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quarta-feira, 16 de julho de 2014

domingo, 19 de janeiro de 2014

Bento Domingues: "Consciência ecuménica, consciência baptismal"

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje (aqui):

1. A urgência do diálogo ecuménico nasceu, nos finais do séc. XIX, nas chamadas terras de missão, para vencer o contratestemunho das igrejas cristãs divididas que se hostilizavam no anúncio do Evangelho da paz. As vicissitudes do movimento ecuménico já foram historiadas.

Em 1948 foi fundado o Conselho Mundial das Igrejas, em Amesterdão, que tem a Sede internacional em Genebra. É a principal organização ecuménica, com mais de 350 igrejas e denominações, presente em mais de 120 países, excedendo os 500 milhões de fiéis. Trabalha-se, desde há algum tempo, na criação de um Fórum Cristão Global que reúna, sem vínculos institucionais, à volta de uma só mesa de diálogo, as grandes famílias cristãs: ortodoxa, católica, anglicana e protestante.

Resultado: esquece-se a falta que os outros nos fazem, para comungar em experiências que nos poderiam provocar a descoberta de caminhos para a fé cristã, que nem suspeitamos. A maioria dos cristãos nada sabe das outras tradições eclesiais, a não ser os lugares-comuns de desconfiança mútua, transmitidos em casa ou nas igrejas. A verdadeira falta de ecumenismo entre as igrejas cristãs é uma falta de cristianismo e não apenas de inconvenientes a propósito de baptismos e casamentos que se resolvem de forma mais ou menos burocrática.

Em certas zonas do mundo, o cenário é devastador: matam-se os cristãos sem perguntar pela identidade eclesial. O cristianismo está a ser completamente eliminado. É urgente um ecumenismo global de socorro.

2. Mais abrangente é o Parlamento Mundial das Religiões. Nasceu em Chicago, em 1893, para fomentar o diálogo inter-religioso. Cem anos depois, voltou a reunir-se na mesma cidade. A 4 de Setembro de 1993, foi assinada a Declaração das Religiões para uma Ética Global, preparada pelo teólogo Hans Küng, guiado pela convicção, que tem justificado e desenvolvido, condensada no aforismo: sem paz entre as religiões, não há paz entre as nações. Parte de uma verificação: o mundo está a experimentar uma crise fundamental e global: na economia, na ecologia e na política. Por toda a parte se verifica a falta de grandes visões, o emaranhado de problemas não resolvidos, a paralisação e as lideranças políticas medíocres, com pouca visão interna e externa e, em geral, muito pouco sentido do bem comum. Centenas de milhões de seres humanos sofrem cada vez mais com o desemprego, a fome e a destruição das suas famílias. Crianças morrem, matam e são mortas. Há cada vez mais países abalados pela corrupção na política e nos negócios. Devido aos conflitos sociais, raciais e étnicos, ao abuso de drogas, ao crime organizado e, até, à anarquia torna-se cada vez mais difícil viver em paz nas nossas cidades. Por vezes, mesmo entre vizinhos, vive-se com medo uns dos outros. O nosso Planeta continua a ser escandalosamente destruído. Embora a esperança de uma paz duradoura entre as nações nos pareça cada vez mais afastada, sabemos que não é por falta de recursos, de ciência e de técnica que se arrastam mundos mergulhados na miséria e na violência. É por falta de vontade política, de sabedoria e de ética.

3. O Movimento Ecuménico português já apresentou serviço: representantes das Igrejas Católica, Lusitana, Presbiteriana, Metodista e Ortodoxa, em Portugal, irão assinar, no próximo dia 25, em Lisboa, uma declaração de reconhecimento mútuo do baptismo. Ainda bem.

