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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O casamento no tempo de Jesus e no nosso

Isto não é para justificar o laxismo no casamento católico. É para questionar a continuidade do casamento cristão em relação ao casamento no tempo de Jesus. Quero sempre compreender melhor as palavras, valores e opções de Jesus, que são verdadeiramente libertadoras e apelam à soberania de Deus em todas as coisas. Também no casamento. E no recasamento, já agora.
Casamento no tempo de Jesus
- A poligamia era frequente (e ao contrário do que dizem os comentadores, também servia como metáfora da relação de Deus com o povo de Israel e Judá)
- O casamento de duas pessoas resultava do arranjo entre duas famílias
- As pessoas casavam por vontade dos pais; talvez a seguir viesse o amor entre o casal
- As meninas podiam ser dadas em casamento a partir dos 5 anos; 20 anos era o limite para se casar
- A mulher passava de uma família alargada para outra alargada, ficando no círculo das mulheres da nova família
- Quantos mais filhos, melhor; eram força de trabalho e segurança na velhice
- A esterilidade era uma maldição de Deus (hoje sabe-se que, em parte, era porque as meninas casavam-se impúberes) e era sempre da mulher
- A edução dos filhos era feita por um círculo alargado de pessoas, geralmente os tios
- O divórcio existia de acordo com a lei de Moisés e acontecia por vontade do homem (perece que em algumas comunidade helenizadas a mulher podia pedir o divórcio)
- No divórcio, a mulher ficava sempre com a pior parte: a família de origem sentia-se desonrada; a mulher ficava numa situação de desproteção (abandonada pela família do marido e geralmente ostracizada pela família de origem) e era criticada socialmente pelo divórcio
- No adultério não havia reciprocidade nem igualdade. Explico-me. Entendia-se que um homem (solteiro ou casado) só cometia adultério quando tinha relações com outra mulher casada (porque estava em causa o bem de outro homem). A mulher casada cometia adultério em qualquer situação (porque estava em causa o bem do seu homem). El qualquer situação, nunca está em causa o bem da mulher. Só do homem.

Hoje
- Não é permitida a poligamia
- O casamento é entre duas pessoas livres, independentemente da família
- O casamento dá-se por amor (na realidade, para a Igreja, o amor é indiferente; só conta a vontade)
- O casamento só pode acontecer a partir dos 16, 18 anos? Nem sei… Mas idade mudou. 20 anos é cedo.
- A mulher e o homem formam uma nova família
- Os filhos são tidos como despesa, pelo que poucos querem ter muitos
- A esterilidade nunca é uma questão de maldição de Deus; e pode ser do homem, da mulher, de ambos, de nenhum deles
- Os pais são os responsáveis pela educação dos filhos
- O divórcio civil pode acontecer por mútua vontade
- O divórcio, hoje, tem leis para proteger ambas as partes e os filhos
- O adultério é reciproco (apesar dos machismos todos que ainda existem).
Posto isto, tenho muitas dúvidas que a proibição do divórcio por Jesus (que em contexto judaico é essencialmente uma defesa da mulher e um meio de evitar o ódio entre clãs e famílias) tenha algo a ver com a indissolubilidade do casamento católico.

domingo, 19 de março de 2017

Jesus Cristo fez muitas curas e até andou sobre as águas do mar, mas não deixou a receita

Bento Domingues escreve no Público de hoje um útil texto sobre a oração. E o antiexibicionismo de Jesus. E diz lá mais para o fim:


Jesus Cristo fez muitas curas e até andou sobre as águas do mar, mas não deixou a receita. Os seus gestos dizem que o mundo não tem de ser uma desgraça, mas somos nós os encarregados de cuidar da casa comum, habitável e bela.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Luís Osório: "Jesus vive no Papa Francisco?"


Editorial de Luís Osório no "i" de hoje, Sobre Francisco, que chega aonde mais nenhum Papa chegou, pelo menos assim de repente.

domingo, 21 de dezembro de 2014

Bento Domingues: Quantos Cristos ressuscitaram? (1)


1. Nas crónicas de Natal, durante vários anos, preocupei-me, com questões de ordem histórica e teológica, levantadas pelo género literário dos chamados “Evangelhos da Infância”. Esses belos tecidos simbólicos, anunciando o reinado do Espirito de Cristo – recusa do mundo de senhores e escravos – são mal servidos por uma leitura estéril de biologia milagrosa.

