sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

31 de Dezembro de 1980. Morre Marshall McLuhan

Marshall McLuhan, o da direita, num filme de Woody Allen

Marshall McLuhan (Edmonton, Canadá, 21 de Julho de 1911), filósofo da comunicação, morreu no dia 31 de Dezembro de 1980. Era um optimista sobre a comunicação e cunhou expressões que todos usamos, como “aldeia global” e “o meio é a mensagem”.

Em 1973, sendo papa Paulo VI, McLuhan, que era católico, foi nomeado consultor do Conselho Pontifício das Comunicações Sociais. Há diversos depoimentos do pensador sobre “media e Igreja”, nem sempre positivos para a instituição.

Marshall McLuhan entra no filme “Annie Hall”, de Woddy Allen.


Campanha contra a sida serviu-se de Bento XVI

As Juventudes Socialistas de Andalucía fizeram um cartaz e um vídeo que aludem à referência de Bento XVI ao preservativo e à Eucaristia. Naturalmente, a iniciativa provocou pelo menos algum incómodo católico. Os bispos brasileiros (parece que a campanha chegou com estrondo ao outro lado ao Atlântico Sul) afirmaram: “Não podemos silenciar diante dessa grande ofensa que fere profundamente os sentimentos religiosos dos católicos”. E manifestaram-se junto das autoridades espanholas.

Na nota, os bispos realçam que, “no âmbito de suas atribuições e responsabilidades, a CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil] deseja contribuir para que o homem e a mulher cresçam no diálogo, no respeito à liberdade, na defesa da vida, na promoção dos direitos humanos e na conquista dos verdadeiros valores que os tornem felizes conforme os planos de Deus”.

O vídeo da campanha espanhola, que é uma boa peça de abuso, mais forte do que o cartaz, e de manipulação da informação (quer do que as autoridades eclesiásticas dizem, quer do que dizem as organizações de luta contra a sida, quer no uso do "Halleluya" de Jeff Buckley), pode ser visto aqui.

Em baixo, imagens da campanha italiana de 2009.


Transparência nos dinheiros do Vaticano

Moeda de 50 cêntimos de euro com Bento XVI, cunhada em Julho de 2010


O Papa criou uma Autoridade de Informação Financeira (AIF) para evitar as trapalhadas que têm sucedido no Banco do Vaticano (IOR).

Na notícia do Público, afirma-se: “No documento, o Papa refere mesmo que apoia o compromisso da comunidade internacional na prevenção e na luta contra aqueles fenómenos e que a Santa Sé «entende fazer suas» as regras das organizações internacionais sobre a matéria” (ver aqui).


Um comentário. Isto é verdadeiramente um sinal dos tempos. O Vaticano reconhece que, em matéria de dinheiro, não é exemplo de transparência para ninguém. Mas devia ser. Para isso, tem de seguir as regras das organizações internacionais.

Um desejo. Falta agora que as organizações eclesiais locais (paroquiais, diocesanas, nacionais) façam suas as regras das melhores organizações locais em campos de acção similares. Poderiam começar por práticas tão simples quanto estas: Divulgação de quanto dão os ofertórios e outros peditórios; em que são aplicados; quanto recebem da consignação do IRS; justiça nos salários; aplicação dos princípios da doutrina social da Igreja nas organizações eclesiais…

Na realidade há algumas paróquias (e outras instituições) que prestam contas publicamente, mas por vezes de forma incompleta e quase sempre apenas fixando uma tabela nos expositores paroquiais. E são claramente uma minoria.

E uma nota. Para ilustrar este texto procurei uma imagem escrevendo "Vatican money" no google. Apareceu uma moeda com Bento XVI na cara da moeda. No Vaticano, segue-se o euro, mas são cunhadas umas quantas moedas com a cara do pontífice. Dirão que é simbólico, que é por tradição, que é para coleccionadores, que... Mesmo assim, não compreendo como é que, numa fé fundada por quem disse que "não se pode servir a Deus e ao dinheiro" e que um dia perguntou "Quem está na moeda? É César? Então...", ainda persistem estes contra-simbolismos.

Fuga de informação celestial

Luta

Se eu bem compreendo os dogmas, nós estamos e é preciso que nos estejamos em luta perpétua contra Deus. Nós vencemo-lo por vezes por um instante, mas Ele vence sempre a melhor.

Paul Valéry (1871-1945)

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

As histórias que Nossa Senhora contava do Menino Jesus

Histórias eclesialmente incorrectas que Maria de Nazaré contava ao Menino Joshua. Os Sete Cabritinhos; A Bela Adormecida; O Capuchinho Vermelho; e O Patinho Feio. De José Luis Cortés (aqui).




