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domingo, 7 de julho de 2013

Bento Domingues: "Paciência com Deus (1)"

Início do texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:


Há pessoas que falam da vontade de Deus e dos seus desígnios, com tanta certeza e desenvoltura, que até parece que Deus lhes lê o seu jornal todas as manhãs. Fico, depois, perplexo com o recurso ignorante a certas construções teológicas acerca da vida interna da SS. Trindade, como se andassem nos corredores de um museu de antiguidades. Não posso deixar de admirar essa arrojada arquitectura mental, cheia de subtilezas, para que o mistério da divina unidade na trindade das pessoas não surja como um absurdo, no contexto da sua recepção na cultura grega. Admito que esta concepção possa ajudar a acolher e cultivar a unidade plural nas nossas sociedades e no mundo em geral. Não tenho, todavia, paciência para a racionalização neutralizante da vida das metáforas. Ao perderem a sua energia poética passam a ser conceitos de nada. Tenho diante de mim, uma curiosa imagem com três cabeças numa só. Coitada. Prefiro a sobriedade enigmática dos textos do Novo Testamento.

Todo o texto aqui, amanhã. E, já agora, três imagens como a que o dominicano tem diante dele.



terça-feira, 11 de junho de 2013

José Diogo Quintela: "Ver no Instagram para crer":

José Diogo Quintela, no seu texto na revista 2 (no "Público" de domingo), "Ver no Instagram para crer":

Antes, se avisasse que ia chegar atrasado por causa de um acidente na auto-estrada, a minha mulher acreditava. Mas agora exige que lhe mande uma fotografia que o prove. (E, com as aplicações que já existem para editar fotografias, chegará o dia em que me vai obrigar a trazer um pedaço do pára-choques acidentado, só para certificar.) Quase dois mil anos depois de Jesus ter admoestado Tomé com o célebre: “Felizes os que creem sem terem visto”, a indústria dos telemóveis dá esta machadada num dos pilares da fé cristã."

sábado, 12 de janeiro de 2013

Leão XIII, o primeiro Papa a ser filmado

Leão XIII foi o primeiro papa a ser filmado. Um integrado, pois. Já aqui havia referido o assunto. Mas hoje pude ver finalmente tais filmagens.



Agradeço a José Serra, que me deu a conhecer o vídeo.

sábado, 30 de junho de 2012

Imagens de Jesus por todo o lado... onde há manchas



Num takeway de comida  chinesa, em Sunderland, Inglaterra, viram o rosto de Jesus (aqui). Mais um. O rosto do homem de barbas e cabelos compridos é um rosto verdadeiramente universal. Encontram-no nas manchas de uma parede, numa tosta, num cão, numa radiografia aos pulmões, no fundo de uma frigideira. Haja imaginação (fotogaleria aqui).

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Nome e palavras



Destruí os frescos das igrejas, retirai os quadros dos altares e das casas - e avida de Cristo enche ainda os museus e as galerias. Lançai ao fogo missais, breviários e eucológios - e achareis o seu nome e as suas palavras nos livros de todas as literaturas. Até as próprias blasfémias são uma confissão involuntária da sua presença.


Giovanni Papini, "História de Cristo" (Livros do Brasil), pág. 09

sexta-feira, 2 de março de 2012

Açores: Exposição "Santos e Devotos"



Decorre até 8 de abril, no Museu de Angra do Heroísmo, a exposição "Santos e Devotos". Diz no sítio do Museu que a exposição
procura trazer ao presente, conhecer e aprofundar uma das nossas maiores matrizes culturais, que são as manifestações religiosas cristãs, e sujeitá-las ao crivo das nossas preocupações e angústias mais atuais. (…) Expõem-se peças de imaginária e pintura de notável valor artístico, bem como outros objetos religiosos ligados à prática do sagrado, como sejam presépios, registos e ex-votos.
O catálogo pode ser visto e descarregado aqui. E vale bem a pena (presumo que poucos dos que leem isto possam ver a expo ao vivo), como se pode ver pelas páginas aqui reproduzidas Aumentam, se clicar. Agradeço ao Paulo, açoriano que me falou a exposição.


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A igreja mãe de todas as imagens está prestes a tornar-se uma mesquita




A Hagia Sophia de Iznik (antiga Niceia) está prestes a tornar-se uma mesquita. É uma notícia triste. Se noutros tempos, templos cristãos passaram a mesquitas e mesquitas passaram a igrejas, como consequência do domínio político, hoje isto já não se compreende.

