quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O bispo, o judeu e o copo de vinho

O arcebispo de Paris visitou um dia o barão de Rothschild, judeu. Este mandou-lhe servir um excelente vinho tinto. Só que, apenas lhe serviram meio copo. O arcebispo gostava de copos cheios até cima. Pegou, por isso, no jarro de água e completou o copo. O barão ficou surpreendido:

- Eminência, um vinho destes não se baptiza…

- Oh – respondeu o prelado –, eu não estou a baptizá-lo. Estou a cortá-lo.

Qual é o tempo razoável para se compreender uma anedota, quando não se compreende à primeira? Demorei alguns dias a compreender esta.

Jesus Cristo porreiro

A revista dos cristãos evangélicos dos EUA, "Christianity Today" (aqui) publica um texto sobre a “fé hipster”.

“Hipster” – termo que desconhecia, apesar de já existir pelo menos desde os anos 40 do século passado – descreve os adultos jovens, com boa formação e urbanos, de classe média e alta, com pontos de vista sociais e políticos esquerdistas e interesses culturais alternativos. Li aqui.

Parece que muitos pastores evangélicos estão a seguir as tendências “hipster” numa tentativa de deixarem de ser irrelevantes em alguns contextos sociais. A “fé hipster”, “cool”, opõe-se ao evangelismo tradicional. Usam o Twitter. Imprimem as folhas paroquiais em papel reciclado. Mostram filmes dos irmãos Coen durante os serviços litúrgicos. Preferem ser chamados “seguidores de Cristo” a “cristãos”. Não se espere encontrar fundamentalistas entre eles.

A louca esperança de Jean d’Ormesson

Jean d’Ormesson, o escritor/cronista/jornalista/ensaísta/dirigente de organizações que ocupa a cadeira número 12 da Academia Francesa (aqui), um dos 40 imortais que neste momento são 37, conhecido pela alegria e boa disposição, escreveu recentemente um livro de memórias, buscas espirituais, sistemas do mundo, cheio de ormessonismes, como escreveu um jornalista do "Le Point" (aqui), talvez uma espécie de testamento sobre a sua visão do mundo - julgo eu. O livro, “C'est une chose étrange à la fin que le monde”, fala frequentemente de Deus. "Je doute de Dieu parce que j'y crois. Je crois à Dieu parce que j'en doute. Je doute en Dieu".

Perto do fim, d’Ormesson escreve: “Cada um faz como quiser. Espero que haja, depois da morte, alguma coisa da qual não sei nada. Espero que haja, fora do tempo, um poder que, por aproximação e por maior simplicidade, podemos chamar de Deus. Não tenho outra fé do que essa louca esperança”.

Gota de água


Não existe nenhum incidente tão insignificante em que não se inscreva a vontade de Deus como toda a imensidade do céu numa gota de água.

Georges Bernanos (1888-1948)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Vamos à missa ou ao shopping?

Folha.com - Qual é a saída para toda essa ansiedade?

Gilles Lipovetsky - As compras. Antes as pessoas iam à missa, agora elas vão ao shopping center. Comprar, ir ao shopping, viajar -são as terapias modernas para depressão, tristeza, solidão. Você pode comprar "terapias de desenvolvimento pessoal". Um fim de semana zen, um pacote de massagens. Todas as esferas de vida estão subjugadas à lógica do mercado.

Li aqui.

O cheiro de Deus

Introdução a Mestre Eckhart
Michael Demkovich
Paulinas
200 páginas

“No seu tempo, [Mestre Eckhart] teve muita fama como teólogo e como místico. Depois, durante séculos, foi grandemente esquecido. Agora é um mestre espiritual que é apreciado por cristãos, budistas e outros crentes, por intelectuais e por pessoas que desejam simplesmente chegar mais perto de Deus ou descobrir o Deus que já está no centro das nossas vidas”, escreve Timothy Radcliffe, antigo geral dos dominicanos, no prefácio desta obra.

Mestre Eckhart (1260-1327), teólogo, filósofo e pregador dominicano. Nasceu na região da Turíngia, no centro da Alemanha, e terá morrido em Avinhão, França, mas não se sabe onde foi sepultado.

Neste livro, Michael Demkovich, também ele membro da Ordem dos Pregadores (dominicanos), traça uma biografia do místico medieval: a sua educação, o ensino em Paris e Estrasburgo, a direcção de uma comunidade de frades, o julgamento das suas doutrinas, em Avinhão, consideradas heréticas.

Na segunda parte, “Sobre a Alma (De Anima)”, desenvolve uma espécie de “conhece-te a ti mesmo” seguindo as intuições do frade alemão patentes nos seus sermões.

A última parte recolhe dez exemplos, isto é, imagens, comparações, alegorias, da pregação de Eckhart. O intelectual da Universidade de Paris, que era o grande centro cultural da Idade Média, pregava as mesmas ideias ao povo que nunca estudara filosofia. Jesus tinha as parábolas. Eckhart tem os “exempla”. Radcliffe revela os seus dois preferidos: “O primeiro descreve como necessitamos de algum ponto estável nesta vida turbulenta: somos como pessoas levadas pela corrente, rio abaixo, que, quando querem dormir, deitam a âncora para poderem ficar tranquilas. O segundo compara a pessoa que anda em busca de Cristo ao cão de caça que apanhou o faro de um coelho. Se o cão passa à frente ou ao lado do coelho, perde o cheiro”. No desenvolvimento do exemplo, Eckhart observa que há cães que em vez de seguirem o cheiro, seguem o cão que vai à frente. Não vão longe. Demkovich explica: “Tão frequentemente as pessoas procuram Deus da maneira como vêem outras pessoas procurar Deus, mas nunca apanharam realmente «o cheiro de Deus»”.

Geometria euclidiana

Deus não se demonstra como uma equação matemática e o problema da sua existência não se resolve como um problema de geometria euclidiana. Com toda a evidência, um ser infinito não poderia ser racionalmente analisado em termos exactos.

Archibald Joseph Cronin (1896-1981)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Demónios, diabos e o texto mais popular desta tribo

As estatísticas privadas do Blogger permitem saber quais as entradas mais visitadas. Para meu espanto, no meu blogue, é a intitulada “1 de Julho de 1976. Morre Anneliese Michel, tida como possuída por uma legião de demónios” (aqui). E a seguir, mas a uma distância considerável, uma sobre ateísmo.

