Tribo de Jacob
Quarta-feira, 19 de Junho de 2013
Jonas e a descida
Inês Fonseca Santos tem um livro de poesia que se chama "A Habitação de Jonas". Não sei se fala da fuga e da descida às profundezas do mar. Mas a autora diz que Jonas quer arrumar o coração para "descer por ele até mais do que uma sílaba:/ até uma palavra". Mas fala de descidas.
Aprender com os ateus: Jornada desde a manjedoura
Ao contar a jornada de um homem desde a manjedoura, o cristianismo conta uma história quase universal acerca do destino da inocência e da docilidade num mundo turbulento. A maior parte das pessoas são cordeiros que necessitam de bons pastores e de um rebanho misericordioso.
Alain de Botton, em "Religião para ateus", pág. 223.
Alain de Botton, em "Religião para ateus", pág. 223.
Terça-feira, 18 de Junho de 2013
Segundo milagre de João Paulo segundo
A comissão teológica da Congregação para a Causa dos Santos
atribuiu um segundo milagre ao papa João Paulo II. As fontes citadas pela Ansa (agência italiana),
não identificadas, afirmaram que o novo milagre irá "surpreender o
mundo". Li no DN.
Vem na Bíblia (1) - Preguiça
O preguiçoso mete a mão no prato, mas cansa-se de a levar à boca.
Provérbios 26,15
Provérbios 26,15
Inspirações de João Miguel Tavares: "Mário e o lobo"
Independentemente do que se pense sobre a greve de ontem, registo a inspiração religiosa da crónica de João Miguel Tavares no "Público" de hoje. O realce amarelo fui eu que o fiz.
Segunda-feira, 17 de Junho de 2013
Um pé na lua e uma pedalada até aos Alpes, sempre por...
Quando Armstrong põe um pé na lua, a religião está ali. Quando Leprince-Ringuet preside aos destinos da física nuclear, ela está ali. Quando Robert Schumann e tantos émulos de hoje constroem uma Europa nova, não fazem mais do que falar d'Ele. Quando tantos e tantos cristãos contribuíram e contribuem para edificar um sindicalismo construtivo e cristão, devemos proclamar: É Jesus quem dá a força à nossa vida.
Eddy Merckx
Eddy Merckx
Domingo, 16 de Junho de 2013
O que dizia Bento XVI sobre a homossexualidade e o sacerdócio ministerial. Incompatíveis.
Diz Bento XVI:
A homossexualidade não é compatível com o sacerdócio. Se não, o celibato como renúncia também não teria sentido. Seria um grande perigo de o celibato se transformasse numa oportunidade para introduzir no sacerdócio pessoas que não se querem casar, já que, por alguma razão, a sua posição perante o homem ou a mulher está modificada, está alterada, não se encontra em todo o caso orientada no sentido da criação de que falámos.
A Congregação do Ensino adotou há uns anos uma regra segundo a qual não é permitido que candidatos homossexuais sejam ordenados padres, porque a sua orientação sexual os distancia do seu sentido de verdadeira paternidade, da essência do sacerdócio. A seleção dos candidatos ao sacerdócio deve ser muito cuidadosa. Aqui, deve prevalecer a maior atenção, para que um equívoco deste tipo não penetre e, no final, leve identificar o celibato dos padres com a tendência para a homossexualidade.
Da página 148 de “Luz do Mundo”, entrevista de Peter Seewald
a Bento XVI, na Lucerna.
Este excerto vem responder às dúvidas de um leitor, nos comentários a "O que é um lóbi gay?".
Devo acrescentar que não concordo com Bento XVI. Ainda que me pareça que, no primeiro parágrafo, ele pensa na homossexualidade concretizada em atos explicitamente homossexuais, no segundo, está implicado que os seminários devem afastar os candidatos homossexuais somente por causa da orientação homossexual em si mesma.
Na realidade, julgo que em nenhum momento se pergunta a um candidato a padre: "És hetero ou homossexual?". Ou pergunta-se?
Devo acrescentar que não concordo com Bento XVI. Ainda que me pareça que, no primeiro parágrafo, ele pensa na homossexualidade concretizada em atos explicitamente homossexuais, no segundo, está implicado que os seminários devem afastar os candidatos homossexuais somente por causa da orientação homossexual em si mesma.
