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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O Céu. Mesmo que fosse só isso

O avô de C. S. Lewis - conta Timothy Radcliffe em "Imersos na vida de Deus, (Paulinas) - esperava e previa ter, no Céu, conversas cultas e corteses com S. Paulo, como dois gentis-homens clérigos cavaqueando no seu clube.

Ao preço a que está uma boa conversa, coisa cada vez mais rara e interrompida por telemóveis ou trasladada para feicebuques, cá está uma aliciante imagem do Céu.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Bênção

As jóias perdidas da antiga Palmira,
Os metais desconhecidos, as pérolas do mar,
...
São tão-só espelhos escurecidos e plangentes.

Baudelaire

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Férias grandes do Abbé Pierre


Vivi desde sempre na impaciência da morte. Na minha fé, creio que a morte é uma separação dolorosa para os que ficam mas, para quem parte, é um encontro fantástico: com  uma imensidão de Deus; com a multidão, talvez com cem mil milhões de seres humanos que viveram desde que o homem existe.Tal encontro exalta-me. É uma sede de sol e de água cristalina... Para mim serão as minhas férias frandes.

Abbé Pierre em 1994


Desde as últimas férias grandes tenho posto aqui, quase diariamente, uma frase ou um pequeno texto de Abbé Pierre. Comecei após o dia 5 de agosto, quando reparei que o centenário do nascimento deste padre (05-08-1912 - 22-01-2007) passou praticamente despercebido. Até percebo porquê. Se ele foi incómodo para alguém, foi-o principalmente para os poderes públicos e para os poderes eclesiais.

Foi um dom ter lido o que disse e escreveu em "Testamento" (Círculo de Leitores) e "As quatro verdades" (Editorial Notícias), os dois livros de onde copiei as frases. Hoje mesmo espero ler a entrevista que António Marujo lhe fez no dia 5 de julho de 1995 ("Deus vem a público", págs. 292-298). Talvez para aqui copie uma ou duas frases para terminar a minha evocação do Abbé Pierre, uns dias depois da data do aniversário da sua morte.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A pedreira e a catedral

O que vivi dá-me a convicção de que o meu reino não é deste mundo. Tenho a impressão de ter ouvido falar de uma pedreira de mármore maravilhosa. Vou lá e vejo pedras partidas, inutilizáveis. É realmente na pedreira que se prepara o material, mas não é aqui que construímos a catedral. Ela é edificada noutro sítio. Estou convencido de que vivemos num esboço contante.

Abbé Pierre, 1989

domingo, 9 de dezembro de 2012

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Piergiorgio Odifreddi gostaria de desconverter o Papa

"Espero a dissolução da morte, mas não uma outra vida em um mundo que não há-de vir". Assim termina o "Credo laico" de Piergiorgio Odifreddi, no final de “Caro Papa, ti scrivo. Un matematico ateo a confronto con il papa teólogo”.

Piergiorgio Odifreddi, “matemático e ateu combativo”, é também autor de “Il Vangelo secondo la Scienza” e “Perché non possiamo essere cristiani”. Parece que lamenta que o Papa não dialogue com ele directamente. Li aqui.

quinta-feira, 3 de março de 2011

"Não se preocupem"


Contra a imposição, todos os dias, de um tributo de rotinas e obrigações – como impunham os tributos de menta e ruda –, Cristo pregou a imensa importância de viver inteiramente para o momento.

Oscar Wilde (1854 – 1900)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Inconstância do tempo



Neste mundo, os dias rolam; uns vão e outros vêm; nenhum fica. Também os momentos em que falamos se suplantam uns aos outros e a primeira sílaba não pára, para que a segunda possa ressoar. Desde que falamos, envelhecemos um pouco e sem dúvida que estou agora mais velho do que hoje de manhã. Deste modo, nada está parado, nada fica suspenso no tempo. Por isso, devemos amar aqueles através de quem se faz o tempo, para sermos libertados pelo tempo e amarrados à eternidade, onde já não existe qualquer inconstância do tempo.

Agostinho de Hipona

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Bento XVI falou do purgatório

O tema do céu, do inferno e do purgatório está praticamente ausente das pregações actuais, da mensagem cristã em geral.

