quarta-feira, 31 de março de 2010

Incrível novidade da criatura amada

O cristianismo sustenta-se inteiramente nesta incrível novidade de que a criatura é amada pelo seu Criador, e, o que é mais espantoso, ainda, é que ela também, por mais miserável que ela seja, se acha capaz de amar o seu Criador. Que estranho, quando pensamos nisso, amar o ser infinito, chamar ao ser infinito: “Pai Nosso”.

François Mauriac (1885-1970)

A condição sexual de Jesus - 2


Myra Poole é a do meio

Refutar as afirmações de Myra Poole (aqui), que tiveram grande eco na imprensa portuguesa (aqui e aqui, por exemplo), não é difícil. Não faz qualquer sentido dizer que Jesus era homossexual por duas razões. A homossexualidade praticada era motivo “abominação”. Veja-se o que se diz no Livro do Levítico (18,22-29): “Não coabitarás sexualmente com um varão; é uma abominação. (…) Todos os que cometeram alguma dessas abominações serão eliminados do meio do seu povo”. Era a lei que estava em vigor no tempo de Jesus. Por outro lado, São Paulo repudia as “paixões degradantes” de mulheres que “trocaram as relações naturais por outras que são contra a natureza” e dos homens que, “deixando as relações naturais com a mulher, se inflamaram em desejos de uns pelos outros, praticando, homens com homens, o que é vergonhoso” (Rm 1,26-27). Tais afirmações paulinas seriam descabidas se fosse pública a homossexualidade de Jesus.
Se dissermos algo do género “Jesus era homossexual, mas nunca se revelou” – talvez seja este o espírito das afirmações da Irmã Myra Poole (integra a congregação de Notre Dame de Namur) – então podemos dizer dele tudo e mais alguma coisa, desde que acrescentemos o “mas nunca se revelou”.
Relendo São Paulo, capítulo 7 de I Coríntios, é curioso notar os conselhos que dá sobre matrimónio, celibato e virgindade. Só invoca uma vez a autoridade de Jesus Cristo: “Aos que estão casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido (…), e o marido não repudie a mulher (v. 10)”. (Não cabe aqui interpretar o preceito, mas sabe-se bem, hoje, o que significava o divórcio para a mulher em termos de degradação da sua condição). De resto, diz: “Aos outros, digo eu, não o Senhor…” (v. 12). E ainda: “A respeito de quem é solteiro, não tenho nenhum preceito do Senhor, mas dou um conselho…” (v. 25). O Apóstolo preocupa-se em separar o que é do seu pensamento e o que tem origens no Senhor. Era a esta última afirmação que me referia no final deste texto.

31 de Março de 1492. É assinado o Decreto de Alhambra, que ordena a expulsão dos judeus de Espanha

Fernando de Aragão e Isabel I de Castela assinaram no dia 31 de Março de 1492 o Decreto de Alhambra, que ordenou a expulsão de Espanha dos judeus que não se convertessem.

No Decreto, os Reis católicos orderam: “Que todos os judeus e judias de qualquer idade que residem em nossos domínios e territórios, que saiam com os seus filhos e filhas, seus servos e parentes, grandes ou pequenos, de qualquer idade, até o fim de Julho deste ano, e que não ousem retornar a nossas terras, nem mesmo dar um passo nelas ou cruza-las de qualquer outra maneira. Qualquer judeu que não cumprir este édito e for achado em nosso reino ou domínios, ou que retornar ao reino de qualquer modo, será punido com a morte e com a confiscação de todos os seus pertences”.

Os judeus não convertidos tinham de sair de Espanha até 31 de Julho de 1492. Posterioremente o prazo foi alargado até 2 de Agoso desse ano. Note-se que o dia 2 de Agosto de 1492 foi o dia de partida de Cristóvão Colombo para a descoberta das Américas.

O decreto foi escrito por Juan de Coloma e assinado em Alhambra, Granada, reconquistada aos mouros em 2 de Janeiro daquele ano.

O jornalista convencido e o ateu cauteloso

Claude Dagens, bispo católico e membro da Academia Francesa desde 17 de Abril de 2008, conta (na "Communio" aqui referida):

Foi há alguns anos. Um conhecido jornalista, ao aperceber-se de que no seu estúdio de televisão está uma mulher com véu, exclamou:

- Desde que existe um Livro revelado, existe o obscurantismo.

Encontrava-se lá, no mesmo momento, um filósofo ateu, André Comte-Sponville, que replicou de imediato:

- Que grande exagero!

Concluiu o bispo de Angoulême (a terra dos grandes festivais de BD): "As reacções tacanhas, e até fanáticas, podem escandalizar também aqueles que não partilham a fé".

terça-feira, 30 de março de 2010

O sacramento do sorriso

"Se eu tivesse de pedir a Deus um dom, um único dom, um presente celeste, creio que não hesitaria em pedir a suprema arte do sorriso. É o que mais invejo em algumas pessoas. É, penso eu, o cúmulo das expressões humanas.

Falo dos sorrisos que se levantam de uma alma iluminada, que aparecem como o estalar de um relâmpago na noite, como o que vimos ao ver uma corça a correr, ou o que produz em nossos ouvidos o murmúrio de uma fonte num bosque solitário, ou os sorrisos que milagrosamente vemos despontar no roto de um menino de oito meses, e que algumas pessoas – pouquíssimas – conseguem conservar toda a vida.