Na realidade, julgo que em nenhum momento se pergunta a um candidato a padre: "És hetero ou homossexual?". Ou pergunta-se?
Bento Domingues: "Um Deus irremediavelmente masculino?"
Consta que, nas “redes sociais”, circulam campanhas para
correr com o Papa Francisco. Como João Paulo I não se soube defender das
consequências de ter ressuscitado o estilo das atitudes, palavras e gestos de
João XXIII, diz-se que o papa Francisco pode sair-se mal com o seu “populismo”,
diversamente interpretado.
Início do texto de Bento Domingues no “Público” de hoje.
Sábado, 15 de Junho de 2013
Anselmo Borges: "O Papa Francisco, um novo João XXIII"
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:
1. Quando naquele dia 28 de Outubro de 1958 Angelo Giuseppe Roncalli foi eleito papa, escolhendo o nome de João XXIII, pensou-se que, atendendo à idade, seria um papa de transição. Rapidamente, porém, os mais atentos se aperceberam de que ele chegara para renovar a Igreja. Concretamente, convocando o Concílio Vaticano II, um dos acontecimentos decisivos na história do século XX - houve quem o considerasse até o acontecimento mais importante do século -, operou uma verdadeira revolução na Igreja Católica, com consequências fundamentais para o mundo inteiro.
Era um homem bom, generoso, simples, cristão. Próximo das pessoas - na noite da abertura do Concílio Vaticano II, em 11 de Outubro de 1962, observou que até à Lua o acontecimento não passara indiferente e saudou a todos, solicitando que fôssemos bons uns para com os outros e pedindo aos pais que levassem um beijo do papa para os filhos -, era ao mesmo tempo um conhecedor do mundo: a carreira diplomática levou-o, em tempos conturbados, à Bulgária, Grécia, Turquia e França.
Na inauguração do Concílio, tinha dito que "devemos discordar dos profetas de desgraças, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo". A Igreja, que quer servir a humanidade com a luz de Cristo e aprender a discernir "os sinais dos tempos", "prefere nos nossos dias usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade: julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que condenando erros".
Seis meses depois dessa abertura e quando já se encontrava gravemente doente, publicou, com a data de 11 de Abril de 1963, a encíclica Pacem in Terris, considerada por alguns como a mais importante da história, com imenso eco na opinião pública mundial. Nela, proclama-se a exigência da paz, fundamentada no reconhecimento da dignidade inviolável e dos direitos inalienáveis de todos os seres humanos.
Pelo seu sorriso, bondade, humildade, simpatia, capacidade de renovação a favor da liberdade, verdade e dignidade, ficou conhecido como o "Papa bom". Morreu no dia 3 de Junho de 1963 - neste ano de 2013 celebra-se o cinquentenário da sua morte e da publicação da Pacem in Terris - e foi chorado por todos, crentes e não crentes, políticos e intelectuais de várias ideologias e gente do povo.
2. Quando no passado dia 13 de Março o Papa Francisco apareceu à multidão, simples, quase tímido, inclinando-se e pedindo a bênção e a oração dos fiéis, muitos pensaram que podia vir aí um novo João XXIII. E não têm faltado sinais a confirmar a intuição. Ficou na Casa de Santa Marta, evitando os apartamentos pontifícios; não se esquece dos pobres; anuncia sem cessar o amor, a misericórdia e o perdão de Deus; quer a transparência na Igreja; critica o carreirismo eclesiástico; beija as crianças e os deficientes; recebe sem pompa e senta-se no meio do povo, depois de celebrar a Missa; lavou os pés a mulheres, incluindo uma muçulmana... Pela simplicidade, cordialidade, serviço, Francisco conquistou a simpatia de todos, crentes e não crentes. O Evangelho avança como notícia boa e felicitante.
