segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O dinheiro não é todo igual

O arcebispo de Braga escolheu como figura nacional em 2013 os bombeiros. Já a Cáritas, não sei se a diocesana de Setúbal se a nacional, recusou o dinheiro do calendário dos bombeiros de Setúbal. Por causa das imagens todas? Só por causa da de agosto (que não aparece na notícia)? Não sei. Mas parece-me bem a atitude de Cáritas. Nem todo o dinheiro serve para fazer caridade. Se mais dinheiro se recusasse (lembro-me sempre de um bispo que lembrava que os comerciantes intercontinentais de escravos gostavam de construir capelas lá na terrinha), mais a solidariedade seria efetiva.

Notícia do "Correio da Manhã" de ontem.

Apócrifos

Ontem ouviu-se nas missas: “Maridos, sede submissos às vossas esposas, como convém no Senhor. Esposas, amai os vossos maridos e não os trateis com aspereza”.

João César das Neves: "O furacão Bergoglio"


Eu acho este diagnóstico de João César das Neves sobre a receção ao Papa Francisco acertadíssimo.
Nestes poucos meses, por inúmeras vezes, o Papa disse e fez coisas inesperadas, surpreendentes, incómodas até. Foi, mais do que lufada, furacão. Todos o notaram. A diferença está no que fizeram com isso. Todos gostam dele e o ouvem com interesse e prazer, às vezes com avidez. Mas existem duas maneiras diferentes de confrontar a sua pessoa. O consenso à sua volta sofre de um cisma fundamental, ainda oculto. 
Existem aqueles que o seguem como Papa e os que o usam como Papa; os que aprendem com ele e os que concordam com ele; os que aceitam as suas palavras como aviso e os que as vêem como argumento. As ovelhas do Papa tomaram-no como dirigido a si mesmas e fizeram exame de consciência, propósito de emenda, penitência reparadora. Mas muitos consideraram os mesmos elementos apenas como apontados a outros. Esses só o usaram como argumento de discussão, confirmação de juízos, arma de arremesso. Esperam de Francisco não o anúncio do Reino e a divulgação da Palavra, mas a realização de agendas particulares e modelos pessoais. Não o querem como pai e mestre, mas como agente e gestor.
Ler tudo aqui (DN de hoje).

domingo, 29 de dezembro de 2013

Bento Domingues: "Um Cristo formatado?"

John P. Meier, o padre diocesano que Bento XVI, no primeiro volume sobre Jesus, dizia ser jesuíta


Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:


1. “Esta é a definição da lei: algo que pode ser transgredido”. Assim falava, no seu gosto pelos paradoxos, o grande escritor católico, Gilbert K.Chesterton (1874-1936). Partindo da convicção de que a Deus nada é impossível, as comunidades cristãs, sobretudo as do primeiro século, elaboraram narrativas sobre o percurso de Jesus Cristo - desde a anunciação à ressurreição – que parecem contrariar, sem necessidade, as mais respeitáveis e inocentes leis da natureza.

A este respeito, importa não esquecer que a linguagem mítica e simbólica da liturgia do Natal não pretende dar aulas de biologia e astronomia, mas subverter as leis de um mundo dominado pela injustiça. Quando os Evangelhos são interpretados em registo literal, em vez de provocarem a inteligência, a imaginação e os afectos, paralisam-nos e tornam-se charadas absurdas, até naquilo que têm de mais belo e subversivo. A letra mata. O espírito livre vivifica.

Esta observação não desvaloriza, porém, a importância do método histórico-crítico aplicado aos escritos do Novo Testamento. Ao procurar esclarecer a produção dos textos bíblicos, nas suas diferentes etapas, descobre-se o ridículo das leituras fundamentalistas e que a pluralidade de interpretações não brota da arbitrariedade.

Passada a decepção com as “biografias liberais” de Jesus, do séc. XIX e os estudos pós-bultmanianos da década de 50 do século passado, vários exegetas célebres desenvolvem a “terceira vaga” de investigações sobre o “Jesus da história”. A obra monumental, de John P. Meier, “Jesus, um Judeu marginal”, impôs-se como referência incontornável. No entanto, como ele próprio confessa, o Jesus reconstruido pela investigação histórica – dada a natureza das fontes disponíveis – não pode sondar todas as dimensões da sua realidade. J. Meier alimenta a fantasia da reunião de um “conclave sem papa” e que ele próprio configurou: um católico, um protestante, um judeu e um agnóstico - todos historiadores honestos e bem informados sobre os movimentos religiosos do século I – ficariam trancados, na biblioteca da Harvard Divinity School, submetidos a uma dieta espartana e só lhes seria permitido reaparecer, quando tivessem elaborado um documento de consenso, sobre Jesus de Nazaré.

Um requisito essencial desse documento seria o de basear-se em fontes e argumentações puramente históricas. As suas conclusões deveriam ser abertas à verificação de todas e quaisquer pessoas sinceras, com acesso aos meios da moderna pesquisa histórica. Esse documento não teria a pretensão de apresentar uma interpretação completa, final e definitiva sobre Jesus, a sua obra e as suas intenções. Poderia, no entanto, proporcionar uma base comum e um ponto de partida academicamente respeitáveis para o diálogo entre pessoas de várias crenças ou sem crença alguma. J. Meier talvez goste de um Jesus marginal, mas não muito!

2. Esse empreendimento pode ter a sua utilidade, sobretudo para enfraquecer os delírios teológicos estacionados em definições dogmáticas, como alfândegas da fé. Mas não estou nada interessado num Jesus normalizado, formatado e em repouso num museu da história do cristianismo. Os escritos cristãos falam da sua presença clandestina, onde e quando menos se espera, baseados na promessa de que Ele não desertará da nossa vida.

Muito se escreveu acerca do mundo em que Jesus nasceu e cresceu, e onde se difundiram as comunidades cristãs dos séculos primeiro e segundo. Funcionavam “em rede”. Quando o Imperador Constantino entrou em cena, no séc. III, foi porque ele próprio se deu conta que mais valia ter os cristãos do seu lado do que persegui-los.

Os monges não foram para o Deserto por terem desistido da evangelização do mundo, mas porque se consideravam marginais em relação a uma cristandade adulterada por privilégios. Em vez de se instalarem no Poder, preferiram recusá-lo. Sabiam que ao esquecer o Cristo crucificado na carne dos sacrificados pelos interesses dos poderosos, acabariam na adoração de um Deus do Poder que tudo justifica.

