzir ao capitalismo, pela sua ênfase na disciplina, nos hábitos, na poupança, na preservação da família”.

Quatro comentários à queima-roupa (como disse um crítico, quando não se sentir inspirado para escrever uma crítica, em último recurso, leia o livro):

* Quantas vezes já se falou de regresso do religioso, da fé, do sagrado? Muitas. Desde finais dos anos 80 que se fala disso e dos “rumores dos anjos”, da secularização frustrada… Agora acrescenta-se a globalização e a Internet.

* A tese do refúgio na religião não se assemelha àquela do senhor de barbas que mais criticou o capitalismo, cujo nome num livro dos anos 50 era traduzido por Carlos Marques?

* A tese de o Pentecostalismo ajudar ao capitalismo (ou criar a predisposição para tal) não é a mesma que a de Max Weber com o seu “A ética protestante e o espírito do capitalismo?”

* Finalmente, este livro insere-se numa observação que já tem pelo menos uma década: “Deus, outrora menos vivo do que se julgava, está menos morto do que se diz” (Jean Delumeau).

Clássicos 4 – “Cidade de Deus”, de Santo Agostinho


“A gloriosíssima Cidade de Deus – que no presente decurso do tempo, vivendo da fé, faz a sua peregrinação no meio dos ímpios, que agora espera a estabilidade da eterna morada com paciência até ao dia em que será julgada com justiça, e que, graças á santidade, possuirá então por uma suprema vitória, a paz perfeita – tal é, Marcelino, meu caríssimo filho, o objecto desta obra”. (Primeiro parágrafo)

A Cidade de Deus | Título original: De Civitate Dei | Santo Agostinho | Fundação Calouste Gulbenkian, 1996, 3 Tomos (816 páginas no primeiro)

Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste, em 354, e faleceu em Hipona, em 430, cidade de que foi bispo desde 395. É o padre latino mais influente. (“Não há missa sem vinho, nem sermão sem santo Agostinho”, dizia-se). Escreveu “De Civitate Dei” entre 413 e 426.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O ícone Lenine


Marcos Ana passou 23 anos na prisão, sob a ditadura franquista e conta em livro, aos 87 anos, como foi. A obra chama-se “Digam-me como é uma árvore” (ed. Guerra e Paz) e é descrita como memórias “menos políticas do que puramente humanas” (“Ípsilon”, 12 de Junho). Marcos Ana recorda histórias da sua infância pobre e católica, da sua adesão ao comunismo na adolescência, da prisão, do exílio. Conta, por exemplo, que na prisão os presos sujeitos a tortura eram reconfortados por um certo retrato de Lenine, como se fosse um ícone religioso.

Leio a recensão de Mário Santos no “Ípsilon” e, sem antes conhecer o resistente, fico desperto para pelo menos dar uma olhadela no livro na próxima visita a uma livraria: “Este livro é um testemunho de vitalidade e optimismo, sem sombra de ressentimento. São as memórias de alguém que não nomeia os companheiros que «tiveram fraquezas», nem os seus directos torturadores: «porque devem ter filhos e netos e tanto tempo depois não quero conspurcar a recordação que tenham dos pais ou avós». São as memórias de um homem. Coisa rara”.

O que diz Samuel L. Jackson


Diz o seguinte (no “Pantalla”, suplemento do diário espanhol “ABC” de 5 de Junho):

“Rezo todos os dias para não beber nem me drogar”.

“O simples facto de estar aqui e de não ter sido atirado para a rua, bêbado e drogado, devo-o a Deus. Tive a oportunidade de ver a luz. Às vezes a fé é importante para me manter sereno nos momentos de tentação. Não bebi um copo durante 15 anos… (…) É uma das primeiras coisas que faço logo de manhã, pedir a Deus que me dê força para não beber nem tomar drogas nesse dia”.

Clássicos 3 - "Imitação de Cristo", de Tomás de Kempis


“Quem Me segue não anda em trevas” (Jo 8,12). São palavras com que Jesus Cristo nos exorta à imitação da sua vida e dos seus costumes se quisemos ser verdadeiramente esclarecidos e livres de toda a cegueira espiritual. O nosso empenho deve, portanto, consistir em meditar profundamente a vida de Cristo.

Imitação de Cristo | Tomás de Kempis | Paulus, 2003, 254 páginas

Tomás nasceu em Kempen (Kempis), na Renânia (Alemanha), em 1379 ou 1380, e morreu a 25 de Julho de 1471, no mosteiro de Saint Agnetenberg, perto de Utreque (Holanda). São-lhe atribuídas cerca de 40 obras. A “Imitação de Cristo” é a mais conhecida e mais influente.

Símbolo cristão perdido?

Dan Brown vai publicar no dia 15 de Setembro, nos EUA, o romance “The Lost Symbol”. Ninguém sabe do que fala o livro. Além do autor, só cinco pessoas no mundo inteiro, dizem, tiveram acesso ao manuscrito. E têm de manter segredo porque assinaram um contrato de confidencialidade. Mas sabe-se que Robert Langdon, o professor de simbologia de Harvard, volta a entrar.