No entanto, se existem, como ocultá-los? Vamos passar lá muito tempo, segundo diz a fé católica. O tempo todo, mesmo, seja vivido como prolongamento infinito, seja como instante sempre presente.

Mas falar do céu, do inferno e do purgatório é difícil. Só por analogias. E as analogias dão-se a más interpretações, a falhas, a exageros. Como ao longo da história (em exemplo em James Joyce). Por isso, opta-se pelo silêncio.

E quando alguém fala, principalmente se for o Papa, parece que diz uma novidade, repetindo a teologia secular. Há tempos foi João Paulo II, quando disse que o inferno não era um lugar físico (mas para muitos, cá na Terra, é mesmo um lugar físico). Agora é Bento XVI, com o purgatório. A notícia é do DN de 13 de Janeiro de 2011.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Prolixitas mortis

Karl Rahner

A morte está sempre presente ao longo da vida. Karl Rahner fala da prolixitas mortis, da presença da morte em tudo o que fazemos. Rahner traduziu para a teologia o conceito deo seu professor de filosofia, Martin Heidegger, o conceito de “ser para a morte”. Foi buscar esta expressão a São Gregório Magno. Significa “o precesso concreto da crescente acumulação de elementos da morte na história da vida humana” (Auer, 1995, p. 52). Romano Guardini fala da vida como uma morte prolongada. Na interpretação que Karl Rahner faz da prolixitas mortis, em todas as experiências de debilidade, de doença e de desilusão, o Homem morre um bocadinho, havendo um declínio das qualidades palpáveis da vida. Em todas estas pequenas horas da morte, que ocorrem por etapas, é-nos perguntado o que fazemos para subsistir” (cit.por Auer, 1995, p. 125).

Texto de Anselmo Grun em "A sublime arte de envelhecer", p. 121

Morreste-me. a morte e a esperança cristã


A diocese do Porto distribui por estes dias, nos cemitérios, uma brochura com reflexões sobre a morte. "Morreste-me". 16 páginas, sem datas nem autores, para ler em qualquer altura do ano. Publicou também um volume mais extenso, cuja capa se reproduz acima (a pintura é usada como capa de ambas publicações). Ver aqui e aqui.

O folheto dos cemitérios termina assim:

O amor é a ponte que uno o ínfimo ao infinito. A vida não nos é roubada na morte, porque ela nunca foi nossa, nunca possuímos a vida como bem pessoal que conquistamos por direito. Foi-nos dada para a restituirmos, para a darmos (…). Lidamos mais com as palavras gastas, mas há palavras que são faróis de vida. A esperança leva dentro a confiança da Fé. (…) Mais do que fim, será princípio, em comunhão com o Amor inteiro, com aquele mais que nos faltava quando, por aqui, fomos felizes. A nossa confiança tem nome de ressurreição e garantia de pessoa: Jesus Cristo.

domingo, 24 de outubro de 2010

Leituras de Domingo: Dúvidas na velhice

Por vezes, os idosos vêm ter comigo e estão desesperados. Construíram toda a sua vida com base na fé, mas agora ela ameaça desaparecer. Tento, então, fazer-lhes valer que não têm culpa do que está a acontecer e que é completamente normal: as dúvidas do momento significam que estão a ser desafiados a escavar novas fundações para a fé. De seguida, convido-os a expressarem as suas dúvidas até ao fim. Em teoria, é possível que tudo o que pensamos de Deus seja fruto da nossa imaginação ou que a nossa ideia da vida eterna seja apenas uma ilusão. Mas, se seguirmos esta lógica de pensamento até ao fim, então tudo se torna absurdo. Pessoalmente, quando sigo esta linha de pensamento, sinto no fundo do meu coração um impulso que me leva a decidir com firmeza: «Aposto nesta carta. Confio na Bíblia, confio na liturgia, confio em Santo Agostinho e em Santa Teresa de Ávila». Face a todas as dúvidas, escolho a fé e a vida. Esta fé será contestada até à morte; porém é a fé que me ampara e que me ajuda a perceber as pessoas que se debatem por ela.