Este ano, opto pela peregrinação ecuménica do Papa Francisco à Turquia, fundamental para o renascimento das Igrejas. Selecciono, apenas, duas respostas descontraídas a perguntas dos jornalistas, no voo de regresso [1]. Voltarei, em breve, a outros aspectos.

O Papa Bergoglio tinha afirmado que, para chegar à suspirada plenitude da unidade, “a Igreja católica não tem intenção de impor qualquer exigência”. Daí a questão: “estaria a referir-se ao Primado (do Bispo de Roma)?

Resposta: A questão do Primado não é uma exigência; é um acordo porque também os ortodoxos o desejam. É um acordo para encontrar uma modalidade que seja mais conforme com a dos primeiros séculos. Li, uma vez, algo que me fez pensar – um parêntesis – aquilo que sinto de mais profundo acerca deste caminho da unidade está na homilia que fiz, ontem, sobre o Espírito Santo. Li, com efeito, que só o caminho do Espírito Santo é caminho certo, porque Ele é surpresa. Ele mostrar-nos-á onde está o ponto decisivo. Ele é criativo…

Talvez isto seja uma autocrítica, mas corresponde, mais ou menos, ao que eu disse nas congregações gerais, antes do Conclave, o problema está no seguinte: a Igreja tem o defeito, o hábito pecador, de olhar demasiado para si mesma, como se imaginasse que possui luz própria. Mas, como sabem, a Igreja não tem luz própria. Deve voltar-se para Jesus Cristo!

À Igreja, os primeiros Padres chamavam-lhe mysterium lunae, o mistério da lua, porquê? Porque dá luz, mas não tem luz própria; é a que lhe vem do sol. E, quando a Igreja olha demasiado para si mesma, aparecem as divisões. Foi o que sucedeu depois do primeiro milénio. Hoje, à mesa, falávamos do momento, de uma terra – não me lembro qual – em que um cardeal foi comunicar a excomunhão do Papa ao Patriarca (ortodoxo). Naquele momento, a Igreja olhou para si mesma; não estava voltada para Cristo. Creio que todos estes problemas que surgem entre nós, entre os cristãos – falo pelo menos da nossa Igreja católica – surgem quando ela olha para si mesma: torna-se auto-referencial.

Hoje, Bartolomeu usou uma palavra, não foi "auto-referencial", mas era muito semelhante, uma palavra muito bela… Agora não me recordo, mas era muito bela, muito bela [o termo na versão italiana é introversão].

Eles aceitam o Primado [do Bispo de Roma]. Hoje, na Ladainha, rezaram pelo "Pastor e Primaz". Como diziam? "Aquele que preside…". Reconhecem-no; disseram-no, hoje, na minha frente. Mas, quanto à forma do Primado temos de ir um pouco ao primeiro milénio para nos inspirarmos. Eu não digo que a Igreja errou, não. Percorreu a sua estrada histórica. Mas, agora, a estrada histórica da Igreja é aquela que pediu João Paulo II: "Ajudai-me a encontrar um ponto de acordo à luz do primeiro milénio".

Este é o ponto-chave. Quando se fixa em si mesma, a Igreja renuncia a ser Igreja para ser uma ONG teológica.

2. Uma jornalista interpelou-o “acerca da histórica inclinação” que ontem o Papa Francisco tinha feito diante do Patriarca de Constantinopla: como pensa agora enfrentar a crítica de quem talvez não entenda estes gestos de abertura?

Resposta: Atrevo-me a dizer que não se trata de um problema só nosso; é também um problema dos ortodoxos. Eles têm o problema de alguns monges, de alguns mosteiros que estão nessa estrada. Por exemplo, há um problema que se discute desde os tempos de Paulo VI: é a data da Páscoa. E não nos pomos de acordo! Mas porquê? Porque, se a fizéssemos na data da primeira lua depois do 14 de Nisan, com o avanço dos anos, correríamos o risco – os nossos bisnetos – de ter de a celebrar em Agosto. E devemos procurar… Paulo VI propôs uma data fixa concordada, um domingo de Abril.

