Penso que em Portugal não temos bem a noção da catástrofe que é a pedofilia, não só para as pessoas que a sofreram, mas também para a Igreja. Pior, ainda, é que a situação não está a ser verdadeiramente resolvida, apesar dos esforços papais. Nunca será resolvida, na minha opinião, enquanto se mantiver a sacralização da sexualidade dos clérigos, a par com a cultura do segredo e a obediência à autoridade.
Mas as denúncias e demissões noutros países também fazem mossa em Portugal. Há tempos, alguém me dizia, e não era nenhum ateu, era uma pessoa de prática católica coerente: "Custa-me tanto olhar para os padres..."
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quinta-feira, 2 de agosto de 2018
domingo, 14 de setembro de 2014
Bento Dominguues: "O desterro da teologia"
Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje,
Se a teologia foi “desterrada” da cultura moderna é por ter
sido considerada inimiga da razão, da filosofia e de todos os modos de
criatividade humana. Nas Igrejas, ao ser instrumentalizada pelo poder
eclesiástico, perdeu o carácter de instância da liberdade da fé e das suas
expressões mais genuínas. O autoritarismo desvirtuou a sua função na Igreja e
tornou-a incapaz de dialogar com a sociedade, de a fecundar e ser fecundada por
ela.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Vaticano responde perante a ONU sobre abusos sexuais
Da notícia do "Público":
O Vaticano está, pela primeira vez, a responder perante o Comité da ONU para os Direitos da Criança (CNUDC) sobre acusações de abusos sexuais de menores contra padres da Igreja Católica em vários países e ao longo de várias décadas. A sessão do comité começou esta quinta-feira em Genebra e prolonga-se, em reuniões à porta fechada, até ao fim do mês.
Isto é inédito por se tratar do mais alto nível da Igreja católica. Ainda não imagino o alcance desta atitude, mas conhecendo-se a longa história de os clérigos se justificarem apenas perante as autoridades eclesiais, há aqui uma mudança importante. Por outro lado, por outro lado, continuo a pensar que é um equívoco o Vaticano ter de responder por pessoas individuais, mas reconheço que a resposta faz sentido à tua da teologia do sacerdócio católico, como também as vítimas e seus advogados defendem - provavelmente por outros motivos.
O Vaticano está, pela primeira vez, a responder perante o Comité da ONU para os Direitos da Criança (CNUDC) sobre acusações de abusos sexuais de menores contra padres da Igreja Católica em vários países e ao longo de várias décadas. A sessão do comité começou esta quinta-feira em Genebra e prolonga-se, em reuniões à porta fechada, até ao fim do mês.
Isto é inédito por se tratar do mais alto nível da Igreja católica. Ainda não imagino o alcance desta atitude, mas conhecendo-se a longa história de os clérigos se justificarem apenas perante as autoridades eclesiais, há aqui uma mudança importante. Por outro lado, por outro lado, continuo a pensar que é um equívoco o Vaticano ter de responder por pessoas individuais, mas reconheço que a resposta faz sentido à tua da teologia do sacerdócio católico, como também as vítimas e seus advogados defendem - provavelmente por outros motivos.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Porto quer novo bispo. E tem todo o direito
Notícia do CM de ontem. Inclui dois candidatos ao cargo. Presumíveis mas certamente involuntários. Ambos muito novos no episcopado.
sábado, 24 de agosto de 2013
Anselmo Borges: "O que pensa Francisco: 2. sobre a Igreja"
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:
Para o Papa Francisco, a Igreja não é uma empresa, uma multinacional ou uma ONG. Ela é "a família de Deus", do Deus que é amor, misericórdia e que perdoa sempre, se houver arrependimento. Deus está a caminho, "quando o procuramos e deixamos que ele nos procure. A experiência religiosa primordial é a do caminho. A vida cristã é uma espécie de atletismo, de conflito, de corrida, em que temos de nos desfazer das coisas que nos afastam de Deus".
