Uma velhinha cristã vem ao alpendre de sua casa todas as manhãs e grita:
- Louvado seja o Senhor!
E, todas as manhãs, o ateu que vive na casa ao lado grita em resposta:
- Deus não existe!
Isto repete-se durante semanas.
- Louvado seja o Senhor! – grita a senhora.
- Deus não existe! – responde o vizinho.
O tempo vai passando e a velhota começa a ter problemas financeiros e tem dificuldade para comprar comida. Sai para o alpendre e pede ajuda a Deus para as compras da mercearia, dizendo em seguida:
- Louvado seja o Senhor!
Na manhã seguinte, quando sai para o alpendre vê as mercearias que tinha pedido. Como não podia deixar de ser, grita:
- Louvado seja o Senhor!
O ateu salta de trás de um arbusto e diz:
- Ah! Fui eu que comprei essas mercearias. Deus não existe!
A senhora olha para ele e sorri.
- Louvado seja o Senhor! – grita. – Não só ouviste o meu pedido, Senhor, como fizeste Satanás pagar as compras!
domingo, 29 de Novembro de 2009
A velha e o ateu – humor teológico
Maquete do projecto da igreja de Troufa Real
Maquete do projecto de Troufa Real para a igreja do Alto do Restelo (ver texto de Bento Domingues). Clique para aumentar.
Bento Domingues e a "chamada via da beleza"
Bento Domingues, no Público de hoje, fala da “chamada via da beleza”. “Na descoberta dos caminhos para o mistério de Deus, as vias da verdade e da bondade foram as mais recomendadas. Esquecida, porém, a beleza, as outras perdem capacidade de falar à inteligência e ao coração”.Darwin, humanista vitoriano
Pedro Mexia diz que temia que "Darwin fosse um ateu fanático ou um desvairado eugenista".sábado, 28 de Novembro de 2009
Bendita ilusão
À noite, quando dormia,Revista de Blogues
Anselmo Borges: Darwin e a religião
Anselmo Borges escreve sobre Darwin e a religião, a propósito dos 150 anos da publicação de "A Origem das Espécies". Copiado daqui.Ainda no contexto da dupla celebração neste ano de 2009 - 200 anos do nascimento de Charles Darwin e 150 anos da publicação de A Origem das Espécies -, fica mais uma reflexão sobre o tema em epígrafe.
Aquela história repetida - o bispo de Oxford, S. Wilberforce, perante enorme assistência a uma conferência, perguntou a Thomas Huxley, defensor de Darwin, se descendia do macaco pelo lado do avô ou pelo lado da avó; face à resposta, desconfortável para o bispo, uma senhora desmaiou e a mulher do bispo terá murmurado: "Só faltava esta: descender de macacos! Se for verdade, rezemos para que ninguém saiba" - não será completamente verdadeira, mas revela bem o abalo e a perplexidade causados pela tomada de consciência de que descendemos por evolução de outros animais.
Concretamente quanto à religião, é significativo que a obra de Darwin não tenha figurado no Índex (lista dos livros proibidos aos católicos). Por outro lado, Darwin foi sepultado com pompa na Abadia de Westminster, a alguns passos do túmulo de outro gigante da ciência, Newton.
Em 1996, o Papa João Paulo II declarou, perante a Academia Pontifícia das Ciências, que "a teoria da evolução é mais do que uma hipótese". E, para marcar os 150 anos de A Origem das Espécies, realizou- -se recentemente na Universidade Gregoriana de Roma um Congresso sobre "Evolução biológica, factos e teorias", patrocinado pelo Conselho Pontifício para a Cultura. Os organizadores fizeram questão de excluir os partidários do "criacionismo" e mesmo do "desígnio inteligente".
Há evolucionistas materialistas, ateus, mas também os há crentes. As relações só azedam, quando, de um lado e do outro, se ergue o fundamentalismo: cientista ou religioso. Ora, contra esse duplo fundamentalismo, é preciso saber que Deus não é objecto de ciência: cientificamente, não se demonstra nem que há Deus nem que Deus não existe. Deus é objecto de fé e há razões para acreditar como há razões para não acreditar.
Assim, é tão ridículo invocar o livro do Génesis, com o seu mito da criação, lido literalmente, para negar a evolução, como invocar a ciência para provar que não há Deus. O Génesis é um livro religioso e não científico e a ciência nega-se a si mesma, quando pretende pronunciar-se sobre questões da esfera metafísica e religiosa.
A evolução e a fé não são incompatíveis. A ciência responde ao "como" e não ao "porquê" da realidade. Porque há algo e não nada? Qual o sentido último da realidade? A própria afirmação do acaso cego confronta-se com o que se pode chamar o seu paradoxo: como é que por puro acaso surge um ser - o Homem - cuja questão fundamental é a do sentido.
Aliás, há o famoso "princípio antrópico", que não demonstra Deus, mas que dá que pensar. O físico R. Dicke apresentou-o, em 1961, na sua forma "fraca": "Uma vez que há nele observadores, o universo deve possuir propriedades que permitam a existência desses observadores". Depois, Brandon Carter apresentou-o na sua forma "forte": "O universo deve ser constituído de tal modo nas suas leis e na sua organização que não deixa de um dia produzir um observador". Mesmo se é menos justificável nesta forma "forte", há sempre esta pergunta: porque é que o mundo é como é, de tal modo que aparecemos nele, perguntando por ele e pelo seu sentido? De facto, a mínima variação nas suas condições iniciais faria com que não estivéssemos cá a colocar todas estas questões.
O próprio Darwin viveu a questão religiosa em perplexidade. Na sua Autobiografia, escreve que é extremamente difícil, ou melhor, impossível "conceber este imenso e maravilhoso universo, incluindo o homem, como sendo o resultado do acaso cego ou da necessidade. Quando começo a reflectir assim, sinto-me obrigado a recorrer a uma Causa Inicial que possua uma mente inteligente, até certo ponto análoga à mente do homem; e mereço ser chamado Teísta". Mas, depois, "surge a dúvida" e confessa: "Não posso pretender lançar qualquer luz sobre problemas tão abstrusos. O mistério do início de todas as coisas é insolúvel para nós; e por mim contento-me em permanecer Agnóstico."
O que diz Nicolau Breyner
O homem que transformou a pedra em carne
Consta que Miguel Ângelo, ao concluir "Moisés", deu uma martelada no joelho da obra e lhe disse: "Fala!" Era tão perfeita que só lhe faltava esta viva.28 de Novembro de 1680. Morre o escultor Bernini

Auto-retrato de Bernini
No dia 28 de Novembro de 1680 morre em Roma Gian Lorenzo Bernini, escultor, arquitecto, pintor, cenógrafo e criador de espectáculos de pirotecnia. Nascera em Napóles, de uma família florentina, no dia 7 de Dezembro de 1598.
Inicialmente protegido do cardeal Scipione Borguese, tornou-se o grande artista dos Papas e da cidade de Roma. É autor do baldaquino do interior da Basílica de São Pedro e da colunata no exterior. Desenhou palácios, como os de Montecitorio e Chigi Odescalchim, e a Escada Real do Vaticano. Concebeu fontes como a dos Quatro Rios, a da Barca e a do Tritão. Esculpiu algumas das mais belas esculturas de sempre: “O Rapto de Prosérpina”, “Apolo e Dafne”, “Habacuc e o Anjo”, “O Êxtase de Santa Teresa”.
sexta-feira, 27 de Novembro de 2009
Os filósofos falam de Jesus Cristo
Um número "hors-série" integralmente dedicado a Jesus, evangelhos, milagres, Paulo, Apocalipse. Com contribuições de Tzvetan Todorov, René Girard, Vito Mancuso, Jurgen Moltmann e Luc Ferry, entre outros. "Ao commencement, donc, était le Verbe"... "À lá fin, il reste, provisoirement au moins, le verbe".
Vergonha da pedofilia na igreja irlandesa no Público
Notícia no "Público" de hoje:
Líderes católicos fecharam olhos a abusos de padres
Arcebispos irlandeses adoptaram, durante décadas, política de don"t ask, don"t tell. Mas o Estado também sai mal na fotografia (ler aqui)
O comentário de António Marujo (negritos meus):
1. A hierarquia católica nunca lidou bem com os abusos sexuais do clero, como mostra de novo o relatório publicado na Irlanda (como, já antes, documentos semelhantes no Canadá, EUA, Áustria e Austrália). Durante décadas, vários bispos (incluindo cardeais, como Bernard Law, ex-arcebispo de Boston) preferiram o chamado "bem da Igreja" ao bem das vítimas - exactamente o contrário do que a sua fé lhes diz.
Uma das razões para esta falta de tacto era a forma como se reprimia a sexualidade. Como certeiramente disse o ministro irlandês da Justiça, Dermot Ahern, o episódio traduz a "ironia cruel de uma wIgreja que, motivada em parte pelo desejo de evitar o escândalo, de facto criou um outro, de uma incrível amplitude". Para a própria Igreja, o encobrimento foi trágico: nos EUA várias dioceses tiveram que vender património e declarar falência, para pagar indemnizações às vítimas.
2. O problema é mais vasto: o relatório irlandês culpa também as instituições do Estado pela omissão na descoberta da verdade. A questão traduz também o modo como, em sociedade, nos relacionamos com os afectos e com os mais frágeis. As relações entre as pessoas são também, em muitos casos, relações de poder e só nas últimas décadas a pedofilia começou a ser mal vista pela opinião pública. O caso Polanski aí está para o recordar: alguns desculpam ao cineasta o que não perdoam em outros casos. E as contradições judiciais do caso Dutroux, na Bélgica, mostram a dificuldade com que ainda se lida socialmente com estas questões.
3. Nem sempre os media deram igual atenção às medidas tomadas para sanear o problema (posições de João Paulo II ou Bento XVI, decisões dos episcopados) que deram aos escândalos. Outro dado: números da Conferência Episcopal americana (80 por cento dos padres envolvidos eram dos EUA, uns 4400, num total de 5000 em todo o mundo) dizem que, desde 1950, foram "só" quatro por cento do número total os padres que estiveram envolvidos em casos de pedofilia. Apesar de tudo, uma parte reduzidíssima do clero. Mas bastaria um crime de um único padre para que a questão já fosse importante.
Ou aqui.
27 de Novembro de 1095. Urbano II convoca a primeira Cruzada

No dia 27 de Novembro de 1095, no Concílio de Clermont-Ferrand, Urbano II convoca a primeira Cruzada. Seguir-se-iam mais oito (a última é em 1271). A primeira começou em 1096 e durou até 1099.
Quando Urbano II convocou a cruzada, prometendo a salvação a todos os que morressem em combate, foi aclamado pela multidão.
quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
Depois da Acção de Graças
Nos EUA, hoje é dia de Acção de Graças, última quinta de Novembro. E amanhã é a Black Friday, a "sexta-feira negra", o dia de maior consumo.
"Já nos disseram tantas coisas", escreve Péguy
Ao entusiasmo de Anselmo (aqui) é preciso contrapor a sensatez de Péguy:
Já nos disseram tantas coisas, ó Rainha dos Apóstolos
Perdemos o gosto por discursos
Não temos mais altares, a não ser os vossos
Não sabemos mais nada, a não ser uma oração simples.
Epitáfio de Ionesco
26 de Novembro de 1909. Nasce Ionesco

Eugéne Ionesco, criador e nome maior do Teatro do Absurdo (“A Cantora Careca”, “O Rinoceronte”, “Jacques ou a submissão”, “A Lição”, “O Rei está a morrer”…), nasceu há 100 anos.
Oriundo de Slatina, na Roménia, viveu parte da infância em Paris, voltou à Roménia, mas a partir de 1940 fixou-se na cidade-luz. Morreu no dia 29 de Março de 1994.
O “intérprete do mal-estar, das dúvidas e do desespero do homem contemporâneo” está sepultado no Cemitério de Montparnasse. O seu epitáfio diz: “Rezo a não sei quem. A Jesus Cristo, espero”.
quarta-feira, 25 de Novembro de 2009
Mar alto dos debates

Retrato de Ambrósio de Milão, do séc. V.
Pormenor de um mosaico na Basílica de Santo Ambrósio (em Milão; não confundir com a Catedral)
Num tempo de secularização, laicidade, pluralismo, diz-se que o significado cristianismo, a credibilidade da fé, a pertinência da religião se jogam no campo cultural, mais do que no campo político (estou a pensar em intervenções recentes do historiador António Matos Ferreira e de D. José Policarpo).
Ambrósio de Milão (340-397) disse o mesmo com 1600 anos de avanço, comentando o trecho evangélico de Lc 5,4:
«Avança para o largo (duc in altum)», quer dizer, para o mar alto dos debates. Haverá profundidade comparável ao “abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência do Filho de Deus" (Rm 11,33), à proclamação da sua filiação divina?... A Igreja é conduzida por Pedro para o mar alto do testemunho, para contemplar o Filho de Deus ressuscitado e o Espírito Santo derramado.
Quais são as redes dos apóstolos que Cristo manda lançar? Não será o encadeado das palavras, as voltas do discurso, a profundidade dos argumentos, que não deixam escapar aqueles que são agarrados? Estes instrumentos de pesca dos apóstolos não fazem morrer a presa, mas guardam-na, retiram-na dos abismos para a luz, conduzem-na lá de baixo até às alturas...
«Mestre, diz Pedro, trabalhamos toda a noite sem nada apanhar mas, à tua palavra, lançarei as redes». Também eu, Senhor, sei que para mim se faz noite quando tu não me dás ordens. Ainda não converti ninguém com as minhas palavras, ainda é noite. Falei no dia da Epifania: lancei a rede e não apanhei nada. Lancei a rede durante o dia. Espero que tu me ordenes; à tua palavra, tornarei a lançá-la. A confiança em si mesmo é vã, mas a humildade dá muito fruto. Aqueles que até então não tinham apanhado nada, eis que, à palavra do Senhor, capturam uma enorme quantidade de peixes.
25 de Novembro de 1491. Início do cerco a Granada

