sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Pacheco Pereira: "O Papa bolchevista"

José Pacheco Pereira na "Sábado" de ontem. Vou ter mesmo de analisar as afirmações do Papa, uma a uma. Há que responder a isto: Ele está contra o capitalismo ou contra os exageros do capitalismo? Não é possível capitalismo sem exageros? O capitalismo é intrinsecamente mau ou só os capitalistas? Há um ou vários capitalismos? O capitalismo é sempre tirania ou há capitalismos sem tirania? E a tirania só surge no capitalismo? O mal é o capitalismo financeiro ou o capitalismo tout court? E se não quisermos capitalismo, o que temos? Ou resta o capitalismo com ética, com lei, democrático?

Ai, tempos tão bons estes, em que só os infelizes passam tédio.

Gay cineforum


Há dias, em Itália, fizeram isto ao Papa emérito. E não morreu ninguém. Por isso é que gosto da sociedade liberal em que vivemos. A estupidez também se tolera.

Depressão

Que a tristeza de viver, muitas vezes em desacordo com a tua vontade, não nos submerja, mas antes que a tua misericórdia se estenda a toda a nossa vida e a fertilize.

Martinho Lutero

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Viriato Soromenho-Marques: "Um cristão em Roma"


Viriato Soromenho-Marques no DN de hoje. Anda meio mundo encantado com as tiradas economicossociais do Papa Francisco. Gostava de ter ideias mais claras sobre o que o Papa pensa da economia (e de outros assuntos, mas esses outros dois não são para aqui chamados) para lá dos apelos à ética. Tenho impressão que a Doutrina Social da Igreja é bem mais equililibrada. Digo mesmo: não tão panfletária. Havemos da falar disso.

Papa Francisco: "Como disse Mário Soares, a nova tirania económica gera violência"


No "Público" de hoje. Consta que o Papa há dias disse: "Como disse o Papa Soares, a nova tirania económica gera violência".

Mais a sério, considero que há um aproveitamento soarista das palavras do Papa. Um venezuelano, no meio do madurismo, por razões completamente diferentes, poderá invocar as mesmas palavras do Papa... Considero, por outro lado, que é preciso estudar - coisa que ainda não fiz, nem prevejo fazer tão cedo, infelizmente - o que o Papa tem realmente dito sobre a economia. Sem dúvida que tem criticado o capitalismo, mas daí até ser anticapitalista como alguns dizem vai uma grande distância. O capitalismo sem ética humanista e mesmo cristã, como qualquer atividade sem ética, é detestável. No caso de Portugal, na situação que Mário Soares tem em vista, o culpado é o capitalismo sem limites ou não será antes e primeiro a indisciplina e má gestão do próprio país? (Claro que há vida para lá do défice. É péssima.)

Nove números da exortação, do 52 ao 60, são sobre a questão económica. O primeiro é este:
A humanidade vive, neste momento, uma viragem histórica, que podemos constatar nos progressos que se verificam em vários campos. São louváveis os sucessos que contribuem para o bem-estar das pessoas, por exemplo, no âmbito da saúde, da educação e da comunicação. Todavia não podemos esquecer que a maior parte dos homens e mulheres do nosso tempo vive o seu dia a dia precariamente, com funestas consequências. Aumentam algumas doenças. O medo e o desespero apoderam-se do coração de inúmeras pessoas, mesmo nos chamados países ricos. A alegria de viver frequentemente se desvanece; crescem a falta de respeito e a violência, a desigualdade social torna-se cada vez mais patente. É preciso lutar para viver, e muitas vezes viver com pouca dignidade. Esta mudança de época foi causada pelos enormes saltos qualitativos, quantitativos, velozes e acumulados que se verificam no progresso científico, nas inovações tecnológicas e nas suas rápidas aplicações em diversos âmbitos da natureza e da vida. Estamos na era do conhecimento e da informação, fonte de novas formas dum poder muitas vezes anónimo.
Realço esta afirmação:
Todavia não podemos esquecer que a maior parte dos homens e mulheres do nosso tempo vive o seu dia a dia precariamente, com funestas consequências.
Quem dera à maior parte da humanidade poder queixar-se do capitalismo (numa democracia liberal). A maior parte da humanidade, a que vive pior, na realidade vive numa era pré democrática e pré-capitalista.

Sim, é (parte da) Bíblia, o livro impresso mais caro


Um pequeno livro de salmos publicado em 1640, e que se crê ter sido o primeiro livro impresso no território do que vieram a ser os Estados Unidos, foi arrematado esta terça-feira por 14 milhões e 165 mil dólares (um pouco mais de 10,3 milhões de euros) num leilão promovido pela Sotheby’s em Nova Iorque.

O livro, conhecido como Bay Psalm Book, foi impresso pela comunidade puritana da colónia britânica da baía de Massachusetts, mais precisamente na então recém-fundada povoação de Cambridge, apenas vinte anos após o desembarque em Plymouth dos pioneiros do Mayflower, a quem os americanos chamam “pilgrims” (peregrinos).

Gratidão

Eternamente alegre por um dia de exercício na terra.

Blaise Pascal
(Penúltimo verso da oração que teve sempre com ele, de 23 de novembro de 1654 ao dia da morte, 19 de agosto de 1662)

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Vaticano II em Roma

Ainda não li a exortação apostólica de Francisco (que agora já está em português no vatican.va). E só li títulos dos comentários. Assim de repente, parece que o Vaticano II chegou a Roma. Ou então vem aí o Vaticano III.

Haiku reformado

Diante de Ti
nas nossas diferenças,
todos iguais,
porque vivemos todos no nosso erro,
diante de Ti
e uns diante dos outros.

Karl Barth

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Descentralizemo-nos, diz Francisco

Descentralizemo-nos, diz Francisco, porque o centro está em todo o lado. Somos católicos. O centro é Cristo. E ele até tinha uma certa atração pelos decentralizados, as margens, as periferias. Vem na exortação  "Evangelii Gaudium", que ainda não está em português.

Acrescento no dia 27: Como me sugeriu Fernando Cassola, o texto está em português na Rádio Vaticano. E como aponta Octávio Carmo (nos comentários), na Diocese de Braga.

João Miguel Tavares e o "címbalo que tine"

João Miguel Tavares no "Público" de hoje:

Toda a crítica política séria que
em 2013 não venha acompanhada
de uma alternativa concreta e
praticável é, citando São Paulo,
“como bronze que ressoa ou
como címbalo que tine”. É um
convite ao vazio.

Neste blogue só me interessa a inspiração religiosa da frase. Para conhecer a opinião liberal do cronista, ler aqui.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Anselmo Borges: "As perguntas do Papa Francisco. I"

Texto de Anselmo Borges no DN de sábado passado (aqui):


É normal, antes de cada Sínodo dos Bispos, auscultar os diferentes episcopados sobre a problemática a debater. Mas, desta vez, foi diferente, de tal modo que os media mundiais deram e dão imenso relevo ao tema. Que se passa?