No caminho, há perigos e tentações. Francisco acredita na existência do Diabo (como símbolo do mal ou uma entidade pessoal?): "O Demónio é, teologicamente, um ser que optou por não aceitar o plano de Deus. A obra-prima do Senhor é o homem; alguns anjos não o aceitaram e rebelaram-se. O Demónio é um deles. No Livro de Job é o tentador, que nos leva à suficiência, à soberba. Jesus define-o como o pai da mentira. Os seus frutos são sempre a destruição, a divisão, o ódio, a calúnia. E, na minha experiência pessoal, sinto-o de cada vez que sou tentado a fazer algo que não é aquilo que Deus me pede. Acredito que o Demónio existe. Talvez o seu maior sucesso nestes tempos tenha sido fazer-nos acreditar que não existe." De qualquer modo, "uma coisa é o Demónio e outra é demonizar as coisas ou as pessoas. O homem é tentado, mas não é por esse motivo que deveremos demonizá-lo". Mas o ser humano é um ser caído, o que "se explica a partir da queda da natureza depois do pecado original". Portanto, "as pessoas podem fazer algo de mau devido à sua própria natureza, ao seu "instinto", que se potencia devido a uma tentação exógena."
O fundamentalismo não é o que Deus quer, e ele não consiste apenas em matar em nome de Deus, o que é "uma blasfémia". "Por exemplo, quando eu era pequeno, na minha família havia uma certa tradição puritana; não éramos fundamentalistas, mas estávamos nessa linha. Se alguém do nosso círculo próximo se divorciava ou se separava, não entrávamos na sua casa; e também acreditávamos que os protestantes iam todos para o inferno, mas lembro-me de uma vez em que estava com a minha avó, uma grande mulher, e passaram precisamente duas mulheres do Exército de Salvação. Eu, que tinha uns cinco ou seis anos, perguntei-lhe se eram monjas. Ela respondeu-me: "Não, são protestantes, mas são boas." Esta foi a sabedoria da verdadeira religião."
Não se admite um clero de burocratas e carreiristas. Por exemplo, é "uma hipocrisia" negar o baptismo a crianças de pais não casados. E há o ecumenismo e o diálogo inter-religioso práticos: o das pessoas "que não partilham a minha fé, mas que partilham o amor pelo irmão". A verdadeira liderança religiosa é conferida pelo serviço. "Para mim, esta ideia é válida para a pessoa religiosa de qualquer confissão. Assim que deixa de servir, o religioso transforma-se num mero gestor, no agente de uma ONG. O líder religioso partilha, sofre, serve os seus irmãos." Foi esta dinâmica que o levou, já Papa, num gesto surpreendente, a Lampedusa, com esta mensagem: "A globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar. Peçamos ao Senhor a graça de chorar sobre a nossa indiferença, sobre a crueldade que há no mundo, em nós, também naqueles que no anonimato tomam decisões socioeconómicas que abrem o caminho a dramas como este."
Para a pedofilia, tolerância zero. "O problema não está associado ao celibato. Se um padre for pedófilo, é-o antes de ser padre. Ora, quando isso acontece, nunca se poderá tolerar. Não se pode assumir uma posição de poder e destruir a vida de outra pessoa. Na diocese, nunca me aconteceu, mas, uma vez, um bispo telefonou-me para me perguntar o que se deveria fazer numa situação semelhante, e eu disse-lhe que lhe retirasse a autorização, que não lhe permitisse exercer mais o sacerdócio e que desse início a um julgamento canónico no tribunal."
