quarta-feira, 31 de outubro de 2012

E onde está a proposta católica?


Há um lugar comum que diz que a Igreja, quando se trata da sexualidade, está logo disposta a dar a sua sentença. Ou que a Igreja fala muito de sexo. Não é verdade. Fala de menos, até. Se repararmos nas mensagens de conteúdo sexual e afetivo que perpassam por todos os lados (literatura, cinema, tv, publicidade...), ficamos com uma resposta vazia à pergunta: E onde está a proposta cristã?

Quem ouve a Antena 3, a meio da manhã, e tem um mínimo de formação cristã, não pode deixar de ficar perplexo com as respostas e propostas de Quentino Aires, na rubrica "A hora do sexo" (com "a hora do sexo" no Google, tem-se logo acesso às gravações). Perplexo é o mínimo, perante a ideologia libertária do psicólogo, que já tem sido contraditada por outros psicólogos, mas tem eco ímpar no na rádios e, pelos vistos, na televisão.

Mas a questão é: Onde está a proposta cristã dos afetos e da sexualidade para quem ouve, vê e lê rádio, televisão e revistas. Onde estão os psicólogos de matriz cristã, que mesmo sem referências a Deus, a Jesus Cristo e ao Papa falem de uma sexualidade e a afetividade verdadeira e profundamente humanizante?

(Recuso o pensamento que tanto pode ser cínico como integrista, dependendo do lado de onde vem, que diz isto: "O Papa já se pronunciou sobre tudo isso e a resposta é «não»".)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Mário Soares quer doutrina social da Igreja

Mário Soares no DN de hoje:

1 - A IGREJA E A DOUTRINA SOCIAL CRISTÃ. Num tempo tão difícil em que os desempregados são imensos - e há, pela primeira vez, miséria desde a Revolução dos Cravos -, a Igreja não pode estar calada. Sei que há muitos e bons sacerdotes que protestam e fazem tudo o que podem para ajudar os pobres e os desempregados, bem como as associações cristãs de caridade social.

Mas refiro-me à Conferência Episcopal e ao senhor cardeal-patriarca, que, talvez pela primeira vez, foi infeliz no que disse recentemente. Acredito que a Igreja no seu extenso património também esteja a sofrer cortes. Mas, se assim é, mais uma razão para protestar e não se pôr ao lado do Governo, que é responsável pelas políticas de austeridade, que, como é hoje evidente, nos conduzirão ao desastre total.

O senhor cardeal não gosta de manifestações, está no seu direito. Mas note que, por enquanto, se trata, felizmente, de manifestações pacíficas, de que os católicos se devem lembrar muito bem visto que foram bastante úteis à Igreja, quando, em tempos passados, foram necessárias...

Permito-me dizer-lhe isto porque a doutrina social da Igreja faz-nos muita falta, neste momento tão difícil para Portugal. E não só para os portugueses, para a União Europeia - e para a moeda única -, que estão em perigo grave de desagregação. Como é que pessoas cultas e informadas não veem isto?

O atual Governo, como a esmagadora maioria dos portugueses já percebeu com as políticas de austeridade, está a empobrecer terrivelmente os portugueses e a destruir Portugal, pondo em causa a nossa própria democracia e o nosso património. Dou o exemplo da privatização das águas de que agora se fala e várias outras. Lembrar-se-ão os católicos que Sua Santidade o atual Papa, quando a mesma questão foi posta, em Itália, condenou de imediato e indignado uma tal iniciativa, por a água ser um direito humano comum?

É preciso que os católicos que acreditam sinceramente na doutrina social da Igreja se manifestem contra este Governo que só vê o dinheiro e quer destruir tudo quanto seja social.
O resto, sobre outros assuntos, está aqui. Fica registada a opinião do patriarca da política. Também acho que a doutrina social da Igreja faz muita falta, a começar por princípios tão simples como não gastar mais do que o que tem e pagar as dívidas.

...E o cemitério é o lugar do sono (segundo a etimologia cristianizada)


Ser o homem mais rico do cemitério não me interessa… Deitar-me à noite a pensar “hoje fizemos algo maravilhoso”, isso é que é importante para mim.

Steve Jobs (1955-2011)

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

domingo, 28 de outubro de 2012

Bento Domingues: Já chega de Concílio?


No "Público" de hoje. "Segundo o costume mais antigo da Igreja, isto é, da assembleia cristã, o direito e a autoridade não residiam só na hierarquia. Nos primeiros tempos, quando havia problemas, era dada a palavra a todos para a sua solução". Fica registado, com exemplos abundantes.

Inexplicavelmente, parece-me, Bento Domingues insiste que foi o "Movimento Internacional Nós Somos Igreja" (o núcleo nacional? o austríaco?) que "inesperadamente" resolveu chamar a atenção para o meio século de concílio. Na realidade, só a julgar pela agência Ecclesia, desde 2009 (nos 50 anos do anúncio de João XXIII da intenção de convocar um concílio) que se fala disto de forma clara.

Como a justiça da Igreja inspira as condenações de hoje


Lance Armstrong


Na “2” do “Público” de hoje, na página 4, dois comentários sem relação um com outro afirmam,

- o primeiro, sobre a condenação de cientistas italianos por não terem referido o risco de sismo à população de Áquila (morreram 309 pessoas), que o El Mundo “lembrou Galileu a propósito da condenação”;

- o segundo, sobre a condenação do ciclista Lance Armstrong, agora destituído dos seus sete títulos do Tour de France, que o El País ouviu de um advogado australiano, Martin Hardie, que este era “um caso de fixação no conceito de culpa mais próprio da Inquisição da Idade Média do que da modernidade”.

E eu fico a pensar:

a) que os jornalistas do "Público" andam a ler demasiados jornais espanhóis;

b) que a história da Igreja da continua a ser fonte fértil exemplos elucidativos para o que hoje acontece;

c) que o advogado australiano precisa de umas lições de história da Igreja (ou do Mundo), pois a Inquisição que mais abusou da “fixação no conceito de culpa” foi a da Idade Moderna e não a medieval.

Fé é amor

Segundo a etimologia latina, a fé é a adesão do espírito sob o impulso da vontade. Nada tem a ver com a conclusão de um raciocínio ou com um dever ligado ao medo do pecado ou do diabo. A fé é um apelo à liberdade de amor. É um ato de amor.

Abbé Pierre, 1992

sábado, 27 de outubro de 2012

Luto(s). Por quem os sinos dobram

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

Várias vezes me perguntaram por que é que não escrevia algo sobre o(s) luto(s). Aí fica então a tentativa (hoje e no próximo sábado) de satisfazer esses pedidos. E faço-o nesta ocasião, porque, num tempo em que a morte se tornou tabu - o último tabu -, as nossas sociedades permitem que os mortos nos visitem nestes dias, concretamente 1 e 2 de Novembro.

O dia 1 será este ano feriado nacional pela última vez. Permita-se-me, neste contexto, que manifeste a minha total discordância pelo facto de, na negociação do fim de dois feriados religiosos, a Santa Sé - o Vaticano, na linguagem corrente - ter optado por cortar o dia de Todos os Santos em vez do dia 15 de Agosto, Assunção de Nossa Senhora. Afinal, já havia uma festa dedicada a Nossa Senhora, a Imaculada Conceição, no dia 8 de Dezembro. E os dias 1 e 2 de Novembro são mais universais, pois são os dias da Memória e da Interrogação.