3. Bartolomeu foi corajoso, sublinhou o Papa. Por exemplo, em dois casos, recordo um, mas há outro. Na Finlândia, ele disse à pequena comunidade ortodoxa: festejai a Páscoa com os luteranos, na data dos luteranos, para que num país de minoria cristã não haja duas Páscoas. E o mesmo problema vivem os orientais católicos. Ouvi esta, uma vez, à mesa, na Via della Scrofa: preparava-se a Páscoa na Igreja católica e estava presente um oriental católico que dizia: "Ah, não! O nosso Cristo ressuscita um mês mais tarde! O teu Cristo ressuscita hoje?" O outro observou: O teu Cristo é o meu Cristo.

A data da Páscoa é importante. Há resistência a isto por parte deles e nossa. Quanto a estes grupos conservadores, devemos ser respeitosos, sem nos cansarmos de explicar, catequizar, dialogar, sem insultar, sem os denegrir nem criticar porque tu não podes arrumar uma pessoa dizendo: "este é um conservador". Não. Este é tão filho de Deus como eu. Mas convidemo-lo: vem cá, falemos! Se não quer falar é um problema dele, mas eu respeito-o. Paciência, mansidão e diálogo.

Boas festas.

[1] Cf. Seguirei, de perto, a narrativa do L’Osservatore Romano, 04.12.2014

sábado, 20 de dezembro de 2014

Salvador


O período litúrgico do Advento e do Natal fala ao desejo de quem espera, e oferece um salvador a quem se sente perdido. O medo de perder coisas e pessoas e de perder-se com elas é uma das nossas preocupações mais profundas. O mistério da maldade que há em nós acrescenta mais alguma coisa do desejo e ao medo, criando mal-estar e desconfiança. Pode-se fingir que se ignora tudo isto, mas é como entrar num beco sem saída.

Domenico Pezzini, "O Tesouro e o Barro", pág. 7

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

José Diogo Quintela: Sócrates e Jesus


Conclusão da crónica de José Diogo Quintela na 2 (Público) de domingo passado. Leia tudo aqui (só me interessa a aproximação a Jesus).

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Jesus farto


Do "Inimigo Público" de hoje. O resto da "notícia" não a reproduzo. Demasiado mau gusto. (E talvez com isto leve algum leitor a procurar a prosa satírica).

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

sábado, 12 de julho de 2014

A Família de Nazaré enquanto modelo para as famílias de hoje

De vez em quando, um ou outro leitor, sei lá se o mesmo entre os dois ou três que por cá passam, escreve que eu dou demasiado destaque ao que escreve o P.e Anselmo Borges (e Fr. Bento Domingues – mas esse não é para aqui chamado, agora), como se concordasse com tudo. Não concordo. Hoje, por exemplo, discordo frontalmente do último ponto do seu texto. Cito:

6. Last but not least, dito com cautela e imenso respeito: apresentar a Sagrada Família de Nazaré, tal como é comummente idealizada pela Igreja institucional e pela piedade popular, como modelo de família cristã é inadequado, para não dizer contraproducente.

Na verdade, parece-me que a família de Nazaré é bem um modelo para as famílias de hoje. 

Vejamos:

- A mãe estava grávida, e não era do marido, quando se casou.

- O casal só teve um filho, segundo a tradição, preconizando o inverno demográfico que estamos a viver.

- Segundo outras tradições, havia filhos da primeira relação de José, o que os terá levado a viver menos parte daquela realidade hoje tão comum de "os meus, os teus e os nossos”.

- Jesus só saiu de casa aos 30 anos, como acontece com muitos jovens adultos na atualidade. Demorou muito a abandonar o ninho dos pais.

- Jesus andava em jantaradas e noitadas junto ao lago. Perece que sem dinheiro. Pelo menos desprezava-o. Teria dificuldades em arranjar emprego como multidões dos jovens de hoje? A quem cravava a boa vida?

