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terça-feira, 21 de março de 2017

S. José, pai exemplar

É incrível o que a Igreja consegue dizer da "paternidade exemplar" de S. José, como se algum pai, muito ou pouco católico, se revisse ou imitasse S. José. Mas numa coisa S. José é imitável - e toda a gente sabe como isso pode ser importante para a família: estar calado. S. José, o patrono do silêncio.

domingo, 23 de março de 2014

Anselmo Borges e a morte de José Policarpo: "Ouvir o silêncio que fala"

Texto de Anselmo Borges no DN de ontem:

1. E pus-me a caminho de Lisboa. Com a única finalidade de prestar uma última homenagem ao colega e amigo José Policarpo, cardeal-patriarca emérito. Fomos colegas na Universidade Gregoriana, em Roma, e ficámos amigos e, quando um amigo se nos vai embora, precisamos de uma despedida.

Jazia dentro da urna fechada, no chão da sé catedral. Desde a sua morte que as palavras nunca mais pararam. E falou-se, falou-se, falou-se. E imagens e mais imagens sobre outras imagens. E talvez poucos se tenham ocupado com estar calados. Talvez precisemos tanto de falar porque temos medo do silêncio da morte. Os mortos não falam. Está ali, imenso, o silêncio que fala, a dizer o essencial. Mas quantos estão preparados para, num tempo de rebuliço, ouvir o silêncio?

Repetiu-se, e bem, que José Policarpo foi um intelectual, um homem de cultura, de inteligência superior. Por isso, várias vezes conversámos sobre o que agora ali estava: a morte e o seu impensável, que nos obrigam a pensar. Hoje, o pensamento é débil e banal, à tona das coisas, e porquê? A nossa é a primeira sociedade na história que teve de fazer da morte tabu. No entanto, é ela que põe a pensar até ao fundo, à ultimidade. A crise do nosso tempo, que é, antes de mais, uma crise de cultura, é a crise da morte e do seu tabu. Afinal, é o pensamento sadio da morte que nos coloca perante a distinção real do justo e do injusto, do que verdadeiramente vale e do que não vale. E até percebemos, bem lá no fundo, que somos mortais, logo, somos irmãos.

2. Desde cedo José Policarpo entendeu que a Igreja precisa de renovar-se, na linha do Concílio Vaticano II. Estar atenta aos "sinais dos tempos", tema da tese de doutoramento. E dialogar com todos, nomeadamente no mundo da cultura, dando razões da fé. E ser próximo daqueles e daquelas que estão nas margens, nas periferias existenciais, sociais e geográficas, como diz agora o Papa Francisco. Não ignorou os pobres e injustiçados. Permaneceu distante dos poderes, para poder manter a liberdade crítica da denúncia das injustiças e do anúncio de caminhos pelo pensar e a solidariedade.

Homem de convicções, afirmou-as sem medo. Por outro lado, teve o saber e a sabedoria de não criar rupturas, concretamente quando se tratou de questões ditas fracturantes, como o aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo. Afinal, a Igreja tem o direito e o dever de anunciar claramente a sua doutrina, mas José Policarpo sabia também que vivemos numa sociedade democrática e pluralista e as leis são votadas no Parlamento.

3. Um homem afável, embora haja quem diga que ficou um pouco amargo nos últimos tempos. Também terá tido as suas tristezas: por exemplo, nem sempre ter sido compreendido, ver o País a afundar-se. Amigo do seu amigo, gostava da família e apreciava as coisas boas da vida. Bem--disposto, contava estórias, tinha um humor fino. Movia-se à vontade dentro da Igreja e na sociedade. Honrou a Igreja e o País, tanto dentro como além-fronteiras. Fiel ao espírito conciliar, olhava para o futuro e deve ter tido grande alegria com a renovação que via através do Papa Francisco.

Falhas? Quem as não tem? A tentativa de ir por diante com uma televisão da Igreja foi um erro e, lamentavelmente, nunca pediu desculpa a pessoas modestas que meteram lá dinheiro, pensando que era para bem da Igreja e do Evangelho. Como teólogo, argumentou que não há razões teológicas que impeçam a ordenação das mulheres, mas, depois, chamado ao Vaticano, voltou atrás, autocensurando-se. Foi pena que, reitor e magno chanceler da Universidade Católica, não tenha conseguido fazer com que a orientação nos domínios da economia e da gestão se aproxime mais da doutrina social da Igreja.