Todo o sorriso tem alguma coisa da transparência de Deus, da grande paz. Por isso me atrevi a intitular este comentário «o sacramento do sorriso». Porque é sinal visível de que a nossa alma está aberta de par em par".

José Luís Martín Descalzo (1930-1991), in “Razões para a alegria” (ed. Missões Cucujães)

A condição sexual de Jesus

“O mundo, à falta de verdade, está cheio de opiniões”, disse Fernando Pessoa e com certeza que Bento XVI subscreveria a frase, ou não tivesse escrito uma encíclica tendo como título “A Caridade na Verdade” e não a “A Verdade na Caridade” - expressão que tantas vezes foi usada para enfraquecer a verdade. Geralmente.

Que o mundo está cheio de opiniões, é certo. Umas mais disparatadas do que outras. Hoje, no “24 Horas”, uma teóloga diz que Jesus era “gay”. A fundamentação de Myra Poole até é interessante, ainda que errada: “Porque era da natureza de Cristo escolher aquilo que seria mais difícil quando se tornou humano”. Errada, porque podia ter nascido mulher. Era uma condição bem mais difícil do que a de homem, quando os judeus da época rezavam: “Obrigado, Senhor, porque não me criaste nem estrangeiro, nem cão, nem mulher”. As mulheres rezavam: “Obrigado, Senhor, porque me criaste segundo a tua vontade”.

De resto, e seria bom que tivéssemos ideias claras sobre o assunto, se é que é possível, de Jesus Cristo não podemos dizer com certeza se era “gay” (poderia ser desde que não assumisse publicamente), heterossexual, casado, com filhos, viúvo... Não quererá isto significar algo? Que a condição sexual dos crentes é mais ou menos irrelevante para o Reino de Deus, por exemplo.

Até São Paulo disse, sobre casar ou não casar: "Quanto a isso, o Senhor nada nos deixou..."

Condição sexual de Jesus - 2.

30 de Março de 1853. Nasce Van Gogh


Vincent van Gogh (Zundert, Holanda, 30 de Março de 1853 — Auvers-sur-Oise, França, 29 de Julho de 1890) um dos maiores pintores de sempre, com mas que só vendeu um quadro em vida – “A vinha encantada” – deixou-nos também uma “Pietá”.

segunda-feira, 29 de março de 2010

A Capela Sistina só para mim

A Capela Sistina para ver nas calmas. Não é como no local, mas vê-se com mais tempo e sem atropelos. E - pormenor não dispensável para quem já esteve mesmo no local - dá para ver o chão (última imagem da sequência). Visão 360º aqui.




O verdadeiro Código Da Vinci

Faltam 1996 anos para o novo dilúvio, segundo profecia inscrita na toalha da mesa da "Última Ceia", de Leonardo da Vinci. Recorte da "Notícias Sábado" de 27 de Março de 2010.

29 de Março de 1549. Chegam ao Brasil os primeiros jesuítas

"Anchieta e Nóbrega na cabana de Pindobuçu" (Museu Paulista)

Os primeiros jesuítas chegaram ao Brasil, à Bahia, no dia 29 de Março de 1549, chefiados por Manuel da Nóbrega (1517-1570, co-fundador da cidade de São Paulo). Com eles ia o primeiro governador-geral, Tomé de Souza.

Neste primeiro grupo estavam os seguintes jesuítas: Leonardo Nunes, João de Azpilcueta Navarro, António Pires e os irmãos jesuítas Vicente Rodrigues e Diogo Jácome.

No Brasil, os jesuítas dedicaram-se à pregação e à albetização. Era difícil a conversão sem leitura. Manuel da Nóbrega escreve numa carta, ao fim de 12 dias em terras de Vera Cruz: “Tem grandes desejos de aprender e, preguntados se querem, mostraõ grandes desejos. (...) Se ouvem tanger à missa, já acodem, e quando nos vem fazer, tudo fazem: assentão-se de giolhos, batem nos peitos, alevantão as mãos ao ceo”.

O espanhol José de Anchieta (1534-1597, co-fundador da cidade de São Paulo), que vai num segundo grupo a pedido de Manuel da Nóbrega, escreve por isso a “Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil”, além dos “Poemas à Virgem Maria”, em latim.

Durante 210 anos, até à expulsão pelo Marquês de Pombal, em 1759, os jesuítas vão imperar no ensino brasileiro. No momento da expulsão, “tinham 25 residências, 36 missões e 17 colégios e seminários, além de seminários menores e escolas de primeiras letras onde havia casa da Companhia de Jesus” (li aqui).

Pio XII ajudado por judeu

Bento XVI e Gary Krupp (à direita)

As coisas não correm nada bem a Bento XVI, que tem a simpatia de alguns intelectuais, mas, ao que tudo indica, uma “má imprensa”. Pense-se em Ratisbona e a polémica com os muçulmanos, no desejo de beatificar Pio XII, na questão do preservativo durante a viagem para África, e agora no escândalo da pedofilia, que, infelizmente, não é apenas uma questão de “má imprensa”, embora também a haja pelo meio.

Mas este fim-de-semana, o “Diário de Notícias” revelou uma boa nova para Bento XVI, que não é assim tão nova, porque há muito circula na Internet, pelo menos. Refiro-me à Pave The Way Foundation, de Gary Krupp, que tem juntado elementos em favor de Pio XII na questão da protecção aos judeus. O DN dá como título à peça “O Judeu que defende «O Papa de Hitler»”, numa alusão ao livro de John Cornwell, na Terramar.