Mas a Igreja, uma estrutura complexa, também precisa, e urgentemente, de reformas. E Francisco está na disposição de implementá-las, apesar das dificuldades. Os media fizeram-se eco da notícia em todo o mundo. "Reflexión y Liberación", esclareceu entretanto que as declarações atribuídas ao Papa podem não ser completamente textuais, mas exprimem "o seu sentido geral". Numa conversa cordial com a Confederação Latino-americana e Caribenha de Religiosas e Religiosos (CLAR), Francisco disse o que já se sabia, mas agora é dito por ele: "Na Cúria há gente santa, mas também uma corrente de corrupção. Fala-se do lóbi gay, e é verdade: está aí." E advertiu contra certos grupos restauracionistas. "A reforma da Cúria romana é algo que quase todos os cardeais pedimos, nas congregações que precederam o conclave. Eu também a pedi. A reforma não posso fazê-la eu." Mas confia na comissão de oito cardeais de todo o mundo, nomeada por ele: "Vão levá-la por diante."
Sexta-feira, 14 de Junho de 2013
O que é um lóbi gay?
Confesso alguma perplexidade perante as afirmações do Papa Francisco sobre o "lóbi gay" no Vaticano. Como a coisa surge nas notícias, não temos afirmações diretas do Papa, mas apenas o eco do que ele terá dito a um grupo sul-americano.
Em todo o caso, há muito se fala do "lóbi gay". Será um grupo de influência sobre assuntos da homossexulaidade? Um lóbi é um grupo de pressão de interesses próprios ou a mando de outros. Lóbi gay será, portanto, um grupo para fazer passar assuntos gays, nas leis e nos costumes, tipo casamento homossexual, adoção de crianças por casas gays, etc., etc. (Ressalvo que considero que estes assuntos não devem ser apenas do interesse dos homossexuais, mas de toda a sociedade - mas costumam ser apresentados como quase exclusivos dos gays.) Neste sentido, não creio que haja um "lóbi gay".
Referir-se-á o Papa aos homossexuais na cúria romana? Certamente os haverá. Mas então não se trata de um lóbi. Se se trata de clérigos, que sejam hetero ou homossexuais, é irrelevante, pois têm de respeitar o compromisso do celibato. Ou não é irrelevante? Bento XVI dizia que não. Dizia que apenas os heterossexuais poderiam ser padres, porque, caso contrário, não estaria a ser cumprida a renúncia à paternidade biológica para se assumir a paternidade espiritual. Será que ele pensava que a ordenação de homossexuais é inválida?
Por último, a associação dos gays aos corruptos é, em tudo, injustificada, tipo "expulsar os gays e os corruptos da cúria romana". Qual é o problema, mesmo à luz da mais ortodoxa doutrina católica de se ser gay? Nenhum.
Espero que estas questões sejam esclarecidas em breve.
Em todo o caso, há muito se fala do "lóbi gay". Será um grupo de influência sobre assuntos da homossexulaidade? Um lóbi é um grupo de pressão de interesses próprios ou a mando de outros. Lóbi gay será, portanto, um grupo para fazer passar assuntos gays, nas leis e nos costumes, tipo casamento homossexual, adoção de crianças por casas gays, etc., etc. (Ressalvo que considero que estes assuntos não devem ser apenas do interesse dos homossexuais, mas de toda a sociedade - mas costumam ser apresentados como quase exclusivos dos gays.) Neste sentido, não creio que haja um "lóbi gay".
Referir-se-á o Papa aos homossexuais na cúria romana? Certamente os haverá. Mas então não se trata de um lóbi. Se se trata de clérigos, que sejam hetero ou homossexuais, é irrelevante, pois têm de respeitar o compromisso do celibato. Ou não é irrelevante? Bento XVI dizia que não. Dizia que apenas os heterossexuais poderiam ser padres, porque, caso contrário, não estaria a ser cumprida a renúncia à paternidade biológica para se assumir a paternidade espiritual. Será que ele pensava que a ordenação de homossexuais é inválida?
Por último, a associação dos gays aos corruptos é, em tudo, injustificada, tipo "expulsar os gays e os corruptos da cúria romana". Qual é o problema, mesmo à luz da mais ortodoxa doutrina católica de se ser gay? Nenhum.
Espero que estas questões sejam esclarecidas em breve.
Quinta-feira, 13 de Junho de 2013
13 de junho, dia dos dois Antónios
No dia 13 de junho de 1888 nasceu em Lisboa Fernando Pessoa, o poeta, que entre "Fernando" e "Pessoa" tinha o nome "António" (Fernando António Nogueira Pessoa).
13 de junho é, portanto, o dia dos dois Antónios e Fernandos mais célebres de Portugal.