- Parece que teve problemas com os seus pais (entendamos: mãe e pai adotante) e outros familiares. Não os reconheceu em diversas situações e enfraqueceu com generalizações os laços familiares, como se tudo pudesse ser família (“A minha mãe e os meus irmãos são aqueles que…”). Estava a destruir a família tradicional ao reconhecer outros tipos de família?

sexta-feira, 28 de março de 2014

Jesus Cristo, o milagreiro espectacular

Crítica de Luís Miguel Oliveira, no "Público", sobre o filme do Jesus de Digo Morgado, "Filho de Deus", que está agora nos cinemas portugueses:


As dez horas da série televisiva A Bíblia comprimidas em duas horas e picos. É difícil imaginar que isto alguma vez tenha sido bom, mas assim em versão digest (quem nem por isso deixa de parecer longuíssima) é uma penitência que só se aguenta em nome dos mais inconfessáveis pecados de cada um. Sem sentido de estrutura ou de dramaturgia, limita-se a atirar umas figuras para a paisagem e a ilustrar uma espécie de greatest hits da Bíblia, saltando de episódio célebre em episódio célebre, sempre sem contexto, sem olhar, sem construção. Sem crítica, também, no sentido em que não propõe nenhum pensamento sobre as personagens e as histórias, tal como remove cuidadosamente o pensamento de Jesus Cristo, reduzido ao estereotipo do milagreiro espectacular. O cinema filma esta história desde os primórdios, e de DeMille a Mel Gibson, de Oliveira a Zeffirelli, a vida de Cristo já serviu para muita obra-prima e para muito pastelão. O Filho de Deus é tão mau que põe tudo numa perspectiva nova: ao pé dele, até Gibson é parecido com DeMille, até Zeffirelli é parecido com Oliveira - pois ao menos tinham alguma ideia, minimamente pessoal, sobre o que estavam a filmar. Uma ideia estética, no limite. É finalmente o que mais impressiona neste Filho de Deus que não passa de um tristíssimo enteado dos deuses cinematográficos: a sua completa cegueira aos dois mil anos de trabalho que a arte ocidental leva sobre a representação destas figuras e destas histórias. Apenas uma inóspita fealdade, o nulo total, caso para dizer, com propriedade, que eles não sabem o que fazem.
Tirado daqui.

E a julgar por estar imagem, é mesmo de temer o pior.


sexta-feira, 21 de março de 2014

Anselmo Borges: "O maior afrodisíaco"

As tentações, segundo Botticelli

Texto de Anselmo Borges no DN de sábado passado, 15 de março.

1 Soube que era chamado por Deus a uma missão essencial para o mundo. Para decidir, foi, como fazem todos os que na história são grandes, meditar. E então Jesus foi tentado. Três tentações, todas à volta do mesmo: o poder. O que ele tinha de decidir era entre um Messias do poder enquanto dominação e um Messias do serviço e da criação.

O diabo colocou-o sobre o pináculo do templo em Jerusalém e disse-lhe: "Se és Filho de Deus, deita-te abaixo, pois os anjos tomar-te-ão nas mãos." Esta é a tentação do domínio pelo espectáculo do poder.

Pela sua própria dinâmica, o poder quer ser total. Por isso, o demónio levou-o a um monte muito alto, mostrando-lhe todos os reinos do mundo e a sua magnificência e disse-lhe: "Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares." O que a gente faz, quantas prostrações, para poder dominar! Dominar todos os reinos do mundo.

Se há fascínio, é o do poder. A volúpia do poder! Porque subjugar a vontade de outros ao domínio próprio surge como redenção e bênção. Disse quem sabe, Henry Kissinger: o poder é "o maior afrodisíaco." E, no limite, o poder total. Porque, no fundo, há a ilusão de que, com o poder total, se teria o poder de todos os poderes: matar o poder da morte. Ser imortal.

Daí, por princípio, Deus ser concebido e apresentado como todo--poderoso, omnipotente. Como se a omnipotência fosse a característica mais própria de Deus. A tentação primeira, logo no início, foi a da serpente: "Sereis como Deus." A omnipotência seria agora nossa.

2 Jesus, porém, fez uma experiência avassaladoramente diferente de Deus: Deus não é omnipotente enquanto poder de dominação, Deus é omnipotente enquanto Força infinita de amar e de criar. Por isso, disse: "Eu não vim ao mundo para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos." E amou, amou até ao fim, por palavras e obras, criando e recriando a vida de todos os desamparados, feridos e perdidos, que somos todos. E amou até à morte e morte de cruz, para dar testemunho da verdade de Deus como Força infinita de criar e de amar. Por isso, morreu como blasfemo, contra o Deus da dominação.