Anselmo Grün, A sublime arte de envelhecer e tornar-se uma bênção para os outros, Paulinas, pág. 142

domingo, 26 de setembro de 2010

Por que é que não foste Zoussya?

Já quase no fim da vida, o rabi Zoussya, mestre hassídico admirado por Elie Weisel, disse:
- No mundo futuro, a questão que se me vai colocar não é: por que é que não foste Moisés? Não. A verdadeira questão é: por que é que não foste Zoussya?

terça-feira, 15 de junho de 2010

Felicidade. O quê? Onde? Como?

A mais bela história da felicidade
André Comte-Sponville, Jean Delumeau e Arlette Farge
Texto & Grafia
146 páginas

Um historiador perito em história da Igreja Católica e das mentalidades, uma historiadora especialista no Iluminismo e um filósofo ateu falam da felicidade, essa ditadura do tempo presente, o misterioso Graal que o ser humano persegue, mas que não deixa de permanentemente se esquivar. Jean Delumeau, André Comte-Sponville e Arlette Fargue respondem às questões de Alice Germain.

O que é a felicidade? Epicuro dizia que era o que se alcançava com uma rigorosa dieta (prescrição controlada) de prazeres. Os estóicos abominavam o prazer e substituíam-no pela virtude moral. Cálides, o adversário de Sócrates, dizia que ser feliz consiste em satisfazer as paixões, os desejos, mesmo os mais loucos. Como os desejos são um poço sem fundo. Sócrates abominava tal ideia. Mas Kant não. Para o iluminista, a felicidade está em satisfazer os desejos e as propensões.

Para uns, é a vida em família; para outros, a solidão. Aproveitar a sorte e o que a vida nos dá? Construir e conquistar, numa atitude prometaica? Empurrar a pedra para cima do monte sem reparar no absurdo e imaginar-se feliz, como Sísifo? Há quem tome a felicidade por divertimentos – critica Pascal. Está no ter? Êxito profissional, reconhecimento social, relação amorosa, saúde, honra, bens? Está no ser? Que ser? “Façamos a experiência, como Pascal convida a fazer”, conta Comte-Sponville. “Instalemo-nos no nosso quarto, permaneçamos lá vinte e quatro horas sem fazer nada, e veremos que o simples facto de ser não chega para a felicidade, mas leva, pelo contrário, ao tédio, à angústia, à insatisfação, à tristeza… A felicidade não está no ter mas também não está no ser. Está no agir: o homem só pode usufruir verdadeiramente daquilo que faz. A única felicidade humana é uma felicidade em acto, uma felicidade na acção” (pág. 44).

A religião fornece igualmente “a sua pedra para o edifício”, colocando a felicidade no centro das suas preocupações. Felicidade nesta vida? Felicidade fora desta vida? No Éden, Paraíso, Jardim das Delícias? Mas a ideia de paraíso evoluiu. A felicidade secularizou-se. Para o cristianismo, o inferno não são os outros. O paraíso é reencontrarem-se uns com os outros e com o Outro.

A felicidade tornou-se um dever. “Ser é poder aceder à felicidade; existir é obrigar-se a ser feliz”. Diz-se que a felicidade não está nas posses (êxito, dinheiro, beleza), mas nas disposições (serenidade, tranquilidade, harmonia). Mas ninguém leva a sério. “O paradoxo dos nossos tempos modernos consiste em inventar uma felicidade «interior» e propor sempre mais prazeres para consumir e produtos para supostamente ser feliz” (pág. 14).

O segredo da felicidade está no fazer-se da felicidade. “A felicidade não é o fim do caminho, mas o próprio caminho”. “A felicidade não é um sossego, mas um esforço bem sucedido ou um fracasso superado” (pág. 141).

Este livro a três vozes tem história, filosofia, teologia e bom senso comum. Não é um manual nem um livro de auto-ajuda. Mas ajuda a esclarecer. E nisto todos concordam: não há felicidade sem sabedoria.

domingo, 28 de março de 2010

Morrer e viver para sempre

"Morrer faz parte da nossa dignidade e é uma condição para a nossa felicidade actual. Isto conduz-nos a situarmo-nos no tempo, com os seus prazos e os seus projectos. Quem de entre nós, honestamente, desejaria que a sua vida actual se prolongasse indefinidamente? Se nós pensamos em vida eterna, ela não é desejável senão sob uma outra forma, que nós somos incapazes de imaginar.

