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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Os católicos O'Neill

Lendo sem método nem objetivos a biografia literária de Alexandre O'Neill (quase todos os adolescentes nos anos 80 tiveram uma fase o'neillista), de Maria Antónia Oliveira, vejo que o poeta ateu era descendente de uma família católica irlandesa que fugiu para Portugal, no séc. XVIII, por causa das perseguições contra católicos no Ulster. O'Neill morreu há 30 anos, a 21 de agosto de 1986. E é por isso que estou a ler, com gosto, a biografia.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Definição de teologia

Harold Wilson, um teórico da "teologia"

Por um motivo que não interessa para o caso - mas eu explico: do outro lado do Atlântico, um leitor pergunta-me se tenho o livro "Nisso não acredito", de John A. T. Robinson, aqui referido - , abro o livro do bispo anglicano numa página dobrada e leio:
Há alguns anos, Mr. Gaitskell propôs uma revisão das famosa Cláusula Quatro (sobre a nacionalização) da constituição do Partido Trabalhista.
Wilson, que se lhe opôs, apelidou isso tudo de «teologia» - afirmações teóricas acerca de coisas que não fazem nenhuma diferença na ordem prática.
É a reputação que tem a «teologia».
Cá está uma boa definição de teologia  para começar a debater o que realmente ela é.

sábado, 4 de maio de 2013

Anselmo Borges: "O bispo R. Williams enfrenta o ateu R. Dawkins"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje ( e no final o vídeo do debate Williams/Dawkins & others):


1-Não tem faltado aqui, nestas crónicas, a denúncia das patologias da religião. Como ser insensível ao sofrimento das vítimas da pedofilia do clero? Vítimas de escrúpulos, vítimas da humilhação intelectual, vítimas da intolerância religiosa, de um deus mesquinho e escravizador... O historiador católico Jean Delumeau escreveu: "As minhas investigações convenceram-me de que a imagem do Deus castigador e vingativo foi um factor decisivo para uma descristianização cujas raízes são antigas e poderosas".

Parece que, enquanto pôde, o clero controlou a vida sexual dos fiéis, a ponto de outro historiador, Guy Bechtel, afirmar que a fractura entre a Igreja católica e o mundo moderno se deu na teoria do sexo e do amor, com uma confissão inquisitorial centrada na actividade sexual.

Será preciso lembrar os homens e mulheres que foram assados nas fogueiras da Inquisição e não só, porque tinham ideias novas? E houve o medo-pânico da mulher, que se chegou a acusar de manter relações sexuais com o diabo. E os livros considerados heréticos também foram queimados. E houve as cruzadas, as guerras de religião, a missionação forçada. Pio VI condenou essa "detestável filosofia dos Direitos do Homem". Pio IX condenou expressamente a evolução como uma aberração. No século XX, o teólogo E. Drewermann escreveu: "Há 500 anos, a Igreja recusou a Reforma; há 200, o Iluminismo; há 100, as ciências naturais; há 50, a psicanálise. Como viver com tantas rejeições?"

Apesar de tudo, creio que é inegável que, no cômputo geral, o saldo é superior a favor da religião, nomeadamente do cristianismo. E não estou sozinho nesta apreciação.

2-Cada quarta-feira, a Cambridge Union Society, um clube de debate ligado à Universidade de Cambridge, realiza um debate sobre temas actuais. No passado dia 31 de Janeiro, com a presença de mais de 800 pessoas, sendo a maioria constituída por estudantes universitários, o tema era debater a necessidade da religião neste século, a partir das seguintes perguntas: "A religião é compatível com a vida do século XXI? Como pode conseguir-se que encaixe com as leis e os valores modernos? E se fosse compatível, a religião faz mais bem do que mal?"

Para o debate, partindo da premissa, "A religião não tem espaço no século XXI", foram convidados vários intervenientes, entre os quais o arcebispo Rowan Williams, que deixou há pouco a liderança da Igreja Anglicana, e o biólogo Richard Dawkins, ateu convicto e apóstolo do ateísmo a nível mundial.