Sagrada Família

Do blogue Hermano Cortés.

A ignorância de Sócrates

Não esqueçamos nunca que a ignorância de Sócrates era uma espécie de temor e de culto de Deus; que transpunha em grego a ideia judaica do temor de Deus, princípio de sabedoria; que era por respeito da divindade que ele era ignorante.

Kierkegaard (1813-1855)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Aprender a fazer homilias com a música



Timothy Radcliffe op sobre como devem ser as homilias, na página 97 de “Ir à Igreja porquê?”:

“The Shawshank Redemption” [Os Condenados de Shawshank], um filme rodado em 1994 por Frank Darabont, fala-nos de Andy, um banqueiro americano, preso depois de, por engano, ter sido condenado pelo assassínio da sua mulher. Esforça-se por manter viva a esperança neste mundo deprimente. Tendo-se tornado um preso de confiança, com liberdade excepcional, um dia, ocupa a torre de controlo e emite pelos altifalantes a música da ópera As Bodas de Fígaro de Mozart. Todos estacam e se transfiguram. A beleza abriu-lhes um outro mundo em que já não eram simples criminosos, mas podiam atrever-se a esperar, de novo, uma vida humana. Nenhum de nós consegue pregar tão bem como Mozart, ou mesmo de forma tão libertadores como aqueles músicos no clube de jazz; é por isso que sempre precisaremos de artistas para compartilhar o acontecer da graça. Johann Sebastian Bach celebrou, no seu Oratório de Natal, o nascimento do «mais belo de todos os seres humanos». Precisamos de descobrir a música para repartir esta beleza com os nossos contemporâneos.

Appleísmo vs Googleísmo - novas religiões

O appleísmo é um “modo de vida”, um “modo de ser”, quase uma religião. “Não é bem uma religião mas tem como protagonista um líder que é quase um deus, Steve Jobs”, escreve Robert Lane Greene no artigo “Appleísmo vs Googleísmo”, na “Intelligent Life” de Inverno. “Também ele ressuscitou dos mortos – despedido pela administração em 1985, foi de novo contratado em 1997, tendo desde então dado a volta aos destinos da Apple”, acrescenta.

“Appleísmo vs Googleísmo” fala de duas fés, a dos fãs dos produtos Apple (iPod, iPad, iPhone, Safari, Mac, etc.) e a dos que preferem serviços Google (telemóveis com sistema operativo Android, motor de busca, mapas, etc.). A disputa lembra um célebre artigo de Umberto Eco (não é nomeado no texto). O semiótico afirmava que o sistema operativo dos Mac era católico, enquanto o MS-DOS era protestante, talvez calvinista.

O artigo da “Intelligent Life” (pode ser lido aqui em inglês) começa com uma história que vale a pena registar:

Quando a Apple abriu a sua nova loja na Quinta Avenida de Manhattan [na imagem], em Nova Iorque, em 2006, foi alvo de uma queixa um pouco estranha. Não a habitual queixa dos nova-iorquinos – está a tapar a vista pela qual eu paguei ou está a tornar elitista o bairro onde acabei de me instalar. Não, nada disso, esta loja-bandeira foi criticada por um website islâmico. O cubo de vidro e aço, queixavam-se os puristas, estava ali para evocar o cubo de obsidiana na Kaaba de Meca e, assim, insultar o Islão.

A história era ridícula – tratava-se de um website extremista (apesar de ser grande) e os espertinhos que o administravam apenas tinbham visto uma cobertura preta sobre o cubo quando ainda estava em contrução. Um membro da organização New York Muslims levantou a sua voz para afirmar que eles gostavam imenso da nova loja. Mas não é de todo descabido classificar as lojas da Apple como as novas «mecas». Lindas por dentro e geralmente também por fora são so tempos de reunião dos devotos dos fantásticos produtos da Apple.

A piscina de João Paulo II

João Paulo II, pouco depois de ser eleito Papa, sucedendo ao pontificado breve de João Paulo I, mandou construir uma piscina em Castel Gandolfo. Na comunicação social surgiram críticas. Que o Papa era gastador e egoísta. Ele defendeu-se:

- O Papa precisa de exercício físico. Um novo conclave custaria muito mais.

29 de Dezembro de 1926. Morre Rainer Maria Rilke

Rainer Maria Rilke, poeta, escritor, crítico, nasceu no dia 4 de Dezembro de 1875, em Praga (que então fazia parte do Império Austro-Húngaro), e morreu no dia 29 de Dezembro de 1926, em Raron (Valais), Suíça, onde está sepultado. Morreu de leucemia. O epitáfio, da sua autoria, diz em alemão: “Rosa, ó contradição pura, prazer de ser o sono de ninguém debaixo de tantas pálpebras”.