A Capela Sistina é conhecida, venerada e visitada pela sua extraordinária beleza. Aí reúnem-se os cardeais para escolher o futuro bispo de Roma, o papa. Mais importante do que eleger um papa é celebrar um baptismo, a transformação cristã da vida. O Papa Francisco resolveu estabelecer a verdadeira hierarquia no Vaticano. No domingo passado, baptizou o filho de uma mãe solteira e a filha de um casal, casado apenas pelo civil, nessa Capela. Não é muito usual. Perante varias mães, pais e 32 crianças, chamou a atenção para a nova orquestra: “Hoje o coro vai cantar, mas o coro mais belo é o das crianças. Algumas delas irão chorar porque têm fome ou porque não estão confortáveis. Estejam à vontade, mamãs: se elas tiverem fome, dêem-lhes de comer, aqui elas são as pessoas mais importantes”. Este Papa já tinha afirmado que as mães não deviam ter problemas em dar de mamar aos seus filhos, durante as cerimónias papais.

Bergoglio quer abrir ao mundo, um futuro novo, mesmo a partir do Vaticano. Quem não gosta das suas inovações, irá sempre encontrar algum precedente para desvalorizar estes atrevimentos. O que importa é subverter a desordem estabelecida, que se tinha transformado numa ordem sagrada.

 O Papa mandou uma carta aos futuros cardeais: “O cardinalato não significa uma promoção nem uma honra nem uma condecoração, é simplesmente um serviço que exige ampliar o olhar e alargar o coração”.

Ai minha Nossa Senhora!

sábado, 30 de março de 2013

Anselmo Borges: "Francisco, Bismarck e as bem-aventuranças"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Numa obra cimeira, "Ser e Tempo", Martin Heidegger, um dos maiores filósofos do século XX, retoma a famosa fábula de Higino sobre o cuidado. O texto latino da fábula conta como Cuidado modelou uma figura a partir do barro, pedindo depois a Júpiter que lhe insuflasse o espírito, levantando-se então uma disputa sobre quem deveria dar o nome a essa figura, pois esse direito era reclamado por Cuidado, por Júpiter e pela Terra. No meio da contenda, foi escolhido Saturno como juiz, que assim decidiu: o nome para a nova criatura será "homem", pois foi feito a partir da terra, "ex humo" (em latim); na morte, Júpiter receberá o seu espírito e a Terra acolherá o corpo. Mas quem o manterá e terá solicitude com ele enquanto viver será Cuidado. Saturno (o Tempo) escolheu Cuidado precisamente pelo papel decisivo que cuidar desempenha na formação, desenvolvimento e manutenção do ser humano até à morte, incluindo o morrer. Para Heidegger, o cuidado é um existenciário, estrutura originária da existência. O que é a existência sem o cuidado, cuidar e ser cuidado?

No passado dia 19, na Missa do início do ministério petrino do bispo de Roma - já não se fala em entronização -, o Papa Francisco dedicou a homilia precisamente ao cuidado. E disse que os cristãos guardam Cristo na sua vida, "para guardar os outros, salvaguardar a criação".

Mas a vocação para cuidar, preveniu, "não diz respeito só aos cristãos, tem uma dimensão que antecede e que é simplesmente humana, diz respeito a todos. É cuidar de toda a criação, da sua beleza, como nos é dito no Génesis e como nos mostrou São Francisco de Assis: é ter respeito por toda a criatura de Deus e pelo meio ambiente em que vivemos. É o cuidar das pessoas, cuidar de todos, de toda a pessoa, com amor, especialmente das crianças, dos velhos, dos que são mais frágeis e que muitas vezes estão na periferia do nosso coração. É cuidar uns dos outros na família: os esposos cuidam um do outro; depois, como progenitores, cuidam dos filhos e, com o tempo, também os filhos assumem o cuidado dos pais. É viver com sinceridade as amizades, que são um cuidar recíproco, na confiança, no respeito e no bem. No fundo, tudo está confiado à guarda do ser humano, e é uma responsabilidade de todos. Quando não nos preocupamos com a criação e com os irmãos, então ganha terreno a destruição e o coração torna-se árido", "surgem planos de morte, destrói-se e desfigura-se o rosto do homem e da mulher."

