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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

"A Mão do Diabo". Acabei de ler o novo romance de José Rodrigues dos Santos



Acabei de ler o último romance de José Rodrigues dos Santos, “A Mão do Diabo”. Comecei a lê-lo há meia hora, num centro comercial aqui perto, e ainda gastei dez minutos a vir para aqui e mais cinco para escrever isto.

O professor Tomás de Noronha é despedido. É a crise. Mas alguém lhe dá uma mensagem secreta que o obriga a ir a Florença. A mensagem cifrada (ver contracapa) diz (em inglês) “Vai para Santa Cruz e procura sobre o túmulo de Satanás”. Não é preciso grande conhecimento para saber que em Florença há a Igreja de Santa Croce (dos frades franciscanos - e não monges, como diz o livro). Túmulo de Satanás? Pensei logo no de Maquiavel, que está lá, perto do de Galileu. Mas não, é o de Dante (vazio), que escreveu sobre o Inferno, pois. Oh, não, afinal é mesmo no de Maquiavel, por causa do diabólico “Príncipe”, que Tomás de Noronha encontra o DVD que vai incriminar um eurocrata, de apelido Seth (daí a mão do diabo), responsável pela criação do Euro que, sabendo muito bem que a moeda única transferiria riqueza para o centro da Europa e deixaria na miséria as nações periféricas, mesmo assim avançou com a ideia. O TPI julga-o, graças a Tomás de Noronha.

PS: Isto não é "ficção" (também li as informações finais). Infelizmente esqueci-me de ver quanto custa o romance para ficar com uma ideia da poupança.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A Mão do Diabo

"A Mão do Diabo". É o novo romance de José Rodrigues dos Santos. O que quer dizer que está a chegar o Natal.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Mesmo livro responde a dois romancistas sobre Jesus

As edições Paulinas relançaram há dias o livro "50 perguntas sobre Jesus", de Juan Chapa, julgo que para responder às questões postas pelo romance de José Rodrigues dos Santos, "O último segredo", pelo menos o "timing" assim sugere.



Digo relançaram porque o mesmo tinha saído há seis ou sete anos anos para responder ao "Código da Vinci". A capa era outra.



Não quero de maneira nenhuma estragar o negócio desta editora católica - de que aliás sou bom cliente -, mas o livro pode ser encontrado em PDF no sítio do Opus Dei. Foi elaborado por professores ligados à prelatura para responder à obra de Dan Brown nas questões relativas a Jesus.


Como se sabe, o Opus é um dos alvos do "Código", que tem um membro do Opus Dei, o monge Silas, como mau da fita. Mas o Opus Dei nunca teve monges.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Anselmo Borges: Jesus não era cristão?


Infelizmente, entre nós, o saber sobre a religião e as religiões é primário. A razão está em que o estudo do fenómeno religioso tem estado ausente da Universidade. Depois, há alguma má vontade, por vezes justificada, contra a Igreja, e esta não se tem esforçado suficientemente para esclarecer os cristãos e as pessoas em geral.


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui).

Uma "notícia", proclamada alto e bom som na televisão e nos media em geral: "Jesus não era cristão." O seu arauto: José Rodrigues dos Santos.

Afinal, em que ficamos: Jesus era cristão ou não? Se por cristão entendermos um discípulo de Jesus Cristo, então Jesus não era cristão, pois ele não foi discípulo de si mesmo. Se entendermos por cristão aquele movimento histórico que chegou até nós com esse nome e que tem na sua base a fé em Jesus, o Cristo, então Jesus era cristão, na medida em que a sua pessoa e o que ele anunciou e fez constituem o fundamento do cristianismo. Foi em Antioquia, que, pelo ano 48, pela primeira vez, os discípulos receberam o nome de cristãos, como pode ler-se nos Actos dos Apóstolos.

Infelizmente, entre nós, o saber sobre a religião e as religiões é primário. A razão está em que o estudo do fenómeno religioso tem estado ausente da Universidade. Depois, há alguma má vontade, por vezes justificada, contra a Igreja, e esta não se tem esforçado suficientemente para esclarecer os cristãos e as pessoas em geral.

Deste modo se explica, como disse o reputado exegeta Padre Carreira das Neves, que investigou em Jerusalém e em Roma, em bibliotecas com centenas de milhares de volumes dedicados ao tema, tendo ele próprio uma pequena biblioteca de três mil volumes, que chegue José Rodrigues dos Santos e qual Pitonisa de Delfos pense arrumar a questão com dezoito volumes. Não é bom não se cumprir o velho preceito: que o sapateiro não vá além da sandália.

Tenho repetido que, sendo Jesus a figura mais estudada da história por especialistas eminentes, que dedicaram e dedicam a sua vida ao tema, se José Rodrigues dos Santos julga ter encontrado a verdadeira identidade de Jesus Cristo, deveria escrever um artigo científico ou uma tese e deixar-se confrontar então com os seus pares, e o seu nome ficaria inapagável na lista da investigação. O que não pode é jogar ao mesmo tempo nos dois tabuleiros: o ficcional e o histórico-teológico, pois isso é desonesto intelectualmente, já que o leitor não tem maneira de destrinçar entre os dois planos. Quando é que é história? Quando é que é ficção?

O Novo Testamento contém muitas "fraudes", pois não existem originais, diz ele. Que diríamos então das obras da Antiguidade Clássica, da Ilíada, da Odisseia, das obras de Platão? Em relação ao Novo Testamento, há uns 115 papiros com quase todo o seu texto, dos séculos II e III, e um fragmento do capítulo 18 do Evangelho de João foi escrito pelo ano 125 e é praticamente idêntico ao que editamos hoje a partir de manuscritos posteriores. O cânone, no essencial, estava estabelecido pelo ano 200.