Facilmente se arrisca mais: o símbolo perdido é um símbolo cristão. Se não for, venderá tanto como “Anjos e Demónios” ou “O Código da Vinci”? E que símbolo cristão teria sido perdido? O Graal do “Código” e do Indiana Jones? A peça de roupa que tapou Jesus na cruz e que nunca existiu? A Arca vista pela última vez durante a invasão babilónica? O bastão de Moisés (que Hebreus diz que estava na Arca?). Uma terceira tábua de mandamentos? A almofada que Jesus, no barco, durante uma tempestade? (Não tinha uma pedra para reclinar a cabeça, mas tinha uma almofada.) A verdadeira cruz de Jesus? A coroa de espinhos? O báculo de Pedro? As redes que apanharam 153 peixes? A cruz de Constantino? Um ícone? Mas isto são objectos, não símbolos.

Se o símbolo não for cristão, que polémica poderá levantar? Suscitará tanto interesse? A bem do negócio (e da diversão de quem gosta deste tipo de literatura, como eu, que a leio por distracção e não para alimentar convicções), é bom que seja cristão.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

A essência dos judeus


Na última “Courrier internacional” (Junho 2009), diz Shlomo Sand, em entrevista: “Ser judeu não é uma essência, é viver numa grande religião”.

Eu pensaria exactamente o contrário, baseando-me na experiência daqueles que, convertidos ao judaísmo, nunca parecem realmente judeus (estou a pensar em Miguel Esteves Cardoso – como pensar que a sua conversão foi sincera, ainda que também não possa disso duvidar? – e noutra pessoa que não conheço, mas de quem me disseram que por muito que se esforçasse, era tida como judeu de segunda pelos judeus mais antigos). Baseando-me no não-proselitismo que, afinal, o mesmo Shlomo Sand desmonta. Houve épocas de proselitismo judaico. E, ainda, baseando-me no princípio: Judeu é aquele que nasce de mãe judia.

Cristo e os cristãos

No "Público" de hoje:

Eu gosto de Cristo. Eu não gosto de vocês, cristãos. Vocês, cristãos, são tão diferentes de Cristo.

Mahatma Gandhi (1869-1948).

Clássicos 2 – “Tratado da Oração, do Jejum e da Esmola”, de Frei Luís de Granada


"Para conclusão desta obra [o Livro da Oração], pareceu-me necessário tratar, no final, dos frutos e proveitos da oração, para mover os corações dos leitores para o exercício desta virtude e para os trabalhos que, na sua continuidade, se hão-de passar. Porque assim como os que pregam jubileus e indultos apostólicos procuram declarar e encarecer as graças e os favores que neles se concedem, para que não recusem os homens fazer o que para isso se lhes pede, dado o muito que se lhes promete; assim também, como no exercício da oração, que aqui se pede, haja trabalho e dificuldade – como logo diremos -, é necessário adoçar esta purga com algum mel, pondo ante os olhos os frutos e os grandes efeitos desta virtude; para que, com este gosto e esperança, se esforcem os homens para querer tomar esta purga. E chamamo-la purga porque, como disse um daqueles insignes Padres do Deserto, uma das coisas mais trabalhosas que há na vida espiritual é o exercício contínuo da oração, o qual veremos claramente pelas seguintes razões".

Tratado da Oração, do Jejum e da Esmola | Frei Luís de Granada | Paulinas, 2006, 254 páginas

Luís Sarria nasceu em de Granada, em 1504. Vem para Portugal em 1550-51 e vive em Lisboa, no convento de S. Domingos (Rossio), até à morte, no dia 31 de Dezembro 1588. Este “Tratado…” é uma parte do “Livro de la Oración y meditación”, obra que suscitou a oposição da Inquisição e do grande teólogo (e confrade de Frei Luís) Melchior Cano. A principal crítica que lhe faz é que Frei Luís propõe um “caminho de perfeição comum e geral a todos os estados”.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Rembrandt como Paulo


Auto-retrato de Rembrandt.
Como Paulo, com o livro e a espada (que se vê melhor clicando na imagem).

Rembrandt, pintor paulino


Rembrandt (1606-1669), o maior pintor holandês do séc. XVII, é um caso sério de interesse (obsessão?) pela figura de São Paulo. Quando os pintores começavam a abandonar os temas religiosos, o mestre holandês continuava a inspirar-se na Bíblia, ao ponto de existir uma edição bíblica conhecida por “Bíblia de Rembrandt”, completamente ilustrada com as suas pinturas. Ora, Rembrandt, pintou pelo menos cinco vezes a figura de Paulo.

Protestante, embora haja divergências quando à confissão em concreto, não há dúvida de que conhecia bem a Bíblia (num dos seus quadros representa a sua mãe a lê-la).

Rembrandt teve fases da vida muito instáveis e cheias de dramas. Morrem-lhe dois filhos e, após oito anos de casamento, a mulher. Sobrevive apenas um filho, que o apoia na velhice. Chama-se… Tito – nome de um dos discípulos de Paulo.

Num dos seus auto-retratos (de 1661), Rembrandt representa-se como Paulo, com um turbante do Médio Oriente, a espada e o livro (que dizem ser a Carta aos Efésios), símbolos tradicionais do Apóstolo (aqui).