Para mais, a Hagia Sophia de Niceia, desde a restauração de 2007, era muito visitada por cristãos de todo o lado. É que foi neste templo que se realizou o sétimo concílio ecuménico e segundo de Niceia. Foi nesta igreja, em 787, que os bispos declararam que os ícones podiam ser venerados, pondo fim à crise iconoclasta (foi só um fim teológico, com a aceitação das teses de João Damasceno, que nessa altura já tinha morrido; na prática a crise continuou mais alguns séculos e de vez em quando emergem no cristianismo episódios iconoclastas).

Régis Debray escreveu que foi em Niceia que nasceu Hollywood. Foi nesta igreja que se fundamentou teologicamente o poder da imagem.

sábado, 22 de outubro de 2011

Bárbaros no meio de gente que quer mais justiça e equidade



A destruição de imagens religiosas, mesmo que para os iconoclastas sejam ídolos, é sempre um gesto de barbárie. Aconteceu nas manifestações de 15 de Outubro, em Roma, num assalto à paróquia de S. Pedro e S. Marcelino. No meio de muitas pessoas de boa vontade e que procuram a justiça, há sempre uns bárbaros.


Provavelmente ignoram que um dos poemas mais revolucionários de sempre é posto na boca de Maria de Nazaré (o Magnificat, no Evangelho de Lucas):


A minha alma glorifica o Senhor
E o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador.

Porque pôs os olhos na humildade da sua Serva:
De hoje em diante me chamarão bem aventurada todas as gerações.
O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas:
Santo é o seu nome.

A sua misericórdia se estende de geração em geração
Sobre aqueles que o temem.
Manifestou o poder do seu braço
E dispersou os soberbos.

Derrubou os poderosos de seus tronos
E exaltou os humildes.
Aos famintos encheu de bens
E aos ricos despediu de mãos vazias.

Acolheu a Israel, seu servo,
Lembrado da sua misericórdia,
Como tinha prometido a nossos pais,
A Abraão e à sua descendência para sempre. 

domingo, 1 de maio de 2011

A melhor fotografia de João Paulo II

Duas curiosas imagens de João Paulo II. Desconheço em que altura foi tirada a primeira. Talvez tenha sido na mesma ocasião que a segunda, que foi tirada no dia 18 de Setembro de 1984, durante a visita ao Canadá.


sexta-feira, 18 de março de 2011

O que dizem de Jesus: Encantador


Um queria fazer de Jesus um sábio, outro, um filósofo, outro ainda, um patriota, outro, um homem de bem, outro, um moralista, outro, um santo. Não foi nada disso. Foi um encantador.

Ernest Renan (1823-1892)

sábado, 5 de março de 2011

Imagens de um Jesus judeu

Por estes dias, vários têm vindo dizer que Jesus era judeu. E parece que até há uma nova questão judaica com o Papa a dizer (ou melhor, os resumos dizem que disse) que iliba os judeus da morte de Jesus.

Anselmo Borges, no texto de hoje, também fala do assunto: “Quantos cristãos se lembram de que Jesus era judeu e de que os primeiros discípulos também?” Na realidade, muitos ainda o representam como um jovem loiro de olhos azuis. Ao contrário do que se diz, Jesus, com trinta e tais anos, não morreu jovem. Nem sequer havia jovens na época. Mataram-no com a idade de muitos avôs da altura.


Pensava que a questão da judaicidade de Jesus era no mínimo disparatada. Por isso já aqui há dias apontei a idiotia de Stewart Chamberlain, que escreveu: “Todo aquele que defende que Jesus Cristo era judeu, é ignorante ou desonesto”.

E por isso é bom voltar de vez em quando ao Jesus BBC – a reconstituição meramente sugestiva que a BBC há anos mandou fazer a partir de um crânio da Palestina do séc. I. É irrelevante a imagem que Jesus teria mesmo (há toda uma teologia e prática sobre o outro ser a imagem de Deus). Mas por isso mesmo não deve ser adocicada.


O que interessa é mesmo Jesus. “O modelo de vida cristão é pura e simplesmente Jesus de Nazaré como o Messias, o Cristo, o Ungido e Enviado de Deus. Na vida e na morte, o fundamento da autêntica espiritualidade cristã é Jesus Cristo, um desafio vivo para a nossa relação com os homens e com o próprio Deus” (…), escreve Anselmo Borges.

Às vezes parece que isto fica esquecido, mesmo em discursos dos mais altos responsáveis da Igreja - o que constitui uma crítica terrível.

sábado, 4 de dezembro de 2010

4 de Dezembro de 749. Morre João Damasceno, pai da cultura audiovisual

João Damasceno nasceu em 676 e morreu no dia 4 de Dezembro de 749.