As questões do diabo/demónio geralmente atraem a atenção. Tal como o inferno, enquanto tema, tem mais adeptos do que o céu. Aqui há uns anos, uma paróquia promoveu uma série de conferências sobre o que acontece depois desta vida, segundo a doutrina católica tradicional: Purgatório, coisa temporária, Céu e Inferno. A sala só encheu com o Inferno.

Sobre o demónio / diabo, já aqui se tem falado, principalmente por causa do P.e Fortea e da sua “Suma Daemoniaca”. Mas gostava de esclarecer que, em termos de Evangelhos, as coisas não são bem como às vezes parecem. Ficam estes pontos, baseados em Ariel Álvares Valdés, na obra “Que sabemos da Bíblia? - IV” (Paulus).

1. Nos Evangelhos nunca se empregam os termos demónio e diabo de forma equivalente. As possessões são sempre demoníacas, nunca diabólicas. Não há um único episódio que fale de “possessão diabólica”.

2. Demónio, do grego daimonion, é do género neutro, o que indica que se trata de uma coisa e não de um ser pessoal; é um adjectivo substantivado criado para referir poderes ou forças impessoais capazes de provocar doenças.

3. Atribuem-se aos demónios as doenças que hoje diríamos de causa interna. O leproso, o paralítico, o cego não são possuídos por demónios; está à vista a causa da doença ou deficiência. Mas um mudo (Mt 9,32), um surdo (Mt 9,25) ou um epiléptico (Mt 17,14-20), sem causa exterior de doença, tinham de ter um demónio. O mesmo acontecia nos casos de loucura ou demência.

4. Isto explica que Jesus expulse “um espírito surdo e mudo”, ou seja, cura um surdo-mudo (Mt 9,31 e Mc 5,15). E que digam de João Baptista, porque jejuava: “Está com um demónio” (Mt 11,18). Ou seja: “Está louco”. E também dizem que Jesus que está possuído por um demónio. Ou seja, acham que está maluco (Jo 7,20; Jo 8,52; Jo 10,20).

5. Os conhecimentos médicos da altura fazem com que a acção curativa de Jesus se divida em “curas” (causas externas) e “expulsão de demónios” (causa internas).

6. O termo “Diabo” vem do grego “diabolos” e traduz o hebraico "Satanás", que significa “o adversário”, “o inimigo”. Não existe o termo “diabos”. Apenas “o Diabo”. E nunca se fala em possessão diabólica. Mas o Diabo surge em relação com o pecado. A sua influência é moral e psicológica. Nunca física. Actua a partir de fora. Não a partir de dentro, como se pensava que faziam os demónios. Só o Diabo é que tenta, mas não provoca doenças.

7. Jesus expulsou de Maria Madalena sete demónios (Lc 8,2), o que quer dizer que era muito doente – e não muito pecadora, como erradamente se pensa.

O que é que isto dá para os tempos de hoje? Demónios não existem. Já não precisamos dessa explicação. São como o éter. E quanto ao Diabo, sabemos bem que o mal por vezes é atractivo. Mas não é preciso personalizar e transferir para outra realidade o que depende da nossa responsabilidade e liberdade. A navalha de Ockham descarta-o. Dá também que os possessos são doentes, ainda que não conheçamos as causas de todas as doenças. Deve haver uma doença rara do foro psíquico que consiste em imitar o que se julga ser o comportamento de um possuído por um ser sobrenatural, um suposto demónio. Ou uma legião deles. Era isso que Anneliese Michel tinha.

28 de Setembro de 551 a.C. Nasce Confúcio

Segundo a tradição, Confúcio – Kung-Fu-Tse – nasceu no dia 28 de Setembro de 551 a.C. e morreu em 479 a.C.

Conhece-se pouco da sua vida, mas toda a gente sabe de cor três ou quatro expressões e aforismas atribuídos ao sábio que é o chinês mais conhecido no mundo, desde as mil variações da cana e da pesca à caminhada de mil léguas que começa com o primeiro passo, passando pela afirmação de que a “glória não reside no facto de nunca cairmos, mas sim em levantarmo-nos sempre depois de cada queda”.

Entre os muitos conselhos que lhe são atribuídos, apreciei especialmente os seguintes:

* Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade.

* A preguiça caminha tão devagar, que a pobreza não tem dificuldade em a alcançar.

* É mais fácil vencer um mau hábito hoje do que amanhã.

* Há três métodos para ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação, que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo.

Mas se tivesse procurado mais, outros teria encontrado. Também para essa situação ele deveria ter uma frase, mas não sei qual.

Um texto inteligente para compreender o momento da Igreja católica

As relações Igreja /Estado mudaram, mesmo nos países de grande influência católica. Foram-se os tratamentos especiais. “Os dias em que as autoridades civis trataram a Igreja com luvas de pelica basicamente acabaram”, escreve John L Allen Jr. no “National Catholic Reporter”, num texto inteligente para compreender o ambiente católico na actualidade.

“Cada vez mais, procuradores, polícia e activistas da sociedade civil olham para a Igreja católica aproximadamente da mesma forma com que olham para o grande negócio, para o lobby e a política, até mesmo para o desporto profissional – como zonas potenciais de corrupção que precisam ser responsabilizadas e que de forma alguma devem estar «acima da lei»".

Isso pode fazer muito bem à Igreja, tornando-a uma "casa de vidro", em que “todos do lado de fora podem olhar e ver o que está a acontecer”. No entanto, a curto prazo, “é provável que isso signifique que os pontos de ebulição entre Igreja e Estado vão crescer tanto em frequência quanto em intensidade”.

Por outro lado, daqui em diante, pode acontecer, e já acontece: Primeiro dispara-se e só depois se pergunta.

Outra questão não menos importante – aliás, mexe com a maioria dos fiéis católicos, pelo menos no Ocidente europeu –, prende-se com a diferença entre o que a Igreja ensina e o que os fiéis praticam. Pensemos principalmente na moral sexual embora aconteça igualmente nas questões sociais. “Diante dessas divisões, um grupo poderia defender uma revisão global do ensino da Igreja para o acomodar às sensibilidades pós-modernas; outro grupo poderia defender a expulsão de qualquer pessoa que não esteja preparada para assinar por baixo; e outro grupo poderia ainda defender que se ignore o problema completamente”, diz o jornalista do “National Catholic Reporter”. E acrescenta que se trata, respectivamente, de grupos liberais, conservadores e alguns bispos.