Por um lado, o Papa Francisco não dirige o seu inquérito apenas aos cardeais, bispos, padres. Ele quer que todos sejam ouvidos, que o inquérito chegue às bases, pois, como constantemente acentua, a Igreja somos nós todos. Ele tem uma visão da Igreja enquanto um Nós, Povo de Deus. Por isso, não mantém uma concepção vertical de governo da Igreja, mas sinodal (a palavra é rica, quando se atende ao étimo grego: reunião, caminhar juntos, fazer juntos o caminho). No fim, será ele, em última instância, a decidir, mas sinodalmente, não separado dos outros bispos nem dos fiéis.

Por outro lado, sendo a próxima Assembleia do Sínodo sobre a família, Francisco quer saber o que pensam os católicos sobre esse tema fundamental e decisivo, sem ocultar as questões, mesmo que difíceis e fracturantes.

Assim, quer saber o que é que os católicos sabem da concepção da Igreja sobre a família e se essa doutrina é aceite. Que é que se pensa sobre o fundamento natural da família? Aceita-se o conceito de lei natural com relação à união entre o homem e a mulher? Como enfrentar os desafios que se colocam no caso de não praticantes ou não crentes pedirem o matrimónio? Que caminhos pastorais se tem seguido na preparação dos casamentos, no sentido da oração em família e transmissão da fé às novas gerações pelas famílias, e em relação a casais em crise?

Francisco não ignora situações matrimoniais difíceis. Por exemplo, a convivência experimental, uniões livres de facto. Como vivem os baptizados as suas irregularidades? São conscientes delas, manifestam indiferença, vivem com sofrimento a impossibilidade de receber os sacramentos? Quantas são as pessoas divorciadas e recasadas e que pedem os sacramentos da eucaristia e da reconciliação? A simplificação do processo de declaração de nulidade do vínculo matrimonial poderia ajudar nestes casos? Que pastoral existe para estas situações?

O Papa também quer saber se no respectivo país há uma lei civil que reconhece as uniões de pessoas do mesmo sexo equiparadas ao casamento. Que pastoral para as pessoas que escolheram viver segundo este tipo de uniões? Se adoptaram crianças, como comportar-se em ordem à transmissão da fé? Em geral: no quadro de situações matrimoniais irregulares, com que atitude se dirigem os pais à Igreja no sentido da educação religiosa dos filhos e que prática sacramental existe nestes casos?

Quanto à abertura dos esposos à vida: que conhecimento têm da doutrina oficial da Igreja sobre a paternidade responsável e que avaliação fazem dos diferentes métodos de regulação dos nascimentos? Que métodos naturais promove a Igreja? Que consequências tem a prática dos anticonceptivos na participação dos sacramentos, nomeadamente, na eucaristia? Como favorecer o aumento dos nascimentos? A família é um lugar privilegiado para o encontro com Cristo?

A pergunta, agora, é como procederão as Conferências Episcopais para que todos os interessados possam participar. Por exemplo, entre nós, teoricamente há pelo menos cinco milhões de católicos que poderão responder. Quem e como vai fazê-lo, para que haja na Igreja uma tomada de consciência real do que se passa?

Só dentro de dois anos saberemos as resoluções que Francisco tomará. Mas não é impossível antecipar linhas de orientação - no próximo sábado, apresentarei as minhas respostas pessoais. 1. Evidentemente, a Igreja continuará a afirmar o seu ideal de matrimónio: uma união definitiva e fiel de amor entre um homem e uma mulher, aberta à procriação. 2. Nenhuma criança será discriminada, seja qual for a sua origem. 3. Alguma abertura aos anticonceptivos, com a revisão da Humanae Vitae. 4. Admissão dos recasados, dentro de certas regras, à comunhão. 5. Maior compreensão e acolhimento dos homossexuais, mas sem admissão institucional ao casamento e à adopção. 

Mais uma camisola para Francisco


Foi no dia 22 que o Sr. Blatter deu uma camisola de futebol do Papa, que, sabe-se agora, mandou reformular os roupeiros do Vaticano para acolher a avalanche de camisolas de futebol. Consta, por outro lado, que o Papa puxou o Sr. FIFA pelo braço e disse-lhe "Tienes que ser mas cristiano!"

domingo, 24 de novembro de 2013

Bento Domingues: "A família: a felicidade controversa?"

Bento Domingues no "Público" de hoje:

A Pastoral da Família não se destina a restaurar uma herança em ruínas e algo idealizada, por isso é ainda mais necessária e urgente.

1. Não há só um modelo de família. Ao longo dos tempos e segundo a diversidade de povos e culturas, os historiadores e os antropólogos podem testemunhar tanto a pluralidade das suas formas como a sua presença constante.

Mesmo hoje, em Portugal, apesar da maior fragilização dos laços conjugais, o aumento dos divórcios, a diminuição dos casamentos e dos filhos, a família apresenta-se, do ponto de vista da realização e da estabilidade emocional, a grande referência. Mais de 70% dos portugueses continua a associar a felicidade à vida em casal. O fim de uma relação não põe em causa esse ideal, embora seja vivido em novos cenários (1). É sugestiva a descrição que alguns sociólogos espanhóis fizeram do ciclo vital dos nascidos no ano 2000. Antigamente, o ciclo vital constava de três ou quatro etapas, agora, de modo mais complexo e diluído, pode estender-se a nove.

A experiência vital começa, para muitas crianças, com o cenário, feliz e curto, de um lar normal, de um filho pequeno com os seus pais. A esta breve etapa, segue-se outra, um pouco mais longa: esta mesma criança vivendo só com a mãe, separada ou divorciada. Uma terceira experiência é, talvez, a de um adolescente vivendo num novo lar com a sua mãe recasada e com uma figura menos atractiva, a de um pai adoptivo ou padrasto. Chegado à maioridade, esse jovem unir-se-á à sua noiva, vivendo com ela em união de facto. Num quinto ciclo vital, a maioria destes jovens acaba por se casar com o seu par e, depois de poucos anos, entram na sexta etapa, a dos divorciados. Irão passar por um tempo de solidão, mas voltam a casar. Chegados a esta etapa de maturidade, ficarão viúvos e irão para um lar ou residência de terceira idade, onde, esporadicamente, o filho ou a filha ou o neto o irão visitar (2).

2. Perante esta situação – com esta ou outras configurações – a “Pastoral da Família” pode ser tentada por um regresso ao passado que já deu quase tudo o que tinha a dar e se tornou inabitável. O cristianismo, aliás, não é a nostalgia de um paraíso perdido, mas a saudade de um futuro de transfiguração. É verdade que muitos pais, ao não desejarem reproduzir um mundo em que nem sempre foram felizes, não encontraram as alternativas que imaginavam. Por outro lado, certa educação liberal, preocupada em não impingir valores convencionais, deixou os jovens abandonados a si mesmos ou como se diz, com desencanto, obrigados a não acreditar em nada.

