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domingo, 14 de setembro de 2014

Bento Dominguues: "O desterro da teologia"

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje,

Se a teologia foi “desterrada” da cultura moderna é por ter sido considerada inimiga da razão, da filosofia e de todos os modos de criatividade humana. Nas Igrejas, ao ser instrumentalizada pelo poder eclesiástico, perdeu o carácter de instância da liberdade da fé e das suas expressões mais genuínas. O autoritarismo desvirtuou a sua função na Igreja e tornou-a incapaz de dialogar com a sociedade, de a fecundar e ser fecundada por ela.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Deserto


O teólogo norte-americano Adam Kotsko diz que “Zisek ainda não encontrou um interlocutor teológico que possa desafiá-lo de uma maneira produtiva”. E ainda: “Espero que alguém se levante para preencher esse papel, porque é muito raro que um filósofo contemporâneo tenha qualquer interesse na teologia contemporânea”. Pois. Mas quem? Com Milbank, anglicano, a coisa foi mais dois monólogos paralelos do que diálogo. Com o reformado Moltmann? E os teólogos católicos da contemporaneidade? Onde estão eles? Entrevista dom Adam Kotsko aqui.

Sobre Zizek, ainda muito na moda, há algumas coisas por aqui.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Qual o conhecimento que mais implica o conhecedor?

Andando e ler a "Lumen Fidei", intermitentemente e ao sabor de outras intenções que não o puro gosto em ler o documento do princípio ao fim, encontro este ponto que responde àquela velha questão de se se pode ser teólogo sem ser crente (negrito meu):
36. Como luz que é, a fé convida-nos a penetrar nela, a explorar sempre mais o horizonte que ilumina, para conhecer melhor o que amamos. Deste desejo nasce a teologia cristã; assim, é claro que a teologia é impossível sem a fé e pertence ao próprio movimento da fé, que procura a compreensão mais profunda da autorrevelação de Deus, culminada no Mistério de Cristo. A primeira consequência é que, na teologia, não se verifica apenas um esforço da razão para perscrutar e conhecer, como nas ciências experimentais. Deus não pode ser reduzido a objeto; Ele é Sujeito que Se dá a conhecer e manifesta na relação pessoa a pessoa. A fé reta orienta a razão para se abrir à luz que vem de Deus, a fim de que ela, guiada pelo amor à verdade, possa conhecer Deus de forma mais profunda.
Esta passagem beneditino-franciscana levou-a a reler um texto de 1989, de grande Martín Descalzo (1930-1991):
Conhecê-lo não é uma curiosidade. É muito mais do que um fenómeno de cultura. É algo que põe em jogo a nossa existência. Porque com Jesus não ocorre como com outras personagens da história. Que César passasse o Rubicão ou não, é um feito que pode ser verdade ou mentira, mas que nada muda o sentido da minha vida. Que Carlos V fosse imperador da Alemanha ou da Rússia, nada tem que ver com a minha salvação como ser humano. Que Napoleão morresse derrotado em Elba ou que tivesse chegado imperador ao fim dos seus dias, não moverá um único ser humano a deixar a sua casa, a sua comodidade e o seu amor e pôr-se a falar dele numa aldeola no coração de África. 
Mas Jesus não, Jesus exige respostas absolutas. Ele a assegura que, crendo nele, o ser humano salva a sua vida e, ignorando-o, a perde. Este homem apresenta-se como “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Portanto – se isto for verdade –, o nosso caminho e a nossa vida mudam segundo a nossa resposta à pergunta sobre a sua pessoa. 
E como responder-lhe sem conhecê-lo, sem se ter aproximado da sua história, sem contemplar os segredos da sua alma, sem ter lido e relido as suas palavras?

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Belo texto

Estou a ler, aos pouquinhos, como quase tudo ultimamente, a "Lumen fidei", a encíclica de Bento XVI, perdão, Francisco. Só agora. Devido à dupla paternidade, está a passar despercebida, parece-me. Não me recordo de Francisco a ter citado, como costumava ser normal nos discursos papais. Nem se vêm por aí grandes incentivos à sua leitura. Nem os bispos a citam como costumam citar outros documentos papais recém-aparecidos. Mas é um belo texto. (Vou entrar no terceiro capítulo.) Indispensável para quem pensa sobre fé, razão, verdade, teologia, Igreja. Para pôr bem juntinho à "Fides et ratio". Que, afinal, teve como principal redator o mesmo Ratzinger.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Uma teologia que não seja eclesial é...