3. O Papa Francisco denunciou os efeitos da economia que mata. Muitos se apressaram a dizer que ele não percebia nada de economia e a sua “Exortação Apostólica” era gravemente desmobilizadora quando já estavam à vista os belos frutos da austeridade, que importa não abrandar. Paul Krugman, Prémio Nobel de economia, em 2008, mostrou, no passado Domingo (cf. El País), as consequências desastrosas, nos EUA, da correlação entre os cortes nos programas sociais, o crescimento das desigualdades e o aumento da dívida. São os interesses e preconceitos de uma elite económica, cuja influência política disparou ao mesmo tempo que a sua riqueza, que procuram ocultar essa realidade. Pretender despolitizar o discurso económico e torná-lo tecnocrático e apartidário é um embuste. A classe social e a desigualdade modelam e distorcem o debate.

Será possível uma economia amiga das pessoas? Manuela Silva mostra que sim (cf. rev. Communio, XXX (2013).


Bom ano!

sábado, 28 de dezembro de 2013

Ano da Luz daqui a um ano

2015 será o Ano Internacional da Luz (notícia do "Público"). Bem sei que é uma questão de física, mas agrada-me pensar que, segundo li algures, na origem da palavra "Deus" está a ideia de luz. Ilumina e aquece.

Anselmo Borges: "Pequenos pensamentos para 2014"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

É. Quando se chega a uma certa idade e mais um ano passa, o que mais dói é cair sobre nós as ausências de tantos que partiram. Partiram para onde? Ah, esse partir sem deixar endereço, e a falta que nos fazem!

Um novo ano novo começa. Novo: 2014. Por mais diagnósticos e prognósticos, é novo, imprevisível. Não está pré-escrito em parte alguma. Também é nosso: vamos fazê-lo. Mas é na surpresa que ele vem.

Envelhecemos, mas, por mim, não tenho inveja da juventude. Pelo contrário, agora, à distância, o que quero é que os jovens vivam intensamente cada tempo. Na dignidade livre e na liberdade com dignidade. O que deveria ser norma para todos. Que vivam com atenção e intensidade, pois tudo passa muito rápido.

Essa norma também pode ter outra expressão, que vou buscar ao início do Evangelho segundo São João, o passo mais filosófico do Novo Testamento. "No princípio, era o Verbo. Mediante Ele tudo foi criado. E o Verbo fez-se carne." Encontra-se aqui todo um programa para a existência. No princípio, era o Verbo. No original grego, está: era o Logos, a Razão, a Palavra. E tudo foi criado mediante o Logos, a Razão, a Palavra. E o Logos, a Razão, a Palavra, fez-se carne, tornou-se um de nós, por amor. Chama-se Jesus Cristo. O que sustenta o mundo é o Logos, a Razão, a Palavra, que não é impessoal, mas uma pessoa.

Onde deve então assentar a vida senão no vínculo da Razão e do Amor? Tantas vezes perdemos a vida, porque agimos sem razão e até contra a razão. Afinal, de que valem o ódio e o rancor e a exploração dos outros e a inimizade e a imensa estupidez de não pensar? Mas não basta a razão, pois a razão, só, pode ser cruel e mortal. Tem de ser a razão aliada à bondade e a bondade vinculada à razão, pois a bondade, só, sem a razão, pode lutar em vão e perder-se. Uma vida humana plena vive dessa aliança entre a razão que não olvida a bondade e a bondade que se ilumina com a razão.

O objectivo final só pode ser a felicidade, uma tarefa simples, que é ao mesmo tempo terrivelmente complexa. Como todos sabem por experiência. De qualquer forma, se me fosse permitido, gostaria de deixar aqui que muitas vezes fui chamado à cabeceira - isso: à cabeceira - de quem estava de partida, a tal de que falei no início. E devo dizer que não era propriamente a carreira - é certo que alguns/algumas nem carreira tiveram - que os ocupava ou preocupava naqueles momentos derradeiros nem o dinheiro ou a fama. Apenas a verdade maior, que tinha que ver com a família, com os amigos e o pouco tempo para eles e para o mais importante e decisivo. E queriam arrumar com verdade as coisas do aqui e do Além.

Mas isto tudo que para aí fica talvez se diga melhor de modo mais simples. Socorro-me de algumas regras para o bom viver de Manuela Santos, no seu blogue "umavidacomsentido". "Aproveite cada dia para aprender algo diferente. Não viva apenas para o trabalho, pois existe outra vida para além dele. Cuide da sua família todos os dias com amor. Aproveite para cuidar do seu bem-estar interior. Ouça música. Dedique-se a um hobby. Conheça os seus limites e não vá além deles. Aprenda a perdoar. Cultive a honestidade, a verdade, a humildade. Ame-se e namore todos os dias. Seja feliz! Dedique algum tempo à meditação, é muito importante."

Algum tempo, todos os dias, para meditar. É realmente muito importante, decisivo mesmo, vital. Significativamente, meditação, moderação e medicina têm o mesmo étimo: mederi (radical med-, "pensar, medir, julgar, tratar um doente"), que significa: cuidar de, tratar, dar remédio a, medicar, curar.

Quem quiser uma vida sensata e feliz tem de ir por aqui: dedicar todos os dias algum tempo à meditação, para ir ao encontro do essencial, do mais fundo, que é também o mais perto, porque mora dentro de cada um de nós, para ouvir a Palavra primeira, que fala no silêncio e diz a sabedoria do viver na sabedoria e que leva a cuidar do mais importante e melhor e a pensar e a julgar, a dar remédio e a curar. Seja feliz! Bom Ano Novo!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Conto de Natal de João César das Neves

Isabel empurrou a custo os últimos escombros e conseguiu ver o céu. Chovia e o vento era forte. À volta havia só destroços fumegantes do ataque nuclear. Ignorava se o país sobrevivera, mas ali a destruição era total.

Início do conto de Natal de João César das Neves. No DN de ontem.

Os irmãos do filho pródigo não gostam lá muito do Papa Francisco

Dizia-me um amigo:
- Os irmãos do filho pródigo não gostam lá muito do Papa Francisco, pois não?
E eu concordei:
- É...
E ele prosseguiu, deixando-me na dúvida:
- É o quê? Concordas com o que eu disse ou consideras-te irmão do filho pródigo?
E eu perguntei-lhe onde vai passar o Natal.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Presenças reais

Há dias vinha esta imagem steineriana no "Público". Não há glória sem sacrifício.


Bento Domingues: "Jesus não faz anos dia 25"


Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem (na revista "2", o dominicano faz um balanço dos nove meses do pontificando de Francisco).