A Pastoral da Família não se destina a restaurar uma herança em ruinas e algo idealizada, por isso é ainda mais necessária e urgente. Deve ser mais exigente. Além do esforço para estabelecer laços estimulantes entre gerações, tem de saber escutar, acompanhar, dialogar com todas estas novas formas de viver em casal, propondo a descoberta existencial da hierarquia de valores, sem tentar impor o que só pode ser escolhido.

A pergunta a que temos de responder, por obras e palavras, é esta: que podemos nós, Igreja – de solteiros e casados, de casados e recasados – aprender com estas novas experiências onde o bem e o mal, o santo e o perverso, os êxitos e os fracassos humanos andam sempre mais ou menos misturados? Que caminhos abrem estas realidades a outras formas de viver o Evangelho?

Os casais cristãos – os que não se julguem o casal-modelo – em vez de guardar a sua experiência num cofre forte familiar, como diz o Papa, podem estimular as novas gerações a desenvolver uma espiritualidade que não tem necessariamente de reproduzir as mais recomendadas no mercado religioso do passado e no mundo clerical. Alguém dizia que as homilias dos padres, nos casamentos, oscilavam entre as tentativas apoetadas e as apatetadas, tendendo todas para um moralismo sem ética praticável.

As apresentações da doutrina católica da família tendem a mostrar um itinerário que arranca do Antigo Testamento e vem até aos nossos dias como uma auto-estrada, com raros e pequenos desvios. A ocultação das sombras e do escuro não favorece a verdade.

O papa Francisco sabe que as questões da contracepção, da coabitação, do divórcio, das novas uniões, das uniões entre pessoas do mesmo sexo, a adopção de novas tecnologias de fertilidade, etc., apresentam dificuldades que não podem ser resolvidas de forma abstracta, com mais ou menos tolerância ou intolerância. A consulta que desencadeou é mais do que um inquérito. Sendo um método de dinamização de toda a Igreja, não se espere que fique tudo resolvido no Sínodo.

3. Jesus Cristo nasceu e cresceu numa família de cultura e religião judaicas. As narrativas do Novo Testamento não ocultam o longo contencioso que viveu com esta instituição. A fonte das suas reacções mal- humoradas acabam por ser o seu maior elogio. O desígnio de Jesus era lançar a corrente do mundo família: reunir todos os filhos de Deus dispersos. Não aguentava que a sua família o quisesse prender ao modelo que ele queria superar. Não suportava, por outro lado, que o direito mosaico fosse invocado para abandonar a mulher aos caprichos do marido (3).

A família será sempre uma feliz controvérsia.

1) Cf. Família em Portugal Social de A a Z, p 76, 2013
2) Cf. Fernando Vela López (or.) Atentos a los giros del mundo, San Esteban, Salamanca 2006 p185
3) Cf. Jo 11, 52; Mc 3, 20 e 31-39; Mt 19 1-12

Fernanda Câncio: "As famílias dos bispos"

Texto de Fernanda Câncio, no DN de 22 de novembro, caindo no erro sinedoqual de tomar Lisboa pelo país, D. Manuel Clemente pelos bispos portugueses. Penso eu. (Agradeço a um leitor que me alertou para o texto). De resto, entre esta e outras confusões, talvez algo se aproveite. É ler.

Que situações críticas da família no mundo contemporâneo podem tornar-se um obstáculo ao encontro da pessoa com Cristo?" Não se assuste, a pergunta não é minha: faz parte do questionário para o Sínodo da Família, iniciativa do Papa vertida, pelos bispos portugueses, em 57 questões passíveis de resposta online. A maioria com opções para cruzinha, como nesta: "Aborto"; "redução do cristianismo a um sentimentalismo, a um moralismo, a uma ideologia"; "cuidar de idosos ou doentes"; "divórcio ou separação"; "doença"; "individualismo"; "infertilidade"; "monoparentalidade"; "sexualidade desordenada"; "situação económica"; "uniões de facto"; "uniões entre pessoas do mesmo sexo"; "outro (especifique)". 
Então o Papa acha que a sua Igreja tem andado muito obcecada com aborto e homossexualidade e ali está o aborto em "primeiros" mais a "união das pessoas do mesmo sexo" como empecilhos a estar com Cristo? Calma: esta é a versão que os bispos de cá deram à coisa. No original, que nem menciona o aborto, esta questão tem resposta "aberta" (adotada noutros países). Por cá, porém, faz-se mais do que condicionar respostas: mudam-se e complicam-se as perguntas. O original fala de "situações críticas na família", ou seja, dentro. O "da" permite misturar, nas hipóteses sugeridas, o conceito social e legal de família e seu afastamento do ideal católico - as tais "obsessões" - com problemas no seu seio. 
Mas olhemos melhor as respostas. Se nos problemas "dentro" faz sentido incluir doença e infertilidade (por acaso uma doença), "situação económica" e "individualismo", como compreender que não haja rasto da violência doméstica, e, citando a conferência episcopal num documento recente, da "forte sujeição [da mulher] ao homem", sua "opressão" e "menorização social e cultural"? Bem sabemos que para a CEP estas situações estão "graças a Deus a ser progressivamente ultrapassadas" (ainda bem que a divindade acordou para o problema), mas será que os bispos não se lembraram que levar pancada no casamento ou morrer de morte matada pode obstar ao encontro com Cristo? Ou estão numa de humor negro? 
Por outro lado, se estamos a falar da "família católica" - e essa só há uma, a hetero unida pelo sacramento do matrimónio e mais nenhuma - que fazem ali, como suas "situações críticas", "sexualidade desordenada", "monoparentalidade", mais o "divórcio ou separação"? Aí já não há, ou nunca houve, "família", não é verdade? A não ser que, em revolução inconsciente, a CEP esteja a admitir que há "famílias", plural, e não só "família", singular. O que explica a questão, na senda do inquérito original (o quanto terá custado aos nossos bispos fazê-la) sobre a forma de agir, "em vista da transmissão da fé", quando há "uniões do mesmo sexo que têm crianças a seu cargo". Para quem propõe um referendo sobre coadoção (que não é mais do que o reconhecimento legal da existência, e proteção, de crianças nessas relações), a pergunta há de ser blasfémia.

Família moderna

Recorrendo a Fernando Vela López, Bento Domingues resume no "Público" de hoje o que é a família nos tempo atuais:
A experiência vital começa, para muitas crianças, com o cenário, feliz e curto, de um lar normal, de um filho pequeno com os seus pais. A esta breve etapa, segue-se outra, um pouco mais longa: esta mesma criança vivendo só com a mãe, separada ou divorciada. Uma terceira experiência é, talvez, a de um adolescente vivendo num novo lar com a sua mãe recasada e com uma figura menos atractiva, a de um pai adoptivo ou padrasto. Chegado à maioridade, esse jovem unir-se-á à sua noiva, vivendo com ela em união de facto. Num quinto ciclo vital, a maioria destes jovens acaba por se casar com o seu par e, depois de poucos anos, entram na sexta etapa, a dos divorciados. Irão passar por um tempo de solidão, mas voltam a casar. Chegados a esta etapa de maturidade, ficarão viúvos e irão para um lar ou residência de terceira idade, onde, esporadicamente, o filho ou a filha ou o neto o irão visitar.
É o que é. Mas não é o que eu quero. E é por isso que é bom ouvir o que diz a Igreja sobre a família.