No dia 25 de Novembro, os reinos de Castela e Aragão cercam a cidade de Granada. O sultão Boabdil (Maomé XII) render-se-ia no dia 2 de Janeiro de 1492. Com o fim emirato de Granada, termina a presença muçulmana na Península Ibérica.
terça-feira, 24 de Novembro de 2009
João Cristósomo e a tristeza num tempo em que ainda não havia depressão

João Cristósomo (349-407) escreveu sobre a tristeza. Mas só escreveu sobre a tristeza porque a palavra depressão ainda não tinha sido inventada.
“A tristeza, na realidade, é para as almas um local horrível de tortura, uma espécie de dor inexplicável, castigo mais amargo do que todos os tormentos e penalidades.
Assemelha-se a um verme venenoso que corrói não somente a carne mas também a própria alma, e não só tritura os ossos como a mente.
A tristeza é um carrasco perpétuo que não rasga as costas mas arruína o vigor espiritual. É uma noite contínua e trevas sem luar; é tempestade, agitação, fogo secreto mais ardente que qualquer chama, guerra sem tréguas, doença que sombreia a maioria das coisas visíveis. O sol, porém, e a limpidez da atmosfera para os assim mal-dispostos parecem importunação e o pleno meio-dia compara-se à noite profunda”.
24 de Novembro de 1859. Darwin publica "A Origem das Espécies"
No dia 24 de Novembro de 1859, Charles Darwin publica "On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life" ("Acerca da origem das espécies através da selecção natural ou a preservação das raças mais fortes na luta pela vida"), uma obra que (r)evolucionaria o modo de entender a Biologia, a vida, a criação.segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
John Milton e liberdade para cair

Eutanásia e morte assistida - o debate continua

A Conferência Episcopal Portuguesa publicou recentemente uma nota sobre a eutanásia. Pode ser lida na íntegra aqui.
Alguns excertos:
É eticamente inaceitável qualquer forma de eutanásia, isto é, qualquer “acção ou omissão que, por sua natureza e nas intenções, provoca a morte”. Nem sequer o objectivo de eliminar o sofrimento ou livrar a pessoa de um estado penoso pode legitimar a eutanásia, tanto mais que a medicina e a sociedade dispõem de outros meios para socorrer os pacientes em fase terminal. Equivalente à eutanásia, do ponto de vista ético, é qualquer forma de ajuda ao suicídio, também designado suicídio assistido.
(…) Do ponto de vista da ética, reconhece-se uma diferença fundamental entre matar e deixar morrer, quando esta última opção não for equivalente a negligência, mas for concretização do respeito pelo curso normal da vida humana. (…)
Na procura de critérios éticos é fundamental também a distinção entre matar e acompanhar o morrer. Esta última é a opção concretizada, por exemplo, nos cuidados paliativos. (…)
Parece-nos que seria de evitar a expressão “ajudar a morrer”, dada a sua acentuada ambiguidade, não sendo claro o que se quer indicar com ela, e tendo em conta que as expressões equivalentes noutras línguas são usadas para referir aquilo que designámos por “suicídio assistido”.
Como reacção, Laura Ferreira dos Santos escreveu no "Público" de domingo (22 de Novembro) o texto acima digitalizado.
Filosofia de Tomás de Aquino em dois minutos

Excerto de uma oração de Tomás de Aquino (1225-1274):
Dá-me, Senhor Deus, um coração vigilante, que nenhum pensamento curioso arraste para longe de ti; um coração nobre que nenhuma afeição indigna debilite; um coração recto que nenhuma intenção equívoca desvie; um coração firme, que nenhuma adversidade abale; um coração livre, que nenhuma paixão subjugue.
Concede-me, Senhor meu Deus, uma inteligência que te conheça, uma vontade que te busque, uma sabedoria que te encontre, uma vida que te agrade, uma perseverança que te espere com confiança e uma confiança que te possua, enfim.
23 de Novembro de 1644. Publicação de "Areopagitica", de John Milton

No dia 23 de Novembro de 1644, John Milton publica “Areopagitica. A speech of Mr. John Milton for the liberty of unlicensed printing to the Parliament of England”. Trata-se de um dos escritos mais inlfuentes sobre a liberdade de expressão.
John Milton (1608 - 1674) é o autor de “Paraíso Perdido”. O seu pai, também chamado John Milton, foi expulso de casa quando Richard Milton (avô do primeiro), católico, o apanhou a ler a Bíblia em inglês.
Milton, republicano e protestante, escreveu em 1672 a obra “Of True Religion”, em que defendia a tolerância para todas as religiões, excepto para os católicos.
A influência das cenouras no afastamento das tentações

“Os directores espirituais católicos aconselham aqueles que dirigem a comer uma cenoura quando têm vontade de comer um queque; não é que os queques sejam maus em si mesmos, mas acontece que, se adquirirmos o hábito de disciplinar a nossa vontade naquelas situações em que não estão em causa princípios morais, estaremos mais bem preparados nos momentos de tentação, quando formos efectivamente confrontados com a necessidade de optar entre o bem e o mal”.
Thomas E. Woods, Jr. in "O que a Civilização Ocidental deve à Igreja Católica" (Ed Alêtheia), pág. 235.
domingo, 22 de Novembro de 2009
“Fátima a rezar por um grande negócio”

Seis meses antes da visita de Bento XVI a Fátima, os quartos de hotel e de casas particulares estão todos reservados. “Em poucas horas, hotéis e pensões esgotaram. Como nem os quartos particulares parecem suficientes para a procura, há quem esteja a fazer marcações em Lisboa e Coimbra. Muitos comerciantes dizem que a visita papal não trará grandes lucros, pois João Paulo era mais carismático. Mas todos estão a prever uma grande enchente”.
O administrador de um supermercado de recordações de Fátima diz: “Vou fazer um porta-chaves ou colocar aí á venda uma caixa de madeira com a figura dele [Bento XVI] colada na tampa. Já está feita, é só pôr o autocolante e, se não vender, tira-se”.
Um empresária da restauração: “As expectativas são maravilhosas, vai ser sempre a trabalhar. Vou triplicar o número de funcionários para conseguir atender as pessoas”.
Texto de Samuel Alemão e fotos de Paulo Alexandrinho na "Notícias Sábado" (DN e JN) de 21 de Novembro.
Fé, frades e futebol (1)

O padre Vítor Melícias, frade franciscano, conhecido sportinguista, benzeu a primeira pedra do Estádio Alvalade XXI e benzeu a obra erguida, em 2003, a tempo do Euro do ano seguinte.
No dia da bênção da primeira pedra, depois da cerimónia, a comitiva foi para o antigo estádio ver a partida Sporting – Braga. Jogo amigável. O Braga ganhou. Julgo que 2-1. Pelo que um adepto sportinguista, descontente com o resultado, disse ao frade franciscano: “Tanta benzedura, não sei para quê…” Ao que o padre Vítor Melícias respondeu: “Eu benzi a carroça, não os burros”.
22 de Novembro de 498. Eleição do Papa Símaco
O Papa Símaco foi eleito no dia 22 de Novembro de 498 e pontificou até ao dia 19 de Julho de 514. Fez duas coisas com consequências na actualidade: começou a construir os palácios do Vaticano (embora todos os edifícios actuais sejam de épocas posteriores) e, facto mais relevante, mandou que nas missas se rezasse o "Glória" ("Glória a Deus nas alturas e paz na terra..."), coisa que ainda hoje se faz aos domingos, excepto no Advento e na Quaresma.
Bento Domingues e a Carta da Compaixão

“(…) A compaixão não é apenas a recusa da indiferença. Impele a trabalhar, sem descanso, para aliviar o sofrimento do próximo, a destronar o nosso eu do centro do mundo, para aí colocar os outros. Ensina-nos a reconhecer o carácter sagrado de cada ser humano e a tratar cada pessoa, sem excepção, com respeito, equidade e absoluta justiça”, escreve Bento Domingues, no Público deste domingo.
O texto chama-se “A Carta da Compaixão” e narra a história da “Charter for Compassion”, uma ideia de Karen Armstrong que no domingo passado juntou na mesquita de Lisboa “representantes de muitas religiões, ateus e agnósticos”. Diz o dominicano: “Não me recordo de participar, em Lisboa, numa assembleia tão diversificada” (clicar na imagem para ampliar e ler).
sábado, 21 de Novembro de 2009
Uma das melhores frases da história da Teologia

Non in dialectica complacuit Deo salvum facere populum suum.
(Não aprouve a Deus salvar o seu povo com a dialéctica [isto é, filosofia].)
Ambrósio de Milão
Anselmo Borges e Kolakowski

A mais perigosa ilusão da nossa civilização consiste em o Homem pretender libertar-se totalmente da tradição e de todo o sentido preexistente, para abrir a perspectiva de uma autocriação divina. Esta "confiança utópica" e esta "quimera moderna" de inventar-se a si mesmo numa perfeição ilimitada "poderiam ser o mais impressionante instrumento do suicídio criado pela cultura humana". É que, "quando a cultura perde o sentido do sagrado, perde todo o sentido".
A religião não deve entrar no lugar que pertence à ciência e à técnica. Ela surge de outra dimensão, que "nos capacita para conviver com o fracasso, o sofrimento e a morte". Ela é o caminho que nos leva a "aceitar a derrota inexorável". Para a Humanidade, não há a última vitória, já que, "no fim, morremos".
21 de Novembro de 1694. Nasce Voltaire

François-Marie Arouet, mais conhecido pelo pseudónimo Voltaire, nasceu no dia 21 de Novembro de 1694 (e morreu no dia 30 de Maio de 1778).
Educado por jesuítas – “rapaz de talento mas patife notável”, disse de Voltaire um dos padres –, tornar-se-ia mais tarde inimigo da Igreja, que via como opositora à liberdade e às luzes. Usava frequentemente a expressão “écrasez l’infâme” (“esmaguem a infâmia”), principalmente nas cartas, referindo-se à Igreja e ao clero e, por vezes, ao poder político.
Há quem diga que se converteu ao catolicismo nos últimos dias de vida. Após uns vómitos de sangue terá chamado um padre para o acompanhar nos derradeiros momentos.
sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
O melhor Kennedy?

Robert Francis Kennedy poderia ter sido o melhor dos Kennedy. E há quem diga que foi, mesmo morrendo cedo.
Foi dos primeiros a combater a Máfia, acompanhou JFK na crise dos mísseis de Cuba, incentivou o movimento pelos direitos civis dos afro-americanos, não concordou com o crescente envolvimento americano na guerra do Vietname…
Católico, pais de 10 filhos, surge no livro “O Evangelho dos Audazes.[10] Políticos católicos”, da Gráfica de Coimbra 2, embora na capa, por erro, apareça uma fotografia do irmão que foi presidente dos EUA.
Este texto vem nas páginas 119-120.
“Creio que, na medida em que tende a ser absoluto, o poder é o mal.
Creio que, desde que os instrumentos da paz sejam válidos, a guerra é loucura. O governo deve ser forte onde a loucura ameaçar a paz.
Creio que, embora a maior parte dos homens sejam honestos, a corrupção é duplamente perniciosa. Fere os homens e lesa os seus direitos fundamentais. Devemos ser duplamente vigilantes, com vigilância pública e privada.
Creio que, embora seja pretensão de um único homem, qualquer entrave injustificado ao seu esforço é um entrave à humanidade. Um governo que for capaz de destruir um desses entraves sem que, nesse processo, suscite outros novos, é uma boa força. Um governo demasiado débil para o fazer, não só é um desperdício, mas um pal, pois alimenta falsas esperanças”.
Este excerto apareceu originalmente no livro “The pursuit of justice”.
Reconciliação, de Else Lasker‑Schüler