4. Dizia o filósofo Ernst Bloch, o ateu religioso, que os mortos apenas levam consigo as boas obras e a música. As falhas também, digo eu.

José Policarpo partiu e, como todos, não deixou endereço. Mas ele acreditava, e eu também, que não morremos para o nada, mas para o mistério da vida plena de Deus, o Deus que é amor e misericórdia.

domingo, 21 de abril de 2013

Resposta de silêncio

Cristo foi assaltado por uma grande dúvida durante os últimos minutos que precederam a morte. Deve ter sido o mais horrível dos seus sofrimentos. Refiro-me ao silêncio de Deus. Não é verdade, senhor pastor?

Ingmar Bergman

domingo, 8 de julho de 2012

Bento Domingues: Deus, quantas línguas fala?

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje. Sobre Deus. Sobre o silêncio. "O silêncio gera ideias que dão muito trabalho".

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Grande silêncio

Tu recordas-me esse grande silêncio
que o mundo tinha, 
antes que tivesse início o reino do homem.
Tu anuncias-me esse grande silêncio que o mundo terá,
quando terminar o reino do homem.


Charles Péguy citado por José Tolentino Mendonça na pág. 63 de "Pai-Nosso que estais na Terra"

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Um ano sem homilias



O cardeal Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, biblista reconhecido e inventor do Pátio dos Gentios, fez há dias (3 de Novembro) umas afirmações que têm tido grandes ecos em alguns meios eclesiais e blogues. Vejamos o que ele disse. Excertos.
A palavra está sofrendo. Também para a comunidade eclesiástica, a Igreja e sua comunicação. A palavra é traída e humilhada. 
Com frequência, os sermões são tão incolores, insípidos, inodoros, que são irrelevantes. 
E necessário recuperar a palavra que ‘ofende’, fere, inquieta, julga. 
Palavra saudável, autêntica, que deixa marcas. 
(Citando Voltaire e a Montesquieu) A eloquência sacra é como a espada de Carlos Magno, longa e plana: aquilo que não pode dar em profundidade, o dá em comprimento. 
O sacerdote não deve aceitar que a palavra seja humilhada. Está claro que a capacidade de falar é, em parte, dom natural, mas também existe a formação, o aspecto pedagógico, os instrumentos técnicos com os quais se dotar. E isto é algo que hoje falta nos seminários.
E agora os ecos e reacções.

Marco Tosatti, no “Vatican Insider”, fez três sugestões ao Papa:
A primeira ideia é um tanto radical. Proclamar um período (você pode decidir sua duração) de jejum de homilias. Isto é: estabelecer que, durante um ano nas igrejas (com exceção, obviamente, do Papa e dos bispos) não se façam homilias. Não me peça explicações nem razões. Não desejo ofender os sentimentos (bons) de ninguém. Peça explicações, caso desejar, a Giulio Andreotti, que – se não me falha a memória – procura(va) ir nas missas matutinas, exatamente para não ouvir homilias. Eu creio que, se a homilia fosse substituída por um breve momento de recolhimento e de meditação das palavras ouvidas nas Leituras, poderia ser benéfico para todos.
Segunda sugestão. Isto, obviamente, com um tom de brincadeira. Obrigar os sacerdotes a fazerem um curso de jornalismo e, em particular, de jornalismo de agência ou televisivo. Mais de uma vez nos disseram, durante a nossa presença já de longa data em redações, que em 50 linhas se pode descrever a história de uma vida. É possível que seja impossível escrever, no mesmo espaço, uma reflexão sobre o Evangelho do dia? 
Terceira possibilidade (também tem um tom de brincadeira, mas...): solicitar à Congregação correspondente a redação de um documento em que estabeleça taxativamente que o tempo dedicado à homilia não deve ultrapassar os cinco minutos. Um santo, ou um padre da Igreja, disse certa vez: “nos primeiros cinco minutos fala Deus, nos outros cinco fala o homem, nos restantes mais de cinco minutos fala o diabo”. Tendo a acreditar que, na realidade, depois dos primeiros cinco minutos em muitos púlpitos continua falando o homem; e, lamentavelmente, nem todos estão à Sua altura, ao escrever e pronunciar os discursos. E a experiência nos torna palpável – sem culpa de ninguém, os sacerdotes estão animados pelos melhores sentimentos, e estão cheios de santo entusiasmo – que uma homilia que se alonga, se perde, divaga, toca muitos pontos diversos, o que, muitas vezes, não ajuda a manter a concentração e a tensão espiritual criadas pelas Leituras. Pelo contrário. Naturalmente, estariam isentos o Papa, os cardeais, os patriarcas e os arcebispos metropolitanos. Sobre os bispos e os abades, pode-se discutir...
Ivan Rioufol, do “Le Figaro”, escreveu no seu blogue:
Essa admissão de conformismo eclesiástico é, obviamente, muito tardia com relação aos avanços da descristianização e do cansaço de inúmeros católicos (dos quais faço parte) frente a um clero pusilânime e politicamente correto.
O padre Christophe Delaigue, da diocese de Grenoble, defendeu-se:
Você [Ravasi] me critica, ok, mas o que você tem tentado fazer concretamente? Com o que você poderia contribuir hoje, em sua posição, assim como eu tento contribuir com a minha fé, a minha juventude e as minhas ideias, às vezes balbuciando, é verdade, mas com tudo o que eu sou?
David Lerouge, da diocese de  Coutances, escreveu:
Se eu fizesse comunicação, eu pegaria um microfone HF, me colocaria no meio do presbitério e falaria ao coração, a você, sim, a você na segunda fila, que quer ser convertido por Deus, eu estaria inflamado, eu seria cômico, eu seria delicado, eu seria... odiado no fim de três números desse tipo.
Porque a missa não é um número de magia, é o espaço do encontro com Cristo. A homilia pode lhe levar a esse encontro, mas não sozinha.
Tudo isto foi retirado dos seguintes textos:
Proponho um ano sem homilias
A pregação na era digital

