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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

DN: Os perigos e as virtudes de combinar ciência com religião


No DN de hoje. Leia-se com atenção o depoimento de Carlos Filhais. Continuo a pensar que a afirmação de que o Big Bang precisa de Deus ou exige uma intervenção divina é infeliz. Como Fiolhais. Mas pelo que tenho lido noutros lados, a intervenção mais vasta do Papa parece ter em vista os criacionistas que não aceitam o Big Bang nem a teoria da evolução.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

quarta-feira, 16 de julho de 2014

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Uma árvore é um vestido de noiva na Primavera



Para todas as árvores que não aguentaram o temporal

Uma árvore é um vestido de noiva na Primavera
Uma árvore é um leque chinês gigante
Uma árvore é um grande mensageiro de Deus
Uma árvore é filha da Mãe Natureza

Árvores de morangos!
Árvores de xarope de bordo!

Uma árvore é um infantário para os passarinhos
A árvore é um dador de ar
Uma árvore é um leitor de nuvens.

            Macieiras!
Cerejeiras!

Uma árvore é a peruca de Deus.
Uma árvore esconde uma bela história.

            Coqueiros!
Palmeiras!

Uma árvore é a casa de banho de um cão.
Arranha o céu!
No meio de nenhures.
Rodeada de animais maus
Uma árvore é o coro de um anjo.

Árvores vermelhas!
Árvores verdes!

Uma árvore conta a Deus os suspiros da terra.
Uma árvore é sofrimento no deserto.
Uma árvore é um antigo e sensato contador de sensatez.
Uma árvore é uma árvore.



Poema retirado de “Eu sou um lápis”, de Sam Swope (ed. Sinais de Fogo). O texto foi escrito pela menina Maya, do ensino básico, nas aulas de escrita criativa que o escritor Sam Swope deu num bairro multicultural de Nova Iorque.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Anselmo Borges: "Ciência e religião: um desafio, não um conflito"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

George Coyne, s.j.

Ele sabe do que fala. É o jesuíta George Coyne, director emérito do Observatório do Vaticano, onde desempenhou um papel relevante no quadro das relações entre conhecimento científico e religião, dialogando com alguns dos mais prestigiados cientistas contemporâneos: Stephen Hawking e Richard Dawkins, entre outros.

Numa entrevista à US Catholic, defende precisamente que, mesmo que a Igreja nem sempre tenha sido dessa opinião, entre a ciência e a religião não há conflito, mas um desafio, ajudando ambas, desde que se trate da verdadeira fé religiosa e da verdadeira ciência, a compreender um universo dinâmico e criativo.

O universo é "um desafio incrível". Em primeiro lugar, lida-se com números avassaladores: o universo tem 13 700 milhões de anos - mil milhões é um seguido de nove zeros - e o número de estrelas existentes, nos cem mil milhões de galáxias, é um seguido de 22 zeros.

Neste universo gigantesco, não podemos, pois, excluir a existência noutras paragens de vida inteligente. E nós, como aparecemos nós? Isto aconteceu por acaso ou num processo necessário? Tudo foi por acaso ou por necessidade?

A sua resposta: "Segundo a ciência moderna, pelas duas coisas ao mesmo tempo: somos o resultado do acaso e da necessidade num universo fértil." O nosso Sol é uma estrela de terceira geração. Precisamos de três gerações de estrelas para conseguir uma capaz de fornecer os elementos necessários para a vida. É isso que se quer dizer com a fertilidade do universo: mediante processos físicos no universo, construir a química necessária para a vida.

É preciso contar com as leis da natureza. Por exemplo, quando dois átomos de hidrogénio se encontram, pode formar-se uma molécula de hidrogénio, mas também pode acontecer que não, devido às condições de temperatura e pressão. Não deve surpreender-nos que, por acaso, dois átomos se encontrem num momento em que as condições são adequadas, formando uma molécula de hidrogénio. Isso é "acaso", mas também é algo mais. Podemos determinar uma probabilidade de que isso aconteça. Nalgumas galáxias, é mais provável. É uma combinação de acaso e de necessidade, mas, num universo fértil, há muitas possibilidades de que isso ocorra.