A revolução de Jesus consiste na revolução operada na imagem de Deus. Deus é outro que não poder de dominação. Quem cria e ama é que é como Deus. Afinal, a história não pertence aos dominadores, mas aos criadores.

3 A vida é potência, força que se afirma e expande. Mas a vida só é vida se se afirmar e tiver possibilidade de se expandir em todos. O poder como dominação é apenas de alguns e para alguns, excluindo sempre a maior parte, os dominados. O poder como serviço, força de criar e amar, não exclui ninguém, pelo contrário, inclui a todos e não diminui mas acrescenta.

Quem quiser entender precisa de parar, para reflectir e meditar. Meditação tem a mesma raiz que medicina e moderação. Vivemos num mundo perigoso, impondo-se, pois, a moderação e a meditação como medicina que cura e, pela conversão, abre a possibilidades outras que não as da destruição.

Foi assim que esta semana o Papa Francisco pegou em si e na Cúria e foram todos para fora do Vaticano meditar, iniciando o retiro com o texto bíblico das tentações de Jesus, que são as nossas. Em ordem à conversão. Não sem antes dizer à Cúria que ela não é nem pode ser "a Corte".

Na primeira tentação, o diabo disse a Jesus para transformar as pedras em pão. Jesus disse-lhe que nem só de pão vive o homem. Há outras necessidades e é urgente perceber que a felicidade se não confunde com o consumismo sem limites e a auto-satisfação, que, dentro de um egoísmo insolidário, acabam por gerar o vazio. Isto sim: com a conversão, virão também a fome de justiça e o pão para todos. Como escreve o biblista José A. Pagola, que constata com Jesus que não basta o pão, "o ser humano precisa também de cultivar o espírito, conhecer o amor e a amizade, desenvolver a solidariedade com os que sofrem, escutar a sua consciência com responsabilidade, abrir-se ao Mistério último da vida com esperança".

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Bento Domingues: "Código genético (3)"

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem:


1. Os seres humanos só podem viver como humanos acolhendo, criando e recriando, desconstruindo e reconstruindo as narrativas simbólicas da sua condição inacabada. Apesar de todas as máquinas de desumanização, nunca esgotaremos a música, a poesia, a literatura, a pintura, a beleza das civilizações antigas e modernas.

É próprio da linguagem simbólica viver em figurações materiais, finitas, historicamente marcadas, em passagem permanente ao intemporal, ao infinito, superando-se na sua própria configuração concreta, limitada. A religião e as artes vivem do mesmo fundo de intranquilidade. Apesar de todas as tensões, têm, no impulso de transcendência, uma alma comum, que só morre ou se eclipsa quando instrumentalizada.

 Como escreveu Fernando Pessoa, a literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Mas também não a pode substituir.

“A vida é breve, a morte é certa”, gritava durante toda a Quaresma, um ancião, meu vizinho. A religião é a revolta contra os limites, a simbólica da absoluta transcendência, a voz do impossível. A morte não é remédio para a falta de vida. Diz apenas que o nosso exílio teve mais ou menos lágrimas. Morremos inacabados. O silêncio de Deus na cruz de Cristo é a sua linguagem, perante as diabólicas tentações messiânicas. Ao entregar o seu espírito nas mãos do Pai, Jesus recebe o Espírito da ressurreição, a fonte de uma Igreja sem fronteiras que O poderá reconhecer na diversidade das culturas, pois é Ele que sempre a precede.

2. O código genético do Cristianismo, na sua nascente e nas suas configurações históricas, brota do monoteísmo trinitário que as religiões do Livro – Judaísmo e Islão - consideram impuro e ao qual não pode renunciar sem cair no deus abstracto do deísmo, da metafísica das Luzes e que infeccionou a catequese e a pregação do séc. XIX.

No Vaticano II, D. Hakim, bispo grego-melquita de Akka, denunciou os esquemas da teologia latina, por ignorarem a catequese e a teologia orientais de Cirilo de Jerusalém, de Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa, de Máximo Confessor e de João Crisóstomo. Com a mesma preocupação, na Assembleia Geral do Conselho Mundial das Igrejas, em Upsala (1968), o notável bispo I. Hazim (1920-2012), mais tarde Patriarca de Antioquia, fez uma intervenção inesquecível.