Leonídio Paulo Ferreira: "Só a papamania foi mais forte do que Putin"

Vladimir e Jorge

Leonídio Paulo Ferreira no DN de hoje:

Rondou o absurdo pensar que Putin poderia ter recebido o Nobel da Paz pela mediação na Síria. Mas "Figura do Ano" seria razoável. Mede-se o impacto, não se é positivo ou negativo. E se a Time serve de referência, note-se que já distinguiu Hitler como Gandhi e João Paulo II.
Porém, Jorge Mario Bergoglio é um fenómeno. O estilo terra a terra do argentino que chegou a Papa sob o nome Francisco atrai simpatias dentro e fora do mundo católico. Foi a escolha da revista americana, mas também do Le Monde. E perante a Papamania, o líder russo não teve hipóteses. Um remake do tal poder das divisões do Vaticano que Estaline desdenhava.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Alberto Gonçalves, os homossexuais e o Papa

Fica registado. Alberto Gonçalves no DN de hoje:

O Papa do povo
A 13 de Março último, o DN citava no seu site o seguinte comunicado da Novos Rumos, uma associação de homossexuais católicos: "Neste momento de alegria para todos nós católicos, não podemos deixar de partilhar o nosso profundo desalento pela escolha do cardeal argentino Jorge Bergoglio para Papa. Enquanto homossexuais católicos, não nos podemos esquecer das inúmeras posições públicas e no seio da igreja do cardeal Bergoglio". E prosseguia o representante da Novos Rumos: "O novo Papa, Francisco I, referiu-se ao casamento entre pessoas do mesmo sexo como sendo "um plano de Satanás para enganar os filhos de Deus"." A concluir a notícia: "A associação admite que estas palavras causaram "mágoa e dor a muitos homossexuais católicos em todo o mundo", deixando-os "naturalmente apreensivos" sobre a postura da igreja."

Por estes dias, a Time elegeu Bergoglio "Personalidade do Ano". O Le Monde elegeu Bergoglio "Personalidade do Ano". A The Advocate, vetusta revista gay americana, conferiu-lhe igual distinção a pretexto da sua abertura para com os homossexuais. Se o sr. Bergoglio tivesse ameaçado a devassidão de Hollywood com o Inferno, a Academia dava-lhe um Óscar.

Anselmo Borges: "Natal: a História no seu reverso"

Texto de Anselmo Borges no DN de ontem:

Há um testemunho de Kant que diz bem da sua grandeza de filósofo e de homem. Poucos dias antes de morrer - 12 de Fevereiro de 1804 -, confiou a amigos: "Senhores, eu não temo a morte, eu saberei morrer. Asseguro-vos perante Deus que, se sentisse que esta noite iria morrer, levantaria as mãos juntas e diria: Deus seja louvado! Mas, se um demónio mau se colocasse diante de mim e me insinuasse ao ouvido: Tu tornaste um homem infeliz, ah! então seria outra coisa."

Afinal, o que é mais importante e decisivo não é a dignidade de todos e a sua felicidade? Não é devido ao seu combate ímpar pela liberdade e dignificação de todos que o mundo se inclina unânime, com respeito, perante a memória de Mandela?Este é também o segredo do Papa Francisco: renovar a Igreja, evangelizá-la, para ela poder, por palavras e obras, evangelizar o mundo: levar a todos a notícia boa e felicitante do Deus de Jesus Cristo. O seu programa de pontificado, na exortação "A Alegria do Evangelho", de que aqui já dei conta, é simplesmente este: o Evangelho. Para isso, há um método, um caminho, uma luz: ler o mundo a partir de baixo, dos pobres, dos excluídos, e agir em consequência, isto é, colocando-se no seu lugar e, a partir desse lugar, que é o lugar de Deus, cumprir a sua missão. Para que todos possam realizar a dignidade de homens e mulheres e alcançar a alegria e a felicidade, para lá do consumismo e materialismo reinantes: "Deus quer a felicidade dos Seus filhos também nesta Terra, embora estejam chamados à plenitude eterna", escreve Francisco. Normalmente, a História é lida a partir dos vencedores, mas a missão da Igreja é lê-la e ensinar a lê-la a partir das vítimas, dos perdedores. Uma revolução das consciências, que, em termos cristãos, se chama conversão, metanóia, mudança de mentalidade e de horizonte.

Então, o centro não é a Igreja nem os dogmas nem as leis, mas Cristo, o Evangelho e as pessoas. "Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do Seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este é um risco, certo e permanente, que correm também os crentes". "Uma fé autêntica - que nunca é cómoda nem individualista - comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela."

A Igreja tem de avançar sem medo. Francisco repete: "Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas fora a uma Igreja doente pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa protecção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta", "sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida".

Afinal, os preceitos dados por Cristo "são pouquíssimos". E Francisco tem um sonho: "Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual do que à sua autopreservação." Para isso, Francisco convoca todos para uma reforma, a começar pelo papado: "Uma corajosa reforma, que toque tanto o espírito como as estruturas."

Se se não quiser ficar só com uma parte minúscula da História - a História dos triunfadores -, é preciso recuperá-la e reconstruí-la na sua maioria: os escravos, os colonizados, as mulheres, os velhos, as crianças, os mortos, os drogados, os humilhados, todas as periferias. Isso: o reverso da História, a História recuperada no seu reverso. Para haver Natal de e da humanidade, como anunciaram os anjos aos pastores pela noite dentro: "Não temais, anuncio-vos uma grande alegria, que será a de todo o povo: nasceu-vos um Salvador". Natal feliz!

sábado, 21 de dezembro de 2013

Papa elogia "cartoneros"

O Papa gravou um vídeo e elogiou o trabalho dos "cartoneros", porque reclicam o lixo, fazem um trabalho "ecológico", e fazem um trabalho produtivo, "uma produção que fraterniza e dá dignidade ao próprio trabalho".

A esquerda (certa esquerda, right) que tanto elogiou o "economia mata" de "Evangelii Gaudium" vai elogiá-lo agora? Gostava de ver. E a direita que tanto o temeu tem aqui um bom motivo de meditação.

O vídeo, na realidade, mostra que os óculos mais adequados para interpretar a economia franciscana não é a idelogia mas a profecia. Sempre e em qualquer lado. Quem tem olhos e ouvidos...

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Fernando Calado: "Desinstalar a Igreja"


De Fernando Calado, no CM de hoje.

Limpeza difícil no Vaticano

Notícia do CM de hoje. Ou vai ou racha.

Raridade: Medalhão de teólogo português


O Museu Nacional de Arte Antiga comprou um medalhão que retrata um teólogo português. A peça é rara. O "Público" explica porquê (aqui). Basicamente: este tipo de retrato era uma novidade. A peça é de 1575; o primeiro retrato do género é de 1438 (de João VIII, quando este imperador bizantino, o penúltimo, visitou Itália).