O que afirma o Gary Krupp? Isto: Pacelli "foi o maior herói da II Guerra Mundial. Salvou mais judeus do que Roosevelt, Churchill e os outros líderes religiosos em conjunto. Não devíamos permitir que ele se tornasse um foco de divisão entre católicos e judeus".

E o rabi e historiador David G. Dilan acrescenta o Papa salvou "quase 85% dos judeus" que viviam em Itália. "Muitos judeus famosos - Albert Einstein, Golda Meir, Moshe Sharett [2.º chefe do Governo de Israel], Isaac Herzog [principal rabi dos judeus asquenazes entre 1937 e 1959] e outros expressaram publicamente a gratidão a Pio XII", acrescenta.

Krupp diz que Pio XII está a ser alvo de um “assassínio de carácter”. E o DN (artigo de Abel Coelho de Morais) sintetiza: “O essencial para Krupp não são os temas teológicos ou a santidade de Pio XII, mas a verdade dos factos. Para este empresário reformado de equipamentos médicos, é importante a divulgação dos arquivos secretos do Vaticano, mas defende que «existe informação disponível e ninguém parece interessado em consultá-la»”.

Sítio da Pave The Way Foundation

Livro de Gary Krupp

Artigo do DN

Reencontrar

"É preciso reencontrar Deus: a própria Fonte, para além das ideologias e das escravizações de hoje. Reencontrar, em Deus, inspiração, verdade e liberdade, para além das armadilhas e feridas aqui na terra. Trata-se de reencontrar a unidade por meio da caridade. Reencontrar humildemente uma filosofia realista para além de filosofias excitantes, mas que nos afundam. Reencontrar, com a realidade da terra, a realidade última de Deus: verdadeiro pólo da nossa magnetização e do nosso amor. Numa palavra, reencontrar a Eucaristia, onde Deus, morto e ressuscitado por nós, Se dá a Si próprio em alimento, intimamente, orgânica e totalmente. É este o segredo do amor. O amor não cansa. Não passa. Ele respeita e vivifica todas as diferenças. O amor existe. Apesar do ritmo frenético das nossas existências, não esqueçamos de O reencontrar".

René Laurentin, “A Igreja do Futuro”, Edições Paulistas, pág. 283-284.

domingo, 28 de março de 2010

28 de Março de 1985. Morre Marc Chagall


Marc Chagall nasceu no dia 7 de Julho de 1887, no que é hoje a Bielorrússia, e morreu no dia 28 de Março de 1985, em França. Há 25 anos. Das suas pinturas, gosto especialmente desta, em que Jesus aparece com o tallit de judeu. Os judeus são perseguidos nos episódios que circundam a crucificação. Cristo, o judeu, sofre. Chagall, judeu, também teve de fugir.

Bento Domingues: "Evangelho e cultura na Semana Santa"

Morrer e viver para sempre

"Morrer faz parte da nossa dignidade e é uma condição para a nossa felicidade actual. Isto conduz-nos a situarmo-nos no tempo, com os seus prazos e os seus projectos. Quem de entre nós, honestamente, desejaria que a sua vida actual se prolongasse indefinidamente? Se nós pensamos em vida eterna, ela não é desejável senão sob uma outra forma, que nós somos incapazes de imaginar.

Entre a nossa vida de hoje e a nossa vida depois da morte, existe a mesma continuidade que entre o grão semeado e a planta que há-de nascer dele.

Na cena da transfiguração, que contam Mateus, Marcos e Lucas, Jesus transfigurado era inteiramente Ele mesmo e inteiramente diferente. Como Ele também nós estamos destinados a ser por toda a eternidade inteiramente nós mesmos e inteiramente diferentes, as trevas que há em nós terão sido transformadas em luz. Uma vida assim vale então a pena durar para sempre".


Michel Quesnel, in “Cristo vivo para a cidade”, Congresso Internacional para a Nova Evangelização, Lisboa 2005

Face sombria de grandes instituições

Opinião de Catalina Pestana, que em tempos foi responsável máxima pela Casa Pia, no "Sol" do dia 26 de Março.

sábado, 27 de março de 2010

Muitos mais livros ficaram por escrever

Shusaku Endo termina o seu livro “Uma vida de Jesus” (ed. Asa) à maneira do Evangelho de São João. Este fascínio por Jesus é constitutivo do cristianismo. Isto não existe em relação a mais ninguém.

"Obviamente, jamais ousei, um instante que fosse, vir a abarcar nesta vida de Jesus, mesmo por alto, a totalidade da sua vida. Cada um de nós imagina projectando n’Ele a sua própria vida. Mesmo assim, algo haverá sempre de misterioso, impenetrável e enigmático na maneira de reflectir também a vida deste homem em nossas vidas. Agradar-me-ia sumamente poder aproveitar o resto dos meus dias para escrever uma outra vida de Jesus a partir de experiências acumuladas. Nem mesmo então quando julgasse havê-la concluído, eu me libertaria do desejo e da necessidade de escrever de novo uma nova vida de Jesus".

