segunda-feira, 30 de setembro de 2013
João César das Neves disseca "o erro de Kant"
Final da crónica de João César das Neves no DN de hoje.
sábado, 13 de março de 2010
Anselmo Borges: Ulisses e Abraão

Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):
Pode discutir-se, mas é sugestiva, a comparação feita pelo célebre filósofo E. Levinas entre Ulisses e Abraão como figuras paradigmáticas da relação com o outro.
Ulisses, depois da Guerra de Tróia, de volta a casa, vive a aventura de encontros múltiplos com outros, experiências variadas. Travou combates, enfrentou obstáculos sem fim, conheceu o diferente. Coberto de vitórias e glória, regressa. Mas, chegado a casa, mesmo disfarçado, "diferente" do Ulisses que partira, é ainda o "mesmo", que o seu cão, pelo faro, e Penélope, pelo amor, reconhecem. Ulisses representa o herói do regresso, que contactou com o diferente apenas para, num mundo domesticado e assimilado, o reduzir ao mesmo.
Abraão ouviu uma voz que o chamava, e partiu da sua terra, para nunca mais voltar. A sua viagem vai na direcção do novo, do não familiar, do diferente, do Outro. Ninguém o espera num regresso ao ponto de partida. Há só uma palavra de promessa que o chama para um futuro sempre mais adiante. Abraão ouve, caminha, transcende. A sua identidade transfigura-se a cada passo, é processual, histórica. Rompe com o passado, e o seu êxodo vai no sentido de um futuro imprevisível e novo.
A identidade não é estática, fixa, determinada de uma vez para sempre. Claro que cada um, cada uma é ele, ela, de modo único e intransferível - a experiência suma desse viver-se cada um como único e irrepetível dá-se frente à morte, na angústia do confronto com a possibilidade do nada e da aniquilação do eu: "ai que me roubam o meu eu!", clamava Unamuno -, mas fazemo-nos uns aos outros, de tal modo que ser e ser em relação coincidem. Por isso, a identidade faz-se, desfaz-se, refaz-se e, em sociedades complexas e abertas, ela será cada vez mais compósita e planetária, com tudo o que isso significa de enriquecimento e ao mesmo tempo de complexidades e possíveis rupturas.
É, portanto, preciso pensar a unidade na diferença e a diferença na unidade. A unidade sem diferença é a mesmidade morta, mas a diferença sem unidade é o caos sem sentido. O mesmo se deve dizer da identidade: ser si mesmo na relação, mas sem se deixar absorver pelo outro.
Descartes acentuou o primado da subjectividade, do eu, contrapondo-lhe Levinas, em antítese, o primado da alteridade, do tu. Mas, afinal, se não se pode prescindir da alteridade, caindo no perigo do solipsismo, também é necessário evitar a tentação daquela afirmação do outro que parece prescindir do eu, caindo numa espécie de alterismo. Como escreveu M. Moreno Villa, a verdade não se encontra nem no solipsismo nem no alterismo, mas na subjectividade e na alteridade, "afirmadas ambas simultaneamente no círculo ontológico interpessoal".
Há várias imagens para esta afirmação simultânea da identidade e da diferença. Por exemplo, na música - o famoso compositor e dirigente de orquestra Daniel Barenboim apresenta precisamente a música como a grande imagem do que deve ser o diálogo intercultural -, há múltiplos instrumentos (de corda, de percussão, de sopro, podendo a orquestra ser ainda acompanhada por um coro de vozes) - e, de todos juntos, até em contraponto, resulta uma sinfonia: a unidade de diferentes. Num tecido, há múltiplos fios, que se entretecem de diferentes modos, configurando uma unidade. Numa rede - e cada vez mais é preciso pensar em rede -, há múltiplos nós. Ora, os nós, que significam a identidade própria, só existem precisamente na rede, de tal modo que não há rede sem os nós nem os nós sem a rede.
Num mundo global cada vez mais multicultural e multirreligioso, é urgente repensar a identidade sempre a caminho, no quadro de múltiplas pertenças, e, para lá do multiculturalismo e do multirreligioso, que sublinham o "multi", avançar para o diálogo intercultural e inter-religioso, sublinhando o prefixo "inter", que implica um caminho de interacções múltiplas, sendo a identidade mais uma meta do que um ponto de partida, num horizonte que sempre se desloca na medida em que se marcha para ele. O seu símbolo é mais Abraão do que Ulisses.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Descartes foi assassinado por um padre católico?