A humildade é garantia de que o Senhor está presente. "Quando alguém tem todas as respostas para todas as perguntas, é uma prova de que Deus não está com ele." A Igreja tem uma herança a preservar e que não pode negociar, mas é preciso, com tempo, "dar respostas com a herança recebida às novas questões de hoje."
terça-feira, 30 de abril de 2013
D. Clemente está quase a chegar a Lisboa
Notícia do JN de hoje. Reparem que, em relação ao CM de ontem, D. Manuel avançou um bocadinho para sul. E D. Policarpo ficou mais contente.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Anticlericalismo dos santos
Abbé Pierre como figura dos "Les Guignols de l'Info"
Na véspera da minha ordenação, quando me confessei ao padre Lubac, na encosta de Fourvière, tinha acabado de ser publicado o seu magnífico livro Catholicisme. Ofereceu-mo. Pedi-lhe que escrevesse qualquer coisa. E escreveu: "Amanhã, quando estiveres estendido sobre as lajes da capela para a ordenação, faz apenas um pedido ao Espírito Santo. Pede-lhe que te conceda o anticlericalismo dos santos".
Tentei aproveitar a lição...
Abbé Pierre, 1966
domingo, 24 de junho de 2012
O bispo argentino
Bernard Quiriny
Li há pouco tempo um espantoso conto, “O episcopado da
Argentina”, de Bernard Quiriny. Um dos melhores contos dos últimos tempos. Bem, outros
terão opinião diferente. Dei-o a ler a alguém muito chegado e essa pessoa deu nota fraquinha:
“Nada de especial”.
É narrado por uma senhora que entrou ao serviço do bispo de
San Julián em 1939. Fala de um bispo argentino. Não sei se existe tal diocese. Mas
de certeza que não existiu o caso narrado. Poderia resumir as 14 páginas do
conto em três ou quatro frases, mas estragava o prazer de potenciais
interessados na narrativa. De qualquer maneira, há um aspeto que posso já adiantar: a
reputação do bispo e as suas virtudes de homem de Igreja nunca estão em causa.
Perguntaram-me por que é que eu não escrevi sobre o bispo
argentino. Pronto. Está feito. Escrevi sobre o bispo argentino.
O resto do livro do autor belga, mas edições Ahab, é mesmo
muito bom para quem aprecia histórias entre o fantástico e o assombroso. Chama-se
“Contos Carnívoros”.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Crime no Vaticano, diz a "Sábado"
Na revista "Sabado" saída ontem devido ao feriado de hoje:
Sobre as discordâncias entre cardeais (dizem que tudo não passa de uma disputa entre Bertone e Sodano), leia-se a entrevista dada por Angelo Sodano a "L'Osservatore Romano". Aqui.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
"«Derechona» eclesiástica es sumamente dañina”
José Manuel Vidal
“La homofobia ideológica de la «derechona» eclesiástica es
sumamente dañina”, escreve o jornalista espanhol José Manuel Vidal, a propósito
de declarações contra os homossexuais e a homossexualidade de alguns membros do
clero espanhol (e chileno, reportando-se a D. Jorge Medina).
(…) Quando escuchan a obispos y cardenales como Reig y como Medina, se les parte el alma y se alejan de la Iglesia para siempre. Porque ya no es su casa. Porque en ella ya no se les quiere. Porque se les manda al infierno o a las clínicas. Por mucho que, después, para reparar el escándalo, vengan otros voceros oficiales diciendo que se les respeta.
¡Cuánto dolor sembrado! ¡Y cuánta hipocresía! Porque, el clero católico está lleno de gays. Es algo que todo el mundo sabe y que todo el mundo puede comprobar. Porque la homosexualidad es algo tan constitutivo de la persona que, a duras penas, se puede ocultar.
Y porque, durante siglos, la Iglesia se convirtió (y sigue siendo) una institución refugio de gays. Cumpliendo, en ese sentido, una cierta misión liberadora. Les proporciona uan salida, aunque el precio que tengan que pagar sea el silencio total o la expulsión. Ahora, hasta quieren prohibirles el acceso al sacerdocio. Simplemente por ser gays. Aunque, como los heterosexuales, acepten el celibato y prometan castidad. Dos varas de medir. Una discriminación más.
Si no tienen entrañas de misericordia, al menos que se callen estos jerarcas talibanes, que van sembrando dolor e indignación. Y falta de caridad.