O caminho de saída preconizado por Allen é muito interessante: “Sinceramente, nenhuma das opções acima parece ser uma solução especialmente satisfatória. O que é necessário é a reconstrução de um «commons católico», um espaço em que os membros das várias tribos que pontilham a paisagem eclesiástica se possam reunir e construir amizades, de modo que uma profunda «espiritualidade de comunhão» possa ocorrer. Do outro lado desse esforço, as novas formas de expressar as verdades eternas podem surgir, o que pode atenuar, embora talvez nunca eliminar completamente, as linhas de fractura na Igreja”.

O texto original pode ser lido aqui. Versão (parcial) em português aqui.

Os novos cavalos

Churchill dizia que uma hora a cavalo é sempre bem passada. Depurava as ideias. Nós que não somos tão aristocráticos, teremos sempre as bicicletas.

Convergência

Alçar-me até descobrir o Universo como uma espécie de repuxo onde todo o esforço de pesquisa, toda a vontade de criação, toda a aceitação do sofrimento convergem para a frente num só dardo deslumbrante, tal é, ao fim de contas, o cume escarpado de onde, no fim da nossa existência, eu continuo cada vez mais a escrutinar o futuro, para melhor aí ver subir Deus.

Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Mostrai-me, meu Senhor, em que deserto

Mostrai-me, meu Senhor, em que deserto,
Em que ribeira, vale, monte ou serra,
Em quanto me deixais andar na terra,
Do ceo me deixareis andar mais perto.

Que pois, ou coberto ou desencoberto,
Me faz cruel imigo cruel guerra,
De quanto dentro de mim mesmo se encerra
Lugar de defensão tenha mais certo.

Mas como, onde posso defender-me,
Enquanto for de mim acompanhado,
com tanta experiência de perder-me,

Senão sendo metido em vosso lado
Para todo de mim mesmo esquecer-me,
E só de vós, meu Deus, ser alembrado?

Agostinho da Cruz (1540-1619)

A Cónega de Westminster

Não fala quase nada da Cónega Hedges. Mas vale a pena ler para conhecer a Igreja anglicana. Veio no DN de sábado (25 de Setembro).

"Dinheiro e Paraíso" - nova edição

Agora sim, a capa da nova edição do livro "Denaro e Paradiso", da co-autoria do presidente do Banco do Vaticano. Aqui pode ler-se em italiano uma recensão mais alargada da obra. Gostava de o ler em português. Talvez a Principia o traduza.

Banqueiro dá ao Papa "Dinheiro e Paraíso"

Notícia do DN de hoje (27-09-2010). Note-se que a edição original do referido livro é de 2004. Mas deve ter tido uma reedição recente, porque conclui com um capítulo dedicado à "Caritas in veritate" (aqui), encíclica de Bento XVI que só foi publicada em 2009.

Infinitamente frágil

Eu creio que Deus é infinitamente frágil e que nós devemos protegê-lo. Eu não creio que ele seja infinitamente poderoso. O que ele tem de infinito é a sua fragilidade. Por isso, ele não pode ser protegido senão dentro aquilo que há de mais escondido em nós.

Michel Serres (1930 - …)

Fernanda Câncio não tem Deus, mas vai tendo os seus profetas

Na “Notícias Magazine” de hoje (26 de Setembro de 2010), Fernanda Câncio, que não tem Deus, porque “não é grande nem sequer é grande coisa”, revela que tem um profeta: Christopher Hitchens. Encontrou em Hitchens os argumentos que se alinhavam na cabeça dela. O colunista inglês deve tê-los copiado da mente da jornalista portuguesa por telepatia.

Embora por razões opostas, ambos (eu e ela) gostamos de ler Hitchens. Eu para me confrontar com quem pensa diferente e, de alguma forma, interroga a fé que partilho com outros (referi-me a isso aqui). Ela para se sentir legitimada e, como dá a entender no primeiro parágrafo, para cultivar o inglês, um inglês muito melhor do que o mau inglês internacional que está acostumada a tolerar.

Em relação à doença, Hitchens parece ser um pouco mais razoável do que Câncio, que se lembrou de citar alguém que lhe deseja sofrimento. Viu na Internet. Vê-se lá de tudo. Na realidade, também vi que perguntaram a Hitchens e ele foi bem mais afável. “Sente-se insultado quando as pessoas dizem que rezam por si?” Hitchens: “Não, não, aceito-o desde que o façam para a minha recuperação. Mesmo que isso não mude nada” (ver aqui).

domingo, 26 de setembro de 2010

Pecado rico, Virtude pobre

"Neste mundo, o pecado que paga a passagem pode viajar livremente, enquanto a Virtude, se for pobre, é retida em todas as fronteiras".

Frase do sermão do pastor Mapple sobre o episódio bíblico de Jonas, no cap. IX de "Moby Dick", de Herman Melville.

Por que é que não foste Zoussya?

Já quase no fim da vida, o rabi Zoussya, mestre hassídico admirado por Elie Weisel, disse:
- No mundo futuro, a questão que se me vai colocar não é: por que é que não foste Moisés? Não. A verdadeira questão é: por que é que não foste Zoussya?

Bento Domingues: Elogio dos gestores corruptos

"A Doutrina Social da Igreja, carregada de altíssimos e generosos princípios, não tem encontrado, nos milhares de economistas e gestores católicos – e empresários – do mundo inteiro e mesmo cá, em Portugal, vontade de investigar e encontrar alternativas à economia e à gestão que nos perdem". Bento Domingues no "Público" de hoje (26-09-2010).

Afirmar pela negação

Aqueles que negam Deus assinalam-no pelos seus silêncios obstinados ou pela revolta. As negações, como outrora as blasfémias, desenham o seu rosto. O absurdo de se estar sem ele é a sua irradiação negra. Em breve os cheios e vazios do absurdo estarão tão bem definidos que desenharão um vazio que será a forma de Deus.