E Francisco Papa pediu um favor a todos quantos ocupam lugares de responsabilidade no âmbito político, económico ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: "por favor, sejamos 'guardiões' da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do meio ambiente; não deixemos que os sinais de destruição e de morte acompanhem o caminho deste nosso mundo".

Mas, lembrou, para "cuidar e guardar", precisamos de "cuidar também de nós mesmos. Recordemos que o ódio, a inveja, a soberba sujam a vida", e é do coração que "saem as intenções boas e más: as que constroem e as que destroem". E teve esta afirmação inesperada num Papa: "Não devemos ter medo da bondade; mais ainda: nem sequer da ternura." Acrescentou: "O preocupar-se, o guardar, o cuidar requerem bondade, pedem ser vividos com ternura." A ternura não é "a virtude dos débeis; pelo contrário, denota fortaleza de ânimo e capacidade de atenção, de compreensão, de verdadeira abertura ao outro, de amor. Não devemos ter medo da bondade, da ternura".

O bispo de Roma, sucessor de Pedro, "também tem um poder", mas "nunca esqueçamos que o verdadeiro poder é o serviço".

Pela simplicidade, humildade, cordialidade, serviço, Francisco conquistou a simpatia de todos, crentes e não crentes. O Evangelho avança como notícia boa e felicitante. Mas a Igreja é também uma estrutura complexa e um destes dias Francisco vai confrontar-se com o seu governo e ter de fazer reformas profundas na Cúria Romana, reconduzida "até novas ordens". Aí, enfrentará problemas, pois, como se diz, já Bismarck se queixava, porque com as bem-aventuranças não conseguia governar a Prússia.

Páscoa feliz!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Bispos católicos poluem mais do que protestantes - na Alemanha


Deixem esse e tragam outro que polua menos. Karl Lehmann

Os carros dos bispos católicos poluem mais do que os dos bispos evangélicos (169 gramas de emissões de CO2 por quilómetro dos católicos contra 140 dos evangélicos).

Dos 47 que responderam ao inquérito de uma associação ambientalista, apenas cinco, todos eles protestantes, respeitam o limite europeu de emissões que é de 130. 19 apanham com o “cartão amarelo” e 23 recebem o “vermelho”.

O menos poluidor é Jochen Bhol, da Igreja Evangélica da Saxónia. Anda de Mercedes Classe E híbrido. 

Dos 23 "reprovados", dois provêm da Igreja Evangélica, 21 da Igreja Católica. O último da lista é o cardeal Karl Lehmann, bispo de Mainz e ex-presidente da Conferência Episcopal da Alemanha. O seu Mercedes Classe R a diesel emite 223 gramas de CO2 por quilómetro.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O meu carro é mais papista do que o teu


A Renault ofereceu um carro elétrico ao Papa, notícia do DN de hoje, mas a germano-católica Mercedes já prepara um papamóvel híbrido. E Bento XVI, que decerto preferia estar com os seus livros nos tempos livres, lá tem de fazer o frete.


sábado, 30 de junho de 2012

Anselmo Borges; A caminho do Vaticano III?

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (tirado daqui).

Juan José Tamayo

Durante esta semana, em Santander, na UIMP (Universidade Internacional Menéndez Pelayo), realizou-se um Curso de Verão sobre os 50 anos do Concílio Vaticano II (1962-1965). A direcção pertenceu ao teólogo Juan José Tamayo.