Um dos três poemas enxertados no auto "Breve Sumário da História de Deus". Os outros dois são o de Ruy Belo, já para este blogue transcrito, e o "Salmo 139 mudado por Herberto Helder".
Reconciliação
Há‑de uma grande estrela cair no meu colo…
A noite será de vigília,
E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.
Será noite de reconciliação –
Há tanto Deus a derramar‑se em nós.
Crianças são os nossos corações,
Anseiam pela paz, doces-cansados.
E nossos lábios desejam beijar‑se –
Porque hesitas?
Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.
Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.
Há‑de uma grande estrela cair no meu colo.
Else Lasker‑Schüler
In Baladas Hebraicas. Trad. João Barrento.
Lisboa: Assírio & Alvim, 2002. p. 45.
20 de Novembro de 1925. Nasce Bob Kennedy
Robert Francis Kennedy ( Bob, Bobby ou RFK) nasceu no dia 20 de Novembro de 1925. E morreu, assassinado, no dia 6 de Junho de 1968. Era candidato à presidência dos EUA. Há um filme sobre a vida dele, "Bobby", de 2006.
Foi Bobby que anunciou a uma multidão de negros em Indianapolis a morte de Martin Luther King:
"Tenho uma péssima notícia para dar-lhes, Martin Luther King foi assassinado assim como meu irmão. E, cabe a nós que ficamos lutar pela causa que eles sacrificaram as vidas: A justiça e a igualdade entre os homens".
quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
Manual de leitura de "Breve Sumário da História de Deus"
Quem está longe do Porto,"O que resta de Deus", ciclo de conferências no Porto

A pretexto da representação de “Breve Sumário da História de Deus”, o TNSJ-Porto promove um ciclo de conferências no Salão Nobre (entrada gatuita). Chama-se “O que resta
de Deus”. Gostava de não perder nenhuma. Infelizmente, não sei se poderei ir a alguma.
26 Nov
qui 18:30
José Tolentino Mendonça
Armando Silva Carvalho
moderação
Jacinto Lucas Pires
27 Nov
sex 18:30
Ilda David’
Paulo Pereira
moderação
Bernardo Pinto de Almeida
3 Dez
qui 18:30
Clara Pinto Correia
Tiago Cavaco
moderação
Daniel Jonas
4 Dez
sex 18:30
Amélia Polónia
José Augusto Cardoso
Bernardes
moderação
José Luís Ferreira
5 Dez
sáb 17:00
Conversa com
Alexandra Moreira da Silva
Daniel Jonas
D. Manuel Clemente
e Nuno Carinhas
comissário
Pedro Sobrado
Palavras de Jacob depois do sonho, por Ruy Belo

Amei a mulher amei a terra amei o mar
amei muitas coisas que hoje me é difícil enumerar
De muitas delas de resto falei
Não sei talvez eu me possa enganar
foram tantas as vezes que me enganei
mas por trás da mulher da terra e do mar
pareceu‑me
ver sempre outra coisa talvez o senhor
É esse o seu nome e nele não cabe temor
Mas depois deste sonho sou obrigado a cantar:
Eis que o senhor está neste lugar
Porquê não sei talvez uma pequena haste balance
talvez sorria alguma criança
Terrível não é o homem sozinho na tarde
como noutro tempo de esplendor cantei
Terrível é este lugar
Terrível porquê? Não sei bem
Talvez porque o senhor pisa esta terra com os seus pés
(lembro‑me até de que mandou tirar as sandálias a moisés)
Levanto os dois braços aos céus
Aqui – mulher terra mar –
Aqui só pode ser a casa de deus
Ruy Belo
In Todos os Poemas. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000. p. 209‑210.
Este poema faz parte do espectáculo "Breve Sumário da História de Deus", que o TNSJ leva à cena a partir de amanhã.
"Breve Sumário da História de Deus", no Porto

O Mateus de Caravaggio e o Pai de Lucas

19 de Novembro de 1964. No II Concílio do Vaticano, começa a ser votada a Lumen Gentium

No dia 19 de Novembro de 1964, “depois de devidamente consideradas as modificações propostas”, cerca de 4000, diz a edição do documento em português, o texto definitivo da Lumen Gentium foi sujeito à votação: 2145 votantes; 2134 placet; 10 non placet; 1 nulo. No dia 21 seguinte, a última votação teve o seguinte resultado: 2151 placet e 5 non placet. E Paulo VI promulgou constituição dogmática.
Este documento, o mais importante do Concílio, fala da Igreja (que não é a lumen gentium). Começa assim: “A luz dos povos (lumen gentium) é Cristo”. Abandonando a ideia de que a Igreja é uma sociedade perfeita, consagrou a identidade da Igreja como “povo de Deus” e como “comunhão”. Já não há classes dentro da Igreja (visão piramidal), mas estão todos à volta do mesmo centro, que é Jesus Cristo. Os bispos disseram que é assim. Então, há que caminhar para lá, porque ainda não é assim.
O documento pode ler-se aqui.
Calvin e Hobbes, Calvino e Hobbes

O "Público" de ontem recorda que no dia 18 de Novembro de 1985 apareceu a primeira tira "Calvin e Hobbes". Os nomes inspiram-se em João Calvino (1509-1564) e Thomas Hobbes (1588-1679), respectivamente.
Sempre me interroguei como é que o reformador franco-suíço e o pensador inglês se reflectiriam na banda desenhada. Não fui para além da " visão obscura da natureza humana", que Bill Watterson sugere que Calvino tinha e que Calvin parece assumir com gosto. Quando a Hobbes, se o filósofo dizia que “o homem é lobo para o homem”, o amigo de Calvin bem pode parafrasear: “O homem é tigre para o homem”. Se for de peluche, tanto melhor.
Ver aqui uma adaptação gráfica ao par reformador/filósofo.
quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
Em carne e osso

Já se consumiram minhas velas
ao pé do crucifixo.
Na rua havia um pobre
com as suas botas desfeitas,
e voltei para rezar ao Cristo de madeira.
Não soube rezar, Senhor,
ao teu Amor, em carne e osso.
Caryll Houselander (1901 – 1954)
18 de Novembro de 1302. Bonifácio VIII publica a bula “Unam Sanctam”

Na bula lê-se que “na Igreja e no seu poder há duas espadas, nomeadamente a espiritual e a temporal, porque os apóstolos dizem: «Senhor, estão aqui duas espadas» (Lc 22,38)”.
A última afirmação do documento é esta: “Declaramos, proclamados, definimos que é absolutamente necessário para a salvação que toda a criatura humana esteja sujeita ao Romano Pontifice”.
Em 1301, o Papa mandara colocar mais uma coroa na tiara papal, para simbolizar a superioridade da autoridade espiritual sobre a civil.
A bula significa o ponto máximo das pretensões papais. Os poderes seculares não a aceitam. E os papas, a longo prazo, reconhecem que é excessiva.
Bonifácio VIII (1294-1303), nascido Benedetto Caetani (1235-1303), foi patrono do pintor Giotto. Dante coloca este Papa no Inferno, como punição por causa da simonia.
Milagres, santos, catedrais e mártires no futebol

Manuel António Pina, na “Notícias Magazine” de 15 de Novembro, sobre a visibilidade do futebol na sociedade portuguesa:
“Dependesse, aliás, do governo, e o Futebol seria declarado religião oficial do Estado, ou do estádio, com os seus santos (São Mourinho, São Ronaldo, São Figo); a sua Santíssima Trindade das três equipas «melhor» classificadas; os seus milagres, como o calcanhar de Madger na final de Viena e o canto directo de Morais na finalíssima [de] Antuérpia, não explicáveis pela ciência; e os seus mártires, como Paulo Bento; haveria uma chuteira pendurada nas escolas no lugar dos crucifixos e seriam lidos versículos de A Bola antes de cada aula. Não é já conhecido o Estádio da Luz como «Catedral» e não é Pinto da Costa dito o «Papa»?”
terça-feira, 17 de Novembro de 2009
A influência dos evangelhos no processo “Face Oculta”
Os evangelhos dizem que o que se diz às escuras há-de ser redito à luz do dia e o que se diz ao ouvido há-de ser proclamado sobre os terraços.
Não sei se os envolvidos no caso “Face Oculta” conhecem o preceito. Mas não é assim tão irrelevante, pois, falando ao ouvido, foram escutados. E o primeiro-ministro foi apanhado nas escutas. E agora nem a Procuradoria da República nem o Supremo Tribunal sabem o que saber das escutas. Talvez ainda venham parar à estampa dos jornais, versão moderna dos terraços, cumprindo o tal versículo.
Porém, os evangelhos já têm servido para abordar o caso na imprensa. O “Público” de hoje diz que há um “milagre da multiplicação” das certidões. Independentemente do que significa “certidão” na linguagem jurídica (o processo penal é muito bom para dar emprego aos especialistas em Direito e mau para o cidadão comum, que não tem nenhum doutoramento em Leis e, muito legitimamente, só quer é saber se são culpados ou inocentes, coisa que a névoa jurídica parece pretender evitar), noto que passaram de nove para 12, e continuam a aparecer. Uma das certidões está acompanhada de 146 CD. É muita conversa. Mas ninguém sabe ao certo quantas são. As contagens variam de organismo para organismo. Por isso, o “Público” (página 3 na edição em papel) diz que há um “milagre da multiplicação” das certidões.
Já no "Diário de Notícias", João Miguel Tavares escreve: “Sejamos cristalinos: acreditar que Jesus Cristo andou sobre as águas exige menos fé do que acreditar que as conversas entre Sócrates e Vara têm a inocência de um episódio da Abelha Maia” (aqui).
17 de Novembro de 1717. Começam as obras do Convento de Mafra

No dia 17 de Novembro de 1717 começaram as obras do Convento de Mafra. No início pretendia-se construir um modesto convento para 13 franciscanos. Mas começa a chegar o ouro do Brasil e o edifício final acaba por abrigar um convento para 330 frades e o palácio real, com uma das mais belas bibliotecas da Europa.
A construção empregou 52 mil trabalhadores, sobre projecto do alemão Johann Friedrich Ludwig (nome português: João Frederico Ludovice, 1673 - 1752), arquitecto e ourives.
Passados 265 anos, no dia 17 de Novembro de 1982, José Saramago lançou a obra “Memorial do Convento”.
segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
"Siz iz God who senz you!" - Histórias e livros que transformam

Vale a pena ler o texto sobre Dominique Lapierre e sobre o novo livro, que fala da África do Sul, aqui. Mas o que me impressionou foi a parte da Índia, que copio para aqui. O texto é de Paulo Moura, no “Ípsilon” de 13 de Novembro.
“Quando a vi andar pelas ruas dos bairros de lata de Calcutá, e essa onda de amor que chegava das pessoas, que vinham ter com ela, que a queriam tocar, pensei: ‘Ela tem realmente qualquer coisa'". E Dominique imergiu na vida da freira albanesa. Escreveu um livro sobre a independência da Índia ("Esta Noite a Liberdade") e outro sobre um bairro de lata de Calcutá.
"Encontrei ali os verdadeiros heróis da Humanidade. Pensei: ‘Tenho de ser a voz deles'. Fui a uma papelaria, comprei 15 canetas e 5 cadernos, fiquei lá a viver dois anos".
"A Cidade da Alegria", que contava a história dos pobres desse bairro, foi traduzido em muitas línguas e vendeu 9 milhões de exemplares. "Tornou-se um livro de culto porque eu não prego. Não digo: ‘Vejam, nós aqui em Portugal comemos três vezes por dia, e aquelas pessoas só comem de três em três dias'. Odeio esses pregadores. Apenas conto uma história". Mas funcionou. "Recebi 300 mil cartas, de todo o mundo. Houve pessoas que me disseram: ‘Eu tinha decidido cometer suicídio, mas li o seu livro e reencontrei o amor pela vida'. O livro mudou a vida de muitas pessoas".
Mas isso já foi depois de Dominique ter conhecido Madre Teresa e ela lhe ter dito: "Tu podes fazer o mesmo que eu". Ele tinha 50 anos. "Esta Noite a Liberdade" estava a vender bem. Os primeiros "royalties" ascendiam a 50 mil dólares. Dominique pegou nesse dinheiro e dirigiu-se a Calcutá. Encontrou Madre Teresa na missa da manhã. "Madre, sabe de alguma instituição a trabalhar com crianças leprosas que precise de dinheiro?", perguntou.
"Ela olhou para mim e disse, com o seu sotaque albanês: ‘Siz iz God who senz you!' E apresentou-me a um inglês chamado James Stevens que era negociante de camisas e gravatas em Londres e andava de Jaguar, mas um dia decidiu ir para Calcutá, com todo o seu dinheiro, para ajudar as crianças leprosas. Abriu um lar chamado Ressurreição e em 15 anos salvou 10 mil crianças. Mas agora o dinheiro acabara e preparava-se para fechar a instituição. Eu dei-lhe os 50 mil dólares e prometi-lhe que nunca o deixaria fechar a Ressurreição".
Foi Stuart que levou mais tarde Dominique ao bairro de lata chamado Cidade da Alegria. E, em consequência, a montar a sua própria instituição humanitária, depois do êxito do livro. "Comprei um velho ferry boat em Calcutá, reabilitei-o, instalei máquinas a bordo, um pequeno laboratório, uma sala de operações, contratei dois médicos e cinco enfermeiros e começámos a navegar o delta do Ganges".
Mas o hospital flutuante só dava assistência a sete das 54 ilhas, e por isso Dominique comprou mais três barcos. Metade de todos os royalties dos livros, que escreveu e viria a escrever, e todas as doações dos leitores destinam-se a financiar a Fundação Cidade da Alegria. "Em 28 anos, curámos um milhão de doentes de tuberculose. Abrimos dez escolas, concedemos microcréditos".
16 de Novembro de 1949. Morre António Aleixo