Penso, porém, que há um outro motivo para a peça ser rara. E ainda mais válido: um teólogo português. Isto sim, uma raridade. Diogo de Paiva de Andrade esteve no Concílio de Trento, defendeu a fé tridentina e polemizou com um luterano. Julgo que neste momento está a ser elaborada uma tese se doutoramento sobre este teólogo na Universidade de  Mainz/Mogúncia sobre a parte da altercação com Martin Chemnitz.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

This Is the Way the World Ends


Ontem, mais ou menos por acaso, vi o último episódio da sexta temporada da série “Dexter” (RTP 2). Sei que é da sexta temporada por fui agora mesmo ver que a série já tem oito e que aquele era o 12.º episódio da sexta série. Devo ter visto na íntegra as primeiras duas ou três temporadas, na altura a série passava na segunda à noite, até achar que ficava demasiado nervoso com as embrulhadas de um serial killer. É ambivalente, estranho e principalmente desconfortável o sentimento de ter simpatia por um criminoso. Deve vir daí o sucesso da série. Mas precisamente por isso deixei de vê-la.

Mas vi o episódio de ontem. Dizia “último” no canto superior esquerdo. Que narrativa tão bíblica. Um náufrago que é salvo por uma barca que leva à terra prometida (deveria ter contado se eram oito os casais da barca mais Noé). Uma festa do infantário que é precisamente a encenação da entrada nos animais na barca. Um lugar alto onde vai ser sacrificado um inocente, filho único, um cordeiro, no dia do juízo final, no dia em que o sol se apaga. Um altar onde vai ser sacrificado um criminoso, sob o olhar do Crucificado. E a última afirmação de Dexter, com que encerra a temporada, quando se apercebe que alguém o vê a assassinar um criminoso: “Oh God”.


Francisco na "Sábado" de hoje

A entrevista que o Papa deu ao "La Stampa" está na "Sábado" de hoje.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Efeito Francisco no Futebol

No DN de ontem. Efeito Francisco? Se o efeito papal se mantiver no futebol, no próximo mundial ganha a Itália, como ganhou em 1982 e em 2006, nos primeiros mundiais dos pontificados dos dois anteriores papas. E o terceiro classificado será o país de origem do Papa, neste caso, a Argentina (como aconteceu com a Polónia em 82 e a Alemanha em 06).

Violência agradável

As armas das nossas preces.
Esta sim, é uma violência agradável (...).

Tertuliano, Apologético

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Eu cliquei num banner...

Jesus, Gandhi e a Madre Teresa clicam pela UNICEF. Eu sei que alguns católicos não gostam de determinadas práticas deste organismo das Nações Unidas, mas os vídeos... Ainda não parei de rir. Obrigado, H.V.





Croissants mornos para Bento XVI

Aura Miguel na RR (ler tudo aqui):

Há dias, durante o pequeno-almoço, o Papa não estava na sua mesa habitual, nem em qualquer outro lado. Começou a gerar-se uma grande agitação, com vários homens de fato escuro e agentes de segurança enervados a passar revista a toda a casa. Onde estava o Papa? Por onde se teria metido? Toda a gente foi interrogada, a casa passada a pente fino, mas nada! Depois de uns valentes minutos de angústia, descobriram-no finalmente. Bergoglio caminhava pelo jardim, com passada decidida e um saco de papel na mão. Quando finalmente os homens da segurança lhe falaram do susto devido à sua ausência inesperada, Francisco riu-se e explicou que ia ao mosteiro Mater Ecclesia, onde vive Bento XVI, levar-lhe uns croissants mornos, "acabadinhos de fazer, como ele gosta".

Inspiração

Ó suma luz que mui te distancias
Dos conceitos mortais, à minha mente
Volta a dar um pouco do que parecias.

Dante

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O marxismo do Papa. Descubra as diferenças


Descubras as diferenças. O primeiro recorte é do "Correio da Manhã"; o segundo é do "i". É só uma questão de títulos.

Francesco: «L'ideologia marxista è sbagliata"


No "Público" (a foto também), para quem tem dúvidas:
O Papa Francisco assegura que não é marxista, mas afirma que não se sente ofendido quando o denominam como tal, numa entrevista publicada hoje pelo “La Stampa”. O líder da igreja católica mostra-se preocupado com a "tragédia da fome no mundo".
 "A ideologia marxista está equivocada, mas na minha vida conheci muitos marxistas boas pessoas, por isso não me sinto ofendido", reconhece o papa.
Ler tudo aqui. Ou aqui, em italiano.

La Stampa - Alcuni brani dell'«Evangelii Gaudium» le hanno attirato le accuse degli ultra-conservatori americani. Che effetto fa a un Papa sentirsi definire «marxista»?

Papa - «L'ideologia marxista è sbagliata. Ma nella mia vita ho conosciuto tanti marxisti buoni come persone, e per questo non mi sento offeso». Le parole che hanno colpito di più sono quelle sull'economia che «uccide»... «Nell'esortazione non c'è nulla che non si ritrovi nella Dottrina sociale della Chiesa. Non ho parlato da un punto di vista tecnico, ho cercato di presentare una fotografia di quanto accade. L'unica citazione specifica è stata per le teorie della “ricaduta favorevole”, secondo le quali ogni crescita economica, favorita dal libero mercato, riesce a produrre di per sé una maggiore equità e inclusione sociale nel mondo. C'era la promessa che quando il bicchiere fosse stato pieno, sarebbe trasbordato e i poveri ne avrebbero beneficiato. Accade invece che quando è colmo, il bicchiere magicamente s'ingrandisce, e così non esce mai niente per i poveri. Questo è stato l'unico riferimento a una teoria specifica. Ripeto, non ho parlato da tecnico, ma secondo la dottrina sociale della Chiesa. E questo non significa essere marxista».

domingo, 15 de dezembro de 2013

Henrique Montreiro: "O Papa Francisco e o 'arrependimento' da esquerda"

Henrique Monteiro, no "Expresso":


A esquerda não costuma gostar de Papas. Não gosta do que é transcendente, não racional, embora adore o lado emocional das manifestações e dos discursos, e tem da Igreja sempre a ideia da Inquisição, como se a Inquisição tivesse acontecido antes de ontem e não tivesse, mesmo no séc. XVI, sido imposta pelo Estado e pelo poder político que a esquerda gosta de contrapor à Igreja.

Sendo laico, embora crente, concordo com a estrita separação de Igreja e de Estado e penso que um e outro devem viver o mais independentemente possível. Congratulo-me por perceber ser esse o pensamento do Patriarca de Lisboa e, de um modo geral, da Igreja moderna. Por isso não entendo a militância anti-religiosa que parece ser apanágio da parte mais ativa da nossa esquerda militante.

