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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

História que eu pensava que era de António Alçada Baptista em quarta mão


Há dias comecei a ler as crónicas de António Alçada Baptista, em “O Tempo nas Palavras” (foram publicadas em primeiro lugar em “A Capital” nos anos 1972-73), à procura de uma história que eu pensava vir nas páginas iniciais. Dei com ela nas páginas 116-117. Não foi tempo perdido. Pelo contrário. O tempo passou pouco pelas palavras de AAB. As crónicas lêem-se como se tivessem sido escritas esta semana. Pensava que a história era de AAB, mas não. Aqui fica em quarta mão.
O Raul Solnado contou-me noutro dia uma história que colhera de Millor: 
«Um caixa dum banco estava na sua faina de pagar cheques e pôr carimbos e contava a uma cliente um passeio que dera à montanha. 
- A certa altura não pude dominar o carro e caímos por um precipício de trezentos metros! 
- Trezentos metros! Como é que o senhor ficou com vida? 
- Vida? Ó minha senhora, com franqueza, a senhora acha que isto é vida?»

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A velha ideia da felicidade interna bruta

Há um novo partido em Portugal. É o PAN – Partido pelos Animais e pela Natureza. Todos os partidos devem ser pela natureza e pelos animais, incluindo o ser humano, por isso é um pouco insólito um partido como este. Aliás, os direitos dos animais e da natureza só se entendem como deveres do ser humano e não como direitos em sentido estrito.

O PAN quer que as despesas com medicamentos, cuidados veterinários e alimentação dos animais de estimação sejam deduzidas no IRS (por causa das pessoas que só têm como companhia animais de estimação), o que tem algo de descabido e de pouco justo, socialmente, na minha perspectiva. Quanto ao dia vegetariano por semana, até pode ser uma proposta útil. Mas é preciso um partido para isto?

Por outro lado, afirma Paulo Borges no “Público” (a entrevista pode ser lida no sítio da organização, aqui) que
já se tem falado que talvez o mais importante não seja o produto interno bruto, mas a felicidade interna bruta. Foi o primeiro-ministro do Nepal que surgiu com esta ideia e nós achamos muito interessante.
De facto, tem-se falado esporadicamente, nos últimos tempos. Há meses, até o Sarkosy falou disso (ver notícia aqui). Mas a ideia já é velhinha. António Alçada Baptista explicou-a nas páginas de “A Capital de 25 de Julho de 1972”. Na altura, o holandês Sicco Mansholt (que viria a ser presidente da Comissão Europeia) havia proposto a Franco Maria Malfatti (presidente da Comissão Europeia, de 2 de Julho de 1970 a 1 de Março de 1972) que à noção de PNB (produto nacional bruto) fosse preferida a de BNB (“bonheur” – felicidade nacional bruta). Uma “felicidade bruta” parece uma contradição nos termos. De qualquer forma, é uma ideia com quatro décadas de idade.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ainda a "Vida de Maus", de Alçada Baptista

Fernando Correia de Oliveira (da Estação Cronográfica; já agora, veja-se aqui a referência ao IV centenário da morte do jesuíta "chinês" Matteo Ricci) deixou aqui a nota que se segue, a propósito do projecto de Alçada Baptista intitulado “Vida de Maus”, que não posso deixar de destacar e agradecer:


Sou amigo de um dos filhos de António Alçada Baptista e ele disse-me que o livro em causa não terá passado do projecto. "Quanto a possíveis apontamentos, tenho comigo seis caixotes enormes com os papéis que guardei dele", confidenciou-me. "Mas ainda não tive tempo de lá mergulhar, apesar da vontade ser muita".

Aproveito para incluir aqui a digitalização da página onde li a referência a tal projecto como obra “Em preparação”.

Com certeza que nos “seis caixotes enormes” que um dos filhos guardou haverá muita coisa interessante. A começar pela correspondência.

De qualquer forma, esta “Vida de Maus” afigura-se-me como algo muito estimulante. Remete para as clássicas vidas de santos. Uma “Vidas de Maus” poderia ir em dois ou três sentidos possíveis.