O poeta popular António Aleixo morreu no dia 16 de Novembro de 1949, em Loulé. Nascera no dia 18 de Fevereiro de 1899, em Vila Real de Santo António.
Tem uma quadra, com piada (quer dizer, tem muitas), que é assim (e que faz lembrar aqueles comentários de pessoas que se admiram por alguém morrer num acidente rodoviário a caminho de Fátima):
O pára-raios na Igreja
Serve para lembrar aos ateus
Que um cristão, por mais que o seja,
Não tem confiança em Deus!
E também escreveu que…
Morre o rico, dobram sinos;
Morre o pobre, não há dobres...
Que Deus é esse dos padres,
Que não faz caso dos pobres?
Casamento homossexual e a Igreja católica

A questão do casamento homossexual não é consensual, mesmo dentro da Igreja católica, apesar de alguma uniformidade que possa socialmente prevalecer. De qualquer forma, há uma série de equívocos nas afirmações de quem rebate as posições da Igreja.
O artigo de Mário Vieira de Carvalho, no “Público” de ontem (15-11-2009), é um bom exemplo. Podia ser um útil exercício eclesial debater os seus argumentos, um a um. Serviria, também, para alguém que deseja reflectir a partir de uma visão cristã-católica como eu, para perceber como o que a Igreja faz, diz e pensa é interpretado de um modo totalmente diverso do que ela desejaria.
Nesta questão do casamento homossexual, bastará pensar que o que a Igreja diz refere-se não ao casamento católico (que a própria Igreja só permite em determinadas circunstâncias), mas ao casamento civil. Mas é necessário acrescentar que a Igreja sempre quis transmitir à sociedade uma determinada visão social. De certa forma, essa pretensão está nos seus próprios genes. E essa visão fundamenta-se em primeiro lugar na lei natural, aplicável a todos os seres humanos. Quando a Igreja fala para a sociedade não diz: “De acordo com a revelação cristã, nós pensamos que deve ser assim”. Mas antes: “De acordo com a lei natural (princípios que segundo esta própria visão todos poderão aceitar), nós pensamos que deve ser assim”. A relevação cristã vem só num segundo nível. Mas não é nesse que a Igreja se centra essencialmente quando fala para a sociedade.
O que diz Pilar de Río
Comunicar é comunicar-se. Mesmo quando falamos de outras coisas, revelamo-nos nós próprios.
Um excerto do que diz Pilar del Río, mulher de Saramago, em entrevista à “Pública” de ontem:
Pública: Como é que tem assistido à polémica que envolve “Caim”?
Pilar del Río: Esses colunistas de merda, tão jovens, submissos, obsoletos, em vez de pensarem: “Um tipo com 86 anos que enfrenta Deus, que enfrenta a sociedade… Que sorte ter um homem com esta capacidade de rebeldia!”, perguntam: “Quem é? Quem escreve? Não gosto!” Estou indignada de ver o pouco livre que são os jovens, o quão convencionais são, o quão cansados estão. Estão assustados porque José tocou num livro sagrado. Mas quem disse que o livro é sagrado? Que mentes tão pequenas julgam a obra pública. Não conseguem ver a grandeza de uma ponte nem de um ser humano. Têm óculos que lhes deve der para verem o tamanho do seu pénis… pequenino.
domingo, 15 de Novembro de 2009
Universidades e crucifixos

A propósito de crucifixos, e uma vez que referi aqui hoje Universidade Georgetown, note-se que entre 1966 e 1999 resolveram pôr crucifixos nas salas de aulas desta universidade. Os quartos do hospital e algumas salas históricas já os tinham há muito tempo, mas a generalidade dos espaços não.
A colocação atraiu a atenção dos média e da opinião pública. Aconteceu então algo curioso. A comunidade católica do campus exigiu a remoção dos crucifixos, mas os líderes das outras crenças defenderam a sua colocação.
Já agora, sobre crucifixos e universidades norte-americanas, não resisto a transcrever duas histórias de Onésimo Teotónio de Almeida (OTA), na “Ler” de Junho de 2008. Espero transcrevê-las sem erros porque há precisamente oito dias copiei uma – aqui – com gralhas e ele escreveu-me um mail simpático a apontá-las.
As histórias têm como referência a University de Notre Dame (salvo erro, aquela em que Obama foi apupado por militantes anti-aborto; fundada em 1842 pela Congregação da Santa Cruz). Diz OTA:
“Na altura [ou seja, há décadas] o seu reitor, o famoso Padre Hesburgh, emergira como verdadeiro jet-set viajando pelo mundo inteiro, pois decidira fazer da sua pequena universidade católica uma Ivy League do «Meio Oeste» americano. Cruzava os espaços aéreos nacional e internacional a mobilizar os antigos alunos (alumni), a ponto de circular por aqui a piada: «Qual a diferença entre Deus e o Padre Hesburgh? Deus está em toda a parte, o Padre Hesburgh em toda a parte está, excepto em Notre Dame»”.
A segunda, esta sim, com um crucifixo:
“Havia que convencer um brilhante físico judeu, recém-doutorado em Harvard, a vir para Notre Dame. Pretendentes eram várias universidades com muitos mais pergaminhos. O Padre Hesburgh interveio. Quis servir de guia na visita que o candidato vinha fazer a inteirar-se da situação in loco antes de se decidir. Percorrido o campus, restava a famosa basílica. A entrada deixou-o em frios suores. «Padre Hesburgh, não lhe disseram que sou judeu?» Irónico, disfarçado de bonomia, o reitor: «E era preciso? Com esse nome, Isaac Choen?! Homem, já sabe que aqui não somos religiosos fanáticos. Temos professores de todos os credos. Creio que isso não constitui qualquer problema».
A visita à igreja, de traça franco-americana, prosseguiu com um Isaac mais calmo a secar na roupa o calafrio. A visita culminou junto do altar onde, à direita, numa coluna, está suspenso um crucifixo. Então o reitor: «Sabe o que aquilo significa?» Hesitando, meio sem jeito, o jovem acena afirmativamente. O Padre Hesburgh insiste como a ver se ele sabe a lição de cor. Isaac esquiva-se: «Claro que sei, mas o senhor saberá muito melhor, pois foi professor de Teologia Católica.» Hesburgh avançou: «Pois, qualquer que seja a versão que lhe tenham passado, creia que aqui em Notre Dame estamos convencidos de que Ele foi crucificado porque… não publicou»”.
Cruzes e crenças ecológicas

Também Alberto Gonçalves escreve sobre os crucifixos, no DN. Diz, a certa altura, que um tribunal britânico deu razão a um trabalhador despedido em nome das respectivas "crenças ecológicas". Se o caso significa o que parece, já esteve mais longe o tempo em que, em nome do laicismo, não podemos ter crenças no sobrenatural, mas podemos ter noutras fés quaisquer naturais. Como dizia Chesterton, o facto de alguém dizer que não acredita em Deus não significa que não acredita em nada. Significa que pode acreditar em qualquer coisa. Ora, Deus ainda é do melhor que há para acreditar em (parafraseando Woody Allen).
Quarta-feira, 11 de Novembro
Cruzes, credos
Oitenta e quatro por cento dos italianos discordam do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, que dias antes proibira (?) os crucifixos nas escolas públicas do país. Dado o número, é de admitir que os ateus de lá não possuam a fina sensibilidade dos ateus de cá, os quais, através de umas agremiações excêntricas, aplaudem a sentença e pedem a sua imediata importação. Segundo percebi, temem que a ingerência religiosa, assim exposta e abusiva, traumatize as criancinhas.
É capaz de ser um receio exagerado. Não me lembro se na minha sala da "primária" havia crucifixos. Lembro-me de que fora da sala havia uma igreja inteira, que contemplei da janela durante quatro anos. Além da igreja, existiam nas imediações oito capelinhas e uma filial da Santa Casa da Misericórdia. A escola, pública e laica, chamava-se "do Adro" e no adro jogávamos à bola. Contas feitas, marquei inúmeros golos e não sofri qualquer trauma, excepto nas canelas. Nunca experimentei apetites de frequentar a missa ou a catequese, provavelmente porque os meus pais vagueavam naquele tipo de ateísmo em que a religião não chega a ser assunto. Ao contrário dos peculiares ateus que não pensam noutra coisa.
Se querem poupar as criancinhas à imposição religiosa, os progenitores talvez fizessem melhor em ignorar os crucifixos e dirigir o combate para, por exemplo, o "ambientalismo" recorrente nos currículos e "actividades" escolares. Nas cabeças dos petizes, nenhuma cruz na parede tem uma fracção do impacto provocado pela doutrinação de patranhas sobre o "aquecimento global" e o papel do homem nas mudanças climáticas. O "ambientalismo" não é uma religião? É, sim senhor. Se não bastassem os seus mitos e os seus santinhos para o atestar, agora um tribunal britânico deu razão a um trabalhador alegadamente despedido em nome das respectivas "crenças ecológicas". De acordo com o juiz, o "credo ambiental" (sic) merece ser tão protegido da discriminação quanto os credos "tradicionais".
Em suma, estamos oficialmente no domínio da pura fé, com a agravante de que as proezas da Greenpeace não são exactamente o Cântico dos Cânticos e o "documentário" de Al Gore não é o "S. Mateus" de Bach. Não tenho um único argumento favorável à presença dos crucifixos, mas a preocupação com o bem-estar das criancinhas implica resguardá-las de todas as manipulações, sobretudo das ideológicas que, legitimadas pelo espírito da época, tomaram de assalto a "educação" e obrigam a referi-la entre aspas.
Perdida em preciosidades que vão do "ambiente" à educação sexual, passando pelo "multiculturalismo" e pelos enigmas que cabem na "educação cívica", a escola contemporânea abdicou daquilo que a escola do meu tempo, mesmo com uma igreja de Nicolau Nasoni a 50 metros e com doses variáveis de sucesso, ainda tentava: ensinar. Curiosamente, ou poucos protestam tamanha ingerência na liberdade alheia ou poucos os ouvem.
"Crucifixos e laicidade", por Bento Domingues
Bento Domingues escreve no Público de hoje que a "separação da esfera civil e política da esfera religiosa e eclesiástica só atinge o seu verdadeiro sentido quando essa separação é posta ao serviço da primazia da consciência e da defesa da liberdade humana".15 de Novembro de 1791. Abre portas a mais antiga universidade católica dos EUA

Jack, a mascote da universidade (ver aqui)
Fundada em 1789, ano da Revolução Francesa e da entrada em vigor da Constituição dos EUA, abriu as portas no dia 15 de Novembro de 1791 a Georgetown University, em Washington. É a mais antiga universidade católica nos EUA, dependente dos jesuítas.
Nela estudaram, por exemplo, Bill Clinton e Gloria Arroyo (presidente das Filipinas). São "Hoyas", nome que se dá aos estudantes e às equipas desportivas desta instituição. O primeiro estudante foi o congressista William Gaston (1778-1844). Entrou para a universidade aos 13 anos.
Esta universidade é uma das maiores “produtoras” de voluntários para o Peace Corps (programa estatal de voluntariado fora dos EUA). Quem sai desta universidade e arranja trabalho começa a ganhar, em média, 55 mil dólares por ano.
sábado, 14 de Novembro de 2009
Sobre filosofia e filosofar, por Anselmo Borges

14 de Novembro de 1716. Morre Leibniz

Gottfried Leibniz morreu no dia 14 de Novembro de 1716. Ao seu funeral só foi o secretário pessoal. Morreu no esquecimento. Mas Leibniz, que segundo a crítica de Voltaire, no “Cândido”, achava que vivia mo melhor dos mundos possíveis, foi um dos maiores cientistas de sempre.
Em relação a Deus, Leibniz, luterano, pelo menos oficialmente, era um “deísta”, quer dizer, admitia a existência de Deus, mas não ligava muito à revelação.
Mais interessante é que era contra a filosofia de Descartes. Achava que era perigosa para a fé. A história da teologia, de certa forma, veio dar-lhe razão, porque os ateísmos enraízam-se no racionalismo.
sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
Previsões do fim do mundo

Os quatro cavaleiros do Apocalipse, segundo Durer (ampliável)
A propósito do filme-catástrofe “2012” e do calendário maia, que pelo vistos já não contempla o dia 22 de Dezembro de 2012, e de outras previsões que dizem que já falta pouco para ao fim do mundo, a “Sábado” elenca os fins do mundo que deviam ter acontecido (mas não aconteceram):
- ano 1000, um milénio após o nascimento e Jesus Cristo;
- ano 1033, um milénio após a morte de Jesus Cristo;
- 1 de Fevereiro de 1524, em Londres, com uma inundação (nesse dia não choveu);
- erro de cálculo na data anterior. Nova data: 1624;
- 1648, segundo a previsão de Sabbatei Zevi; ou então em 1666;
- no dia 13 de Outubro de 1736, segundo William Whiston, por um cometa;
- 3 de Abril de 1843, segundo William Miller, ou no dia 7 de Julho, ou no dia 21 de Março de 1844, ou no dia 22 de Outubro do mesmo ano (aqui referido);
- 1975, segundo as Testemunhas de Jeová [a revista não diz, mas as TJ apontaram o fim do mundo para pelo menos duas outras datas anteriores];
- 11 de Agosto de 1999, com base em profecias de Nostradamus;
- no ano 2000. Ou então em 2033 (ver o que se dizia do ano 1000).
Quem deitou o Muro abaixo?

