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domingo, 29 de julho de 2012

Bento Domingues: "Pão para todos"



Bento Domingues no "Público" de hoje. "A consciência ética começa quando chegamos à conclusão de que o mundo como está é uma vergonha, mas não é uma fatalidade. Jesus Cristo não deixou nenhuma receita automática para vencer este escândalo". O dominicano regressa em setembro.


sábado, 28 de julho de 2012

Cinco pães e dois peixes



"Mandai-os sentar" (Jo 6,10).


A necessidade de nos alimentarmos é, antes de mais nada, sinal da nossa indigência radical. Obscuramente, vamos percebendo que não nos bastamos a nós mesmos. Na realidade vivemos recebendo, alimentando-nos duma vida que, através da terra, se nos oferece em cada dia a cada um. Por isso,é um gesto profundamente humano recolher-se antes de comer para agradecer a Deus esses alimentos, partilhando a sua mesma com familiares e amigos. Comer juntos é confraternizar, dialogar, crescer em amizade, partilhar a dádiva da vida: por isso é tão difícil dar graças a Deus quando uma pessoa tem mais alimento do que o necessário, enquanto outros sofrem miséria e fome.


José Antonio Pagola


quinta-feira, 7 de junho de 2012

O poder

No dia do Corpo de Deus, provavelmente o último em que é feriado em Portugal:


Se as pessoas conhecessem o valor da Eucaristia, o acesso às Igrejas deveria ser controlado pela força pública.

Teresa de Lisieux (1873-1897), citada por P.e Georgino Rocha

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Pão digital de cada dia nos dai hoje

“Eu gosto da ideia do pão de cada dia, que lembra a oração do Pai Nosso. O pão nosso de cada dia e uma conexão de banda larga rápida nos dai hoje”.

Federico Morrello, 16 anos. Está a lançar o projecto Panedigitale, para acabar com a exclusão digital, em Udine, Itália. Li aqui.

sábado, 30 de julho de 2011

Sermão para mim próprio: Como comprar sem dinheiro

"Milagre dos pães e dos peixes", por  Giovanni Lanfranco (1582-1647)

Sobre as leituras que hoje e amanhã muitos ouvem na missa (um convite de Isaías, umas perguntas de Paulo, uns pães a mais de Jesus).

1. Alguém afirmou que a Bíblia é mais uma questão de alimento do que de oração. Isso até se verifica pela contagem de palavras. Pode depender do termo que se procura e da tradução disponível, mas um manual bíblico diz-me que numa determinada versão da Bíblia, a palavra “pão” aparece 361 vezes, enquanto a palavra “oração” (ainda que sem contar com variantes como “orar” e “rezar”) surge 114 vezes. É natural que se pense mais naquilo que é incerto e que pode faltar todos os dias. E o paraíso é um grande banquete.

Logo por aqui se vê a genialidade de Jesus. Inserido na grande tradição judaica que tinha numa refeição, a da Páscoa, a grande celebração anual, escolheu o pão partilhado como gesto que o re-apresenta (volta a tornar presente) aos seres humanos. A sua dávida, impagável, é a melhor concretização do apelo de Isaías (1.ª leitura): “Vós que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei”.

2. Parece que Isaías fala (é o Senhor que fala por Isaías) para o tempo de crise: “Vós que não tendes dinheiro…” Num tempo em que tudo é mercadoria, tudo tem valor económico, até o corpo é entendido como autopropriedade, temos dificuldade em aceitar a gratuidade. Se alguém nos dá algo grátis, ficamos a pensar que pode haver algum interesse inconfessado escondido. É essa a prática comercial, que só oferece algo em vista de negócios maiores no futuro. Experimente oferecer algo a um amigo não muito próximo, fora da família, por exemplo. Faça-lhe essa surpresa. Ele não evitará um “porquê?”.

Mas Isaías insiste (é o Senhor que insiste por Isaías) na compra sem dinheiro. Onde já ouvimos isto? Não é a compra sem dinheiro, a crédito, o "consumo hoje e pago amanhã", tanto individual como coletivo, que está na origem da crise portuguesa? Será que o espírito de Isaías está na origem da crise? Na realidade, poderíamos parafrasear o profeta (parafrasear o Senhor) e dizer: “Vós que tendes o dinheiro todo do mundo, vinde, comprai e comei sem gastar um cêntimo. O que alimenta e sacia não custa dinheiro. Ouvi-me com atenção e comereis o que é bom; saboreareis manjares suculentos”.

Toda a gente sabe que o dinheiro não traz felicidade, mas está sempre disposto a dar-lhe uma nova oportunidade. Isaías realça (é o Senhor que realça por Isaías) que os bens maiores (a amizade, o amor, a paz de consciência, o sentido da vida, a vida em Deus, para só nomear alguns) não dependem das finanças de cada um, mas da adesão à “aliança eterna”.