Shusaku Endo

Prémio Signis para "O Laço Branco"

O filme “O Laço Branco” ("Das Weisse Band"), aqui referido, de Michael Haneke (filme alemão, realizador austríaco), ganhou o prémio para melhor filme europeu de 2009, atribuído pela Signis – Europa (da Associação Mundial Católica para a Comunicação).

O prémio distingue filmes que aliem qualidade cinematográfica a valores retratados.

Outros premiados por ordem de qualificação: “À Procura de Eric”, de Ken Loach (Reino Unido); “O Profeta”, de Jacques Audiard (França); “Lourdes”, de Jessica Haussner (Áustria); “Welcome”, de Philippe Lioret (França).

Anselmo Borges: "A pedofilia na Igreja Católica"

Texto do padre Anselmo Borges no DN de hoje:


Na semana passada, fui abordado por vários jornalistas sobre a calamidade dos padres pedófilos. Que achava? A resposta saía espontânea: "Uma vergonha." Aliás, no sábado, apareceu, finalmente, a Carta do Papa, na qual manifestava isso mesmo: "vergonha", "remorso", partilha no "pavor e sensação de traição".
O pior, no meio deste imenso escândalo, foi a muralha de silêncio, erguida por quem tinha a obrigação primeira de defender as vítimas. Afinal, apenas deslocavam os abusadores, que, noutros lugares, continuavam a tragédia.


Há na Igreja uma pecha: o importante é que se não saiba, para evitar o escândalo. Ela tem, aliás, raízes estruturais: o sistema eclesiástico, clerical e hierárquico, acabou por criar a imagem de que os hierarcas teriam maior proximidade de Deus e do sagrado, de tal modo que ficavam acima de toda a suspeita. Mas, deste modo, aconteceu o pior: esqueceu-se as vítimas - no caso, crianças e adolescentes, remetidos para o silêncio e sem defesa.

Neste sentido, o Papa dirige-se criticamente aos bispos: "Foram cometidos sérios erros no tratamento das acusações", que minaram "seriamente a vossa credibilidade e eficiência". Por isso, "só uma acção decidida levada em frente com honestidade e transparência poderá restabelecer o respeito em relação à Igreja". Mas, aqui, há quem pergunte se não foram ignoradas as responsabilidades do Vaticano nestes erros e silêncios.
É sabido que infelizmente a Igreja Católica não tem o monopólio da pedofilia, que passa por muitas outras instituições: religiosas, civis e militares - há dados que mostram que a maior parte dos casos acontece nos ambientes familiares -, e é decisivo que todos assumam as suas responsabilidades, pois não é bom bater a culpa própria no peito dos outros. Mas é natural que o que se passou no seio da Igreja seja mais chocante, já que se confiava mais nela.

Até há pouco tempo, a Igreja pensou que era a guardiã da moral e queria impor os seus preceitos a todos, servindo-se inclusivamente do braço secular, ao mesmo tempo que se julgava imune à crítica. Recentemente, a opinião pública começou a pronunciar-se também sobre o que se passa na Igreja, pois todos têm o direito de debater o que pertence à humanidade comum. Há quem diga que, no caso, se trata de revanchismo. A Igreja tem dificuldade em lidar com a nova situação, mas, de qualquer modo, tendo sido tão moralista no domínio sexual, tem agora de confrontar-se com este tsunami, que exige uma verdadeira conversão e até refundação, no sentido de voltar ao fundamento, que é o Evangelho.

As vítimas precisam de apoio e de reparação, na medida do possível. Esse apoio não pode ser só financeiro. Note-se que já se gastaram em indemnizações milhares de milhões de euros, sendo certo que os fiéis não pensariam que todo esse dinheiro havia de ter, infelizmente, este destino. Assim, até por isso, a Igreja precisa de reparar os males feitos e de uma nova atenção para que esta situação desgraçada nunca mais se repita, o que implica, por exemplo, uma atenção renovada no recrutamento de novos padres.

Os abusadores precisam igualmente de apoio, também psicológico, e de compreensão. Deve, no entanto, vedar-se-lhes o exercício do ministério e, uma vez que se está ao mesmo tempo em presença de um pecado e de um crime, deverão pedir perdão, reconciliar-se com Deus e colaborar com a Justiça dos Estados.


Não se pode estabelecer uma relação inequívoca de causalidade entre celibato e pedofilia, até porque há também muitos casados, até pais, que abusam sexualmente de menores. Mas também não se poderá desvincular totalmente celibato obrigatório e pedofilia, sobretudo quando, para chegar a padre, se foi educado desde criança ou adolescente num internato, aumentando o risco de uma sexualidade imatura.
Em todo o caso, será necessário pensar na rápida revogação da lei do celibato. Aliás, a Igreja não pode impor como lei o que Jesus entregou à liberdade. Enquanto se mantiver o celibato como lei, a Igreja continuará debaixo do fogo da suspeita.