A palavra luto (do latim luctus, dor, mágoa, aflição, lamentações, lágrimas) significa, nas várias línguas - duelo, Trauer, lutto -, dor, principalmente pela morte de alguém. Principalmente. De facto, é a dor pela perda, e há muitos tipos de perda: o desemprego, o fim de um namoro, um divórcio, a reforma, um fracasso profissional... Mas é sobretudo dor pela morte de alguém. Porque a perda principal e sem retorno é a morte.

O primeiro luto deve ser por nós próprios, isto é, luto de cada um por si mesmo, no sentido de cada um se reconciliar, se ir reconciliando, com a sua mortalidade e, assim, com a sua própria morte. Hemingway escreveu um romance famoso, pleno de humanidade: Por Quem os Sinos Dobram. Afinal, por quem dobram os sinos? É por ti. Por cada um de nós. Por mim.

Para perceber uma sociedade, mais importante do que saber como é que nela se vive é saber como é que nela se morre e nela se tratam os mortos. Porque esse "como" da morte explica o "como" da vida. Na nossa sociedade do cálculo, da razão instrumental, da eficácia, da produção que deveria ser ilimitada e do afago festivo e agitado do consumo e do bem-estar consumista, a morte teve de tornar-se tabu: disso pura e simplesmente não se fala, porque é de mau tom e mau gosto. E assim se construiu uma sociedade assente na mentira. Com efeito, podemos tentar esquecer a morte, ela não se esquecerá de nós.

Não se julgue, portanto, que se tenta não pensar na morte, porque a morte já não é problema. É exactamente o contrário: de tal modo a morte é problema, um problema para o qual uma sociedade poderosíssima concretamente no domínio técnico não tem solução que a única solução é calá-lo, ocultá-lo.

Já Pascal chamou a atenção para isso, no quadro do seu divertissement. "Quando algumas vezes me pus a considerar as diversas agitações dos homens, e os perigos e trabalhos a que se expõem, na corte e na guerra, e que dão origem a tantas contendas, paixões, empreendimentos ousados, e muitas vezes maus, descobri que toda a infelicidade dos homens vem de uma só coisa: não saberem estar sossegados num quarto. Mas, quando pensei de perto no assunto, e quando, depois de ter encontrado a causa de todas as nossas infelicidades, quis descobrir a razão dela, vi que só há uma razão muito efectiva, que consiste na desgraça natural da nossa condição fraca e mortal."

Não se trata, como é evidente, de um pensar mórbido na morte - esse pensamento é detestável, tanto mais quanto foi utilizado até pela Igreja para, pelo terror da morte e do Além, exercer domínio e controlo sobre as consciências. Pelo contrário, do que se trata é de reconciliar-se e conviver de modo sadio com a morte própria. Por duas razões fundamentais. Porque o pensamento da morte atira-nos, como mostrou Heidegger, para a distinção clara entre a existência autêntica e a existência inautêntica, entre o bem e o mal, o justo e o injusto, o que verdadeiramente vale e o que não vale. Por outro lado, a consciência do limite temporal da existência no mundo obriga a viver intensamente cada instante. Só se vive uma vez e tudo é sempre pela primeira e última vez. O que temos a fazer é aqui e agora. Não há adiamento possível. E da nossa vida podemos fazer uma obra de arte ou um desastre.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Dentro do Arquivo Secreto do Vaticano

Saiu na revista do "Expresso" de 1 de setembro de 2012. Texto de Joaquim Franco. Muita história e cultura. E como (o futuro) Inocêncio XIII viu em Lisboa a experiência do "padre voador".








Como os humanos crescem

Sabe-se, começa-se a saber e, cada dia, importará saber ainda mais, que nada se consegue entre humanos a não ser ao preço de paciência sem fim... Não é a puxar pelo trigo que o fazemos crescer mais depressa.

Abbé Pierre, 1957

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

"O Último Exorcista". Oxalá que sim



P.e Gabriele Amorth tem mais um livro. Intitula-se “O Último Exorcista” (Paulinas). E eu só posso concordar. Oxalá que sim.

Mas depois leio na contracapa, escrito pelo próprio: “O Último Exorcista é um título conscientemente provocador. É claro que não sou o último exorcista deste mundo. Depois de mim, outros virão e já existem outros, mesmo entre os jovens. Mas, no mundo, somos tão poucos… Muitos bispos já não acreditam no demónio nem já nomeiam exorcistas nas suas dioceses. Estamos reduzidos a poucos e cada um de nós, na sua batalha quotidiana, sente-se como se fosse o último exorcista a combater o grande inimigo. Esta é a minha grande angústia e preocupação, sendo por isso que aceitei que o livro saísse com este título».

Debruçando-me recentemente sobre vários títulos deste padre exorcista, sinto uma certa perplexidade quanto ao seu trabalho. Vejamos. Em “Mais fortes que o mal” (Paulus), P.e Amorth diz que é ação do diabo e dos seus demónios o seguinte (o subtítulo da obra é “O demónio: reconhecê-lo, vencê-lo, evitá-lo”):

- a doença mental (os manicómios estão cheios de vítimas da ação do diabo)
- as pernas presas antes de um casamento por maldição da sogra
- cancros
- falências de negócios
- sonhos de caracter sexual
- filmes de terror
- filmes violentos
- filmes de sexo
- desenhos animados
- tentações dos santos
- assassínios
- feitiços, amarrações, maldições, macumbas, wudu, mau-olhado, filtros mágicos
- maldição do pai para a filha no dia do casamento
- luzes que se ligam sozinhas
- magos “com poderes reais”, feiticeiros e bruxos
- sapos que desaparecem de sacos com água fechados
- pregos enferrujados que aparecem debaixo do colchão sem ninguém os pôr lá.

Isto tudo e ainda vou só na página 72. O livro tem mais duzentas páginas.
Perante esta panorama (acho piada que ele distinga magos com poderes reais dos magos charlatães, o que diz muito da sua capacidade de acreditar), só não vê a ação do demónio quem não quer.

O caso das materializações  - pregos enferrujados – nos colchões é um dos muitos casos hilariantes. “Não se trata de coisas inseridas manualmente no interior dos colchões, mas por via maléfica”, diz, certamente desconhecendo a desmontagem que o P.e Quevedo fez da materialização do algodão (há vídeos por aí). É muito curioso, aliás, que os exorcistas repudiem todo o trabalho dos parapsicólogos e céticos.

Com tudo isto, tenho três hipóteses para explicar o trabalho de P.e Gabriele Amorth.
A primeira é a que ele próprio assume. Que o diabo existe e que há que falar dele para estarmos atentos e não cairmos no pecado (que é o mais importante mas não dá tanto espetáculo) nem sofrermos infestações, vexações e possessões (que é só sofrimento, mas é mais espetacular). O trabalho dos exorcista incide sobre este segundo aspeto.