Ou contar a vida de pessoas que não foram declaradas santas mas que são exemplares. Pensemos em teólogos, em políticos, em artistas, ou em católicos que na época de Alçada Baptista se batiam contra a ditadura ou que se esforçavam por dialogar com as margens, ou que queriam estabelecer pontes entre o cristianismo e o marxismo…

Ou contar a vida de pessoas más de onde saiu coisa boa. Vilões. Como se sabe, “Deus escreve direito por linhas tortas”, como dizia Congar, um teólogo que Alçada Baptista publicava na revista “Concilium”. Tal como há bons que fazem coisas más, há maus que fazem coisas boas. O próprio Tomás de Aquino dizia que a piedade não era a primeira qualidade dos políticos, mas sim o zelo pela coisa pública. E são todos eles (todos nós) que fazem a Economia do Amor. O trigo e o joio andam muito misturados. Até na mesma pessoa.

Mas o livro também poderia ser sobre o corpo e o amor. Sempre uma anti-hagiografia. Pelo menos no sentido tradicional.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O que é feito da "Vidas de Maus" de António Alçada Baptista?

Passando hoje dois anos sobre a morte de António Alçada Baptista, peguei no livro “O Tempo nas Palavras”, que reúne as suas crónicas em “A Capital”, nos idos de 1972-73 (já então de dizia que a Felicidade Nacional Bruta devia substituir o Produto Nacional Bruto, hoje Produto Interno Bruto), à procura de uma história que queria copiar para este blogue. Não a encontrei, mas deliciei-me a ler uma série delas. António Alçada Baptista era um dos melhores contadores de histórias e casos pessoais. Leia-se a crónica da “Máxima” a seguir.

Mas espantou-me que na lista das obras do autor se escrevesse: “Em preparação: «Vidas de Maus – Elementos para uma anti-hagiografia – Pequeno Manual de Economia do Amor»”. Tanto quanto sei, tal obra nunca foi publicada. Pelo menos não aparece em nenhuma lista das suas obras. Mas devem existir apontamentos. Quem os pode publicar?

Crónica copiada daqui. Clique para aumentar.

7 de Dezembro de 2008. Morre António Alçada Baptista


António Alçada Baptista (Covilhã, 29 de Janeiro de 1927) morreu em Lisboa, no dia 7 de Dezembro de 2008.
Teve uma longa carreira de serviço público (jornalismo, assessor do ministro da Educação, criador do Instituto Português do Livro, promotor das relações culturais entre Portugal, Brasil, Cabo Verde e Moçambique, crítico do hino nacional…), mas aqui interessa mais ter sido um “católico progressista” nos anos 50 e 60 do século passado, director da editora Moraes (ai a colecção "Linha de Risco", com o John A. T. Robinson, o Paul Tillich, o Encarnação Reis...; ai a revista "Concillium" editada a partir de Portugal...) e um dos fundadores da revista “O Tempo e o Modo”.
Os cristãos do século XXI ainda lhe devem muito.
António Alçada Baptista tem sítio aqui. Dá para ler as crónicas na revista "Máxima", por exemplo.
A foto acima foi tirada do Centro Nacional de Cultura (aqui).

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Ainda Jorge Luis Borges, no dia dos seus 111 anos

Dizia ele, referindo-se ao pai, Guillermo: “O pai sempre com as suas piadas contra a fé. Na noite passada disse que Jesus era como os Gaúchos, que não querem comprometer-se, e que por isso pregava em parábolas” (conto “O outro”, terceiro volume das Obras Completas, na Teorema, página 11).

Circula na Internet o poema “Instantes”, atribuído a Jorge Luis Borges. Cito excertos, na versão que António Alçada Baptista apresenta nas suas memórias (“Pesca à linha…”):

“Se eu pudesse viver novamente a minha vida
Na próxima trataria de cometer mais erros
Não tentaria ser perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido.
(…)
Iria a lugares onde nunca fui,
Comeria mais sorvetes
E menos favas,
Teria mais problemas reais e menos imaginários.
(…)
Se pudesse voltar a viver
Começaria a andar descalço no princípio
Da Primavera
E continuaria descalço até ao fim do Outono.
(…)

Na realidade, este poema não é de Jorge Luis Borges, que nunca utilizaria a palavra favas, mas de Nadine Stair (aqui), conforme li numa entrevista de 2006 a María Esther Vázquez, colaboradora de Borges (aqui).

Conferência de Borges em 1977 sobre a cegueira e as cores, as memórias e a sorte que teve em ler numa só noite artigos de enciclopédia sobre Dreyser, dos druidas e dos drusos.