Por mim, apresentei o livro, no contexto do que deve ser uma apresentação: um diálogo crítico com a obra e o autor. Os jornais referiram a minha crítica e discordância. A RTP, essa, limitou-se a dizer - intencionalmente? - que eu o tinha apresentado. Como a minha crítica não foi sequer mencionada - José Rodrigues dos Santos, pelo contrário, teve espaço amplo de divulgação do seu livro, até no telejornal, o que levou ao protesto de muitos, perguntando se não se está a ferir a norma da imparcialidade de uma televisão que deve ser serviço público -, muita gente pensou que eu tinha ido a Lisboa abençoá-lo. Afinal, não é sem razão que há quem se queixe do abuso do poder dos jornalistas, concretamente na televisão.

De qualquer forma, esta polémica revela que Jesus continua a ser uma figura apelativa, que exerce fascínio. Mesmo "O Último Segredo" quer clonar Jesus, porque seria factor de paz para o mundo.

Quer se queira quer não, o Natal existe por causa de Jesus Cristo. Ele é uma figura determinante da História, que, sem ele, seria diferente. Como escreveu o filósofo ateu Ernst Bloch, foi por ele que veio ao mundo a afirmação de que todos os seres humanos têm dignidade inviolável. Aliás, a própria ideia de pessoa e dos seus direitos tem na base a discussão à volta da sua pessoa. Jesus está na origem da religião maioritária no mundo. Numa população mundial, calculada em 6900 milhões, há 2180 milhões de cristãos: uma em cada três pessoas no mundo é cristã.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Jesus Cristo à luz do LSD



No “Ípsilon” de hoje, o crítico Rogério Casanova escreve sobre o romance psicadélico “Mais um número de Feira”, de Tom Robbins (fui ver qual o título original e é “Another Roadside Attraction”, de 1971, e li que Robbins é o autor de um romance que deu filme há uns anos, “Even Cowgirls Get the Blues”, com Uma Thurman).

O romance, às tantas, diz que descobrem nas catacumbas do Vaticano o corpo embalsamado de Cristo e o contrabandeiam para a América. Ok, é uma comédia.

Rogério Casanova começa assim o seu texto: “Poderá ser um choque adicional para os leitores ainda estarrecidos com as recentes revelações sobre inconsistências na Bíblia e o facto de Cristo ser judeu, mas a ficção literária apresenta um longo currículo de trepidantes revisionismos sobre a narrativa básica dos Evangelhos. O último segredo do Cristianismo é a quantidade de penúltimos segredos já «revelados»”.

Refere-se, como é óbvio ao romance de José Rodrigues dos Santos. Acontece que entre o “Último Segredo” e este romance cómico (e na mesma linha muitos outros como “Em directo do Calvário”, de Gore Vidal) há uma clara linha de fronteira. O primeiro pretende-se levar a sério. Pretende-se científico, “verdadeiro”. Enquanto os outros, ou melhor, este de Tom Robbins, como diz Casanova, é fruto de uma “fé na doutrina da iluminação pela intoxicação”. Louvado sejas, LSD.

domingo, 20 de novembro de 2011

Bento Domingues: A Bíblia sob investigação (2)

Bento Domingues no "Público" de hoje. Notas informativas sobre a história exegese e da crítica textual em Portugal. Útil para começar perceber a relação entre texto bíblico e teologia, questão muito presente no romance e nas discussões sobre o romance de José Rodrigues dos Santos.

Ler aqui o primeiro "A Bíblia sob investigação".
Isaac Abravanel foi recordado aqui há dias.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

"Um calvário" - crítica ao livro de José Rodrigues dos Santos

Texto de António Marujo no "Ípsilon" de sexta-feira passada. Publicado ao longo de três páginas, surge aqui numa montagem. Há muitos pontos de contacto, sintonia, entre o que tenho escrito neste blogue sobre o romance de José Rodrigues dos Santos e o que escreve o jornalista do "Público".

domingo, 13 de novembro de 2011

A metafísica das fraudes, segundo José Rodrigues dos Santos

José Rodrigues dos Santos responde no "Público" de hoje a algumas objecções que Teresa Martinho Toldy tinha posto ao romance e que o jornalista não seguiu. Penso, como a teóloga, que as objecções são sérias, como aliás realcei aqui.


Em resumo, para Rodrigues dos Santos, se eu disser que quem me deu um certo livro foi o meu pai, por estar convencido de que realmente foi, e depois vier a descobrir que foi a minha mãe, sou mentiroso. Fraude. Mas não sou. Apenas estava enganado (não interessa o motivo). O que não é verdade - ou então, a mentira - nem sempre é fraude. Pode ser engano.


Quando antes de Copérnico e Galileu se dizia que o Sol andava à volta da Terra, as pessoas estavam enganadas mas não eram necessariamente fraudulentas. Ora, a Terra tanto anda à volta do Sol agora como andava quando se dizia o contrário. Eram todos fraudulentos? Ele que tire as conclusões.