Portas de Brandenburgo. O Muro ainda de pé
Excerto da crónica de José Pacheco Pereira na “Sábado” desta semana (12 a 18 de Novembro):
“Foi preciso um Presidente americano, o actor burro da série B, um electricista polaco católico e anticomunista e provavelmente agente da CIA, e um Papa reaccionário, “mariano”, também ele polaco e anticomunista à antiga, para deitarem abaixo a coisa. Depois foi preciso um rotundo reaccionário alemão, a «couve», para forçar a «reunificação», contra tudo e contra todos, inclusive contra os brilhantes democratas do SPD, como Willy Brandt, autor da Ostopolitik que caiu com o Muro. (…) Eu sei que, agora, toda a gente esteve contra o Muro, numa daquelas reconstruções da memória em que a comunicação é fértil. Mas não é verdade”.
Trago aqui este apontamento por causa do “Papa reaccionário”, porque, dos que mais contribuíram para a queda do muro, foi este, sem dúvida, o mais esquecido nas recentes comemorações.
Agostinho: "Não sei como posso chegar a ti"
Ensina-me, Senhor, como posso chegar a ti,13 de Novembro de 354. Nasce Aurélio Agostinho

Aurélio Agostinho (Aurelius Augustinus), Agostinho de Hipona, Santo Agostinho, nasceu no dia 13 de Novembro de 354, em Tagaste, actual Souk Ahras, na Argélia.
Padre e bispo, escritor, filósofo, teólogo. Um dos poucos antigos de que se conhece a data de nascimento. Um dos poucos antigos a deixar uma autobiografia, as “Confissões”. Uma das mentes mais influentes da humanidade. Não foi só sobre a Idade Média que Agostinho pairou. Lutero, Calvino, Descartes, Kant, Hegel, os racionalismos em geral e mesmo os marxismos e utopias de todo o género, Camus, Hannah Arendt e Ratzinger, entre muitos outros, devem algo ao bispo de Norte de África. Foi há 1655 anos que nasceu.
quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
Anteriores premiados com o "Paulo VI"

Prémio Paulo VI para as "Sources Chrétiennes"

Bento XVI entregou no dia 8 de Novembro, em Bréscia, Itália, o “Prémio Internacional Paulo VI” ("Nobel católico", diz L'Osservatore Romano) à colecção de livros publicados por “Sources Chrétiennes” ("Fontes Cristãs"), na editora francesa Les Éditions du Cerf.
O Papa explicou a motivação deste “prémio à educação” com estas palavras: “Pretende sublinhar o compromisso desta histórica colecção, fundada em 1942, entre outros por Henri De Lubac e Jean Daniélou, a favor de uma redescoberta das fontes cristãs antigas e medievais”.
“Sources Chrétiennes” tem por actividade essencial a edição dos principais textos dos fundadores do cristianismo, dos Padres da Igreja (textos gregos, latinos e orientais da Antiguidade, com algumas das suas prolongações medievais) na sua língua original, acompanhados por uma tradução francesa.
Fonte: Ecclesia
12 de Novembro de 1555. O Parlamento inglês restabelece o catolicismo

No dia 12 de Novembro de 1555, durante o reinado de Maria I, de Tudor (rainha da Inglaterra e da Irlanda de 19 de Julho de 1553 a 17 de Novembro de 1558, na imagem), o Parlamento inglês restabelece o catolicismo como religião oficial.
A Inglaterra estava separada de Roma desde a primavera de 1534, com Henrique VIII. Durante o reinado de Eduardo VI, de 1547 a 1553, a Inglaterra aproximou-se do protestantismo. Maria de Tudor, de cognome Bloody Mary (Maria, a sanguinária), tentou à força que o país regressasse a Roma.
Quando Isabel I subiu ao poder (rainha de 1558 a 1603) anulou as disposições de Maria I, assumiu o título de “Suprema Governante da Igreja Anglicana” e em 1559 promulgou o Acto da Uniformidade, que tornava obrigatório o uso do “Book of Commom Prayer” na liturgia, e o Acto da Supremacia, que obrigava os oficiais e jurarem publicamente que reconheciam o controlo da soberana sobre a Igreja.
Conselho de Anselmo

Santo Anselmo (1033-1109), que era de Aosta e foi bispo de Cantuária, deixou-nos um argumento para chegar através da lógica à existência de Deus (aqui referido de passagem). Para uns, o argumento serve, para outros, não. Talvez para Anselmo também não servisse, porque Deus está para além da lógica:
“Deixa por um momento as tuas ocupações habituais; entra por um instante dentro de ti mesmo, longe do tumulto dos teus pensamentos. Lança para longe de ti as preocupações angustiantes; afasta de ti as inquietações custosas. Dedica um momento a Deus e descansa ao menos um pouco na sua presença… Deixa tudo, menos Deus e aquilo que te possa ajudar a encontrá-lo”.
quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
A Igreja ao encontro dos artistas
Do filme de Philip Groning, "O Grande Silêncio"
No próximo dia 21 de Novembro, no extraordinário cenário da Capela Sistina, o Papa Bento XVI vai encontrar-se com uma ampla embaixada do mundo artístico. Já confirmaram a sua presença alguns dos protagonistas fundamentais da criação contemporânea, nos seus diversos âmbitos: das Artes Visuais (Anish Kapoor e Bill Viola), da Arquitectura (Mario Botta, Calatrava, Gregotti, Zah Hadid), da Literatura (Piero Citati, Franco Loi, Claudio Magris), da Música (Arvo Part, Ennio Morricone), do Cinema (Peter Greenaway, Philip Groning, Nanni Moretti, Sokurov, Zeffirelli)… Este encontro, que vem sendo descrito como ocasião histórica, pretende assinalar dois aniversários: os 10 anos passados da Carta que João Paulo II endereçou aos Artistas e os 45 anos do encontro que em 1964, também na Capela Sistina, o Papa Paulo VI manteve com grandes figuras deste campo para, como ele dizia, «restabelecer uma aliança nova entre a inspiração divina da fé e a inspiração criadora da Arte».
Na conferência em que se anunciou o encontro de Bento XVI, D. Gianfranco Ravasi, Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, não podia ser mais incisivo. Segundo ele, continua a ser muito claro que a Arte não tem apenas a tarefa de descrever o visível, mas cabe-lhe colher no visível o Invisível. Isto é, compete-lhe espelhar uma visão transcendente do Ser, mostrando como a epifania da beleza é inse-parável da epifania do Mistério. A dramática verdade que hoje, porém, experimentamos é a de uma ruptura na relação, que em grande medida deveria ser co-natural, entre Fé e criação artística. Percebemos que no passado a experiência cristã foi o húmus de admiráveis obras e percursos, mas na actualidade frequentemente nos deparamos com uma grave pobreza. Face a este doloroso divórcio, Bento XVI pretende propor um esperançoso diálogo, em nome de um novo e fecundo impulso de beleza. A linguagem artística não é apenas ilustração estética da verdade que a fé confessa, mas é um verdadeiro “lugar teológico”. Há um Evangelho da Beleza que só a Beleza pode anunciar.
José Tolentino Mendonça
Fonte: Ecclesia
Diz-me em que(m) acreditas, Tony Carreira

“Quando o meu avô partiu, eu tinha apenas seis anos [agora tem quase 43]. O meu avô é o meu anjinho-da-guarda, mas não posso dizer que tenha saudades. (…) Agora, o que eu vou dizer é um bocado estranho, porque eu não acredito na vida depois da morte, mas algo me diz que o meu avô me vê, o que é uma grande contradição. Neste caso concreto, faço batota e dá-me jeito pensar assim”.
Tony Carreira à “Notícias TV”, 6 a 12 de Novembro
Intervenção de Bartolomeu dos Mártires no Concílio de Trento

Excerto de uma intervenção de Bartolomeu dos Mártires no Concílio de Trento:
Não temos quem ensine, quem confesse, nem quem pregue frutuosamente. Por isso ninguém estuda, ninguém trabalha por saber e geralmente se tem por erro gastar tempo, vida e fazenda nas Universidades: quando basta servir ociosamente ao bispo; ou a seu parente sem mais cansar, nem saber, para gozar rendas de grandes benefícios: quando vale mais a ignorância com poucas onças de favor, que a ciência e boas letras com grandes pesos de merecimento.
Eminentíssima reforma dos eminentíssimos cardeais
Túmulo de Bartolomeu dos Mártires, em Viana do Castelo
Licínio Lima escreveu no DN de 4 de Novembro de 2001, dia da beatificação de Bartolomeu dos Mártires (que entrou para os dominicanos, em Lisboa, no dia 11 de Novembro de 1528 e professou com o nome de Frei Bartolomeu dos Mártires no dia 15 de Novembro de 1529):
Trata-se da beatificação do português mais controverso da história da Igreja. Nascido em 1514, em Lisboa, Frei Bartolomeu ficou conhecido mundialmente devido à sua participação no famoso Concílio de Trento (1561-63), cuja realização se deveu, sobretudo, ao impacto da reforma protestante, lançada por Martinho Lutero, por toda a Europa ocidental.
Considerado por historiadores contemporâneos como "o maior padre conciliar" presente em Trento, o bispo português disse na altura verdades que servem para a actualidade: "A Igreja e o mundo todos estavam mais precisados de reformas do que de dogmas." Defendendo uma reforma eclesial desde a cúpula até às bases, não se coibiu sequer de sublinhar que as mudanças deveriam começar pela "eminentíssima reforma dos eminentíssimos cardeais".
Depois da participação em Trento, regressou à arquidiocese de Braga, onde foi bispo durante 23 anos, e empenhou-se em aplicar as decisões do Concílio. A ignorância causava-lhe calafrios, e mais ainda quando ouvia da boca dos padres máximas que consideravam de sapiência: "Bendita seja a Santíssima Trindade, irmã de Nosso Senhor Jesus Cristo." Perante tão santa insciência, escreveu livros de doutrina para que fossem lidos ao povo e criou escolas de teologia moral para formação do clero. São da sua autoria 32 obras que marcaram o seu tempo, uma das quais - o Estímulo de Pastores - foi oferecida a todos os participantes nos I e II Concílios do Vaticano.
Da sua iniciativa foi também a fundação do Seminário Conciliar de Braga, considerado a primeira casa de formação de sacerdotes em todo o mundo.
Durante o seu pontificado, visitou todas as 1300 paróquias da sua extensa diocese, cujo território abrangia o Minho e Trás-os-Montes, até Freixo de Espada à Cinta. Conhecedor do terreno, organizou um sínodo diocesano para ouvir as bases e, assim, vislumbrar a melhor forma de o povo interiorizar o Concílio de Trento. E para que a sua acção não fosse isolada, promoveu um concílio provincial com os bispos das dioceses circundantes, sufragâneas da sua. O diálogo com os crentes e os colegas marcou a sua acção.
Depois, exausto e doente, com apenas 69 anos, pediu ao Papa que o deixasse descansar. Resignou sem se importar com a perda dos privilégios. Isto aconteceu em 1581, tendo-se retirado para o Convento de São Domingos, em Viana do Castelo, fundado também por si, onde se dedicou à oração e meditação, e a cuidador dos pobres. Ali morreu em 1590.
Saudades das estrelas
11 de Novembro de 1528. Bartolomeu dos Mártires torna-se dominicano

No dia 11 de Novembro de 1528, Frei Bartolomeu dos Mártires entrou para a Ordem dos Pregadores (o.p., dominicanos).
Bartolomeu Fernandes dos Mártires nasceu em Lisboa (1514) e morreu em Viana o Castelo (16 de Julho de 1590). Está sepultado numa igreja desta cidade.
Participou no Concílio de Trento, tendo sido muito interventivo. Foi dos primeiros a aplicar as determinações desta reunião magna dos bispos católicos. Publicou o “Catecismo ou doutrina cristã e práticas espirituais”, destinado ao povo, e dedicou grande parte do seu tempo às visitas pastorais, numa época em que era normal os bispos nunca porem os pés nas dioceses que lhes estavam atribuídas. Foi declarado “venerável” pelo Papa Gregório XVI (em 23 de Março de 1845) e beatificado pelo Papa João Paulo II (4 de Novembro de 2001).
terça-feira, 10 de Novembro de 2009
Americano devolve Bíblia dos judeus de Viena

Vai ser devolvida à Comunidade Judaica de Viena a Bíblia de 1516 confiscada durante a Noite de Cristal (“Kristallnacht”). A Bíblia foi impressa em Veneza por Daniel Bomberg (que morreu em 1549), um impressor cristão de Antuérpia.
Confiscada durante os actos de violência ocorridos no dia 9 de Novembro de 1938 contras as comunidades judaicas da Alemanha e da Áustria (Noite de Cristal), seguiu para Biblioteca IKG de Berlim. Em 1943 a Biblioteca foi desmembrada e transferida para territórios que hoje são da Polónia e da República Checa. Em Junho de 2009, a Bíblia surgiu no leilão da casa nova-iorquina Kestenbaum & Company. As autoridades informaram o proprietário do livro acerca da sua história e este acedeu a devolver a Bíblia aos legítimos proprietários.
Esta Bíblia judaica (corresponde ao AT cristão) está escrita em hebraico, naturalmente, mas contém sumários em aramaico e comentários de três rabinos medievais, dois franceses e um espanhol.
Bomberg imprimiu cerca de 230 livros hebreus, incluindo o primeiro Talmude, que em alguns aspectos editoriais ficaria como modelo. Os seus principais clientes eram os judeus italianos, espanhóis e portugueses.
As rosas sobre a terra