Nome maior da literatura de língua alemã, Rilke escreveu, entre outras obras, “As elegias de Duíno”, “O Livro das Horas” (que muito influenciou Etty Hilessum), as “Cartas a um Jovem Poeta” e as “Histórias do Bom Deus e outros textos” (contos).

Rilke foi educado como católico, mas durante a adolescência revoltou-se contra a fé católica, escrevendo poemas anticristãos. Mais tarde, pelos menos na sua escrita, nas “Histórias do Bom Deus”, reconcilia-se com a fé cristã, mostrando a interdependência entre ser humano e Deus, a fraternidade, a humildade, a compaixão pelos pobres e explorados.

Nas “Elegias”, obra maior, medita sobre a existência humana. A transcendência não está ausente. Primeiros versos:

Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo apenas é
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.

Singular

Os deuses, no plural, os poderes míticos de todos os géneros, são os objectos do mundo envolvente: eles têm a mesma realidade que o animal ou o homem. Na noção de Deus, o singular é essencial.

Edmund Husserl (1859-1938)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

D. Manuel Clemente entrevistado

D. Manuel Clemente entrevistado pelo "i" no dia de Natal. Entrevista serena, informada, perspicaz e esperançosa, como são sempre as do actual bispo do Porto. A terceira entrevista a bispos por estes dias. A de D. José Policarpo aqui. A de D. Januário Torgal Ferreira aqui.




O grande acontecimento do mundo. Deste e do outro


Ir à Igreja porquê? O drama da Eucaristia

Timothy Radcliffe

Ed. Paulins

296 páginas


Se houvesse um top para os melhores livros católicos do ano, este estaria certamente num dos primeiros lugares. “Ir à Igreja porquê? O drama da Eucaristia”, do ex-mestre geral dos frades dominicanos, Timothy Radcliffe, é um espicaçar para a fé, um indutor de esperança, um tónico para o amor. E tudo isto servido com uma imensa dose de humor, cultura e inteligência. Não só o conteúdo é profundo e enriquecedor, como a forma, a escrita, é apaixonante, por vezes divertida, sempre estimulante.

O livro começa com uma anedota já contada neste blogue, a que várias vezes se alude ao longo das primeiras páginas e que expõe a finalidade da obra:

“Certo domingo, a mãe acordou o filho com uma sacudidela e disse-lhe que estava na hora de ir para a igreja. Sem resultado. Dez minutos mais tarde, insistiu:

- Sai imediatamente da cama e vai para a igreja.

- Ó mãe, não me apetece! É tão aborrecido! Porque é que hei-de chatear-me?

- Por duas razoes: sabes muito bem que deves ir à igreja ao domingo e, em segundo lugar, és o bispo da diocese”.

Claro que, como diz Timothy Radcliffe, “não são apenas os bispos que, por vezes, não têm desejo de ir à igreja”. Um jovem, a quem o seu bispo perguntou, no dia do Crisma, se iria à igreja todos os domingos, respondeu: “Iríeis também ver o mesmo filme todas as semanas?”

Este livro não é sobre como fazer missas criativas e espectaculares, como alguns gostam. Nem sobre a Teologia da Eucaristia. É sobre ir à Missa, sobre como na participação em qualquer Missa, da maior festa e com o padre mais bem falante à mais humilde celebração e no lugarejo mais remoto, se vive um drama. É “uma exploração (…) do modo como a Eucaristia se refere a tudo”. A Missa “representa o drama fundamental de toda a existência humana. Forma-nos como pessoas que crêem, esperam e têm caridade”. A tese deste livro é esta: “O nosso «sim» ao Corpo de Cristo transforma o modo como pertencemos uns aos outros e, por conseguinte, quem somos”.

O autor ilustra a sua obra, dividida em três grandes partes sobre a fé, a esperança e o amor (que remetem para a Liturgia da Palavra, a Oração Eucarística e a Comunhão), com pequenos casos pessoais ou da história, trechos de romances e de poemas e alusões a filmes, o que constitui uma excelente ponte cultural para o mundo em que vivemos.

Refira-se, por último, como grande sinal de ecumenismo, que este livro foi encomendado pelo arcebispo Rowan Williams, primaz da igreja anglicana (que também é um grande poeta), e adoptado como o seu Livro da Quaresma para 2009.