A segunda é minha. O diabo existe ou não existe. Se existe (o que é existência de um não ser?) e mesmo que não exista (tem uma existência simbólica, pelo menos, e influência na vida de alguns) convém-lhe que alguém o divulgue e faça acreditar nos nadas que oprimem muita gente (maldições, maus olhados, poder dos feitiços, etc. etc.). Quanto mais se acredita, mais oprimem. O P.e Gabriele Amorth, paradoxalmente, faz um trabalho nesta linha. Quem se sente vulnerável, por mil e um aspetos, ao ler as suas obras poderá pensar que nos seus tormentos há dedo demoníaco. Como diz um autor que acredita na pessoalidade do diabo, Jean Vernette: “Meter Satanás em todo o lado é prestar-lhe honras. E por vezes induzir em tentação quem estava bem longe disso”.

A terceira, também da minha autoria. O diabo não existe. E o P.e Gabriele Amorth, com a sua credulidade ingénua, involuntariamente, é certo, mais argumentos dá a quem não aceita a existência pessoal do anjo caído. Por oposição, julgo que este padre exorcista serve a verdade. “Se o diabo é isto – podemos pensar –, é claro que não existe”.

Igualitarismo versus Honestidade

O igualitarismo abstrato de que se pode falar, como se uma reivindicação dos pobres, eles sabem que é uma farsa. Os que sofrem reclamam, sim, a honestidade.

Abbé Pierre, 1970

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Questões radicais e estúpidas

Rémi Brague

O “nobel” da Teologia, como toda a gente chama ao Prémio Ratzinger (será porque Joseph Ratzinger, enquanto prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé dinamitou diversa investigação teológica? Antes de ele ser eleito Papa, não faltavam ilustres professores da Católica e de outras escolas de teologia que diziam isso mesmo), foi entregue no domingo ao jesuíta norte-americano Brian Daley e ao historiador francês, leigo, Rémi Brague (notícia aqui).

Nunca tinha ouvido falar de nenhum deles. Mas, como quase sempre, depois de os nomes serem conhecidos, reparamos em coisas escritas por estes teólogos.

Hoje mesmo, ao desfolhar um número da “Communio” (a revista cofundada por Ratzinger; e mais uma pergunta que se impõe: já algum teólogo da "Concilium" foi premiado?), o penúltimo, dedicado à “Democracia”, dou com um texto que tem como título “Pode o homem sobreviver à democracia?”, de Rémi Brague. Muito estimulante. Com questões radicais, ainda que ele mesmo escreva que “nada impede que uma questão radical seja também uma pergunta estúpida”. Precisamos delas (hei de voltar a esta revista e a este artigo).

O tempo e as palavras

Não me importo que olhem para o relógio enquanto eu prego - desabafa o padre. Arrelia-me é quando o tiram e abanam para ver se está a funcionar.

Por vezes

A vida é mais um consentimento do que uma escolha.

Abbé Pierre, 1990

terça-feira, 23 de outubro de 2012

"Aleluia" dos ex-Trovante, mais ou menos




"Aleluia" é um dos temas do álbum "Missa Brevis", dos Cantate (João Gil, Luís Represas, Manuel Rebelo, Manuel Paulo e Diana Vinagre), que tem o apoio da Renascença. O disco é uma edição da Genius y Meios, empresa do grupo r/com - renascença comunicação multimédia, e estará disponível a partir de Outubro de 2012 (lido e ouvido aqui).

Três notas sobre o papiro da mulher de Jesus


1. A "Harvard Theological Review" adiou a publicação do artigo de Karen King (a investigadora que foi a Roma apresentar o papiro num congresso de estudos coptas) até ter a certeza da autenticidade do papiro. Aguardam-se as análises de laboratório. Em parte as dúvidas devem-se ao que vem no ponto 2.

2. As suspeitas de não autenticidade avolumaram-se com o estudo de Andrew Bernhard. Basicamente o que diz este “master of studies” da Oxford University é que o papiro da polémica é uma manta de retalhos (“patchwork”) elaborada a partir do Evangelho (copta) de Tomé. Alguém, nos tempos modernos, com conhecimentos básicos de copta, foi ao Evangelho de Tomé e copiou palavra a palavra o que se encontra no papiro da mulher de Jesus. O investigador encontrou correspondências para todas as palavras exceto para “esposa”. Este quadro resume a explicação:


No lado esquerdo, as palavras do Evangelho da Mulher de Jesus (The Gospel of Jesus’s Wife). Agradeço a Fernando d’Costa, que me mostrou este estudo (aqui).

3. Ainda sobre o papiro talvez valha a pena ler este estudo no Smithsonian. Ainda não o li, mas agradeço a Fernando Correia de Oliveira pela indicação.

Cardeal não protesta


No DN de hoje. Mais uma vez a sensatez de D. José Policarpo. Até poderíamos pensar que não é só na rua, contestando, que não se resolve nada. Nos tribunais, protestando, também não se resolve grande coisa (sim, penso que a principal reforma de que o país precisa é a da justiça).

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Puseram droga no chá do Papa


O canal franco-alemão Arte começou a exigir uma série chamada “Ainsi soient-ils”, "Assim sejam".

Parece que os atores são bons e a produção é cuidada, ainda que, pelo trailer, não faltem os clichés (os sinos, o escuro, o canto gregoriano, o rapazinho que de certeza tem um segredo sexual para contar...) sobre essa entidade que atrai e não deixa de seduzir ao mesmo tempo que é odiada, que não pára de  surpreender mesmo quando se pensa tudo saber dela. Chama-se Igreja católica.


Acontece que algumas coisas, se não são mentira – é ficção, claro – são pouco verosímeis. O Bispo de Gap e d’Embrun (França), D. Jean-Michel di Falco Léandri, que já viu a série toda, deplorou a transmissão do seriado televisivo […] que agride à Igreja Católica ao apresentar aos seminaristas, sacerdotes, bispos e inclusive ao Papa, envolvidos em histórias de corrupção, alcoolismo, sexo, abortos e luta de poderes, entre outros temas. Li aqui.

Continuo a citar: Para "coroar" tudo, refere D. di Falco, “Ainsi soient-ils” apresenta um presidente da Conferência Episcopal da França "isolado, ambicioso, imbuído de poder, desalmado, calculador, que prepara uma campanha para sua reeleição ao estilo dos homens maus da política. Tudo sob a autoridade de um Papa carnavalesco, preguiçoso e mal-humorado, submetido à vigilância de uma religiosa bigotona que o droga… quando lhe prepara o chá".

Com isto tudo, é claro que quero ver a série.

Ai o preço das batinas


No DN de 21 de outubro. Vale a sensatez dos padres interrogados. Até porque, pelos vistos, as batinas estão caras.

Direitos e deveres

A moral ensina-nos que se um homem vê o seu filho morrer de fome, pode servir-se do padeiro. O mesmo se passa com a habitação; um chefe de família tem o direito de se instalar numa casa vazia. Não contesto do direito de propriedade mas, se não temos o direito de roubar, também não temos o direito de deixar morrer.