Foi a tua morte que explicou a casa,
O modo como se dispõem geometricamente
As rosas sobre a terra.
Excerto de “Equinócio de Outono”, in “Diáspora”, de José Rui Teixeira
O misticismo de Richard Zimler

Richard Zimler diz numa entrevista à Ler (n.º 85, pág. 34):
“Aquilo que me atraía [no estudo de Religião Comparada], sempre, era o misticismo. A ideia, em primeiro lugar, de que existe qualquer coisa para além da nossa realidade – talvez não seja Deus mas é outra dimensão, algo de transcendente. Não faço a mínima ideia do que se trata, mas existe”.
Disse isso e deixou em mim algumas dúvidas. Como pode haver algo de transcendente que não seja Deus ou pelo menos da esfera do divino? Serão anjos? Deus, sobrenatural, transcendente não são a mesma coisa. Mas… poderá haver transcendência sem Deus? Poderá haver outra dimensão para lá da natural se não existir o que, há falta de outra palavra, teremos de nomear como Deus? Falar em deuses parece, evidentemente, irracional. Como poderiam existir vários deuses? A omnipotência é qualidade exclusiva de uma única entidade. Não pode ser dividida (na teologia cristã, esta questão foi imensamente debatida; e só há um deus, sendo três pessoas). Se admitirmos algo transcendente, como não nomear a isso Deus, ainda que não tenha a história do Deus judaico-cristão?
Comungando com o judeu Zimler toda uma tradição, ainda que o luso-americano provenha de uma família judaica laica, enquanto eu me insiro na revelação de Jesus Cristo e no grande rio que é a Igreja, poderia subscrever perfeitamente as suas palavras, com estas ligeiras diferenças. Tratando-se de Deus, não sei se a diferença é grande ou pequena:
“Aquilo que me atraía [no estudo de Religião Comparada], sempre, era o misticismo. A ideia, em primeiro lugar, de que existe qualquer coisa para além da nossa realidade –outra dimensão, algo de transcendente. Não faço a mínima ideia do que se trata, mas existe. Há falta de outra palavra, terei de dizer que é Deus”.
10 de Novembro de 1871. Henry Stanley encontra David Livingstone

Stanley é o da esquerda
No dia 10 de Novembro de 1871, o jornalista Henry Morton Stanley (1841-1904) encontra o missionário e explorador escocês David Livingstone (1813-1873). O encontro deu-se em Ujiji, perto do Lago Tanganica, na Tanzânia.
Segundo o diário de viagem de Stanley, este saudou o explorador e missionário de que não havia notícias com a frase: “Dr. Livingstone, I presume?”. Livingstone era o único europeu que Stanley encontrava em milhares de quilómetros.
segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
Erri de Luca ao Ípsilon

Erri de Luca (clicando dá para ver a cor dos olhos)
No Ípsilon do dia 6 de Novembro, António Marujo entrevistou Erri de Luca. “O autor de «Montedidio» esteve em Lisboa para explicar que a felicidade não é um passeio e para dizer por que mastiga a Bíblia como caroços de azeitona”, lê-se na abertura. A entrevista não está on-line, tanto quanto sei (haverá alguém que leia a versão em papel capaz de se entender no Ípsilon on-line?).
O que diz Erri de Luca:
- Estudo do hebraico “Acordo todos os dias estudando o hebraico antigo. Não sou crente. Tenho necessidade disso para despertar, como algo que acompanha o café, para forçar a caixa fechada do meu crânio”.
- Leitura da Bíblia “As palavras [da Bíblia] que lia de manhã, quando trabalhava como operário, tinha-as como companhia para todo o resto do dia. Remastigava-as no trabalho das obras e fazia como se fosse um caroço de azeitona que me ficava na boca”.
- Um exemplo sobre as más traduções da Bíblia “No original hebraico, não está a condenação de Eva de parir com dor. A palavra hebraica é esforço, fadiga. Não é dor, porque ali não há intenção punitiva da divindade. Há apenas uma verificação. Àqueles dois, que comeram da árvore do conhecimento do bem e do mal e que se encontraram nus, diz: «Vocês tornaram-se outra coisa, não pertencem já a nenhuma espécie animal; nenhuma espécie animal sabe que está nua; aconteceu uma mudança total»”.
- Sobre o livro “Penúltimas notícias sobre Jesus”, recentemente publicado em Itália “São todas tomadas as histórias do Novo Testamento, do evangelho. São penúltimas porque as últimas, as respeitantes ao seu regresso, ao cumprimento da promessa, essas estão em suspenso. O cristianismo vive num intervalo entre o núncio do fim, deito por Jesus, e o cumprimento deste anúncio. São dois mil anos de intervalo, de tempo suplementar”.
- Sobre o Jesus daquele livro “É um Jesus em carne e osso, um Jesus ainda vivo, que está um tempo na oficina de carpinteiro do seu pai, até começar a sua missão. Vive num território ocupado militarmente por uma nação hostil, a maior potência militar. E pode dizer «dai a César o que é de César», porque nada naquela moeda tem poder sobre o mundo. Por isso, é uma figura em carne e osso. Um hebreu daquele tempo”.
O regresso dos deuses pagãos

Há dias referiu-se neste blogue Isaiah Berlin (aqui). Hoje, durante uma busca noutras direcções, dei com este texto de João Carlos Espada no jornal I (aqui). Fala de uma conferência anual na Universidade de Oxford, instituída a quando da morte do pensador de origem judaica.
A palestra de 2009, em Maio, foi proferida pelo Rabi Adin Steinsaltz (na imagem), que abordou a “a paganização da cultura ocidental”.
Diz Espada, resumindo as ideias desta conferência profundamente "berliniana", “profundamente pluralista”:
“A visão cristã do mundo perdeu influência. E, no lugar do Deus judaico--cristão, existem agora os deuses pagãos da antiguidade pré-cristã - ainda que possam ter novos nomes, novas imagens e novos templos.
O primeiro desses deuses é Baal, o deus do poder, também por vezes designado por Mammon, o deus do dinheiro. Os seus templos estão nos centros financeiros das grandes cidades e os seus padres são hoje designados por executivos e gestores.
O segundo deus pagão contemporâneo corresponde à antiga deusa da fertilidade e do sexo: Astarte, ou Ishtar, ou Ashtoreth. Os templos desta deusa - que já não é propriamente da fertilidade, mas simplesmente do sexo - encontram-se um pouco por toda a parte na sociedade ocidental.
Finalmente, temos uma musa promovida a deusa: Calliope, deusa da fama, simbolizada hoje na expressão "celebridade". Ser uma celebridade significa "ser um ninguém muito conhecido", isto é, alguém que toda a gente conhece mas ninguém sabe exactamente o que faz ou por que merece ser célebre. Os templos desta deusa estão em todas as casas e chamam-se televisão”.
Li o texto on-line hoje de manhã antes da compra diária do “Público” em papel. Leio na última página do matutino: “Há algum tempo – há quanto tempo, meu Zeus, já nem me lembro – era possível acreditar num Portugal fundamentalmente honesto” (início da crónica de Rui Tavares). Não me interessa o assunto da crónica, a corrupção, que, antes de ser um problema político e jurídico, é um problema moral e está resolvido à partida. Interessa-me a expressão: “Meu Zeus”. Não significa nada a não ser uma provocação. Mas que se usa a provocação - e Rui Tavares não é nem de longe o primeiro a fazê-lo na imprensa escrita - é já um sinal.
9 de Novembro de 1989. Cai o Muro de Berlim

O muro caiu há 20 anos. Está tudo dito na imprensa do fim-de-semana e de hoje. Tudo mesmo? Lembro as palavras de João Paulo II no documento “Ano Centenário” (“Centesimus annus”), a propósito de “O ano de 1989”, em que caíram o muro e os regimes do Leste:
Violação dos direitos do trabalho
De entre os numerosos factores que concorreram para a queda dos regimes opressivos, alguns merecem uma referência particular. O factor decisivo, que desencadeou as mudanças, é certamente a violação dos direitos do trabalho. Não se pode esquecer que a crise fundamental dos sistemas, que pretendem exprimir o governo ou, melhor, a ditadura do proletariado, inicia com os grandes movimentos verificados na Polónia, em nome da solidariedade. São as multidões dos trabalhadores a tornar ilegítima a ideologia, que presume falar em nome deles, a reencontrar e quase redescobrir expressões e princípios da doutrina social da Igreja, a partir da experiência difícil do trabalho e da opressão que viveram.
Merece, portanto, ser sublinhado o facto de, quase por todo o lado, se ter chegado à queda de semelhante «bloco» ou império, através de uma luta pacífica que lançou mão apenas das armas da verdade e da justiça. Enquanto o marxismo defendia que somente extremando as contradições sociais, através do embate violento, seria possível chegar à sua solução, as lutas que conduziram ao derrube do marxismo insistem com tenacidade em tentar todas as vias da negociação, do diálogo, do testemunho da verdade, fazendo apelo à consciência do adversário e procurando despertar nele o sentido da dignidade humana comum.
Ineficácia do sistema económico
O segundo factor de crise é com certeza a ineficácia do sistema económico, que não deve ser considerada apenas como um problema técnico, mas sobretudo como consequência da violação dos direitos humanos à iniciativa, à propriedade e à liberdade no sector da economia. A este aspecto, está ainda associada a dimensão cultural e nacional: não é possível compreender o homem, partindo unilateralmente do sector da economia, nem ele pode ser definido simplesmente com base na sua inserção de classe. A compreensão do homem torna-se mais exaustiva, se o virmos enquadrado na esfera da cultura, através da linguagem, da história e das posições que ele adopta diante dos acontecimentos fundamentais da existência, tais como o nascimento, o amor, o trabalho, a morte. No centro de cada cultura, está o comportamento que o homem assume diante do mistério maior: o mistério de Deus. As culturas das diversas Nações constituem fundamentalmente modos diferentes de enfrentar a questão sobre o sentido da existência pessoal: quando esta questão é eliminada, corrompem-se a cultura e a vida moral das Nações. Por isso, a luta pela defesa do trabalho une-se espontaneamente a esta, a favor da cultura e dos direitos nacionais.
Vazio espiritual provocado pelo ateísmo
A verdadeira causa das mudanças, porém, está no vazio espiritual provocado pelo ateísmo, que deixou as jovens gerações privadas de orientação e induziu-as em diversos casos, devido à irreprimível busca da própria identidade e do sentido da vida, a redescobrir as raízes religiosas da cultura das suas Nações e a própria Pessoa de Cristo, como resposta existencialmente adequada ao desejo de bem, de verdade, e de vida que mora no coração de cada homem. Esta procura encontrou guia e apoio no testemunho de quantos, em circunstâncias difíceis e até na perseguição, permaneceram fiéis a Deus. O marxismo tinha prometido desenraizar do coração do homem a necessidade de Deus, mas os resultados demonstram que não é possível consegui-lo sem desordenar o coração.
domingo, 8 de Novembro de 2009
Não sei se é fé

Sei que não sei procurar-te, e não desisto.
Que me leva a seguir-te? Por que insisto
em descobrir teu rosto? Meu desejo
não sei se é fé. Não sei. Não sei se creio
em coisa alguma. Em quê?
Não sei… mas continua a procurar-te.
Juan José Domenchina (1898 – 1959)
Bento Domingues: “Companheiros de viagem”

Bento Domingues no Público deste domingo:
“As celebrações católicas, como a festa de Todos os Santos, fazem um esforço contra o elitismo. Confessam que os canonizados – e os que estão a caminho de o ser – são uma pequeníssima minoria em relação às visões deslumbrantes do Apocalipse” (...).
8 de Novembro de 1308. Morre João Duns Escoto

