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sábado, 14 de setembro de 2013

Três ratoeiras

Tu me redimes de ideologias
que apenas se explicam a si mesmas,
e de conceções
que apenas são inventadas,
e do mundo virtual
que se assume como realidade.

No "Youcat", baseado em Paul Claudel

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Três maneiras de olhar para a mesma tragédia de Denver



Acontecimentos como o de Denver, em que um homem disparou contra a assistência de um filme do Batman matando 12 pessoas e ferindo mais de 50, fazem pensar no mal e mesmo no diabólico. Uma breve pesquisa no Google mostra que há imensas associações entre este crime e o diabo/diabólico. O meu receio é que, quando se pensa do diabólico, a responsabilidade humana fique diluída numa pretensa força ou influência ou o que quer que seja de sobrenatural. 

Para as leis civis, felizmente, falar do diabo será mais um motivo para atestar a insanidade mental do presumível criminoso do que para atenuar a sua responsabilidade.

Mas pode ser que falar de diabólico não nos distraia do que está em causa. Se se falar do diabo e do diabólico como símbolo de um mal quase inimaginável, mas sempre humano, se se falar do diabo e do diabólico como símbolos para nos alertar para a necessidade de estar sempre atento ao mal, que, por si, pode ser atrativo, até se compreende o uso desta linguagem. É nesta linha que interpreto as recentes palavras de Bento XVI, proferidas depois de ter falado do massacre de Denver:
“O maligno procura sempre arruinar a obra de Deus, semeando divisão no coração humano, entre corpo e alma, entre o homem e Deus, nas relações interpessoais, sociais, internacionais, e também entre o homem e a criação” (li aqui).
O Bispo de Denver, por seu turno, em entrevista à agência Zenit, falou de uma “batalha espiritual e moral entre o bem e o mal”:
“O tiroteio que aconteceu na sexta-feira foi um ato maléfico - um ato de verdadeira violência. Nossa comunidade está chocada e triste pelo acontecido. Como comunidade, levanta questões sobre o bem e o mal, e a batalha espiritual e moral entre o bem e o mal. Mesmo em meio ao caos e ao mal daquela manhã, existem histórias de heróis que no meio do tiroteio tentaram proteger os amigos e entes queridos jogando-se em cima deles. Pela graça de Deus, o povo de Aurora e do Colorado tem respondido com grande amor, com caridade e misericórdia para com os feridos e as famílias que perderam seus entes queridos. Existe um sentido de unidade em nosso estado, e isso é realmente uma graça” (li aqui).
Estas duas visões do crime adiantam algo para a sua explicação e, ainda que a questão não esteja subjacente às afirmações, para a prevenção quanto a ações similares no futuro?

Na minha ótica, muito pouco. A moralidade das ações individuais tem sempre um último reduto que é a consciência de cada um. Mas as respostas do diabo e do diabólico, do maligno e da luta entre bem e mal, geralmente iludem a sociedade em que vivemos. É por isso que, mesmo supondo que não concordo totalmente com a ideologia do seguinte autor, considero que, de um ponto de vista cristão, as suas palavras são mais úteis para perceber o que se passou em Denver e ter um princípio de mudança.

Não digo que a explicação espiritual seja contraditória com a explicação sociológica. Digo que prefiro pensar a partir do concreto e que a explicação espiritual pode constituir uma ilusão que não deixa ver o que está em causa, se formos ingénuos.

O texto é de Atilio Boron e saiu no jornal Página/12, no dia 24 de julho. Li aqui.
O massacre que aconteceu num teatro de um subúrbio de Denver desencadeou, como tantas vezes após a ocorrência de atrocidades semelhantes, o previsível coro de lamentos que por sua vez se perguntava por que aparecem regularmente nos Estados Unidos monstros capazes de cometer crimes como os do tétrico êmulo do Joker.
 