O Concílio foi um enorme acontecimento. Sem ele, é inimaginável a situação da Igreja Católica e, consequentemente, dada a sua influência no mundo, também do próprio mundo. Como sublinhou Tamayo, operaram-se grandes transformações:

De uma Igreja que se considerava uma sociedade perfeita passou-se à Igreja como comunidade de crentes. Do mundo como inimigo da alma ao mundo como lugar da vivência da fé. Da condenação da modernidade e das religiões não cristãs ao diálogo multilateral. Da condenação dos direitos humanos ao seu reconhecimento e proclamação. Da condenação da secularização à sua defesa, no sentido do reconhecimento da autonomia das realidades temporais. Da Igreja imutável e imóvel à Igreja que deve estar em constante reforma. Do integrismo católico ao respeito pelas outras crenças. Do autoritarismo centralizado em Roma à colegialidade episcopal. Da Cristandade ao cristianismo. Da pertença à Igreja como condição necessária para a salvação à liberdade religiosa como direito humano fundamental. De uma Igreja europeia a uma Igreja verdadeiramente universal.

Houve limites? Alguns, maiores: apesar de certa abertura ao mundo, o seu carácter eurocêntrico - o horizonte de compreensão foi a modernidade europeia e, nesse quadro, a problemática da crise de Deus no mundo ocidental e o fenómeno da descrença -, e a não centralidade da opção pelos pobres, não se dando a devida atenção às maiorias populares do Terceiro Mundo. O Ocidente acabou por ser o destinatário principal do Concílio. Depois, o antropocentrismo exacerbado fez com que a problemática da ecologia fosse ignorada.

Alguns temas foram silenciados. O Papa Paulo VI impediu que o tema do celibato dos padres fosse debatido - mais tarde, num Sínodo Episcopal, submeteu-o a votação, mas a maioria dos bispos opôs-se. O lugar das mulheres na Igreja e, concretamente, a sua ordenação, bem como o controlo da natalidade, foram arredados do debate.

No dizer de Tamayo, "o Concílio foi uma curta Primavera a que se seguiu um longo Inverno, que dura há mais de 40 anos". Perante os excessos de então, Paulo VI, que tinha convictamente levado a termo o Concílio, mas que era um intelectual hesitante, teve receio e começou a pôr algum travão, numa história de avanços e recuos. Depois, já com João Paulo II, avançou a involução e pôs-se em marcha "um programa calculado de restauração". Acentuou-se o carácter hierárquico-papal da Igreja, limitou-se a liberdade de investigação teológica, muitos teólogos foram condenados, passou-se do pensamento crítico ao pensamento único e dogmático, a Cúria readquiriu poder, os bispos conciliares foram sendo substituídos por bispos fiéis ao neoconservadorismo e ao Vaticano.

Com Bento XVI, que constituiu uma surpresa pela sua humanidade, por medidas fortes contra o clero pedófilo, pela admiração por parte dos intelectuais, o caminho da involução continua: aí estão a restauração da Missa em latim, as negociações com os lefebvrianos, a condenação de teólogos, a centralização.

Perante a grave crise que atravessa hoje a Igreja, muitos reclamam um novo Concílio: um Vaticano III, convocado por um João XXIV. Mas há quem, para lá de outras objecções, lembre a questão financeira: um novo Concílio seria demasiado caro.

Pergunta-se, então, se não deveria dar-se, pelo menos, a convocação dos Presidentes de todas as Conferências Episcopais do mundo - há quem, com razão, questione a utilidade do cardinalato -, para resolver problemas urgentes: os escândalos no Vaticano, a questão do celibato, o lugar da mulher na Igreja, reformas das estruturas eclesiásticas, maior descentralização, uma linguagem nova para a expressão da fé, questões novas postas pela globalização e pelas novas tecnologias, tanto no domínio da comunicação como no da vida.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Diz um planeta para o outro...



Dois planetas encontram-se algures no universo.

O primeiro pergunta: "Como você está?".

O outro responde: "Muito mal. Estou doente. Tenho homo sapiens". 

O primeiro responde: "Sinto muito. É uma coisa terrível. Eu também tive. Mas não se preocupe que passa!"