Ler tudo aqui. Sobre a polémica, fiz aqui um apanhado.
Por outro lado, João César das Neves tenta pôr água na fervura.
Por outro lado, João César das Neves tenta pôr água na fervura.
Aqui surge uma segunda confusão entre discriminação e opinião. Existe realmente o crime grave de homofobia, que consiste no tratamento injusto, ou pior a agressão, a alguém por opção sexual. Isso é muito diferente da opinião que cada um possa ter sobre essa actividade. Chamando "homófobo" a quem quer que, sem prejudicar ninguém, considere a prática uma perversão, confundem-se as coisas e comete-se uma outra discriminação, aqui por delito de opinião. Também existem no mundo graves perseguições contra católicos, que não podem ser confundidas com o repúdio particular por essa religião, manifestado de forma civilizada. A fúria actual contra qualquer pessoa que não alinhe com a visão dominante da naturalidade e equivalência de todas as opções sexuais é, ela sim, uma forma grave de totalitarismo cultural.Ler tudo aqui, no DN.
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Onde encontrar vocações
No JN de hoje, ainda sobre as vocações para padre. O Bispo de Coimbra vai no sentido certo - as vocações para o serviço à Igreja procuram-se no interior da Igreja. Aliás, isso já é feito na vocação para diácono permanente, bispo, cardeal e papa, por exemplo. Ninguém se propõe ser qualquer destas coisas. Pelo menos abertamente. Pelo contrário, aceita-se ou não o convite de outros para o ser. Por que não há-de ser assim com o ser padre? Entre os que são crentes, escolhe-se aquele ou aquela, casado/a ou solteiro/a, para presidir à Eucaristia. Lá chegaremos.
terça-feira, 10 de abril de 2012
Humor papal ou da vantagem de ter cabelos brancos na cabeça
Bento XIV
- Como se explica que eu tenha a barba branca enquanto o cabelo da cabeça continua negro?
O Papa respondeu-lhe:
- É muito simples. Trabalhaste mais com as mandíbulas do que com o cérebro.
sábado, 10 de março de 2012
Anselmo Borges: Ciência, espiritualidade e justiça
Artigo de Anselmo Borges no DN de hoje.
Quando se fala da Igreja e do mundo, há, à partida, um equívoco fundamental: a Igreja e as pessoas na Igreja querem dialogar com o mundo, como se também elas não fossem mundo. Ora, há um só mundo, no qual vivemos todos. Os cristãos também vivem neste único mundo, mas a partir da perspectiva do Deus revelado em Jesus Cristo. E dialogam com os outros, dando e recebendo luz, na procura comum da verdade e do sentido.
O equívoco alarga-se e aprofunda-se com o perigo de os "quadros" da Igreja - padres, bispos, papa - poderem viver dentro de um mundo muito artificial: de modo geral, nascem dentro de famílias católicas tradicionais, são formados em ambientes fechados, seguem uma carreira sem riscos, não vivem intensamente o que constitui o grosso das preocupações das pessoas: emprego, filhos, casa...
Foi, pois, para mim gratificante a entrevista de Leandro Sequeiros, um jesuíta que acaba de jubilar-se, após quase 50 anos vividos no meio universitário, a José Manuel Vidal. Trabalhou em cinco Universidades, dedicado sobretudo à Paleontologia. Daí, a afirmação: "A vida não se pode explicar a não ser a partir do ponto de vista da evolução."