27 de Março de 1923. Nasce Shusaku Endo, escritor japonês


Shusaku Endo (Tóquio, 27 de Março de 1923 – 29 de Setembro de 1996) foi baptizado em 1935, aos 12 anos, após a conversão da mãe, que se separara do pai em 1933. Endo estudou Literatura Francesa em Lyon e deixou uma obra romanesca marcada pelo catolicismo. Comparam-no a Graham Greene pelas temáticas. Em Portugal, estão publicadas pelo menos duas dobras, “Uma vida de Jesus” (na Asa) e “Silêncio” (na D. Quixote).
“Silêncio” aborda a história do missionário português Cristóvão Ferreira, líder dos jesuítas no Japão, que apostatara nas perseguições de Tokugawa, e a subsequente investigação dos missionários Sebastião Rodrigues, Francisco Garrpe e Juan de Santa Maria. Trata-se de um romance sobre a fé e a dúvida, com base em acontecimentos reais.
Há tempos correu a notícia de que Martin Scorsese estava a realizar um filme sobre esta história com Daniel Day-Lewis, Gael García Bernal e Benicio Del Toro nos principais papéis. Até a Rádio Vaticano falou do assunto (aqui).

sexta-feira, 26 de março de 2010

D. Carlos Azevedo: As provas de Bento XVI

"Não tem sido um pontificado fácil. Veja-se: a suspeita que rodeou a sua escolha e a recente prova de fogo".

Portugal prepara-se para receber o Papa Bento XVI entre 11 e 14 de Maio. Podem alguns pensar que será uma ocasião desfavorável, quando carrega sobre os ombros a vergonha de situações lastimáveis e está sob os holofotes da inquisição jornalística, atirada para as suas palavras e em inspecção das suas atitudes episcopais.

Ao perfazerem-se cinco anos da morte de João Paulo II, no próximo dia 2 de Abril, vêm à memória as intervenções do cardeal Ratzinger nesses dias de luto e de expectativa. A serenidade lúcida, revelada nos diversos actos e celebrações a que presidiu, abriu caminho à sua escolha para suceder a uma figura tão carismática, criadora de forte empatia humana. Conhece bem a Igreja que deve conduzir e conhece os seus limites, sabe das divergências entre movimentos de tendência contrastante e a todos deseja ver em comunhão numa mesma Igreja de Cristo, sem fatiar a verdade, em nacos ao agrado de cada grupo.

Ter como pastor um notabilíssimo teólogo conduziu à surpreendente valorização central da concepção e do papel da caridade no cristianismo e no Mundo actual. A caridade surge neste pontificado como um dos fundamentos essenciais para a vida e a missão da Igreja. O seu equilíbrio entre teoria e prática, a procura honesta de diálogo entre Fé e Razão, a paixão por Cristo e pela sua Igreja, orientam a firmeza transparente da sua doutrina e abrem para consequências pastorais e sociais.

Não tem sido um pontificado fácil. Veja-se: a suspeita inicial que rodeou a sua escolha, as várias tentativas de encostar as suas afirmações a posições ultrapassadas, como aquando do discurso de Ratisbona, sujeito a malévolas interpretações; ou da resposta aos jornalistas na viagem a África, descontextualizada do sentido pleno; e a recente prova de fogo-cruzado, devida a aberrantes abusos, para além da procura de pacificação com os lefebvrianos, de comunhão com os anglicanos.

É esta figura fisicamente frágil e desgastada por todos estes problemas mas firme e determinada que nos visitará, como peregrino de Fátima. Após a primeira fase dos preparativos, inicia-se agora a organização pormenorizada dos encontros e das celebrações e apela-se a todos que vivam espiritualmente a Páscoa deste ano com forte interrogação sobre a Verdade e o sentido da vida. É tempo para que cada um programe o seu tempo de modo a ter o privilégio de participar em algum dos momentos da sua visita.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa

Fonte: Correio da Manhã

26 de Março de 2000. João Paulo II reza no Muro das Lamentações

No dia 26 de Março de 2000, João Paulo II, em peregrinação à Terra Santa, rezou no Muro das Lamentações. Foi o primeiro Papa a fazê-lo (no tempo de Pedro o Muro enquanto tal ainda não existia).

Numa fenda do Muro, o Papa deixou a seguinte oração:

"Deus dos nossos pais,
Vós escolhestes Abraão e a sua descendência
para levarem o vosso Nome aos gentios:
sentimo-nos profundamente consternados
pelo comportamento de quantos,
no decurso da história, fizeram sofrer estes vossos filhos
e, pedindo-Vos perdão, queremos empenhar-nos
numa fraternidade autêntica
com o povo da aliança.
Amen".


Fonte: Vatican.va

A história vivida e contada de D. Manuel Clemente

Entrevista do Bispo do Porto e Prémio Pessoa ao jornal "Mundo Universitário" de 22 de Março.

O que é a vida moral?

"Este é o desafio fundamental da vida moral em termos católicos clássicos: o desafio da dádiva de si mesmo aos outros. Tudo o resto – incluindo regras e leis, prescrições e proibições – gira à volta disso. A dádiva de si mesmo prepara-nos para sermos o tipo de pessoa que pode viver com Deus, uma Trindade de Pessoas que se entregam a si mesmas, para sempre.

A vida moral não é algo que se acrescente à vida real, do exterior. Vivemos no espaço entre a pessoa que somos hoje e a pessoa que devíamos ser.

A moralidade não se limita a ordens e deveres, embora envolva ordens e deveres. Vista do interior, a moralidade tem a ver com felicidade e com as virtudes que resultam na felicidade".