Então, "com toda esta química à disposição durante 14 mil milhões de anos, o acaso e a necessidade trabalharam juntos para construir moléculas cada vez mais complexas. Assim, obtemos proteínas, aminoácidos e açúcares, ADN, fígados, corações, e, por fim, o cérebro humano, através da evolução biológica".

Conhecemos, portanto, o processo científico que nos levou a ser o que somos. Foi Deus que fez isto? "Falando como cientista, a minha resposta é: não sei." A ciência não tem possibilidade de responder. Posso ficar e fico surpreendido com a existência deste movimento. Para mim, como cientista, "o ser humano é um organismo biológico complexo" e "não posso falar sobre o seu carácter espiritual"; "como objectos materiais no universo, seria difícil para mim, como cientista, defender que somos especiais". A criação tem carácter evolutivo e há processos aleatórios, e não sabemos completamente para onde se dirige. Enquanto cientista, "também não posso falar de Deus", pois, nessa altura, não estaria a fazer ciência. "Creio que é muito importante na sociedade moderna, sobretudo na América, não confundir o que sabemos pela ciência com o que sabemos pela filosofia, a teologia, a literatura e a música."

Há cientistas que dizem que os crentes estão enganados, mas a maioria respeita profundamente a fé religiosa. Aliás, o próprio ateísmo "já é uma prática da fé", pois "um ateu não pode demonstrar que não há Deus". A experiência humana é mais ampla do que as explicações racionais, e "a fé vai para lá da razão, mas não está em contradição com a razão". G. Coyne acredita no Deus revelado por Jesus.

De novo: o homem é especial? "Ser especial enquanto peça material no universo é uma coisa; ser especial ao conhecer a história religiosa e viver uma vida cheia de fé é outra. Mas continua a ser um desafio."

sábado, 24 de novembro de 2012

Anselmo Borges: O CERN e Fernando Pessoa

Artigo de Anselmo Borges no DN de hoje (daqui):



A descoberta do bosão de Higgs (ainda não há provas totalmente definitivas) aproximou-nos um pouco mais dos instantes que se seguiram ao Big Bang.

É fabuloso aonde a ciência está a chegar. Mas é claro que ela não poderá alcançar o Big Bang enquanto tal, pois trata-se de uma singularidade. Como é ainda mais claro que para a ciência não tem sentido perguntar: "e antes do Big Bang?", já que o tempo apareceu com o Big Bang. O "antes" tem já a ver com questões filosóficas e religiosas.

Rolf Heuer, director-geral do CERN

Começa, pois, a ser tempo de cientistas, filósofos e teólogos se juntarem para reflectir sobre a criação do Universo. E foi isso precisamente que aconteceu no passado mês de Outubro em Genebra. "Dei-me conta de que é necessário discutir isso", disse Rolf Heuer, director-geral do CERN. Como cientistas precisamos de "discutir com filósofos e teólogos o antes do Big Bang".

Para alguns, trata-se de uma questão sem interesse. Assim, para Lawrence Krauss, um físico teórico da Universidade Estatal do Arizona, aquela reunião não significava que os cientistas estejam interessados em Deus. "Não se pode refutar a teoria de Deus. O poder da ciência é incerto. Tudo é incerto, mas a ciência pode definir essa incerteza. Por isso, a ciência progride e a religião não."

Há, porém, quem lembre que foi um padre católico, professor de Física na Universidade Católica de Lovaina, a primeira pessoa a propor, em 1931, a teoria do Big Bang. E manteve a fé religiosa como sendo tão importante como a ciência, tornando-se inclusivamente presidente da Academia Pontifícia das Ciências até à sua morte, em 1966 [ver pequena nota sobre isso aqui]. E, ao contrário do que frequentemente se diz, Darwin também deixou escrito na sua autobiografia: "O mistério do princípio de todas as coisas é insolúvel para nós, e, pelo meu lado, devo conformar-me com permanecer agnóstico."