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Descascar batatas e governar impérios

Tanto vale amar a Deus no mundo, a falar, como na Trapa, em silêncio. A questão é fazer alguma coisa por Ele... Recordar-se dele...  O sítio, o lugar, a ocupação é indiferente. Deus tanto me pode fazer santo descascando batatas como governando impérios.


Frei Maria Rafael Arnáiz Báron, "Saber esperar. Pensamentos" (ed. Paulinas), pág. 166

sábado, 23 de abril de 2011

Mesmo quando se cala

Creio no Sol,
mesmo quando não brilha.
Creio no amor,
mesmo quando não o sinto.
Creio em Deus,
mesmo quando se cala.

Oração judaica

domingo, 17 de abril de 2011

Espera - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen para este domingo de navegação

Deito-me tarde

Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê o passar do silêncio
Navegação antiquíssima e solene

Sophia de Mello Breyner Andresen. Poema lido aqui.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Silêncio

É no coração do silêncio que Deus habita. É lá que Ele mora, não no vento, não no tremor de Terra, nem certamente no ruído das palavras que nós fazemos sem cessar, mas, no mais profundo de nós mesmos, lá onde as vozes do mundo já não chegam.

Julien Green (1900-1998)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Literatura


Não é pela literatura que se chega à vizinhança de Deus. Deve-se falar-lhe com palavras apropriadas, palavras experimentadas. As palavras podem ser mudas. O silêncio da meditação fala.
Eugène Ionesco (1912-1994)

sábado, 23 de outubro de 2010

Anselmo Borges: Saramago e Deus


Passado o rebuliço mediático, quereria escrever sobre o tema em epígrafe. Só sobre ele. Deixo, pois, as questões literárias, partidárias, políticas, incluindo a nódoa indelével daquele desgraçado despedimento de 22 jornalistas do DN por delito de opinião. Exijo-me este texto, até porque, numa entrevista a João Céu e Silva, Saramago se me referiu com admiração por ter lido e gostado do seu livro Caim: "Até fiquei surpreendido quando ouvi um teólogo - uma coisa é um teólogo e outra um padre -, Anselmo Borges, dizer que tinha gostado do livro".


Quem, no meu entender, melhor escreveu sobre o tema foi Eduardo Lourenço. Entre outras coisas, porque introduziu o pensar sobre o ateísmo até ao limite. "O que designamos por 'ateísmo', na sua literal acepção, significa, geralmente, mais do que o seu conteúdo dialecticamente negativo. Denota um relacionamento de grau nulo com o referente Deus. É tão impensável ou inacessível na sua ordem como a pura transcendência, que é conteúdo real ou imaginário de Deus. Ser ateu é só ser e estar 'sem Deus'. Perspectiva tão vertiginosa como a que a referência a Deus assinala, sob o modo de uma 'ausência' tão impensável como a de Deus e não menos 'abscôndita', só que mais dolorosa, que a da presença das presenças".