Jean Guitton (1901-1999)

O mundo é um navio numa viagem efémera e não completa

Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, na conversa de “A obsessão do fogo” (edição Difel), dizem a certa altura que há clássicos que nunca leram. E falam de uma das obras de Tolstoi. Talvez “Guerra e Paz” ou “Ana Karenina”. Não sei qual deles não leu o quê. Li o livro deles Verão do ano passado. Tal episódio acicatou o desejo de ler os clássicos. De ver chegar o dia em que me possa gabar: “Falta-me ler «Os Miseráveis»”.

Por isso, peguei num clássico da literatura. Aquele que começa assim: “Chamem-me Ismael”. Não foi por gostar da música de Moby (ou antes, de um disco em especial, “Play”, de "Why Does My Heart Feel So Bad?"), que é bis-bis-bisneto do autor desse livro, Herman Melville, que iniciei a leitura de “Moby Dick”. O desejo por este em concreto vinha de longe. Agustina Bessa-Luís despertara-me para este título, arrancando-lhe o rótulo "literatura juvenil". Gonçalo M. Tavares inspirou-se nele para umas histórias. E até há uma editora com o nome do capitão Ahab. Demasiados aconselhamentos, mesmo que involuntários.

Ora, a leitura de “Moby Dick” é um poço de surpresas. Naquilo que interessa a este blogue, devo dizer que são imensas as referências religiosas, bíblicas, cristãs, nas 60 páginas que já li. Tenho-as assinalado nas bordas das páginas. Deve dar uma média de duas por páginas. Um exemplo. O capítulo VIII (nos dias prévios ao embarque, Ismael entra numa capela) termina assim: “O que poderia com mais significado que isto? O púlpito é de facto a parte mais avançada da terra, tudo o resto vem depois, enquanto o púlpito precede o mundo. É no púlpito que surge a ira de Deus, é também na proa que se deve enfrentar os primeiros assaltos. É dele que, na esperança de monções favoráveis, se invoca o senhor dos ventos. Sim, o mundo é um navio numa viagem efémera e não completa. O púlpito é a proa desse navio”.

sábado, 25 de setembro de 2010

Bate em Gotti Tedeschi e flecte para Bento XVI

O Instituto para as Obras Religiosas (IOR), o Banco do Vaticano, está sob investigação das autoridades italianas devido a dois movimentos de dinheiro sem indicação dos titulares das contas e tidos como suspeitos. Ettore Gotti Tedeschi, o chefe do IOR, foi professor de Ética da Universidade Católica de Milão e é autor do livro “Denaro e paradiso. I cattolici e l’economia globale” (“Dinheiro e paraíso. Os católicos e a economia global”). Um alvo apetecível para quem quiser apontar o dedo.

Tido como liberal e próximo do Opus Dei, homem de confiança de Bento XVI, Gotti Tedeschi está à frente do Banco do Vaticano há cerca de um ano para arrumar a casa, porque, no passado – e ninguém tem dúvidas – as coisas não eram nada claras, por vezes por incompetência e velhos hábitos, mas também por fuga efectiva às melhores e mais transparentes práticas, ainda que com pias intenções como fosse a ajuda a organizações cristãs do Leste da Europa ou da América Latina contra o marxismo (faltou ajudar as outras contra as ditaduras de direita).

O livro referido, na sua reedição recente, começa com um “apaixonado prefácio do cardeal Tarcisio Bertone" e conclui com um amplo capítulo dedicado a análise da “Caritas in veritate”.

Que as suspeitas tenham surgido após a visita ao Reino Unido, quando Ettore Gotti Tedeschi (estranho nome: “Gotti”, tem raiz em “Deus”, e “tedeschi” não quer dizer “alemães”?), um homem da confiança do Papa alemão, tem feito um trabalho notável à frente do IOR, leva a pensar no que já tem sido adiantado mais à boca fechada do que às claras: mais uma tentativa para atingir Bento XVI.

A rede judaica

Mark Zuckerberg

Está para estrear o filme “A Rede Social”, sobre o Facebook e o seu fundador, Mark Zuckerberg. Em Portugal é no dia 4 de Novembro. Nos EUA é no primeiro dia de Outubro. Mark Zuckerberg é judeu. O filme é de David Fincher, que também realizou “Seven” e “Fight Club” (“Sete Pecados mortais” e “Clube de Combate”). Não sei se é judeu. Mas tem nome de judeu. O filme de David Fincher sobre Zuckerberg tem como base um livro de Ben Mezrich, “Accidental Billionaires”. Ben Mezrich é judeu. O filme do provavelmente judeu David Fincher sobre o judeu Mark Zuckerberg com base no livro do judeu Ben Mezrich tem argumento de Aaron Sorkin, que, como o nome não engana, é judeu.

Eu não tenho conta no Facebook. Mas gosto de judeus. É provável que veja o filme. Gosto de redes. Acho a judaica admirável.

Anselmo Borges: Bento XVI no Reino Unido


Contra todas as previsões, a visita de Bento XVI ao Reino Unido foi um êxito. Os próprios media britânicos foram unânimes nesse reconhecimento. Até a sua imagem pessoal saiu suavizada: já não "Rottweiler de Deus" nem um intelectual frio, mas um ancião sábio e simpático.


Porquê? Explica o teólogo José M. Castillo: "Porque, nesta viagem, o Papa não condenou nada nem ninguém. Não proibiu nem censurou. Pelo contrário, reconheceu as suas falhas, pediu perdão, mostrou-se próximo das pessoas. Fê-lo por política, diplomacia ou talvez outros interesses? Fê-lo. E basta. É isso que as pessoas esperam, é disso que as pessoas precisam. O que todos queremos que os outros tenham connosco: respeito, tolerância, humanidade, compreensão e bondade".


De qualquer modo, a figura do intelectual eminente não deixou, mais uma vez, de impressionar. "Obrigado por ter-nos feito sentar e reflectir", disse-lhe o primeiro-ministro, David Cameron, ao despedir-se no aeroporto. "Foram quatro dias incrivelmente emocionantes para o nosso país", garantindo-lhe que "foi escutado por um país de 60 milhões de cidadãos". E foi mais longe: "A fé é parte integrante do tecido do nosso país."


2. Quanto à chaga da pederastia, o Papa foi contundente, não podendo ser mais claro. Logo no avião, criticou publicamente a hierarquia católica por não ter sido "suficientemente vigilante". Reconheceu que a Igreja em geral e, nomeadamente, os bispos e a Santa Sé não foram suficientemente "vigilantes, céleres e decididos" no combate a estes "abusos vergonhosos, que minam gravemente a credibilidade dos responsáveis da Igreja".