Abbé Pierre, 1990

sábado, 20 de outubro de 2012

O Credo cantado pelos ooberfuse, uma banda de pop cristão apreciada pelos bispos ingleses




O monoteísmo do capital financeiro e a felicidade

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.
Pepe Mujica

De finanças o meu conhecimento é praticamente nulo. De ciência económica, quase. Mas não fico muito aflito, pois o que noto é que entre os economistas a confusão é imensa, tornando-se cada vez mais claro que, afinal, a economia é tudo menos uma ciência exacta.

Mas vamos ao capital, que é mesmo capital, como diz o étimo: caput, capitis (cabeça), necessário e até essencial para a existência humana. Seguindo em parte uma taxonomia de P. Bourdieu, X. Pikaza apresenta os diferentes sentidos de capital.

Nos capitais simbólicos, encontramos o capital sócio-cultural - o conjunto das riquezas simbólicas dos grupos e da humanidade, começando na língua e continuando nas tradições, nas esperanças de futuro, nas artes e tecnologias, nos saberes tradicionais e nos novos saberes científicos e técnicos - e o capital ético, incluindo os diferentes domínios da vida, no plano social, laboral, jurídico, abrangendo, portanto, o capital político, jurídico, religioso...

Mas, quando se fala em capital, pensa-se fundamentalmente no capital monetário e financeiro. Evidentemente, também este é um capital simbólico, mas hoje é o dominante, acabando por subordinar os outros. O capital de consumo situa-se no mundo da vida, está ao serviço da vida e da produção de meios para o consumo, bem-estar e desenvolvimento da humanidade. Há um capital monetário ligado à produção e distribuição do poder, isto é, das relações sociais, no quadro dos valores humanos e da democracia, da distribuição dos meios que permitem a realização dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, num plano ético.

O problema maior é que nas últimas décadas se foi dando o triunfo do capital financeiro, sobretudo na sua vertente neoliberal, desligado da produção de bens materiais e da distribuição de bens sociais, para se transformar em fim em si mesmo, sem atender à vida das pessoas e acima dos próprios Estados, que devem garantir os direitos humanos e a igualdade dos cidadãos. Fim em si mesmo, domina os próprios mercados, que "já são mercados do capital".

Encontramo-nos diante do "perigo de um monoteísmo do capital financeiro, que aparece assim como o único Deus do nosso mundo. Um capital por cima da produção de bens e da administração da justiça dos Estados, um capital sem normas éticas, sem outra finalidade que não a do desenvolvimento do próprio capital nas mãos de poderes financeiros frequentemente sem nome."

Este capital toma conta de todos os outros, a começar pelo capital ético, e está na base de uma guerra em curso, que custa milhões de vítimas.

Esta situação exige reflexão, pois cada vez se torna mais clara a urgência de mudar globalmente de paradigma. Entretanto, é salutar saber de exemplos de solidariedade e ética, que animam a esperança e são sinal de que a humanidade verdadeira mora para outras bandas.

A gente nem quer acreditar, quando lê, em Isabel Gómez Acebo e no "Courier International", o exemplo impressionante do presidente do Uruguai, José Mujica. Após a eleição, continua a viver na sua pequena casa, numa zona da classe média, nos arredores de Montevideu. Tem um salário de 12500 dólares mensais, mas dá 90%, vivendo com 1250 (que lhe basta, pois muitos concidadãos vivem com menos). A mulher, a senadora Lucía Topolansky, também dá a maior parte do seu salário. Como transporte oficial utiliza um Chevrolet Corsa. Durante o Inverno, a residência oficial servirá de abrigo aos sem tecto. Mandou vender a residência de Verão do presidente, e o resultado da venda destina-se, entre outros usos, à construção de uma escola agrária para jovens sem posses.

Na reunião do Rio+20, pronunciou um discurso especial. Aconselhou a uma mudança de vida, pois foi para sermos felizes que viemos ao mundo. Ora, na sociedade actual, vivemos completamente obcecados com o consumismo: trabalhamos para consumir sempre mais... tendo de pedir empréstimos que temos de devolver, e esquecemo-nos da felicidade. É este o destino da vida humana? Terminou, estimulando à luta pela conservação do meio ambiente, porque "é o primeiro elemento que contribui para a felicidade".

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

"A Mão do Diabo". Acabei de ler o novo romance de José Rodrigues dos Santos



Acabei de ler o último romance de José Rodrigues dos Santos, “A Mão do Diabo”. Comecei a lê-lo há meia hora, num centro comercial aqui perto, e ainda gastei dez minutos a vir para aqui e mais cinco para escrever isto.

O professor Tomás de Noronha é despedido. É a crise. Mas alguém lhe dá uma mensagem secreta que o obriga a ir a Florença. A mensagem cifrada (ver contracapa) diz (em inglês) “Vai para Santa Cruz e procura sobre o túmulo de Satanás”. Não é preciso grande conhecimento para saber que em Florença há a Igreja de Santa Croce (dos frades franciscanos - e não monges, como diz o livro). Túmulo de Satanás? Pensei logo no de Maquiavel, que está lá, perto do de Galileu. Mas não, é o de Dante (vazio), que escreveu sobre o Inferno, pois. Oh, não, afinal é mesmo no de Maquiavel, por causa do diabólico “Príncipe”, que Tomás de Noronha encontra o DVD que vai incriminar um eurocrata, de apelido Seth (daí a mão do diabo), responsável pela criação do Euro que, sabendo muito bem que a moeda única transferiria riqueza para o centro da Europa e deixaria na miséria as nações periféricas, mesmo assim avançou com a ideia. O TPI julga-o, graças a Tomás de Noronha.

PS: Isto não é "ficção" (também li as informações finais). Infelizmente esqueci-me de ver quanto custa o romance para ficar com uma ideia da poupança.

Santas e pecadoras

 No DN de hoje.


Entretanto, no "Público", uma notícia fala do escândalo da pedofilia ("abusos sexuais") no escutismo dos EUA (aqui). Agradeço a F.d'C., que me alertou para a notícia, perguntando: "Ainda continuarão a dizer que a pedofilia do clero é uma consequência do celibato sacerdotal?"

Como a pergunta foi feita neste espaço (nos comentários daqui), devo dizer que, na minha opinião, tal ligação não deve ser feita. Ou antes, julgo que não há correlação estatística para fazer tais afirmações. 

A questão é que - e essa é a perspetiva de abordagem da pedofilia neste blogue - enquanto houver a exigência do celibato para o exercício do sacerdócio ministerial, a Igreja, como instituição, não pode "lavar as mãos" deste crime e de outros crimes ou desvios - e mesmo sem ser desvios - de ordem sexual. E a prova de que a Igreja, de facto, sente este problema como seu está na emanação de normas para a admissão ao sacerdócio sobre esta questão em concreto.

Vistas parciais

Se olharmos apenas para as flores que florescem e para a beleza das estrelas, pomos a mão sobre a outra vista para não vermos o horror e mentimos a nós próprios.

Abbé Pierre, 1994

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Onde é que você estava na manifestação do 15 de setembro?