De fato, uma análise que ponha de lado a habitual complacência com as coisas do império não poderia deixar de notar uma causa de fundo: como expressão última da sociedade burguesa, os EUA são também o lugar onde a alienação dos indivíduos atinge níveis sem paralelo em escala universal. Não deveria surpreender ninguém que comportamentos como o do jovem James E. Holmes - quantos assassinatos indiscriminados ocorreram nos últimos anos? - aflorem periodicamente para espalhar a dor na população norte-americana. 
 Uma sociedade alienada e alienante, que gera milhões de toxicodependentes (sem que exista qualquer programa do governo federal para prevenir e lutar contra o vício), milhões de "vigilantes" dispostos a impor a lei e a ordem por conta própria perseguindo pessoas pela cor da sua pele ou traços faciais; e outros milhões que, assim como Holmes, podem comprar em qualquer loja de armas uma espingarda de assalto, pistolas, revólveres, granadas, bombas de fumo e todos os apetrechos da parafernália militarista e, além disso, obter licenças para usar legalmente todo esse mortífero arsenal. 
 A recorrência deste tipo de massacres evoca um problema estrutural, o que é cuidadosamente evitado nas explicações convencionais que, invariavelmente, falam de um ser perdido, de um louco, mas nunca questionam as causas estruturais que nessa sociedade produzem loucos em série. Uma sociedade que se apresenta com características paradisíacas, como a terra prometida, como o país onde qualquer pessoa pode ter sucesso e ganhar dinheiro em abundância, poder e prestígio, com tudo o que esses atributos trazem como benefícios colaterais e que, na verdade, são metas apenas acessíveis, na melhor das hipóteses, a 5% da população. Os restantes, submetidos a um bombardeio de publicidade incessante e constante, mastiga a sua impotência e frustração. Ocasionalmente, alguns pensam que a solução é sair e matar pessoas a sangue frio e de forma indiscriminada; outros, mais inofensivos, decidem matar-se lentamente com drogas. 
 Mas, se a alienação generalizada da sociedade americana é a causa de fundo, outros fatores contribuem para produzir comportamentos aberrantes como o de Holmes. Primeiro, o grande negócio da venda de armas, protegido sob o pretexto de ser um direito garantido pela Constituição, e que na verdade é o complemento necessário para legitimar, em termos de sociedade civil, o "complexo industrial militar" que domina a vida econômica e política dos Estados Unidos, desde há pouco mais de meio século. Aqueles que fabricam armas devem vendê-las, seja ao governo dos EUA (e, portanto, devem fabricar guerra por todo o mundo, ou montar cenários tendentes a elas), quer para os indivíduos ameaçados pelo espectro da insegurança omnipresente. Vários analistas dizem que apenas nas regiões fronteiriças entre o México e os Estados Unidos existem 17.000 lojas de armas onde se pode comprar uma espingarda de assalto AK47 com a mesma facilidade com que se compra um hambúrguer, o que, além de ser uma grotesca aberração, traduz a coerência da política de governo que cobre tal absurdo.
 
Em segundo lugar, a indústria do entretenimento (Hollywood) permanentemente excita a imaginação de dezenas de milhões de americanos com um fluxo incessante de séries, vídeos e filmes onde a violência mais cruel, atroz e horrenda é exposta com rigor perverso. Antes também havia algo disto, mas agora sua proporção tem crescido exponencialmente e, em determinados dias e horas é quase impossível de se ver na televisão outra coisa que não seja a glorificação subliminar do sadismo em todos as formas que só uma imaginação muito doentia pode conceber. 
 A censura que existe - ora sutilmente, ora de forma completamente descarada - para dificultar ou impedir que se conheça o trabalho de cineastas ou documentaristas críticos do sistema ou que falem bem de países como Cuba, Venezuela - Michael Moore ou Oliver Stone, por exemplo - não existe na hora de preservar a saúde mental da população exposta ao vômito de atrocidades e crueldades produzidas por Hollywood. Por algo será. E esse "algo" é que tanto a venda descontrolada de armas de todos os tipos como a violência induzida de Hollywood são totalmente funcionais para o projeto de dominação da burguesia norte-americana.
 