Realeza

Sou pequeno e Tu também.
Sou fraco e Tu também.
Sou homem e Tu também.

Aelredo de Rievaulx

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Um brinde a C. S. Lewis


Faz amanhã 50 anos que morreu C. S. Lewis e ainda não pensei na forma como vou assinalar a data. Mas beber um cálice de Porto até é uma boa sugestão.


Numa conversa com empregados da Electric and Musical Industries Ltd., em Heyes, Middlesex (Inglaterra), no dia 18 de Abril de 1944, perguntam-lhe a C. S. Lewis:

Qual das religiões do mundo confere aos seus seguidores maior felicidade?

E ele respondeu:  "Qual das religiões do mundo confere aos seus seguidores maior felicidade? Enquanto dura, a religião da auto-adoração é a melhor. Tenho um velho conhecido já com seus 80 anos de idade, que vive uma vida de inquebrantável egoísmo e auto-adoração e é, mais ou menos, lamento dizer, um dos homens mais felizes que conheço. Do ponto de vista moral, é muito difícil. Eu não estou a abordar o assunto segundo esse ponto de vista. Como vocês talvez saibam, não fui sempre cristão. Não me tornei religioso à procura da felicidade. Eu sempre soube que uma garrafa de vinho do Porto me daria isso. Se vocês quiserem uma religião que vos faça felizes, não recomendo o cristianismo. Tenho certeza que deve haver algum produto americano no mercado que será de maior utilidade. Mas quanto a isso, não sei como vos ajudar.

Nuno Rogeiro: Um género de sexo

De Nuno Rogeiro na "Sábado" de hoje. O documento episcopal em causa pode ser lido aqui.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O que é evangelizar

É um aspeto extremamente importante da missão evangelizadora, um tipo de ajuda que se pode propor a qualquer pessoa, prescindindo da sua confissão ou da sua fé. Não consiste em dizer em primeiro lugar: deixa as tuas convicções e acede às minhas, que são melhores; consiste em oferecer uma ajuda a partir da experiência de Jesus, com a qual cada homem deve confrontar-se se quer chegar à liberdade dos filhos.

Carlo Maria Martini

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Bento Francisco: Fé como ilusão de luz

Elisabeth Nietzsche

Diz Bento Francisco (e ficamos a saber que o pastor luterano deu nome bíblico à filha mais nova) no número 2 de "Lumen Fidei":

Nos tempos modernos, pensou-se que tal luz poderia ter sido suficiente para as sociedades antigas, mas não servia para os novos tempos, para o homem tornado adulto, orgulhoso da sua razão, desejoso de explorar de forma nova o futuro. Nesta perspectiva, a fé aparecia como uma luz ilusória, que impedia o homem de cultivar a ousadia do saber. O jovem Nietzsche convidava a irmã Elisabeth a arriscar, «percorrendo vias novas (…), na incerteza de proceder de forma autónoma». E acrescentava: «Neste ponto, separam-se os caminhos da humanidade: se queres alcançar a paz da alma e a felicidade, contenta-te com a fé; mas, se queres ser uma discípula da verdade, então investiga». O crer opor-se-ia ao indagar. Partindo daqui, Nietzsche desenvolverá a sua crítica ao cristianismo por ter diminuído o alcance da existência humana, espoliando a vida de novidade e aventura. Neste caso, a fé seria uma espécie de ilusão de luz, que impede o nosso caminho de homens livres rumo ao amanhã.

Bárbara Reis: "Um Papa que nos obriga a olhar"

Na revista 2 ("Público") de domingo passado.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Anselmo Borges: "O enigma da pergunta e a religião"

Texto de Anselmo Borges no DN de sábado, 16 de novembro:


Bertrand Russel, desta vez sem cachimbo

O ser humano é constitutivamente o ser da pergunta, não podendo deixar de perguntar. Mas o próprio perguntar é enigmático. Se perguntamos, é porque não sabemos, mas sobre aquilo de que nada sabemos não perguntamos. Então, o que é que sabemos quando perguntamos? Sabemos sempre de modo imediato e atemático sobre o ser. É sempre no ser que estamos, numa experiência originária.

Mas essa experiência é a do ser na sua ambiguidade, causando-nos, por isso, espanto positivo e negativo e levando-nos à pergunta: o que é? Outra experiência fundamental, explicitando esta, tem que ver com o aparente e o real. Há sempre aquele encontro com o que nos parecia real e era apenas aparente: alguém, por exemplo, parecia cheio de saúde e, afinal, estava doente. Daqui, a pergunta: o que é verdadeiramente? Qual é a realidade última? Como escreve o filósofo Carlos João Correia, a religião é, numa primeira abordagem essencial, "um fenómeno cultural, de natureza pessoal e social, que engloba um conjunto de crenças, acções e emoções organizadas em torno da ideia do que se poderia designar, em termos filosóficos, "como uma realidade última e fundamental"".

Esta realidade última remete-nos e liga-nos ao incondicionado ou, se se quiser, ao absoluto. De facto, o contingente, o efémero, tem como sua condição de possibilidade uma realidade necessária prévia, o incondicionado.

Aqui, pode surgir uma crítica semelhante à que Bertrand Russell fazia a uma causa primeira, a Deus enquanto causa sui, causa de si, causa incausada: se tudo tem uma causa, qual é a causa de Deus?, se o incondicionado é condição de todo o condicionado, qual é a sua causa? Simon Blackburn mostrou que a argumentação de Russell não convence: "Russell terá notado que o argumento da causa primeira era mau, excepcionalmente, terrivelmente mau, uma vez que a conclusão não só não se segue das premissas, mas também na realidade as contradiz. A sua ideia era que o argumento parte da premissa de que "tudo tem uma causa (prévia e distinta)", mas acaba na conclusão de que tem de haver algo que não tem uma causa prévia e distinta, mas "tem em si a razão da sua própria existência". Portanto, a conclusão nega o que a premissa afirma. Ora, a rejeição de Russell é um pouco fraca. Realmente, o objectivo do argumento, na perspectiva teológica, é mostrar que, apesar de tudo o que é material ou físico ter uma causa prévia distinta, precisamente este facto leva-nos a postular algo de diferente, que não tem uma causa prévia distinta. No jargão teológico, isso seria algo que é "necessário" ou "causa sui": algo que é a sua própria causa. E uma vez que isto não se verifica no caso das coisas comuns que nos rodeiam, precisamos de postular algo extraordinário, uma Divindade enquanto titular desta extraordinária auto-suficiência." A questão é realmente a de um ser auto-suficiente.

É raro tematizarmos esta questão essencial, mas ela está lá sempre presente. Carlos João Correia acrescenta: "Mesmo que não quiséssemos, a percepção da nossa mortalidade far-nos-ia relembrar a sua presença silenciosa, pois a morte, enquanto nadificação das nossas possibilidades, faz emergir a própria questão de se ser."