Uma teologia que não seja eclesial é de aventureiros da inteligência, não de servidores do Altíssimo preocupados com a salvação dos homens...

Bruno Forte

domingo, 29 de setembro de 2013

O Papa das frases coordenadas sucede ao das subordinadas

Diz o cardeal Ravasi que enquanto Bento XVI usava mais frases subordinadas, Francisco usa mais coordenadas. 

Por outras palavras, Bento era mais "que", já Francisco é mais "e". Compreende-se. Um era da escrita; o outro, da oralidade. Um era mais racional; o outro é mais emotivo. O primeiro era mais tímido; o de agora é mais expansivo. Onde um hesitava, o outro é mais direto. Um preferia livros, o outro prefere pessoas. Bento era o intelectual, preferido de professores, filósofos e jornalistas; Francisco é o pastor, preferido de cidadãos em geral, políticos e ateus hesitantes.

Quando Bento foi eleito, comentei com amigos que era um erro eleger um intelectual para Pastor da orbe. Bento nem se saiu mal e eu emendei-me, continuando, no entanto, a criticar a ratzingerização da teologia. Quanto a Francisco, só lhe peço que não faça teologia, coisa que deve estar bem longe dos seus planos. Outros a farão a partir do que ele diz e faz.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A resposta de Bento XVI a Odifreddi no "La Repubblica"


Esta é a resposta de Bento XVI a Odifreddi, no "La Repubblica" de ontem. (Que bom! Um texto emeritopapal para pensar). O texto será publicado na íntegra num novo livro do matemático ateu. Vale a pena ler. Há muito mais - e mais interessante - do que o que ontem aqui referi, como comentou um leitor. Copiei-o do Unisinos (Brasil). Parece que não sabem que Magellan é Magalhães e acrescentei uns subtítulos para identificar os assuntos.
Ilustríssimo Senhor Professor Odifreddi, (...) gostaria de lhe agradecer por ter tentado até o último detalhe se confrontar com o meu livro e, assim, com a minha fé; é exatamente isso, em grande parte, que eu havia intencionado com o meu discurso à Cúria Romana por ocasião do Natal de 2009. Devo agradecer também pelo modo leal como tratou o meu texto, buscando sinceramente prestar-lhe justiça. 
O meu julgamento acerca do seu livro, no seu conjunto, porém, é em si mesmo bastante contrastante. Eu li algumas partes dele com prazer e proveito. Em outras partes, ao invés, me admirei com uma certa agressividade e com a imprudência da argumentação. (...)
Teologia não é ficção científica 
Várias vezes, o senhor me aponta que a teologia seria ficção científica. A esse respeito, eu me admiro que o senhor, no entanto, considere o meu livro digno de uma discussão tão detalhada. Permita-me propor quatro pontos a respeito de tal questão:

1. É correto afirmar que "ciência", no sentido mais estrito da palavra, só a matemática o é, enquanto eu aprendi com o senhor que, mesmo aqui, seria preciso distinguir ainda entre a aritmética e a geometria. Em todas as matérias específicas, a cientificidade, a cada vez, tem a sua própria forma, segundo a particularidade do seu objeto. O essencial é que ela aplique um método verificável, exclua a arbitrariedade e garanta a racionalidade nas respectivas modalidades diferentes.

