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sábado, 24 de outubro de 2015

Primeiro comer, depois filosofar

A fé cristã não é uma experiência que se possa planificar primeiro para a ter depois conforme se previu. Não resulta de uma qualquer racionalidade laboratorial. Impõe-se com a sua própria dinâmica à consciência daquele que reflete sobre ela. É claro que viver e pensar são dois momento que se devem conjugar no itinerário da fé. Mas convém notar que existe, aqui, uma ordem de prioridade. Normalmente é o viver que está primeiro; o pensar vem a seguir, procurando acompanhá-lo o melhor que pode.

Domingos Terra, in "A fé da Igreja", Paulus, pág. 131

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Perdão e integridade


Houve altura em que cada um de nós sentiu necessidade de perdoar. Também houve momentos em que todos precisámos de ser perdoados. E todos esses momentos voltarão a repetir-se. De uma maneira muito particular, todos nos destroçamos e todos nós magoamos outras pessoas. O perdão é a viagem que empreendemos para sarar as partes destroçadas. É assim que reconquistamos a nossa integridade.

In "Livro do Perdão", de Desmond Tutu e Mpho Tutu (Editorial Presença), pág. 13

domingo, 26 de outubro de 2014

David era um homem dotado, capaz de compor salmos. E eu?

Em meados do século XVIII, o rabi Uri de Strelisk interrogou-se: «David era um homem dotado, capaz de compor salmos. E eu? Que sei fazer?» A resposta foi: «Sei lê-los». Ler é um trabalho de memória que nos permite, através das histórias, desfrutas da experiência passada de outros como se fosse nossa.

Aberto Manguel, "A Cidade das Palavras" (Gradiva), pág.19

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

depois dos quais não se teme mais nenhum príncipe deste mundo


No primeiro texto de "Alfabetos", depois de apontar alguns livros que o influenciaram, Claudio Magris escreve que

 "(...) acima de todos, estavam o Antigo e o Novo Testamento, depois dos quais não se teme mais nenhum príncipe deste mundo e se compreende que a pedra mais vil, aquela desprezada pelos construtores, é a verdadeira pedra angular".

Estamos em comunhão.

sábado, 12 de janeiro de 2013

José Manuel Pureza escreve sobre "Recuperar a ideia de Jesus que muda as nossas vidas"



José Manuel Pureza, o católico do Bloco de Esquerda, escreve hoje sobre Jesus Cristo no “Q” (do DN).

O texto tem como título “Recuperar a ideia de Jesus que muda as nossas vidas”. Surge a propósito do livro coordenado por Anselmo Borges “Quem foi, quem é Jesus Cristo?” (Gradiva).

Vou ler o artigo e hei de escrever aqui as minhas impressões. Talvez amanhã digitalize o texto do bloquista. Se alguém estiver impaciente pode sempre comprar o jornal.

Já por diversas vezes disse que gosto muito do “Q”. O desta semana é daqueles para ler de uma ponta à outra. Gosto do carácter ensaístico dos textos. Vejamos (refiro as peças pela ordem decrescente do meu interesse):

- o artigo de Pureza
- entrevista de seis páginas a António Damásio
- “As mais queridas assombrações da literatura”, peça sobre um livro que fala 500 anos de procura de provas da existência de fantasmas
- sugestões de livros, filmes e discos por João Paulo Cotrim
- peça sobre as crónicas de Rubem Braga
- novas edições de discos, livros e dvd
- texto sobre duas biografias de perfis opostos de Obama.

domingo, 29 de julho de 2012

Preparando as férias



Tchekov disse: "Se tens medo da solidão, não te cases". Eu diria: se tens medo da solidão, não viajes. A literatura de viagem mostra os efeitos da solidão, umas vezes desolada, mais frequentemente enriquecedora, de vez em quando inesperadamente espiritual".


Paul Theroux, "A Arte da Viagem" (Quetzal), pág. 8.

domingo, 25 de março de 2012

Preguiça e pontualidade

A preguiça da vontade é muito maior do que a dos ossos. Daí provém a arte universal do atraso. A pontualidade em decidir-se é uma virtude rara.


Carlos G. Vallés, Saber escolher, A.I., pág. 112

sexta-feira, 16 de março de 2012

Como é o ar de quem redescobre a fé?

Julian Treslove, o anti-herói de "A questão Finkler", de Howard Jacobson, tinha um "ar invulgarmente jovem" porque esperava acontecimentos trágicos que nunca se concretizavam. Este "ar", diz o narrador, é "o ar que adquirem por vezes os indivíduos que redescobrem a fé em adultos". Vindo de Treslove não é propriamente coisa boa. A fé é estar à espera de uma tragédia?

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Como escalar uma parede vertical



Noutro tempo, eu era um alpinista entusiasta. Quando se pretende escalar uma parede vertical é preciso ter, pelo menos, três pontos de apoio na rocha. Só dessa maneira é possível subir e alcançar o quarto ponto. Se existe somente um ponto de apoio, fica-se suspenso sem qualquer ajuda. Desse modo, é impossível avançar. Nem sequer dois pontos de apoio são suficientes. Só com três conseguimos subir. Esses pontos de apoio estão, para mim, na Sagrada Escritura.



Cardeal Carlo Maria Martini, Colóquios nocturnos em Jerusalém. Sobre o risco de acreditar, pág. 101-102

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Carlo Maria Martini: Antes tinha sonhos acerca da Igreja, agora...