Baptista Bastos também critica D. José Policarpo, dando-me mais uma razão, por oposição geral às ideias do opinador, para concordar com cardeal.
D. José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa, disse, em Fátima, ser contra as manifestações populares, as quais, assim como as revoluções, nada resolvem. A frase é inquietante, proferida por quem é: um homem culto, conhecedor da História e dos movimentos sociais que explicam e justificam as modificações políticas. Mais: numa altura em que o País vive uma crispação inédita, onde a fome, a miséria e a angústia estão generalizadas, as palavras de D. Policarpo não são, somente, insensatas - colocam o autor no outro lado do coração das coisas.  
Diz, ainda, o solene purpurado: "Até que ponto é que nós construímos uma saúde democrática, com a rua a dizer como se deve governar?" Não contente com a afirmação adianta, sem hesitar e sem pejo: "O que está a acontecer é uma corrosão da harmonia democrática, [sic] da nossa Constituição e do nosso sistema constitucional".
Ler tudo aqui. Do DN de ontem.

A Mão do Diabo

"A Mão do Diabo". É o novo romance de José Rodrigues dos Santos. O que quer dizer que está a chegar o Natal.

Chamem-me Ismael




O doodle do Google de hoje diz que Moby Dick faz hoje 161 anos. Suponho que se refere à publicação do romance. E porque é uma obra inspiradíssima pela Bíblia e pela tradição cristã, assinalo aqui a referência.

Ismael, o protagonista, é calvinista, “um bom cristão, nascido e criado no seio da infalível Igreja Presbiteriana”. Antes de embarcar ouve um sermão numa capela que é, ela própria, uma imagem do navio (e a barca é símbolo da Igreja). E pensa:
A sua parte central [do templo] assemelha-se às amuradas de um navio e a Santa Bíblia repousava num beiral em forma de figura de proa.
O que poderia com mais significado que isto? O púlpito é de facto a parte mais avançada da terra, tudo o resto vem depois, enquanto o púlpito precede o mundo. É no púlpito que surge a ira de Deus, é também na proa que se deve enfrentar os primeiros assaltos. É dele que, na esperança de monções favoráveis, se invoca o senhor dos ventos. Sim, o mundo é um navio numa viagem efémera e não completa. O púlpito é a proa desse navio.
O púlpito é a proa do navio guiado pela Palavra em busca do leviatã.

A isto chama-se solidariedade

O universo do homem está rodeado por todo o lado de responsabilidades, é essa a sua nobreza. Somos todos responsáveis. Responsáveis por nos próprios e responsáveis uns pelos outros.

Abbé Pierre, 1962

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Mário Soares vê vantagens num novo concílio. Mas sabe que não vai acontecer nos próximo tempos

Mário Soares escreveu ontem no DN sobre o II Concílio do Vaticano. Tirei daqui.


O CONCÍLIO VATICANO II. Passaram 50 anos desde o arranque do Concílio Vaticano II dado pelo Papa João XXIII, um grande humanista. Apesar de ser agnóstico, segui com o maior interesse esse acontecimento que transformou a Igreja católica e lhe deu uma enorme abertura ecuménica.
Em Portugal viveu-se o caso escandaloso do bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, que foi obrigado ao exílio por Salazar e que tive a honra de conhecer em Roma e mais tarde, logo a seguir à minha deportação em São Tomé, visitei em Tormes (em Espanha, naquela cidade perto de Salamanca, onde foram dar, por engano, as malas do Jacinto da "Cidade e as Serras").
Estávamos então no início da primavera política, como lhe chamava Marcelo Caetano, que seria uma fraude total e nos custaria mais cinco anos de guerra, com as respetivas mortes (de ambos os lados) e estropiados. Mas o bispo Ferreira Gomes seria pouco tempo depois autorizado a regressar do exílio, voltando ao seu magistério no Porto, onde o visitei várias vezes, depois do 25 de Abril, que mudou tudo.
Direi que o Concílio Vaticano II foi providencial para o movimento dos chamados católicos progressistas portugueses, que deram um contributo importante à luta contra o salazarismo (desde o tempo de Humberto Delgado) e depois durante o caetanismo.
Bento XVI disse, recentemente, que 50 anos depois o Concílio Vaticano II é ainda uma tarefa inacabada. É certo. Houve, como se sabe, recuos importantes como, por exemplo, a obrigação do celibato dos padres e a tentativa frustrada da igualdade entre homens e mulheres, em matéria religiosa, bem como as questões sociais e o desenvolvimento, que foi cortado, da chamada "Igreja dos Pobres".
Pelo contrário, o diálogo da Igreja com algumas outras religiões tem tido um progresso importante, desde o Concílio Vaticano II. Contudo, o Papa Bento XVI, há dias, declarou 2012-2013 como o "Ano da Fé" e afirmou ter rezado "em língua árabe". Uma novidade. A tensão religiosa que existe entre alguns islamistas e os cristãos em geral tem vindo a agravar-se, desde 2001 e o ataque da Al-Qaeda para cá, como a visita difícil de Bento XVI ao Médio Oriente tornou evidente.
No entanto, a Igreja Católica de hoje está em crise. Um novo Concílio - que seria obviamente muito importante - não parece fácil de realizar. Dado vários escândalos, que tiveram lugar nos últimos tempos, desde os sacerdotes pedófilos às questões de dinheiro, que surgiram no Vaticano, bem como o caso que ali foi julgado há dias, talvez com excessiva benevolência, do mordomo do Papa que lhe roubou documentos, certamente para os vender...
Num mundo em que as tensões religiosas abundam, um novo Concílio seria de grande vantagem, para o desenvolvimento da paz e daria um novo impulso, tanto a fiéis como a leigos. Mas compreendo que seja difícil de realizar neste momento de grave crise financeira, económica, política e social em que nos encontramos e que, longe de vencida, está a generalizar-se perigosamente.

João Paulo I nasceu há 100 anos


João Paulo I nasceu há 100 anos. Forno di Canale (perto de Veneza), 17 de outubro de 1912.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

O coração comunista de Urbano Tavares Rodrigues


Urbano Tavares Rodrigues diz que merece “amplamente o Prémio Camões”. Não me pronuncio. Pouco conheço da sua obra. Li dele um livro de contos, mas a tarde na relva junto à Torre de Belém, na primavera de 2004, foi mais agradável pela companhia do que pela leitura. Literatura pouco marcante. Nem me lembro do título do livro de contos. E é raro esquecer um título. Só sei que era das Edições Europa-América.

Li a entrevista que deu ao Ípsilon de sexta-feira passada. E vou aqui reproduzi-la, uma parte. Acho piada à religião comunista, contra todos os argumentos, e ao repúdio do cristianismo com base num argumento, nesta caso a moral sexual, que até lhe teria sido benéfica – a avaliar pelo que o próprio revela na entrevista.

…Uma vez [Álvaro Cunhal] disse-me: “Ai Urbano, às vezes parece que tens teias de aranha na cabeça, mas o teu coração é comunista”. 
E o que é isso?
Um comunismo de solidariedade com os pobres e os infelizes que é profundamente ligado ao socialismo. Eu tornei-me comunista um pouco por influência de um primo meu que casou com a irmã do Álvaro Cunhal, o Fernando Medina. Ele deu-me a ler os textos comunistas quando eu tinha 13 ou 14 anos. Fiquei tocado com a solidariedade para com os pobres e humilhados. Eu antes de ser comunista estava ligado a uma espécie de socialismo cristão, embora repudiando a confissão e tudo isso. Descobri muito cedo que era uma farsa.
 