João Paulo II que disse umas verdades acerca do Leste europeu quando este era dominado pelo comunismo, foi por eles abominado. Bento XVI que disse umas verdades acerca da natureza da Teologia da Libertação, era odiado ("o pastor alemão") ainda que seja um dos grandes intelectuais europeus. Chegou Jorge Bergoglio (após a resignação de Bento XVI, num exemplo de retiro e abdicação do poder que quase nenhum político teve coragem) e, para não variar, a esquerda inventou uma cumplicidade do antigo Cardeal de Buenos Aires com a ditadura argentina.

A coisa foi desmentida e, finalmente, desmontada. O Papa revelou-se uma pessoa diferente, mais aberta, mais expansiva, mais ousada. E disse duas ou três coisas sobre o dinheiro e o capitalismo que, por acaso, os seus diversos antecessores já tinham também dito; mas parte da esquerda, que nunca olhou para a doutrina, mas apenas para o estilo, passou a endeusá-lo. Não me refiro aos católicos de esquerda, que são uma corrente respeitável da Igreja e que preferem seguramente o seu envolvimento mais próximo dos simples, mas àqueles que sendo "ateus, graças a Deus" a contra as hierarquias religiosas descobriram há apenas um mês:  que a mensagem da Igreja há muito que é contra o "consumismo", a "ditadura dos mercados" e o "lucro desenfreado". Ou seja, que não foi Bergoglio a doutrinar, que o Papa apenas citou o que está nas escrituras e em encíclicas há muito escritas, desde a Rerum Novarum, de Leão XIII, escrita em 1891: "Os trabalhadores, isolados e sem defesa têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça de uma concorrência desenfreada. A usura voraz veio agravar ainda mais o mal. Condenada muitas vezes pelo julgamento da Igreja, não tem deixado de ser praticada sob outra forma por homens ávidos de ganância, e de insaciável ambição" - este texto tem 123 anos.

Mas há mais antigos: "Ninguém pode servir a dois senhores; ou não gostará de um deles e gostará do outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6:24) - assim resumia São Mateus o pensamento de Cristo. " A raiz de todos os males é a ganância do dinheiro" (primeira carta a Timóteo, de São Paulo).

Não há dúvida que a doutrina é antiga. Pelo que o súbito amor da esquerda pelo Papa tem o sabor de uma conversão: não do Papa, como pretende a esquerda, mas da própria esquerda. E como também está escrito (São Lucas), "haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por 99 justos".


Haja fé!

A razão do poeta

Disse Deus na entrevista que deu ao P.e Tolentino Mendonça, ontem aqui referida e que pode ser lida aqui na íntegra:

Um poeta escreveu:
«Creio que uma folha de erva não vale menos do que a jornada das estrelas,
E que a formiga não é menos perfeita...
E que o sapo é uma obra-prima para o mais exigente,
E que a vaca ruminando com a cabeça baixa supera qualquer estátua,
E que um rato é milagre suficiente para fazer vacilar milhões de infiéis».
Ele tem razão.

Bento Domingues: "O advento da terceira Igreja"


Do "Público" de 15 de dezembro de 2013. "Temos a alegria de que a Igreja, na qual o Papa Francisco está a trabalhar, tem futuro, se não o deixarmos sozinho".

A nova iconoclastia

Ainda Henrique Raposo ("Expresso" de 14-12-2013):

No passado, durante a geração dos meus pais, recusar a fé era um ato iconoclasta. Mas, hoje em dia, depois de décadas de décadas de licenciosidades, de profanações, de recusas de Deus, de derrubes de tabus e dogmas, de fugas ao luto, depois deste vendaval profano, dizia eu, a iconoclastia só pode estar nos crentes, naqueles que dizem “eu acredito”, “sim, eu faço luto”.

«És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?»

Perguntaram a Jesus, como porta-vozes de um outro inquiridor:

«És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?»

E Jesus, como sempre, não dá uma resposta direta. Poderia simplesmente dizer:

- Sim, sou eu.
Ou
- Não, não sou eu.

E neste segundo caso a história teria terminado por aqui. Ou nem teria chegado a este ponto, se não fosse ele o esperado.

Jesus não diz que é Ele. Jesus habitualmente não tem medo de falar na primeira pessoa (Eu sou isto, Eu sou aquilo...), mas neste caso parece um jogador de futebol a falar de si mesmo na terceira pessoa. Manda contar a João, o tal inquiridor na base do pedido, o que viram e ouviram, curas e ações que pressupomos que foram protagonizadas por Jesus.

«Ide contar a João o que vedes e ouvis:
os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados,
os surdos ouvem, os mortos ressuscitam
e a boa nova é anunciada aos pobres.

Há aqui duas coisas (há sempre muitas, mas eu só capto duas). É que a fé vem e vai sempre pelo ouvido e pelo testemunho. É preciso que vejam, ouçam e contem. Até João, o maior, precisa que lhe anunciem.

E, por outro lado, quem precisa de se convencer são os mensageiros. Se eles não verem e ouvirem, se não acreditarem nisso, não é Ele que devem esperar. Será outro. Se tiverem outra explicação, tipo: eles andam porque não estavam bem coxos; parecia que tinham lepra, mas era só pó da estrada; ou não estavam mortos, só atordoados... então ainda não é este o esperado. Virá outro.

Infelizmente, na maior parte das vezes, estou na fase em que arranjo uma explicação para o sinal do reino (notícia dos últimos dias: há um milagre atribuído a Paulo VI; reação minha: oh, não, também tu, Papa Paulo VI? Esperava que me poupasses a ter de gramar com o milagre...), o que me traz dissabores no encontro com o Mestre. Por isso, acho que é para mim que Ele diz:

E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim
motivo de escândalo».

É que eu encontro em ti (mudei de registo, de falar dele para falar com ele) motivo de escândalo. Motivos de não escândalo seria dizeres:

«Ide contar a João o que vedes e ouvis:
os cegos não vêem, os coxos não andam, os leprosos não são curados,
os surdos não ouvem, os mortos não ressuscitam.


E assim as coisas já seriam mais viáveis hoje. O problema são os pobres. Se eu continuar a manipular a tua palavra, dá:

...e a boa nova  não é anunciada aos pobres.

Mas este milagre - sinal do reino - já pode acontecer hoje. A boa nova pode ser anunciada aos pobres (Olá, Papa Francisco). Não podemos fazer os primeiros cinco milagres, mas podemos cooperar no sexto. Estragaste-me o meu ceticismo milagreiro. Mas consigo arranjar nova desculpa: deverias era ter esclarecido quanto vale um pobre, qual o limiar abaixo do qual se é pobre. Meio denário por dia? Um quarto de denário?