Como dizia um padre, para andar limpo não é preciso conhecer a composição química da água. Basta lavar-se. Para participar na Eucaristia, não será necessário ler livros sobre a Missa. Mas quem ler este, vai tornar-se mais consciente do grande dom de Cristo à sua comunidade e ao mundo.

Pergunta e resposta

Deus participa no destino do homem, tanto no bem como no mal. Quem quer que o bendiga por Jerusalém mas não o interrogue acerca de Treblinka é pura e simplesmente um hipócrita. Deus quer-se na origem de todos os nossos actos, e também no seu desfecho. Ele é, ao mesmo tempo, pergunta e resposta.

Élie Wiesel (1928-...)

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

D. Januário Torgal Ferreira ao JN: "A Igreja deve ser fábrica de justiça"

D. Januário Torgal Ferreira em declarações do JN. Uma maneira de estar e palavras optimistas. Provavelmente do desagrado de alguns sectores, como é típico quando este bispo fala. Pode ser lida no sítio do JN. O texto saiu no JN do dia de Natal. No dia seguinte, falou ao DN o Cardeal-Patriarca (aqui). Mas há mais.


Do Génesis ao Apocalipse. A Bíblia em menos de um minuto

Papel marginal de Jesus na Igreja

Por vezes podemos ficar surpreendidos ao observar o papel completamente marginal que é reservado a Jesus na Igreja, a partir do momento em que, com frequência, a centralidade do interesse da comunidade roda substancialmente à volta da divisão de papéis e atribuições de poder entre clérigos e leigos. Ser discípulo do Senhor é a base comum de todos os cristãos e deveria permanecer como a sua qualificação mais importante. Os factos revelam um problema de constante conversão das comunidades cristãs ao Evangelho. Conversão tornada mais urgente ainda com a abertura e o progresso do diálogo ecuménico e o encontro entre as grandes religiões do mundo.

Carlo di Cicco in "Pegadas de um Deus difetente" (ed. Gráfica de Coimbra 2), pág. 89

domingo, 26 de dezembro de 2010

26 de Dezembro de 1911. Nasce o pintor Renato Guttuso

Renato Guttuso, pintor, nasceu no dia 26 de Dezembro de 1911 em Bagheria, ilha da Sicília (Itália). Ligado ao comunismo, Guttuso pintou em 1941 uma “Crucificação” que causou polémica tanto na Igreja católica como no fascismo de Mussolini, numa altura em que o Partido Comunista era clandestino.

Neste quadro, a atenção centra-se nas garrafas de vinagre, no martelo e nos pregos e não no crucificado, ocultado por Madalena, nua, e um ladrão vermelho. Não se vê o rosto de Jesus.

Policarpo em entrevista do DN

D. José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa, deu uma entrevista ao "Diário de Notícias". Está em três partes, aqui, aqui e aqui. Fala de Sócrates, Cavaco e outras políticas. Reproduzo o final da primeira parte, que tem mais a ver a Igreja no mundo actual, ciência e Saramago (mas deixa uma dúvida: o entrevistador, João Céu e Silva, pensa que a Igreja interpreta literalmente o episódio de Adão e Eva?):


A Igreja Católica sobreviveu dois milénios. Acha que em 2100, com as mudanças que estão a acontecer no mundo, ainda terá o mesmo perfil de instituição?

Há coisas perenes na Igreja que, se não deixar de existir, não mudam. Uma delas é a fé e a sequência comportamental desse sentimento, a que chamamos moral. Depois, há a estrutura apostólica, que é o baluarte e a solidez que hoje se exprime pelos bispos. Isso não muda, mesmo que se alterem pequenas formas de ser. No que se refere à adaptação ao tempo, é próprio da Igreja moldar-se às mais variadas circunstâncias sociais.

O desenvolvimento muito grande das neurociências não vai desfazendo a crença?

Só a dos que tinham pouca fé. As ciências, por mais avançadas que sejam, ainda não inventaram nada. O que têm feito é descobrir o que Deus criou!

A Igreja resistiu ao fim da missa em latim mas se, entre outras, a imagem bíblica de Adão e Eva for desconstruída o que acontecerá aos fiéis?

Em Roma ainda se fala latim! No que respeita a outras mudanças, se elas se derem, a Igreja resiste com certeza. Já passámos há muito tempo a fase de ler a Bíblia literalmente como se lê um jornal. Todos sabem que na Bíblia a verdade é sugerida e não é descrita. Tem estilos literários, tem uma simbólica riquíssima e é preciso compreender a ancestralidade daquelas culturas. Há uma coisa que na nossa cultura ocidental temos vindo a perder progressivamente, que é o valor do símbolo e da simbólica. E curiosamente somos obrigados a redescobri-la agora com a profusão da linguagem informática. Estive recentemente em Roma para o Conselho Pontifício para a cultura, que foi sobre as nossas linguagens, e vim de lá um pouco assustado.