John Lennox, professor de Matemáticas na Universidade de Oxford, presente no encontro, declara-se cristão. Para ele, o facto de os seres humanos poderem fazer ciência pressupõe um mundo racional e, assim, a ciência abre para Deus: "Se soubesses que o teu computador é produto de um processo não guiado, sem sentido, não confiarias nele. Por isso, para mim, o ateísmo mina a racionalidade de que necessito para fazer ciência."

Andrew Pinsent, também da Universidade de Oxford, pensa que colaborar com a filosofia poderia ajudar a enfrentar as grandes perguntas. Por isso, Heuer sublinhou que é necessário continuar a dialogar, pois deparamos na nossa cultura com o problema da hiper-especialização, de tal modo que "a ignorância de outros campos pode causar problemas, como uma carência de coesão social".

Platão advertiu que é à volta de ser e do ser que os homens travam uma luta de gigantes (gigantomaquia). O que os une - religiosos, filósofos, cientistas - é precisamente esse combate. Somos todos convocados pelo mistério do ser, do existir algo: "Porque existe algo e não nada?"

Fernando Pessoa disse-o de modo inexcedível - fica aí o poema, lembrando o passado dia 15, Dia Mundial da Filosofia: "Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,/Perante esta única realidade terrível - a de haver uma realidade,/Perante este horrível ser que é haver ser,/Perante este abismo de existir um abismo,/Ser um abismo por simplesmente ser,/Por poder ser,/Por haver ser!/- Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,/Tudo o que os homens dizem,/Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,/Se empequena!/Não, não se empequena... se transforma em outra coisa -/Numa só coisa tremenda e negra e impossível,/Uma coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino -/Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,/Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,/Aquilo que subsiste através de todas as formas/De todas as vidas, abstractas ou concretas,/Eternas ou contingentes,/Verdadeiras ou falsas!/Aquilo que, quando se abrangeu tudo, não se abrangeu explicar porque é um tudo,/Porque há qualquer cosia, porque há qualquer coisa, porque há qualquer coisa!"

domingo, 14 de outubro de 2012

Pelos aromas maduros de suaves outonos

Ode à Paz

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História, deixa passar a Vida!

Natália Correia, in "Inéditos (1985/1990)"

domingo, 23 de setembro de 2012

Mas hoje é dia do Criador

Poema do Conchólogo G. B. Sowerby, que também era poeta ("sem qualquer justificação", ironiza  Stephen Jay Gould em "O sorriso do Flamengo"):

Coisas que não o eram, por tua ordem,
Em perfeita forma ante Ti se perfilam;
E todas elas para o seu Criado erguem
Uma maravilhosa harmonia de louvor.

terça-feira, 13 de março de 2012

Faz teologicamente sentido rezar para que chova?

Estava visto que ia acontecer. Mais certo do que a chuva que há de vir, mais tarde ou mais cedo. Espero que mais cedo. O Bispo de Beja lamenta que “a população não acredita na providência divina, mas somente na previdência de Bruxelas” e que “noutros tempos já se teriam levantado súplicas ao céu a implorar a graça da chuva” (ler aqui) . Prestou-se a um coro de rizadas na imprensa portuguesa.

Como eu compreendo o Sr. Bispo, para quem tudo deve ser visto numa ótica de fé. E como compreendo os laicos colunistas, para quem tudo é visto numa perspetiva secular. Talvez, no entanto, os colunistas não saibam quer D. António Vitalino é um homem dado às tecnologias, sempre acompanhado do seu iPad, do seu portátil ou do seu smartphone (das três vezes que o vi tinha um destes objetos).

No entanto, arrisco que o pensamento dos colunistas é a mais correto. Faz sentido rezar para que haja alterações meteorológicas? Deus tanto faz chover sobre crentes como sobre ateus – vem nos evangelhos. Uma seca, um terramoto, um dilúvio ou um tsunami têm a ver com Deus? Sim, porque tudo tem a ver com Deus quando é interpretado pelos crentes, mais no para quê da vida do que no porquê dos fenómenos. Mas se pensarmos que a oração ou a falta dela tem interferência nestes fenómenos (em vez de ter no coração dos crentes, em primeiro lugar), arriscamo-nos a ver as catástrofes como castigos de Deus.