Piada retirada de um artigo de Moltmann (aqui). Obrigado a Pedro José.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Catalina Pestana e as joaninhas de S. Francisco

Texto de Catalina Pestana no "Sol" de hoje. A primeira parte é para encher papel, mas depois tem duas outras ideias que valem a pena. E inclui joaninhas.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Anselmo Borges: Ética ecológica

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

É significativo que, até pela via etimológica, ética e ecologia estão relacionadas. De facto, ética vem do grego êthos, que significa costumes e morada; ecologia provém de duas palavras gregas (oikos, casa, e lógos, razão, discurso) e significa tratado da casa, também em conexão com economia (oikos e nómos, lei), a lei da casa.


Logo pela etimologia se vê a importância decisiva do tema, pois é da nossa casa e do cuidado por ela que se trata. O debate tem-se tornado premente por causa da crise ecológica: alterações climáticas, contaminação do ar, do solo e da água, desertificação, extinção de espécies.


A responsabilidade ética é evidente, mas não é fácil responder a perguntas que se colocam neste domínio. Por exemplo: como se fundamentam os nossos deveres para com a natureza? Somos obrigados a cuidar dela por causa de nós ou porque ela tem valores objectivos?

Ler tudo aqui.

domingo, 3 de outubro de 2010

3 de Outubro de 1226. Morre Francisco de Assis

Placa numa rua de Assis

Francisco de Assis, a “luz que brilhou sobre o mundo”, segundo expressão hiperbólica de Dante (no Evangelho de João diz-se o mesmo sobre o Verbo), e que inspirou uma das obras de Saramago, por exemplo, morreu no dia 3 de Outubro de 1226, aos 44 anos. Amanhã é dia de S. Francisco. E dos animais e da ecologia, mas por causa do santo de Assis.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Os novos cavalos

Churchill dizia que uma hora a cavalo é sempre bem passada. Depurava as ideias. Nós que não somos tão aristocráticos, teremos sempre as bicicletas.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Somos muitos ou somos poucos?

Em "A Criação. Um apelo para salvar a vida na Terra" (apelo de um cientista aos crentes para que cuidem mais do planeta; por enquanto há uma imagem deste livro ali ali ao lado), de E. O. Wilson, escreve-se a certa altura que a biomassa humana é "invisivelmente pequena". "É matematicamente possível empilhar todas as pessoas que existem na Terra num único contentor cúbico com 1,6 km de lado e enfiá-lo longe da vista numa parte remota do Grand Canyon" (pág. 45). Diz também que o ser humano tornou-se uma força geofísica (daí o problema ecológico). Mas realço o ponto: cabemos todos num espaço muito pequeno.

Aplicando ao nosso país, reparo que se formos 7 mil milhões (7 000 000 000 - mas ainda não somos tantos; os relógios da população mundial dizem que somos uns 6,8 mil milhões) cabemos todos no Alentejo, se a cada um for dado um metro quadrado de superfície. Aliás, cabemos todos e mais 21 mil milhões. Num país como Portugal, caberia a população toda 13 vezes. Ou, por outros números, 92 mil milhões de pessoas, já que temos 92 mil quilómetros quadrados de superfície.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Deus e a ciência, mas também a ecologia e Lévinas

O número de Janeiro-Fevereiro do “Le Monde des Religions” (n.º 39) não é interessante apenas pelo grande tema de capa, dossiê, “Deus e a Ciência”, brilhantemente desenvolvido pelo editorial de Frédéric Lenoir (com críticas quer para o “delírio criacionista” quer para Richard Dawkins e a sua tentativa de provar cientificamente a não-existência de Deus) e por, entre outros textos, um debate entre Jean Staune (que diz que “o mundo não é ontologicamente suficiente”) e André Comte-Sponville (que diz que “passar dos problemas científicos para um discurso religioso sobre a transcendência” é uma “escroquerie intellectuelle”).

Interessa também pelo ensaio sobre “ecologia e religiões” e pelas “três chaves para compreender Emmanuel Lévinas”. E as três chaves são: o rosto, o amor e a morte.