Assustado com o quê?

Com os panoramas a médio e longo prazo do que será o mundo. Uma das coisas de que me apercebi foi que a linguagem que está a nascer é quase a reinvenção da escrita, daquele momento em que a humanidade transformou o dizer, o pensar e a fala em símbolos escritos. No Ocidente, perdemos muito o valor do símbolo, talvez devido à exactidão da ciência e da técnica e ao pragmatismo do racionalismo que invadiu a nossa cultura. Hoje, só os poetas é que ainda se vão safando com a simbólica... Ora é impossível ler a Bíblia sem ter uma estrutura simbólica. Eu não preciso de acabar com o Adão e a Eva porque, se eu não interpretar os capítulos primeiros do Génesis à letra, o Adão e a Eva não me incomodam nada, pelo contrário, têm uma riqueza de sugestão simbólica enorme. Às vezes há uma certa precipitação em pensar que podem substituir-se. Podem experimentar, mas não creio que seja fácil.

Acha que Deus perdoou a Saramago o livro Caim e as críticas ao Antigo Testamento?

Que Deus estaria disposto a perdoar Saramago, não tenho dúvidas nenhumas! Não sei é se o Saramago quis esse perdão. Eu fui um leitor assíduo de José Saramago e até admirador. Os grandes livros dele, eu li-os todos.

Inclusive o Evangelho?

Exactamente. Mas aí começa um bocado a sua decadência, é o livro que marca o fim daquela genica do José Saramago. O Caim, francamente, é um livro decadente, e acho que o deviam ter aconselhado a não o publicar.

Do resto da obra, o que é que acha?

É um autor raro, porque introduziu um estilo e lê-se com muito agrado. Aliava muito bem a objectividade da investigação histórica à ousadia do estilo. Há quem não aprecie, mas eu gosto de José Saramago.

E o Alcorão, já leu?

Li, claro.

2011: Revolução na Igreja Católica em Portugal?

No “Público” de hoje, um artigo para pensar a Igreja Católica portuguesa em 2011: “O próximo ano trará uma pequena revolução à Igreja em Portugal”.

António Marujo aponta o que está em questão: eleições para a Conferência Episcopal Portuguesa (presidente, mas também para os cargos e comissões), mudanças em breve nas dioceses (Coimbra, Lamego, Bragança-Miranda, Lisboa) e resultados do documento “Repensar juntos a pastoral da Igreja em Portugal” (doc. aqui), que está a ser reflectido um pouco por todo o lado.

Ler texto do "Público" aqui.

O jornalista complementa a peça com um comentário que coloca questões pertinentes. Infelizmente (admito que seja o meu pessimismo a falar) não vão ser consideradas. Segue-se o comentário.


A Igreja sabe o que quer?

O que quer a Igreja Católica? Quando se preparam mudanças no episcopado, a pergunta é legítima. Tanto mais que pode haver escolhas que traduzem mais a manutenção de uma atitude de fechamento da instituição sobre si mesma do que a necessária abertura decisiva à modernidade.

Há uma questão prévia a este facto: a nula participação das comunidades locais na escolha dos bispos. A hierarquia católica argumenta que a Igreja não é uma democracia. Nos primeiros tempos do cristianismo, muitos foram os bispos eleitos pelas comunidades: é célebre a história de que, em Milão, Ambrósio foi escolhido para bispo pela capacidade para mediar divergências entre facções, mesmo antes de ser baptizado; esse homem veio a ser o grande Santo Ambrósio, responsável pelo baptismo de Santo Agostinho. Foi nos conventos que se consolidou a ideia de "um homem, um voto". E muitos cristãos sentem-se diminuídos na sua cidadania eclesial, quando confrontada com a que experimentam na sociedade civil.

Voltemos à pergunta: a Igreja sabe o que quer? Nos últimos 30 anos, o catolicismo português teve dinâmicas tão diversas quanto congressos de leigos, sínodos diocesanos, pastoral do domingo, reabilitação das semanas sociais, pastoral da fé... Dessas iniciativas ficaram pouco mais do que listas de conclusões - muitas das quais pouco realistas e inconsequentes. Pior: não se fez, depois, a avaliação do caminho (não) percorrido em relação ao que se propunha. Mesmo sabendo-se que, em Portugal, não há hábitos de planeamento nem avaliação sérios (e não falo da moda que anda por aí).