Aceitando o carácter irredutível e necessário de uma "realidade última", fica a questão da relação humana com ela, percebendo-se que varie em função das diferentes mundividências e perspectivas culturais. Assim, "múltiplas posturas designadas como ateias" - pense-se, por exemplo, na concepção marxista de uma realidade última dialéctica - "não deixam, por isso, de serem religiosas". De facto, dá-se uma experiência religiosa, sempre que há "a consciência de dois postulados fundamentais: 1. Para lá da contingência dos fenómenos existe um horizonte em que eles têm sentido; 2. É incontornável para cada ser pessoal uma certa postura de relacionamento com esse mesmo horizonte." Por isso, embora a importância da palavra religião pareça desaparecer a um ritmo galopante do léxico humano contemporâneo, "a sua realidade permanece actual, na medida em que a resposta global às questões centrais da vida permanece tão ou mais viva do que antes".

domingo, 17 de novembro de 2013

Bento Domingues: "Sondagem ou dinamização da Igreja?"

Bento Domingues no "Público" de hoje. Aqui (agora o texto é de acesso livre).

Ou muito me engano, ou este processo é o começo de uma revolução. Não se pede aos católicos que estejam com os Bispos e o Papa. O que se procura é que os Bispos e o Papa estejam com a Igreja. Com a parábola do Bom Pastor não se pretende que as ovelhas estejam com o pastor, mas que este esteja com o rebanho.



1. Segundo o Pew Research Center (PRC), o centro de sondagens mais respeitado, em assuntos religiosos, em cada dez pessoas, oito são religiosas. Mais de 80% da população mundial faz parte de uma religião organizada.

A religião mais numerosa continua a ser o cristianismo. Conta com 32% da população mundial. Segue-se o islão com 23% e o hinduísmo com 15%. Enquanto o cristianismo e o islão estão em vários pontos do mundo, o hinduísmo concentra-se quase exclusivamente na Índia. Metade de todos os cristãos é católica romana, 37% são protestantes e 12% ortodoxos.

Estas realidades estão sempre em recomposição, mas indicam que as religiões não estão para acabar tão cedo. Têm-se revelado até mais resistentes do que as repetidas desqualificações críticas a que têm sido submetidas. Muitas vezes com razão. De reveladoras do sentido da vida, de fontes de renovação da esperança, de resistentes ao niilismo, abrindo horizontes ilimitados tornaram-se, por manipulações várias, instrumentos do medo. Deixaram-se envolver em absurdas guerras e torturas, dando campo livre ao fanatismo em nome de Deus.

De religião para religião, as formas de expressão simbólica e ritual, as normas que as regem, as exigências éticas a que obedecem são muito diversas. As interrogações, as perplexidades e as dúvidas suscitadas pelo mistério de existir nem sempre desaguam nas respostas que as diferentes religiões codificaram. O Espírito de Deus sopra onde, quando e como quer. De qualquer modo, as formas religiosas e as suas instituições são para o ser humano e não o contrário. O teste de autenticidade das celebrações litúrgicas, das vivências espirituais e das experiências místicas, dentro e fora das instituições, prova-se na relação com os excluídos.

2. Os números, no campo religioso, só por si, não revelam - podem até ocultar - a saúde espiritual ou as crises que o atravessam. No mundo católico, há muitas vozes a reclamar mudanças e também se nota que algumas temem que o Papa Francisco comece a duvidar da infabilidade do seu magistério. Ninguém espera que, ao procurar saber como vivem e pensam os membros da Igreja, seja para fazer o rol dos erros a combater, uma espécie de reedição actualizada do Syllabus de Pio IX (1864). É mais provável que ele acredite que o sentido da responsabilidade pela vida cristã não seja um monopólio de bispos e padres e queira conhecer a sensibilidade actual dos católicos.

 O melhor lugar para fazer a leitura dos sinais dos tempos não é, necessariamente, o Vaticano. Há muitos mundos no mundo, muitas comunidades cristãs e muitas sensibilidades católicas. Não há nenhum boletim meteorológico especializado em indicar a temperatura da fé, nas diferentes regiões da terra. Nada como escutar as experiências das pessoas, das famílias, dos grupos, das comunidades espalhadas pelo mundo. Não basta.
3. Está convocada, para Outubro de 2014, a III Assembleia geral extraordinária do Sínodo dos Bispos destinada a enfrentar os desafios da família, no nosso tempo. Será que os bispos e o Papa já não acreditam na doutrina que elaboraram, tão segura e clara, a partir da indissolubilidade do matrimónio? Será que pretendem informar-se da sorte desta doutrina, na sociedade e na Igreja?

Se fosse apenas uma questão de informação, nada como encomendar um inquérito a um instituto internacional especializado, com garantias científicas. Se fosse para dar a conhecer a Doutrina católica, não era preciso tanta pergunta. O que se pretende afinal?

Era costume dizer que onde está o bispo, está a Igreja. Com os Bispos reunidos em Sínodo com o Papa, não é preciso interrogar a Igreja!

Ou muito me engano, ou este processo é o começo de uma revolução. Não se pede aos católicos que estejam com os Bispos e o Papa. O que se procura é que os Bispos e o Papa estejam com a Igreja. Com a parábola do Bom Pastor não se pretende que as ovelhas estejam com o pastor, mas que este esteja com o rebanho. É por isso que não se trata aqui apenas de um inquérito de opinião. É, sobretudo, a oportunidade de que a leitura dos sinais dos tempos referentes à situação actual da família seja feita pelo conjunto da Igreja. O processo desencadeado faz supor que o Papa e os Bispos nada querem fazer sem as comunidades cristãs. A não ser assim, estariam a enganar o laicado e a desobedecer ao grande princípio: aquilo que a todos diz respeito deve ser tratado por todos.

Não julgo que este processo possa dar azo a cisões na comunidade católica. Se todos puderem falar e ouvir chegar-se-á à conclusão de que a Igreja sempre foi construída por várias tendências. A arte dos pastores consiste em encontrar os meios, os caminhos de diálogo para estimular a comunhão na diferença.


Muito cedo na Igreja foi preciso reunir um concílio, para ser possível extrair do conflito novos horizontes e novas práticas, no seio da mesma Igreja (Act 15). Vai sendo tempo de pensar no Vaticano III. Que este Sínodo sobre a problemática actual da família seja um bom ensaio.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

D. Manuel Clemente ainda é bispo do Porto segundo o "Inimigo Público"

O humor não tem de ser verdadeiro. Tem de ser engraçado, jogando com alguma verosimilhança. No caso desta "notícia" do "Inimigo Público" de hoje, o tiro sai ao lado. O humorista, porque este tipo de humor faz-se a ler as verdadeiras notícias, não deve ler notícias desde maio passado.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Jesus teve um julgamento justo, diz José María Ribas Alba

Imagem tirada do NY Daily News

Jesus teve um julgamento justo, diz José María Ribas Alba, professor de Direito Romano na Universidade de Sevilha. "O julgamento de que resultou a condenação à morte de Jesus cumpriu todas as regras jurídicas vigentes na época e não se tratou de uma farsa legal, como muitas vezes é afirmado", refere a notícia do DN (aqui).