Muros das Lamentações eletrónicos
Entre os anúncios de calças de ganga e de computadores colocados bem alto nas rus das nossas cidades, deveríamos colocar versões eletrónicas de Muros das Lamentações que transmitiriam anonimamente as nossas angústias interiores e nos dariam desse modo uma noção mais clara do que é estar vivo.
Alain de Botton, pág. 189 de "Religião para ateus"
Alain de Botton, pág. 189 de "Religião para ateus"
Quem disse isto? "Apostolado de bicicleta por toda a terra"
Quem disse isto?
Se o meu amor a Cristo pode servir para qualquer progresso do amor, estou disposto a fazer apostolado de bicicleta por toda a terra.
a) Eddy Merckx
b) Lance Armstrong
c) Marco Pantani
d) Jorge Bergoglio nos tempos em que preferia o basquete e o ciclismo.
Resposta (selecione): a) Eddy Merckx. Quanto a Jorge Bergoglio, de facto, preferiu o basquete quando era jovem. Mas desconheço qualquer interesse nele pelo ciclismo.
Quarta-feira, 12 de Junho de 2013
D. Clemente na cadeira papal
Quem disse isto? Deus e a razão
Quem disse isto?
Não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus.
a) um perigoso racionalista
b) Bento XVI
c) Kant
d) Lutero
Resposta (selecione): b) Bento XVI no polémico discurso de Ratisbona, em 2006. Lutero nunca diria tal coisa. Pelo contrário, dizia que a razão é a rameira do diabo...
Não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus.
a) um perigoso racionalista
b) Bento XVI
c) Kant
d) Lutero
Resposta (selecione): b) Bento XVI no polémico discurso de Ratisbona, em 2006. Lutero nunca diria tal coisa. Pelo contrário, dizia que a razão é a rameira do diabo...
Terça-feira, 11 de Junho de 2013
José Diogo Quintela: "Ver no Instagram para crer":
José Diogo Quintela, no seu texto na revista 2 (no "Público" de domingo), "Ver
no Instagram para crer":
Antes, se avisasse que ia chegar atrasado por causa de um acidente na auto-estrada, a minha mulher acreditava. Mas agora exige que lhe mande uma fotografia que o prove. (E, com as aplicações que já existem para editar fotografias, chegará o dia em que me vai obrigar a trazer um pedaço do pára-choques acidentado, só para certificar.) Quase dois mil anos depois de Jesus ter admoestado Tomé com o célebre: “Felizes os que creem sem terem visto”, a indústria dos telemóveis dá esta machadada num dos pilares da fé cristã."
Encontro
Podem acusá-lo de ser um sonho, aqueles que não o viram. Mas os que o viram, não podem esquecê-lo.
H. Lacordaire
H. Lacordaire
Segunda-feira, 10 de Junho de 2013
Do argumento das nódoas da Igreja
Há aquele velho argumento de que conhecendo as sujidades da
Igreja temos que admitir que se a Igreja continua é porque é obra divina.
Mutatis mutandis, o mesmo se pode dizer de Portugal, neste dia dele e do seu
anjo, tendo em conta os sucessivos governos. Quem diria que os países também
têm um anjo.
Mas quem usou pela primeira vez o argumento das nódoas? Até
os Padres da Igreja o conheciam, visto que alguns deles aplicaram profissões
pouco recomendáveis à Mãe Igreja. Mas não sei se alguém o levou tão a sério
como Ludwig von Pastor (1854-1928). Escreveu 16 volumes (na edição inglesa,
disponível online, são 40, cada um com cerca de 400 a 600 páginas, o que dá
cerca de 20 mil páginas) sobre os Papas (título original: “Geschichte der
Päpste seit dem Ausgang des Mittelalters”), mas só dos finais da Idade Média
até Pio VI, que morreu em 1799.
O que aconteceu a von Pastor? Converteu-se ao catolicismo. E com fervor. Não por causa das glórias dos Papas, mas por causa dos crimes, das infidelidades, dos pecados. Se a Igreja sobrevive apesar de tudo, só pode ter origem divina.
O que aconteceu a von Pastor? Converteu-se ao catolicismo. E com fervor. Não por causa das glórias dos Papas, mas por causa dos crimes, das infidelidades, dos pecados. Se a Igreja sobrevive apesar de tudo, só pode ter origem divina.
