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sábado, 22 de fevereiro de 2014

Anselmo Borges: "O que pensam os católicos sobre a Igreja?"

Texto de Anselmo Borges no "DN" de hoje.

1- A Bendixen & Amandi realizou, entre Dezembro de 2013 e Janeiro de 2014, com 12 038 fiéis adultos de 12 países maioritariamente católicos dos cinco continentes, para a Univisión, a principal televisão em espanhol dos Estados Unidos, uma sondagem sobre temas importantes na e para a Igreja. Fiabilidade: 95%.

Alguns resultados, com dissonâncias entre a doutrina e a opinião e vivência dos fiéis. a) Anticonceptivos: 78% a favor; 19% contra; 3% não responderam. b) Ordenação sacerdotal das mulheres: 45% a favor; 51% contra; 4% não responderam. c) Casamento dos padres: 50% sim; 47% não; 3% não responderam. d) Aborto: 8% deve permitir-se sempre; 65% nalguns casos; 33% nunca; 2% não responderam. e) Quanto ao casamento homossexual, há acordo com a doutrina: 66% contra; 30% a favor; não responderam 4%. f) Como avalia o trabalho do Papa Francisco? 41% excelente; 46% bom; 5% medíocre; 1% mau; 7% não responderam.


2- "Agora, o Papa Francisco, no confronto com os reaccionários da Cúria, pode apelar para as respostas da maioria dos fiéis sobre temas tão importantes. O Papa emérito Bento XVI escreveu-me há pouco, a mim eterno rebelde, uma carta afectuosa na qual mostra empenho em apoiar Francisco, esperando que ele tenha todo o êxito - "a minha única e última tarefa é apoiar Francisco", escreve." Quem isto revelou foi Hans Küng, o famoso teólogo crítico, condenado por João Paulo II e um dos poucos peritos do Vaticano II vivos, numa entrevista ao La Reppublica, no dia 10 deste mês, sobre a sondagem, na qual é manifesta a distância entre a Igreja oficial e os fiéis.

Para ele, o mais importante nela é a maioria esmagadora de vozes favoráveis a Francisco, que também já lhe escreveu pessoalmente: 87% dos católicos interrogados em todo o mundo e 99% dos italianos estão de acordo com ele. É "um pequeno milagre" Francisco ter conseguido, em menos de um ano, inverter a tendência dos fiéis e não só quanto à crise de confiança na Igreja.

Interrogado sobre o significado dos resultados da sondagem para a hierarquia, Küng dá uma resposta sensata: "Para os bispos preparados para reformas, e eles existem em todo o mundo, eles significam um grande encorajamento. Quanto aos conservadores, que têm as suas reservas: deveriam reflectir sobre as suas reservas e escutar os argumentos dos renovadores. Os bispos reaccionários, presentes não só no Vaticano mas em todo o mundo, deveriam abandonar a sua resistência obstinada e optar pela razoabilidade."

E o Papa Francisco? "Se me é permito dar-lhe um humilde conselho, deveria avançar com coragem no caminho iniciado e não ter medo das consequências." Em concreto, "espero que use a arte do "Distinguo" que aprendemos na Universidade Gregoriana: onde, na sondagem, há consenso na Comunidade eclesial, deveria propor uma solução positiva ao Sínodo. Onde há dissentimento, deveria permitir e suscitar um debate livre na Igreja. Onde ele próprio tem uma opinião diferente da da maioria dos católicos, como quanto à ordenação das mulheres, deveria nomear uma task force de teólogos e outros peritos, homens e mulheres, para enfrentar o tema."

Está contente? "Não me considero vencedor, não travei batalhas para mim, mas para a Igreja. Tenho a alegria de ver, ainda vivo, o êxito das ideias de reformas da Igreja pelas quais tanto combati."

3- A Igreja Católica é a única instituição verdadeiramente global. Assim, um problema maior será o da convivência com a variedade de posições.