E o essencial: "Intitulado 'Proceso a Jesús' (Ed. Almuzara), segundo o seu autor, [o livro] demonstra que os acontecimentos que levaram à crucificação de Jesus "não foram uma reação arbitrária da época, camuflada sob aparências jurídicas, mas um verdadeiro e legítimo processo".

Estas revisitações periódicas do (duplo) julgamento de Jesus são curiosas. Ao contrário do que diz o autor, na realidade, tendem mais a confirmar o resultado do julgamento do que a dizer que foi a tal farsa legal. Procurei conhecer mais a posição do autor (em Espanha a notícia saiu há pelo menos cinco dias), mas não encontrei nenhum autor que dissesse que o julgamento foi uma farsa - ou mesmo ilegítimo. Na verdade a questão não é essa. Mais comum, nos teólogos e exegetas, é afirmarem que com a vida que Jesus levava, não poderia morrer de velhice.

Jesus é condenado por blasfémia pelos sacerdotes (principal poder religioso, judaico) e por subversão pelo poder romano (político). E havia matéria para tal, porque se dizia Filho de Deus (e tinha atitudes que os judeus só atribuíam a Deus, de desde perdoar os pecados a acalmar tempestades e a dizer "Eu sou", que em hebraico e aramaico remetia para o nome impronunciável de Deus) e porque se dizia rei dos judeus. Matéria havia. A questão é que a letra pode matar com justiça quando a justiça é levada à letra. O reino não era deste mundo. Mas se era rei, nem é preciso ouvir o resto - está contra o império. E o ser humano não é para o sábado. Se não é para o sábado, não é para Deus, logo...

Por outro lado (e talvez daí venha a farsa, mas repito que gostava de saber quais os autores que dizem que foi farsa), há de facto, segundo os evangelhos, uma tentativa de condenar mas sem querer sujar as mãos. Os sacerdotes condenam-no, depois de andar de "Anás para Caifás" , mas não o matam. Passa para o poder civil. Este até não quer matá-lo (Pilatos ainda tenta a troca por Barrabás, mas o poder popular prefere o salteador ao profeta), só que acaba por fazê-lo não sem antes lavar as mãos.

Esta transição entre poder religioso e civil faz-me sempre pensar nos processos da Inquisição.

Jesus, quanto a mim, continua a ser (também) símbolo do inocente condenado, da vítima da burocracia, do trucidado com alheamento de responsabilidades. Vítima de sistemas que pensam que são justos. E isso é que é terrível.

Pode ser que tenha uma aparição atrás das grades

Já tinha ouvido falar da história (não sei onde). Julgo que havia mais causa do que o ordenado.  Agora vem na "Sábado" de hoje.


Kierkegaard: "O presente escritor não compreendeu o Sistema"

Kierkegaard escreveu isto em "Temor e Tremor" e à custa dele já dei umas boas gargalhadas hoje. Não, o "Sistema" não é o sistema de que tanto se fala no meio futebolístico, nem a frase se refere ao Facebook. "Sistema" era a filosofia de Hegel.

O presente escritor não compreendeu o Sistema, não sabe se ele existe realmente nem se está terminado; a sua débil cabeça já está bastante sobrecarregada por pensar como, nos nossos dias, toda a gente tem uma tão prodigiosa cabeça, uma vez que toda a gente tem tão prodigiosos pensamentos.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Porto quer novo bispo. E tem todo o direito

Notícia do CM de ontem. Inclui dois candidatos ao cargo. Presumíveis mas certamente involuntários. Ambos muito novos no episcopado.

Anselmo Borges: "Não é bom descer abaixo da razão"

Texto de Anselmo Borges no DN de sábado passado.


Aristóteles definiu o homem como "animal que tem logos" (razão, palavra). Daí vem a definição tradicional do homem como animal racional. É claro que a coisa é mais complexa, mas não há dúvida de que a razão é determinante. E embora nas igrejas raramente se ouça o apelo à inteligência e à razão, o Evangelho segundo São João começa dizendo que "no princípio era o Logos (o Verbo, a Palavra, a Razão) e tudo foi criado por ele". É por isso que o mundo é investigável e inteligível: foi criado pelo Logos. Isto significa também que o homem se deve orientar pela razão.

É evidente que o ser humano é um ser complexíssimo, com três cérebros e um só, com inconsciente e emoções. Mas determinante tem de ser a razão. Por conseguinte, não é bom descer abaixo da razão. Mas que tantas vezes se desce abaixo da razão - disso não há dúvida. Exemplos quotidianos um pouco a esmo. Não é segundo a razão, enquanto um banco se afundava a ponto de ter de fechar, haver salários milionários para alguns. Não está de acordo com a razão a austeridade não ser equitativa: continuam as mordomias, os privilégios, o número de multimilionários aumenta. Não é segundo a razão ter vivido na euforia gastadora irracional e esbanjar recursos à toa ou para vantagem apenas de alguns, espoliando o bem comum. Não é segundo a razão ter aberto instituições de ensino superior de modo cego. Não é por apelidar alguém de "pulha", "bandalho", "estupor", mesmo que o seja, que se tem mais razão.

Sempre considerei que a universidade deveria ser o lugar da razão, o Parlamento das razões. Ora, isso é incompatível com o que se vê frequentemente, nomeadamente, nas festas académicas dos estudantes. Porque não está de acordo com a razão puxar alguém pela trela ou pô-lo/pô-la de joelhos ou a rastejar ou a beber seja o que for por um penico ou a berrar histericamente ladainhas de palavrões ou a beber pura e simplesmente até cair de bêbedo e inconsciente ou a fazer aquilo que não seria decente aqui chamar... Uma coisa é o humor crítico, sempre saudável, porque é expressão de inteligência; outra é a descida à noite da irracionalidade e da estupidez.

Muito jovem, tinha a ideia de que a todos deveria ser dada a possibilidade de, pouco antes do fim da vida, escrever cinco ou seis linhas sobre o que lhes tinha sido dado ver da vida, um pensamento essencial sobre a existência. Essa seria a imensa biblioteca da humanidade. Ora, isso hoje seria quase possível através dos meios informáticos. A internet é um meio gigantesco ao serviço da comunicação e transmissão de saberes e informações. Mas quem algum dia passou os olhos pelos comentários que por lá viajam percebeu até onde podem descer a ignorância estúpida, o ódio vil, a malvadez. Lá estão aqueles que, escondidos cobardemente no anonimato e descendo abaixo da razão, vomitam o que têm: boçalidade, obscenidades, loucuras putrefactas. De tal modo, que o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos de Estrasburgo acaba de dar razão à justiça da Estónia, que condenou um site da internet por causa do conteúdo ofensivo dos comentários dos leitores e responsabiliza pela primeira vez os media online por tudo o que neles apareça, incluindo os comentários.