Segundo a tradição e na modernidade, "considerou-se ateu e deve assim ser considerado o sujeito para quem 'o nome' e, sob ele, a mesma ideia de Deus - não o conceito - não tem sentido algum." Mas não haveria mais motivo para designar como "ateu" quem "tivesse a pretensão de o objectivar, ou de conceber claramente, o que ele mesmo chama Deus"? Afinal, verdadeiramente ateus não seriam precisamente "os chamados teólogos, pelo menos os clássicos - anteriores a Karl Barth -, que sabiam tudo de Deus, ou que sabem tudo de Deus"?


Exceptuando os místicos, é raríssimo o crente que se apercebe de que perante Deus só o silêncio é que diz, pois, no limite, Deus é nada do que dele o linguajar humano possa dizer. Ouvi uma vez a Jacques Lacan: "os teólogos não crêem em Deus, porque falam dele". E também Karl Barth, o maior teólogo protestante do século XX, disse que conhecia muito bem um certo ateu: justamente Karl Barth.


Há dois modos de negação de Deus: a negação real e a negação determinada.


Por negação determinada, entende-se a negação de um determinado Deus, de uma certa imagem de Deus. Foi o que Saramago fez. Como podia ele ou alguém intelectualmente honesto aceitar um deus cruel e sanguinário?


No Caim, é essa imagem do deus violento e arbitrário que denuncia. Não é de facto a Bíblia judaica, no dizer do exegeta católico Norbert Lohfink, "um dos livros mais cheios de sangue da literatura mundial"? De qualquer modo, o nome de Deus foi demasiadas vezes invocado para legitimar a violência e o derramamento de sangue de inocentes.


É certo que no Novo Testamento, na única tentativa de "definir" Deus, se diz que "Deus é amor incondicional". Mas também há acenos para uma interpretação sacrificial da morte de Cristo, teorizada sobretudo por santo Anselmo e desde então muito pregada: Deus precisou da morte do seu próprio Filho, para reparar a ofensa infinita cometida pelos homens e assim reconciliar-se com a humanidade. Ora, precisamente perante esta concepção sacrificial da sua morte como preço do resgate do pecado, como não entender a inversão da oração de Cristo na Cruz? Onde, no Evangelho, se diz: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem", lê-se, em Saramago: "Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez".


A negação determinada não significa negação real. A pergunta é, portanto, se Saramago negou realmente Deus ou se, pelo contrário, na negação do deus arbitrário e sanguinário, não está dialecticamente presente o clamor pelo único Deus verdadeiro, o do Anti-mal. De qualquer modo, segundo Saramago, "Deus é o silêncio do universo, e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio". "Esta definição de Saramago é a mais bela que alguma vez li ou ouvi", escreveu o teólogo Juan José Tamayo.


Texto de Anselmo Borges retirado do DN de 23-10-2010

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Quem levou mais parisienses ao cinema em Setembro? Angelina Jolie ou Leonardo di Caprio?


Nem o actor de “A origem”, nem a actriz de “Salt”. Os dois filmes foram batidos por "Des hommes et des Dieux" [“Homens e Deuses”], de Xavier Beauvois, que mais do que triplicou o público dos dois grandes filmes norte-americanos, chegando aos dois milhões de espectadores.

“Des hommes et des Dieux” baseia-se na história real do sequestro de sete dos nove (dois conseguiram esconder-se) monges cistercienses trapistas, de um mosteiro argelino, entre 26 e 27 de Março de 1996. No dia 30 de Maio seguinte, as suas cabeças são encontradas, mas não os seus corpos.

“O filme relata os últimos meses de vida dessa comunidade religiosa e, justamente porque o realizador se define como irreligioso, consegue comunicar também, ou principalmente, a quem não crê o mistério insondável da fé. A Argélia está em plena guerra civil, porém os monges vivem em tranquilidade e auto-suficiência o dia de oração, de cantos, de leituras, de trabalhos agrícolas e domésticos: a sua ordem não prevê o proselitismo, portanto há harmonia, respeito e fraternidade com os habitantes do pequeno vilarejo muçulmano.