Exemplos, a partir desta sondagem global, após a apresentação dos dados totais. Os divorciados recasados não podem comungar: na Europa, não concordam com esta proibição 75%, mas a não concordância é de 46% nas Filipinas. Ordenação das mulheres: na Europa estão a favor 64%, mas, nas Filipinas, 76% são contra. Casamento homossexual: em Espanha, 64% são favoráveis, mas na África 99% opõem-se-lhe. Na Europa, 50% pronunciam-se a favor do casamento dos padres, mas na África só 28%.

sábado, 16 de março de 2013

Anselmo Borges: "O maior afrodisíaco"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Ainda Papa, J. Ratzinger disse o que é decisivo: "Nós somos a Igreja; a Igreja não é uma estrutura; nós, os próprios cristãos juntos, todos nós somos o Corpo vivo da Igreja. Naturalmente, isto é válido no sentido de que o 'nós', o verdadeiro 'nós' dos crentes, juntamente com o 'Eu' de Cristo, é a Igreja."

Mas, de facto e desgraçadamente, quando se pensa e fala e escreve sobre a Igreja, no que se pensa e fala e sobre que se escreve é, em primeiro lugar, a Igreja enquanto instituição e concretamente a organização central - em que se pensa, quando se diz o Vaticano? -, com o Papa, o cortejo de cardeais, arcebispos, bispos, monsenhores da Cúria e o Banco do Vaticano e regras e normas e escândalos e intrigas que se diz aninharem-se por lá e, evidentemente, também o espectáculo nem sempre edificante, e o folclore. Aliás, quem se não quiser enganar, mesmo dentro da Igreja, que se pergunte: o que juntou os mais de 5000 jornalistas estrangeiros em Roma para a eleição do novo Papa? Foi verdadeiramente a Igreja viva, constituída pelos discípulos de Jesus, que procuram real e verdadeiramente segui-lo no amor de Deus e do próximo?

Seja como for, acima de tudo e em primeiro lugar, é preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. Realmente, em síntese, como escreveu o teólogo Hans Küng, a Igreja é a comunidade dos que acreditam em Jesus Cristo: "A comunidade dos que se entregaram e entregam a Jesus e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo. A Igreja torna-se crível se disser a mensagem cristã, não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma, e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus."

A Igreja não pode entender-se como uma gigantesca empresa multinacional religiosa ou um aparelho de poder. Ela é povo de Deus espalhado pelos diferentes lugares do mundo. O Papa não pode ser visto como um "autocrata espiritual", mas como bispo que tem o primado pastoral, vinculado ao colégio dos bispos. E as funções nucleares da Igreja são oferecer aos homens e às mulheres de hoje a mensagem cristã, de modo compreensível, sem arcaísmos nem dogmatismos escolásticos, e celebrar os sacramentos, sem esquecer o dever de assumir as suas responsabilidades sociais, apresentando à sociedade, sem partidarismos, opções fundamentais, orientações para um futuro melhor para a Humanidade, na paz, no respeito pelos direitos humanos, na preservação da natureza.

O novo Papa tem pela frente missões gigantescas. A credibilidade da Igreja-instituição bateu no fundo. Impõe-se, pois, uma conversão de fundo. A pedofilia tem de acabar definitivamente. Tolerância zero igualmente para os escândalos intoleráveis do Banco do Vaticano. Os direitos humanos têm de valer também no seio da Igreja: liberdade de investigação, de opinião, de expressão. A quem tem medo da democracia e da participação lembra-se o que diz o Vaticano II: "É perfeitamente conforme com a natureza humana que se constituam estruturas jurídico-políticas que ofereçam a todos os cidadãos, sem discriminação alguma e com perfeição crescente, possibilidades de tomar parte livre e conscientemente na eleição dos governantes." As mulheres não podem ser discriminadas. A moral sexual pede revisão, bem como a lei obrigatória do celibato, que deve ser opcional. Decisiva é a reforma da Cúria, verdadeiro cancro da Igreja: "Impõe-se reformar a Cúria Romana", exige o cardeal W. Kasper. A Cúria só se compreende enquanto serviço da autoridade eclesiástica, que não reside na Cúria, mas no colégio dos bispos com o Papa à cabeça, como lembra o teólogo J. I. González Faus, que quer também que desapareçam do círculo do Papa "todos os símbolos de poder e de dignidade mundana": "príncipes da Igreja" é "título quase blasfemo".