Na catedral de Westminster, falou em "vergonha e humilhação", manifestando "profunda dor" pelo sofrimento causado às vítimas destes "crimes inqualificáveis".


Em Londres, encontrou-se com cinco dessas vítimas, dizendo-se "comovido pelo que tinham a dizer e manifestou profunda dor e vergonha pelo que elas e as suas famílias tiveram de sofrer". Assegurou que a Igreja continua a tomar medidas que sejam eficazes e a "colaborar com as autoridades civis e levar à justiça os clérigos e religiosos acusados desses crimes hediondos".


3. Ponto alto da visita foi o discurso perante políticos - para lá do actual primeiro-ministro, encontravam-se os seus antecessores Margaret Thatcher, John Major, Tony Blair e Gordon Brown -, académicos e corpo diplomático, no Westminster Hall, no lugar onde Tomás Moro foi condenado à morte por não querer renegar a sua fé católica.


Sublinhou a importância do diálogo profundo e permanente entre a razão e a fé e de relações boas entre a religião e a política.


Manifestou-se preocupado com a "marginalização crescente" da religião, nomeadamente da cristã: "Há alguns que desejam que a voz da religião seja silenciada ou pelo menos seja remetida para a esfera meramente privada." Contra o secularismo agressivo, defendeu que "a religião não é um problema que os legisladores devam solucionar, mas um contributo vital para o debate nacional".


A ética tem de ser trazida para a actividade económica. Lembrando Moro, foi ao tema essencial da fundamentação ética da vida civil, sublinhando que "se os princípios éticos que sustentam o processo democrático não se regem por nada mais sólido do que o mero consenso social, este processo apresenta-se evidentemente frágil".


4. Beatificou o Cardeal Newman, figura cimeira da cultura, convertido ao catolicismo e um dos "pais espirituais" do Concílio Vaticano II.


Carregados de simbolismo foram o abraço ao arcebispo de Cantuária e primaz da Igreja Anglicana, Rowan Williams, e a presença dos dois, lado a lado, no altar da Abadia de Westminster.

Paradoxalmente, a ordenação católica de clérigos anglicanos já casados pode alisar o caminho para o fim do celibato obrigatório. Ainda há dias, o novo bispo de Bruges (Bélgica), Jozef De Kesel, dizia: "Penso que a Igreja deve perguntar-se se convém conservar o carácter obrigatório do celibato".

Não se trocam ideias com uma ideia

Mas o Deus dos filósofos é uma ideia. Ele é útil enquanto ideias, mas não se têm conversas e não se trocam ideias com uma ideia. Pior do que isso: pode-se mudar de ideia enquanto é impossível mudar-se de Deus. Nesse sentido, esse Deus parece-me inacessível.

André Frossard (1915-1995)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O segredo para um robô não fazer melhor

Aos olhos de Deus, a acção sem a oração é inútil: um robô poderia fazer melhor do que tu.

A oração é o fundamento da vida espiritual. Quando rezas, entras em comunicação com Deus, como uma lâmpada que resplandece porque está ligada a um gerador de corrente.

Tu crês que a oração é omnipotente, não é verdade? Considera as seguintes palavras do Senhor: “Digo-vos pois: pedi e ser-vos-á dado, procurai e achareis, batei e hão-de abrir-vos” (Lc 11,9). Poderá alguma companhia de seguros dar melhor garantia do que estas palavras do Senhor?

O segredo para alimentar a vida cristã é rezar. Não acredites em quem não reza, mesmo que faça milagres.

Francisco Xavier Naguyer Van Thuan, adaptado de "O Caminho da Esperança" (ed. Paulinas)


Foi nomeado bispo de Ho Chi Minh (Saigão), Vietname, em 1975, tendo sido preso passados poucos meses. Passou 13 anos na prisão, nove dos quais em isolamento. Em 1994, foi nomeado vice-presidente e mais tarde presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz. Morreu em Roma, no dia 16 de Setembro de 2002. Está a decorrer o seu processo de beatificação.

Tony Blair: Se dissesse "Deus abençoe a Grã-Bretanha", caíam-me em cima

Estava programado para hoje o lançamento em português do livro de Tony Blair “A Journey - My Political Life”, que na Bertrand tem como título “Tony Blair – Um percurso”. Oportunidade óptima para ler este excerto da entrevista da BBC ao antigo primeiro-ministro britânico, convertido ao catolicismo depois de deixar funções políticas.

Encontrou-se com o Papa. Que efeito isso lhe produziu?

É uma pessoa muito gentil e inteligente. A qualidade da sua mente às vezes faz com que ele seja descrito como distante e frio, mas eu senti que ele é imensamente cordial e caloroso. É um grande intelectual, mas também uma pessoa simples, dotada de grande humanidade. Acho que isso ficou evidente ao longo da visita.

A sua conversão ao catolicismo, há dois anos, gerou muita discussão. Por que é que o senhor se converteu?

Foi como voltar para casa. Fui atraído pelo fato de o catolicismo ser uma religião universal, presente em todos os países. E é a religião da minha mulher e dos meus filhos. Para mim, abraçar o catolicismo não quer dizer faltar ao respeito pela religião anglicana, mas apenas encontrar a casa mais adequada para mim. Além disso, sou um defensor da comunhão entre todas as fés cristãs, assim como do diálogo com as outras fés, o que constitui o objectivo da minha fundação.

Por que esperou deixar de ser primeiro-ministro para se converter?

A decisão já estava tomada, mas, se eu tivesse feito isso durante o período em que era primeiro-ministro, os meios de comunicação social cairiam em cima de mim. Eu já tinha bastantes problemas.

O senhor recebeu uma educação religiosa?

Sim e não. Minha mãe era anglicana, mas não muito praticante. Meu pai é ateu. Depois, em Oxford, durante a universidade, um professor extraordinário fez com que eu me aproximasse da fé, permitindo-me perceber que religião e razão podem conviver. Eu tinha um desejo de religiosidade, e o encontro com aquele professor permitiu-me satisfazê-lo.

Ser católico não o coloca em contradição com as leis por si promulgadas sobre o aborto, a contracepção, a investigação científica?