Para mais, de facto, dentro das concepções que tinham, os cristãos recusaram imensos evangelhos como não canónicos - chamemos-lhe fraudes. Ler alguns destes evangelhos - estão publicados -ajuda a perceber como a escolha da Igreja foi acertada.

sábado, 5 de novembro de 2011

No "Público": Os Evangelhos segundo José Rodrigues dos Santos


No "Público" de hoje. Realço o que diz Teresa Toldy sobre a diferença entre os tempos actuais e os tempos bíblicos quanto a autoria e consequentemente direitos de autor (final da quinta coluna da primeira página). Daí que falar em fraudes e falsificações não faça sentido quanto à atribuição da autoria a apóstolos, ainda que se deve distinguir as diversas fases da escrita dos textos e as introduções (indevidas) pós-apostólicas, coisa que a crítica textual tem feito com rigor, mais em relação aos textos bíblicos do que a quaisquer outros.

Neste contexto, será ainda de adiantar, por exemplo, que se atribui a Homero versos que são de autoria colectiva, ao ponto de alguns duvidarem da existência do poeta Homero. E que a diferença temporal entre Platão ou Aristóteles e os manuscritos mais antigos que temos das suas obras é maior do que a que diz respeito aos textos da Bíblia. Faria sentido, ainda, uma explicação sobre o conceito de verdade, mentira, falsidade, falsificação, deturpação, etc. na antiguidade. Claro que, com estas e outras considerações, o romance ganharia em verosimilhança e, provavelmente, alguns admiradores académicos, mas perderia em popularidade.

Uma última observação: não podiam arranjar outra imagem para ilustrar a peça?

Anselmo Borges: "O Último Segredo". 2


Texto de Anselmo Borges retirado do DN de hoje.

Continuo a apresentação de O Último Segredo. Depois do que escrevi aqui na semana passada, desafio José Rodrigues dos Santos a retirar o que escreve na página 11: "Todas as citações de fontes religiosas e todas as informações históricas e científicas incluídas neste romance são verdadeiras." Lanço esse desafio, porque essa afirmação leva a um sem número de ambiguidades e equívocos e, assim, não é verdadeira. Afinal, a que informações históricas e teológicas se refere como verdadeiras? Também a afirmação "São milhares de erros a infectar a Bíblia", "incluindo fraudes"? Quais fraudes? O que valem, por exemplo, o sepulcro de Talpiot e os ossários descobertos? Os cristãos não habitam todos no asilo da superstição e da ignorância e, como já disse, não baseio a fé na ressurreição no túmulo vazio...

É claro que há a liberdade romanesca, ficcional. A minha discordância essencial consiste em que não é intelectualmente sério jogar ao mesmo tempo nos dois tabuleiros: o ficcional e o histórico-teológico, como afirmam a citação acima e a nota final, quando agradece a quem o ajudou a "garantir o rigor da informação histórica, científica e/ou teológica que consta deste romance". Como é que o leitor vai fazer a distinção de planos e registos, a destrinça entre o ficcional e o histórico e/ou teológico?

Não é por ser crente que lanço o desafio, mas porque me move - e espero que a J. Rodrigues dos Santos também - a procura leal da verdade. Evidentemente, os Evangelhos não são reportagens nem livros de história como hoje entendemos a história científica. Para utilizar a distinção alemã, não existe uma "Historie" de Jesus, portanto, história no sentido de uma história pura, totalmente neutra, mas sim uma história que implica interpretação ("Geschichte"): quem escreveu já acreditava em Jesus como o Cristo, o Messias e o Filho de Deus e queria que outros acreditassem. Mas, por outro lado, também é verdade que não há fé cristã sem uma base histórica essencial no que se refere a Jesus. O cristianismo tem uma base histórica comprovável e não assenta num mito.

Há ainda outra questão. Evidentemente, a clonagem - a ser possível - põe um problema: de facto o clonado não seria como o original, pois somos resultado de uma herança genética e de uma cultura em história: simplesmente, não seria Jesus de Nazaré. Quanto às possíveis consequências: neste quadro, quem é que combateria para que Jesus não fosse clonado? Concedo a J. Rodrigues dos Santos que o Vaticano não ficaria entusiasmado com a ideia e é bem possível que o considerasse herege: Jesus não entraria no Vaticano, porque o não deixariam entrar. Mas diz que também os judeus se oporiam à clonagem, porque, diz um judeu no romance, "seguindo a liderança do Jesus clonado e pacifista, o Ocidente cristão deixará de nos apoiar e Israel ficará à mercê do extremismo islâmico". A afirmação parte do pressuposto de que o Jesus histórico foi um judeu ultra-ortodoxo, um ortodoxo radical. Aqui, ergue-se a pergunta: se assim fosse, porque é que o mataram?

Aí está, pois, um livro polémico, com algumas questões pertinentes, mas que ignora, por exemplo, John Meyer, considerado hoje um dos melhores estudiosos do Jesus histórico, e a bibliografia alemã pós-Bultmannn. Livro polémico e ponto de partida para o debate, que vai obrigar a um melhor e maior conhecimento de Jesus. Quem foi? O que queria? O que fizeram dele? Qual a relação entre o Jesus da história e o Cristo da fé? Qual a relação entre o Jesus histórico e o Jesus que a Igreja anuncia e prega? A própria Igreja vai ser obrigada a mais reflexão e a esclarecer mais e melhor os fiéis. É a procura da verdade que nos deve unir a todos, pois "a verdade libertar-vos-á". Esta afirmação, que não pertencerá às chamadas "ipsissima verba Christi" - palavras directamente pronunciadas por Jesus -, corresponde certamente ao espírito que o animava.

Por mim, coordenei recentemente um colóquio internacional precisamente sobre "Quem foi (é) Jesus Cristo", no qual participaram figuras académicas de renome. Espero que as Actas se publiquem em Fevereiro próximo. Assim, o diálogo vai continuar.