3. São Paulo, inseparável do “amor de Deus em Cristo Jesus”, desafiava sem temor os seus inimigos: a tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada. Destes perigos, não havendo em Portugal perseguição religiosa, nem, apesar de tudo, carestia generalizada, talvez só se façam sentir dois deles: alguma tribulação, mais mental do que física, e angústia. Angústia dos que estão sós. Dos que perderam o gosto pela vida. Dos que não têm horizontes de sentido. Dos que perderam o emprego e se sentem inúteis. Dos desorientados. Dos idosos abandonados pela família. Contra a angústia, o que temos feito? A angústia surge também pelo consumo coisas que “não alimentam” e pelo gasto de energias em coisas que “não saciam” (1.ª leitura). Ora, há dias, dizia em Fátima, um responsável da Igreja que muitos fiéis “têm dificuldade em rezar nas celebrações” (aqui). Será possível? O antídoto da angústia não faz efeito?

4. O evangelho fala do milagre da divisão dos pães e dos peixes. Se é milagre, não tem explicação. Mas não é milagre só pelo facto extraordinário. Na Bíblia, esse é o aspecto secundário do milagre. O principal é a mensagem. E aí, além da ideia de que a partilha e a divisão é que multiplicam os bens (coisa que um economista poderá sempre objectar que não se aplica aos bens transacionáveis; mas aqui a economia é a da salvação), realça-se que o pão e os peixes são especialmente saciantes quando se elevam ao Céu e se recita a bênção. O pão tem nome de pessoa.

5. Cristo é o nosso pão. Não podemos pedi-lo senão para agora. Porque ele está sempre aí, à porta da nossa alma, na qual quer entrar, mas não viola o consentimento. Se consentimos que ele entre, ele entra; assim que não o queremos mais, imediatamente se vai. (...) O pão é-nos necessário. Somos seres que retiram continuamente a sua energia do exterior, porque à medida que a recebemos esgotamo-la nos nossos esforços. Se a nossa energia não é quotidianamente renovada, ficamos sem forças e incapazes de movimento.
Simone Weil (1909-1943), excerto da explicação do Pai-Nosso, in “Espera de Deus”, Assírio & Alvim, pág. 219.

6. Tu és, ó Cristo, o Reino dos céus
e a terra prometida aos mansos,
tu o prado do paraíso, a sala do divino banquete,
tu o tálamo das núpcias, mesa aberta a todos,
tu o pão da vida, tu a bebida inaudita,
tu ao mesmo tempo a talha para a água e a água da vida,
tu também a lâmpada inextinguível para cada um dos santos,
tu o hábito e a coroa, e aquele que distribui as coroas,
tu a alegria e o repouso, tu as delícias e a glória,
tu a alegria, tu a felicidade, ó meu Deus!

Excerto de uma oração de Simão, o Novo Teólogo, que viveu em Tessalónica (actual Selânik ou Salonika, na Grécia), no séc. XI.

quinta-feira, 17 de março de 2011

O que dizem de Jesus: Comunista


Jesus foi o primeiro comunista. 
Repartiu o pão e transformou a água em vinho.


Fidel Castro (1926 - …)

sexta-feira, 11 de março de 2011

História para estes tempos de jejum e esmola


No séc. XVIII, um judeu piedoso e rico foi visitar um rabino, o Pregador (Maggid) de Mezeritch, e disse-lhe que estava a jejuar, comendo apenas pão escuro e sal. O Pregador ordenou-lhe que parasse com o jejum e comesse o pão branco mais puro, bolos e bom vinho. «Mas, rabi, porquê?» «Se te contentares com pão escuro e água, ainda chegarás à conclusão de que os pobres podem subsistir com pedras e água da nascente. Se comeres bolos, dar-lhes-ás pão».

História contada por Timothy Radcliffe nas páginas 259-260 de “Ir à Igreja porquê?” (ed. Paulinas)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Sermão para mim próprio: Tentações intemporais


O relato das tentações, no caso segundo Mateus (Mt 4,1-11), é das passagens mais curiosas dos evangelhos (poderei escrever exactamente o mesmo de todas as outras, porque todo o evangelho é surpreendente).