João Duns Escoto (ou Scot ou Scotus) nasceu em 1265, na Escócia (e daí o seu nome “Scot”; Duns fica na fronteira entre a Escócia e a Inglaterra; mas também há quem diga que nasceu em Ulster) e morreu no dia 8 de Novembro de 1308, em Colónia, depois de ter sido professor em Oxford e Paris. Foi beatificado no dia 20 de Março de 1993 por João Paulo II.
Franciscano, logo na linha de Boaventura e mais agostiniano, Escoto começa a quebrar o equilíbrio fé/razão de Tomás de Aquino (1225-1274). Se para Tomás, fé e razão (ou Teologia e Filosofia) não podem contradizer-se (contra a possibilidade das duas verdades sobre uma mesma coisa, como alguns medievais chegavam a dizer perante as diferenças entre a Bíblia e Aristóteles) e devem cooperar na busca da verdade, para Escoto, Filosofia e Teologia seguem caminhos independentes, autónomos. A Teologia não precisa da Filosofia nem a Filosofia da Teologia, diria Escoto (contra Tomás). Nesta sequência surgirá o fideísmo (ainda mais claro com Ockham) e também o valor dado à experiência para conhecer a realidade. Cada indivíduo tem em si uma essência única, que o torna exactamente esse indivíduo ou essa coisa, a “haecceitas”. A “essência universal é diferente… da peculiaridade individual”, escreveu. Não há universais. Só indivíduos.
A hilariante interpretação literal
Já foi dito e repetido que ninguém fez tanto pela Bíblia, recentemente, ainda que de modo involuntário, como Saramago, ou melhor, como as declarações de Saramago. Tanto, em termos mediáticos e de interesse popular, não fizeram, por exemplo, o Ano Paulino, decretado por Bento XVI para 2008 e 2009, e o Sínodo da Palavra (Roma, Outubro de 2008). E digo que tanto não fizeram porque não ouvi ninguém na rua a discutir se Paulo tinha ou não caído do cavalo ou se “a história é prova de como a palavra de Deus é viva” (frase do início dos lineamenta do Sínodo). Mas ouvi, num café, no intervalo dum jogo da Liga Europa, uma discussão sobre a inspiração bíblica, em concreto sobre a definição do cânone no Concílio de Trento. Não conhecia ninguém e não me meti na conversa. Ouvi-a uns bons cinco minutos, na mesa ao lado, até começar a segunda parte do jogo num canal desportivo. E, pela aparência, não era um letrado que falava, mas alguém da working class.
Exemplos do interesse bíblico com génese em Saramago são os últimos números do JL (n.º 1020) e da "Ler" (n.º 85).
Na sempre hilariante “Diacrónica”, de Onésimo Teotónio de Almeida, este açoriano professor nos EUA escreve ("Ler", p. 93):
“Nos States, a assanhada moderadora de um programa radiofónico de linha aberta decretou a homossexualidade uma perversão, apoiando-se na Bíblia, mais precisamente no Levítico, capítulo 18, versículo 22: «Tu não te deitarás com um homem como te deitarias com uma mulher: seria uma abominação». Um ouvinte reagiu por carta, sim senhora, assim é que é, defender a moralidade pública com coragem impondo a Lei de Deus. Depois, todo falinhas mansas, pede conselho em jeito de perguntas inocentes. O leitor internetional já conhece certamente, mas para benefício dos outros cito aqui e ali. «Gostaria de vender a minha filha como serva, tal como vem indicado no livro do Êxodo, cap. 21,7. Na sua opinião, qual seria o preço mais justo? O Levítico, também, no cap. 25,44, diz que posso ter escravos, homens ou mulheres, desde que sejam comprados me nações vizinhas. Um amigo meu afirma que isto é aplicável aos mexicanos, mas não aos canadianos. Poderia a senhora esclarecer-nos sobre este ponto? Tenho um vizinho que trabalha ao sábado. O êxodo (25,2) afirma claramente que ele deve ser condenado à morte. Sou obrigado a matá-lo eu próprio? Outra questão: o Levítico (21,18) diz que não podemos aproximar-nos do altar de Deus se tivermos problemas de visão. Eu preciso de óculos para ler. A minha acuidade visual teria de ser de cem por cento? Seria possível rever esta exigência no sentido de baixarem o limite? Um último conselho: o meu tio não respeita o que diz o Levítico (19,19), plantando dois tipos de culturas diferentes no mesmo campo, da mesma forma que a mulher dele usa roupas feitas de diferentes tecidos: algodão e poliéster. Além disso, ele passa os dias a maldizer e a blasfemar. Será obrigatório levar o processo até às últimas consequências reunindo todos os habitantes da aldeia para lapidarmos o meu tio e a minha tia, como manda o Levítico (24,10-16)». E por aí foram terminando humildemente pedinte: «Confio em pleno na sua ajuda»”.
sábado, 7 de Novembro de 2009
Anselmo Borges: "Homossexualidade e casamento"
Anselmo Borges escreve no DN de hoje sobre "Homossexualidade e casamento".
Diz a certo ponto que:
O Estado deveria encontrar uma forma de união com consequências jurídicas semelhantes às dos casados. Mas, como já aqui escrevi, a questão reside em saber se há-de chamar-se-lhe casamento. O problema é mais do que religioso e as palavras não são indiferentes, pois não pode dar-se o mesmo nome ao que é diferente.
Na íntegra aqui.
7 de Novembro de 1913. Nasce Camus

Albert Camus, que com Nietzsche e Dostoiévski, formavam uma trindade de existencialistas (ou pré) que, estudantes, gostávamos de ler ou de dizer que líamos, nasceu no dia 7 de Novembro de 1913, um dia depois de Gandhi ter sido preso na África do Sul, quatro anos precisos antes de Lenine depor Kerenski, na Revolução que para o calendário ortodoxo (juliano) foi em Outubro.
Camus, no estudo da Filosofia/Teologia, era um existencialista aberto, não-cristão, ao contrário de Gabriel Marcel ou Karl Jaspers, mas representando um humanismo ateu dialogante, diferente do de Sartre.
A tese de doutoramento de Camus foi sobre Santo Agostinho. Nobel da Literatura em 1957 (três anos antes de morrer), escreveu “O estrangeiro”, “O mito de Sísifo. Ensaio sobre o absurdo”, “A peste”, “O homem revoltado”, entre outras obras.
Como isto anda tudo ligado, li ontem em “A Vertigem das Listas” (p. 309-310):
Eu lembro-me de que o protagonista de “O Estrangeiro” é Antoine (?) Meursault: foi frequentemente observado que ninguém se recorda do seu nome.
sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
6 de Novembro de 1913. Gandhi é preso na África do Sul

É correr a comprar

Carlos Fiolhais no Rerum Natura (aqui):
Ando a ler o livro "A Mecânica de Deus" com o subtítulo "Como os Cientistas e Engenheiros entendem a Religião", acabado de sair nas Publicações Europa-América. O autor é Guy Consolmagno, astrónomo jesuíta contemporâneo especializado em meteroritos, asteróides e planetas anões (há um asteróide com o seu nome, o 4597 Consolmagno). Não pude deixar de sorrir com vários passos, nomeadamente este da p. 257:
"Todavia, é claro que entre todos os tolos do Vaticano de hoje não há nada de semelhante à incrível fileira de patifes que pulularam na história da minha Igreja. Podem discordar o que quiserem dos pontífices mais recentes, mas não há dúvida de que pelo menos tentaram ser Homens Santos, tentando sinceramente fazer aquilo que lhes parecia ser a vontade de Deus. É mais do que poderíamos dizer de muitos outros pontífices da História, a quem não confiaria as chaves do meu automóvel, quanto mais as chaves do Reino dos Céus. E mesmo assim, a Igreja e as suas doutrinas sobreviveram, de algum modo. Eu estou a brincar um pouco (menos de um pouco) quando digo que esta é a derradeira prova da existência de Deus, e um milagre que só Deus poderia ter conseguido".
Relíquias 6 - O crânio do jovem Baptista está numa catedral alemã

Ele vem, vem, vem sempre
Não ouviste os seus passos silenciosos?quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
Relíquias 5 - O estranho fascínio por Santa Teresinha
Esta aparente fixação nas relíquias, que é uma curiosidade antiga, deve-se a dois motivos.
O primeiro, mais recente, é a edição em português do “A vertigem das listas”, de Umberto Eco. Livros com este, que é um livro de muitos livros, fazem pensar que nunca a Internet, a electrónica e seus derivados acabarão com a edição impressa de livros. À falta de adjectivos que digam o espanto com que o folheio, saiba-se que ele tem controlado o meu tempo para lá das estritas obrigações profissionais e familiares. É um livro esponja. Absorve tudo.
O segundo prende-se com a visita das relíquias de Santa Teresinha a Inglaterra e Gales. O facto não foi referido na imprensa portuguesa generalista, nem tal merecia, por si mesmo, mas talvez não devesse ter sido ignorado pela imprensa católica lusa.
Ora, em Inglaterra, as relíquias de Santa Teresinha (ou Teresa de Lisieux, ou Teresa do Menino Jesus) fizeram o que fazem em qualquer outro país por onde passam (Portugal inclusive, em 2006): arrastam multidões. Diz-se que provocam conversões, mas isso é difícil de contabilizar. Já as multidões notam-se.
Em Inglaterra, as relíquias visitaram pela primeira vez uma igreja não-católica, em York, e provocaram filas de horas em York e Oxford e em mais 26 cidades, de Cardiff, a Manchester, de Birmingham a Portsmouth. São os exemplos que refere a BBC: em York, onde as relíquias estiveram 18 horas, a catedral esteve aberta pela noite dentro, de modo a que pudessem venerá-las – ou simplesmente vê-las; visitaram uma prisão londrina (como em Portugal, com presidiários a transportarem o relicário).
As relíquias terminaram o “tour” em Westminster, onde passaram 2000 fiéis por hora. Os serviços da catedral prepararam cerca de 100.000 velas e 50.000 rosas. A digressão inglesa terminou no dia 15 de Outubro. Foto-reportagem da BBC, no dia 13 de Outubro, aqui.
(Foi Fernando Correia de Oliveira, da Estação Cronográfica, que me deu a notícia, por na altura estar em Inglaterra. Agradeço-lhe.)
Relíquias 4 - O crânio do jovem João Baptista

As relíquias não são um exclusivo dos cristãos (principalmente católicos e ortodoxos). E na verdade muitos católicos e ortodoxos pouco ou nada ligam a tais objectos, se é que podemos generalizar em “objectos” um conjunto de coisas que vai dos objectos propriamente ditos de santos, da Virgem e de Jesus a elementos corporais.
Os budistas guardam as cinzas da cremação de Sidarta Gautama, o Buda. E já os gregos, diz Umberto Eco, reportando-se a Plínio, tinham um certo culto por objectos como a lira de Orfeu, a sandália de Helena ou os ossos do monstro que tinha assaltado Andrómeda.
De todas as relíquias espantosas da Idade Média, há duas particularmente curiosas: o crânio de São João Baptista aos 12 anos e a pedra que Jesus não teve para reclinar a cabeça, como diz o evangelho. Quem as tinha/tem? Se encontrar as referências, aqui voltarei.
Relíquias 3 - Lança de Jesus em Viena

Relíquias 2 - O anel de noivado de São José

Relíquias 1 - Catedral de Praga

“Na Catedral de São Victor, em Praga, é possível encontrar os crânios de São Adalberto e São Venceslau, a espada de Santo Estêvão, um fragmento da cruz, a toalha da Última Ceia, um dente de Santa Margarida, um fragmento da tíbia de São Vital, uma costela de Santa Sofia, o queixo de São Eobano, o bastão de Moisés e o vestido da Nossa Senhora.
Umberto Eco in "A Vertigem das Listas", ed. Difel, pág. 173.
Tens que a mim me apoucar
5 de Novembro de 1997. Morre Isaiah Berlin

Grande pensador liberal do séc. XX. De origem judaica, nasceu em Riga, Letónia (6 de Junho de 1909), e viveu desde os 10 anos no Reino Unido. Ensinou teoria social e política em Oxford, foi historiador das ideias. Morreu no dia 5 de Novembro de 1997, aos 88 anos.
Num dos seus livros de ensaios, ele, que era liberal mas não iluminista, pelo menos do Iluminismo francês, que esteve na origem dos totalitarismos de esquerda e de direita, escreve:
“O que o Iluminismo no seu conjunto tem em comum é a negação da doutrina fulcral da Igreja do pecado original, na medida em que acredita que o homem nasceu ou inocente e bom, ou moralmente neutro e maleável pela educação e pelo enquadramento, ou, na pior das hipóteses, profundamente defeituoso mas capaz de um aperfeiçoamento radical e indefinido mercê de uma educação racional em circunstâncias favoráveis, ou através de uma reorganização revolucionária na sociedade como pretendia, por exemplo, Rousseau. Foi essa rejeição do pecado original que a Igreja condenou severamente no Émile de Rousseau, apesar do ataque dirigido contra o materialismo, o utilitarismo e o ateísmo”.
“O Contra-Iluminismo” in Isaiah Berlin, “A Apoteose da Vontade Romântica”, ed. Bizâncio.
quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Acabou com a palavra "selvagem" na caracterização dos povos