2. O senhor deveria ao menos reconhecer que, no âmbito histórico e no do pensamento filosófico, a teologia produziu resultados duradouros.
Teologia e razão 
3. Uma função importante da teologia é a de manter a religião ligada à razão, e a razão, à religião. Ambas as funções são de essencial importância para a humanidade. No meu diálogo com Habermas, mostrei que existem patologias da religião e – não menos perigosas – patologias da razão. Ambas precisam uma da outra, e mantê-las continuamente conectadas é uma importante tarefa da teologia.
Ficção nas ciências 
4. A ficção científica existe, por outro lado, no âmbito de muitas ciências. Eu designaria o que o senhor expõe sobre as teorias acerca do início e do fim do mundo em Heisenberg, Schrödinger, etc., como ficção científica no bom sentido: são visões e antecipações para chegar a um verdadeiro conhecimento, mas são, justamente, apenas imaginações com as quais tentamos nos aproximar da realidade. Além disso, existe a ficção científica em grande estilo, exatamente dentro da teoria da evolução também. O gene egoísta de Richard Dawkins é um exemplo clássico de ficção científica. O grande Jacques Monod escreveu frases que ele mesmo deve ter inserido na sua obra seguramente apenas como ficção científica. Cito: "O surgimento dos vertebrados tetrápodes (...) justamente tem sua origem do fato de que um peixe primitivo 'escolheu' ir a explorar a terra, sobre a qual, porém, ele era incapaz de se deslocar, exceto saltitando desajeitadamente e criando, assim, como consequência de uma modificação do comportamento, a pressão seletiva graças à qual se desenvolveriam os membros robustos dos tetrápodes. Entre os descendentes desse audaz explorador, desse Magellan da evolução, alguns podem correr a uma velocidade de 70 quilômetros por hora..." (citado segundo a edição italiana de Il caso e la necessità, Milão, 2001, p. 117ss.).
Clero e pedofilia 
Em todas as temáticas discutidas até agora, trata-se de um diálogo sério, para o qual eu – como já disse repetidamente – sou grato. As coisas são diferentes no capítulo sobre o sacerdote e a moral católica, e ainda diferentes nos capítulos sobre Jesus. Quanto ao que o senhor diz sobre o abuso moral de menores por parte de sacerdotes, eu só posso reconhecer – como o senhor sabe – com profunda consternação. Eu nunca tentei mascarar essas coisas. O fato de que o poder do mal penetra a tal ponto no mundo interior da fé é para nós um sofrimento que, por um lado, devemos suportar, enquanto, por outro, devemos, ao mesmo tempo, fazer todo o possível para que casos desse tipo não se repitam. Também não é motivo de conforto saber que, segundo as pesquisas dos sociólogos, a porcentagem dos sacerdotes réus desses crimes não é mais alta do que a presente em outras categorias profissionais semelhantes. Em todo caso, não se deveria apresentar ostensivamente esse desvio como se se tratasse de uma imundície específica do catolicismo.
Mal e bem na Igreja 
Se não é lícito calar sobre o mal na Igreja, também não se deve silenciar, porém, sobre o grande rastro luminoso de bondade e de pureza, que a fé cristã traçou ao longo dos séculos. É preciso lembrar as figuras grandes e puras que a fé produziu – de Bento de Núrsia e a sua irmã Escolástica, Francisco e Clara de Assis, Teresa de Ávila e João da Cruz, aos grandes santos da caridade como Vicente de Paulo e Camilo de Lellis, até a Madre Teresa de Calcutá e as grandes e nobres figuras da Turim do século XIX. Também é verdade hoje que a fé leva muitas pessoas ao amor desinteressado, ao serviço pelos outros, à sinceridade e à justiça. (...)
O método histórico-crítico, Jesus e a sua historicidade 