Ler texto 1 de Anselmo Borges sobre "O último segredo" aqui.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

“Jesus admite que gostava da pingoleta", diz "O último segredo"


Jesus dizia de si próprio: “Veio João, que não come nem bebe, e dizem dele: «Está possesso». Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: «Aí está um glutão e bebedor de vinho (…)»” (Mt 11,18).

Esta passagem serve para Tomás Noronha dizer que “Jesus admite que gostava da pingoleta e que era um valente garfo” (p. 271).

Umas páginas à frente, ficamos a saber que Jesus era um “parolo da província”, que “veio das berças”, “onde só havia pacóvios” (p. 278).

Há uma lei antiga que diz que sempre que alguém escreve sobre Jesus Cristo revela-se a si próprio. Era Albert Schweitzer quem o dizia, afirmando que não há nada mais pessoal do que escrever uma biografia de Jesus Cristo. Mostrou-o em “The Quest of the Historical Jesus”, no início do século XX. Rodrigues dos Santos refere a obra (p. 560). Mas saberá o jornalista que Schweitzer, convencido de que pouco de “científico” se poderia saber de Jesus, considerou que nada mais restava do que a dedicação ao próximo? Consequentemente, o alsaciano partiu para a selva africana, que fica um bocadinho para lá das berças, dedicando-se aos últimos do seu tempo. Isso valeu-lhe o Nobel da Paz em 1952.

O que valerá a Rodrigues dos Santos a sua cristologia? Sim, há uma. Mesmo que se trate de um romance. Falando de Jesus, há uma imagem e uma identidade de Jesus. Veremos como acaba. Para já, segundo o protagonista, a cristologia da Igreja baseia-se em fraudes inconsistentemente cosidas. Mas a que perpassa pelo livro, baseada em leituras parciais, quase de tipo  - ou talvez de técnica - fundamentalista, que acaba por revelar o que pensam o protagonista, o narrador e o autor (ok, não se pode falar de uma continuidade entre os três, dizem os académicos, mas neste caso parece-me evidente), é uma cristologia de átomos descontextualizados. De pingos. Eu diria mesmo, e digo, cristologia de pingoleta.

Mudem a Páscoa, Jesus morreu em Setembro e não em Abril



Em “O último segredo” diz-se que “Jesus morreu no Yom Kippur” (pág. 281). Ora o Yom Kippur é a festa da expiação, que inicia o décimo mês, o de Tishrei (Setembro / Outubro). Onde terá ido buscar tal informação? Nunca tal coisa tinha ouvido. Também a Bart Ehrman?

Sempre se disse que Jesus morreu no mês de Nissã (Março / Abril). Dá jeito associar a expiação do Yom Kippur à morte de Jesus para dizer que por isso os cristãos propagandearam que ele é o cordeiro que tira os pecados do mundo. Mas o Novo Testamento afirma sempre que a morte de Jesus foi na Páscoa. É o cordeiro pascal e não o do Yom Kippur que se associa a Jesus Cristo. Terá José Rodrigues dos Santos aprendido a técnica da fraude com os copistas cristãos que, segundo ele (seguindo Bart Ehrman) reescreveram os evangelhos?

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Historiador português confunde guarda suíça com palhaço


Numa das cenas mais caricatas, para não dizer ridículas, de “O último segredo”, o professor Noronha, reputado historiador e criptologista português, ao entrar para o “complexo do Vaticano”, confunde um elemento da guarda suíça com um palhaço. “Seria um palhaço? Ali?” (pág. 26).

Na promoção do livro, usou-se uma imitação da guarda pontifícia, como se pode ver pelo  recorte acima, reproduzido da “TV Guia” (sim, a revista ainda existe; pensava que tinha desaparecido algures nos anos 90). Realmente está um pouco apalhaçado, ou pelo menos anafado, em comparação com os guardas suíços originais.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Pac, o católico que não tem pachorra para a veracidade dos factos


Texto da revista do "Correio da Manhã" de domingo passado. Pac (em tempos integrava os Da Weasel) não aprecia lá muito a "empresa, perdão, instituição" Igreja e acha que já não tem "pachorra" para a aturar no que toca à questão da "veracidade dos factos". Se é só em relação a essa questão, será que tem em relação às muitas outras a que a  "empresa, perdão, instituição" se dedica? Pac católico no resto?

sábado, 29 de outubro de 2011

Anselmo Borges: "O último segredo" (1)

Texto de Anselmo Borges retirado do DN de hoje (aqui):

Coube-me, a pedido da Gradiva, apresentar O Último Segredo, de José Rodrigues dos Santos. No sábado passado, na Sociedade de Geografia, com mais de 500 pessoas presentes. O que aí fica é a primeira parte de uma breve síntese do que aí disse.

1. Vamos supor que se descobriram os restos mortais de Jesus Cristo num túmulo de família. Agora, a partir do seu ADN, como não tentar cloná-lo, se ainda por cima o projecto for no sentido de o Jesus clonado instaurar a paz no mundo? Arranje-se uma intriga, com assassinatos pelo meio, dentro de um thriller, a partir dos interesses de uns em levar a ideia por diante e a perseguição de outros, que têm medo da sua concretização por motivos diversos, e temos material para uma história de enredo apelativo. Se, no meio da intriga, se vão descobrindo alegadas "fraudes" na Bíblia e se anuncia "a verdadeira identidade de Jesus", temos os ingredientes para o sucesso. Mesmo se o tema da clonagem de Cristo não é original, pois já há tempos apareceu um romance com esse tema.