“Eis a novidade: a ressurreição de Jesus Cristo, o mistério pascal,  não se explica pelo passado, mas pelo futuro.

Deus vem ao mundo, ao seu encontro; está diante de nós e chama, sacode, faz crescer, liberta. Qualquer outro deus é um falso deus, um ídolo. Está na hora de a nossa consciência moderna o enterrar. Esse deus multiforme, que habita na velha consciência do ser humano, está como que por trás do ser humano, como uma causa. Manda, organiza, faz regredir, aliena. Nada tem de profético, pelo contrário, vem sempre depois como a única razão do inexplicável, ou como o último recurso dos irresponsáveis. Esse falso transcendente é tão velho como a própria morte.

A novidade criadora vem ao mundo com o mundo. Essa novidade não se inventa nem se prova, revela-se, mostra-se. Diante dela, ou se diz sim ou se diz não. Vem como um acontecimento.

Esta é a acção do Espírito Santo que introduz a novidade no mundo. Sem Ele, Deus fica longe; Cristo habita no passado; o Evangelho não passa de letra morta; a Igreja não seria mais do que mera organização; a autoridade, dominação; a missão, propaganda; o culto, evocação mágica e todo o agir cristão, pura moral de escravos”.

Este cristão, mostrou que o seu discurso não era retórica vazia. Depois da sua eleição como patriarca, disse o que gostaríamos de ouvir a toda a hierarquia: "Serei julgado se não levar a Igreja e cada um de vós no meu coração. Não me é possível falar convosco como se fosse diferente de vós. Nenhuma diferença nos separa. Sou uma parte de vós; estou em vós e peço-vos que estejais em mim. Pois o Senhor vem e o Espírito desce sobre os irmãos reunidos, unidos em comunhão, manifestando uma diversidade de carismas na unidade do Espírito."

3. Depois do Vat. II, a teologia latina revisitou a teologia oriental. Passou a respirar, simbolicamente, com dois pulmões. Leonardo Boff, no contexto da teologia da libertação, tentou repensar o mistério sacrossanto da Trindade, que sempre o tinha desafiado. Publicou várias obras para responder a esta questão: se Deus não é a solidão do Uno, ao revelar-se e entregar-se como comunidade, quais as consequências para entender a nossa história una e plural?

Não lhe bastou afirmar que Deus era a melhor comunidade. Foi mais longe: Não há nenhuma razão teológica que nos obrigue a parar na encarnação do Filho. Sustentei a tese que o Pai se personalizou em São José, o Filho se encarnou em Jesus e o Espírito Santo se espiritualizou em Maria. Assim temos a família divina inteiramente presente na família humana.

As reticências que estas Josefologia e Mariologia suscitam, obrigam a continuar a investigação: afinal, que implicações espirituais tem a fé na misteriosa trindade de Deus, na transformação da nossa vida na Igreja e na sociedade?

domingo, 26 de janeiro de 2014

Bento Domingues: "Não enterrar o Baptismo"

Texto de bento Domingues no "Público" de hoje:


1. Não me lembro nada de ter sido baptizado. Recebi o crisma na adolescência, mas só me recordo de que o grupo em que fui apresentado escapou todo de uma temida palmada ritual do bispo. Com todo o respeito pelos anabaptistas, sou, no entanto, um defensor fervoroso do baptismo de adultos e de crianças, sem pensar que Deus só se dá bem com os baptizados.

É verdade que, às vezes, regresso desconsolado e apreensivo com o futuro de certas celebrações baptismais. Que irão fazer os pais para promover a progressiva descoberta do sentido e das exigências inscritas no espantoso programa simbólico do baptismo? A Igreja doméstica – a não confundir com certo beatério familiar – deve ser o espaço de uma evolutiva pedagogia da fé cristã que saiba puxar pelo que há de melhor nas pessoas: a descoberta da alegria no acolhimento dos outros, na partilha e na recusa dos caminhos da injustiça.