Ascendência portuguesa de Jorge Luis Borges

Torre de Moncorvo

“Nada ou pouco sei dos meus maiores portugueses: os Borges”, escreveu Jorge Luís Borges. António Alçada Baptista, que em “A pesca à linha. Algumas memórias” (ed. Presença, 1998) dá conta das três vindas do escritor argentino a Portugal, diz que a frase é mais reveladora da rejeição de Espanha do que uma efectiva ascendência portuguesa. “Julgo que é nesse processo mais vasto do seu inconsciente [de recusa da Espanha] que deve radicar-se o seu portuguesismo de que tanto se orgulha”.

De qualquer forma, diz-se que um ascendente de Jorge Luis Borges era de Torres de Moncorvo. A Wikipedia tem: “Segundo um estudo de Antonio Andrade, Jorge Luis Borges tem ascendência portuguesa: o bisavô de Borges, Francisco, teria nascido em Portugal em 1770 e vivido na localidade de Torre de Moncorvo, situada no Norte de Portugal, antes de emigrar para a Argentina, onde teria casado com Cármen Lafinur”.

Alçada Baptista afirma que Jorge Luis Borges nunca chegou ir a Torre de Mocorvo. Porém, explicou ao português como -se como via a terra dos antepassados, «na encosta de um monte, rodeado de pinhais». "Neste ano de 1997 [ano de escrita do livro de memórias], Torre de Moncorvo prestou-lhe uma homenagem merecida. Inaugurou a Avenida Jorge Luis Borges, com a presença do Presidente da República. Sei que continuam as investigações, em troca de correspondência com a família, para localizar esse antepassado militar que foi para a Argentina, contratado para aquelas guerras. Ainda não foi localizado”, escreve Alçada Baptista (pág. 123).

Procurando na Internet Antonio Andrade, o estudioso referido na Wikipedia, encontra-se que António Júlio Andrade é bibliotecário em Torre de Moncorvo e director do jornal «Terra Quente». "Homem que se ocupa dos arquivos, ele tem procurado Francisco Borges em todo o tipo de registos e correspondências. Alguns dos documentos que descobriu são inéditos e permitem uma indicação mais precisa da sua origem. Que pode muito bem estar no Morgadio do Mindel, o mais antigo de que há conhecimento na comarca de Moncorvo, pertencente a uma outra família Borges muito anterior à de Felgueiras", diz o sítio Geneall.net (aqui).

Neste sítio afirma-se, também, que o argentino D. Luis Guillermo de Torre, parente de Jorge Luis Borges e membro da Comissão Heráldica da Argentina, forneceu dados biográficos fundamentais sobre Francisco Borges. Os dados contradizem as datas da Wikipedia, mas confirmam a ascendência portuguesa . Francisco Borges terá sido baptizado numa das paróquias de Moncorvo, talvez em 1782 (e não 1770). "Era filho de Manuel António Cardoso e de Maria Antónia. Ignora-se o apelido da mãe, que se supõe ser Borges. Chegou ao Rio da Prata em 1817, na expedição do general Lecor. Casou em Montevideu, em 3 de Fevereiro de 1829, com a argentina Carmen Lafinur».

domingo, 22 de agosto de 2010

Ver para crer

Pequena história contada por António Alçada Baptista (1927-2008) em “A pesca à linha. Algumas memórias” (ed. Presença), pág. 192.

Dizem que, em Angola, um dos programas de televisão de mais sucesso é um concurso, chamado “Quem sabe, sabe…” É assim: há dois grupos. Um deles diz metade de um provérbio e o outro grupo tem que o completar.

Acho que este concurso dá lugar a inovações raras nos provérbios portugueses. (É de assinalar que só há provérbios portugueses!) Contaram-me três ou quatro mas eu só fixei este:

Um grupo diz: “Ver para crer…”

E logo o outro: “Como São Tomé… e Príncipe”.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Como nasce um ateu

Esta é de António Alçada Baptista (1927-2008). Conta a certa altura, em "A cor dos dias", como Albino Terezo Genoveno, que era de perto de Alcobaça, perdeu a fé.

“A dúvida instalou-se na alma quando morreu o sacristão. Pensou: «Então aquele, na intimidade divina, a mexer nos paramentos, tu cá tu lá com o Altíssimo, e morre-me!» Com as dúvida nas entranhas, ela avantajou-se quando ouviu o padre dizer numa prática: «Caim matou Abel e fugiu para a terra dos vizinhos». Aí disse para dentro: «Dos vizinhos?! No tempo de Caim e Abel não havia vizinhos!»”

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...