2. A partir dos conhecimentos históricos disponíveis e fundados - Jesus é a figura mais estudada da História -, penso que, apesar das controvérsias que continuam, à pergunta "o que podemos saber hoje sobre o Jesus histórico?", se pode responder minimamente dizendo que foi um profeta escatológico judeu, um sábio, alguém com o dom da cura e um carismático, homem de mesa em comum e rompendo com a distinção entre puros e impuros, que impulsionou um movimento messiânico integrador de marginais, um homem de conflitos e perigoso para a ordem religiosa e social estabelecida, condenado pela oligarquia sacerdotal de Jerusalém e mandado executar na cruz pelo procurador romano, "o seu movimento profético-messiânico manteve-se e transformou-se depois da sua morte" (Xabier Pikaza). Alguns dos discípulos afirmaram que estava "vivo" e que tinha sido elevado à glória de Deus.

3. No desenrolar da intriga de O Último Segredo, há pressupostos e afirmações histórico-teológicos. Pergunta-se: o que valem?

Para mim, ao contrário do que insinua José Rodrigues dos Santos, os pilares do cristianismo não são abalados. Assim, não perturba nada a minha fé que Maria seja virgem ou não: o Credo não é um tratado de biologia. Do mesmo modo, não agride a fé cristã que Jesus tenha tido ou não irmãos e irmãs ou que tenha sido casado ou não. O que a boa teologia diz sobre a Santíssima Trindade é que a unidade de Pai, Filho e Espírito Santo é uma unidade de revelação: "Deus mesmo manifesta-se através de Jesus Cristo no Espírito", escreve Hans Küng. Na Bíblia, não se diz que Jesus é o próprio Deus. Ele é confessado pelos crentes como o Cristo, isto é, Messias e Filho de Deus. Ele é a revelação definitiva de Deus, não o Deus (hó theós).

Quanto à ressurreição, ela não pode entender-se como a reanimação do cadáver. O que foi feito do cadáver de Jesus ninguém sabe: pode inclusivamente ter ido para uma vala comum. No entanto, não haveria cristianismo sem a convicção de fé de que Jesus não morreu para o nada mas para o interior de Deus, para a vida eterna de Deus. Deus em quem Jesus acreditava e revelou como amor não o abandonou na morte.

É evidente que a ressurreição não é um acontecimento da história empírica, estudada pelos historiadores nem podia ser, pois transcende a história. O que é histórico é que Jesus foi crucificado e pouco depois os discípulos voltaram a reunir-se em nome de Jesus Cristo, que anunciaram como o Vivente em Deus. Essa experiência de fé foi de tal modo avassaladora que dela deram testemunho até à morte. Mas é claro que uns acreditam e outros não. Uns e outros com razões.

Sou muito mais cauteloso do que José Rodrigues dos Santos, que declarou ao DN que acredita em Deus "porque a ciência já encontrou provas". Ora, Deus não pode ser objecto de provas científicas: um Deus demonstrado cientificamente não seria Deus, mas um objecto mundano e finito. Uns crêem e outros não, e há razões para acreditar e razões para não acreditar, mas não há provas científicas.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A Igreja "não deve temer a verdade", reage José Rodrigo dos Santos

No "Público" de 27 de Outubro

A Igreja não gostou do romance de José Rodrigues dos Santos. Eu estou a lê-lo, vou perto da página duzentos e acho que entretém bem, mais pela constante provocação e por eu apreciar a matéria em causa, a Bíblia e mais concretamente os Evangelhos, do que pelo enredo em si, que é muito pobre. Parece que no final há uma reviravolta. Lá chegarei.

A técnica narrativa, baseada na pergunta-provocação deixada do fim de um capítulo e na resposta desenvolvida após um capítulo de permeio que segue outra linha, é banal. Um pastiche de Dan Brown ou de outro qualquer especialista em suspense, mas de pouca qualidade. Isto digo eu, que não sou pedreiro, mas sei ver se um muro está direito ou torto. E se este autor imita aquele.

Como é o primeiro romance de José Rodrigues dos Santos que leio (há dias disse que li o livro de JRdS de entrevistas, mas dele li também o “Que é Comunicação?”, na antiga Difusão Cultural), espero que os outros sejam melhores. Lê-se fácil, porque as letras são grandes e os capítulos curtos (com outro tipo de paginação, o romance teria metade do volume), e entretém, como disse, mas tudo muito low profile. Dan Brown de bandos costumes. Sem adrenalina.

Quanto ao motivo da polémica com a Igreja. Sim, há motivo para tal. JRdS já disse várias vezes que tudo o que lá está é sabido pela Igreja. Sabe-se nas faculdades de teologia e em alguns grupos bíblicos. Sabem-no os padres, embora muitos dos assuntos sejam discutidos e haja várias correntes sobre os mesmos assuntos. Mas no romance não há contraditório. A inspectora da judiciária italiana, católica, só teve catequese até à primeira comunhão (digo eu, a pensar nas suas respostas, embora não acredite muito na formação bíblica dos dez anos de catequese normais em Portugal), enquanto o historiador português é especialista em tudo o que é antigo. Até é capaz ver os números dos capítulos e versículos no Codex Vaticanus, que é do séc. IV, quando a Bíblia só foi dividida em capítulos e versículos na Idade Média. Claro que JRdS só deve ter visto o Codex Vaticanus na Internet. Mas também aí dá para notar que os capítulos e versículos não estão numerados.