Mas não haverá reforma sem conversão no que se refere àquela que foi a única tentação com que Jesus também foi confrontado: a tentação do poder, disso que é - disse-o quem sabe (Henry Kissinger) - o maior afrodisíaco. Jesus deixou a palavra decisiva: "Não vim para ser servido, mas para servir."

No próximo sábado escreverei sobre o Papa Francisco, que, estou convicto, veio para servir.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Quem disse que a síntese razão, fé e vida já não convence?

Quem escreveu isto?

Olhando retrospectivamente, podemos dizer que a forma que transformou o cristianismo numa religião mundial consistiu na sua síntese entre razão, fé e vida; esta síntese condensou-se precisamente na expressão religio vera. Impõe-se, por isso, cada vez mais a questão: porque é que, hoje, esta síntese já não convence? Porque é que, hoje,ao invés, surgem contraditórios e até reciprocamente exclusivos a racionalidade e o cristianismo? Que é que mudou na racionalidade? Que é que mudou no cristianismo?

a) Hans Kung
b) Leonard Boff
c) Joseph Ratzinger

Resposta (selecione para ver): c) Joseph Ratzinger na pág. 84 do livro "Existe Deus? Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo", de Joseph Ratzinger e Paolo Flores d'Arcais, ed. Pedra Angular.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O cristianismo é uma vitória da desmitologização

(12)
Quem escreveu isto?

A fé cristã não assenta na poesia nem na política, essas duas grandes fontes da religião; baseia-se no conhecimento. Venera o Ser que é o fundamento de tudo o que existe, o «Deus verdadeiro». No Cristianismo, a racionalidade tornou-se religião, e já não é o seu adversário. Para que tal acontecesse, para que o cristianismo se compreendesse como vitória da desmitologização, a vitória do conhecimento e, assim, da verdade, devia necessariamente encarar-se como universal e der levado a todos os povos.


a) Joseph Ratzinger
b) Hans Kung
c) Rudolf Bultmann

Resposta: a) Joseph Ratzinger na pág. 80 do livro "Existe Deus? Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo", de Joseph Ratzinger e Paolo Flores d'Arcais, ed. Pedra Angular.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Hans Kung sobre a resignação

Ele fez uma escolha secular como se fosse um simples Presidente da República. (...) Nunca imaginei que este Papa me pudesse surpreender um dia de forma positiva.

Hans Kung

sábado, 13 de outubro de 2012

Anselmo Borges: 11 de Outubro de 1962



Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

"Devemos discordar desses profetas das desgraças, que anunciam acontecimentos sempre funestos, como se o fim do mundo estivesse próximo." A Igreja quer ir ao encontro dos homens nas suas alegrias e esperanças, nos seus problemas e dificuldades. "Nos nossos dias, a Igreja de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade: julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validade da sua doutrina do que condenando erros."

Foi com estas palavras que o Papa João XXIII inaugurou há 50 anos, precisamente no dia 11 de Outubro de 1962, o Concílio Ecuménico Vaticano II, um dos acontecimentos maiores do século XX - o Presidente da França, Charles de Gaulle, considerou-o "o mais importante". Nele, como ironicamente escreveu a "Der Spiegel", deu-se "uma viragem copernicana, na qual Roma confessou que o Céu talvez ainda gire à volta da Basílica de São Pedro, mas a Terra não".

A Cúria Romana preparava-se para manter praticamente tudo na mesma. Houve, porém, um conjunto de cardeais que obrigaram à viragem. Um deles foi o cardeal Josef Frings, de Colónia, que tinha como assessor um jovem professor de Teologia, Joseph Ratzinger, crítico de cinco dos sete esquemas preparatórios fundamentais do Concílio. Ele e outros peritos, como Karl Rahner, Edward Schillebeeckx, Yves Congar, Hans Küng pensavam na urgência de uma renovação profunda e reconciliação da Igreja com o mundo moderno. Ratzinger foi então um provocador, até certo ponto um rebelde, favorável às línguas vernáculas na liturgia e criticando duramente a Cúria e a sua "atitude antimoderna": "A fé tem de enfrentar-se com uma nova linguagem, uma nova abertura."