Eu tenho as minhas ideias e mantenho-as também agora que sou católico. Estou certo de que muitos católicos têm ideias diferentes de algumas doutrinas da fé, mas isso não lhes impede de se definirem como tais.

Uma vez, o seu porta-voz Alastair Campbell disse que, em Downing Street, "não nos ocupamos de Deus". E o senhor mesmo, mais tarde, revelou que lhe teriam tomado por louco se soubessem que o senhor rezava e pedia o conforto do Criador.

É um problema da nossa cultura europeia. Quando Obama termina um discurso com as palavras "Deus abençoe a América", ninguém se admira. Eu também tive vontade dizer às vezes "Deus abençoe a Grã-Bretanha", mas aqui entre nós não se pode fazer isso, senão somos acusados de ser uma teocracia ou algo do género.

A fé mudou o seu modo de fazer política?

Deu-me mais coragem ao tomar certas decisões. Não é que eu vá para um canto e peça a Deus: devo aumentar o salário mínimo? A fé não te ajuda a decidir o que é certo, mas dá-te a força para decidir.

Mesmo quando a decisão é uma guerra que provoca milhares de mortos?

É uma decisão muito difícil. Mas decidir por não intervir, como na Bósnia ou na Rússia, também pode provocar milhares de mortos.

Reza com frequência?

Rezo. E leio a Bíblia. E também o Alcorão. Também o li ontem à noite. Ele ajuda-me a entender como as nossas religiões são semelhantes. O século XX foi o século dos conflitos teológicos. O século XXI corre o risco de ser o dos conflitos religiosos. Mas podemos impedir isso com o diálogo, conhecendo-nos melhor. Como essa viagem do Papa também ajuda a fazer.

Desempenho evangélico

No final do concerto:
- Maestro, como qualifica o meu desempenho ao piano?
- Eu diria que foi muito evangélico…
- Em que sentido?
- É que a sua mão direita não sabia o que fazia a esquerda.

Lido na revista “Audácia” de Outubro de 2010

Falta

O desprezo do fatalista, tendo perdido Deus, é ter perdido o seu eu. Ter falta de Deus é ter falta de mim.

Soren Kierkegaard (1813-1855)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Parar um bocadinho

Pensar República, questionar presença na sociedade

República
Communio. Revista Internacional Católica
Janeiro / Fevereiro / Março de 2010
130 páginas

Saído há um par de meses (embora com data do primeiro trimestre deste ano), a revista “Communio” tem como tema principal a “República”, mas não a aborda em exclusivo na perspectiva dos 100 anos da sua implantação em Portugal. Na verdade, mais estimulante do que evocar esse momento histórico é analisar o que significa o regime da República em algumas das suas formas históricas. Este número da “Revista Internacional Católica” pretende, pois, ser espaço para “uma reflexão sobre a República enquanto modo se pensar e organizar a colectividade humana nesse registo específico que é a experiência da cidadania”. E consegue-o em quatro ou cinco artigos, todos informativos, mas alguns especialmente polémicos e provocadores para a tal experiência da cidadania que, na perspectiva crente, adquire um sentido mais profundo ao ser iluminada pela revelação cristã (clicar na imagem para ler títulos e autores).

Exemplo dos artigos informativos são os de João Seabra e Luís Machado de Abreu, respectivamente “A «Lei da Separação» de 1911” e “Perspectivas sobre o anticlericalismo português”.

O primeiro volta à eterna questão da “Lei da Separação”, para dizer que se tratou de “uma vergonha (…) para a história democrática do país”, na medida em que a Lei “foi o instrumento principal de uma campanha política, legislativa, escolar, cultural, jornalística, por vezes militar, que tinha como objectivo erradicar o catolicismo de Portugal”. Se o artigo tivesse sido escrito depois da vinda de Bento XVI a Portugal, talvez os termos a usar fossem outrom, porque, recorde-se, o Papa afirmou o que muitos outros pensam: que a República, ainda que por linhas tortas, criou espaços de liberdade à Igreja portuguesa. Há males que vêm por bem.

O segundo traça um retrato do anticlericalismo de há 100 anos para cá, contra a ideia de que ele tenha sido “de uma peça só e não uma realidade multifacetada e complexa”.

Artigos provocadores, na medida em que obrigam a repensar comportamentos, são os de Isidro Lamelas e Luís Salgado Matos. O primeiro analisa o pensamento dos cristãos das eras pós-apostólicas para concluir sobre a impossível deserção da cidade terrena. O segundo, num artigo sobre “igrejas cristãs e revolução política”, defende que as revoluções, até à da Comuna de Paris, em 1871, são sempre assumidas e por vezes lideradas pelos cristãos. Mesmo a Francesa, de 1789 (como depois acontece a oposição é motivo para voltarmos a este assunto). No final do artigo, olhando para a actualidade, o investigador afirma que a Igreja católica, hoje, “tem a simétrica oportunidade de ser reaccionária”, não na questão social, porque defende os trabalhadores, os imigrantes, a família, quase sempre contra o Estado, mas na questão científica, por “acentuar as conclusões práticas da sua condenação das ciências da natureza”. Discutível.

Em mim e no Universo

Todos os problemas da religião se resumem finalmente num só: o Deus que se revela em mim é diferente daquele que eu adivinho no Universo. Ele revela-se como vontade ética, enquanto no Universo Ele surge-me como uma força criadora maravilhosa e misteriosa. Em mim, Ele se revela como personalidade, enquanto no Universo Ele é como uma força impessoal.

Albert Schweitzer (1875-1965)

22 de Setembro de 1701. Nasce Anna Magdalena Bach

A segunda esposa de Johann Sebastian Bach nasceu no dia 22 de Setembro de 1701. Casou com o maior músico da história no dia 3 de Dezembro de 1721, dezassete meses após a morte da primeira mulher de Bach.

Anna Magdalena foi mãe de 13 filhos Bach. Sobreviveram à infância seis, entre os quais os músicos Johann Christian e Johann Christoph Friedrich.

Para a esposa, J.S. Bach escreveu os dois volumes do “Notenbüchlein für Anna Magdalena Bach”(“Pequeno Livro de Ana Madalena Bach”), que qualquer aprendiz de piano e órgão actualmente tem de saber tocar. O livro contém músicas de Bach e outras da época que não são da sua autoria.