Entre a nossa vida de hoje e a nossa vida depois da morte, existe a mesma continuidade que entre o grão semeado e a planta que há-de nascer dele.

Na cena da transfiguração, que contam Mateus, Marcos e Lucas, Jesus transfigurado era inteiramente Ele mesmo e inteiramente diferente. Como Ele também nós estamos destinados a ser por toda a eternidade inteiramente nós mesmos e inteiramente diferentes, as trevas que há em nós terão sido transformadas em luz. Uma vida assim vale então a pena durar para sempre".


Michel Quesnel, in “Cristo vivo para a cidade”, Congresso Internacional para a Nova Evangelização, Lisboa 2005

domingo, 17 de janeiro de 2010

Acredita no paraíso? - 3

Daniel Nascimento

No inquérito do DN, aos sábados (DN Gente), aparece a pergunta: "Acredita no paraíso?" As últimas respostas:

Assunção Cristas (deputada do CDS, eleita por Leiria, professora de Direito): Acredito.

Miguel Ângelo (músico, vocalista dos Delfins): É como a felicidade: acredito em momentos de paraíso.

José Emídio (pintor): Não. Para um esfomeado, o paraíso poder ser uma bucha de pão.

José Ernesto Oliveira (presidente da Câmara Municipal de Évora): Acredito num Ser Superior, a que alguns chamam Deus e eu não me importo de chamar também. Mas não no paraíso. Acredito num paraíso interior, dentro de cada homem.

Daniel Nascimento (apresentador da SIC): Sou crente e tenho uma fé inabalável em Deus. Mas julgo que somos nós que fazemos o paraíso e o inferno. Eu vivo no paraíso, que é a minha casa.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Imagine a eternidade - um excerto de James Joyce

Stephen Dedalus (isto é, James Joyce), em “Retrato de um artista enquanto jovem”, relata a pregação de um padre jesuíta sobre a eternidade:

“Tente fazer uma ideia do terrível significado desta palavra, eternidade. Por certo, observou muitas vezes a areia à beira-mar. Como são finos, esses grãos minúsculos! E quantos destes grãos infinitamente miúdos são necessários para um só punhadozinho de areia que uma criança atira a brincar! Imagine agora uma montanha desta areia, com a altura de um milhão de milhas, ocupando todo o espaço; e com um milhão de milhas de espessura. Imagine esta enorme massa de inúmeras parcelas de areias, multiplicada pelo número de folhas da floresta, de gotas de água no imenso oceano, de penas das aves, de escamas dos peixes, de pêlos dos animais, de átomos na vasta extensão do ar; depois, imagine que, ao cabo de cada milhão de anos, um passarinho vem a esta montanha e leva no bico um minúsculo grão de areia. Quantos milhões e milhões de séculos se escoarão antes que esse pássaro tenha levado um só pé quadrado desta montanha, quantas infinidades de séculos, antes que tenha levado a montanha inteira! E, contudo, no fim deste imenso período, não se pode dizer que se tenha escoado um só instante da eternidade. No fim destes biliões e triliões de anos a eternidade estaria no seu começo”.

domingo, 8 de novembro de 2009

Bento Domingues: “Companheiros de viagem”

(Clique para ampliar)

Bento Domingues no Público deste domingo:

“As celebrações católicas, como a festa de Todos os Santos, fazem um esforço contra o elitismo. Confessam que os canonizados – e os que estão a caminho de o ser – são uma pequeníssima minoria em relação às visões deslumbrantes do Apocalipse” (...).

sábado, 20 de junho de 2009

Que nos espera?

"Conhecer Deus" era a maior esperança para João Bénard da Costa, que, por isso, podia dizer: "Acredito que esta vida não pode acabar aqui: nada faria sentido, para mim, se assim fosse". Último parágrafo da opinião de Anselmo Borges no DN.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...