Teve essa educação católica?
Sim, tive catequese e tudo. Fiz a primeira comunhão.
 
E como é que descobriu “a farsa”?
Quando me pediam para prometer não repetir determinadas ações e que tinha de rezar uns tantos Padre-Nossos e eu sabia perfeitamente que ia repetir.
 
Por exemplo.
Umas histórias que eu já tinha tido com umas priminhas, em que havia sexo, embora sem chegar ao fim. Tinha unas 13, 14 anos. Achava de uma desonestidade profunda dizer que não repetia. E mandei isso à fava.
 
E alguma vez sentiu culpa?
Nunca a sexualidade me pareceu um pecado. Aí estava muito mais de acordo com os gregos. Noutras coisas senti. Por exemplo, no relacionamento que tive com as mulheres. Algumas vezes acho que as magoei. Posso ter sido egoísta. Disso arrependo-me.
 
Foi um mulherengo?
Acho que não, mas tive muitas mulheres. Às vezes fico comovido quando encontro uma dessas pessoas de quem gostei.

Concílio contra a musealização da Igreja


Vaticano II. 50 anos, 50 olhares
Darlei Zanon (organizador)
Paulus
240 páginas

No domingo, Bento Domingues referia no "Público" as memórias de D. Manuel de Almeida Trindade sobre a fraca preparação dos bispos portugueses no Vaticano II (aqui).

Do livro "Vaticano II. 50 anos, 50 olhares", reproduzo o que Aura Miguel escreveu nas páginas 193-194 sobre o mesmo bispo, que foi para o concílio ainda antes de ser ordenado bispo e que, fica a nota, é o autor da entrada "Bispo" da Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura (Verbo). 
Era um homem muito inteligente e sereno, interessado e atento e, sobretudo, dotado de grande humanidade. Ficou para a história a sua notável ação e firmeza como bispo, ao defender a Igreja em tempos conturbados (nomeadamente após o 25 de abril de 1974) e também como presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. 
Quando o vi pela primeira vez em Fátima, reconheci-o logo (porque era uma referência importante e aparecia na comunicação social...), mas fiquei pasmada com a sua simplicidade e o modo como passou a tratar esta (então) “jovem caloira” jornalista. Desviava sempre o seu percurso para me vir falar e - cheio de paternidade - perguntar por mim e pela minha vida. Às vezes, sentava-se um bocado a conversar, o que era sempre uma experiência extraordinária - ora chamava a minha atenção para a beleza da luz do entardecer em Fátima, ora se interessava pelo livro que eu estava a ler e, com frequência, contava episódios do Concílio Vaticano II... Gostava de sublinhar o clima de liberdade em que os trabalhos se desenrolaram desde o início e dava vários exemplos em como essa liberdade se exprimiu nas intervenções dos padres conciliares, mesmo quando tomaram rumo diferente do inicialmente previsto. Outra das recordações foi vivida logo no primeiro dia do Concílio, a 11 de outubro de 1962. D. Manuel Trindade juntou-se aos cerca de 2200 participantes numa longa fila para poder entrar solenemente na Basílica de São Pedro. Só que, para organizar este mega cortejo, tiveram todos de entrar pelas portas dos museus. Então, este bispo português, viu-se dentro daquele espaço, com enormes corredores, rodeados de milhares de obras de arte, muitas delas milenares e arcaicas, peças mudas do passado... e a sua sensação foi meio estranha, porque - concluía ele sorridente – também a Igreja é milenar mas ali estava patente que a Igreja não queria ser objeto de museu, porque aquela multiplicidade fascinante de milhares de bispos, cardeais e patriarcas dos quatro cantos do mundo caminhavam para dar início a um grande acontecimento.

Má tradução

Traduzimos «Amarás o teu próximo como a ti mesmo» por «Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti». Por outras palavras, «Não lhe faças mal». Que abominação! Como se dois esposos, dois amigos, dissessem: «Vês bem que te amo, pois não te atiro ao tapete...»

Abbé Pierre, 1970

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Opinião no JN - O patriarca do come e cala


Opinião no JN de hoje. Sobre o que disse o cardeal,ler aqui. E outra opinião contra o cardeal aqui.

Por mim, sem nunca negar o direito à opinião, manifestação e indignação (nem isso se pode depreender das palavras do prelado), até concordo com D. José Policarpo neste caso de emergência em concreto. 

Mas lamento que em democracia não haja mais transparência na governação (para a oposição e os contribuintes e eleitores conhecerem os dados reais), sinceridade na oposição e no período eleitoral (para que um partido possa ganhar eleições mesmo prometendo austeridade - coisa que é capaz de ser inédita) e maturidade no eleitorado principalmente na hora de escolher quem governa (para não irmos em promessas que não se podem cumprir, ilusões).

Em relação a manifestações em concreto, digo ainda que não acredito muito nas massas, principalmente quando este povo, o meu, o nosso, de um ano para o outro, quando teve de apresentar o número de contribuinte dos descendentes nas declarações de IRS, fez desaparecer mais de 100 mil filhos. É um povo em que se pode confiar? Como em tudo, numas coisas sim, noutras não. No caso do dinheiro, que é só disso que se trata, hummmm.

Reencarnação

Não concordo de modo nenhum com a reencarnação. Uma vez basta.

Abbé Pierre, 1995

domingo, 14 de outubro de 2012

Trabalho

Vereis por vós próprios que se pode tirar mel da pedras e azeite dos rochedos mais duros.

Bernardo de Clavaral

Bento Domingues: Os dominicanos em Portugal e o Vaticano II

Bento Domingues no "Público" de hoje.

Pelos aromas maduros de suaves outonos

Ode à Paz

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História, deixa passar a Vida!

Natália Correia, in "Inéditos (1985/1990)"

sábado, 13 de outubro de 2012

Teorias de Satanás

No "Inimigo Público" de ontem ("Público" de 12 de outubro de 2012), antes que acabe, visto que a direção do matutino quer acabar com o suplemento humorístico (além de despedir dezenas de jornalistas).

Anselmo Borges: 11 de Outubro de 1962



Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

"Devemos discordar desses profetas das desgraças, que anunciam acontecimentos sempre funestos, como se o fim do mundo estivesse próximo." A Igreja quer ir ao encontro dos homens nas suas alegrias e esperanças, nos seus problemas e dificuldades. "Nos nossos dias, a Igreja de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade: julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validade da sua doutrina do que condenando erros."

Foi com estas palavras que o Papa João XXIII inaugurou há 50 anos, precisamente no dia 11 de Outubro de 1962, o Concílio Ecuménico Vaticano II, um dos acontecimentos maiores do século XX - o Presidente da França, Charles de Gaulle, considerou-o "o mais importante". Nele, como ironicamente escreveu a "Der Spiegel", deu-se "uma viragem copernicana, na qual Roma confessou que o Céu talvez ainda gire à volta da Basílica de São Pedro, mas a Terra não".