Segundo R. Dawkins, a religião é "redundante e irrelevante", para lá de "uma traição à inteligência, uma traição ao melhor de nós, ao que nos torna humanos", continuando: "parece responder à pergunta enquanto a não examinas e te dás conta de que o não faz. Espalha explicações falsas, quando se poderia ter oferecido explicações reais, explicações falsas que obstaculizam a iniciativa de descobrir explicações reais." No contexto científico, funciona como um "charlatão pernicioso". Em suma: a sociedade funcionaria melhor, se as religiões estabelecidas desaparecessem.

Para R. Williams, a religião "foi sempre uma questão de construir comunidades, uma questão de construir relações de compaixão e de inclusão". A questão fundamental é ver qual deveria ser a atitude que se tem para com ela. Os direitos das pessoas "têm profundas raízes" nas comunidades de fé. "A Declaração dos Direitos Humanos não teria sido o que é se não tivesse havido o debate filosófico e religioso." Assim, o respeito pela vida humana e a igualdade são inerentes a todas as religiões organizadas. Por isso, pretender que "o compromisso religioso deve ser um assunto meramente privado vai contra a história da religião".

No final, depois de todas as intervenções, parte do público votou. Aí, os favoráveis à afirmação "a religião não tem espaço no século XXI" saíram derrotados: 136 contra 324. A religião autêntica pratica o amor, faz comunidades, oferece transcendência e sentido final. Mas é claro que, também no domínio da religião, se não pode abandonar a presença da razão crítica.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sentimento instigado pelo ataque



Sentir a falta de Deus é para mim um pouco como ser inglês: um sentimento instigado sobretudo pelo ataque, Quando o meu país é maltratado, um patriotismo dormente, para não dizer comatoso, agita-se. E quando se trata de Deus, sinto-me mais provocado pelo absolutismo ateu do que por, digamos, a confiança quase sempre insípida e hesitante da Igreja Anglicana.


Julian Barnes, pág. 94, de "Nada a Temer" (Quetzal)


Julian Barnes, recente Booker Prize, agnóstico, quase chega a ser crente, quando provocado, como muitos católicos indiferente em Portugal, que chegam a ser católicos perante os ateus, evangélicos e fundamentalistas. "A religião que eu não pratico, mas que é a minha, é a católica".

domingo, 6 de novembro de 2011

Conspirador católico do séc. XVII inspira movimento "Occupy"



Por estes dias, nas acções dos movimentos que contestam a actual ordem económica e financeira, quer em Nova Iorque, quer em Londres, têm aparecido máscaras como as dos filme “V for Vendetta” (“V de Vingança”, de 2006).


A máscara inspira-se em Guy Fawkes, o católico inglês que quis assassinar o rei protestante Jaime I e os deputados ingleses. A conspiração foi descoberta no dia 5 de Novembro e Guy Fawkes foi executado no dia 31 de Janeiro de 1606.

O dia 5 de Novembro, “Bonfire Night”, em alguns sítios da Inglaterra ainda é celebrado como dia anticatólico.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O que diz um agnóstico provocado pelo absolutismo ateu



Julian Barnes, noutras ocasiões agnóstico confesso, ainda que tenha sido professor num "colégio de padres" em França, diz sobre a falta de Deus o que muitos, em Portugal, por exemplo, dirão da vaga identidade católica:
Sentir a falta de Deus é para mim um pouco como ser inglês: um sentimento instigado sobretudo pelo ataque. Quando o meu país é maltratado, um patriotismo dormente, para não dizer comatoso, agita-se. E quando se trata de Deus, sinto-me mais provocado pelo absolutismo ateu do que por, digamos, a confiança quase sempre insípida e hesitante da Igreja Anglicana.
Da página 94 de "Nada a temer" (ed. Quetzal)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Cerveja cristã contra café islâmico



Henrique II (1133-1189), rei de Inglaterra, criou em 1188 um imposto sobre a cerveja para financiar as Cruzadas. A cerveja cristã contra o café islâmico.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Ser inglês

Ser inglês, no século XVIII era não ser católico. No século XIX, era não ser francês. Durante a maior parte do século XX, era não ser alemão.