Entre as outras pinturas sobre Paulo (“Paulo Apóstolo”, de 1635; “Paulo Apóstolo”, de 1647; “São Paulo à secretária”, de 1629) destaca-se “São Paulo na Prisão”, de 1627, acima reproduzida. Paulo está possuído por uma mensagem (uma Pessoa!) maior do que vida, perante a qual as palavras são sempre limitadas. O seu olhar não engana.

Catequese paroquial

É curioso o uso do adjectivo “paroquial” com sentido pejorativo. Quando num artigo sobre política se fala de “visão paroquial”, “mentalidade paroquial”, “dimensão paroquial” ou se usam expressões semelhantes, quer-se referir a algo de vistas curtas, fechadas, limitadas, tacanhas. No entanto, “paróquia” tem subjacente a ideia de proximidade. É a igreja mais próxima das pessoas. “Paróquia” é quase sinónimo de comunidade. É onde uma pessoa se sente conhecida, querida. “Paróquia”, pelo menos para mim, tem um conteúdo positivo. Opõe-se a multidão, a indiferenciados, a massa, rebanhada. Quando se muda de terra, por exemplo, é quase sempre na paróquia que criamos laços.

Ontem no "Público" (15-06-2009), Isilda Pegado dava usa similar à palavra “catequese” e seus derivados, a propósito das últimas eleições: “Muitos foram os que catequizaram [contra o neoliberalismo]…”; “…outros, com o medo de se oporem a tão “brilhante” catequese, ficaram mudos…”; “…O povo, nas europeias, disse não à «catequese» socialista”. “A catequese serôdia do Estado intervencionista…”

“Catequese” tem claramente um sentido negativo: ideologia perniciosa, algo que se pretende inculcar, martelar, impingir, tentativa de manipulação, de engano. É outra palavra que no contexto religioso é positiva, mas a que se dá um uso negativo em contexto profano. Por mim, preferia que não dessem às palavras de origem conotações negativas. Que paroquial, catequese, missa, missão, sermão, capela… não tivessem conotações negativas. Que ao uso religioso dessas palavras não chegassem os sentidos negativos que têm quando são usadas em contextos profanos. Mas em relação a algumas delas já será impossível evitar que o sentido profano não se sobreponha ao uso genuinamente religioso.

Clássicos - 1: "Apologia", de Cardeal Newman


“Facilmente se compreende a grande provação que para mim representa ter de escrever a minha própria história; mas não posso furtar-me a este dever. As palavras Secretum meum mihi ecoam aos meus ouvidos; mas à medida que os homens se aproximam do fim, menos lhes custa fazer confidências. E não é menos provação antever que os meus amigos, ao leram pela primeira vez o que escrevi, lhe encontrem muito de irrelevante em face do que se pretende. No entanto, considerando o conjunto, insisto em pensar que, transmiti-lo ao público, é servir os meus propósitos”.

Apologia | Título original: Apologia pro Vita Sua | Cardeal Newman | Verbo, 1974, 382 páginas

John Henry Newman (Londres, 21 de Fevereiro de 1801 – Edgbaston, 11 de Agosto de 1890), anglicano inglês convertido ao catolicismo em 1845, foi nomeado cardeal pelo papa Leão XIII, em 1879. É considerado precursor do ecumenismo e do personalismo. Ordenado sacerdote da Igreja Católica em Roma (1847), abriu e dirigiu em Birmingham um oratório de São Filipe Néri e foi ainda reitor da Universidade Católica da Irlanda (1854). A “Apologia” é uma autobiografia espiritual.

Introdução aos clássicos

Durante as próximas semanas, enquanto a minha biblioteca o permitir, vou transcrever no Tribo de Jacob os primeiros parágrafos de clássicos do catolicismo, daquelas obras que de alguma forma tenham marcado o pensamento católico. Podem ser obras de Teologia, autobiografias, ensaios, testemunhos. Será sempre um cânone discutível e muito limitado. Mas talvez desperte em alguém o gosto por descobrir alguma dessas obras.

As culpas da Igreja Católica no processo

O actor Virgílio Castelo, numa entrevista à revista “Plenitude”, que saiu com o “Público” no início de Junho de 2009, afirma a dado passo, ao responder a “quais são as ideias-chave [do livro que escreveu e que se intitula “O Último Navegador]”?:

“Diz, basicamente, que a culpa de isto funcionar mal não é de ninguém a não ser de nós próprios; a Igreja Católica tem culpas neste processo «até dizer chega»; as elites políticas saídas do 25 de Abril são incapazes; o País é governado por corporações e filtrado por jornalistas. É evidente que o livro foi votado ao silêncio”.

Li o resto da entrevista (quatro páginas) à procura de uma justificação da responsabilidade da Igreja Católica. Não encontrei. Mas li que o actor aceitava ser primeiro-ministro. “Uma legislatura bastaria para acabar com o País oficial e dar espaço ao País real”, afirma. Fiquei elucidado. Sugiro que no seu programa político recolha medidas contra a Igreja Católica. Uma inquisiçãozinha, pelo menos. É o mínimo que pode fazer para “dar espaço ao País real”. Por outro lado, uma reinterpretação da sua frase pode levar-nos a supor que ele se inclui na Igreja Católica (a culpa é “de nós”… “a IC tem culpas neste processo”…). Mas não me parece que seja isso que queira dizer.