A minha especialidade não é a Bíblia e até agora ainda não encontrei qualquer novidade em termos bíblicos. Mas o problema não está aí. O problema está no que se diz e se conclui a partir dos dados. O problema está no querer desmontar o edifício dogmático da Igreja dizendo: Não vem na Bíblia, logo a Igreja inventou. Se durante algum tempo veio, era fraude, deturpação, falsificação. Assim, a Trindade é “a mais bizarra das invenções do cristianismo” (195), a divindade de Jesus é “fraude” (183), Mateus “aldrabou” a contagem das gerações na genealogia de Jesus (129), Maria não era virgem, etc., etc. Em relação, por exemplo, à virgindade de Maria, nunca se pergunta ou se afirma o que a Igreja entende por virgindade de Maria. O fulcro do dogma está na “concepção de Jesus por obra do Espírito Santo” – a não intervenção humana na geração de Jesus. Mas convém ao romance não apresentar o correcto entendimento do dogma (que também evolui), para que a confusão seja maior.

A questão da fraude da divindade de Jesus é despachada com o início falso do versículo 3,16 da primeira Carta a Timóteo. Onde está “Deus manifestou-se na carne”, deve estar “Aquele que se manifestou na carne”, logo… Curiosamente, a Bíblia que sigo diz: “Aquele que foi manifestado…” Será que esta Bíblia da Difusora Bíblica (chamada “dos Capuchinhos”) não é católica?

Numa reposta global a JRdS, ou a Tomás Noronha, à partida, poderíamos dizer que, para o cristianismo católico, a Bíblia é “apenas” uma das fontes maiores da revelação. A outra é a Tradição. Mas isso poderia soar a desvalorização da Bíblia. Outra possibilidade seria responder caso a caso – o que levaria a um texto bem maior que o do romance.

Fiquemos, para já, nas perguntas de JRdS na notícia do “Público” acima reproduzida:

- A Igreja nega ou não que Jesus era judeu – e, consequentemente, que Cristo não era cristão?
Não percebo bem a pergunta. Jesus era judeu. Quem ousa a parvoíce de afirmar o contrário? Mas claro que houve quem o fizesse, diz Eco, aqui. “Cristo” é um título, uma expressão de fé, atribuída pelos discípulos a Jesus. Só os discípulos é que podem ser cristãos (Nietzsche dizia que só tinha existido um cristão e esse tinha morrido na cruz – mas essa é outra história). Pergunta inócua.

- A Igreja nega ou não nega que há fortes indícios na Bíblia de que Maria não era virgem?
O problema está no que se entende por virgem. Muitos teólogos católicos falam dos irmãos de Jesus, seja pelo lado da mãe, do pai ou de ambos, sem o dogma da virgindade estar em causa. O dogma, em si, é uma proclamação da Igreja também fundamentada com dados bíblicos.

- A Igreja nega ou não nega que existem textos fraudulentos no Novo Testamento?
Não nega. A minha Bíblia – a dos Capuchinhos – diz, por exemplo, que os melhores manuscritos não referem o episódio da adúltera prestes a ser apedrejada (ev. de João), o mesmo se passando com o final de Marcos. Ambos os textos são repudiados como fraudes no romance. Mas as Bíblias católicas já assumiram há muito tempo que não fazem parte dos manuscritos mais antigos e mais perto das fontes.

- A Igreja nega ou não nega que nenhum dos autores do Novo Testamento conheceu pessoalmente o Jesus de carne e osso?
Não nega. É um dado banal dos estudos bíblicos. Fiquemos pelos evangelhos. Em resumo, sabe-se que foram escritos após o desaparecimento dos apóstolos. Se se perde a memória viva dos factos e mensagens, há que passá-los a escrito. Por isso se afirma que os Evangelhos são um dos primeiros frutos da Igreja. A Igreja é anterior aos Evangelhos escritos. De acordo com os costumes antigos (o conceito de verdade e autoria era outro), os textos foram atribuídos à autoridade de alguém que de facto não os escreveu, como os apóstolos Mateus ou João, tal como se atribuía a escrita do Pentateuco (cinco primeiros livros da Bíblia) a Moisés, quando até num deles se descreve a sua morte. Para dizer que um texto foi inspirado, a Igreja teve basicamente três critérios, a apostolicidade do escrito (isto é, a relação com algum apóstolo), a ortodoxia (correspondência com aquilo em que se crê) e o uso litúrgico (uso nas celebrações dos crentes). Daí que tenham sido declarados canónicos quatro evangelhos no meio de dezenas de outros.


Uma última nota. Há um desfasamento entre o que a Igreja (e, já agora, o que é a Igreja?) sabe e crê e o que as pessoas (crentes, não-crentes, questionantes...) sabem e crêem? Sim, sem dúvida, principalmente em relação à parte do saber, embora haja muitos níveis e nuances e também uma grande consonância. Mas é dessa diferença que o romance vive. A esperteza de JRdS está no aproveitamento disso.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Bart D. Ehrman é o teleponto de José Rodrigues dos Santos