Consta que , no leito de morte, von Pastor pediu: "Digam ao Papa que a última batida do meu coração é para a Igreja e o Papa". Não sei o que pensou ou respondeu Pio XI.
Domingo, 9 de Junho de 2013
Multiplicação da fealdade pelo Sagrado Coração de Jesus, segundo Bento Domingues
Excerto da crónica de Bento Domingues no "Público" de hoje:
Em Lisboa, existe uma igreja paroquial dedicada ao Sagrado
Coração de Jesus, obra dos arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, que
recebeu o Prémio Valmor em 1975 e é monumento nacional, desde 2010. Apesar de
todas as diligências, o Sagrado Coração de Jesus não conseguiu, na altura,
encontrar nenhum grande artista que o quisesse pintar ou esculpir. Fui ao
Google verificar se teria havido algum esquecimento. Entre as mais de 400
imagens visitadas não encontrei uma que lá pudesse figurar, sem atentar contra
a qualidade daquela arquitectura. Aliás, a reprodução de tais imagens é sempre
a multiplicação da fealdade.
Transcendência e condescendência
A transcendência acompanha inseparavelmente a condescendência.
Yves Congar
Yves Congar
Sábado, 8 de Junho de 2013
Abriu a época das transferências
Partindo das frequentes críticas do Papa Francisco ao carreirismo eclesiástico, Sandro Magister escreveu há dias um texto pertinente sobre
as transferências de bispos de umas dioceses para as outras. Na
realidade, duvido que as críticas franciscanas se dirijam especificamente aos
bispos que mudam de diocese, porque, e julgo que não sou ingénuo por pensar assim, tal
mudança deve-se mais à vontade do Vaticano do que aos desejos dos próprios.
Vale a pena ler o texto aqui. Em todo o caso, quando tanto se
houve falar de transferências (não só para a Diocese do Porto), há citações
relevantes que merecem ser meditadas:
- Vincenzo Fagiolo, cardeal, em 1999: “A dignidade do episcopado está no ‘munus’ que comporta, e este por si mesmo prescinde de toda hipótese de promoção e transferência, que deveriam ser, quando não eliminadas, cada vez mais raras. O bispo não é um funcionário, um interino, um burocrata, que se prepara para outros cargos mais influentes”.
- Bernardin Gantin, cardeal, em 1999: “Quando é nomeado, o bispo deve ser um pai e um pastor para o povo de Deus. E pai é para sempre. Do mesmo modo, um bispo, uma vez nomeado numa determinada sede, em linhas gerais e por princípio, deve permanecer nela para sempre. Sejamos claros: o que existe entre o bispo e a diocese é representado como um matrimônio; e um matrimônio, segundo o espírito evangélico, é indissolúvel. O novo bispo não deve ter outros projetos pessoais. Podem existir motivos graves, gravíssimos, por razão dos quais a autoridade pode decidir que o bispo saia, para passar de alguma maneira, de uma família para outra. Fazendo isto, a autoridade tem presente inúmeros fatores e, entre estes, não se encontra, é claro, o possível desejo de um bispo mudar de sede”.
- Joseph Ratzinger, cardeal, em 1999: “Especialmente, na Igreja não deveria existir nenhum sentido de carreirismo. Ser bispo não deve ser considerado uma carreira com diversos escalões, de uma sede para outra, mas, um serviço muito humilde. Penso que também o debate sobre o acesso ao ministério seria mais sereno, caso fosse visto no episcopado um serviço e não uma carreira. Também uma sede humilde, com poucos fiéis, é um serviço importante na Igreja de Deus. É claro, pode haver casos excepcionais: uma sede muito grande para a qual é necessário ter experiência do ministério episcopal; neste caso, pode se dar... Porém, não deveria ser uma práxis normal; somente em casos muito excepcionais”.
- Timothy Radcliffe, frade dominicano, em 2013: “Pergunto-me também se é um bem para os bispos ser deslocados de uma diocese para outra. Carregam um anel que é um sinal de que estão ‘casados’ com a diocese, mas, muitas vezes, são separados de suas dioceses originais e casados com outras dioceses. Se soubessem, ao contrário, que permaneceriam em suas dioceses, então poderiam prestar-lhe sua completa atenção. É verdadeiramente estranho que seja permitido aos bispos se divorciarem de sua diocese, mas não as pessoas unidas em matrimônio!”