Também li na mesma revista (que suponho ligada à IURD) que Virgílio Castelo quer escrever um livro sobre o amor (dentro de um ou dois anos) e outro sobre Deus (sem data). Entretanto, define Deus com estas palavras: “A possibilidade de tentarmos não nos enganar a nós próprios”. Parece-me bem. Deus tem muito a ver com acertamos nas nossas grandes opções. São Paulo dizia isto de outra maneira: “Feliz de quem não se condena a si mesmo, devido às decisões que toma” (Rm 14,22).

Subir à fonte

É preciso reencontrar Deus: a própria Fonte, para além das ideologias e das escravizações de hoje. Reencontrar, em Deus, inspiração, verdade e liberdade, para além das armadilhas e feridas aqui na terra. Trata-se de reencontrar a unidade por meio da caridade. Reencontrar humildemente uma filosofia realista para além de filosofias excitantes, mas que nos afundam. Reencontrar, com a realidade da terra, a realidade última de Deus: verdadeiro pólo da nossa magnetização e do nosso amor. Numa palavra, reencontrar a Eucaristia, onde Deus, morto e ressuscitado por nós, Se dá a Si próprio em alimento, intimamente, orgânica e totalmente. É este o segredo do amor. O amor não cansa. Não passa. Ele respeita e vivifica todas as diferenças. O amor existe. Apesar do ritmo frenético das nossas existências, não esqueçamos de O reencontrar.

René Laurentin, “A Igreja do Futuro”, Edições Paulistas, pág. 283-284.

Cientistas na revolução

Galileu foi condenado, mas o Papa nunca assinou o papel. E era preciso assinar. Já Lavoisier (1743-1794) foi guilhotinado com o argumento de que a revolução não precisava de cientistas.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Bandeira da UE - 2


Ainda sobre a bandeira da União Europeia, uma breve pesquisa permite verificar que:
* a ideia original foi de Arsène Heitz, um funcionário do Conselho da Europa. Num concurso com um total de 101 propostas, 21 eram de Heitz. Podem ser vistas aqui (procurar em "Dossiês especiais"; a seguir, "Os símbolos da União Europeia"; e finalmente em "bandeira"/"drapeau");
* entre as várias propostas de Arsène Heitz a que mais se assemelha com a bandeira actual tinha quinze estrelas (catorze no círculo e uma ao centro), representativas dos estados do Conselho da Europa. Diz-se que foi inspirada na imagem de Nossa Senhora da Conceição da Catedral de Estrasburgo e na suas doze estrelas (seguindo Ap 12,1); do mesmo autor, há outras propostas semelhantes que têm 12 estrelas no círculo mais uma ao centro;
* Após discussões entre a França e a Alemanha (por causa de uma região da Alemanha), concordou-se que as estrelas não representariam estados e optou-se pelas 12;
* começou por ser bandeira do Conselho da Europa, adoptada em 1955, mas este organismo convidou outras instituições a adoptarem-na. O Parlamento Europeu adoptou-a em 1983 e a Comunidade Europeia (actual UE) em 1986;
* o design final é do belga Paul Michel Gabriel Lévy;
* foi adoptada pelo Conselho da Europa no dia 8 de Dezembro de 1955, dia da Imaculada Conceição (na Europa, feriado apenas em Portugal, Áustria, Espanha, Itália e Malta).

Nem anjos nem demónios


O Vaticano foi ao CERN, mas não por causa dos "Anjos e Demónios".

A visita ocorreu no dia 3 de Junho, no âmbito do diálogo fé/ciência. O responsáveis do Vaticano declararam que as verdades científicas e teológicas nunca se podem contradizer, dado que ambas “derivam da mesma fonte, que é Deus”. O Cardeal D. Lajolo citou Roberto Belarmino, o Doutor da Igreja que se envolveu na investigação do "caso Galileu". Se uma declaração científica é evidentemente verdadeira e não se encontra em absoluta conformidade com a Bíblia, é necessário investigar “como é que a Escritura pode ser correctamente interpretada para não contradizer a verdade científica”.

O Cardeal notou que a Igreja Católica defende a razão e a verdade, e é por isso que ela “reconheceu mais tarde a tese científica defendida por Galileu e o erro cometido na sua condenação”. Ler mais aqui.

Desta vez não é o laicismo


Notícia do Courrier Internacional de Junho de 2009 (n.º 160, pág. 111):

“O condutor banal não vê senão o emblema da União Europeia. Para eles, é o símbolo da Virgem. Um grupo de protestantes holandeses exige a retirada das 12 estrelas amarelas sobre fundo azul que constam das placas de matrícula europeias. Motivo: a bandeira da Europa dos 27 choca os seus sentimentos religiosos.

«Em geral, as pessoas não pensam nisso, mas o símbolo da EU foi inventado por um católico em honra de Maria», declarou ao Nederlands Dagblad Hof o presidente da Fundação Nacional para a Preservação dos Princípios Políticos Renovados.