Judeu de origem francesa nascido em Bruxelas, Claude Lévi-Strauss, que morreu há dias (há imprensa que diz que foi no domingo, 31; sítios na Internet dizem que foi no dia 30, sábado), contribuiu para apagar a palavra “selvagem” do vocabulário, diz o Público (aqui). No “Estado de São Paulo”, um depoimento oral explica como mostrou que “sociedades sem escrita falam através de mitos, de pinturas do rosto, dos trajes, dos objectos e utensílios”. Tudo constitui uma forma de organização social que nada tem de primitivo como se julgava então (anos 1930-1950).
Claude Lévi-Strauss, que no Brasil onde deu aulas era o Prof. Claude L. Strauss para não ser confundido com as calças de ganga, mostrou que grupos aparentemente inferiores têm formas de organização elaboradas. Civilização e “selvagens” têm a mesma humanidade em comum (estruturas) que se expressa em linguagens diferentes. Ouvir aqui.
Lévi-Strauss deu cabo do racismo, se ainda era preciso dar. E do etnocentrismo.
No Público de hoje o excerto de uma entrevista de 1999, quando Claude Lévi-Strauss estava quase a fazer 90 anos (aqui).
Vê-se como um sábio?
Ah não! Ao longo da minha existência, fiz os possíveis para me divertir ou, se quiser, para não me aborrecer [risos]. Foi por isso que trabalhei, porque se não o fizesse aborrecer-me-ia imenso. Escrevi apenas para passar o tempo. E não dou qualquer importância a isso.
Os que o leram dão. Por que razão se apaga tanto?
Se calhar, isso é que é ser sábio! [risos]. Os outros deram-me uma certa importância em certo momento, sobretudo os da mesma geração, nos anos 50, 60, 70. Hoje não se interessam pelo que faço ou fiz. E acho bem que assim seja.
O senhor é um dos últimos sobreviventes de toda uma geração de pensadores e escritores - Braudel, Lucien Febvre, Sartre, Merleau-Ponty, Raymond Aron, Dumézil, Breton, Max Ernst, Marcel Duchamp, Lacan, Alexandre Koyré, Foucault, Jakobson, a lista é interminável. Tem consciência da referência intelectual que representa?
Mas eu não sou uma referência. O que se passa é que vivi mais, sou mais velho. É tudo!
Inspirações 6 - Frutos, papas e pérolas

Mais usos de expressões de inspiração religiosa:
1) Morreu o “Papa do Estruturalismo”, diz o “Público” (04-11-2009), referindo-se a Claude Lévi-Strauss (28-11-1908 – 01-11-2009).
2) Em relação ao novo governo português, Nuno Rogeiro diz que “pelos frutos o conhecereis”. Remete para uma passagem dos evangelhos. E acrescenta: “Só os factos, aliás, podem convencer pessoas de fés desencontradas” (revista “Sábado” de 29 de Outubro de 2009).
3) Pedro Santos Guerreiro, retomando uma entrevista do cirurgião Eduardo Barroso ao "Público", em que o médico diz que fazer cirurgias normais com a sua esquipa de especialistas “é como ter um fórmula 1 para ir fazer compras no Chiado”, dá como título ao seu comentário “ter pérolas para porcos”. Também vem nos evangelhos (revista “Sábado” de 29 de Outubro de 2009).
Acredita no Paraíso? - 2

Jardim das Delícias, de Hieronymus Bosch
O Diário de Notícias, aos sábados, traz um inquérito a figuras públicas intitulado “Quem fala assim…”. Uma das perguntas, a penúltima, pede: “Acredita no paraíso?” Respostas:
José Manuel Rodrigues (madeirense, jornalista, deputado do CDS-PP): Acredito que aqui na terra passamos pelo paraíso, pelo purgatório e pelo inferno. Acredito que também haverá estas fases depois da morte.
António Nogueira Leite (economista; administrador de empresas): Acredito.
Alda Macedo (dirigente do Bloco de Esquerda): Não.
4 de Novembro de 1869. Começa-se a publicar a “Nature”

Será a revista científica mais prestigiada. Publicar na “Nature” é o que há de melhor para um currículo científico. No início não era assim, a julgar pelo primeiro número, em 1869, aqui. O primeiro proprietário deste revista inglesa foi Alexander MacMillan. Hoje a “Nature” tem uma tiragem de 65 mil exemplares. Cada número, em média, é lido por 10 pessoas.
Foi na “Nature” que foram anunciados os raios X, a dupla hélice do ADN, os pulsares, o buraco do ozono, a clonagem da Dolly…
No ano 2000, reviu-se o objectivo da publicação para o seguinte: “First, to serve scientists through prompt publication of significant advances in any branch of science, and to provide a forum for the reporting and discussion of news and issues concerning science. Second, to ensure that the results of science are rapidly disseminated to the public throughout the world, in a fashion that conveys their significance for knowledge, culture and daily life”.
Servir os cientistas e divulgar as descobertas.
terça-feira, 3 de Novembro de 2009
Já havia uma Chave de Salomão (e outros escriptos)

Os botões do casaco de Dan Brown têm escrito: “S. Georgivs Equitvm Patronvs”, “São Jorge Patrono dos Cavaleiros”. Li numa revista. O que pretende o escritor com isso? Não sei. Mas é curioso.
No dia 18 de Junho, referia aqui que o “símbolo perdido” ou seria um símbolo cristão ou não despertaria tanto interesse. Errei. Parece que o símbolo perdido é a chave de Salomão (não sei ao certo; não li o livro). Estava para ser esse o título do livro. Um símbolo de certo modo pré-cristão. Mas o assunto geral é a maçonaria, que os maçons pretendem que remonte aos pedreiros do templo de Salomão. Será que vai vender tanto como os dois anteriores? Pelo que pude observar em duas livrarias, uma grande e outra de rua, não. Mas os números hão-de dizer da sua justiça.
3 de Novembro. Eleição de Inocêncio IX, o Papa que não saiu da cama
segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
2 de Novembro de 1975. Morre Pier Paolo Pasolini

Pier Paolo Pasolini morreu no dia 2 de Novembro de 1975, aos 53 anos (nascera a 5 de Março de 1922). Escritor, poeta e cineasta, comunista e homossexual assumido, crítico do governo italiano e da Igreja católica.
Em 1964 filmou “Il vangelo secondo Matteo” (“O Evangelho segundo Mateus”), o mais político dos filmes sobre Jesus Cristo. Para muitos, o melhor filme do género.
Na imagem: Pier Paolo Pasolini, ao centro, e Enrique Irazoqui (Jesus, no filme), à esquerda. Pausa durante as filmagens.
Não penseis que se pode aprender
Não penseis que se pode aprenderAmam-me, logo existo - este post não é sobre Descartes

«Embora o método do discurso [de Descartes] seja deficiente, o fim é meritório. Só começo a viver depois de encontrar o sentido da vida, a verdade primordial, "a afirmação tão sólida e tão segura que a tome sem escrúpulo como primeiro princípio". Em que verdade baseio a minha vida? Qual o princípio do que sou? Esta é a única busca que vale a pena.»
domingo, 1 de Novembro de 2009
Tecto e esquema do tecto da Capela Sistina
1 de Novembro de 1512. Pode-se ver o tecto da Capela Sistina

No dia 1 de Novembro de 1512, não se sei por nesse dia completar nove anos o papado de Júlio II (provável, porque foi o papa que contratou Miguel Ângelo) ou se por ser dia de Todos os Santos (improvável, porque a parede do “Juízo Final” só foi pintada em 1535-1541) ou por qualquer outro motivo, é mostrado o tecto da Capela Sistina.
Bento Domingues: "Tempo glorioso para a Bíblia"
Vivemos um "tempo glorioso para a Bíblia", em parte graças à polémica de Saramago. "Deus escreve direito por linhas tortas" - vem na Bíblia. A outra parte, muito maior, deve-se ao trabalho dos Capuchinhos ou de biblistas como o dominicano Francolino Gonçalves. Bento Domingues conta tudo na sua crónica dominical do Público (clique para aumentar).
sábado, 31 de Outubro de 2009
Lutero não aguenta mais

A Declaração Conjunta foi assinada no dia 31 de Outubro de 1999 porque nesse mesmo dia, mas 482 anos antes, em 1517, Lutero afixava na porta da igreja do Castelo de Wittenberg as 95 teses contra as indulgências.
“27. Pregam doutrina mundana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].
28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, pode aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus”.
Podem ler lidas aqui.
Na imagem, uma das indulgências vendidas pelo dominicano alemão Johannes Tietzel. Diz isto: "Pela autoridade de todos os santos e numa atitude de misericórdia para convosco, absolvo-vos de todos os pecados e más acções e redimo de qualquer castigo durante dez dias".
31 de Outubro de 1999. Luteranos e Católicos assinam a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação
No dia 31 de Outubro de 1999, o bispo luterano Christian Krause, pela Federação Luterana Mundial, e o cardeal Edward I. Cassidy, pela Santa Sé, assinaram a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação.
O documento, um passo fundamental no diálogo ecuménico entre luteranos e católicos, vem dizer que ambos professam a mesa fé na doutrina da salvação (é isso que quer dizer “justificação”), embora com nuances diferentes. Unidos no fundamental.
Este primeiro “confessamos juntos” põe em concordância o essencial do luteranismo (sola gratia, sola fides) sem deixar que os católicos percam a face (a defesa das obras):
"Confessamos juntos: somente pela graça, na fé na obra salvífica de Cristo, e não por causa dos nossos méritos, somos aceites por Deus e recebemos o Espírito Santo, que nos renova os corações e nos capacita e chama para as boas obras".
A declaração conjunta pode ser lida aqui.
Inspirações 5 - Lula, Jesus Cristo, Judas e fariseus
Numa entrevista em que diz que já não usa a palavra burguesia (“Não utilizo mais a palavra burguesia. (…) Tem sectores diferenciados. Não pode colocar todo mundo no mesmo barco”), Lula da Silva nota que ninguém consegue formar governo fora da realidade política. “Entre o que se quer e o que se pode fazer, tem uma diferença do tamanho do oceano Atlântico”. E depois remata: “Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”.
A entrevista pode ser lida na Folha de S. Paulo.
Igualmente curioso - e bíblica, social e politicamente pertinente - foi o comentário que se seguiu de D. Dimas Lara Barbosa, secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB): "Judas era um discípulo de Jesus. Mas Jesus não fez aliança com fariseus e saduceus" (aqui).
As notas desta discussão de semântica bíblica, que é mais um caso de linguagem política de inspiração religiosa, chegaram-me através do missionário português no Nordeste brasileiro Pedro José, a quem muito agradeço (tem blogue aqui).
Anselmo Borges: "Seria injusto não haver Deus"
Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):
Deus não é "objecto" de ciência, mas uma esperança, sobretudo quando se pensa nas vítimas inocentes. Como escreveu o agnóstico M. Horkheimer, um dos fundadores da Escola Crítica de Frankfurt, "se tivesse de descrever a razão por que Kant se manteve na fé em Deus, não saberia encontrar melhor referência do que aquele passo de Victor Hugo: uma anciã caminha pela rua. Ela cuidou dos filhos e colheu ingratidão; trabalhou e vive na miséria; amou e vive na solidão. E no entanto está longe de qualquer ódio e rancor, e ajuda onde pode... Alguém vê-a caminhar e diz: Ça doit avoir un lendemain!... Porque não foram capazes de pensar que a injustiça que atravessa a História seja definitiva, Voltaire e Kant postularam Deus - não para eles mesmos".
O texto chama-se "Seria injusto não haver Deus". Parece que há uma espécie de necessidade lógico-moral. Mas na Bíblia não é assim. Ou é mais do que isso. Deus, de certo modo, intromete-se. Na revelação judaico-cristã, Deus vem ao encontro do ser humano. Comunica-se. Mete-se com Adão e Eva, com Caim, com Abraão, com Moisés, com os profetas, com os pensadores sapienciais. Deus toma a iniciativa.
Leão e Águia trocados

No livro de Durrow, os evangelistas são representados por quatro animais, como é tradição. Porém, o Leão é atribuído a João (e não a Marcos) e a Águia a Marcos (e não a João). Mateus e Lucas são representados por um homem e um touro, respectivamente.
Livro de Durrow

O Livro de Durrow (que provavelmente foi feito na abadia de Durrow, no Condado de Offaly, na Irlanda, mas há outras hipóteses) é o mais antigo Evangelho ilustrado que sobreviveu na totalidade. Representa um novo conceito medieval de embelezamento do texto sagrado. É o primeiro exemplo de um programa total de decoração que complementa a estrutura do texto.
A instituição que o detém, Trinity College de Dublin, diz que é da segunda metade do séc. VII (e não do séc. IX, como diz a Ecclesia). O Livro de Durrow, de pergaminho, mede 245 x 145 mm.
Tesouro cultural da Irlanda chega a Coimbra

Uma cópia do livro de Durrow, o mais antigo Evangelho com decorações completas feito na Irlanda, foi ontem entregue à Universidade de Coimbra.
Datado do século IX, é um dos mais famosos manuscritos com iluminuras irlandesas e muito provavelmente o primeiro Evangelho produzido nas ilhas britânicas, no período pós-Império Romano.
O director da biblioteca da Universidade de Coimbra, Carlos Fiolhais, espera que esta obra seja muito requisitada: “Uma obra do século IX com iluminuras ao estilo inglês da época, feita por monges, numa altura em que os livros eram coisas misteriosas, feitas no segredo dos conventos, interessa a toda a gente, no sentido de que qualquer pessoa é curiosa pela história, saber como os livros eram feitos na alta idade média, que arte tinham. É algo que tem interesse para toda a gente, saber como a tradição cristã passou nessa altura através do livro, o papel que o livro teve na história da religião, em particular o cristianismo.”
Considerado um dos mais importantes testemunhos da sua época, o original deste livro encontra-se no espólio da biblioteca da Trinity College, em Dublin.
Fonte do texto: Ecclesia