Só quem viveu antes do Concílio pode aperceber-se da revolução que ele constituiu. Foi um esforço real e sincero de aproximação de todos. Como se diz no início da Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo, Gaudium et Spes, "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e das mulheres do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de todos os aflitos, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo, e nada existe de verdadeiramente humano que não encontre eco no seu coração".

E talvez o mais paradoxal é que a Igreja, com o seu aggiornamento, diálogo, abertura, apenas estava, no essencial, a reconciliar-se com o melhor do Evangelho, que, desgraçadamente, tinha tido de se impor na modernidade contra a Igreja oficial: os direitos humanos, a dignidade sagrada da pessoa humana, a liberdade religiosa, a inviolabilidade da consciência.

Devia tornar-se claro que a Igreja, "luz dos povos", é, antes de mais, "povo de Deus" e não a hierarquia e mesmo esta tem de contar com a colegialidade episcopal e a participação dos leigos, contra uma estrutura piramidal. A revelação não pode ser concebida como um ditado de Deus; apela-se, portanto, à leitura da Bíblia, que estava afastada dos fiéis, mas no quadro de uma investigação histórico-crítica. A Igreja deve estar atenta aos "sinais dos tempos", como a emancipação das mulheres, a descolonização, o mundo do trabalho, da ciência e da técnica. As realidades terrestres são autónomas e não há oposição entre a criação de Deus e a acção criadora dos homens no mundo; a esperança da salvação no além tem de dar sinais e começar já aqui. Denunciou-se o anti-semitismo, a Igreja abriu-se ao diálogo ecuménico com as outras Igrejas e confissões cristãs, com as outras religiões, com os não crentes, com todos os homens de boa vontade. A viragem mais visível foi na liturgia: em vez do latim, adoptou-se a língua vernácula, o presidente deixou de celebrar de costas para o povo, todos eram convocados para uma participação activa, fraterna e festiva.

Passados 50 anos, muito falta fazer por uma Igreja verdadeiramente conciliar. O ecumenismo não dá passos. Os bispos, como faz notar a "Der Spiegel", continuam "marginais", "a Perestoika na Cúria não se realizou". Continua a dominar em Roma "uma corte medieval" e lutas pelo poder. Sobretudo, falta a fé e o ânimo de então.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Adivinhe quem disse que a teologia deve pensar no que deve "deixar cair" e "inteiramente renovar"

Quem disse isto numa entrevista?

A teologia não atua num universo vazio e, por isso, deve continuamente interrogar-se sobre qual o horizonte em que está situada, a que ponto se chegou, que devemos deixar cair, que devemos inteiramente renovar. Perante uma visão do mundo, por muitos aspetos radicalmente nova, elaborada no século XX, a teologia vê-se perante a tarefa de repropor a questão de como poderá a fé conservar a sua identidade e, ao mesmo tempo, também renovar-se.

a) Joseph Ratzinger
b) Carlo Maria Martini
c) Karol Wojtyla
d) Hans Kung

Resposta: a) Joseph Ratzinger, numa entrevista de Patrick Bahners e Christian Geyer publicada em "Existe Deus?", de Joseph Ratzinger e Paolo Flores d'Arcais, ed. Pedra Angular, 2009.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Quem escreveu isto? (9)

Os dogmas podem perfeitamente ser unilaterais, superficiais, autoritários, obscuros e precipitados.


a) Um perigoso relativista, com certeza.
b) Joseph Ratzinger?! Não acredito.
c) Hans Kung, para a seguir dar mais uma ferroada na infalibilidade.
d) Walter Kasper. E chegou a cardeal?


Resposta: d) Walter Kasper, na página 160 de "Introdução à fé" (ed. Telos, Porto, 1973). Ele acrescenta que "os dogmas submetem-se à historicidade de toda a linguagem humana e só são concretamente verdadeiros em relação ao contexto correspondente", como, aliás, já foi citado neste blogue.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Adivinhe quem disse (8)



Quem escreveu isto?


Apesar das desilusões e dificuldades, mantenho-me fiel à Igreja Católica, a minha Igreja tão provada.


a) Hans Kung. Mas este tem de estar cá sempre?
b) Congar, após uma das muitas admoestações magisteriais
c) Um dos lefebvrianos, cada vez mais distantes de Roma
d) Leonardo Boff, mas só com muito descaramento.