Como já alguém disse - e tem a ver com este assunto -, não sei se apoiado em alguma estatística oficial, a sinistralidade rodoviária não é menor nas estradas que levam a Fátima.

 No DN de hoje.

No JN de hoje.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Oração de Kepler



Kepler, que fazia astrologia para poder dedicar-se à astronomia, escreveu:


"Depois de ter falado das obras do Criador, nada mais me resta senão desviar os meus olhos e as minhas mãos do quadro das demonstrações, para os elevar em direcção ao céu, para dirigir a minha humilde oração ao Autor de toda a luz".

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Amizade com a criação

A amizade com a criação é o segredo da vida feliz e como tal é também o fundo adequado sobre o qual projectar os mapas dos nossos caminhos e o plano da vida. (...) A acção de graças abre-nos as portas do jardim da criação.


Carlos G. Vallés, s.j.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Disse Fernando Pessoa (li no num texto de Tolentino Mendonça):


A realidade é o gesto visível das mãos invisíveis de Deus.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A fonte Q está no DN aos sábados



O DN publica ao sábado o suplemento "Q. Quociente de Inteligência". Esta é a capa do número dois, que saiu no sábado passado. Para quem gosta de letra de jornal miudinha e artigos longos, que é o meu caso, é óptimo. Já perdi umas boas horas a ler uns artigos e ainda não li tudo o que queria destas 24 páginas, enquanto há outros jornais bem maiores - estou a pensar num obeso que sai aos sábados - que não duram tanto tempo.
Neste "Q", destaque para os artigos de Joaquim Carreira das Neves, padre, e Teresa Lago, astrónoma, sobre o livro em que Hawking pretende dispensar Deus da criação (talvez ainda digitalize e copie para este blogue as seis páginas em questão).

terça-feira, 15 de março de 2011

Teólogos Hawking e Polkinghorne em confronto num texto que vem dos antípodas


As ideias de John Polkinghorne e Stephen Hawking, ambos cientistas e teólogos, um crente (e padre anglicano), o outro ateu, estão em confronto num texto que vem da Austrália. Uma boa síntese de como em alguns casos é a relação fé / ciência e de como deverá ser.

Hawking, que também é teólogo, já que faz afirmações que pretende fundamentadas sobre Deus, quer dispensar o criador. Digo quer porque, mesmo na sua lógica, ainda não está claro que o tenha feito. De qualquer forma, afirma que a ciência é ou será capaz de refutar a existência de Deus, por ser prescindível (de qualquer forma, em termos racionais, a via da prescindibilidade não pode demonstrar a inexistência do que quer que seja; apenas dirá da sua não necessidade).

Polkinghorne afirma que a compreensão da relação entre ciência e religião não se pode basear meramente na antiga teoria do "Deus das lacunas", como se a ideia de que Deus só contasse para as coisas que a ciência não pode explicar. Se Deus é o Deus da Verdade, quanto mais a ciência avança, mais aprendamos sobre Deus. Mas aqui caberia acrescentar que isto é para quem tem olhos para ver, parafraseando o evangelho.
Polkinghorne está convencido de que a ciência explora apenas uma camada da existência. Deus age por meio da poesia e da arte, dos santos e dos místicos. Você não pode apreciar totalmente uma obra de arte examinando a composição química de sua tinta. Da mesma forma, você não pode entender a função de Deus no universo olhando apenas para a sua natureza física.
Li em português aqui e confirmei que está em inglês aqui.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Anselmo Borges: Conviver com a natureza e os animais

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.


Um amigo jesuíta, Juan Masiá, que vive há trinta anos no Japão, contou-me uma história muito significativa, passada numa paróquia japonesa. O missionário estrangeiro começou a notar que os paroquianos deixaram de frequentar a missa por ele celebrada. Intrigado, decidiu informar-se discretamente. Foi recebendo respostas evasivas, até que alguém ganhou coragem e lhe disse: "E por causa do gato." Achou estranho, embora se lembrasse de que uns meses antes tinha agarrado pelo rabo um gato vadio que andava pela cozinha e o tinha atirado contra a parede. No entanto, não via razão para o afastamento dos paroquianos. Quando tentaram explicar-lhe, disse-lhes, indignado: "Tanto esforço para ensinar-vos que o ser humano tem alma e os animais não e agora ficais chateados por causa da morte do gato, um animal irracional?!" Mas os cristãos responderam-lhe: "O problema não é a alma do gato, se tem ou não tem alma. O problema é você. Que terá no íntimo do coração, se foi capaz de a sangue frio esborrachar o gato contra a parede?"