A bandeira europeia foi adoptada pelo Conselho da Europa num 8 de Dezembro, dia da festa da Imaculada Conceição, recorda o jornal holandês”.

Toda a Igreja a reflectir

“É necessário que a Igreja toda se ponha a reflectir e, guiada pelo papa, encontre vias de saída”, diz Carlo Maria Martini, antigo arcebispo de Milão, citado por Anselmo Borges no DN de sábado passado. E agora é o próprio A. Borges que diz: “(…) É-se hoje convocado para alguns problemas complexos da Igreja institucional, que exigem debate livre, plural e responsável. Entre eles, a questão da democracia interna, da igualdade das mulheres, da sexualidade e, neste domínio, concretamente, da lei do celibato obrigatório para os padres”. O texto pode ser lido aqui.

“Fui calvinista”

O jornalista e escritor Pedro Rosa Mendes diz numa entrevista a Carlos Vaz Marques, na revista “Ler” (Junho de 2009, pág. 42): “Eu fui para Timor pela Lusa e aí fui calvinista até ter voltado, agora. Não é exagero: eu não escrevi uma linha, em Timor, que não fosse como delegado a agência”.

Nunca tinha encontrado o adjectivo “calvinista” com o sentido de “escrupuloso”, “cumpridor até às mais ínfimas formalidades”, “rigorista”, embora o seu sentido se compreenda imediatamente. Poderia ter dito “puritano” e a ideia continuaria acessível.

(Não admira que o calvinismo tenha tido mais sucesso na Suíça, o país dos relógios, da pontualidade, da organização. Haverá verdadeiro calvinismo nos países latinos? Nos países quentes? Um calvinismo tropical?)

domingo, 14 de junho de 2009

O que diz Calvin


Há um blog sobre os 500 anos de Calvino. Foi de lá que retirei as imagens. Para conhecer mais o pensamento deste reformador, ver aqui.

"Este tem sido meu propósito: preparar e instruir de tal modo os candidatos à sagrada teologia, para a leitura da divina Palavra, que não só lhe tenham fácil acesso, mas ainda possam nesta escalada avançar sem tropeços".
João Calvino

Clavino faz 500 anos


Bento Domingues assinala no “Público” de hoje os 500 anos do nascimento de João Calvino (Noyon, 10 de Julho de 1509 — Genebra, 27 de Maio de 1564). Nota que foi traduzido para português, pela Universidade Lusófona a “Breve Introdução Cristã”, obra fundamental do reformador francês; realça que os reformadores pretendiam trabalhar na reforma da Igreja, mas dentro do catolicismo e sob a autoridade do Papa, e que as figuras de Lutero e Calvino foram injustamente denegridas pelos católicos; e deixa algumas sugestões para o diálogo ecuménico actual:

“O diálogo ecuménico exige rever questões histórico-teológicas, mas não as pode rever como se procurasse voltar ao século XVI. Seria anacrónico e já não tem remédio. Importante seria ver o que há de futuro nessas problemáticas, nesses encontros e desencontros. O verdadeiro ecumenismo só pode ser realizado perante os desafios que afectam a missão presente das Igreja na luta contra situações de exploração intolerável, seja onde for. Se as Igrejas cristãs não se quiserem deixar interfecundar na busca de caminhos de evangelização, não podem pretender ser o sal da terra e a luz do mundo.

"Ó devoto leitor"


Quem for a Roma por estes dias deve ver a Bíblia carolíngia que está exposta em São Paulo Fora de Muros, na parte da abadia. “Ir a Roma e não ver esta Bíblia seria pecado de bradar aos olhos”, escreve António Marujo no P2 de 13 de Junho.

Vê-se a Bíblia atrás do vidro e 24 reproduções das suas iluminuras de Ingoberto, o monge pintor. A Bíblia foi oferecida por Carlos, o Calvo (neto de Carlos Magno), ao Papa João VIII, no Natal de 875.

No prólogo da Bíblia aparece este texto (transcrevo do “Público”): “Ó devoto leitor, a tua inteligência será colocada à prova peranta o que este livro contém, a obra do Omnipotente (…), aqui escutarás a voz das cascatas com a qual o abismo clama pelo abismo e lhe grita com o rumor de muitas asas (…), aqui escutarás David, o poderoso salmista que toca para a sua cítara (…). Aqui está o doce alimento, aqui o maná, o penhor autêntico. (…) Ó leitor, não deixes de restabelecer-te e saborear este alimento…”

Na imagem, pormenor de iluminura relativa a São Paulo.

sábado, 13 de junho de 2009

Mesa-de-cabeceira

Ana Bacalhau, vocalista dos Deolinda, tem sobre a mesa-de-cabeceira a Bíblia (e também uma biografia de Bob Dylan) (notícias sábado, 13-06-2009).

Rumores

Na «Sábado» de 9 de Junho de 2009, num texto sobre aventureiros que estiveram muito perto de morrer. Talvez as situações tenham explicações neurológicas, como adianta o escritor John Geiger. Mas não deixam de remeter para aquele velho quadro do anjo a ajudar a criança a atravessar uma ponte em ruínas.