Leitura matinal.
Antes tinha sonhos acerca da Igreja. Sonhava com uma Igreja que faz o seu caminho em pobreza e humildade, com uma Igreja que não depende dos poderes deste mundo. Sonhava que a desconfiança seria destruída; com uma Igreja que dá espaço a pessoas que pensam. Com uma Igreja que transmite coragem, especialmente àqueles que se sentem pequenos ou pecadores. Sonhava com uma Igreja jovem. 
Hoje já não tenho esses sonhos. Com setenta e cinco anos [faz oitenta e cinco no próximo 15 de fevereiro] decidi-me a rezar pela Igreja.
Cardeal Carlo Maria Martini, Colóquios nocturnos em Jerusalém, pág. 86 (ed. Gráfica de Coimbra 2)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Elevar o nível


W. G. Sebald

Um leitor queixa-se que o meu blogue está a descer de nível. É capaz de ter razão. Mas, como dizia o outro antes de fugir do pântano, “não é estrutural, é conjuntural”. Espero não ser desmentido pela realidade, como a crise que dura há mais de uma década desmente o antigo ministro.

É conjuntural, no meu caso, porque não se sai incólume de uma avaria do computador principal. Trabalho habitualmente em três, mas quando avaria aquele a que estamos mais afeiçoados, o trabalho ressente-se. Em janeiro só “postei” 103 vezes, muito abaixo da média. Mas as coisas estão a mudar, como dizia Bob Dylan.

Para aumentar o nível, nada como citar Mandelstam, que dizia que “o romance tem provavelmente as suas raízes nas respostas seculares às biografias dos santos”, o que quer dizer que mesmo os intelectuais (felizmente, intelectual não poder o “c”) não devem deixar de olhar para “aquele vasto brocado musical roído por traças” a que chamamos religião. Quer isto dizer que não faltam assuntos de grande nível para abordar aqui. Faltarão outras coisas, não matéria. O que está entre aspas é de W. G. Sebald, que, se ainda houver dúvidas, contribui decisivamente para subir de nível.

Para evitar o “genuíno fedor escolástico” - a expressão é de um antigo aluno de jesuítas, James Joyce – não vou dizer de onde tirei as citações de Mandelstam e Sebald. O meu caríssimo leitor que se queixa da descida de nível decerto saberá encontrá-las no agradável bosque de Jacob.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A fé aumenta a consciência

Pintura de Zhiwan Cheung

“Se a fé aumenta a nossa consciência, não é porque, em primeiro lugar e principalmente, por testemunho autorizado, nos ensina verdades objectivas; mas porque ela nos faz simpatizar, real e profundamente, com um ser, enquanto nos une à vida de uma pessoa, enquanto nos inicia, por meio do pensamento amante, a outro pensamento e a outro amor”.

Citação de Maurice Blondel lida na página 92 de “A Fé como resposta de Sentido” (ed. Paulinas), de Rino Fisichella.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Leitura matutinas: A questão do sentido

O mundo em que vivemos já está carregado de significados; frequentemente, o homem não faz e pergunta sobre o sentido das coisas, porque a encontra já formulada e apropria-se dela porque pertence ao contexto cultural em que está inserido. Há evidências tais que desembocam num sentir comum quase natural que impede o surgimento de um sentido pessoal independente do que é património de todos. Todavia, falar de sentido equivale a pôr uma questão que, pela sua própria natureza, tem carácter universal. Não se pode enfrentar o problema do sentido da vida, relegando-o para o sentir de uma única pessoa; se esta pergunta tiver sentido, deve ter sentido para todos. O mesmo vale quando se enfrenta a vida. O sentido da vida não pode ser despedaçado em vários actos que compõem a existência quotidiana; deve, em primeiro lugar tocar toda a vida e não somente um acto singular.

Rino Fisichella in "A fé como resposta de sentido", ed. Paulinas, 21.

domingo, 20 de setembro de 2009

Leitura de domingo - 4

Há dias perguntei ao P.e João Caniço, jesuíta com origens em Aveiro, por que é que a Companhia de Jesus nunca teve grande presença na cidade, ao contrário dos dominicanos e dos franciscanos. E ele respondeu que os jesuítas sempre se dedicaram a cidades maiores. Ao longo dos séculos, Aveiro, com apenas 250 anos de cidade, foi sempre uma pequena povoação.

Agora leio no livro “Torna-te aquilo que és”, do jesuíta James Martin (pág.s 100-101), o seguinte:

“Quando eu estava a estudar teologia, a nossa comunidade jesuíta tinha um pequeno poster na parede da nossa sala de estar com a seguinte frase, acerca de quatro grandes fundadores de ordens religiosas:

Bernardus valles,
Colles Benedictus amavit,
Oppida Franciscus
Magnas Ingatius urbes.

Ou seja:

Bernardo amava os vales,
Bento os montes,
Francisco os pequenos povoados
E Inácio as grandes cidades”.


Não imaginava que tinham territórios tão demarcados. E note-se a ausência de Domingos no poster da casa jesuíta.

Leitura de domingo - 1


O pequeno livro “Torna-te aquilo que és” (ed. Paulinas), com o subtítulo de “Da imitação à autenticidade”, é uma partilha sobre o caminho para a auto-aceitação. As palavras “caminho” e “partilha” estão tão gastas e são tão usadas em contexto de espiritualidade que é um risco pô-las lado a lado na mesma frase. Mas é isso que o livro é: uma partilha da busca espiritual do jesuíta James Martin e um percurso seguindo principalmente a vida do trapista franco-americano Merton e do padre holandês Nouwen.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...