A acrescentar a isto, deveria desaparecer os bispos
auxiliares, que são sempre bispos titulares de dioceses defuntas, como Mitilene
ou Luperciana. Que ficção. E claro que as dioceses teriam de ser mais pequenas e muitas
mais em número.
Anselmo Borges: "O diabo, possessões demoníacas e exorcismos"
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:
O Papa Francisco terá alegadamente realizado um exorcismo num mexicano. O porta-voz do Vaticano apressou-se a desmentir. Mas o célebre exorcista Gabriele Amorth, a caminho dos 90 anos e que diz já ter feito mais de 70 mil exorcismos, não duvida de que "o Papa fez mesmo um exorcismo". Por mim, confesso que estou plenamente convencido de que Francisco não o fez: apenas tentou ajudar aquela pessoa doente, impondo-lhe as mãos e rezando.
Diabo é, etimologicamente, o contrário de símbolo: enquanto diabállo, em grego, significa desunir, enganar, symboléo quer dizer encontrar-se com, reunir. O simbólico une; o diabólico desune.
O diabo é uma figura com muitos nomes, embora o seu sentido não seja exactamente idêntico: satã, demónio, satanás, belzebu, lúcifer, mafarrico, maligno... Aqui, serão usados indistintamente.
Seja como for, o decisivo é que o diabo aparece no contexto do sofrimento, da maldade, enfim, do mal. Como se explica tanto mal e sofrimento no mundo? Uma vez que Deus não pode ser a causa do mal, pois é infinitamente bom, supõe-se que o diabo poderia ser uma boa explicação. Ele tentou e tenta o ser humano, que cai na tentação e provoca o mal. Mas já o filósofo Kant colocou na boca de um catequizando iroquês esta pergunta: Por que é que Deus não acabou com o diabo? E sobretudo: quem é que tentou os anjos, para que, de bons, se transformassem em anjos caídos e maus, demónios?
Para explicar o mal, contrapor o diabo a Deus, como se fosse uma espécie de anti-Deus, no quadro de um dualismo maniqueu, não passa de uma explicação aparente e, sobretudo, é uma contradição.
Se é certo que Jesus, nos Evangelhos, aparece expulsando demónios, isso deve ser compreendido no contexto das crenças da altura. Hoje, sabemos que se tratava de doenças do foro psiquiátrico ou de pessoas com ataques epilépticos ou sofrendo de histeria. De qualquer forma, Jesus anunciou Deus e não satanás, e, felizmente, o diabo não faz parte do Credo cristão. O núcleo da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, e o Reino de Deus consiste na salvação total e plena do ser humano. Neste contexto, o diabo pode aparecer apenas como um símbolo personificado de todo o mal que ainda aflige o homem, mas a que Deus há-de pôr termo, segundo a promessa de Jesus. O diabo é a expressão personificada do que não é o Reino de Deus. Precisamente para realçar mais e melhor o que constitui o centro da mensagem de Jesus enquanto notícia boa e felicitante: o futuro do Reino de Deus.
O diabo não pode, pois, ser apresentado como uma espécie de concorrente de Deus. E não tem sentido continuar a pensar e a pregar que ele se mete nas pessoas, para tomar conta delas através das possessões diabólicas. Não há possessos demoníacos. Apenas há doenças e doentes de muitas espécies e com múltiplas origens e com imenso sofrimento, a que é preciso pôr fim, na medida do possível e, pelo menos, aliviar. Os rituais de exorcismos não têm justificação.
Se Jesus não pregou satanás, mas Deus, então a fé do cristão dirige-se a Deus e não ao diabo, o que inclui na prática a urgência de expulsar da vida pessoal e pública tudo o que é demoníaco e diabólico.