Resposta: a) Hans Kung num artigo publicado no dia Corriere della Sera, no dia 20 de junho. O suíço-alemão diz que a Igreja católica tem no momento “três chagas”: a reconciliação com os lefebvrianos, o caso do IOR (“banco do Vaticano”) e o “Vatileaks”. Ler tudo aqui.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Liberdade e marginalização

Outro animal que não tem culpa nenhuma

Não sou eu quem o diz, é Vito Mancuso, no “La Repubblica”. Eu só li aqui:

(…) Que o nosso tempo necessitaria de homens de fé capazes de conduzir verdadeiramente esse diálogo [entre religiões e ciências] – enquanto, ao contrário, a estrutura da Igreja atual é feita de tal modo a marginalizar pensadores proféticos como Raimon Panikkar e Hans Küng e a promover desoladores yes-men prontos a se transformar em corvos – é toda uma outra dolorosa questão.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Descobertas 29 homilias inéditas de Orígenes



Notícia admirável, no "L'Osservatore Romano" (aqui), sobre um dos maiores teólogos de sempre, apesar de condenado pela oficialidade do tempo:
Con toda probabilidad es el descubrimiento del siglo el que realizó una filóloga italiana en la biblioteca de Múnich, anunciado ayer por la misma Bayerische Staatsbibliothek. En la tarde del pasado día 5 de abril, Jueves santo, estudiando un códice bizantino del  siglo XI, el Monacense greco 314, Marina Molin Pradel se dio cuenta de que algunas homilías sobre los Salmos contenidas en él correspondían a las de Orígenes traducidas al latín por Rufino a inicios del siglo V.  E inmediatamente después de Pascua, extendiendo los controles sobre el manuscrito, la estudiosa llegó a la conclusión de que todas las veintinueve homilías contenidas en el códice, hasta ahora inéditas, son del gran intelectual cristiano. En la primera mitad del siglo III, Orígenes había dictado sobre el Salterio una serie imponente de obras que pronto ejercieron un influjo decisivo sobre la exégesis bíblica,  tanto griega como latina. Pero precisamente su extensión, además de la condena del año 553,  explica su pérdida casi total, ya en época antigua.
De Orígenes diz Kung (ups!), citando Balthasar (ah!)*:
Segundo diz Balthasar, nenhum dos grandes teólogos, desde os capadócios a Agostinho, de Dionísio a Máximo, de Escoto Eriúgena a Eckhart, «tinha sido capaz de resistir ao fascínio quase mágico do  "homem de aço"» - segundo eles se lhe referiam. Alguns sucumbiram-lhe completamente: «Se se retirar a Eusébio o brilho de Orígenes, ficaremos apenas com um teólogo mediano e um historiador aplicado. Jerónimo limita-se a transcrevê-lo, nos seus comentários da Escritura, mesmo depois de, com uma aparente dureza e revolta, ter rompido a ligação com o seu mestre. Basílio e Gregório de Nazianzo recolhem com uma admiração entusiástica as passagens mais sedutoras da obra imensa daquele a quem eles próprios recorriam, sempre que a luta quotidiana lhes permitia um momento de descanso. Gregório de Nissa deixou-se seduzir por ele mais profundamente ainda. Os escritos dos capadócios transmitem-no quase integralmente. A maior parte dos textos do Breviário, compostos por Ambrósio (assim como os de Jerónimo e de Beda), que o conheceu diretamente e que o transcreve, não passam de citações praticamente literais de textos de Orígenes» (pág. 46 de "Os grandes pensadores do Cristianismo", ed. Presença).
* O ups e o ah são dedicados a alguns leitores especiais. Eles sabem quem são.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Quem disse isto? (7)

Quem escreveu isto?