O velho padre Luc (Michael Lonsdale) é médico e recebe gratuitamente até 150 pacientes por dia. O prior, padre Christian (Lambert Wilson), que conhece de cor o Alcorão e lê os floreios de São Francisco, leva o mel do convento ao mercado. Todos juntos participam da festa pela circuncisão de um pequeno e ouvem as palavras do imã, que parecem muito semelhantes às do Evangelho. A paisagem que circunda o mosteiro é paradisíaca, imensa, intacta e leva a sentir aquele sentimento inquieto de encanto que obscuramente aproxima a um mistério, talvez justamente o da fé”.

O filme ganhou o Grande Prémio em Cannes, com um júri internacional presidido “pelo muito bizarro Tim Burton”.

As informações e citações deste texto foram retiradas daqui.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

"A Igreja da Bélgica perdeu toda sua autoridade"

Para percebermos o alcance da questão pedófila na Bélgica, leia-se o artigo de Jean-Pierre Stroobants que saiu no "Le Monde" e se encontra em português no sítio do IHU (aqui), de onde copio os seguintes parágrafos.

Uma das testemunhas, doente, diz “reunir suas últimas forças” para descrever o calvário que ainda a faz sofrer, 39 anos depois. Ela tinha 6 anos e tinha de sofrer o “zim-boum-pan-pan, uma punição da qual não podia falar: era entre Jesus e nós, para entrar em comunhão com ele”.

Na verdade, oito longos anos de estupros, bolinações e exibicionismo camuflados por um homem que aos domingos brincava com os pais da vítima, confessando-lhes que seu único pecado era fumar charuto... “Era sua maneira de cativá-los e sobretudo de nos calar ainda mais: como ele parecia ter sua confiança, de que adiantaria contar para eles e fazer todos sofrerem?” Aluno em um outro internato flamengo onde também estudavam dois de seus irmãos, uma outra testemunha conta as diversas e incessantes humilhações que um professor lhe infligia: centenas de punições, de páginas a copiar, proibições de sair, e finalmente, “a revelação”: forçado a se colocar de joelhos pelo enésimo castigo no quarto do interessado. E, ali, a descoberta horrorizada do deleite sexual que esse terrível assédio causava nesse religioso.

Inúmeros depoimentos – com exceção daqueles marcados pela raiva e, às vezes, por uma rejeição completa da Igreja e das religiões – ainda mostram o sentimento de culpa das vítimas. Elas não queriam desagradar, manchar a reputação de homens vistos como intocáveis, envergonhar seus pais. Muitos foram criticados por terem escondido a verdade quando decidiram falar. Vindo de um meio pobre e sofrendo de graves carências afetivas, um jovem, estuprado por um vigário, decidiu em 1991 denunciar este último junto a um futuro bispo. Ele foi acusado de ter mentido, simplesmente porque o vigário “negava os fatos”. Estuprada por um padre aos 17 anos, uma outra vítima quis encontrar o responsável pela sua diocese. Ela voltou de lá chocada, “sobretudo religiosamente, porque não encontrei nenhuma preocupação pastoral, nenhuma consciência religiosa do drama que eu enfrentava”.

(…)

Gabriel Ringlet, padre, escritor e vice-reitor da Universidade Católica de Louvain, acredita que isso que está acontecendo hoje, na verdade é ainda mais grave do que aquilo que foi exposto pelo caso do assassino pedófilo [Dutroux]. E diz ainda que a Igreja não voltará a ser aceita pela sociedade se não abandonar seu “silêncio culpado” sobre a sexualidade de seus membros, “terreno no qual essa pedofilia pôde se desenvolver”.

Mais categórico ainda, Walter Pauli escreveu no sábado [no diário belga “De Morgen”]: “Que Roma e Malines-Bruxelas não se iludam: a Igreja da Bélgica perdeu toda sua autoridade”. O analista disse ainda: “Nem o Marquês de Sade poderia, ou ousaria, publicar um catálogo como esse de perversões sexuais, sendo que o mais grave é que tudo isso acontece dentro de uma relação de poder. E que nunca são questões de ‘parceiros’, mas sim de vítimas”.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Se eu digo: “Tu és Silêncio”...

Se eu digo: “Tu és Silêncio”,
Ele me responde logo: “Eu sou também Palavra”.
Se eu digo: “Tu és Luz”,
Ele me responde: “Eu sou também Noite”.
E, contudo, não há mistura.