George Weigel, “A verdade do Catolicismo”, Bertrand Editora, pág. 82

quinta-feira, 25 de março de 2010

"Pedofilia", um redondo vocábulo

Nos “redondos vocábulos” de hoje (“Público” de 25 de Março), Helena Matos inclui “pedofilia” (os outros são “Icebergue”, “Igualdade”, “Inverdades”, “Números”, “Problemático” e “Tecnológico”). Trata-se de uma crítica à distorção do significado e ao abuso destas palavras na comunicação social. Escreve a cronista:

Pedofilia – Nesta terminologia, a pedofilia é um crime hediondo quando praticado por sacerdotes católicos e o encobrimento dos autores destes actos por parte do Vaticano merece toda a condenação. Se os autores dos actos pedófilos foram políticos, e muito particularmente políticos que saibam esgrimir com perícia os redondos vocábulos, deixa de ser adequado usar o termo pedofilia. Estamos perante casos prescritos, coisas que não interessam ou, no limite, cabalas. Por fim, se for praticada por artistas, a pedofilia deixa de ser crime, tornando-se num detalhe sem relevância no percurso sempre notável do dito artista”.

25 de Março de 1807. O Parlamento do Reino Unido proíbe o comércio de escravos

Não seria ainda a proibição da escravatura. Mas foi um passo determinante. No dia 25 de Março de 1807, o Parlamento do Reino Unido aprovou “Um Acto para a Abolição do Comércio de Escravos”, que proibia o comércio de escravos no Império Britânico. A abolição da escravatura chegaria em 1833.

Na origem das leis de 1807 estão os esforços de quakers e de cristãos evangélicos liderados por William Wilberforce (1759-1833).

Há um filme sobre o assunto.

Tratado de Roma, que criou a CEE, foi assinado há 53 anos

Não sei que ordem de ideias presidiu à marcação da assinatura do Tratado de Roma para um 25 (de Março de 1957). É o dia da Anunciação. Nove meses antes do Natal.

O Tratado de Roma, assinado pela Alemanha, França, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo entraria em vigor passados nove meses, no dia 1 de Janeiro de 1958.

Não sei quem teve a ideia de tal dia, mas é sabido que Konrad Adenauer, Robert Schumann, Jean Monnet e Álcide de Gasperi, os primeiros e principais artífices da Europa unida, a que depois de juntaram socialistas e liberais, eram católicos convictos, aceitavam a visão social da Igreja. Houve quem criticasse a ideia dos pais fundadores dizendo: "A Europa Vaticana!" De alguns sabe-se que rezavam diariamente e têm o processo canonização aberto.

Não sei qual a justificação para esse dia. Mas tenho a certeza de que nesse 25 de Março passou-lhes pela ideia que se anunciava uma nova vida para a Europa.

Ajudar a levar a cruz

"Ajudar a levar a cruz significa ajudar a encontrar um sentido naquilo que, à primeira vista, aparece unicamente como uma situação de morte e, ao mesmo tempo, oferecer uma solidariedade simpática que não deixa que a pessoa se sinta só na dificuldade. Porque há realmente uma saída.

É verdade que poderemos embater no muro do contra-senso e da dor paralisante. Foi algo que até Jesus conheceu. Mas, se a cruz encontra na Páscoa um sentido, é precisamente o de ter derrubado um muro e de ter transformado um fim num princípio. O que equivale a dizer que seremos tanto mais capazes de carregar a cruz quanto mais compreendermos que, no fim de contas, é a cruz que nos leva".

Domenico Pezzini, in “As feridas que curam” (ed. Paulinas), pág. 14-15.

Outro texto deste autor aqui.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Alexandra Lucas Coelho: Deus e deus (III)

O texto de Alexandra Lucas Coelho, no "Público" de 19 de Março, que conclui a série de três sobre "Deus" e "deus". O primeiro pode ser lido aqui; o segundo aqui; e o que esteve na origens três aqui.

24 de Março de 1966. Paulo VI oferece seu o anel de Bispo de Milão ao Arcebispo de Cantuária

Paulo VI e D. Michael Ramsey na Praça de São Pedro,
em Março de 1966

Foi apenas um gesto entre muitos outros simbólicos do Papa Montini. Abraçou Atenágoras (de Constantinopla), ortodoxo, e disse-lhe “Meu irmão”; vendeu a mitra, mais símbolo do poder do que do serviço; deu o anel a D. Michael Ramsey, primaz da Igreja Anglicana (Ramsey na capa da "Time", aqui).

No dia 24 de Março de 1966 nem televisões nem máquinas fotográficas registaram o gesto. Mas duas testemunhas presenciaram o acto, em Roma. Um delas, John Andrew, secretário privado de Ramsey, contou que na véspera o Papa lhe perguntou se achava melhor avisar antes o Primaz, se agir de surpresa. Paulo VI optou pela segunda alternativa.

No dia 24, depois de uma celebração conjunta em São Paulo Fora de Muros e da assinatura da “Declaração Comum”, Paulo VI, após terem visto os frescos da basílica, diz a D. Michael Ramsey: “Tire o anel”. O inglês papal não era lá grande coisa, pelo que o secretário teve de repetir: “Take off your ring”. O arcebispo assim fez.

Como recolhi estes elementos de John L. Allen Jr. (aqui), e como o episódio é magnífico, traduzo o resto:


Paulo VI pediu-lhe, no seu inglês cheio de sotaque, para tirar o anel. Ramsey não percebeu, e virou-se para Andrew, que lhe disse: “Tire o seu anel”.

Ramsey tirou e entregou-o a Andrew.

