quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Mário Soares vê vantagens num novo concílio. Mas sabe que não vai acontecer nos próximo tempos

Mário Soares escreveu ontem no DN sobre o II Concílio do Vaticano. Tirei daqui.


O CONCÍLIO VATICANO II. Passaram 50 anos desde o arranque do Concílio Vaticano II dado pelo Papa João XXIII, um grande humanista. Apesar de ser agnóstico, segui com o maior interesse esse acontecimento que transformou a Igreja católica e lhe deu uma enorme abertura ecuménica.
Em Portugal viveu-se o caso escandaloso do bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, que foi obrigado ao exílio por Salazar e que tive a honra de conhecer em Roma e mais tarde, logo a seguir à minha deportação em São Tomé, visitei em Tormes (em Espanha, naquela cidade perto de Salamanca, onde foram dar, por engano, as malas do Jacinto da "Cidade e as Serras").
Estávamos então no início da primavera política, como lhe chamava Marcelo Caetano, que seria uma fraude total e nos custaria mais cinco anos de guerra, com as respetivas mortes (de ambos os lados) e estropiados. Mas o bispo Ferreira Gomes seria pouco tempo depois autorizado a regressar do exílio, voltando ao seu magistério no Porto, onde o visitei várias vezes, depois do 25 de Abril, que mudou tudo.
Direi que o Concílio Vaticano II foi providencial para o movimento dos chamados católicos progressistas portugueses, que deram um contributo importante à luta contra o salazarismo (desde o tempo de Humberto Delgado) e depois durante o caetanismo.
Bento XVI disse, recentemente, que 50 anos depois o Concílio Vaticano II é ainda uma tarefa inacabada. É certo. Houve, como se sabe, recuos importantes como, por exemplo, a obrigação do celibato dos padres e a tentativa frustrada da igualdade entre homens e mulheres, em matéria religiosa, bem como as questões sociais e o desenvolvimento, que foi cortado, da chamada "Igreja dos Pobres".
Pelo contrário, o diálogo da Igreja com algumas outras religiões tem tido um progresso importante, desde o Concílio Vaticano II. Contudo, o Papa Bento XVI, há dias, declarou 2012-2013 como o "Ano da Fé" e afirmou ter rezado "em língua árabe". Uma novidade. A tensão religiosa que existe entre alguns islamistas e os cristãos em geral tem vindo a agravar-se, desde 2001 e o ataque da Al-Qaeda para cá, como a visita difícil de Bento XVI ao Médio Oriente tornou evidente.
No entanto, a Igreja Católica de hoje está em crise. Um novo Concílio - que seria obviamente muito importante - não parece fácil de realizar. Dado vários escândalos, que tiveram lugar nos últimos tempos, desde os sacerdotes pedófilos às questões de dinheiro, que surgiram no Vaticano, bem como o caso que ali foi julgado há dias, talvez com excessiva benevolência, do mordomo do Papa que lhe roubou documentos, certamente para os vender...
Num mundo em que as tensões religiosas abundam, um novo Concílio seria de grande vantagem, para o desenvolvimento da paz e daria um novo impulso, tanto a fiéis como a leigos. Mas compreendo que seja difícil de realizar neste momento de grave crise financeira, económica, política e social em que nos encontramos e que, longe de vencida, está a generalizar-se perigosamente.

5 comentários:

Anónimo disse...

Uau... diz o Marocas: "Houve, como se sabe, recuos importantes como, por exemplo, a obrigação do celibato dos padres e a tentativa frustrada da igualdade entre homens e mulheres". Onde é que nestes temas houve recuos?

Maria de Fatima disse...

Nada sabe e, por isso, nada disse.
Porque "no se cala" ?

Jorge Pires Ferreira disse...

Maria de Fátima, a Igreja sempre esteve na praça pública, pelo que todos podem falar dela. E também por isso é que a Igreja pode falar de tudo.

Quanto ao recuo no celibato e na igualdade, talvez pense, como muito outros pensam, que no concílio havia portas abertas para falar (alguns dizem "avançar") nestes temas... Um recuo simbólico, na discussão, nas tentativas.

Anónimo disse...

Pois pensaram, mas pensaram erradamente, pois nunca foi essa a intenção dos padres conciliares, e são esses que pensaram mal que hoje se queixam que o Vaticano II está a ser impedido de ser posto em prática.

Diamantino Costa disse...

Muito se preocupam os agnosticos com a "crise" da Igreja. A crise não é da Igreja, é da sociedade (incluindo as Igrejas). Bem sei que quem foi lider e governante, e portanto também responsável pelo aprofundar desta crise social, prefira ver a crise como a crise dos outros...

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