Bart D. Ehrman

O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura publicou uma nota sobre "O último segredo". Copio o ponto 3:
A nota final [do romance “O último segredo”, onde se apresentam indicações bibliográficas] de José Rodrigues dos Santos esconde, porém, a chave do seu caso. Nela aparecem (mal) citados uma série de teólogos, mas o mais abundantemente referido, e o que efetivamente conta, é Bart D. Ehrman. Rodrigues dos Santos faz de Bart D. Ehrman o seu teleponto, a sua revelação. Comparar o seu  “Misquoting Jesus. The Story Behind who Changed the Bible and Why” com o “O Último segredo” é tarefa com resultados tão previsíveis que chega a ser deprimente. Ehrman é um dos coordenadores do Departamento de Estudos da Religião, da Universidade da Carolina do Norte, e um investigador de erudição inegável. Contudo, nos últimos anos, tem orientado as suas publicações a partir de uma tese radical, claramente ideológica, longe de ser reconhecida credível. Ehrman reduz o cristianismo das origens a uma imensa batalha pelo poder, que acaba por ser tomado, como seria de esperar, pela tendência mais forte e intolerante. E em nome desse combate pelo poder vale tudo: manobras políticas intermináveis, perseguições, fabricação de textos falsos… Essa luta é transportada para o interior do texto bíblico que, no dizer de Ehrman, está repleto de manipulações. O que os seus pares universitários perguntam a Ehrman, com perplexidade, é em que fontes textuais ele assenta as hipóteses extremadas que defende.
Ler tudo aqui. E já agora, o vídeo, que suponho ser uma uma igreja baptista, e dá uma ideia do que se passa.


domingo, 23 de outubro de 2011

"O último segredo" e as minhas ante ante ante ante ante antepenúltimas considerações

Quanto mais se fala de um livro polémico, bem ou mal, mesmo mal, mais ele se vende. É um lugar comum, mas não me inibe de continuar a escrever sobre "O último segredo".

Há a questão das intenções e da verdade. E se alguém afirma coisas como “Cristo, afinal, não era cristão”; Jesus Cristo foi “totalmente diferente do que pensamos”; “a religião cristã era herética”, Jesus era “intolerante para com os não judeus” – tudo frases de José Rodrigues dos Santos nos noticiários de ontem – se não falta à verdade, tem intenções de dizer que os outros (a Igreja católica) faltam, deturpam, enganam.

Na realidade, José Rodrigues dos Santos – que com certeza há muito não vai à missa, a julgar pelo modo como pronuncia Cafarnaum – não deve saber que todas as passagens sobre as quais acha que descobriu uma verdade desconhecida do povo católico são proclamadas nas missas de domingo e da semana.

A linha geral da sua argumentação parece-me mais ou menos esta: apresentar uma verdade que supostamente está em contradição com o que a Igreja anuncia. Por exemplo: “Cristo, afinal, não era cristão”. Isto parece um escândalo. (A formulação mais adequada seria antes “Jesus afinal não era cristão”. Mas ele começou a frase por Cristo.) Se não foi cristão, quem nos enganou? - é a pergunta que fica no ar. Ora, ele, desmentindo o que supostamente se afirmou, aparece como arauto da verdade.


Na realidade, nunca a Igreja afirmou que Jesus foi cristão. Jesus foi judeu e pronto. Os seus seguidores, interpretando a sua vontade e devido às circunstâncias históricas, fizeram a Igreja cristã. Afinal, Rodrigues dos Santos diz a verdade e a polémica esvazia-se porque não tem por onde estar cheia. Mas entretanto lançou a suspeita de que a Igreja terá querido algo diferente (e do diferente ao oposto vai pouca distância) do que queria Jesus Cristo. Teria havido manipulação. Mas saberá JRdS o que Jesus queria? Eu não digo que sei. Só procuro.

Quando há dias li a bibliografia, notei que não fazia referência a nenhum dos dois recentes volumes de Bento XVI sobre Jesus Cristo. Pelo menos ao primeiro, de 2007, deveria.

A Agência Ecclesia colocou-lhe a questão. E o que respondeu JRdS? “Admitiu não ter considerado esta obra do Papa na elaboração do seu novo livro por a considerar «apologética» e de um âmbito teológico, não histórico”, diz a agência católica (aqui).

Mas eu lanço outra explicação. O Papa conhece os autores citados pelo jornalista-escritor e outros que o jornalista ignora, mais de tradição alemã, onde a separação entre o Jesus da história e o Cristo da fé mais se colocou, de forma radical, principalmente a partir de Rudolf Bultmann. Ora a linha de fundo de Bento XVI / Ratzinger, como a de muitos outros teólogos e exegetas, quer alemães quer norte-americanos (os destas duas nações são os melhores), é a da continuidade entre o Jesus histórico e o Cristo da fé, o das convicções dos crentes. Naturalmente isto vai contra a pretensão de JRdS mostrar um novo Jesus e em contradição com o da maioria católica. Além do mais, como citar alguém que está no centro da hierarquia, o Papa, quando a linha de fundo do romance é mostrar que a igreja dominante ocultou e oculta, enganou e engana?

Por fim, valeria a pena ouvir tudo o que o padre e professor Anselmo Borges, insuspeito quanto a simpatias para com a hierarquia, já que por vezes é uma voz incómoda na Igreja portuguesa, disse na apresentação do livro. Fico pela frase que aparece no “Público” de hoje. “[Anselmo Borges] deixou mesmo um desafio: que o autor retire a afirmação de que «as citações de fontes religiosas e informações históricas e científicas incluídas neste romance são verdadeiras». «Não é verdadeiro, não precisa disso, vai ser um bestseller»”.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Ó José Rodrigues dos Santos, então João Paulo II veio a Portugal em 1976?