Deixaste-nos uma porta aberta. Podemos continuar a discutir o que é "pobre", evitando lidar com eles. E isso nós sabemos fazer bem.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Nova rebeldia

Diz Henrique Raposo no "Expresso" de hoje (sim, hoje foi um dos dois ou três sábados por ano em que comprei o semanário), numa crónica sobre "a família de negro" (avô, avó, mãe e filho estão de luto e mostram-no publicamente vestindo de negro):

"A fé e a nova rebeldia, a suprema transgressão, a desobediência que resta".

Compras de Natal

Era época de Natal e o juiz sentia-se benevolente ao interrogar o réu:
- De que é acusado?
- De fazer as compras de Natal antes do tempo.
- Mas isso não é crime nenhum! Com que antecedência as estava a fazer?
- Antes de a loja abrir.

Tolentino Mendonça entrevista Deus

Este é o entrevistador

Na "Revista" ("Expresso") de hoje, o Padre José Tolentino Mendonça conversa com Deus. Li a primeira coluna e não resisti a vir aqui dizer que vale a pena. Começa assim: "Conversando com Deus não se dá pelo tempo..."

Anselmo Borges; "Francisco: a alegria do Evangelho (2)"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

O Papa Francisco é hoje, senão a figura mundial mais popular, uma das mais populares e influentes. Como escrevi aqui na semana passada, a sua recente exortação apostólica "A alegria do Evangelho", em que traça os caminhos fundamentais do seu pontificado, foi objecto de imenso interesse e análise por parte dos media mundiais de referência. E fizeram-no sobretudo na parte dedicada à situação económico-financeira e social do nosso mundo.


A causa de Deus é a causa do ser humano, de todo o ser humano, feliz e pleno, começando, evidentemente, pelos mais pobres e marginalizados, os das periferias. Essa tem de ser também a causa da Igreja. Por isso, escreve: para quem quer seguir o Evangelho "há um sinal que nunca deve faltar: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e deita fora". "Estamos chamados a descobrir Cristo neles, a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas." Por isso, "hoje devemos dizer "não a uma economia da exclusão e da desigualdade social". Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento de um idoso sem-abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Hoje tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, em que o poderoso engole o mais fraco", e a consequência é que "grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas" e "os excluídos não são "explorados", mas resíduos, "sobras"".

Denuncia a nova tirania de um capitalismo desregulado e desenfreado. Há quem pressupõe que "todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismo sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar", pois o ideal egoísta desenvolveu "uma globalização da indiferença."

Este desequilíbrio "provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controlo dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras." Neste sistema devorador para aumentar os lucros, quem ou o que é frágil, como o meio ambiente, fica indefeso perante "os interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta".

Está aí uma cultura do bem-estar que reduz o ser humano a consumidor e que nos anestesia, a ponto de perdermos a serenidade, se o mercado nos oferece algo que ainda não possuímos. Uma das causas desta situação é a idolatria do dinheiro. "A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano". Criámos novos ídolos: o bezerro de ouro é na sua nova versão "o fetichismo do dinheiro e a ditadura de uma economia sem rosto e sem um objectivo verdadeiramente humano". Ora, "o dinheiro deve servir e não governar". Como escreveu São João Crisóstomo, "não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos".

Para uma sociedade mais humana, é essencial a ética, uma "ética não ideologizada". E previne: "Enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os povos será impossível erradicar a violência. Sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão."

Francisco: um perigoso esquerdista? Enquanto uma certa esquerda faz aproveitamento político-partidário, a ultradireita, como o Tea Party, acusa-o de marxismo. Mas ele apenas anuncia o Evangelho, cujo único interesse é a vida plena para todos. "Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado." Assim, pede a Deus que "nos conceda mais políticos que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres."

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Pensando a economia do Papa Francisco

Quando o Papa escreve que “Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa” (EG 53), está certamente a lamentar as vítimas do sistema económico a preconizar mudanças. Mas a questão é:

- estas mudanças são uma mudança de sistema (da economia de mercado para outra)? Ou mesmo “estruturalmente”, como escreve Teresa Toldy no JL, por exemplo?

ou

- estas mudanças são limites éticos, normas, códigos, valores, dentro da economia de mercado?

Imagino que alguém pode fazer o mesmo tipo de afirmação, por exemplo, em relação aos acidentes rodoviários. “Este sistema rodoviário mata. Não é possível que a morte por atropelamento de idoso ou uma criança não seja notícia, enquanto o é o lançamento de um novo modelo de automóveis”. (Na realidade, os atropelamentos são notícia, tal como o é, ainda que nem sempre, a morte de um sem abrigo - dependerá muito do tipo e âmbito do órgão de informação.)

Uma eventual chamada da atenção para as vítimas da estrada estaria a preconizar um novo sistema rodoviário (carros com seis rodas, motos com três, sentidos desnivelados, velocidade máxima de 10 km/h) ou simplesmente a exigir que se cumpram as regras legais e éticas de tal sistema? Por outras palavras, há sistema alternativo à economia de mercado? Qual? A alternativa ao sistema rodoviário é ficar em casa.

Solidariedade bem feita

No "Sol" de hoje. Em Lisboa.





Definição

Acolher-te é saber
que estarás connosco em todas as situações,
sempre.

Roger Schutz

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Interesses


Quando trabalhamos com grande energia, é porque Deus e o Diabo têm grande interesse no resultado.

Norman Mailer, numa entrevista a J. Michael Lennon para a biografia "Norman Mailer: A Double Life". Lido na "Ler" n.º 130.

Efeitos estranhos das palavras económicas do Papa

Efeitos estranhos das palavras do Papa quando fala da economia atual (volta ao assunto na mensagem para o Dia Mundial de Paz, hoje divulgada).

Quando ouço um anticapitalista (que em Portugal é quase sinónimo de anti-austeridade) a louvar o Papa, só penso: "Não, o Papa não pode ter dito aquilo". Ou: "Não foi aquilo que o Papa quis dizer".

Mas quando ouço um capitalista fervoroso a perorar contra o Papa (há vídeos desses, de norte-americanos, por aí), penso: "Mas estavas à espera de quê?" Ou: "Poderia dizer o contrário?"

Como já alguém disse, e parece-me a melhor chave de leitura para o que o Papa diz no capítulo da economia, o tom de Francisco não é marxista, nem comunista, nem socialista, nem capitalista ou anticapitalista. É profético.

Adriano Moreira: "Todos podem inspirar-se na doutrina da Igreja"

Na entrevista que hoje dá à "Visão", a propósito do livro "Memórias do Outono Ocidental - Um século sem bússola", Adriano Moreira fala do Papa Francisco. E também gostei muito da última resposta da entrevista. Aqui fica a última coluna da entrevista.