A tese aí está, defendida pelo académico alemão Theodor Ebert: René Descartes não morreu de pneumonia, devido à inclemência do clima sueco, mas envenenado por um padre que queria que a rainha Cristina se aproximasse do catolicismo mas temia que Descartes fosse má influência, talvez por causa da dúvida metódica, suponho.
O padre em causa é Jacques Viogué, que terá envenenado Descartes com arsénio ao dar-lhe a Comunhão.
O estudioso alemão da Universidade de Erlangen fundamenta a sua teoria principalmente em dois pormenores:
- o médico de Descartes, Van Wullen, disse ter encontrado algo de estranho na urina do seu paciente (Theodor Ebert diz que seria sangue, como é típico nos envenenamentos por arsénio)
- Descartes, pouco antes de morrer, pediu ao médico algo que lhe fizesse vomitar (estando a par dos conhecimentos médicos da época, Descartes sabia que em caso de envenenamento devia vomitar).
Mas também há quem diga que o católico Descartes (educado pelos jesuítas) foi antes assassinado por clérigos protestantes, esses, sim, temendo uma conversão da rainha que tinha simpatia pelo catolicismo.
No Guardian a tese do alemão. Aqui, a hipótese de ter sido assassinado por protestantes.
sábado, 14 de novembro de 2009
14 de Novembro de 1716. Morre Leibniz

Gottfried Leibniz morreu no dia 14 de Novembro de 1716. Ao seu funeral só foi o secretário pessoal. Morreu no esquecimento. Mas Leibniz, que segundo a crítica de Voltaire, no “Cândido”, achava que vivia mo melhor dos mundos possíveis, foi um dos maiores cientistas de sempre.
Em relação a Deus, Leibniz, luterano, pelo menos oficialmente, era um “deísta”, quer dizer, admitia a existência de Deus, mas não ligava muito à revelação.
Mais interessante é que era contra a filosofia de Descartes. Achava que era perigosa para a fé. A história da teologia, de certa forma, veio dar-lhe razão, porque os ateísmos enraízam-se no racionalismo.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
13 de Novembro de 354. Nasce Aurélio Agostinho

Aurélio Agostinho (Aurelius Augustinus), Agostinho de Hipona, Santo Agostinho, nasceu no dia 13 de Novembro de 354, em Tagaste, actual Souk Ahras, na Argélia.
Padre e bispo, escritor, filósofo, teólogo. Um dos poucos antigos de que se conhece a data de nascimento. Um dos poucos antigos a deixar uma autobiografia, as “Confissões”. Uma das mentes mais influentes da humanidade. Não foi só sobre a Idade Média que Agostinho pairou. Lutero, Calvino, Descartes, Kant, Hegel, os racionalismos em geral e mesmo os marxismos e utopias de todo o género, Camus, Hannah Arendt e Ratzinger, entre muitos outros, devem algo ao bispo de Norte de África. Foi há 1655 anos que nasceu.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Amam-me, logo existo - este post não é sobre Descartes

«Embora o método do discurso [de Descartes] seja deficiente, o fim é meritório. Só começo a viver depois de encontrar o sentido da vida, a verdade primordial, "a afirmação tão sólida e tão segura que a tome sem escrúpulo como primeiro princípio". Em que verdade baseio a minha vida? Qual o princípio do que sou? Esta é a única busca que vale a pena.»
Sinodalidade e sinonulidade
Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...
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O que aqui vou deixar não é um tratado nem sequer um artigo académico sobre a questão. Trata-se simplesmente de dicas recolhidas de outros...
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Respondendo a alguns leitores, deixo aqui um artigo de Ariel Álvarez Valdés sobre a distinção, nos evangelhos, entre diabo e demónio. O tex...
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P.e Gabriele Amorth Ando a ler “Mais fortes que o mal. O demónio, reconhecê-lo, vencê-lo, evitá-lo”, do mui célebre exorcista italia...