“Filipe refugiou-se em Deus para vencer a montanha. Mas há casos diferentes. Várias pessoas que estiveram entre a vida e a morte relatam o aparecimento de uma força misteriosa que os ajudou a sobreviver. O norte-americano John Geiger juntou os testemiunhos no livro «Factor Terceiro Homem», publicado há poucas semanas.

Ron DiFrancesco, corretor do mercado bolsista, estava no 84.º andar da torre sul do World Trade Center quando o avião da United Airlines embateu no edifício, a 11 de Setembro de 2001. Ao tentar descer as escadas, foi barrado por uma parede e por uma nuvem de fumo no 80.º piso. Sentiu que alguém o chamava: “Levanta-te! Tu consegues!”, ouviu. “Não era só a voz, também senti uma presença física”. O corretor diz que “um anjo” o encaminhou por entre o fogo e o fumo, indicando-lhe a saída. Foi a última pessoa a sair com vida da torre sul, segundos antes do desabamento.

O lendário explorador da Antárctida Ernest Shacleton também escreveu que foi guiado por um “terceiro homem” na sua cruzada impossível pela cordilheira gelada da Geórgia do Sul, em 1916. E o americano Joshua Slocum, o primeiro explorador a concretizar uma viagem de circum-navegação solitária em 1895, referiu a sensação de que tinha estado “na presença de um amigo e marinheiro experiente” que comandou o barco nas 48 horas em que esteve imobilizado”.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

"Friends of God"


Ontem deu na RTP2 um documentário sobre os cristãos evangélicos dos EUA: “Amigos de Deus”, escrito, dirigido e narrado por Alexandra Pelosi (na imagem), da HBO. Não o vi todo, porque foi numa sessão de zapping que dei com ele, mas do que vi pensei que:

* os evangélicos norte-americanos têm um sentido de comunidade que, julgo, nenhuma comunidade de católicos na Europa tem;

* os evangélicos sabem dizer em duas ou três frases aquilo em que acreditam: que Jesus é o Senhor e dá a vida eterna (vi criancinhas a citarem Jo 3,16 com uma desenvoltura impressionante); que a Bíblia é orientação e palavra definitiva; que a América é a pátria da liberdade e onde a fé cristã pode ser praticada… Mesmo o criacionismo, que obviamente não aceito (a Criação é teologia; a evolução é teoria científica; não colidem), é explicado com argumentos simples mas eficazes. O conteúdo está errado, mas o método, a retórica, os meios são interessantes do ponto de vista comunicativo.

* nós, católicos, teremos muito a aprender com documentários como estes; aliás, teríamos muito a aprender com a capacidade de comunicação dos evangélicos (em parte resultante da assertividade pragmatismo dos americanos em geral). Por que não hão-de os padres ou agentes de pastoral fazer um estágio numa destas comunidades?;

* os evangélicos sabem o que querem, mesmo politicamente, ainda que, como critérios para a escolha política sobrevalorizem as matérias de ordem da moral sexual e pessoal, como o aborto, a homossexualidade e as uniões gays, e ignorem os assuntos de ordem social;

* nas assembleias de adultos, nos encontros de juventude, nas sessões para crianças (por vezes acompanhadas dos pais) não havia fretes. Ninguém estava lá por favor – ao contrário do que vemos na maioria dos encontros católicos. Vibravam. O rock / pop cristão nos encontros juvenis tinha ares de rock / pop como os outros. Tinha o ingrediente de desejo e exultação que ainda não vi no rock / pop cristão português.

É sempre de espantar os combates de wrestling cristão ou a reunião dos clubes de automobilismo cristão, para além da cruzada anti-evolucionismo, mas os líderes católicos têm a aprender com documentários como este, quer dizer, com os evangélicos norte-americanos. Não é uma questão de conteúdos. É de meios e métodos. De forma.

Dom de si mesmo


São Jerónimo (347-420), num comentário ao Salmo 102, disse: “Sou como um pelicano do deserto, que fustiga o peito e alimenta com o próprio sangue os seus filhos”.

O pelicano alimenta os filhos, mas não chega a picar o peito até deitar sangue, como pensavam os medievais, seguindo os comentários de Jerónimo. Mas por esta doação de si mesmo, sacrifício de si mesmo, ficou como símbolo da Eucaristia.

O Salmo, uma oração do aflito, em concreto, diz: "Tornei-me semelhante ao pelicano no deserto". É uma imagem bela para falar de qualquer dor. A ave aquática torturada pelo deserto.

Já não temos a condição torturada de viver num "vale de lágrimas" (pelo menos alguns - para a maioria da humanidade, a condição normal é o sofrimento, ainda que não sem alegria), mas continuamos a precisar do Maná caído do céu, do Pão da Vida, da luz na noite, da água no deserto, ainda que estas imagens sejam lugares-comuns. Talvez porque sejam sentimentos universais.

Ontem foi dia do Corpo de Deus.


Desejo de Incarnação


“O desejo de amar a beleza do mundo num ser humano é essencialmente desejo de Incarnação. É por erro que alguém crê ser outra coisa. Só a Incarnação pode satisfazê-lo. É também muito injusto que se censure, por vezes aos místicos o emprego da linguagem amorosa. São eles os seus legítimos proprietários. Os outros não têm direito senão a tomá-la de empréstimo”.