Timothy Radcliffe na pág. 235 de "Ser cristão para quê?" (ed. Paulinas)

sábado, 9 de julho de 2011

9 de Julho de 1797. Morre Edmund Burke, pai do conservadorismo moderno

Edmund Burke, que no séc. XIX era visto como fundador do moderno conservadorismo e representante respeitável do liberalismo clássico (actualmente é mais relacionado com a primeira corrente), nasceu no dia 12 de Janeiro de 1729, em Dublin, e morreu no dia 9 de Julho de 1797, em Beaconsfield.


Para Burke, como para o conservadorismo em geral, a igreja e a moralidade judeo-cristâ têm muita importância. Diz-se, aliás, que o conservadorismo é a única das principais ideologias políticas que aceita a religião como um dos fundamentos do Estado ou, pelo menos, e por maiores ordens de razões, da sociedade.


Em “Reflections”, sua principal obra, a religião é o assunto que ocupa maior número de páginas, à excepção da propriedade. Filho de uma católica romana, Burke integrava-se na fé anglicana, mas deu atenção à situação dos católicos na Grã-Bretanha. Ficou horrorizado com os golpes desferidos pelos Jacobinos à Igreja em França durante a Revolução de 1789. O pensador opôs-se à Revolução Francesa, tendo saudado 13 anos antes a Americana.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Flash mob eucarística

Foi em Preston, Reino Unido, na quinta-feira da Ascenção de 2011 (2 de Junho). Franciscanos capuchinhos. Acredito no que se diz no texto que o outro franciscano proclama.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

6 de Julho de 1535. Morre Tomás Moro

Estudo de Hans Holbein para o retrato da família More

Thomas More ou Tomás Moro, como também é conhecido, morreu no dia 6 de Julho de 1535, aos 47 anos, decapitado por antes querer obedecer à sua consciência e ao Papa do que ao rei contra Igreja, embora fosse fiel servidor da coroa inglesa. Em 2000, o Papa João Paulo II declarou-o patrono dos governantes e políticos. Ver aqui.

Escreveu a narrativa “Utopia”, que é basicamente o relato do marinheiro português Rafael Hitlodeu sobre a ilha Utopia, "nenhures", "não lugar".  O português é um marinheiro experiente “como Ulisses ou, melhor, como Platão”, “muito culto em grego”, que conheceu mundo com Vespúcio. O nome Hitlodeu, explica o tradutor, vem do grego “hutlos”, que significa patranha.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

20 de Junho de 1214. O legado do Papa dá Carta a Oxford

"O Senhor é a minha luz", dizem as armas da Universidade de Oxford

A partir do momento em que Henrique II, rei de Inglaterra (1154-1189) proibiu que estudantes e professores ingleses estudassem ou ensinassem na Universidade de Paris, a Universidade de Oxford deu um salto no seu desenvolvimento.

No entanto, em 1209 dá-se um caso que provocou uma grande fuga de cérebros que veio dar origem à Universidade de Cambridge e pôs em perigo a mais antiga. Populares resolvem perseguir um estudante acusado de violação. O estudante consegue escapar, mas não dois dos seus colegas, que são enforcados. Sem muitos dos professores, Oxford definha, pelo que resolvem apelar ao cardeal Nicolau de Romanis, legado papal que estava em Londres para resolver uma disputa interminável sobre o novo arcebispo de Cantuária.

O cardeal resolve a questão dando uma carta à Universidade de Oxford em que estipula que o chanceler deve ser designado pelo bispo de Lincoln e que os académicos devem ter o seu próprio tribunal. Graças à carta, estudantes e professores começam a regressar e Oxford pode crescer em influência e prestígio.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

17 de Junho de 1703. Nasce John Wesley, fundador do metodismo



John Wesley, principal fundador do metodismo, nasceu no dia 17 de Junho de 1703, em Epworth, Inglaterra, e morreu no dia 2 de Março de 1791, em Londres.

O medotismo (o nome vem da disciplina e método que punham na prática cristã após o avivamento inicial, o “coração aquecido” do encontro com Cristo, que no cado se Wesley aconteceu em 1738) não pretendia ser uma nova confissão cristã, mas somente uma reforma do anglicanismo.

John Wesley sempre se considerou um ministro anglicano. A Igreja organizou-se primeiro nos EUA, porque a independência política impeliu o desejo de independência religiosa. No Reino Unido o metodismo só se organizou após a morte do reformador.