Quando tudo parece desabar, é preciso manter alguma serenidade e nunca descer abaixo da razão. A situação do País é de uma gravidade só comparável à de situações extremas ao longo da sua história. O mais dramático é as pessoas terem perdido a confiança e a esperança: não se sabe exactamente onde se está e, muito menos, para onde se vai. Vive-se numa perplexidade paralisante face a um futuro sem metas fiáveis e credíveis, sem horizontes. O pior. Neste contexto, não se entende que os primeiros responsáveis pela condução do País - governo e oposição - não se encontrem para, pondo de lado os interesses partidários, dialogar e encontrar um consenso mínimo de entendimento quanto ao que se quer e ainda se pode fazer pelo futuro.

Uma vida não reflectida, sem o uso da razão, sem ética, não é digna de ser vivida, disse Sócrates.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Deus ainda tem futuro?

Pode ouvir aqui a reportagem sobre o colóquio "Igreja em Diálogo", que decorreu em Valadares nos dias 12 e 13 de outubro. Ainda não a ouvi (tive nela um modesto contributo), mas tendo em conta os conferencistas (estive lá, como já aqui disse, mas ainda não escrevi sobre o assunto), garanto que vale a pena.

Ensinamentos magisteriais: Zamagni, coautor da "Caritas in veritate"


É óbvio que não são os papas que escrevem as encíclicas de uma ponta à outra, principalmente as que abordam assuntos sociais.

Jean-Yves Calvez escreveu partes da "Populorum progressio". Ratzinger e Fisichella escreveram a "Fides et Ratio" ("FR", que alguns dizem ser, afinal, de Fisichella et Ratzinger), que não é de assuntos sociais. E agora não me lembro do nome do jesuíta que redigiu partes da "Quadragesimo anno" (mas logo à noite a minha memória será reavivada com uns apontamentos que não tenho aqui). Ora, um comunicado da Santa Sé deixou escapar que Zamagni colaborou na "Caritas in veritate".

Sandro Magister escreveu no seu blog (mas li aqui):
O fato de Zamagni ter sido um dos especialistas consultados para a escritura da "Caritas in veritate" era dito e escrito há muito tempo, sem quaisquer desmentidas. A mesma coisa foi dita e escrita por Ettore Gotti Tedeschi. Mas que uma indiscrição de tal porte figure em um comunicado da Santa Sé, não, isso nunca tinha acontecido, ainda mais para uma encíclica de 2009, tão próxima nos anos e com o seu autor ainda vivo. 
 De fato, alguns no Vaticano devem ter percebido tal passo em falso. Ao imprimir algumas horas depois o mesmo comunicado da nomeação de Zamagni, o "L'Osservatore Romano" cortou as duas linhas fora de lugar. Mas que permaneceram página web da Sala de Imprensa vaticana. 
 Se não é mais secreta a identidade de um dos escritores da Caritas in veritate, resta agora descobrir quem escreveu aquelas duas linhas. Normalmente, os perfis biográficos publicados pelo Vaticano são misturados com a farinha do recém-nomeado.

Quer responder às perguntas do Papa?

Pode fazê-lo no Religionline.

Esses romanos...

Rome Reborn 2.2: A Tour of Ancient Rome in 320 CE from Bernard Frischer on Vimeo.

Roma, uns aninhos depois da liberdade para o cristianismo. Ano 320. Manda Constantino. Espantoso.

Apenas um edifício se aguentou tal e qual até aos dias de hoje. Sabe qual? Quem conhece minimamente Roma de certeza que já nele entrou.

Bento Domingues: Enterrar o "tridentismo"

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem.

domingo, 10 de novembro de 2013

Vasco Pulido Valente: O inquérito do Papa Francisco

No "Público" de sábado, 09 de novembro

E mais esta. Vamos lá ver se é assim mesmo

Ao que parece, o Papa Francisco quer voltar a dar a palavra a todos os católicos e ouvir todas as pessoas de boa vontade.

Bento Domingues
Público, 10-11-13

Bento Domingues: "Acabar com o tridentismo"

Bento Domingues no "Público" de hoje:

Recorrer à expressão “tridentinismo” soa mal e não fi gura no dicionário, mas é uma descoberta feliz de G. Alberigo, um grande historiador italiano. Serve para designar o sistema ligado ao prestígio do referido concílio que, na Igreja Católica, fez depender tudo — governo, teologia e disciplina — do poder absoluto do papado romano e da sua cúria. Em nome da unidade religiosa e da obediência ao sucessor de Pedro, reprimia o que o pudesse pôr em causa, considerando a emancipação política, cultural e religiosa do mundo moderno apenas um somatório de erros que o envenenava.

Texto todo aqui, amanhã.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

É novo

Homero é novo, esta manhã, e talvez nada seja tão velho como o jornal de hoje.


Charles Péguy 

100 anos de Camus

Faz hoje 100 anos que Camus nasceu. A notícia que aqui reproduzo é do "Público" deste 7 de novembro.

É muito difícil pensar a fé e o sentido da vida - duas coisas intrinsecamente ligadas - sem aludir a Camus e a obras como "O mito de Sísifo", "A peste", "O homem revoltado".

Camus, que, como o texto diz, não é figura consensual, tinha uma grandeza moral e coerência que não encontrávamos (o "nós" é do grupo do seminário de filosofia sobre o existencialismo, no início da década de 1990) em Sartre.

Sartre dizia que o "inferno são os outros". Com Camus sabíamos que o inferno podia estar dentro de nós. Ele defendia que, se alguma redenção houvesse, viria pela arte. O que não chegava, mas já era algo. E os seus livros, com os títulos envoltos num azul turquesa (naquela coleção da Livros do Brasil), sobre o absurdo, ainda fazem sentido.



terça-feira, 5 de novembro de 2013

Natal é quando o presidente da Venezuela quiser

Já se sabia que o Natal é quando o homem quiser. Hoje ficou-se a saber que o homem em questão é Nicolás Maduro e que ele quer que seja em novembro. Li aqui.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

As famosas perguntas do Papa estão no jornal "i"



No "i" de hoje. É normal o Papa consultar o mundo antes de um sínodo. Mas julgo que é a primeira vez que as perguntas aparecem na imprensa. Porquê? Porque nunca tanta atenção mereceu um Papa e as suas iniciativas? Porque há ordens (a começar no Vaticano) para estas coisas aparecerem na imprensa? Terá havido alguma fuga de informação?

Caso contrário, não continuariam estes assuntos escondidos em secretarias eclesiásticas? Ou ainda: algum leigo que me lê foi alguma vez questionado sobre algum assuntos como forma de preparação de um sínodo?

E parabéns ao "i" e a Marta Reis pela publicação do questionário.

Sol para D. José Policarpo


Diz o comentário do "Sol" de sexta-passada que as palavras de D. Policarpo contrariaram "alguns bispos". Sim, contrariaram alguns bispos e indignaram muitos católicos que em blogues e no facebook mandaram o patriarca emérito estudar doutrina social da Igreja. Neste ponto em concreto, pelo menos, ele está bem informado da DSI, que em nenhum dos seus ensinamentos defende a irresponsabilidade que diz que as dívidas não devem ser pagas. Por exemplo.