Estive a dar uma vista de olhos em “O último segredo”, de José Rodrigues dos Santos. Ainda não o comprei porque logo que entrar para o top da livraria que frequento o preço baixa dois euros. De qualquer maneira li o suficiente para perceber o essencial da tramóia. E li as últimas páginas, pós-desfecho da história, que revelam os livros consultados pelo autor. Este é um daqueles romances com bibliografia. Dá credibilidade. Estão lá o Reimarus, o Schweitzer, o Crossan. Falta o John P. Meyer, padre católico, que já vai no quarto volume sobre Jesus Cristo e é o melhor estudioso do Jesus histórico da actualidade. E não me lembro se está lá Marcus Borg, embora estejam vários das suas imediações intelectuais. Para já não falar dos alemães todos pós Bultmann, que não estão. Claro que aquilo é um romance e não um ensaio teológico. Mas se o autor quer dar credibilidade apontando autores, convém notar que não aponta os mais significativos.

Para mais, li isto na página 561:
Como fontes para as citações bíblicas recorri à “Bíblia Sagrada”, edição lançada pela Verbo em 1976 para comemorar a visita do papa João Paulo II a Portugal nesse ano, e baseada nas melhores traduções dos mais antigos manuscritos em grego ao dispor do Vaticano.
Ora aqui há pelo menos dois erros. Em 1976 o papa era Paulo VI. Wojtyla estava em Cracóvia e só seria eleito em Outubro de 1978. E só veio a Portugal, pela primeira vez, em 1982.

Se é a edição da Verbo em que estou a pensar, uma de capas vermelhas (imagem acima), é interessante pelas gravuras, mas não pelo rigor científico. A mais recente dos capuchinhos (Difusora Bíblica) é bem melhor.

Por outro lado, qualquer Bíblia com pretensões de rigor científico, hoje, é traduzida de manuscritos gregos (NT e alguns livros do AT), hebraicos (AT) e aramaicos (versículos e capítulos do AT), as três línguas bíblicas, e não somente do grego.

Ai, ai, o José Rodrigues dos Santos vai desmascarar a interpretação católica da Bíblia

Veio no DN de hoje
(para ler isto, porque o Blogger voltou a alterar o modo de visualização, o melhor é fazer um "save as" ou "guardar imagem como...").

O único livro de José Rodrigues dos Santos que li não era exclusivamente dele. Era dele e também da dúzia de escritores que entrevistava, de Saramago a Ian McEwan (referi o livro aqui). Li-o mais pelos escritores do que pelo entrevistador, como se deve fazer sempre num livro de entrevistas, embora as boas entrevistas dependam sempre do bom entrevistador.

Mas tenho de José Rodrigues dos Santos uma boa imagem, apesar de tudo o que dele se diz na RTP – e ele sabe o que se diz, porque até já disso falou numa entrevista à “Pública”. Trabalhei uns anos em frente à antiga sede da RTP e um dia, querendo fazer uma surpresa a uma amiga, deixei na recepção dois dos livros da autoria do jornalista com o pedido de uma dedicatória. Ele deixou uma bela dedicatória nos volumes (não me lembro do que dizia, mas lembro-me da expressão da destinatária dos livros). Foi muito simpático.

Agora vem com as fraudes da Bíblia. Vou ler este livro com muito interesse, não por causa da trama, mas por causa de Bíblia e da influência de uma obra destas (o romance do jornalista) na cultura popular. Assim, à partida, a ter em conta as notícias do livro, diz-se que Antigo Testamento não anuncia Jesus, que o centro da mensagem de Jesus não é o amor, que a Bíblia tem erros, enganos, fraudes, que a Igreja não segue Jesus (ou Jesus não se reveria nesta Igreja). E apresenta-se tudo isto como se fosse novidade, como se estivesse contra a Igreja, vá lá, dominante. Deve haver muito mais afirmações do género. E todas elas inócuas para os cristãos minimamente informados. São lugares comuns nas faculdades de teologia e mesmo em grupos bíblicos paroquiais. Assim de relance: Claro que o AT não fala de Jesus, fala de um messias e em poucas passagens; Jesus anunciava o Reino de Deus ou Reino dos Céus, ou, como alguns preferem, Reinado dos Céus; a Igreja segue Jesus mediado pela tradição, que quer dizer transmissão – não tem outra maneira de o fazer.

A história da Bíblia é uma história maravilhosa de enganos, erros, más interpretações e tudo o contrário com muitos estudos e debates, crentes e não-crentes à mistura, muitos interpretações, muito sentidos. Desde a maçã de Adão que nunca aparece em lado nenhum, aos cornos de Moisés (veja-se a estátua de Miguel Ângelo, mas também a pequena escultura na fachada dos Jerónimos), que são raios de luz em hebraico, passando pelo "perdoai as nossas dívidas" e não "os nossos pecados". pelos acrescentos sobre a ressurreição em Marcos e João. Mas também isso é Bíblia. Mas não se admire que isso cause perplexidades em alguns. Uma vez disse que os apóstolos nunca na vida fizeram o sinal da cruz e o grupo que me ouvia ficou de olhos esbugalhados.

Já aqui foi comentado que o padre e professor Anselmo Borges não se devia associar ao lançamento do livro. Pelo contrário. Nada do que até agora ouvi dizer do livro a lançar é heresia. E se fosse? No recentes colóquios de Valadares sobre Jesus, organizados por Anselmo Borges, muito mais – mais profundo, mais polémico, mais temeroso para uma fé de ideias-feitas e que não se queira esclarecer – foi dito sobre Jesus do que o que José Rodrigues dos Santos dirá no livro. Mas eu vou lê-lo e hei-de voltar ao assunto. Talvez este livro venha a ser uma boa oportunidade para conhecer mais a Bíblia.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...