A Cúria Romana preparava-se para manter praticamente tudo na mesma. Houve, porém, um conjunto de cardeais que obrigaram à viragem. Um deles foi o cardeal Josef Frings, de Colónia, que tinha como assessor um jovem professor de Teologia, Joseph Ratzinger, crítico de cinco dos sete esquemas preparatórios fundamentais do Concílio. Ele e outros peritos, como Karl Rahner, Edward Schillebeeckx, Yves Congar, Hans Küng pensavam na urgência de uma renovação profunda e reconciliação da Igreja com o mundo moderno. Ratzinger foi então um provocador, até certo ponto um rebelde, favorável às línguas vernáculas na liturgia e criticando duramente a Cúria e a sua "atitude antimoderna": "A fé tem de enfrentar-se com uma nova linguagem, uma nova abertura."

Só quem viveu antes do Concílio pode aperceber-se da revolução que ele constituiu. Foi um esforço real e sincero de aproximação de todos. Como se diz no início da Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo, Gaudium et Spes, "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e das mulheres do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de todos os aflitos, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo, e nada existe de verdadeiramente humano que não encontre eco no seu coração".

E talvez o mais paradoxal é que a Igreja, com o seu aggiornamento, diálogo, abertura, apenas estava, no essencial, a reconciliar-se com o melhor do Evangelho, que, desgraçadamente, tinha tido de se impor na modernidade contra a Igreja oficial: os direitos humanos, a dignidade sagrada da pessoa humana, a liberdade religiosa, a inviolabilidade da consciência.

Devia tornar-se claro que a Igreja, "luz dos povos", é, antes de mais, "povo de Deus" e não a hierarquia e mesmo esta tem de contar com a colegialidade episcopal e a participação dos leigos, contra uma estrutura piramidal. A revelação não pode ser concebida como um ditado de Deus; apela-se, portanto, à leitura da Bíblia, que estava afastada dos fiéis, mas no quadro de uma investigação histórico-crítica. A Igreja deve estar atenta aos "sinais dos tempos", como a emancipação das mulheres, a descolonização, o mundo do trabalho, da ciência e da técnica. As realidades terrestres são autónomas e não há oposição entre a criação de Deus e a acção criadora dos homens no mundo; a esperança da salvação no além tem de dar sinais e começar já aqui. Denunciou-se o anti-semitismo, a Igreja abriu-se ao diálogo ecuménico com as outras Igrejas e confissões cristãs, com as outras religiões, com os não crentes, com todos os homens de boa vontade. A viragem mais visível foi na liturgia: em vez do latim, adoptou-se a língua vernácula, o presidente deixou de celebrar de costas para o povo, todos eram convocados para uma participação activa, fraterna e festiva.

Passados 50 anos, muito falta fazer por uma Igreja verdadeiramente conciliar. O ecumenismo não dá passos. Os bispos, como faz notar a "Der Spiegel", continuam "marginais", "a Perestoika na Cúria não se realizou". Continua a dominar em Roma "uma corte medieval" e lutas pelo poder. Sobretudo, falta a fé e o ânimo de então.

O Deus cristão só é pensável e dizível enquanto...


O Deus cristão só é pensável e dizível enquanto Deus que se dá a pensar e a dizer na sua própria Palavra; Palavra que encarnou no Homem-Deus Jesus Cristo. O Deus cristão é, por isso, um Deus que entra em contacto com a fugacidade da História, mais ainda, é o Deus que morre na cruz, onde se concentram presença e ausência de si mesmo.

João Manuel Duque, "Dizer Deus na Pós-Modernidade" (Ed. ECP/Alcalá), p. 71-72

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Vaticano II e o diálogo interreligioso


Narciso Machado sobre o Vaticano II e especialmente o documento Nostra Aetate, sobre o diálogo entre religiões. No "Público" de hoje. 

Nobel da Paz para a União Europeia. Concordo, tanta paz é milagre


Nobel da Paz para a União Europeia. Sem entrar nas políticas atuais, acho que é mais do que merecido pelos 50 anos de paz. Nações que durante um milénio só estiveram umas décadas em paz (se contarmos os conflitos internos e internacionais das grandes nações como Alemanha, França, Itália, Espanha, Inglaterra), há 50 anos que discutem e discordam sem nunca pegar em armas. Se não é milagre num conjunto de países que tem uma bandeira de Nossa Senhora, não sei o que é.

Notícia do "Público" aqui.


Sobre a "bandeira de Nossa Senhora", leia-se:
Origem da bandeira.
Os protestantes que não gostam da bandeira.

Tolentino Mendonça: A forma do cristianismo em mudança

Texto de Tolentino Mendonça, na Agência Ecclesia.

O teólogo Karl Rahner escreveu que “A Igreja tem sido conduzida pelo Senhor da história para uma nova época”. Não se trata só de baixas drásticas nos indicadores estatísticos quando se compara a atualidade com aquele que já foi o quadro da vivência da Fé. A questão é bem mais complexa. Talvez o que o nosso tempo descobre, mesmo entre convulsões e incertezas, seja um modo diferente de ser crente, traduzido de formas alternativas nas suas necessidades, buscas e pertenças. Não estamos perante o crepúsculo do cristianismo, como defendem aqueles que se apressam a chamar pós-cristãs às nossas sociedades. Quem não se apercebe que o radical lugar do cristianismo foi sempre a habitação da própria mudança não o colhe por dentro. Mas há eixos que se vão tornando suficientemente claros para que seja cada vez mais um dever os enunciarmos e contarmos com eles. Podem-se apontar três:

Primeiro, os cristãos regressam à condição de “pequeno rebanho”. Com a evaporação de um cristianismo que se transmitia geracionalmente como herança inquestionada, os cristãos voltam a sê-lo por decisão pessoal, uma decisão muitas vezes em contra-corrente, maturada de modo solitário em relação aos círculos mais imediatos de pertença. Já não é de modo previsível que nos tornamos cristãos. Isso acontece e acontecerá cada vez mais como uma opção e uma surpresa.

Depois, à medida que se assiste a um enfraquecimento da inscrição institucional das Igrejas no horizonte da sociedade redescobrimos o valor e as possibilidades de uma presença discreta no meio do mundo. Em tantas situações, nesta diáspora cultural onde estamos semeados, a única palavra verosímil é a do testemunho de uma vida vivida com simplicidade e alegria no seguimento de Jesus.

E, em terceiro lugar, esta grande mudança epocal mostra-nos que precisamos recuperar aquilo que Karl Rahner chama o “santo poder do coração”. Os cristãos são chamados a viver a amizade como um ministério. “Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,17). Há, de facto, uma revelação do cristianismo que só a prática da amizade é capaz de proporcionar. E nisto, o mundo, que pode até perder-se em equívocos sobre os cristãos, não se engana. Mesmo se for um único instante de contacto o que tivermos, tal basta para deixar transparecer uma amizade.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Bento XVI no Vaticano II, há 50 anos: "Foi um dia maravilhoso"



Bento XVI escreveu sobre o dia 11 de outubro de 1962, o início do Vaticano II. Começa assim: “Foi um dia maravilhoso”. No entanto, há pouco de memórias pessoais sobre o dia em que há 50 anos começou o II Concílio do Vaticano. Vale a pena ler. Extraí daqui o que me pareceu mais relevante. O títulos negritos sãos meus.