O que quer a hierarquia católica para, por exemplo, daqui a dez anos? Mais pessoas nas missas? Menos leis que "atentam" contra a moral oficial? Mais casamentos e baptismos católicos? Contribuir para uma sociedade mais justa e fraterna, mesmo que com uma prática religiosa mais ténue? Ou...?

Provavelmente, poucos bispos, padres e responsáveis de grupos, movimentos ou instituições católicas saberiam responder com objectivos concretos a estas perguntas. Provavelmente, o mais espantoso da resposta a estas perguntas seria a ausência de respostas.

Na maior parte dos casos, o catolicismo português limita-se à repetição de respostas com décadas (quando não de séculos) que já pouco sentido têm. Seja em campos como a liturgia (onde predomina uma indigência que só afugenta), a moral (onde as pessoas não querem saber de regras que já não respondem às suas perguntas) ou a capacidade de intervenção social (por vezes presa de compromissos com poderes fácticos), entre outros.

Há meio ano, quando o Papa estava para aterrar em Lisboa, o bispo Carlos Azevedo dizia no PÚBLICO que a Igreja Católica em Portugal continua a ser predominantemente clerical, centralizada e sem um projecto mobilizador, numa sociedade em profunda mutação.

Esse é um dos aspectos fulcrais do problema: apesar de uma vasta e meritória acção no campo social; apesar de ter dado passos de gigante na valorização da cultura, o catolicismo português é intelectualmente pobre e não entende as mudanças sociais que atravessam a sociedade. Não é de estranhar que haja tão poucos nomes reconhecidos e inovadores na teologia católica portuguesa.

Ao mesmo tempo, a estrutura eclesial continua a ser predominantemente... eclesiástica. Ou seja, em lugar de se privilegiar a dimensão comunitária proposta pelos documentos e pela herança espiritual do Concílio Vaticano II, acentua-se a vertente hierárquica.

Basta ver que a aposta nas mesmas estratégias e dinâmicas nem sequer tem dado resultados na lógica de manutenção do que se tem feito. Por isso, o catolicismo português confronta-se com a questão: ou muda ou definha. 2011 será uma oportunidade?
António Marujo

Copiado daqui.

Tudo mais sério


Se Deus se fez homem para ter autoridade sobre Terra, é evidentemente porque Ele se dava conta de que um homem torna tudo mais sério.

Boris Vian (1920-1959)

Bento Domingues: Memória para o futuro incerto

"Seja onde for, o ser humano reduzido à febre de investir e consumir andará sempre consumido", afirma Bento Domingues, no "Público" de hoje, sugerindo de seguida alguns livros sobre a intervenção de cristãos em Portugal.

sábado, 25 de dezembro de 2010

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

É menino!

De José Luis Cortés. Aqui.

Público 3: A relação entre as barriguinhas-de-freira e as nossas

Uma diversão de Miguel Esteves Cardoso sobre os doces conventuais e uma interpretação pouco ortodoxa da opção pela vida de claustro, mas real em algumas épocas e lugares.

A maioria das freiras não ia para os conventos por escolha espiritual. Como diz Alfredo Saramago: "As segundas filhas ricas, algumas herdeiras solteiras, viúvas, adolescentes órfãs mas com fortunas constituíam a população feminina dos conventos. Gente habituada a uma vida rica com os hábitos e costumes de uma classe privilegiada".

...

Imagine-se agora com uma mulher enclausurada. Para sempre. Tem fartura de açúcar, ovos e amêndoas. O que é que faz? Doces. Doces que levam muito tempo a fazer. Doces que pode comer. Doces que pode oferecer ou vender. Doces que dão prazer, que trazem elogios e são trocados por outros doces. Doces que se podem comer à mesa, numa atmosfera católica e portuguesa onde a gula gastronómica é mais uma prova de humanidade do que um pecado mortal. Que é, no máximo, uma marotice.

Dir-se-ia que [os doces] são o contrário da simplicidade e do sacrifício das freiras. Mas não são: são o resultado. Os doces conventuais são onde se soltam e concentram todos os desejos de liberdade e de prazer - toda a criatividade e toda a revolta - que não podem ser exprimidos e satisfeitos separadamente, de maneiras mais directas e mais fáceis (ler tudo aqui).

Público 2: A religião traz a felicidade ou ela já está no cérebro?

“Há uma felicidade do instante, outra associada à participação na vida cívica, outra identificada com Deus ou a religião. A felicidade confronta-se com o mal e o sofrimento. Será que podemos saber onde ela mora?” Artigo de António Marujo no P2 de hoje. Aqui, com uma belíssima imagem de Marc Chagall.