O que o senhor diz sobre a figura de Jesus não é digno do seu nível científico. Se o senhor põe a questão como se, no fundo, não soubesse nada de Jesus e como se d'Ele, como figura histórica, nada fosse verificável, então eu só posso lhe convidar de modo decidido a tornar-se um pouco mais competente do ponto de vista histórico. Recomendo-lhe, para isso, sobretudo os quatro volumes que Martin Hengel (exegeta da Faculdade de Teologia Protestante de Tübingen) publicou juntamente com Maria Schwemer: é um exemplo excelente de precisão histórica e de amplíssima informação histórica. Diante disso, o que o senhor diz sobre Jesus é um falar imprudente que não deveria repetir. O fato de que na exegese também foram escritas muitas coisas de escassa seriedade é, infelizmente, um fato indiscutível. O seminário norte-americano sobre Jesus que o senhor cita nas páginas 105ss. só confirma mais uma vez o que Albert Schweitzer havia notado a respeito da Leben-Jesu-Forschung (Pesquisa sobre a vida de Jesus), isto é, que o chamado "Jesus histórico" é, em grande parte, o espelho das ideias dos autores. Tais formas mal sucedidas de trabalho histórico, porém, não comprometem, de fato, a importância da pesquisa histórica séria, que nos levou a conhecimentos verdadeiros e seguros sobre o anúncio e a figura de Jesus. 
(...) Além disso, devo rejeitar com força a sua afirmação (p. 126) segundo a qual eu teria apresentado a exegese histórico-crítica como um instrumento do anticristo. Tratando o relato das tentações de Jesus, apenas retomei a tese de Soloviev, segundo a qual a exegese histórico-crítica também pode ser usada pelo anticristo – o que é um fato incontestável. Ao mesmo tempo, porém, sempre – e em particular no prefácio ao primeiro volume do meu livro sobre Jesus de Nazaré – eu esclareci de modo evidente que a exegese histórico-crítica é necessária para uma fé que não propõe mitos com imagens históricas, mas reivindica uma historicidade verdadeira e, por isso, deve apresentar a realidade histórica das suas afirmações de modo científico também. Por isso, também não é correto que o senhor diga que eu estaria interessado somente na meta-história: muito pelo contrário, todos os meus esforços têm o objetivo de mostrar que o Jesus descrito nos Evangelhos também é o Jesus histórico real; que se trata de história realmente ocorrida. (...)
Deus, liberdade, amor e mal 
Com o 19º capítulo do seu livro, voltamos aos aspectos positivos do seu diálogo com o meu pensamento. (...) Mesmo que a sua interpretação de João 1, 1 seja muito distante da que o evangelista pretendia dizer, existe, no entanto, uma convergência que é importante. Se o senhor, porém, quer substituir Deus por "A Natureza", resta a questão: quem ou o que é essa natureza. Em nenhum lugar, o senhor a define e, assim, ela parece ser uma divindade irracional que não explica nada. Mas eu gostaria, acima de tudo, de fazer notar ainda que, na sua religião da matemática, três temas fundamentais da existência humana continuam não considerados: a liberdade, o amor e o mal. Admiro-me que o senhor, com uma única referência, liquide a liberdade que, contudo, foi e é o valor fundamental da época moderna. O amor, no seu livro, não aparece, e também não há nenhuma informação sobre o mal. Independentemente do que a neurobiologia diga ou não diga sobre a liberdade, no drama real da nossa história ela está presente como realidade determinante e deve ser levada em consideração. Mas a sua religião matemática não conhece nenhuma informação sobre o mal. Uma religião que ignore essas questões fundamentais permanece vazia.
Franqueza que ajuda o conhecimento a crescer 
Ilustríssimo Senhor Professor, a minha crítica ao seu livro, em parte, é dura. Mas a franqueza faz parte do diálogo; só assim o conhecimento pode crescer. O senhor foi muito franco e, assim, aceitará que eu também o seja. Em todo caso, porém, avalio muito positivamente o fato de que o senhor, através do seu contínuo confronto com a minha Introdução ao cristianismo, tenha buscado um diálogo tão aberto com a fé da Igreja Católica e que, apesar de todos os contrastes, no âmbito central, não faltem totalmente as convergências.