Na disputa acerca de ortodoxia e ortopraxia, dividem-se os grupos de índole mais conservadora e de impulso mais progressista. Aquele preocupa-se mais com a defesa da fé transmitida de uma vez por todas; este empenha-se mais pela realização da fé na atualidade. Nas mútuas acusações de heresia e condenação, existe entre ambos um funcionamento comum muito maior do que a consciência que dele habitualmente se tem.


a) Walter Kasper, na época em que era o maior teólogo católico vivo.
b) Hans Kung, para a seguir realçar a ortopraxia.
c) Timothy Radcliffe, antes de falar de católicos da Comunhão e católicos do Reino.
d) Joseph Ratzinger, para a seguir defender a ortodoxia.

Resposta: a) Walter Kasper, na pág. 95 de "Introdução à Fé", ed. Telos (edição portuguesa de 1973).

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Quem escreveu isto? (6)

É "pouco feliz" o título de "infalível", atribuído à Igreja e ao Papa, "porque os homens são sempre falíveis".


a) É obvio, Hans Kung. Só pode.
b) Hans Urs von Balthasar? Só se estivesse a delirar.
c) Gianni Vattimo, esse neovaldense niilista, entre outros títulos pouco católicos.


Resposta: b) Balthasar criticou a infalibilidade numa entrevista ao jornal "Avvenire", no dia 24 de fevereiro de 1980.

Budistas anónimos

Rahner (esq.) e Kung. E quem é o do meio?

É um lugar-comum teológico a expressão “cristãos anónimos”. Foi cunhada por Karl Rahner para abrir a salvação a todos os que não conhecem Jesus Cristo, já que na teologia tradicional afirmava-se que “fora da Igreja não há salvação” (ler aqui umas notas sobre o assunto).

Hoje muito me ri com isto:

“Hans Kung disse um dia a Karl Rahner, meio a sério, meio de brincadeira, que os budistas ortodoxos tinham afirmado que também Karl Rahner podia «salvar-se», porque era, sem ele sabê-lo, mas de boa fé, um «budista anónimo»”.

Contado por Carlos González Vallés em “Querida Igreja”, ed. Paulus (Brasil), 1990, p. 26

sexta-feira, 30 de março de 2012

Adivinhe quem disse que o papa deveria transformar o Vaticano num museu e transferir-se para a entrada de Roma

Quem escreveu isto?

Para acabar com o “escândalo inútil” seria bom que o papa “transformasse o Vaticano num museu e se transferisse para a entrada de Roma”.

a) Leonardo Boff, quem mais?
b) Hans Urs von Baltahasar, certamente num momento de pouca lucidez
c) Hans Kung, do interior do seu descapotável
d) Pedro Casaldáliga, no meio da selva

Resposta: Hans Urs von Baltahasar, que aconselhou também que os padres, bispos e papas deveriam abandonar títulos “envelhecidos e cristãmente incompreensíveis” como padre, abade e papa.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Adivinhe quem disse (2)

Quem escreveu isto?


"Se o fiel pode realizar a sua fé sobre o oceano do nada, da tentação e da dúvida, sendo o oceano das incertezas o único lugar possível da sua fé, devemos admitir, dialeticamente, que o descrente, por outro lado, também não pode ser visto simplesmente como um ateu".


a) Joseph Ratzinger
b) Hans Kung
c) Olegario Cardedal
d) Henri de Lubac


Veja a resposta aqui (selecione): Joseph Ratzinger, na página 31 de "Introdução ao Cristianismo", ed. Principia, 2006.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Adivinhe quem disse (1)

Quem escreveu isto?

"Se resolvemos os problemas da fé apenas pelo caminho da autoridade, possuiremos certamente a verdade, mas numa cabeça vazia".

a) John Henry Newman
b) Leonardo Boff
c) Hans Jung
d) Tomás de Aquino

Ler aqui a resposta (selecione): Tomás de Aquino. A frase aparece em Quaestiones quodlibetales, 4. a.18.

terça-feira, 13 de março de 2012

Texto de Enzo Bianchi nos 40 anos de "Ser cristão", de Hans Kung

Aos meus amigos vigilantes, para quem Hans Kung é a hipóstase (vão à Wikipedia, por favor) do que há de pior da teologia das últimas décadas, sugiro a leitura deste texto do insuspeito (quer dizer, procurando bem, isolando e puxando pela pontas, encontra-se sempre algo) Enzo Bianchi.