Público 1: A Igreja defendeu a literalidade da Bíblia, "mas isso passou-lhe"


No P2 de hoje, Ana Gerschenfeld entrevista o biblista Francolino Gonçalves (foto do "Público"), frade dominicano, investigador da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém há 50 anos. A parte final da entrevista:

Vê o que a Bíblia conta como uma lenda?

Há duas leituras. A leitura que eu faço é histórico-crítica e, portanto, tento situar esses textos. E para nós é evidente hoje que o relato dos começos do Livro do Génesis é mítico. E quando dizemos mítico, não estamos a depreciar. O mito é provavelmente das formas mais sublimes que nós temos para expressar certas verdades, certas realidades - sobre a própria humanidade, sobre a relação da humanidade com o Cosmos e tudo isso.

Mas aquilo que parece história, é óbvio que é uma história criada. Pode haver - e há com certeza - certos acontecimentos históricos que estão por detrás, mas que se tornaram lendários e que são apresentados só pelo sentido religioso que têm. É um testemunho de fé e um testemunho de fé é partidário por definição. Portanto, faz parte de um relato que não é necessariamente histórico e que não pretende ser um relato objectivo.

A Igreja Católica já não defende a Bíblia como sendo uma realidade, uma verdade histórica?

Não. Defendeu, defendeu, defendeu. Mas isso passou-lhe [ri-se]. Mas no século XX, defendeu.

Mas há pessoas que ainda hoje interpretam a Bíblia à letra - nomeadamente os criacionistas.

Penso que isso vem de uma espécie de medo perante a razão e de uma preocupação em sacralizar as formas de expressão, que os impede de descobrir o sentido dessas expressões, a verdadeira mensagem que está por detrás. Fixam-se na materialidade do linguístico e do imagético e pensam que isso é canónico, normativo. E isso impede-os de aceder ao verdadeiro sentido dos relatos, à sua verdadeira mensagem. Parece infantil.

Como é o seu dia-a-dia?

Trabalho nesta casa, passo semanas sem ir à rua. Os dias são absolutamente iguais. Houve uma altura em que viajava muito mais, mas agora saio pelo menos duas vezes por ano (vou estar em Portugal em Março-Abril e depois normalmente volto no Verão, em Agosto-Setembro). De resto, estou aqui, passo o dia a trabalhar. Isto também é uma comunidade religiosa e sou religioso, também tenho a minha vida conventual normal. Trabalho e neste semestre vou ter um seminário sobre as imagens proféticas no Livro de Jeremias.

O Livro de Jeremias enxameia de profetas por todo o lado, mas há cinco ou seis imagens de profetas, de tipos de profetas. Eu costumo dizer a brincar que o Livro de Jeremias é o atelier onde se esculpiram ou se pintaram as imagens proféticas que povoam o nosso imaginário ocidental.
Ler tudo aqui.

"Mas eu sou um exegeta!", uma história de Timothy Radcliffe


História contada por Timothy Radcliffe no seu "Ir à Igreja porquê? (pág. 79)"
Um dos meus confrades franceses, exegeta, viajava sempre de comboio com pastas de livros para não perder um único momento de estudo. Um dia, um revisor protestou porque as suas malas estavam a obstruir o corredor; ele deveria pô-las na prateleira das bagagens. O meu confrade resistiu:
- Mas eu sou um exegeta!
Replicou-lhe o revisor:
- Isso não me interessa. Os estrangeiros têm de obedecer às regras.

Espantar

Deus separou-se de si para nos deixar falar, nos espantar e nos interrogar. Ele fê-lo não falando mas calando-se, deixando o silêncio interromper a sua voz e os seu sinais.

Jacques Derrida (1930-2004)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Quando a defesa da vida coincide com funtamentalismo

Atitudes como a do bispo de Phoenix fazem mais pela intolerância anticatólica do que pela defesa da vida. Leia-se, a propósito da decisão episcopal, a reflexão de Manuel Pinto no Religionline, "Um dia triste".

A notícia no "Página 1", apesar de tudo, é capaz de não ser a mais esclarecedora. A do "Público" afirma o seguinte (bold meu):

O aborto foi realizado em Novembro de 2009 a uma mulher de cerca de 20 anos a quem foi diagnosticada uma elevada pressão arterial que não tinha sido detectada antes da gravidez. Vários exames demonstraram que o estado de saúde se deteriorou de forma significativa durante as primeiras semanas de gestação. Órgãos vitais como o coração e os pulmões estavam a ser afectados e os médicos consideraram que a vida da paciente estava em risco, adiantou o "Guardian". A equipa de médicos chegou mesmo a informá-la que o risco de morte se aproximava dos 100 por cento se avançasse com a gravidez (ler aqui).