Reconhecido pela Igreja católica e também por confissões protestantes, João Damasceno, o último Padre da Igreja do Oriente, é um dos pilares da ortodoxia. Escreveu “Exposição da Fé Ortodoxa”.

Teólogo, poeta, filósofo e músico, João Damasceno defendeu o uso de imagens no culto cristão, contra a iconoclastia. Distinguiu entre adoração (“latreia”), que só se pode prestar a Deus, e veneração (“proskynesis”), que pode ser prestada às imagens.

A teologia do Damasceno viria a prevalecer no segundo Concílio de Niceia (787), que condena a iconoclastia. Esta, em si, poderá ter surgido por causa do islamismo circundante e em ascensão, profundamente iconoclasta (pense-se na polémica dos cartoons dinamarqueses; para muitos, o que era condenável era a representação do profeta Maomé; nem sequer tinham visto as caricaturas).

Regis Debray disse há tempos que Hollywood nasce em Niceia II. João Damasceno é, podemos dizer, um dos pais da nossa cultura audiovisual.

domingo, 19 de setembro de 2010

Retratos de John Henry Newman

A National Portrait Gallery, em Londres, tem 32 representações de John Henry Newman (uma escultura, dois óleos e diversas fotos e desenhos, alguns deles quase caricaturas). Podem ser vistos aqui 23 desses 32 “retratos”. Fica-se com uma uma ideia muito plástica do padre feito cardeal por Leão XIII (mas não bispo).

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Efeitos da imaginação


A imaginação engorda os mais pequenos objectos até encher com eles a nossa alma, por uma estimação fantástica; e, por uma insolência temerária, ela diminui os grandes até à sua medida, como a propósito de Deus.

Blaise Pascal (1623-1662)

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Demasiadas certezas sobre Deus


Revolta-me o modo como todas as religiões falam de Deus, por o tratarem com tanta certeza, ligeireza e familiaridade. (...) É uma espécie de espirro que lhes é habitual: a bondade de Deus, a cólera de Deus, ofender Deus são alguns exemplos. É considerá-lo como um homem e, o que é pior, como um burguês.

Gustave Flaubert (1821-1880)

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Cristo a fumar e a beber cerveja

Mais uma notícia do DN de hoje:

“As autoridades do estado de Meghalaya, na Índia, confiscaram os livros escolares nos quais aparece uma imagem de Cristo com uma cerveja numa mão e um cigarro na outra. Os livros eram usados nas escolas primárias e indignaram os 70% de cristãos daquele estado”.

Informação adicional: Meghalaya, diz a Wikipedia, é um estado no leste da Índia, na fronteira com o Bangladesh. Mas 70% de cristãos? Talvez. Diz a BBC que todos os sete estados do nordeste da Índia, entre o Bangladesh muçulmano e o Burma budista, são maioritariamente cristãos. E, diz o mesmo texto, ultimamente têm acontecido por lá diversos milagres.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Defesa das imagens por João Damasceno

João Damasceno

João de Damasco (675-749), o último dos Pais Gregos da Igreja, o “São Tomás de Aquino do Oriente”, já tinha morrido na altura do II Concílio de Niceia. Mas são as suas teses que prevalecem.

Escreve João Damasceno em “De imaginibus” ("Acerca das imagens"):

O que a Bíblia é para os que sabem ler, a imagem o é para os iletrados.
(Mote para a profusão medieval de imagens nas catedrais, “bíblias de pedra”)

Antigamente Deus, que não tem corpo nem face, não poderia ser absolutamente representado através duma imagem. Mas agora que Ele se fez ver na carne e que Ele viveu com os homens, eu posso fazer uma imagem do que vi de Deus.
(Encarnação como legitimação)

A beleza e a cor das imagens estimula a minha oração. É uma festa para os meus olhos, tanto
quanto o espectáculo dos campos estimula o meu coração para dar glória a Deus.
(Imagens enquanto pedagogia e catequese)

Como fazer a imagem do invisível? Na medida em que Deus é invisível, não o represento por imagens; mas, desde que viste o incorpóreo feito homem, fazes a imagem da forma humana: já que o invisível se tornou visível na carne, pinta a semelhança do invisível.
(A analogia como metodologia)

Outrora Deus, o incorpóreo e invisível, nunca era representado. Mas agora que Deus se manifestou na carne e habitou entre os homens, eu represento o «visível» de Deus. Não adoro a matéria, mas o Criador da matéria.
(A necessária distinção entre representado e representante, conteúdo e continente, meio e fim).

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...