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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Providência



Providência é o Verbo de Deus que se cumpre a si próprio e dá forma à substância que constitui este mundo.

Santo Antão citado por Cristina Campo na pág, 227 de "Os imperdoáveis"

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Advento: Paralelismos entre João e Elias


João Baptista no deserto, por Hieronymus Bosch

Tal como Elias permanecera na solidão,
o Espírito de Deus enviou João para o deserto, para as montanhas e as grutas.

Um corvo havia voado em auxílio de Elias para o alimentar;
João comia gafanhotos.

Elias usava um cinto de pele;
João vestia uma faixa de pele em torno dos rins.

Elias foi perseguido por Jezabel;
Herodíades perseguiu João.

Elias repreendera Acab;
João censurou Herodes.

Elias dividira as águas do Jordão;
João inaugurou o baptismo.

O duplo do espírito de Elias pousou sobre Eliseu;
João impôs as mãos ao nosso Salvador, que recebeu o espírito sem medida (Jo 3,34).

Elias abriu o céu e subiu,
João viu os céus abrirem-se e o Espírito de Deus descer a pousar sobre o nosso Salvador.

Afraates, anacoreta persa do séc. IV (li aqui).

sábado, 28 de maio de 2011

O João da Escada


Viveu no Sinai entre 580 e 650. No monte, para ser mais perto de Deus. Como isso não chegava, quis ainda uma escada, pelo que escreveu “A escada para o paraíso”, ou “A escada celestial” ou ainda, simplesmente, “A escada” – um tratado da vida espiritual em trinta partes, porque são 30 os degraus para chegar a Deus. O último degrau é a trindade das virtudes: fé, esperança e caridade. Escada, em grego, é “climax”, pelo que João ficou conhecido como “o da escada”, “climakos”. João Clímaco.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A tristeza é um glutão do coração e alimenta-se da mãe que o gerou

A tristeza é um glutão do coração e alimenta-se da mãe que o gerou.

Sofre a mãe quando dá à luz um filho; porém, esta, tendo dado à luz, vê-se livre da dor. A tristeza, ao contrário, enquanto é gerada, provoca fortes dores e, sobrevivendo, após o esforço, não traz sofrimentos menores.

O cristão triste não conhece a alegria espiritual, como aquele que acometido por forte febre não reconhece o sabor do mel.

O cristão triste não saberá como contemplar, nem brota nele uma oração pura: a tristeza impede todo o bem.

Ter os pés amarrados impede a corrida; assim é a tristeza: um obstáculo para a contemplação.

O prisioneiro dos bárbaros está preso com correntes; a tristeza amarra aquele que é prisioneiro das paixões.

A tristeza não tem força, assim como não tem força uma corda se lhe faltar quem amarre.

Aquele que está atado pela tristeza é vencido pelas paixões e, como prova da sua derrota, aumenta a atadura.

O moderado não se entristece pela falta de alimentos, nem o sábio quando é atacado por um lapso de memória, nem o manso que renuncia à vingança, nem o humilde que se vê privado da honra dos homens, nem o generoso que sofre uma perda financeira. Com efeito, eles evitam, com força, o desejo destas coisas, como efectivamente aquele que corajosamente rejeita os golpes. Assim, o homem que confia no Senhor não é ferido pela tristeza.


Evágrio Pôntico

Originário da Capadócia (actual Turquia), Evágrio Pôntico, viveu no séc. IV nos desertos do Egipto. É um dos chamados “Padres do Deserto”, homens que procuravam a perfeição cristã no isolamento dos lugares inóspitos e através da privação dos bens mais elementares.

sábado, 24 de julho de 2010

A tristeza é a boca do leão que devora quem se entristece

Né Ladeiras diz no DN Gente de hoje que pratica a “melancolia, que era pecado segundo Evágrio do Ponto”.

Evágrio do Ponto, ou Evágrio Pôntico, nascido na Capadócia (na Turquia), viveu nos desertos do Egipto, no séc. IV. Foi um dos Padres do Deserto.

Ao ler a resposta de Né Ladeiras, lembrei-me de procurar o texto de Evágrio. A versão que aqui deixo fala de tristeza. No original devia estar mesmo μελαγχολία.


A tristeza abate a alma e forma-se a partir dos pensamentos da ira.

O desejo de vingança, com efeito, é próprio da ira; o fracasso da vingança gera a tristeza; a tristeza é a boca do leão e facilmente devora aquele que se entristece.

A tristeza é um glutão do coração e alimenta-se da mãe que o gerou.

Sofre a mãe quando dá à luz um filho; porém, esta, tendo dado à luz, vê-se livre da dor. A tristeza, ao contrário, enquanto é gerada, provoca fortes dores e, sobrevivendo, após o esforço, não traz sofrimentos menores.

O cristão triste não conhece a alegria espiritual, como aquele que acometido por forte febre não reconhece o sabor do mel.

O cristão triste não saberá como contemplar, nem brota nele uma oração pura: a tristeza impede todo o bem.

Ter os pés amarrados impede a corrida; assim é a tristeza: um obstáculo para a contemplação.

O prisioneiro dos bárbaros está preso com correntes; a tristeza amarra aquele que é prisioneiro das paixões.

A tristeza não tem força, assim como não tem força uma corda se lhe faltar quem amarre.

Aquele que está atado pela tristeza é vencido pelas paixões e, como prova da sua derrota, aumenta a atadura.

O moderado não se entristece pela falta de alimentos, nem o sábio quando é atacado por um lapso de memória, nem o manso que renuncia à vingança, nem o humilde que se vê privado da honra dos homens, nem o generoso que sofre uma perda financeira. Com efeito, eles evitam, com força, o desejo destas coisas, como efectivamente aquele que corajosamente rejeita os golpes. Assim, o homem que confia no Senhor não é ferido pela tristeza.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Bem visto

Disse pai Evágrio (um dos padres do deserto): "Retirem-se as tentações e ninguém será salvo".

Padres do deserto do séc. XXI

Ainda há padres do deserto. Mas o texto de Alexandra Lucas Coelho, no Público (aqui), realça mais as dificuldades de viver na aridez (Caracolnet em vez de Internet, racionamento da água, o verão infernal e o inverno duro…) do que a descoberta espiritual, que também está presente. E não há “ditos dos padres do deserto”.

…

Jean, 47 anos, “há 16 anos era carteiro em Zurique. Tinha inquietações espirituais. Passou pela new age, pelo aikido e pela Várzea de Sintra. Depois Escócia, Grécia, Chipre, Líbano, Jordânia. Uma longa história que não cabe aqui. Até que veio visitar o mosteiro. Voltou para ficar. Na noite de Páscoa de 1996 Paolo baptizou-o”.

…

Paolo “percebeu que este era o lugar para os três votos: vida espiritual, trabalho manual e hospitalidade.
- A hospitalidade é realmente o nosso programa político. Só através dela pode ser conseguido um humanismo desenvolvido. Sem hospitalidade, a tentação do suicídio torna-se muito forte para mim, a vida torna-se insuportável. Porque estamos aqui? Pela hospitalidade. A prática do diálogo começa na curiosidade. Acreditar que o outro tem algo para oferecer.
E antes do almoço vai juntar lençóis usados, daqueles que vieram dormir por uma noite”.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...