Paulo VI pegou então na mão direita de Ramsey e pôs-lhe o anel verde e doirado, com uma cruz no centro e quatro diamantes em redor, no seu dedo [ver anel aqui]. Ramsey deteve-se por uns instantes, deixando emergir o significado do gesto: o Bispo de Roma estava, efectivamente, a reconhecê-lo como membro do episcopado, e em certo sentido, a igreja que liderava como “irmã” da igreja de Roma.

Ramsey desfez-se em lágrimas. Paulo aproximou-se e abraçou-o, e por uns instantes, os dois ficaram nos braços um do outro, quase sozinhos no interior da imensa basílica.

Ramsey disse então adeus a Paulo. Andrey percebeu de repente que tinha um problema de protocolo, porque também tinha de se despedir do papa, que agora não tina anel para beijar. Andrew ajoelhou-se, juntou ambas as mãos papais e beijou-as. Paulo tocou Andrew nas faces, levantando-o com suavidade, e dirigiu-lhe um adeus.

Ramsey usou o anel durante o resto dos seus dias. Tornou-se depois propriedade do Palácio de Lambeth, em Cantuária [aqui], e é costume os arcebispos de Cantuária usarem-no quando visitam o papa.

Duas notas-de-rodapé à história.

Primeira. Na noite de 24 de Março, o mensageiro de Paulo VI apareceu novamente à porta de Andrew, no Colégio Inglês. “O papa encontrou a caixa do anel”, disse o mensageiro, “e pediu-me que lha desse”.

Andrew respondeu prontamente:

“Ee sei que o meu arcebispo vai usar o anel até morrer”, disse Andrew. “Não vai precisar desta caixa, por isso, se não se importa, eu guardo-a”.

O mensageiro sorriu.

“Foi o que pensou o papa”, disse ele. “Por isso é que me mandou trazê-la”.

Segunda. Andrew, que se retirou depois de ter servido como reitor da Igreja Anglicana da São Tomás, em Nova Iorque, nunca tinha encontrado Rowam Williams [actual arcebispo de Cantuária], antes da visita a Roma de 3-5 de Outubro [de 2003]. Os dois homens cumprimentaram-se na recepção no Palácio de Doria Pamphili, onde Andrew recontou esta história a Williams. Pediu então para ver o anel, que Williams usava pela primeira vez na sua visita a João Paulo II.

Andrew beijou o anel.

“Isto é para o meu querido Michael”, disse a Williams.

Para quem pede o pobre?

"O que pede não é o pobre, mas Deus no pobre, como diz São Jerónimo: Cada vez que estenderes as mãos aos pobres, pensa que as estendes a Cristo.

O que pede não é a tua fazenda, mas a sua; porque se Cristo é herdeiro e Senhor de todas as coisas, também o é da tua fazenda, da tua pessoa e da tua vida, pois ela, com tudo o demais, está na sua mão.

Mas, se consideras para quem pede, digo que pede mais para ti do que para si: porque para si pede bens da terra e a ti dá bens do céu. Como disse o Senhor àquele mancebo: Se queres ser perfeito, vai e vende todas as coisas que tens e dá-las aos pobres e terás um tesouro guardado no céu".


Frei Luís de Granada, in “Tratado da Oração, do Jejum e da Esmola” (ed. Paulinas; ver mais aqui), pág. 247.

terça-feira, 23 de março de 2010

"Time" 15/16 - Mais líderes cristãos na capa

Pedro Arrupe, na “Time” de 23 de Abril de 1973

Superior geral dos jesuítas de 1965 a 1983, Pedro Arrupe (1907-1991) foi um dos sobreviventes de Hiroshima. Era missionário do Japão e estava a 6 quilómetros do epicentro da explosão que arrasou a cidade. Mas o artigo da “Time” é mais sobre a congregação e a procura de uma nova identidade do que sobre o líder. Começa com duas citações:

If ever any Congregation of Men could merit eternal Perdition on Earth and in Hell, it is the company of Loyola.

John Adams, writing to Thomas Jefferson, in 1816

The expense is reckoned, the enterprise is begun; it is of God, it cannot be withstood.

Edmund Campion, S.J., in 1581, shortly before being hanged, drawn and quartered

Ler aqui.


Pat Robertson. 17 de Fevereiro de 1986

Pastor baptista, sulista, pentecostal. Advogado. Chegou a ser candidato à presidência dos EUA. Tem uma rede de televisão e dinamiza o programa “The 700 Club”. Ler aqui.


Jimmy Swaggart, 6 de Abril de 1987

Jimmy Lee Swaggart (1935), tele-evangelista sem denominação específica, esteve envolvido num escândalo de sexo, cobiça e política. Ler aqui.


Billy Graham. 15 de Novembro de 1993

Conselheiro de presidentes (George Bush – pai dizia que é “o pastor da América”), por vezes tido como próximo dos católicos e do Papa, Billy Graham (1818) é o mais conhecido dos pregadores evangélicos. A “Time” dedicou-lhe uma capa nos seus 75 anos (ler aqui), quando lutava contra a doença de Parkinson, e outra em 2007 (ler aqui).


T.D. Jakes. 17 de Setembro de 2001

Líder de uma igreja cristã sem pertença específica, a “The Potter’s House” (“Casa do Oleiro”), em Dallas, o bispo T.D. Jakes (1959) é mais uma estrela do tele-evangelismo (ler aqui), também na internet (aqui).