Simone Weil, Espera de Deus (Ed. Assírio & Alvim), pág. 175.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Antes que os caminhos bifurquem

O teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga, falando aos bispos colombianos, propõe que se faça uma elpidologia (de “elpis”, esperança). Mais do que uma ciência, é um papel a desempenhar, um tratamento: antes de discutir as soluções, lançar com toda a profundidade as interrogações. Um tratamento que, em vez de estabelecer a “disjuntiva entre religião e ateísmo”, reconheça a comunidade do ponto de partida e procure a possibilidade de um “novo encontro nos trajectos ainda unitários” antes da “bifurcação das respostas”.

A proposta é estimulante. Mas não é curioso reparar que este tipo de propostas parte sempre dos crentes? Creio que não há hoje católicos com papéis relevantes na direcção de comunidades ou no pensamento teológico que não advoguem este encontro de crentes e ateus. Porém, pelo menos entre os ateus portugueses, não vejo que o convite seja aceite. E ainda menos que eles próprios o façam. “Vamos lá convidar os católicos a pensar connosco este problema. Vamos ao encontro deles, a ver o que eles dizem… O que é que o Papa dirá sobre isto?” Tais frases são inverosímeis, talvez porque os ateus portugueses ainda são muito adolescentes, muito revoltados, muito ressentidos. Talvez porque no fundo são (somos) todos católicos, uns praticantes, outros não, mas todos na mesma órbita. E também porque os ateus portugueses são todos ateus anticlericais (ateus católicos, portanto).

Mas o encontro é necessário. Católicos, ateus, indiferentes, maçons, agnósticos, cristãos, homens de boa vontade.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

“Quero ter um coração bonito”


Hoje é dia da peregrinação das crianças a Fátima. O lema é: “Quero ter um coração bonito”. A notícia do DN diz que dos Açores vêm 102 crianças. Para algumas será a única vez que andam de avião e vêm ao continente. “Isto é tão importante para eles que depois muitos tornam-se membros da Mensagem de Fátima em adultos”, diz Teresa Maiato, monitora do grupo.

Democracia cristã 2

Uma observação mais pormenorizada dos resultados das Europeias 2009, a partir do “Público” de 9 de Junho, permitiu detectar mais partidos democratas cristãos (DC), para além dos referidos em post anterior.

Na Eslováquia, os DC elegeram 2 deputados em 13 (6 em 2004). Em Malta, elegeram 2 em cinco possíveis, tal como em 2004. Na República Checa, elegeram 2 em 22 possíveis (em 2004 ainda não existiam com esta designação).

Talvez haja ainda mais democracia cristã, que, em todos os casos, integra o grupo do PPE.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Filho Pródigo

Cada dia acrescentou a minha fuga
E o desvio aproximou-me do perigo.
Além do que mereço, além, agora
Queria ser deserto e trabalhar nos campos
Abençoando a foma quanto ceifo o trigo.

Daniel Faria

...o nome de Jesus Cristo em vão

Ainda na “Sábado”, Alexandre Pais escreve um texto com o título “E mais só Jesus Cristo”. Nada tem a ver com Jesus Cristo, mas sim com as capacidades de um tal Frederico Duarte de Carvalho, que nas últimas eleições foi candidato do PPM.

Louçã e o Coração de Jesus

Diz-se, na mesma revista, que Francisco Louçã vota no Coração de Jesus. Quer dizer, vota na freguesia do Coração de Jesus, em Lisboa.

Papa sem dinheiro

Leio na “Sábado” de 9 a 17 de Junho: “O Papa está sem dinheiro” (pág. 19). Os cofres do Vaticano têm um défice de 9 milhões. O que mais pesa neste buraco é a “redução do investimento dos Estados Unidos, o país que mais dava à Igreja”. Mas contam também os gastos com a segurança do Papa e a diminuição das doações dos fiéis.

A democracia cristã ganhou

A ideia da Europa unida é uma ideia de líderes católicos (Adenauer, De Gasperi, Schuman, Monnet…), justamente tidos como “pais da Europa”, a que se juntaram socialistas e liberais. Houve até quem falasse, no início da Europa unida, seis nações apenas, de uma “Europa vaticana”.

É curioso ver, por isso, o que é feito da democracia cristã. Como se portou nestas eleições europeias, ela que, como não poderia deixar de ser, é europeísta convicta.

* Na Alemanha ganhou (CDU de Angela Merkel), ainda que tenha descido 4 por cento.

* Na Bélgica (democrata-cristãos flamengos), ultrapassando os liberais flamengos e os socialistas francófonos.

* Na Holanda (CDA), ganhou.

* No Luxemburgo (partido social-cristão, de Jean-Claude Juncker), ganhou (três deputados em seis possíveis).

Estes dados seguem o Público de 8 de Junho de 2009 na edição impressa. Só encontrei referência à democracia cristã nestes seis países e em todos eles ela surge em primeiro lugar.