Com cordiais saudações e com todos os melhores votos para o seu trabalho.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Teologia e espiritualidade

Diz Bruno Forte, "parafraseando Kant, uma teologia sem espiritualidade corre o risco de ser vazia, uma espiritualidade sem teologia corre o risco de ser cega" (pág. 102 de "Uma teologia para a vida").

Fica a mensagem. Mas não era Einstein que dizia: "A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega"?

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Bruno Forte: "Uma teologia para a vida"


O livro que me tem acompanhado nos últimos dias (e que fez com que a revisão do carro custasse menos a passar, por exemplo). É uma boa introdução à teologia. Sobre alguns pontos, inclusive de discordância, havemos de falar em breve. Informação da editora Paulus:

Num estilo de livro-entrevista com o escritor Marco Roncalli, Bruno Forte põe em relação fé e história, teologia e filosofia, reflexão e ação pastoral, religião e estética, educação e vida quotidiana. Um livro que apresenta a busca de Deus no nosso tempo, a crise da pós-modernidade, o confronto entre identidade e diálogo, a religião, a globalização, o futuro do Cristianismo. Temas que fazem parte da vida de crentes e não crentes.

sábado, 18 de maio de 2013

Anselmo Borges: "Identidade narrativa, a ética, a Europa e a esperança"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje. Aqui.

Se fosse vivo, teria feito 100 anos no passado dia 27 de Fevereiro. É um dos maiores filósofos do século XX, que "se tornou filósofo para se não tornar esquizofrénico".

Refiro-me a Paul Ricoeur, sendo o que aí fica, evitando tecnicismos, uma homenagem ao grande pensador humanista e cristão, que também influenciou a teologia, com a hermenêutica.

1. Pergunta nuclear da filosofia é: o que é o Homem?, quem sou eu? Ora, não se pode duvidar do facto de que eu sou; mas quem sou, o que é que eu sou: isso é duvidoso. O Homem não é transparente a si próprio. Para chegar a si mesmo, tem de fazer um grande desvio de interpretação, passando pelas obras da cultura: a literatura, as artes, as religiões, as ciências naturais - no quadro das neurociências, em diálogo com J.-P. Changeux, fez questão de acentuar a distinção fundamental entre o conhecimento científico e a experiência vivida: o sujeito não é redutível a dados empíricos -, as ciências humanas... É mediante esse percurso que o Homem vem a si próprio; reconhece-se, narrando a sua própria história, sempre aberta e em transformação. A identidade humana é narrativa.

2. A ética ocupa lugar central no pensamento ricoeuriano. É famoso, neste campo, o seu triângulo ético: a ética é "o desejo da "vida boa" com e para outrem em instituições justas". Tudo arranca do desejo: o esforço de existir, a capacidade de querer e agir, ser. Mas "eu" (primeira pessoa) não sou sem o outro, sem o "tu" (segunda pessoa), que me solicita: "O outro é meu semelhante. Semelhante na alteridade, outro na semelhança." O encontro, porém, dá-se no contexto de um "ele", "ela" (terceira pessoa), que remete para o impessoal e institucional (instituições justas).

3. A sua filosofia está profundamente enraizada. Di-lo também um texto sobre a Europa, numa entrevista de 1997, agora publicada pela "Philosophie Magazine": "Estamos em guerra económica. É um problema muito perturbador, sobre o qual nunca tinha dito nada. É hoje o problema de toda a Europa ocidental. Onde, para sobrevivermos, devemos manter uma ética e uma política da solidariedade. O combate a travar tem duas frentes: por um lado, as nossas economias têm de permanecer competitivas; por outro, não podem perder a alma - o seu sentido da redistribuição e da justiça social. Um problema enorme, quase tão difícil de resolver como a quadratura do círculo...
Ainda não acabámos com a herança da violência e da última guerra. Nem com a dureza e a brutalidade do sistema capitalista, que deu KO ao comunismo, ficando sem rival. É hoje a única técnica de produção de riqueza, mas com um custo humano exorbitante. As desigualdades, as exclusões são insuportáveis.
Estou um pouco tentado por uma solução que se poderia dizer cínica. Pode causar-lhe espanto da minha parte, mas enquanto este sistema não tiver produzido efeitos insuportáveis para um grande número, continuará o seu caminho, pois não tem rival... Penso que vamos conhecer na Europa ocidental uma travessia no deserto extremamente dura. Porque já não somos capazes de pagar o preço que os mais pobres do que nós pagam. A ascensão das jovens economias asiáticas, concretamente a da China, supõe um custo que seremos incapazes de suportar. Não só não queremos isso, mas não devemos fazê-lo. Não vamos voltar aos tempos do trabalho infantil!... É por isso que eu sou tão fortemente pró-europeu; só uma economia de grande dimensão permitirá à Europa sair disto."