Em 1749, John Wesley escreveu uma “Carta a um católico romano”. Começa assim:
Calculo que tenha ouvido umas boas centenas de histórias, a nosso respeito, - dos vulgarmente conhecidos por Protestantes -, e se der crédito, ainda que seja a um por cento delas, deverá pensar muito mal de nós. Mas isso é inteiramente contrário ao preceito de Cristo: «Não julgueis, para que não sejais julgados», e pode trazer sérias consequências, especialmente a de nos levar a pensar, igualmente, mal de vós. Disto resulta estarmos, de ambos os lados, com menos vontade de nos ajudarmos, uns aos outros, e mais prontos a ferir-nos mutuamente. Em consequência disto, o amor fraternal fica completamente destruído; e, em ambos os lados, ao considerar o lado oposto como monstros, surgem zangas, ódios e malquerenças, após cada discussão pouco afectuosa, seguida, frequentemente, por barbaridades desumanas, como poucas vezes se notam entre pagãos.
Ler a carta aqui.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Chesterton Brasil

Ainda a propósito de Chesterton, que fez anteontem 75 anos que ele morreu, há um sítio brasileiro dedicado inglês convertido ao catolicismo. Fica aqui. Frase de entrada:


“Tentei criar uma nova heresia; mas, quando já lhe aplicava os últimos remates, descobri que era apenas a ortodoxia”.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

2 de Junho de 1857. Nasce o músico Edward Elgar


O compositor britânico Edward Elgar nasceu no dia 2 de Junho de 1857 e morreu no dia 23 de Fevereiro de 1934. A sua música mais conhecida é, sem dúvida, a ode “Land of hope em glory”, que integra as “Marchas de Pompa e Circunstância”. Uma espécie de hino não oficial do Reino Unido.


Mas Elgar compôs também “The Dream of Gerontius”, em 1900, uma peça para vozes e orquestra, a partir de um poema de John Henry Newman (1801-1890), o convertido do anglicanismo que em Setembro passado foi proclamado beato. O poema descreve a viagem de um crente do leito de morte ao julgamento perante Deus e a sua entrada no purgatório. Esta peça, por vezes dita oratório, teve má recepção no Reino Unido, até porque o poema era claramente católico. Mas é hoje reconhecida como a obra-prima de Elgar.


terça-feira, 17 de maio de 2011

Portocarrero de Almada: O escândalo da cruz

Reflexão pertinente de Gonçalo Portocarrero de Almada no "Público" de ontem. É tão ridículo não autorizar o uso da cruz num veículo, como, hipoteticamente, obrigar ao uso de qualquer símbolo religioso.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

E cemitério quer dizer "lugar do sono"

"Estamos a trabalhar para fazer deste cemitério um lugar mais seguro".

Placa que os serviços municipais de uma povoação inglesa colocaram no cemitério.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Lord Acton nasceu há 177 anos

10 de Janeiro de 1834. Nasce Lord Acton

John Emerich Edward Dalberg-Acton nasceu no dia 10 de Janeiro de 1834 e morreu no dia 19 de Junho de 1902. Conhecido simplesmente por Lord Acton, este católico inglês foi escritor, político e historiador, reconhecido no final da vida por Cambridge e Oxford (antes, como católico, estas universidades estavam-lhe vedadas). Pensou em escrever uma "Grande História da Liberdade". Sucedeu a John Henry Newman como editor do jornal católico “The Rambler” em 1859.

É dele uma frase muito citada, por vezes atribuída a Churchill (como muitas outras): “O poder corrompe; o poder absoluto corrompe absolutamente”.

Em 1990, foi fundado nos EUA um “think thank” que tem como patrono Lord Acton (e pelo menos um seguidor em Portugal: João Carlos Espada), o Lord Acton Institute, “para o estudo da religião e da liberdade”.

“Inspirado nos escritos de Lord Acton, o grande historiador e pensador moral de Cambridge, o Instituto realiza seminários em inglês, dirige pesquisas e publica livros, ensaios e jornais que invocam a religião como defensora da liberdade”, lê-se na versão portuguesa do sítio.

Outra efeméride de 10 de Janeiro: Tintin.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...