Nunca deixou de acreditar em Deus. "A minha fé em Deus não é um puro assentimento racional a um credo abstracto. Deus não é uma ideia. Tão-pouco uma divindade difusa no oceano dos confins do cosmos, como defende a New Age. O meu ponto de partida é a adesão e o seguimento de Jesus de Nazaré. A sua relação com o Pai é que me ensinou a saber o que é Deus. Há uma experiência interior que se vai consolidando, encarnando e com que se convive amorosamente. O grande problema de muitos cientistas é que mantêm uma imagem infantil de Deus e essa imagem não se dá bem com a maturação de uma visão científica do mundo. O conflito cognitivo não se resolve e quebra na parte mais débil: a experiência interior. Sem vida interior, não é possível crer. Mas essa vida interior não é intimista, ausente da realidade. A experiência de Deus deve alimentar-se da experiência humana, do contacto com a vida, com a realidade dura, com as mordeduras na própria carne da injustiça de um mundo desigual. O clamor das vítimas sobe até Deus e alimenta a nossa consciência profunda."
Portanto, "ciência, liberdade e justiça não são três mundos incomunicáveis". Pelo contrário, "não se pode ser cristão, sem ser desesperadamente humano". A ciência sem espiritualidade está vazia, dizia Einstein, mas "uma espiritualidade que não brota do contacto com a vida, com as injustiças de inumanidade, não é espiritualidade". Assim, "todo o ser humano deve viver do seu trabalho. Para mim, a Universidade era, entre outras coisas, um posto de trabalho", dependendo de um contrato.
O nível intelectual está em baixa na Igreja? Algo que é fundamental: "Para poder exercer como intelectual, é necessário ter muita liberdade de espírito e muita maturidade. Com arrogância ou com medo, não se pode exercer de intelectual. E correm maus tempos para a liberdade."
Muitos dos seus contactos são pessoas que consideram a Igreja uma instituição longínqua. "Mas creio que da parte da Igreja há um excesso de preocupação com este assunto. A vida é muito mais ampla do que as capelinhas." Como ter afeição por instituições religiosas fechadas em problemas que nada têm a ver com a vida? "A vida humana plena e libertadora é muitas vezes maior e primaveril do que a que se oferece a partir das instituições." Como declarou António Gala, "desejo que, quando morrer, na minha lápide escrevam: 'morreu vivo'".
Convida à autocrítica: "aprendemos a viver num mundo plural e secular?" A verdade é que "sedução evangélica" só se vê em grupos à margem das Igrejas e das religiões. Por isso, "vários movimentos propugnam a convocação de um Vaticano III, e outros, mais ambiciosos, sonham com uma grande Assembleia inter-religiosa, na qual as religiões debatam o seu lugar nesta sociedade complexa". De qualquer modo, "ninguém deve ter privilégios: nem as Igrejas nem os partidos nem os políticos nem as culturas. Numa sociedade igualitária, são os Direitos Humanos que devem ser a norma de conduta".
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Anselmo Borges: O Papa e as intrigas no Vaticano
"Desculpem, Reverências e Eminências, mas a Igreja não vai com púrpura, barretes cardinalícios e intrigas de poder. Só com o Evangelho".
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.
Dizia-me uma vez em Bruxelas, admirado e pesaroso, um ilustre teólogo da Universidade de Lovaina (Joseph Ratzinger até o cita num dos seus livros sobre Jesus de Nazaré; não é herege): "Como é que foi possível o movimento desencadeado por Jesus, essa figura simples e amiga dos pobres, que acabou crucificado, desembocar no Vaticano, com um Papa chefe do Estado?" Entende-se, quando se estuda a História, mas é preciso reconhecer a tremenda ambiguidade da situação e o perigo constante de traição da mensagem cristã.
Hoje, concretamente, como já aqui chamei a atenção, citando o livro de Hans Küng, Ist die Kirche noch zu retten? (A Igreja ainda tem salvação?), a Igreja Católica, a maior, a mais poderosa, a mais internacional Igreja, essa grande comunidade de fé, está "realmente doente", "sofre do sistema romano de poder", que se caracteriza pelo monopólio da verdade, pelo juridicismo e clericalismo, pelo medo do sexo e da mulher, pela violência espiritual.