4. "O Homem é a Alegria do Sim na tristeza do finito." Ricoeur sabe da finitude e do mal e da violência e da morte. Mas, em primeiro lugar, há a vida e o seu esforço de ser: "a morte não é eu como a vida, é sempre a estrangeira." Aqui, radica a esperança como sentimento fundamental: "a esperança diz: o mundo não é a pátria definitiva da liberdade; consinto o mais possível, mas espero ser libertado do terrível." Assim, na última página da sua última grande obra: La Mémoire, l"Histoire, l"Oubli (2000), publicada aos 87 anos, deixou este texto que dá que pensar e que assinou pelo próprio punho: "Sob a história, a memória e o esquecimento. Sob a memória e o esquecimento, a vida. Mas escrever a vida é uma outra história. Inacabamento. Paul Ricoeur."

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Definição de teologia

Harold Wilson, um teórico da "teologia"

Por um motivo que não interessa para o caso - mas eu explico: do outro lado do Atlântico, um leitor pergunta-me se tenho o livro "Nisso não acredito", de John A. T. Robinson, aqui referido - , abro o livro do bispo anglicano numa página dobrada e leio:
Há alguns anos, Mr. Gaitskell propôs uma revisão das famosa Cláusula Quatro (sobre a nacionalização) da constituição do Partido Trabalhista.
Wilson, que se lhe opôs, apelidou isso tudo de «teologia» - afirmações teóricas acerca de coisas que não fazem nenhuma diferença na ordem prática.
É a reputação que tem a «teologia».
Cá está uma boa definição de teologia  para começar a debater o que realmente ela é.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

10 de maio. Hoje é dia de S. Karl Barth

"Karl Barth" por Oliver Crisp

Karl Barth nasceu no dia 10 de maio de 1886, em Basileia, na Suíça. É o teólogo protestante, da Igreja Reformada, que mais teólogos católicos gostariam que fosse católico. Alguns de facto tentaram aproximá-lo do catolicismo. Mas ele, bem dentro do espírito luterano-calvinista dizia que nunca poderia aceitar essa coisa da analogia do ser (analogia entis). De facto, nás achamos que há pontes, alçapões que fazem sonhar o absoluto. Eles acham que o abismo é intransponível e que só a graça nos vale. Nós também acreditamos nisso, porque saber isso é a principal analogia (intelig)entis.

domingo, 5 de maio de 2013

Kierkgaard. 200 anos de angústia, desespero e fé

Kierkgaard nasceu há 200 anos. Gostava de assinalar a data com algo original, mas tal não me será possível hoje. Fiquemos com o que sobre Kierkgaard já foi escrito neste blogue.

domingo, 31 de março de 2013

Bento Domingues: "A vida triunfa da morte"

Bento Domingues no "Público" de hoje:


Se para afirmar Deus fosse preciso sacrificar o ser humano, Deus estaria condenado e o ateísmo justificado. Deus, acolhido e celebrado como fonte de vida, foi acusado, na modernidade, de roubar a liberdade, a criatividade e a felicidade ao ser humano. O teólogo não pode recusar a participação numa investigação pluridisciplinar, capaz de apurar as responsabilidades das religiões, das igrejas e da cegueira humana, nessa acusação. A crítica das práticas e representações alienantes da religião pertence ao seguimento de Jesus Cristo. Não há discipulado sem a democratização desta atitude na Igreja.

Crítica não é má língua esterilizante. Para conceber e experimentar novos caminhos e expressões que assumam a tradição no seio da criatividade multifacetada de cada época, ou nos seus desvarios, é indispensável discernimento. Só um Deus de puro amor pode ajudar a humanidade a ser humana.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Óculos

A leitura que fazemos da vida de Jesus está muito condicionada pela perspetiva da morte e ressurreição e pela interpretação dogmática que se impôs no séc. IV.