Pomares

Abre a porta e veremos os pomares.

Simone Weil (1909-1943)

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O Papa Francisco é a Pessoa do Ano 2013 para a "Time"


Ninguém como o Papa Francisco deu tanta esperança a tantos. E é por isso a "Pessoa do Ano" para a "Time". Julgo que é a terceira vez que aparece na capa da revista.
Era uma vez um menino tão manso e modesto que recebeu um crachá a dizer “O Mais Humilde.” No dia seguinte, tiraram-lho, porque ele o usou. Assim finda a lição. 
Como é que se pratica a humildade a partir do trono mais exaltado da Terra? Raras vezes um novo protagonista do palco mundial conseguiu chamar tanta atenção tão depressa – a novos e velhos, fiéis e cínicos – como o Papa Francisco. No espaço de nove meses, desde que assumiu funções, ocupou exactamente o centro das conversas fulcrais dos nossos tempos: sobre a riqueza e a pobreza, a equidade e a justiça, a transparência, a modernidade, a globalização, o papel das mulheres, a natureza do casamento, as tentações do poder. 
Read more: A Escolha: O Papa Francisco é a Personalidade do Ano eleita pela TIME em 2013 | TIME.com http://poy.time.com/2013/12/11/a-escolha-o-papa-francisco/#ixzz2nBMwW7mU


 Em julho, a célebre capa dos corninhos de diabo


Em março, na eleição.

A austeridade está a violar os direitos humanos?

Para o ex-ministro Alfredo Bruto da Costa, "uma pessoa com fome não é livre". Para o empresário Salvador de Mello, "a haver violação dos direitos humanos é da responsabilidade de quem acumulou tamanha dívida". Para o missionário Abel Bandeira, a Igreja precisa "de estar solidária" e vigilante.

Vale a pena ler o que pensam um missionário, um empresário e o presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz sobre a austeridade e os direitos humanos, num trabalho de Filipe d'Avillez, na RR. Aqui. A minha visão assemelha-se mais à do empresário. Alfredo Bruto da Costa não olha a montante. O missionário, como muitos, pensa (digo eu, também pelos breves meses que passei na Guiné-Bissau): "Quem dera que o terceiro mundo fosse explorado pelo capitalismo como Portugal dizem que é".

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Alberto Gonçalves, a economia, a esquerda e Francisco

Alberto Gonçalves escreveu no DN de ontem:

O reino dos céus
Perante as críticas do Papa Francisco ao capitalismo e aos "mercados", as pessoas que gostam do Vaticano recordam que isso não é mais do que a costumeira doutrina social da Igreja. As pessoas que abominam o Vaticano acham que a retórica é novidade e não só vai arrasar o capitalismo e os "mercados" como, se a coisa correr pelo melhor, arrasará a Igreja. Eu, neutro na matéria, prefiro notar que, apesar do aparente embaraço de uns e do evidente entusiasmo dos outros, o próprio Papa talvez fizesse melhor em começar por comentar o desemprego, a pobreza e a fome nos felizardos países sem inclinações capitalistas e nos quais os mercados se limitam aos lugares onde o povo compra, quando consegue comprar, hortaliças e galinhas. Se a devoção materialista tem muitos defeitos, uma virtude ninguém lhe nega: não se confunde com nenhuma das maravilhosas alternativas disponíveis.

Laura Ferreira dos Santos: "Um homem bom"

Artigo de Laura Ferreira dos Santos no "Público" de hoje. Um artigo bom.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Diplomacia sem a ajuda do Espírito Santo

João Marcelino (DN) escreveu ontem, num artigo sobre Mandela (aqui), que Adriano Moreira dizia “que todos os ocidentais devem desculpa aos países africanos e que a diplomacia portuguesa é tão boa como a do Vaticano mas sem a ajuda do Espírito Santo...”

Bento Domingues: "O discurso do método do Papa Francisco"

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje (aqui):

1. O Papa está a tornar-se a referência dos que precisam de energia espiritual para resistir à idolatria do dinheiro, à tirania dos mercados, à especulação financeira, à economia que mata, às políticas que consideram os doentes e os velhos um estorvo e o desemprego uma fatalidade.

Como não há coragem, nem dentro nem fora da Igreja, para o mandar calar de vez, os seus adversários encomendaram a jornalistas e comentadores de serviço, a sua desvalorização: este Papa não diz nada de novo; repete o que está dito e redito, desde o séc. XIX, na Doutrina Social da Igreja, não passa de um populista.

Os desconsolados com o Papa Francisco não são contra a solidariedade. Sabem o que fazer para que nunca haja falta de pobres. Insuportável é o método do seu discurso e actuação: convocar toda a Igreja a olhar este mundo a partir dos excluídos, mudar o centro da sua missão para a periferia e organizar-se a partir daí.

Sonho, diz o Papa na Exortação Evangelli Gaudium, com a opção missionária capaz de transformar os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial num canal de evangelização e não apenas um instrumento da sua auto-preservação. Pertence ao Bispo promover uma comunhão dinâmica, aberta e missionária na sua diocese. Deverá estimular e procurar um amadurecimento dos organismos de participação propostos pelo Código de Direito Canónico e de outras formas de diálogo pastoral, com o desejo de ouvir todos e não apenas alguns, sempre prontos a lisonjeá-lo.

“Dado que sou chamado a viver aquilo que peço aos outros, devo pensar também numa conversão do papado. Compete-me, como Bispo de Roma, permanecer aberto às sugestões tendentes a um exercício do meu ministério que o torne mais fiel ao significado que Jesus Cristo lhe deu e às necessidades actuais da evangelização” (n. 32).

O Papa pede o abandono de um critério pastoral muito cómodo e muito usado: “fez-se sempre assim”. Convida todos, sem contemplações, a serem ousados e criativos na tarefa de repensar os objectivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades. Vai mais longe: "Uma identificação dos fins, sem uma condigna busca comunitária dos meios para os alcançar, está condenada a traduzir-se em mera fantasia” (n.33).

2. Recorre ao Vaticano II para afirmar a hierarquia das verdades da doutrina católica, dado que nem todas têm o mesmo vínculo com o fundamento da fé cristã. Isto é tão válido para os dogmas de fé, como para o conjunto dos ensinamentos da Igreja, incluindo a doutrina moral (n. 36). Invoca S. Tomás de Aquino para dizer que na mensagem moral da Igreja há uma hierarquia nas virtudes e acções que dela procedem. A misericórdia é a maior de todas as virtudes.