Ora, a Igreja não pode entender-se como um aparelho de poder ou uma empresa religiosa; só como povo de Deus e comunidade do Espírito nos diferentes lugares e no mundo. O papado não tem de desaparecer, mas o Papa não pode ser visto como "um autocrata espiritual", antes como o bispo que tem o primado pastoral, vinculado colegialmente com os outros bispos.
A Igreja tem de fortalecer as suas funções nucleares: oferecer aos homens e mulheres de hoje a mensagem cristã, de modo compreensível, sem arcaísmos nem dogmatismos escolásticos, e celebrar os sacramentos, sem esquecer o dever de assumir as suas responsabilidades sociais, apresentando à sociedade, sem partidarismos, opções fundamentais, orientações para um futuro melhor.
Não se trata de acabar com a Cúria Romana, mas de reformá-la segundo o Evangelho. Essa reforma implica humildade evangélica (renúncia a títulos como: Monsignori, Excelências, Reverências, Eminências...), simplicidade evangélica, fraternidade evangélica, liberdade evangélica. E é necessário mais pessoal profissional, acabando com o favoritismo. De facto, esta Igreja é altamente hierarquizada e ao mesmo tempo caótica. Quem manda no Vaticano? "Conselheiros independentes haverá poucos." Precisa-se de transparência nas finanças da Igreja.
Acima de tudo e em primeiro lugar, é preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. De facto, em síntese, a Igreja é a comunidade dos que acreditam em Cristo: "A comunidade dos que se entregaram a Jesus Cristo e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo. A Igreja torna-se crível, se disser a mensagem cristã não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus. Toda a sua credibilidade depende da fidelidade a Jesus Cristo".
Problema maior é a Cúria. O cardeal Walter Kasper, referindo o actual péssimo clima no Vaticano, que causa "confusão" entre os fiéis, disse que Bento XVI anda "muito triste". E tem razões para isso. O paradoxo é este: o papado é a última monarquia absoluta do Ocidente, mas o Papa não controla a Cúria. Duas cartas do núncio apostólico nos Estados Unidos denunciam corrupção ao mais alto nível no Vaticano. Agora, em finais de pontificado, começaram já as intrigas maquiavélicas e as lutas pelo poder, no sentido de manobrar a sucessão, tendo-se chegado até a falar numa conspiração para matar o Papa.
Neste contexto, o Papa lembrou, no passado Sábado, aos novos cardeais que "domínio e serviço, egoísmo e altruísmo, posse e dádiva, interesse próprio e generosidade: estas lógicas profundamente opostas confrontam-se em todas as épocas e em todos os lugares. E não há dúvida nenhuma sobre a via escolhida por Jesus". Recomendou que "renunciem ao estilo mundano de poder e de glória". "O serviço de Deus e a doação de si é a lógica da fé, que está em contradição com o estilo mundano".
Desculpem, Reverências e Eminências, mas a Igreja não vai com púrpura, barretes cardinalícios e intrigas de poder. Só com o Evangelho.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Dois bispos transformados em números
Na revista de domingo do "Correio da Manhã" (5 de fevereiro). O novo Bispo de Lamego.
Aproveito para acrescentar a página saída na mesma revista, no dia 24 de julho, para gáudio de uma série de frequentadores deste blogue.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
D. José Cordeiro na Notícias Magazine
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Um filtro preocupante
Notícia do DN de hoje. Para lá da efectiva preocupação da Igreja belga em proteger as crianças, respondendo às directivas da Santa Sé, o que significa a medida? Que o sacerdócio ministerial como é concebido actualmente atrai pedófilos? Atrai jovens com medo da intimidade heterossexual, como diz o psicólogo da notícia? Parece-me que esta medida preventiva só esconde um problema muito maior. Um filtro que, pretendendo resolver um problema, revela que as suas causas permanecem.
terça-feira, 31 de maio de 2011
30 de Maio de 1834. Promulgação da lei que expulsa de Portugal as ordens religiosas
Estátua do Mata-Frades, no Largo da Portagem, Coimbra
No dia 30 de Maio de 1834 o ministro dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça promulga uma lei que declara extintos “todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e quaisquer outras casas das ordens religiosas regulares”. Os bens destas instituições são secularizados e nacionalizados.