Hoje há quem questione se algumas das composições de Bach não serão realmente de Anna Magdalena, que faleceu no dia 22 de Fevereiro de 1760, dez anos após o marido.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Bernard-Henri Lévy: “O catolicismo é a religião mais atacada, mais do que o islão”

Excerto de uma entrevista que o espanhol “ABC” fez ao filósofo francês Bernard-Henri Lévy. Publicada no dia 19 de Setembro de 2010.

O Papa Bento XVI fez ouvir a sua voz sobre a expulsão dos ciganos e foi criticado por isso.

A voz do papa é extremamente importante. E somos muito injustos com este papa. Eu não sou católico, mas creio que há preconceitos, Sobretudo um anticatolicismo primário que está a ganhar proporções enormes na Europa. Em França, fala-se muito das violações de cemitérios judeus e muçulmanos, mas ninguém sabe que os túmulos dos católicos também são profanados habitualmente. Há uma espécie de anticlericalismo em França que não é saudável, de modo nenhum. Temos direito a criticar as religiões, mas a religião mais atacada hoje em dia é a religião católica.

Mais do que o Islão?

Muito mais. Os muçulmanos, no terreno intelectual, defendem-se. Os católicos, muito menos.

(…)

Qual a sua opinião sobre a ameaça que alguns fanáticos que querem queimar o Alcorão?

É monstruoso. Só os fascistas queimam livros. Nunca se deve queimar um livro, seja qual for. Menos ainda quando se trata de um livro com uma transcendência como a do Alcorão. Quando os muçulmanos queimavam em Londres o livro de Salman Rushdie, eu foi dos primeiros a protestar. Quando alguns cristãos queimam o Alcorão, faço exactamente o mesmo.

Ler tudo aqui.

Maquiavel e Savonarola

Maquiavel

Sempre me intrigou o encontro entre os grandes espíritos da história. O que dizem? Cumprimenta-se? Falam do estado do tempo? O que disse Descartes quando se cruzou com Pascal? Ninguém sabe. Mas há outros de que se sabe.

Um dos célebres encontros foi entre Napoleão e Goethe. O imperador queria que o poeta cantasse os seus feitos, como Virgílio cantara os de Augusto. E disse a Goethe, quando o viu, lisonjeador: “Eis um homem!” Goethe torceu o nariz. Este encontro foi no dia 2 de Outubro de 1808 em Erfurt.

Erfurt, por seu turno, é uma cidade ligada a Lutero. Foi lá que o reformador frequentou a universidade. E foi lá que ingressou na ordem dos agostinianos, no dia 17 de Julho de 1505 (aqui). Na altura, desfez-se de todos os seus livros excepto os de Virgílio. Mas isto foi mais de três séculos antes. Ontem lembrei aqui Lutero a propósito da tentativa de reforma do frade Savonarola. Deveria ter evocado antes Maquiavel. É que o autor de “O Príncipe”, então com 29 anos, assistiu à morte de Savonarola por enforcamento seguida de incineração do seu corpo (para que não houvesse tentativas de ressurgimento do movimento do frade dominicano à volta da sepultura).

Alguém observou que Maquiavel (1469-1527) é contemporâneo de Leonardo de Vinci (1452-1519) e Miguel Ângelo (1457-1564), com quem se deve ter cruzado na mesma cidade, mas nunca os refere nos seus escritos. Já Savonarola influenciou as ideias políticas de Maquiavel. Mais do que isso. O fim de Savonarola deu trabalho a Maquiavel. Uns dias depois do fim do governo demo-teocrático do frade, e com a deposição dos sequazes que sobrevivem, Maquiavel é nomeado secretário da Segunda Chancelaria, posto que ocupará por 14 anos e lhe possibilitará viagens diplomáticas e conhecimentos que depois integrará na sua obra maior, escrita em 1513 e publicada em 1532.

Sobre Savonarola, Maquiavel escreve numa carta que é um “profeta desarmado que nada pode contra a força”. George Mounin explica que a experiência governativa de Savonarola (que aceita que lhe dêem o poder depois de muito criticar os Médici) “é um dos grandes acontecimentos políticos a que assistirá” (“Maquiavel”, Edições 70, pág, 12).

Como reagiu o iniciador do pensamento político moderno? Mounin adianta: “Ouve Savonarola, como observador que relata, quase como um indicador, pois possuímos uma longa carta sua, de 8 de Março de 1497, a Ricardo Bechi, embaixador de Florença em Roma – um relatório pormenorizado onde Maquiavel menciona com agrado as diatribes contras os padres e o papa e indica friamente que o Frater «utiliza habilmente as circunstâncias e sabe bem disfarçar os seus embustes». Maquiavel fez decerto parte daqueles florentinos que faziam denúncias a Roma e que, por mais de uma vez, Savonarola acusou do alto do púlpito. Mesmo se, mais tarde, e em atenção a certos círculos florentinos cujas graças queria conservar, Maquiavel amenizou os seus juízos acerca do Frater, não é possível tomá-lo como um adepto de Savonarola”.

Também gosto

E ninguém lhe faz uma OPA?

No "Correio da Manhã" de hoje (e em toda a outra imprensa), notícias das suspeitas sobre o Instituto para as Obras Religiosas (IOR), o chamado Banco do Vaticano. A questão que fica sempre é: É mesmo preciso o Vaticano ter um banco? Dizem que sim. Razões de Estado, de independência, de representatividade nas instâncias internacionais, que justificam igualmente a existência de um Estado do Vaticano.

Nem presunção nem enfermidade

Eu não gosto daqueles que falam de Deus como de um valor seguro. Também não gosto daqueles que falam dele como se fosse uma enfermidade da inteligência.

Christian Bobin (1951 -...)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

21 de Setembro de 1452. Nasce Girolamo Savonarola

Savonarola (Ferrara, 21 de Setembro de 1452 – Florença, 23 de Maio de 1498) ouviu um sermão de um monge agostiniano (como Lutero também viria a ser) e resolveu renunciar ao mundo e entrar para a ordem dominicana em Bolonha. Isto aconteceu-lhe aos 22 anos. Convenceu-se então de que o mundo e a Igreja estavam em decadência e concentrou-se em práticas ascéticas. Em 1481 ou 1482 foi enviado para Florença, onde imperavam os Médici e florescia a cultura clássica, que muitos conotavam com o paganismo.