Vejamos:
* Mateus conta como se lá tivesse estado. Ora esta é das poucas passagens em que não há testemunhas, só protagonistas. Como é que Mateus soube? Teria Jesus contado? Ou será um relato que condensa tudo o que o evangelho significa, já que está precisamente no início dos trabalhos de Jesus? 
* Jesus vai para o deserto conduzido pelo Espírito Santo, o que quer dizer que nem sempre o Espírito Santo leva por bons caminhos. 
* O deserto tanto é o lugar da comunidade e da solidariedade (foi no deserto que nasceu o Povo de Israel) como lugar de tentação, o que desmonta os que diabolizam a cidade. Todos os lugares podem ser bons ou maus. Os lugares não têm moral. 
* As tentações acontecem após 40 dias e quarenta noites de jejum, uma quaresma. O 40 aparece imensas vezes na Bíblia (40 dias de chuva, de pregação, de jejum, de mediação, de ultimato) para significar mudança, preparação, introdução, nova vida. 
* O Diabo tenta, cumprindo o que diz o que seu próprio nome, já que "diábolos", em grego, quer dizer “o que separa” (opõe-se a símbolo, “o que junta”). Há tentações. Não há possessões diabólicas. 
* O Diabo tenta usando frases da Bíblia, o que quer dizer, como há muito foi observado, que o Diabo conhece a Bíblia, ou seja, conhecer a Bíblia, mesmo de cor, não é garantia de nada. O Diabo é um bom exegeta. 
* As tentações acontecem “no deserto” (quem diria que lá não há nada), no “templo” (cuidado com a religião) e num “monte muito alto” (mania das grandezas) e são, respectivamente, sobre pão, espectáculo, poder. Ou então, consumo, magia, fama. Ou então, satisfação, êxito, audiências. Ou então… (é uma questão de reler Mt 1,11-11 e encontrar novos sentidos). 
* Jesus responde com frases bíblicas, todas elas ditas ou remetidas para Deus. Usa o ás de trunfo, ou o Joker (por vezes parecem diabinhos), e sai-se bem. A humildade derrota a magia. 
* As tentações são de Jesus, no início da chamada “vida pública”, mas nelas revêem-se os cristãos, a Igreja, o mundo em geral. Por isso é que Mateus as conta, mesmo não tendo estado lá.

terça-feira, 22 de junho de 2010

“O pão nosso de cada dia nos dai hoje”

Cristo é o nosso pão. Não podemos pedi-lo senão para agora. Porque ele está sempre aí, à porta da nossa alma, na qual quer entrar, mas não viola o consentimento. Se consentimos que ele entre, ele entra; assim que não o queremos mais, imediatamente se vai.

(...)

O pão é-nos necessário. Somos seres que retiram continuamente a sua energia do exterior, porque à medida que a recebemos esgotamo-la nos nossos esforços. Se a nossa energia não é quotidianamente renovada, ficamos sem forças e incapazes de movimento.

Simone Weil (1909-1943), excerto da explicação do Pai-Nosso, in “Espera de Deus”, Assírio & Alvim, pág. 219.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Tu, mesa aberta a todos

Tu és, ó Cristo, o Reino dos céus
e a terra prometida aos mansos,
tu o prado do paraíso, a sala do divino banquete,
tu o tálamo das núpcias, mesa aberta a todos,
tu o pão da vida, tu a bebida inaudita,
tu ao mesmo tempo a talha para a água e a água da vida,
tu também a lâmpada inextinguível para cada um dos santos,
tu o hábito e a coroa, e aquele que distribui as coroas,
tu a alegria e o repouso, tu as delícias e a glória,
tu a alegria, tu a felicidade, ó meu Deus!

Excerto de uma oração de Simão, o Novo Teólogo, que viveu em Tessalónica (actual Selânik ou Salonika, na Grécia), no séc. XI.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O que um judeu pode fazer com as sobras da Páscoa

O matzah é o pão da Páscoa judaica. Pão ázimo, sem fermento. Lembra a saída do Egipto. Este vídeo (daqui) sugere 20 coisas a fazer com as sobras. Vem de um sítio judaico. Por aqui se percebe que a relação dos judeus com o pão da Páscoa é totalmente diversa da de um cristão, até porque o matzah está a venda nos supermercados.



quinta-feira, 6 de agosto de 2009

As palavras que aparecem mais na "Caritas in Veritate"

“Desenvolvimento” e “Humano” são as palavras mais frequentes na encíclica “Caritas in Veritate”, a terceira de Bento XVI e primeira de carácter social, segundo esta nuvem de palavras que está no sítio dos Bispos Católicos dos EUA (aqui).

Faz lembrar que em toda a Bíblia aparece mais vezes palavra "pão" do que "oração".

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Dom de si mesmo


São Jerónimo (347-420), num comentário ao Salmo 102, disse: “Sou como um pelicano do deserto, que fustiga o peito e alimenta com o próprio sangue os seus filhos”.

O pelicano alimenta os filhos, mas não chega a picar o peito até deitar sangue, como pensavam os medievais, seguindo os comentários de Jerónimo. Mas por esta doação de si mesmo, sacrifício de si mesmo, ficou como símbolo da Eucaristia.

O Salmo, uma oração do aflito, em concreto, diz: "Tornei-me semelhante ao pelicano no deserto". É uma imagem bela para falar de qualquer dor. A ave aquática torturada pelo deserto.

Já não temos a condição torturada de viver num "vale de lágrimas" (pelo menos alguns - para a maioria da humanidade, a condição normal é o sofrimento, ainda que não sem alegria), mas continuamos a precisar do Maná caído do céu, do Pão da Vida, da luz na noite, da água no deserto, ainda que estas imagens sejam lugares-comuns. Talvez porque sejam sentimentos universais.

Ontem foi dia do Corpo de Deus.


Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...