Juan Antonio Estrada na pág. 131 de "Quem foi, quem é Jesus Cristo?" (ed. Gradiva)

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Segunda parte da entrevista a José Tolentino Mendonça

Segunda parte da entrevista da "2" a José Tolentino Mendonça. Dois leitores disseram, e agradeço-lhes a indicação, que a entrevista pode ser lida no sítio do SNPC, aqui.




quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Tradicionalistas, estudem latim – pede o cardeal Ravasi



O Cardeal Ravasi pede aos tradicionalistas para estudarem latim. Imagino que ele considera que o latim é uma bandeira dos tradicionalistas e é claro que sabe que alguns não tradicionalistas podem interpretar a promoção do latim "como um exercício que busca voltar ao velho, ao obsoleto". Por isso, além de esclarecer o porquê da incentivo do latim (por questões de herança e de cultura) afirma: «Acima de tudo, comecemos por pedir aos chamados “tradicionalistas” que voltem a estudar o latim, porque muitas vezes eles querem que as missas sejam em latim, mas provavelmente conhecem pouco a língua. Tive a experiência com alguns que, apesar de celebrar com força o rito da missa ou da liturgia em latim, não conseguiam decifrar alguns pontos precisos da língua». Realmente, para alguns, basta um livrinho com latim de um lado e português do outro (mas se é para compreender, porque não missa em português e um livrinho com tradução em latim?). 

Copiei daqui a seguinte entrevista.

Instituída no dia 10 de novembro com a carta apostólica “Latina Língua”, a academia tem como objetivo principal “oferecer um conhecimento maior e um uso mais competente da língua latina, tanto no âmbito eclesial como no mais vasto mundo da cultura”. Em entrevista ao Vatican Insider, o próprio Ravasi explicou os alcances reais desta iniciativa.
Qual é o significado da criação desta Pontifícia Academia Latinitatis?
Não queremos somente recuperar a grande herança do passado composta de cultura, literatura, pensamento, teologia e filosofia expressada em latim, queremos que o latim retorne, sobretudo, aos seminários, para que os seminaristas possam ter a possibilidade de compreender no texto original os documentos fundamentais e talvez alguma página dos padres da Igreja. Por outro lado, queremos também que nas escolas de todos os países do mundo o latim seja recuperado, porque permite compreender a cultura contemporânea já que sua estrutura – embora conhecida em seus componentes básicos – é uma ajuda para bem pensar, refletir e raciocinar com qualidade.
Como evitar que isto seja considerado como um exercício que busca voltar ao velho, ao obsoleto?
Acima de tudo, comecemos por pedir aos chamados “tradicionalistas” que voltem a estudar o latim, porque muitas vezes eles querem que as missas sejam em latim, mas provavelmente conhecem pouco a língua. Tive a experiência com alguns que, apesar de celebrar com força o rito da missa ou da liturgia em latim, não conseguiam decifrar alguns pontos precisos da língua.
 Como é evidente, a cultura ocidental, sobretudo aquela dos idiomas europeus mediterrâneos, foi fundada sobre o latim. Algo similar ocorre com o direito e a linguagem científica, ainda hoje os nomes dos fármacos, por exemplo, derivam dessa língua morta. A cultura nobre em geral tem necessidade do latim para compreender o significado profundo de algumas palavras da própria linguagem. Mas, sobretudo, o latim pode estimular a usar muito mais a racionalidade.
Esta Academia substituirá a fundação vaticana Latinitas, que na realidade não funcionava há anos. Como evitar que esta nova iniciativa se perca como a anterior?
Essa era um pequeno cenáculo que buscava reverdecer o uso do latim, mas a utilização prática desta língua é apenas funcional a algumas questões específicas. Não se pode falar em latim, está morto como língua. Pode-se aplicá-lo ainda para algumas formulações, diversas expressões ou como língua solene da Igreja, em algumas ocasiões.
 De maneira particular devemos recordar que esta Academia será constituída por acadêmicos procedentes de todo o mundo, que falam diversos idiomas, da Austrália, Estados Unidos ou Canadá. Serão tantas chamas espalhadas que querem propor novamente o passado e seus valores.
Então, o objetivo principal da Academia não é o uso frequente do latim?
Algumas vezes se poderá fazer, especialmente em nível didático. Sempre com a finalidade de aprender, mediante esta língua, um modo de pensar com rigor.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...