Enzo Bianchi
Há motivo para se alegrar ao reencontrar nas livrarias uma obra como Ser cristão de Hans Küng [a edição brasileira é de 1976, da editora Imago], a 40 anos da primeira publicação: "uma introdução ao ser cristão (...), uma pequenasumma da fé cristã", segundo as próprias palavras do autor, voltada a apresentar "não um Evangelho diferente, mas sim o mesmo Evangelho de sempre, redescoberto para o nosso tempo". Uma análise densa e articulada do cristianismo a partir do Jesus histórico e do seu anúncio da "boa notícia", uma pesquisa conduzida com grande competência e grande sensibilidade ecumênica por um então jovem teólogo católico que havia participado do Concílio Vaticano II como perito. 
Küng era e continua sendo um apaixonado por Cristo, um fiel convicto de que o Evangelho pode falar ao coração e à mente de homens e mulheres de todos os tempos e de todas as culturas, um pensador que não tem medo de enfrentar os desafios do diálogo com a razão e com as outras religiões. E o impacto profundo que essa sua obra teve junto a muitos cristãos e até mesmo entre aqueles que eram estranhos à Igreja ou tinham se retirado para as margens dela são a prova inequívoca disso. 
Falo de "impacto" e não de "sucesso", porque se sobre os números das cópias vendidas de um livro podem incidir muitos fatores contingentes ou não, até mesmo estranhos ao conteúdo, só a mensagem do texto pode influenciar sobre os efeitos duradouros que uma obra pode ter e sobre o enriquecimento pessoal que ela consegue oferecer mesmo a distância de anos. 
Nesse sentido, Küng não só expõe "uma" possível eventual introdução ao cristianismo – embora rica e documentada – mas também, através dela, deixa transparecer a paixão de uma busca assídua do radicalismo evangélico, comunica a um grande público o clima espiritual e a vontade de diálogo que marcaram a fecunda época da Igreja nos pós-Concílio, lança raios de luz sobre horizontes de esperança. 
Certamente, Ser cristão foi e continua sendo também uma obra altamente controversa: junto com outros textos seus da mesma época, ele lhe valeu a retirada da missio canonica para o ensino da teologia nas faculdades católicas, sem, porém, que se chegasse a uma condenação contra o autor e a sua teologia. A complexidade dos problemas levantados, a dureza de certos acentos polêmicos, a incompreensão recíproca levaram a cavar um fosso cada vez maior entre Küng e o magistério da Igreja Católica. 
E exatamente aí o lamento se une à satisfação pela reedição de Ser cristão. Sim, porque esse texto toca a grande oportunidade que não se soube ou não se pôde aproveitar. O teólogo suíço, de fato, propunha "uma introdução [ao ser cristão]: uma introdução diferente ou diferentemente orientada não incorre na excomunhão, mas exige, ao invés, um pouco de tolerância".
 Hans Kung
A excomunhão não veio, mas a tolerância também se manteve escondida: ela podia desencadear um diálogo extremamente fecundo dentro da própria Igreja, um diálogo talvez duro também, que, no entanto, enriqueceria, a partir de dentro, a comunidade dos fiéis à qual Küng jamais deixou de pertencer. Ao invés disso, consentiu-se com um progressivo distanciamento da pesquisa teológica de Küng do coração da mensagem cristã e, principalmente, do contexto católico. Progresso normal e positivo de uma pesquisa teológica livre e independente? Talvez tenha sido isso do ponto de vista do autor. 
Do ponto de vista da comunidade cristã, não só católica, do seu caminho ecumênico, da sua busca de fidelidade cada vez maior ao Evangelho, tratou-se, ao contrário, do enfraquecimento de uma voz devido à perda de autoridade objetiva (a subjetiva permaneceu intacta, ou, melhor, talvez até se reforçou): as posições de Hans Küng, tão estimulantes para os cristãos de hoje e para o ser humano contemporâneo, já não tinham mais como lugar de confronto e de ressonância a comunidade católica como tal. Porém, os problemas levantados na obra – o papel da palavra de Deus, o significado do Jesus histórico, a função da autoridade, as modalidades do exercício do ministério presbiteral, o diálogo ecumênico e com as outras religiões, a abertura o mundo... – permanecem inevitáveis ainda hoje, e a reflexão teológica ainda tem tudo a ganhar ao levar em conta a análise aguda e afiada de Küng. 
Não por acaso, o breve prefácio à nova edição de Ser cristão encerra-se com a mesma frase posta como selo da edição original de 1974, afirmação definida pelo próprio autor como "o meu credo": "Seguindo Jesus Cristo, o ser humano no mundo de hoje pode viver, agir, sofrer e morrer de modo verdadeiramente humano: na felicidade e na desgraça, na vida e na morte, sustentado por Deus e fecundo de ajuda aos outros". 
Sim, o seguimento cristão, o caminhar sobre as pegadas de Jesus de Nazaré que narrou Deus, pode ter sentido para as pessoas de todos os tempos e culturas, para a redescoberta da humanidade que o habita: aquele que a fé confessa como "verdadeiro Deus e verdadeiro homem" restitui ao ser humano a sua qualidade e dignidade mais profundas.
O texto saiu originalmente no "La Stampa" de 11 de março de 2012. Copiei-o daqui.