Esta falta de hierarquia na pregação e na catequese gera distorções muito graves. É o que acontece quando se fala mais da lei do que da graça, mais da Igreja do que de Jesus Cristo, mais do Papa do que da palavra de Deus (n.37-38). A defesa de uma doutrina monolítica não respeita a riqueza inesgotável do Evangelho. Impõe-se um constante discernimento para não atravancar o caminho com mensagens e costumes que já não são um serviço na transmissão do Evangelho: não tenhamos medo de os rever! Realça, na linha de Tomás de Aquino, que os preceitos dados por Cristo e pelos apóstolos ao povo de Deus são pouquíssimos, para não tornar pesada a vida aos fiéis nem transformar a nossa religião numa servidão. A misericórdia de Deus quis que ela fosse livre. A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. (n. 43-47)

3. É para chegar a todos, sem excepção, que a Igreja assume este dinamismo missionário. Mas, a quem deverá privilegiar? Quando se lê o Evangelho, encontramos uma orientação muito clara: não tanto os amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo os pobres e os doentes, aqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, aqueles que não têm como retribuir (Lc 14, 14). Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem esta mensagem claríssima. Hoje e sempre, os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é o sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar, sem rodeios, que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Nunca os deixemos sozinhos! (n. 48)

Prefiro uma Igreja ferida e enlameada por ter saído pelos caminhos, a uma Igreja doente de tão fechada sobre si mesma, acomodada e agarrada às suas próprias seguranças. Mais do que o temor de falhar, devemos ter medo de continuar encerrados nas estruturas que nos dão uma falsa protecção, nas normas que nos tornam juízes implacáveis, em hábitos que nos deixem tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta. Jesus repete-nos, sem cessar: Dai-lhes vós mesmos de comer (Mc 6, 37). (49)


Este resumo da primeira parte da Exortação E.G. mostra que o método deste Papa não é o de repetir, mas de inovar e provocar inovações.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Anselmo Borges: "Francisco: a alegria do Evangelho (1)"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:


Precisamente com este título - "A alegria do Evangelho" -, Francisco acaba de publicar o seu primeiro grande texto, na forma de exortação, que foi objecto de referência e análise por parte dos media em todo o mundo e nomeadamente dos principais diários mundiais, como o The New York Times, o Wall Street JournalThe GuardianLe MondeEl País. Viram nele, e com razão, o programa do pontificado de Francisco, com duas partes: uma que diz respeito à renovação no interior da Igreja, outra referente à missão da Igreja perante a situação económico-financeira e social do mundo. Centro-me hoje na primeira, ficando a segunda para o próximo sábado.

"A alegria do Evangelho" não é uma redundância? De facto, a própria palavra Evangelho (do grego, "eu angélion") significa notícia boa, felicitante. Mas Francisco quer sublinhar isso mesmo e, por outro lado, sabe que, como denunciou Nietzsche, o que, de facto, muitas vezes, a Igreja transmitiu, por palavras e obras, foi um Disangelho, uma notícia má e causadora de infelicidade.

Os anunciadores do Evangelho terão, antes de mais, de perguntar a si próprios o que significa o Evangelho para eles mesmos. Estão verdadeiramente interessados nele porque lhes traz alegria, sentido para a existência e salvação? Só a partir daí poderão avançar para a sua entrega aos outros. Precisamente porque é uma notícia boa, feliz e felicitante.

Aí está então a urgência da renovação na Igreja. Para a pedofilia, tolerância zero. Transparência total no Banco do Vaticano: acaba de nomear o seu secretário pessoal como supervisor do IOR e da comissão económico-administrativa, com o objectivo de estar directamente informado. Francisco não quer bispos "príncipes" nem "de aeroporto" a viajar em vez de estar ao serviço das pessoas. E sabe que a missão da Igreja não é ganhar prosélitos, mas contribuir para a felicidade e alegria de todos. Tudo parte desta constatação, que inaugura a exortação: "A alegria do Evangelho enche o coração e a vida toda dos que se encontram com Jesus. Aqueles que se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, da solidão. Com Jesus Cristo, nasce constantemente e renasce a alegria. Nesta exortação quero dirigir-me aos cristãos para os convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por essa alegria e indicar caminhos para a marcha da Igreja nos próximos anos." Ficam aí alguns desses caminhos.

A palavra mais repetida no documento é a palavra alegria. A Igreja tem, pois, de ser uma casa onde reina a alegria, o que não significa ausência de esforço, de trabalho e sacrifício. A Igreja tem de ser a "Casa do Pai", o Deus que ama e perdoa sempre, e onde, por isso, as pessoas se sentem bem: os sacramentos (baptismo, eucaristia...) não são só para "os perfeitos". "A Igreja não é uma alfândega", controladora das pessoas e fiscalizadora das suas ideias, mas uma casa aberta, onde há transparência e fraternidade. Nela, o predomínio não pertence à doutrina mas ao Evangelho e, portanto, à confiança e à esperança, aonde todos se podem acolher. A Igreja tem de ser missionária, sair de si mesma, arriscar e ir ao encontro das pessoas, sobretudo das que vivem nas "periferias" geográficas e existenciais. Uma Igreja livre, capaz de denunciar profeticamente as injustiças do mundo. Uma Igreja atenta aos "sinais dos tempos", como mandou o Concílio Vaticano II, e assim capaz de comunicar a sua mensagem com linguagem viva e actual - atenção às homilias!

Impõe-se a reforma das estruturas eclesiásticas, portanto, mais colegialidade e sinodalidade, isto é, mais democracia. "Uma excessiva centralização, mais do que ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária." Assim, "não se deve esperar do Papa uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões". "Não é conveniente que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que se colocam nos seus territórios." "Igreja somos todos" e por isso é necessário desclericalizá-la e activar a corresponsabilidade dos leigos, reconhecendo à mulher os seus direitos nos lugares de decisão.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Francisco cumpre a profecia de von Balthasar?

Francisco e Ganswein

Há dias o perfeito da Casa Pontifícia, mons. Georg Ganswein, disse que no início ficou irritado por o Papa Francisco ter ficado a residir em Santa Marta. Agora já passou e os dois riem disso.

Questionei-me então se na opção de ficar em Santa Marta, para lá das "questões psiquiátricas" invocadas por Francisco, não estaria igualmente a sugestão de Hans Urs von Balthasar, que escreveu que para acabar com "escândalo inútil" seria bom que o Papa "transformasse o Vaticano num museu e se transferisse para a entrada de Roma".

O teólogo suíço, tão da preferência de Bento XVI, escreveu aquele desejo no livro "Punti fermi" (Rusconi), pág. 326, publicado em Milão no ano de 1972.

Para quando a primeira cardeal?

É inovação do Papa a nomeação de cardeal de um bispo auxiliar? O Papa Francisco disse no domingo que vai fazer cinco novos cardeais. Um de...