Ser cristão é adoptar o projecto de Jesus Cristo, acolhendo o seu espirito de ruptura com as seduções diabólicas da dominação económica, política e religiosa e o renascimento para a liberdade dos filhos de Deus, sem irmãos excluídos da mesa comum. Não se trata de papaguear fórmulas dogmáticas nem de receber instruções moralistas, mas de uma mudança interior, de uma luz divina, no íntimo da consciência, que se inspira na prática de Jesus e dos seus melhores discípulos.                                   

Hoje, quero recomendar vivamente uma obra sobre o mergulho baptismal –Take the plunge – e a sua confirmação que nos pode ajudar a reencontrar a Fonte e o Sentido em todas as encruzilhadas da vida (1). O autor é um dominicano inglês, T. Radcliffe, que já tem outras obras publicadas em português. É professor em Oxford e ex-Mestre Geral da Ordem dos Pregadores. No exercício dessa missão percorreu o mundo. Sempre admirei a sua excepcional capacidade de aprender com todos, em todas as situações. Serve-se de tudo para tecer as suas conferências, a sua pregação e os seus livros de teologia, com uma requintada cultura literária, artística, histórica, bíblica, patrística e sempre em registo ecuménico. O inesgotável sentido de humor não o afasta das manifestações de rua na defesa dos empobrecidos e marginalizados.

2. As crianças são baptizadas desde o começo do Cristianismo e tornou-se tradição de quase todas as Igrejas Cristãs. Já os Actos dos Apóstolos aludem ao baptismo dos adultos e das suas famílias.

No séc. IV, durante algum tempo, existiu uma tendência para adiar o Baptismo. Não se duvidava da importância de baptizar as crianças. A razão era outra. Este era o Sacramento do grande Perdão. Dada a disciplina penitencial da época, não se queria gastar a sua eficácia antes de tempo. O Baptismo não era garantia de um futuro sem pecado e corria-se o perigo de passar o resto da vida em penitência. Muitas pessoas, como o próprio imperador cristão Constantino, adiavam-no até ao último momento e Jacqueline de Romilly foi baptizada aos 95 anos dizendo: já é tempo! Quando Sto Ambrósio foi eleito Bispo, com a idade de trinta e cinco anos, não era baptizado. Teve de receber este sacramento antes da ordenação.

O baptismo das crianças, apesar dos inconvenientes – antigos e modernos - exprime uma realidade divina e humana que poderíamos ser levados a esquecer no baptismo de adultos: afirma a absoluta gratuidade do amor que Deus nos tem; a criança ainda não fez nada para merecer seja o que for, quer de Deus quer dos pais. Ora, se os pais fazem tudo pelos seus filhos mesmo antes de nascerem, quanto mais o Deus que nos amou primeiro. (2)

Deus não depende dos nossos méritos. Somos nós que dependemos do seu amor. De qualquer modo, os cristãos são confrontados com narrativas de um Deus que se tornou criança e adolescente, antes de surgir homem feito, como no Evangelho de Marcos, a dizer-nos que tudo pode ser diferente, pois somos amados e impõe-se uma reorientação da vida e de todos os seus valores.

3. De adultos ou de crianças, o baptismo é para refazer a vida toda. O ser humano não é de uma peça só e de uma só vez. Vai sendo e nunca de forma linear. A sua morada não é o passado, não é o presente. É a esperança, é o futuro. Sem ele, é o suicídio. Não vale a pena idealizar a infância, a adolescência, a idade adulta ou a da reforma. Se há tanta literatura sobre todas estas idades, é porque nenhuma delas é um paraíso. Por razões diversas, quase ninguém está contente com a idade que tem, mas vivemos num tempo em que é difícil ter crianças e ocupar-se dos idosos. Os desempregados não sabem de que terra são: de mendigar têm vergonha e já não têm condições nem de imigrar nem de ficar. O que é próprio do Baptismo cristão é não se conformar com o mundo como está. A sua natureza é pascal, é passagem, não é resignação.

Celebrar a data do Baptismo para um renovado encontro com a Fonte e com a Luz, para não esquecermos de onde vimos e para onde vamos.