Esta lei valeu a Joaquim António de Aguiar (1792 – 1884) a alcunha de “Mata-Frades”.
Uma das inesperadas consequências culturais desta lei, além da dispersão e destruição das preciosas bibliotecas conventuais (ver aqui como foi vendido ao desbarato o Mosteiro de Tibães, casa-mãe dos beneditinos em Portugal), por exemplo, foi que ao expulsar os religiosos ou obrigá-los a integrar o clero diocesano, destruiu-se o ensino médio, que estava nas mãos das instituições religiosas. Passou mais de uma década até que o barbeiro e o boticário, à falta de frades cultos e de um ensino estatal organizado, começassem a ensinar o que o pouco que sabiam aos jovens portugueses.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Um estudo sobre a pedofilia e a descrença na mudança
A opinião do novo Prémio Camões, de quem citei há dias um poema (ver aqui) é capaz de não ser a mais esclarecida. Leia-se, sobre esse estudo, um artigo que saiu no "National Catholic Reporter" e que está traduzido em português.
O relatório de 300 páginas, formalmente intitulado As Causas e o Contexto do Abuso Sexual de Menores por Padres Católicos nos Estados Unidos, 1950-2010, derruba uma série de equívocos populares. Enquanto alguns contestarão a metodologia do relatório – e notar que os bispos dos EUA pagaram metade do preço de tabela estimado em 1,8 milhão de dólares –, o estudo Causas e Contexto é claramente um marco na investigação dos abusos sexuais de crianças.
Ler tudo aqui.
Penso, no entanto, que a questão da pedofilia, como qualquer outra que tenha a ver com a sexualidade dos clérigos, põe em causa o celibato, a formação sacerdotal e a instituição que o mantém. A única maneira de a pedofilia e outra qualquer forma de perversão não ter a ver com a instituição é assumir que a sexualidade de cada membro do clero tem apenas a ver com a privacidade de cada um, dentro dos limites das leis comuns do Estado e, claro, da moral cristã - o que naturalmente seria o fim do celibato como obrigação, não certamente como opção individual.
Leia-se também o texto de David Clohessy (director da Rede de Sobreviventes dos Abusados por Padres - SNAP, na sigla em inglês), que apareceu no jornal norte-americano acima referido: Dez razões pelas quais as novas diretrizes do Vaticano sobre pedofilia vão mudar pouco.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
"Padre Júlio era um padre especial", texto de Manuel Alegre
Uma boa passagem para lembrar o 25 de Abril, que em Portugal é feriado devido à revolução de 1974 (breve explicação para quem lê este blogue a partir de Pindorama: a também chamada revolução dos cravos pôs fim a 48 anos de ditadura, uma ditadura que tanto contou com o apoio da Igreja católica como teve em alguns dos seus membros os mais destacados opositores), e em Itália é vivido como a “Festa della Liberazione”, comemorando a libertação da Itália, por expulsão dos alemães pela resistência italiana, em 1945, no final da II Guerra Mundial (Mussolini é executado pela resistência no dia 28 de Abril de 1945):
Padre Júlio era um padre especial, diga-se desde já. Vociferava contra os ricos e transformava cada homilia num inferno de caldeirões e almas a arder. Pregava contra os pecados da carne e do dinheiro, mas almoçava sempre em casas de boa mesa. Era visto de mãos dadas com senhoras devotas. Dizia mal da política e dos políticos, mas era membro do partido único, a União Nacional. Parecia um revolucionário, mas fazia frequentemente o elogio de Mussolini. Era um padre original.
Quando Xavier lhe confessou as dúvidas sobre a existência de Deus, ele respondeu-lhe: E quem é que as não tem?
Excerto de “A Terceira Rosa”, romance de Manuel Alegre
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