Um concílio convocado sem problemas concretos. Os concílios anteriores tinham sido quase sempre convocados para uma questão concreta à qual deviam responder; desta vez, não havia um problema particular a resolver. Mas, por isso mesmo, pairava no ar um sentido de expectativa geral: o cristianismo, que construíra e plasmara o mundo ocidental, parecia perder cada vez mais a sua força eficaz. Mostrava-se cansado e parecia que o futuro fosse determinado por outros poderes espirituais. Esta perceção do cristianismo ter perdido o presente e da tarefa que daí derivava estava bem resumida pela palavra «atualização»: o cristianismo deve estar no presente para poder dar forma ao futuro. Para que pudesse voltar a ser uma força que modela o porvir, João XXIII convocara o Concílio sem lhe indicar problemas concretos ou programas. Foi esta a grandeza e ao mesmo tempo a dificuldade da tarefa que se apresentava à assembleia eclesial.

Bélgica, França e Alemanha abrem caminhos. Obviamente, cada um dos episcopados aproximou-se do grande acontecimento com ideias diferentes. Alguns chegaram com uma atitude mais de expectativa em relação ao programa que devia ser desenvolvido. Foi o episcopado do centro da Europa – Bélgica, França e Alemanha – que se mostrou mais decidido nas ideias. Embora a ênfase no pormenor se desse sem dúvida a aspetos diversos, contudo havia algumas prioridades comuns. Um tema fundamental era a eclesiologia, que devia ser aprofundada sob os pontos de vista da história da salvação, trinitário e sacramental; a isto vinha juntar-se a exigência de completar a doutrina do primado do Concílio Vaticano I através duma valorização do ministério episcopal. Um tema importante para os episcopados do centro da Europa era a renovação litúrgica, que Pio XII já tinha começado a realizar. Outro ponto central posto em realce, especialmente pelo episcopado alemão, era o ecumenismo: o facto de terem suportado juntos a perseguição da parte do nazismo aproximara muito os cristãos protestantes e católicos; agora isto devia ser compreendido e levado por diante a nível de toda a Igreja. A isto acrescentava-se o ciclo temático Revelação-Escritura-Tradição-Magistério. Entre os franceses, foi sobressaindo cada vez mais o tema da relação entre a Igreja e o mundo moderno, isto é, o trabalho sobre o chamado «Esquema XIII», do qual nasceu depois a Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo. Atingia-se aqui o ponto da verdadeira expectativa suscitada pelo Concílio. A Igreja, que ainda na época barroca tinha em sentido lato plasmado o mundo, a partir do século XIX entrou de modo cada vez mais evidente numa relação negativa com a era moderna então plenamente iniciada. As coisas deviam continuar assim? Não podia a Igreja cumprir um passo positivo nos tempos novos? Por detrás da vaga expressão «mundo de hoje», encontra-se a questão da relação com a era moderna; para a esclarecer, teria sido necessário definir melhor o que era essencial e constitutivo da era moderna. Isto não foi conseguido no «Esquema XIII». Embora a Constituição pastoral exprima muitos elementos importantes para a compreensão do «mundo» e dê contribuições relevantes sobre a questão da ética cristã, no referido ponto não conseguiu oferecer um esclarecimento substancial.

Liberdade religiosa. Inesperadamente, o encontro com os grandes temas da era moderna não se dá na grande Constituição pastoral, mas em dois documentos menores, cuja importância só pouco a pouco se foi manifestando com a receção do Concílio. Trata-se antes de tudo da Declaração sobre a liberdade religiosa, pedida e preparada com grande solicitude sobretudo pelo episcopado americano. A doutrina da tolerância, tal como fora pormenorizadamente elaborada por Pio XII, já não se mostrava suficiente face à evolução do pensamento filosófico e do modo se concebia como o Estado moderno. Tratava-se da liberdade de escolher e praticar a religião e também da liberdade de mudar de religião, enquanto direitos fundamentais na liberdade do homem. Pelas suas razões mais íntimas, tal conceção não podia ser alheia à fé cristã, que entrara no mundo com a pretensão de que o Estado não poderia decidir acerca da verdade nem exigir qualquer tipo de culto. A fé cristã reivindicava a liberdade para a convicção religiosa e a sua prática no culto, sem com isto violar o direito do Estado no seu próprio ordenamento: os cristãos rezavam pelo imperador, mas não o adoravam. Sob este ponto de vista, pode-se afirmar que o cristianismo, com o seu nascimento, trouxe ao mundo o princípio da liberdade de religião. Todavia a interpretação deste direito à liberdade no contexto do pensamento moderno ainda era difícil, porque podia parecer que a versão moderna da liberdade de religião pressupusesse a inacessibilidade da verdade ao homem e, consequentemente, deslocasse a religião do seu fundamento para a esfera do subjetivo. Certamente foi providencial que, treze anos depois da conclusão do Concílio, tivesse chegado o Papa João Paulo II de um país onde a liberdade de religião era contestada pelo marxismo, ou seja, a partir duma forma particular de filosofia estatal moderna. O Papa vinha quase duma situação que se parecia com a da Igreja antiga, de modo que se tornou de novo visível o íntimo ordenamento da fé ao tema da liberdade, sobretudo a liberdade de religião e de culto.

Religiões não-cristãs. O segundo documento, que se havia de revelar depois importante para o encontro da Igreja com a era moderna, nasceu quase por acaso e cresceu com sucessivos estratos. Refiro-me à declaração Nostra aetate, sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs. Inicialmente havia a intenção de preparar uma declaração sobre as relações entre a Igreja e o judaísmo – um texto que se tornou intrinsecamente necessário depois dos horrores do Holocausto (shoah). Os Padres conciliares dos países árabes não se opuseram a tal texto, mas explicaram que se se queria falar do judaísmo, então era preciso dedicar também algumas palavras ao islamismo. Quanta razão tivessem a este respeito, só pouco a pouco o fomos compreendendo no ocidente. Por fim cresceu a intuição de que era justo falar também doutras duas grandes religiões – o hinduísmo e o budismo – bem como do tema da religião em geral. A isto se juntou depois espontaneamente uma breve instrução relativa ao diálogo e à colaboração com as religiões, cujos valores espirituais, morais e socioculturais deviam ser reconhecidos, conservados e promovidos (cf. n. 2). Assim, num documento específico e extraordinariamente denso, inaugurou-se um tema cuja importância na época ainda não era previsível. Vão-se tornando cada vez mais evidentes tanto a tarefa que o mesmo implica como a fadiga ainda necessária para tudo distinguir, esclarecer e compreender. No processo de receção ativa, foi pouco a pouco surgindo também uma debilidade deste texto em si extraordinário: só fala da religião na sua feição positiva e ignora as formas doentias e falsificadas de religião, que têm, do ponto de vista histórico e teológico um vasto alcance; por isso, desde o início, a fé cristã foi muito crítica em relação à religião, tanto no próprio seio como no mundo exterior.

Para quando a primeira cardeal?

É inovação do Papa a nomeação de cardeal de um bispo auxiliar? O Papa Francisco disse no domingo que vai fazer cinco novos cardeais. Um de...