A restauração nunca poderá trazer solução

Há precisamente 40 anos, em 1972, escreveram isto:
O Concílio Vaticano II pode considerar-se, sob certo aspecto, como renúncia a esta mentalidade restauradora dirigida contra a época moderna. Evidentemente, semelhante abertura não acontece sem crises. À primeira vista, parece que a Igreja renuncia ao que, até aqui, constituía a sua força, erigindo-a em ponto de atracção para muitos espíritos despertos e dela fazendo o lar para todos os que aspiravam pela segurança. Por agora, é imprevisível uma reanimação intenda da tendência restauradora. A restauração nunca poderá trazer solução. Uma vez que a autoridade foi posta em causa, só poderá ser fundamentada a partir de razões válidas. 


Quem escreveu isto não foi Hans Kung, esse, horror dos horrores, "libertino teológico", como já alguém escreveu nos comentários deste blogue, expressão com que não concordo, porque, não conhecendo a vida pessoal do senhor, mas apenas algumas obras publicadas em português e espanhol, não vejo nada que ele tenha escrito contra o cristianismo. Contra o dogma da infalibilidade? Com certeza, mas não só não é o único como o dogma da infalibilidade joga na terceira ou quarta divisão do cristianismo. Pode-se muito bem viver sem ele como na realidade até os papas vivem. Uma das coisas de elevado grau de infalibilidade que posso dizer é esta: não há como usá-lo. E uma coisa que não se usa...


Quem escreveu o trecho acima, não imaginaria que hoje vivemos tempos de restauração. Tal restauração começa, precisamente, por negar que o Vaticano II renunciou a tal mentalidade. A ideia de que no Concílio foi mais importante a continuidade do que a rutura faz parte da restauração. Claro que há continuidade. Não há um Novo Cristianismo ou um Cristianismo 2.0. Mas o Concílio foi principalmente reorientação. Foi rutura para seguir em frente deixando no passado a tralha de séculos que pouco ou nada tinha a ver com o Evangelho.


Quem escreveu isto, provavelmente sabia que quem quer segurança, vá para os muçulmanos (estou a lembrar-me de um episódio de "Anjos na América" em que um rabi diz: "Queres perdão? Vai para os católicos. Nós só temos culpa"). E, entre estes, os talibãs, que nunca têm dúvidas. No cristianismo há o caminho. E esse não está isento de dificuldades e perigos. Há a segurança máxima, que é Cristo, que é também a grande fragilidade.


Quem escreveu o texto foi um dos grandes teólogos do séc. XX, com uma grande obra teológica que, agora que ele está na reforma, está a ser publicada em vários volumes. O autor não podia ser mais "do sistema" [estou a lembrar-me do P.e João Seabra, que há tempos, numa conferência, disse: "Você quer alguém mais diocesano que eu, que sou cónego da sé patriarcal?"]. O excerto foi tirado de "Introdução à fé" (ed. Telos), de Walter Kasper. Um livrinho maravilhoso. No "Ano da Fé" que se aproxima, alguém que o republique.



Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...