A Deus que fala e se cala

Nunca nos deixes esquecer
Que quando falas também te calas.
Concede-nos que mantenhamos a confiança,
Enquanto esperamos a tua vinda,
Quando te calas por amor
E quando por amor falas.

Quer te cales quer fales,
És o mesmo Pai,
O mesmo coração paterno;
Quer nos guies com tua voz
Ou nos eduques
Com teu silêncio.

Soren Kierkegaard (1813-1855)

23 de Março de 1743. Estreia “O Messias”, de Haendel

No dia 23 de Março de 1743, foi interpretada pela primeira vez a oratória de Páscoa “O Messias” (ou simplesmente “Messias”, como Haendel preferia), em Londres. Diz-se que as pessoas gostaram tanto que se levantaram para aplaudir, no que terá sido a primeira “standing ovation” da história.

Liderar e servir

"Para mim, servir significa o seguinte: despertar vida nas pessoas, servir a vida que possa florescer nelas. É uma missão altruísta. Mas é também um serviço pelo qual me devo sentir constantemente grato.

Ao falar em auto-abnegação, Jesus não disse para nos vergarmos ou para desistirmos de nós mesmos. Trata-se, pelo contrário, de nos afastarmos frequentemente do nosso ego, que quer tudo para si próprio e circula apenas à volta de si mesmo.

A função de um líder é um treino constante da atitude cristã verdadeiramente decisiva: honrar Deus e colocarmo-nos a nós próprios ao seu serviço e das pessoas".

Anselm Grün (1945 - ...), in “A vida e o trabalho. Um desafio espiritual”, Ed. Paulinas.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Le Monde des Religions: A vida depois da vida

Saiu mais um número de “Le Monde des religions”. São tantos os assuntos interessantes, é tanta a matéria para ler, que é difícil apontar tudo aqui. Comecemos pelo editorial, que pode ser lido e visto online. Fréderic Lenoir manifesta-se contra a canonização de Pio XII. Não diz, como outros, que Pio XII sabia e nada fez contra o Holocausto. Sabia e fez alguma coisa. Mas agiu com demasiada prudência e não com profecia. “Imaginemos que eles [Pedro ou Paulo] tinham sido papas no lugar de Pio XII. Não os imaginamos a ceder perante o regime nazi, mas antes a decidir morrer com os milhões de deportados inocentes. Eis o acto de santidade, de porte profético que, nas circunstâncias tão trágicas da história, poderíamos esperar do sucessor de Pedro. Um papa que dá a sua vida e que diz a Hitler: «Prefiro morrer com os meus irmãos judeus a caucionar esta abominação»".

É duro de ler. Mas faz pensar.

O dossiê é dedicado à “vida depois da morte” nas diferentes religiões. Há ainda artigos sobre os judeus em Anvers (Bélgica), um dia na vida de uma testemunha de Jeová, “três chaves para compreender Nietzsche (são elas: “morte de Deus”; “o super-homem”; e “o eterno retorno”), um texto sobre o cineasta Dreyer, outro sobre o romancista Michel Tournier… O melhor é ficar com o índice.

Árvore da História da Europa

Ontem foi o Dia da Árvore, um dos dias mais bonitos do ano. Há tempos apontei diversas “árvores do conhecimento” (1, 2, 3, 4). Mas há dias dei com esta magnífica “Geschictesbaum Europa” – árvore da História Europa, de autor desconhecido. Infelizmente não dá para ler muito, mas dá para perceber algumas coisas. O ano 0 (zero) está no princípio do tronco. A cada ramo corresponde uma nação, embora também haja ramos para a política e a cultura. Portugal, a par da Espanha, sai do segundo grande ramo da esquerda.

Ana Vicente: A instituição Igreja tem um problema estrutural e cultural

No "Público" de hoje, um conjunto de questões postas por Ana Vicente. São incontornáveis. Alguém tem de pensar nelas. Nós todos os que gostamos da Igreja católica.

22 de Março de 1946. Morre D. Clemens August von Galen, opositor ao nazismo

Clemens August von Galen (nome completo: Clemens Augustinus Joseph Emmanuel Pius Antonius Hubertus Marie Graf von Galen), de origens nobres, nasceu em 1878, estudou nos jesuítas, e foi ordenado na diocese de Munster, em 1904.

Bispo desde 1933, ano da ascensão de Hitler, opôs-se ao nazismo, tendo participado na redacção da encíclica de Pio XI “Mit brennender sorge”. As homilias deste bispo que ficou conhecido por “o Leão de Munster”, principalmente contra o programa de eliminação de portadores de deficiência, levaram Hitler a suspendê-lo bem como ao envio para os campos de concentração de dezenas de padres e religiosos da sua diocese.

Depois da guerra, foi feito cardeal por Pio XII, em 18 de Fevereiro de 1946, cerca um mês antes de morrer. Bento XVI beatificou-o no dia 9 de Outubro de 2005, em Roma.

domingo, 21 de março de 2010

O caminho das religiões

"Cada religião parece-me uma forma especialmente apta que Deus emprega para falar a uma raça. Eu quero crer que o cristianismo seja a sua mais bela elocução; mas não posso admitir que seja a única".
Jacques Riviére (1886-1925)

Para quando a primeira cardeal?

É inovação do Papa a nomeação de cardeal de um bispo auxiliar? O Papa Francisco disse no domingo que vai fazer cinco novos cardeais. Um de...