Bento Domingues referiu-se a esta publicação na sua última crónica e inspira-se grandemente no editorial de Frédéric Lenoir.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

21 de Dezembro de 1933. Morre o Padre Himalaya, grande inventor, pioneiro da ecologia em Portugal


Padre Manuel Himalaya

Manuel António Gomes nasceu em Santiago de Cendufe (Arcos de Valdevez), no dia 9 de Dezembro de 1868, e morreu em Viana do Castelo, no dia 21 de Dezembro de 1933, vítima mielite (bloqueamento dos impulsos nervosos), talvez por auto-envenenamento, uma vez que costumava experimentar em si próprio plantas medicinais. Era vegetariano.

No Seminário de Braga, acrescentou ao seu nome “Himalaya” – no início, uma alcunha posta por um colega devido à sua grande estatura.


Ao Padre Himalaya devem-se duas grandes invenções: o Pireliófero e a Himalayite.


O Pireliófero (“eu trago fogo do sol”) é um aparelho que concentra a energia solar até aos 3500 graus. Servia para fundir metais ou rochas. Na Exposição Universal de São Luís (EUA), o invento obteve duas medalhas de ouro e uma de prata. Com a febre actual pela energia solar, o que faria o Padre Himalaya?


A Himalayite é uma pólvora sem fumo, de baixo custo, resistente ao choque. Chegou a ser usada pelo exército norte-americano.


O Padre Himalaya concebeu ainda um plano para irrigar todo o país, inventou um novo tipo de farinha, e fez modificações em motores.


O sítio Naturlink, num longo artigo, apresenta-o como pioneiro da ecologia em Portugal. Ver aqui.


Pireliófero

domingo, 20 de dezembro de 2009

O Concílio de Copenhaga, por José Diogo Quintela


Por vezes aponto aqui a aplicação de termos de origem religiosa a outros contextos e situações. A de hoje vem na revista Pública (do Público) de hoje. Já é habitual o uso da linguagem religiosa por José Diogo Quintela. Haverá quem não goste, mas do que tenho observado, o humorista faz um uso inteligente das referências religiosas. Não dá para escandalizar. E dá para rir. Eu acho.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

D. Carlos Azevedo: Às voltas com o Planeta

D. Carlos Azevedo, na sua coluna do Correio da Manhã, escreve sobre crise ecológica e crise moral, invocando a Cimeira de Copenhaga, a mais recente encíclica de Bento XVI ("A Caridade na Verdade") e a mensagem do mesmo Papa para o dia 1 de Janeiro de 2010, "Se queres cultivar a paz, preserva a criação".

O texto foi retirado daqui.

Passou o tempo de pagar a quem ridicularizasse as ‘questões verdes’. Já não há lugar para desvalorizar a consciência ecológica, que implica a responsabilidade de todos, como "problema social de grande envergadura". Assim o revelou a Cimeira de Copenhaga, na Dinamarca, que termina hoje com a presença de delegados de 192 países. Só a quantidade de países, quase totalidade do mundo, é por si extremamente significativa da gravidade do problema ecológico.

É fundamental uma palavra credenciada para orientar a reflexão, dado que sobre o tema do clima e da salvaguarda da criação há muita confusão, diversidade de visões, de análises e até de explicações científicas. A ciência parece vendida a quem lhe encomenda o estudo ou o parecer! Realmente, qual a evolução, qual a gravidade, qual o peso das intervenções humanas na evolução do Planeta? Bento XVI dedica a sua mensagem para o dia 1 de Janeiro de 2010, Dia Mundial da Paz, ao tema ‘Se queres cultivar a paz, preserva a criação’.