Bento Domingues: Não deixem tudo para o Papa

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem.

domingo, 3 de novembro de 2013

Bento Domingues: Nenhum Papa é a Igreja

Primeira e última frase do texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:


Se uns católicos projetam sobre o novo Papa os seus desejos de mudança, outros receiam a sua desenvoltura.

(…)

Nenhum Papa é a Igreja. Não deixemos tudo para este iluminado e desarmante argentino.

sábado, 2 de novembro de 2013

Anselmo Borges: "Os dias da memória e da interrogação"

Erich Fried (1921-1988), poeta

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

O escritor Erich Fried escreveu de forma provocatória: "Um cão/que morre/e sabe/que morre/ e pode dizer/que sabe/que morre/como um cão/é um homem." Na história gigantesca do universo, com 13 700 milhões de anos, sabemos que há ser humano, diferente dos outros animais, quando aparecem rituais funerários: eles revelam a presença de alguém que sabe que é mortal, que põe a questão da morte e do seu para lá.

A morte, aparentemente uma realidade tão simples e evidente - tudo o que vive morre, como diz a palavra portuguesa "nada", do latim res nata (coisa nascida) -, é o enigma e o mistério. Platão colocou aí uma das bases do filosofar, como também Pascal, Schopenhauer, Heidegger, entre muitos outros. Sim, a morte é natural, do ponto de vista biológico. Mas o homem não se reduz a biologia. Tem consciência de si enquanto eu, e, assim, abalado pela morte, protestava Unamuno: "Ai que me roubam o meu eu!" Na morte, o homem é confrontado com o nada e angustia-se. Face a algo de concreto que nos ameaça, temos medo; face ao abismo insondável do nada, o que surge é a angústia.

Perante a morte, as palavras falham. Ninguém sabe o que é morrer, esse passar de vivo a morto, já cá não estar. Ninguém sabe o que é estar morto, nem sequer para o próprio morto, como reflectiu o filósofo Levinas. Dizemos, diante do cadáver do pai, da mãe, do irmão, do filho, da filha, do amigo, da amiga: o meu pai, a minha mãe, o meu filho, a minha filha, o meu amigo, a minha amiga, está aqui morto, está aqui morta. Mas isso não faz sentido, pois o que falta é precisamente o meu pai, a minha mãe, o meu filho, a minha filha, o meu amigo, a minha amiga. O que ali está é um resto e o que falta é precisamente o sujeito, alguém. Como se não pode dizer que os levamos ao cemitério, pois ninguém se atreveria a enterrar o pai, a mãe, o amigo, a amiga ou a cremá-los. Também dizemos que vamos visitá-los ao cemitério. Ora, com excepção dos vivos que lá vão, nos cemitérios não há ninguém; apenas lixo biológico, "ossos e podridão", segundo o Evangelho. Pergunta-se então: o que há nos cemitérios, para que a sua profanação seja, em todas as culturas, um crime hediondo? Nos cemitérios, o que há não é senão esta pergunta infinita: o que é o homem, o que é um ser humano?

Nas nossas sociedades tecnocientíficas e citadinas, a morte tornou-se tabu, o último tabu. Tabu já não é o sexo, mas a morte. Não se pode dar sinais de luto, mente-se às crianças e da morte pura e simplesmente não se fala ou, pelo menos, é de mau gosto e de mau tom falar dela.

Não se julgue que isso acontece, porque a morte já não é problema. Pelo contrário, de tal modo é problema, o único problema para o qual uma sociedade que se julga omnipotente nos meios não tem resposta nem solução que a única solução é ignorá-la, como se não existisse. Trata-se de uma sociedade centrada na produção e consumo, no ter, no êxito, no cálculo, no espectáculo, no poder. Ora, a morte interrompe toda esta lógica. Perdeu-se o sentido da morte e, consequentemente, o sentido da vida ou, talvez melhor, perdeu-se o sentido da vida e, consequentemente, o sentido da morte. Mas, então, também se perdeu o sentido ético: de facto, sem a consciência do limite no tempo, não se ergueria a problemática ética na sua urgência da liberdade na definitividade. É o pensamento sadio da morte que, como mostrou Heidegger, obriga à distinção entre existência autêntica e existência inautêntica, entre bem e mal, entre o justo e o injusto, o que verdadeiramente vale e o que não vale. E que dá o horizonte da fraternidade: à beira de morrer, disse H. Marcuse ao amigo Habermas: Sabes, Jürgen? Agora, sei onde se fundamentam os nossos juízos morais: na compaixão.

Mas até a Igreja Católica, na negociação dos feriados, preferiu a Senhora da Assunção aos dias de Todos-os-Santos e dos Finados. Um erro. De facto, estes são os dias da memória (lembrar todos os que partiram) e da interrogação essencial: o que é o homem?, viver para quê?, qual o sentido da existência? Nestas perguntas, transcende-se a morte como facto biológico e abre-se outra dimensão.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

National Security Agency antecipa-se ao Espírito Santo?


Ao ler a notícia de cima, no "Metro" de ontem, numa primeira reação, pensei: "Não me digas que os EUA imaginavam que iriam eleger Francisco". Ou: "A NSA antecipou-se ao Espírito Santo". Pensamentos frívolos, mais do que insensatos. A NSA espiou (espia?) muita gente, aos milhões. Milagre seria se Bergoglio tivesse escapado.

A tira aqui em baixo é do "Público" de ontem.


Exercício para quem gosta de livros

Diz o padre António Rego no livro "Quando a Igreja desceu à terra" (Princípia), de António Marujo, sobre os 50 anos do II Concílio do Vaticano (pág. 28):

"Quando percorro a minha biblioteca e vejo os livros que adquiri ao longo destes últimos 50 anos, noto que há lá livros vivos e mortos. «Mortos» são os «datados», presos a estilos passageiros que nem se situaram no património cultural e espiritual, nem abriram qualquer fresta ao futuro".

António Rego refere-se ao livros de teologia, pastorais, de reflexão cristã. Mas seria um exercício curioso passar pelas estantes pessoais e ver quais os livros vivos e os mortos. Há livros claramente vivos. Há outros evidentemente mortos, mesmo mortos, que poderiam desaparecer sem qualquer prejuízo. E há os mortos que podem ressuscitar num momento qualquer. O mortos costumam ser enterrados quando se muda de casa, por exemplo. A não ser que haja uma esperança na ressurreição final de todos os monos. Tendo mudado de casa várias vezes, confesso que são muito poucos os livros mesmo mortos-mortos. Nos datados", que são os "mortos" de António Rego, vejo sempre qualquer coisa que ainda fumega.

Para quando a primeira cardeal?

É inovação do Papa a nomeação de cardeal de um bispo auxiliar? O Papa Francisco disse no domingo que vai fazer cinco novos cardeais. Um de...