Louis Quesnel

sábado, 27 de março de 2010

Anselmo Borges: "A pedofilia na Igreja Católica"

Texto do padre Anselmo Borges no DN de hoje:


Na semana passada, fui abordado por vários jornalistas sobre a calamidade dos padres pedófilos. Que achava? A resposta saía espontânea: "Uma vergonha." Aliás, no sábado, apareceu, finalmente, a Carta do Papa, na qual manifestava isso mesmo: "vergonha", "remorso", partilha no "pavor e sensação de traição".
O pior, no meio deste imenso escândalo, foi a muralha de silêncio, erguida por quem tinha a obrigação primeira de defender as vítimas. Afinal, apenas deslocavam os abusadores, que, noutros lugares, continuavam a tragédia.


Há na Igreja uma pecha: o importante é que se não saiba, para evitar o escândalo. Ela tem, aliás, raízes estruturais: o sistema eclesiástico, clerical e hierárquico, acabou por criar a imagem de que os hierarcas teriam maior proximidade de Deus e do sagrado, de tal modo que ficavam acima de toda a suspeita. Mas, deste modo, aconteceu o pior: esqueceu-se as vítimas - no caso, crianças e adolescentes, remetidos para o silêncio e sem defesa.

Neste sentido, o Papa dirige-se criticamente aos bispos: "Foram cometidos sérios erros no tratamento das acusações", que minaram "seriamente a vossa credibilidade e eficiência". Por isso, "só uma acção decidida levada em frente com honestidade e transparência poderá restabelecer o respeito em relação à Igreja". Mas, aqui, há quem pergunte se não foram ignoradas as responsabilidades do Vaticano nestes erros e silêncios.
É sabido que infelizmente a Igreja Católica não tem o monopólio da pedofilia, que passa por muitas outras instituições: religiosas, civis e militares - há dados que mostram que a maior parte dos casos acontece nos ambientes familiares -, e é decisivo que todos assumam as suas responsabilidades, pois não é bom bater a culpa própria no peito dos outros. Mas é natural que o que se passou no seio da Igreja seja mais chocante, já que se confiava mais nela.

Até há pouco tempo, a Igreja pensou que era a guardiã da moral e queria impor os seus preceitos a todos, servindo-se inclusivamente do braço secular, ao mesmo tempo que se julgava imune à crítica. Recentemente, a opinião pública começou a pronunciar-se também sobre o que se passa na Igreja, pois todos têm o direito de debater o que pertence à humanidade comum. Há quem diga que, no caso, se trata de revanchismo. A Igreja tem dificuldade em lidar com a nova situação, mas, de qualquer modo, tendo sido tão moralista no domínio sexual, tem agora de confrontar-se com este tsunami, que exige uma verdadeira conversão e até refundação, no sentido de voltar ao fundamento, que é o Evangelho.

As vítimas precisam de apoio e de reparação, na medida do possível. Esse apoio não pode ser só financeiro. Note-se que já se gastaram em indemnizações milhares de milhões de euros, sendo certo que os fiéis não pensariam que todo esse dinheiro havia de ter, infelizmente, este destino. Assim, até por isso, a Igreja precisa de reparar os males feitos e de uma nova atenção para que esta situação desgraçada nunca mais se repita, o que implica, por exemplo, uma atenção renovada no recrutamento de novos padres.

Os abusadores precisam igualmente de apoio, também psicológico, e de compreensão. Deve, no entanto, vedar-se-lhes o exercício do ministério e, uma vez que se está ao mesmo tempo em presença de um pecado e de um crime, deverão pedir perdão, reconciliar-se com Deus e colaborar com a Justiça dos Estados.


Não se pode estabelecer uma relação inequívoca de causalidade entre celibato e pedofilia, até porque há também muitos casados, até pais, que abusam sexualmente de menores. Mas também não se poderá desvincular totalmente celibato obrigatório e pedofilia, sobretudo quando, para chegar a padre, se foi educado desde criança ou adolescente num internato, aumentando o risco de uma sexualidade imatura.
Em todo o caso, será necessário pensar na rápida revogação da lei do celibato. Aliás, a Igreja não pode impor como lei o que Jesus entregou à liberdade. Enquanto se mantiver o celibato como lei, a Igreja continuará debaixo do fogo da suspeita.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Para terminar o dia: Silêncio

"O santo tem razão em dizer que o silêncio nos aproxima de Deus. É quando tudo se cala em nós que nós somos capazes de O aperceber, a Ele, quer dizer, alguém ou alguma coisa que não resiste à análise mas que preenche, contudo, o nosso silêncio".

Emil Cioran (1911-1995)

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...