Noam Chomsky tem mostrado ao longo de décadas como esta tem aperfeiçoado os mecanismos que lhe permitem dominar com terror, sabendo que do medo – o sentimento mais incontrolável dos homens – brota a submissão aos poderosos. Uma burguesia que incute o medo entre a população, fazendo com que todos saibam que ninguém está a salvo e que para proteger as suas vidas pobres e indefesas deve renunciar a mais e mais direitos, dando ao governo a capacidade de vigiar todas as áreas públicas, monitorizar os seus movimentos, interferir nas suas chamadas telefônicas, interceptar e-mails, controlar as suas finanças, saber o que compram, em que gastam o seu dinheiro, o que leem, com quem se reúnem e de falam quando o fazem. Um inimigo externo - agora o "terrorismo internacional", antes o "comunismo" - apresentado como onipotente e de uma crueldade sem limites é complementado internamente com a ameaça encarnada nos milhares de assassinos que se misturam com o resto da população, como Holmes, para cuja neutralização é necessário dar à polícia, ao FBI, à CIA e ao Departamento de Segurança Interna todos os poderes necessários.

O que Thomas Hobbes colocava em 1651 no seu Leviatã como uma metáfora heurística, impossível de encontrar na realidade, pelo seu extremismo: a transferência para os indivíduos faziam de quase todos os seus direitos para o soberano em troca de preservar a vida, acabou por se converter numa trágica realidade nos Estados Unidos de hoje.

domingo, 10 de junho de 2012

Bento Domingues: A nova evangelização


Bento Domingues no "Público" de hoje. "Fica-se com a impressão de que as razões teológicas invocadas ocultam opções de ideologia canónica, inadequadas à orientação pastoral da Igreja". Em relação a quê? É ler o artigo.

sábado, 9 de julho de 2011

9 de Julho de 1797. Morre Edmund Burke, pai do conservadorismo moderno

Edmund Burke, que no séc. XIX era visto como fundador do moderno conservadorismo e representante respeitável do liberalismo clássico (actualmente é mais relacionado com a primeira corrente), nasceu no dia 12 de Janeiro de 1729, em Dublin, e morreu no dia 9 de Julho de 1797, em Beaconsfield.


Para Burke, como para o conservadorismo em geral, a igreja e a moralidade judeo-cristâ têm muita importância. Diz-se, aliás, que o conservadorismo é a única das principais ideologias políticas que aceita a religião como um dos fundamentos do Estado ou, pelo menos, e por maiores ordens de razões, da sociedade.


Em “Reflections”, sua principal obra, a religião é o assunto que ocupa maior número de páginas, à excepção da propriedade. Filho de uma católica romana, Burke integrava-se na fé anglicana, mas deu atenção à situação dos católicos na Grã-Bretanha. Ficou horrorizado com os golpes desferidos pelos Jacobinos à Igreja em França durante a Revolução de 1789. O pensador opôs-se à Revolução Francesa, tendo saudado 13 anos antes a Americana.

domingo, 6 de março de 2011

Bento Domingues: Construir sobre a rocha ou sobre a areia


Pergunta Bento: “Tanto as religiões como as ideologias seculares não podem evitar a pergunta: que se passa connosco? Que bases e que desígnios presidem às nossas construções?” Com pontos em comum, sugiro uma vista de olhos na minha reflexão de há dias sobre o mesmo trecho evangélico (aqui).

segunda-feira, 29 de março de 2010

Reencontrar

"É preciso reencontrar Deus: a própria Fonte, para além das ideologias e das escravizações de hoje. Reencontrar, em Deus, inspiração, verdade e liberdade, para além das armadilhas e feridas aqui na terra. Trata-se de reencontrar a unidade por meio da caridade. Reencontrar humildemente uma filosofia realista para além de filosofias excitantes, mas que nos afundam. Reencontrar, com a realidade da terra, a realidade última de Deus: verdadeiro pólo da nossa magnetização e do nosso amor. Numa palavra, reencontrar a Eucaristia, onde Deus, morto e ressuscitado por nós, Se dá a Si próprio em alimento, intimamente, orgânica e totalmente. É este o segredo do amor. O amor não cansa. Não passa. Ele respeita e vivifica todas as diferenças. O amor existe. Apesar do ritmo frenético das nossas existências, não esqueçamos de O reencontrar".

René Laurentin, “A Igreja do Futuro”, Edições Paulistas, pág. 283-284.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Jesus é de esquerda ou de direita?