Projecto


O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo


Daniel Augusto da Cunha Faria
(Baltar, Paredes, a 10 de Abril de 1971 – Singeverga, 9 de Junho de 1999).

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Série de patifarias


J. A. Azeredo Lopes, presidente do conselho regulador da ERC (Entidade Reguladora da Comunicação Social), no “Público” de hoje escreve uma crónica que começa assim: “Quase todos conheceremos, suponho, a parábola do filho pródigo (Lc 15,11-32), das mais difíceis de «aceitar» à luz de critérios puramente racionais. Na verdade, por que motivo tanta alegria por uma boa acção conseguir apagar, de uma penada, uma série de patifarias? Talvez seja essa, admito, a grandeza da mensagem”.

Com este texto, Azeredo Lopes quer atingir José Pacheco Pereira, habitual crítico da ERC. Li por alto o texto do presidente da ERC e não encontrei mais nada de interessante para referir aqui. Mas é suficiente o que diz da parábola. “Tanta alegria… por… uma série de patifarias…” É a alegria de Deus não pelas patifarias, mas pelo regresso dos humanos. Tem toda a razão. Vai contra os critérios racionais.

O pai, que para correr em direcção ao filho tem de levantar a túnica e mostrar os pés, torna-se motivo de troça. “Olha o Sr. Fulano de Tal a mostrar os pés, os tornozelos… Que vergonha. E ainda por cima vai fazer uma festa ao filho que tanto o desonrou”. O filho que regressa ao pai. O filho que inverte o caminho de autodestruição. O pai que aguarda e recompensa o filho. O irmão invejoso (e justo). Os critérios racionais esgotaram-se na atitude do filho querer a herança em vida. Nada mais lógico. “Agora é que preciso da herança”. A partir daí tudo é graça. E a graça não é necessariamente racional.

domingo, 7 de junho de 2009

Olhos abertos

A mística que não tiver olhos abertos e não praticar a compaixão activa é uma mistificação.

Bento Domingues. "Público", 07-06-2009

Pluralidade de Deus

A Trindade é Pluralidade. É origem de todas as confusões tentar explicar Deus. Mas se nos dizem que é Trindade, ainda que em Unidade, temos de concluir que é também Pluralidade. Mesmo correndo riscos.

Diz Bento Domingues que Leonardo Boff “recordou, de forma esquemática, que o monoteísmo a-trinitário serviu para justificar o totalitarismo, a concentração do poder numa única pessoa, quer política quer religiosa”. Julgava que a associação era anterior a Boff por ter lido um artigo da Concilium, algures nos anos 70-80, que dizia que Constantino tendera para o arianismo (do padre Ario) porque, fazendo proceder o Filho do Pai, lhe parecia mais propício para justificar o seu poder imperial. Arianismo teológico e arianismo político. Por outra palavra, absolutismo.

Mas o cristianismo é trinitário. Um só Deus, mas comunidade. O nosso monoteísmo é plural. Tal como não temos um único livro, mas quatro – os Evangelhos. Quatro e diferentes na unidade (e com contradições saudavelmente insanáveis).

As três pessoas divinas e os quatro evangelhos são fonte de confrontos, de discussões, de tensões (outra forma de referir as emanações da teologia clássica?). Penso em Deus, ainda que “pensar” não seja o melhor para fazer sobre Deus, como autoridade (o Pai Criador), liberdade (o Filho Redentor) e criatividade (o Espírito Santificador). A criatividade é a forma de ultrapassar a tensão, ainda que só latente, entre autoridade e liberdade.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Nomes populares

O que há de comum entre Jacob, Michael, Ethan, Joshua e Daniel? São todos nomes bíblicos e, em 2007 e 2008, foram os cinco nomes mais dados aos rapazes dos EUA.

Herman, se Deus quiser

Herman José vai para a TVI. Vai até Setembro. Depois disso, "o futuro pertence a três entidades: ao mercado, às audiências, e a Deus (para quem acredita)", disse ao "Público" (4 de Junho de 2009).

Não sei se Herman acredita. E, se acredita, em que Deus ou deuses acredita. A questão é: para quem não acredita, o futuro só pertence a duas entidades? Ou o futuro pertende sempre a Deus, quer acreditemos ou não? Mas, se eu disser: "Não acredito, mas o futuro pertence a Deus", não estarei já a acreditar? Ou sou antes contraditório e incoerente? E se eu disser: "Sei que Deus existe, mas não acredito nele". É possível? Faz sentido? Não é o que acontece com alguns teólogos, saberem que Deus existe, mas não acreditarem nele?

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Músculo da imaginação

"O tempo livre não é apenas um tempo «entre» tempos, já ocupados, mas interroga-nos, antes de mais, sobre a realização pessoal e social que projectamos, sobre o projecto que pessoal e socialmente desejamos para as nossas vidas. Mesmo o descanso autêntico pede para ser enquadrado nesta dinâmica maior da responsabilidade pela realização pessoal e social. O tempo livre é tempo de integração. De enriquecimento cultural, pessoal, afectivo. De exercitação do músculo da imaginação e da criatividade. De explicitação da vida interior” (pág. 13).

Comissão Episcopal das Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais in Do tempo livre à libertação do tempo (Edição do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura)

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...