Ora, é impossível ignorar a preocupação não alarmista, mas fidedigna, que o desleixo ou mesmo o abuso em relação à terra e aos bens naturais está a causar. "Seria irresponsável não tomar em séria consideração" o apelo a uma nova solidariedade que atinja uma renovação cultural profunda. Na linha do que Bento XVI afirmou na ‘Caritas in Veritate’, a crise ecológica só pode ser avaliada por uma "revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento e também reflectir sobre o sentido da economia e dos seus objectivos, para corrigir disfunções e deturpações".

Dado que o ‘estado da saúde ecológica’ se inter-relaciona com as outras crises, como a crise moral, impõe-se um modo de viver "marcado pela sobriedade e solidariedade, com novas regras e formas de compromisso". É este discernimento que os governantes do mundo têm imperiosamente o dever de operar de modo responsável pelo futuro das novas gerações. O ser humano não é um igual entre os seres vivos. Somos guardiães da criação e não podemos cruzar os braços. "Quando cuidamos da criação, verificamos que Deus, através da criação, cuida de nós." Atravessa a mensagem papal um vivo apelo à responsabilidade ecológica de todos os cidadãos. A degradação ambiental questiona comportamentos e estilos de vida, modelos de consumo e de produção. Só uma "real mudança de mentalidade" salvará o Planeta. Divulguem-se modelos positivos que inspirem a educação para a responsabilidade ecológica.

D. Carlos Azevedo, Bispo Auxiliar de Lisboa

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Pergunta vencedora num congresso sobre vida sustentável

Há dias chegou-me este texto por e-mail. Desconheço o dia e local do congresso. Pode bem não ter acontecido. Mas a questão não perde a pertinência.

Esta pergunta foi a vencedora num congresso sobre vida sustentável.

"Todos pensam em deixar um planeta melhor para os nossos filhos... Quando é que pensarão em deixar filhos melhores para o nosso planeta?"

Bento XVI verde e solidário

A crise ecológica obriga a uma solidariedade intergeracional e intrageracional, diz Bento XVI na Mensagem para o próximo Dia Mundial da Paz, 1 de Janeiro de 2010.

Número 8 da Messagem (pode ser lida na íntegra aqui):

“Na realidade, é urgente a obtenção de uma leal solidariedade entre as gerações. Os custos resultantes do uso dos recursos ambientais comuns não podem ficar a cargo das gerações futuras. «Herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos, temos obrigações para com todos, e não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós aumentar o círculo da família humana. A solidariedade universal é para nós não só um facto e um benefício, mas também um dever. Trata-se de uma responsabilidade que as gerações presentes têm em relação às futuras, uma responsabilidade que pertence também a cada um dos Estados e à comunidade internacional». O uso dos recursos naturais deverá verificar-se em condições tais que as vantagens imediatas não comportem consequências negativas para os seres vivos, humanos e não humanos, presentes e vindouros; que a tutela da propriedade privada não dificulte o destino universal dos bens; que a intervenção do homem não comprometa a fecundidade da terra para benefício do dia de hoje e do amanhã. Para além de uma leal solidariedade entre as gerações, há que reafirmar a urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade entre os indivíduos da mesma geração, especialmente nas relações entre os países em vias de desenvolvimento e os países altamente industrializados: «A comunidade internacional tem o imperioso dever de encontrar as vias institucionais para regular a exploração dos recursos não renováveis, com a participação também dos países pobres, de modo a planificar em conjunto o futuro». A crise ecológica manifesta a urgência de uma solidariedade que se projecte no espaço e no tempo. Com efeito, é importante reconhecer, entre as causas da crise ecológica actual, a responsabilidade histórica dos países industrializados. Contudo os países menos desenvolvidos e, de modo particular, os países emergentes não estão exonerados da sua própria responsabilidade para com a criação, porque o dever de adoptar gradualmente medidas e políticas ambientais eficazes pertence a todos. Isto poder-se-ia realizar mais facilmente se houvesse cálculos menos interesseiros na assistência, na transferência dos conhecimentos e tecnologias menos poluidoras”.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...