Ainda se continua a escrever aqui e ali: "proibida a entrada de animais", "no animals", esquecendo que os seres humanos também são animais. É necessário tomar consciência de que a humanidade não se pode pensar isolada, pois fazemos parte da comunidade natural da vida, em relação com animais e plantas, respirando o mesmo ar, tendo a mesma exigência de alimentação e água, na mesma terra e sob o mesmo céu, o que implica, contra o monopólio antropocêntrico explorador e dominador, um paradigma holístico de existência.


O cristianismo é agora apresentado como sendo um dos responsáveis pelo antropocentrismo arrogante e pela crise ecológica, por causa da ordem de Deus aos seres humanos no Génesis: "Dominai a terra." Mas, como reconhecem os exegetas, trata-se de uma interpretação errada da Bíblia, já que o que lá se encontra nada tem a ver com domínio despótico, mas apenas com guardar e cuidar da Criação, contribuindo para o seu aperfeiçoamento responsável, no quadro de um desenvolvimento harmónico do conjunto de todas as criaturas. Aliás, a aliança de Deus, depois do dilúvio, simbolizada pelo arco-íris, inclui todas as criaturas.


Há dois extremismos a evitar. O antropocentrismo tecnocientífico moderno, que vê o homem fora da natureza e o coloca na posição de sujeito objectivante e explorador da natureza, como se esta não tivesse valor próprio e se reduzisse a um reservatório de energias a dominar. A chamada deep ecology, que invoca uma natureza divinizada, encerra o homem na totalidade naturalista, cósmico-biológica, esquecendo a sua singularidade única de pessoa.


Assim, independentemente do debate sobre os direitos dos animais, a analisar em artigo próximo, não há dúvida de que temos obrigações para com eles, concretamente quando se reflecte no seu sofrimento. São inadmissíveis a tortura e a crueldade bem como sofrimentos desnecessários. Neste contexto, é necessário pôr em causa, por exemplo, as touradas.


Mesmo Kant, que só reconhecia direitos às pessoas como fins em si, referiu a insensibilidade face aos animais como reveladora de desumanidade e anti-educativa, tendo escrito: "Aquele que se comporta cruelmente com os animais possui também um coração endurecido com os humanos", de tal modo que "se pode conhecer o coração humano a partir da sua relação com os animais". Admitiu alguma experimentação com animais, mas opôs-se à experimentação irresponsável, concretamente à vivissecção.


Sobre esta problemática lê-se no Tratado de Lisboa: "Na definição e aplicação das políticas da União nos domínios da agricultura, da pesca, dos transportes, do mercado interno, da investigação e desenvolvimento tecnológico e do espaço, a União e os Estados membros terão plenamente em conta as exigências em matéria de bem-estar dos animais, enquanto seres sensíveis, respeitando simultaneamente as disposições legislativas e administrativas e os costumes dos Estados membros, nomeadamente em matéria de ritos religiosos, tradições culturais e património regional".

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Texto

Nós sabemos que o mundo é, com efeito, um texto e que ele nos fala humilde e alegremente da sua própria ausência, mas também da presença eterna de alguém mais, a saber, o seu Criador.

Paul Claudel (1868-1955)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O citador de Bento XVI

O "Correio da Manhã" é o jornal português que mais cita o Papa. É rara a semana em que não sai uma citação, como esta, que é de hoje.

domingo, 2 de janeiro de 2011

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Romances

Escrever romances é um acto de rebelião contra a realidade, contra Deus, contra a criação de Deus que a realidade.

Mário Vargas Llosa (1936-…)

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...