Savonarola pregava na Igreja de S. Marcos com tanto sucesso que passado algum tempo, denunciando a tirania de Lorenzo Médici e a degradação dos costumes, consegue instaurar uma democracia teocrática (Cristo era o rei de Florença) alicerçada nas suas ideias – incluindo a queima de livros perniciosos.

O Papa Alexandre VI, pouco amante de ascetismo, como é sabido, chama o frade a Roma, mas este desobedece. Savonarola queria renovar toda a cristandade, e principalmente Roma, a partir de Florença e com o apoio de outros monarcas europeus. Entretanto, a oposição em Florença cresce, impulsionada também por franciscanos, e o mosteiro de São Marcos é assaltado. Savonarola é acusado de heresia e condenado no dia 22 de Maio de 1498. Morre no dia seguinte, enforcado. O seu corpo, com os de outros dois frades, são queimados na Piazza della Signoria. Entretanto, na Alemanha, o jovem Martinho Lutero tem quase 15 anos.

Tornai belas as vossas vidas

O dia em que o Papa abalou os alicerces do mito protestante da Grã-Bretanha

Texto de Damian Thompson publicado nos blogues do Telegraph (aqui), traduzido para português do Brasil por Moisés Sbardelotto (aqui) e reproduzido agora com pequenas adaptações. É um dos muitos que por estes dias têm surgido na imprensa algo-saxónica de estupefacção (positiva) pela visita de Bento XVI.


Como é estranho que tenha sido o jornal “The Guardian” [diário britânico conotado com a esquerda] a compreender a magnitude do que aconteceu nesta sexta-feira [18 de Setembro]. Andrew Brown, editor de religião e possuidor de um intelecto tão poderoso e confuso como o de Rowan Williams [arcebispo de Cantuária, primaz anglicano], escreve:

“Este foi o fim do Império Britânico. Em todos os quatro séculos de Isabel I a Isabel II, a Inglaterra foi definida como uma nação protestante. Os católicos eram os Outros, às vezes terroristas violentos e rebeldes, às vezes meros imigrantes sujos. A sensação de que esta era uma nação especialmente abençoada por Deus surgiu a partir de uma leitura profundamente anticatólica da Bíblia. No entanto, ela foi central para a autocompreensão inglesa quando a rainha Isabel II foi coroada em 1952 [sic], e jurou defender a religião protestante pela lei estabelecida.

Em todos esses 400 e tal anos, teria sido impensável que um Papa pudesse estar no Westminster Hall e louvar Sir Tomás Moro, que morreu para defender a soberania do Papa contra a soberania do rei. A rebelião contra o Papa foi o acto fundacional do poder inglês. E agora esse poder foi-se, e talvez a rebelião também”.

Esse foi, realmente, um dia de eventos impensáveis. Muitos protestantes ficaram perturbados ao ver o Papa Bento XVI no Westminster Hall louvando São Tomá Moro (que aliás morreu para defender o que ele via como a soberania de Deus). Eu não concordo, no entanto, que a rebelião contra o Papa foi o “acto fundacional do poder inglês”. Brown é um agnóstico de esquerda de quem esperamos que desconfie de um mito nacional.

Mas aqui vamos nós de novo – contaram-nos que a Inglaterra descobriu a sua identidade como resultado da Reforma. Na verdade, a indústria e a cultura inglesas floresceram sob o patrocínio espiritual de Roma. Se o país tivesse permanecido católico, elas teriam continuado a florescer. (Na Alemanha, cidades que permaneceram católicas eram tão prósperas quanto as que se tornaram protestantes).

Na verdade, se quisermos provas da autoconfiança da nossa identidade nacional católica, procuremos na Abadia de Westminster e no Westminster Hall. Pelo menos nos primeiros 500 anos da sua existência – não podemos ter certeza de quando foi fundada – , a Abadia foi obediente aos antecessores de Bento XVI.

Assim, o facto de o Papa entrar hoje [dia 18 de Setembro] na Abadia foi uma afirmação do seu próprio "acto fundacional". Não foi por acaso que ele apontou no seu discurso que a Igreja era dedicada a São Pedro. Mesmo os católicos que nunca seriam tão rudes ao ponto de dizerem "a Abadia pertence-nos a nós, não a vocês" sentiram que a história estava a ser de alguma forma reequilibrada. Eles perceberam que o Papa tinha tanto direito de se sentar nesse santuário quanto o arcebispo de Cantuária (que, na verdade, mostrou ao Santo Padre um grau de respeito que implicava que ele, pelo menos, reconhecia a primazia espiritual da Sé de Pedro mesmo que rejeite alguns de seus ensinamentos).

É claro que eu não estou a negar que durante séculos o anticatolicismo foi central para a autocompreensão inglesa, mesmo que tenha levado quase um século de ataques e de perseguições para suprimir a velha religião. E ainda há bolsas de intenso ódio a Roma na sociedade inglesa de hoje. A diferença é que os únicos anticatólicos com influência são os secularistas que não estão suficientemente interessados nas reivindicações papais ao ponto de descobrirem o que significam. (Estou a pensar no documentário surpreendentemente ignorante de Peter Tatchell para o Channel 4). Eles odeiam a religião e atormentam os católicos, porque são o alvo mais frágil.

Os anticatólicos protestantes, em contrapartida, não têm amigos nos meios de comunicação social nem aliados úteis na Igreja da Inglaterra Tudo o que eles podem fazer é ver, horrorizados, como o Papa de Roma entra em procissão onde os monarcas protestantes são coroados, declara sem ambiguidades que é ele o sucessor de São Pedro, com responsabilidade pela unidade da Cristandade, e depois sai – sob um afectuoso aplauso.

Na verdade, ainda não estou completamente certo do que fazer com tudo isso. Os discursos de Bento XVI valem a pena ser lidos várias vezes. Muitas vezes acabam por ser mais radicais do que pareceram à primeira vista. Mas uma coisa é certa. Apesar da cortesia despretensiosa dos modos do Papa, ele não cedeu um milímetro.

Para quando a primeira cardeal?

É inovação do Papa a nomeação de cardeal de um bispo auxiliar? O Papa Francisco disse no domingo que vai fazer cinco novos cardeais. Um de...