Mãe

Desenho de Cortés, retirado do seu magnífico blogue (aqui). José Luís Cortés tem em português o livro de banda desenhada "Um Deus chamado Abbá", nas edições Estrela Polar.

Criador e criatura


Maldito criador! Porque fizeste um ente tão odioso que tu próprio te afastaste enjoado? Deus, na sua misericórdia, fez o homem belo e atraente, à sua própria imagem; mas eu sou uma imunda imitação de ti próprio, tornada ainda mais horrível pela sua própria semelhança.

Mary Shelley, excerto de "Frankenstein", ed. Estampa, 1972, pág. 109.

Grandes textos do cristianismo

Saiu há dias um caderno especial ("hors-série") da revista "Le Monde des Religions" dedicado aos grandes textos do cristianismo, do Novo Testamento à "Caritas in veritate". Clicando na imagem em baixo dá para ler o índice.


Encontrado Alcorão escrito com o sangue de Saddam Hussein

No "Página 1" (jornal digital da Renascença) de ontem, uma notícia insólita e algo mórbida, pelo menos no objecto que está na origem da notícia. Foi encontrado o Alcorão escrito com o sangue de Saddam Hussein. Não sabia que tinha sido perdido. Nem imaginava sequer que tinha sido escrito.

Sentido e atracção

A certeza de um Deus, que desse o seu sentido à vida, supera muito em atracção o poder impune de fazer o mal.

Albert Camus (1913-1960)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

22 de Dezembro de 1880. Morre George Eliot, romancista

George Eliot era mulher, nascida Mary Ann Evans (1819-1880). Usava um pseudónimo masculino para que os seus livros fossem levados a sério. Escreveu que “as mulheres felizes, tal como as nações felizes, não têm história”, frase muito parecida com aquela posterior de Tolstoi sobre as famílias felizes.

O mais apreciado romance de Eliot é “A Vida era Assim em Middlemarch”, de 1872, mas se invoco aqui a romancista é porque foi ela que traduziu do alemão para inglês a obra “Life ofJesus” (1846), de David Friedrich Strauss, pioneiro da investigação história sobre Jesus que nega a sua divindade.

Masaccio e Miguel Ângelo

Ontem lembrava aqui Masaccio, referindo a sua obra mais importante, mas omitindo a mais conhecida, “Adão e Eva Expulsos do Paraíso” (em cima), que influenciou determinantemente Miguel Ângelo na sua “Expulsão” do tecto Capela Sistina (em baixo).

La `historia de la Navidad digital´ arrasa en youtube

O sítio espanhol Protestante Digital consegue a proeza de falar do sucesso do vídeo do “Natal Digital” (aqui postado) sem referir uma única vez que está em português. Talvez pensem que está em catalão. Ou galego.

¿Cómo hubiese sido la historia de la Navidad si se hubiese producido hoy en día? Posiblemente la recreación de ex-centric.com lleva todo a extremos, pero algo de verdad contiene en cuanto a que la historia tradicional de lo ocurrido en Belén se hubiese visto transformada por los actuales medios de comunicación.

Una llamada del ángel Gabriel a María por teléfono móvil, José buscando albergue en Belén a través de internet, y comentando sus experiencias en facebook, donde le encuentran los sabios de Oriente, que compran en amazon.com sus regalos… son algunas de las ideas simpáticas y originales de un video corto que ha impactado internet.

El video alojado en la sección de youtube de ProtestanteDigital ha superado holgadamente las 11.900 reproducciones y va camino de superar con amplitud las 12.000 en una sola semana de existencia. Unas cifras que son no sólo llamativas, sino nada habituales (aqui).

Já agora acrescente-se que, às 12h22 de 22 do 12, a versão portuguesa tinha sido vista 2.125.046 vezes . A inglesa, 3.823.746. Já deve ser o vídeo de origem portuguesa mais visto de sempre.

Deus e os sapos

Se Deus se parecesse com um sapo, teria sido fácil suprimir todos os sapos, mas desde o momento em que Deus é semelhante a vós, não serve de nada destruir as imagens de pedra. Teríeis que vos suicidar no meio dos túmulos.

Graham Greene (1904-1991)

Para quando a primeira cardeal?

É inovação do Papa a nomeação de cardeal de um bispo auxiliar? O Papa Francisco disse no domingo que vai fazer cinco novos cardeais. Um de...