A revista “Visão” colocou a questão a vários católicos na penúltima edição (n.º 877; 24 a 30 de Dezembro de 2009). Quando reparei na revista, que obviamente me atraiu pela capa, já que não sou leitor habitual da publicação, estava prestes chegar outra edição às bancas. E qual é a resposta à pergunta? Todos os que responderam fizeram-no como católicos e disseram mais ou menos o seguinte, em resumo.

Jaime Nogueira Pinto, de direita, recusa-se a enfeudar Jesus Cristo a uma área ideológica.

José Manuel Pureza, do Bloco de Esquerda, diz que de direita não podia ser, porque se pôs ao lado da transformação.

Joaquim Carreira das Neves, franciscano, teólogo, diz que “se vivesse hoje, Jesus era de esquerda, porque andava com os desclassificados e com os marginalizados”.

João César das Neves, economista, de direita, recusa-se a encaixar ideologicamente a doutrina cristã.

Maria José Nogueira Pinto, de direita, só diz que a discussão sobre o casamento dos homossexuais nada tem a ver com o casamento religioso e com os ensinamentos de Jesus.

Maria do Rosário Carneiro, deputada independente pelo PS, diz que a luta de Jesus pela igualdade põe-no do lado da esquerda.

Ana Vicente, escritora, diz que Jesus estaria à esquerda, por ser pelos excluídos e pela posição sobre o dinheiro nas parábolas.


Conclusão, dos sete interpelados, quatro dizem que era (ou seria hoje) de esquerda, dois dizem que é incatalogável e um não diz nada. Pelo que dá mais ou menos isto: Jesus era de esquerda ou direita? Esquerda – 4; Direita – 0. Abstenções 3. O resultado é curioso a vários títulos. Primeiro, vitória esmagadora da esquerda. Segundo, os de esquerda não têm dúvidas em dizer que era de esquerda (ressalva para o facto de eu não saber qual é a tendência ideológica do P.e Carreira das Neves). Os da direita política (Jaime e Maria José Nogueira Pinto e João César das Neves) não querem conotar Jesus com qualquer área política.

Parece-me, aliás, que este não eufeudamento ideológico de Jesus é a opção mais correcta. Ou seja, a direita, quanto a mim, compreende melhor Jesus. Porque, se na realidade Jesus tem um discurso contra os ricos, é mais contra a riqueza que oprime o pobre – o que não é bem a mesma coisa que dizer simplesmente que “era contra os ricos”. Nicodemos, um amigo, era rico. Zaqueu, feito amigo, era rico e passou a ser generoso. E a parábola dos talentos parece capitalista. Mas não se tome a parte pelo todo.

Diz Manuel Pureza que Jesus não podia condenar a mulher que abortava. E penso que tem razão. Mas não me parece que Jesus não tivesse respeito pela vida intra-uterina. Foi dos aspectos que distinguiram os cristãos, logo nos primeiros séculos, em relação aos pagãos. E Jesus disse também que nem sequer um yod (a mais pequena letra hebraica) mudava à Lei – o que faria dele um conservador, a julgar pelos critérios da “Visão”, ele que também dizia que “no princípio não era assim”, falando do divórcio que a Lei de Moisés aceitava (e que o cristianismo nascente também aceitou durante séculos).

Há quatro evangelhos e todos eles são ideologicamente diferentes. Teologicamente diferentes. Talvez o Jesus dos sinópticos seja em geral mais de esquerda, para o de João ser mais de direita – pelos critérios da revista. O primeiro parte de baixo para chegar ao alto. Tem uma cristologia ascendente. O segundo vem do alto para chegar à humanidade. “No princípio era o Verbo”, escreve João.

Jesus não nos chega por um livro, mas por quatro, o que logo à partida impossibilita arrumá-lo numa única categoria. Esta pluralidade à nascença é um grande trunfo do cristianismo. Mas mesmo que Jesus fosse marcadamente de alguma dessas correntes ideológicas, não nos evitaria a pergunta: o que devo ser eu, hoje, aqui, para melhor encarnar o espírito evangélico? E, mais uma vez, não haveria uma resposta unívoca.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...