terça-feira, 13 de março de 2012

A restauração nunca poderá trazer solução

Há precisamente 40 anos, em 1972, escreveram isto:
O Concílio Vaticano II pode considerar-se, sob certo aspecto, como renúncia a esta mentalidade restauradora dirigida contra a época moderna. Evidentemente, semelhante abertura não acontece sem crises. À primeira vista, parece que a Igreja renuncia ao que, até aqui, constituía a sua força, erigindo-a em ponto de atracção para muitos espíritos despertos e dela fazendo o lar para todos os que aspiravam pela segurança. Por agora, é imprevisível uma reanimação intenda da tendência restauradora. A restauração nunca poderá trazer solução. Uma vez que a autoridade foi posta em causa, só poderá ser fundamentada a partir de razões válidas. 


Quem escreveu isto não foi Hans Kung, esse, horror dos horrores, "libertino teológico", como já alguém escreveu nos comentários deste blogue, expressão com que não concordo, porque, não conhecendo a vida pessoal do senhor, mas apenas algumas obras publicadas em português e espanhol, não vejo nada que ele tenha escrito contra o cristianismo. Contra o dogma da infalibilidade? Com certeza, mas não só não é o único como o dogma da infalibilidade joga na terceira ou quarta divisão do cristianismo. Pode-se muito bem viver sem ele como na realidade até os papas vivem. Uma das coisas de elevado grau de infalibilidade que posso dizer é esta: não há como usá-lo. E uma coisa que não se usa...


Quem escreveu o trecho acima, não imaginaria que hoje vivemos tempos de restauração. Tal restauração começa, precisamente, por negar que o Vaticano II renunciou a tal mentalidade. A ideia de que no Concílio foi mais importante a continuidade do que a rutura faz parte da restauração. Claro que há continuidade. Não há um Novo Cristianismo ou um Cristianismo 2.0. Mas o Concílio foi principalmente reorientação. Foi rutura para seguir em frente deixando no passado a tralha de séculos que pouco ou nada tinha a ver com o Evangelho.


Quem escreveu isto, provavelmente sabia que quem quer segurança, vá para os muçulmanos (estou a lembrar-me de um episódio de "Anjos na América" em que um rabi diz: "Queres perdão? Vai para os católicos. Nós só temos culpa"). E, entre estes, os talibãs, que nunca têm dúvidas. No cristianismo há o caminho. E esse não está isento de dificuldades e perigos. Há a segurança máxima, que é Cristo, que é também a grande fragilidade.


Quem escreveu o texto foi um dos grandes teólogos do séc. XX, com uma grande obra teológica que, agora que ele está na reforma, está a ser publicada em vários volumes. O autor não podia ser mais "do sistema" [estou a lembrar-me do P.e João Seabra, que há tempos, numa conferência, disse: "Você quer alguém mais diocesano que eu, que sou cónego da sé patriarcal?"]. O excerto foi tirado de "Introdução à fé" (ed. Telos), de Walter Kasper. Um livrinho maravilhoso. No "Ano da Fé" que se aproxima, alguém que o republique.



2 comentários:

João "o discípulo amado" Silveira disse...

Esta entrevista que saiu ontem é interessante: http://www.zenit.org/article-29884?l=portuguese

Jorge Pires Ferreira disse...

Caro João, acabei de ler a entrevista e, mais uma vez, o João fez-me perder tempo.

Um texto que põe acentos em “Lúmen” de “Lumen gentium”, à partida não merece grande consideração, tal é o erro básico de acentuar palavras latinas. Mas admito que devemos olhar mais ao conteúdo do que à forma. Também eu costumo dar erros (penso que mais de distração).

Depois, o título quase nada tem a ver com a entrevista, que passa a maior parte do espaço a falar da situação holandesa. Quanto a esta, o que tem a ver com o Concílio? Sinceramente não sei. Mas pelo que me é dado ler, há uma grande confusão sobre se a causa do estado do cristianismo holandês estar como está de deve ao Vaticano II, se ao que se pensou do Vaticano II sem ser realmente do Vaticano II, se à secularização, se à economia. Parece mais que tem a ver com a economia. O próprio cardeal dá a entender que a crise pode reconduzir à reflexão. Em que ficamos, então?

Por último, diz o cardeal, não em último lugar, que devemos reler a "Lumen gentium" (que é Cristo e não a Igreja). Nem mais. Releiamo-la para perceber a reviravolta eclesiológica que representou deixar de entender a Igreja como hierarquia, como sociedade perfeita, para passar a entendê-la como comunhão, como povo, como sacramento de salvação, com vínculos com não-católicos e não-cristãos,

Mas, ó João, leia coisa mais substanciais. Os documentos do Concílio, por exemplo.

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