1) Timothy Radcliffe OP, Imersos na vida de Deus. Viver o Baptismo e a Confirmação, Paulinas, 2013
2) Jer. 1, 5

sábado, 25 de janeiro de 2014

Anselmo Borges: "O Deus que é, o Deus que está"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

Quem teve trabalhos de tradução deu-se conta das enormes dificuldades da tarefa. Tudo se complica ainda mais quando se vem de e se vai para mundos diferentes. Porque uma língua é um mundo e não um simples instrumento. Um caso típico destas dificuldades encontra-se na tradução da Bíblia, ao passar do mundo hebraico para o mundo grego e, depois, latino e outros. O grande Adolf von Harnack chamou a atenção para o imenso problema.

Para explicitar, ouçamos o Credo cristão: "Creio em Jesus Cristo. Gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, ressuscitou ao terceiro dia." Segundo a fé cristã, isto é verdade? Sim, é verdade. Mas a pergunta é: o que deriva dessas afirmações para a nossa existência de homens e mulheres, cristãos ou não? O Credo é teologia dogmática, especulativa. Ora, a teologia dogmática tem que ver com doutrinas e dogmas, com uma estrutura essencialmente filosófica. Pergunta-se: os dogmas movem alguém, convertem alguém, transformam a existência, dizem-nos verdadeiramente quem é Deus para os seres humanos e os seres humanos para Deus? Por outro lado, quem apenas recitar o Credo tem de perguntar: o que fez Jesus entre o nascimento e a crucifixão? O que é o que o levou à cruz? Quais foram as suas relações com Deus, com as mulheres, com a sociedade, com a religião, com o dinheiro, com a política? O que moveu a sua vida, o que pensou, o que queria? Que nos deixou realmente em herança?

Vejamos exemplos mais concretos da dita tradução e dos seus perigos. No capítulo 3 do livro do Êxodo, narra-se a experiência que Moisés fez com a manifestação de Deus na sarça ardente - ardia e não se consumia. "Não te aproximes. Tira as sandálias dos pés, porque o lugar que pisas é um lugar sagrado." Moisés cobriu a face com temor. Deus disse-lhe que tinha visto as misérias e as angústias do seu povo e que estava disposto a libertá-lo. E Moisés: se os filhos de Israel me perguntarem qual é o teu nome, que lhes responderei? E Deus: "Eu sou aquele que sou." Dir-lhes-ás: ""Eu Sou" enviou-me a vós." A fórmula em hebraico: ehyeh asher ehyeh ("eu sou quem eu sou", "eu sou o que sou") é o modo de dizer que Deus está acima de qualquer nome, ele é a Transcendência pura, que não está à mercê dos homens, mas diz também o que Deus faz: Eu sou aquele que está convosco na história da libertação, que vos acompanha nessa gesta de liberdade e salvação. A Tradição, porém, na sequência dos Setenta, compreendeu aquele ehyeh asher ehyeh como "Eu sou aquele que é", "Eu sou aquele que sou", e Javé afirma o Ser absoluto de Deus, filosofando Santo Tomás, nesta linha, sobre Deus como Ipsum Esse Subsistens (O próprio Ser Subsistente). Deste modo, apesar de não ser errado, perdeu-se a dinâmica do Deus que está presente e acompanha na história da libertação.

No Novo Testamento, João Baptista, preso, mandou os discípulos perguntar a Jesus se ele era o Messias. Jesus respondeu dizendo: Ide dizer-lhe o que vistes e ouvistes: os coxos andam, os cegos vêem, a boa-nova é anunciada, a libertação está em marcha.

A teologia, a partir da Bíblia, é, antes de mais, teologia narrativa e não dogmática. Quer dizer: tem uma estrutura histórica. Na teologia especulativa, o centro de interesse é o ser; na teologia narrativa, o decisivo é o que acontece. Por isso, na perspectiva cristã, o fundamental e essencial consiste na pergunta: O que é que acontece quando Deus está presente? Na linha dogmático-doutrinal, pode dar-se um assentimento intelectual, mas a existência continua inalterada.

Decisivo na orientação do Papa Francisco foi esta passagem do dogma e da doutrina para a existência e a praxis transformadora. O que acontece quando Deus está presente? Afinal o nome de Deus, tantas vezes ouvido no Natal, é Emmanuel, o Deus connosco. Como escreveu o deputado europeu Paulo Rangel, "Deus não é esse ser distante e estático que é, mas antes o ser próximo e interactivo, Deus pode não ser afinal Aquele que é. Deus é Aquele que está."

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...