Já em 1969, Herbert Haag, um dos maiores exegetas do século XX, que conheci bem, se despedia da crença na existência pessoal do diabo, na obra Abschied vom Teufel (Adeus ao diabo). H. Bietenhard também escreveu: "A pregação cristã não deve especular sobre a origem e a essência ou o ser de Satanás - a Bíblia também não o faz: as pregações sobre o diabo e sobre o inferno, quando não fomentam a necessidade de emoções de pessoas pseudopiedosas e a excitação dos seus nervos, só servem para difundir a insegurança, a angústia e o medo. Essas pregações, em vez de libertar, colocam fardos aos ombros das pessoas".
Como diz o teólogo José M. Castillo, a Igreja, em vez da preocupação com o número de exorcistas para os demónios inexistentes, deve preocupar-se com os outros demónios, os que na realidade existem, que andam por aí à solta e são responsáveis por imensos sofrimentos de milhões de pessoas.
Hereges
Diz Seth Godin que "a gestão de topo (...) quer hereges capazes de criar mudança antes que a mudança lhes caia em cima".
Sexta-feira, 7 de Junho de 2013
Sr. Paulo de Tarso
Diz o meu amigo Luís Silva, que leu o livro “S. Francisco de
Assis”, de Chesterton, que há lá um certo bispo que se queixa que um não-conformista
[basicamente, reformador dentro da Igreja Anglicana nos séculos XVI-XVIII] chama “Paulo” ao Apóstolo em vez de o tratar por “São Paulo”. E acrescenta o bispo: “Podia ao menos tratá-lo por Sr.
Paulo”.
Quinta-feira, 6 de Junho de 2013
O mais maravilhoso
O mais maravilhoso não é que Jesus Cristo seja Deus, mas que Deus seja Jesus Cristo.
Yves Congar
Yves Congar
Quarta-feira, 5 de Junho de 2013
Já toda a gente tinha reparado, mas ainda ninguém lhe tinha dito
O Bispo de Bérgamo, diocese-natal de João XXIII, disse ao Papa
Francisco: “Permita-me que faça uma confidência. Para muitos de nós parece que
há [em si] uma semelhança nos gestos, na linguagem, na atitude, na paixão
evangélica, na abertura para todos com João XXIII”.
Atração
Hoje, quando a fé se apresenta tão difícil e a linguagem sobre Deus parece tão velada, Jesus Cristo mantém um grande poder de atração.
Yves Congar
Yves Congar
Terça-feira, 4 de Junho de 2013
Segunda-feira, 3 de Junho de 2013
João XXIII morreu há 50 anos
João XXIII morreu há 50 anos. O historiador António Matos Ferreira fala deste Papa na Ecclesia. Na imagem, quando ele, o Papa, esteve em Fátima. Era então Patriarca de Veneza.
"Falta de provas"
1947. Giulio Andreotti, com uns papéis na mão, tem ao seu lado esquerdo Battista Montini (Paulo VI a partir de 1963)
Quando morreu Giulio Andreotti, no dia 6 de maio deste ano, quis
assinalar aqui o acontecimento. Tinha em mente que ele, além de político
democrata cristão, foi diretor da revista católica 30Gionri / 30Dias e escreveu
alguns artigos de interesse, como este, por exemplo, precisamente sobre a Democracia Cristã.
Foi apenas uma das muitas coisas que não fiz.
Mas hoje, ao ler o mais recente número do “Courrier Internacional”, dou com um breve texto que insinua que esteve ligado a segredos, terrorismo e crimes e relacionado com a Máfia, coisa muito falada em maio passado. Diz o texto – e é por causa dessa nota de humor que escrevo isto: “Quando acusado, defendeu-se respeitando sempre os juízes. «Foi para o céu por falta de provas», comentou um internauta”.
Mas hoje, ao ler o mais recente número do “Courrier Internacional”, dou com um breve texto que insinua que esteve ligado a segredos, terrorismo e crimes e relacionado com a Máfia, coisa muito falada em maio passado. Diz o texto – e é por causa dessa nota de humor que escrevo isto: “Quando acusado, defendeu-se respeitando sempre os juízes. «Foi para o céu por falta de provas», comentou um internauta”.
Domingo, 2 de Junho de 2013
Tu, quem és?
Messias, Verbo de Deus, Filho de Deus, Salvador, Rei, Cordeiro de Deus... Por uma vez, queria abafar esta litania, aproximar-se desse Homem, sem prestar atenção a estas etiquetas, que de certo ele não ostentava sobre o seu peito como outras tantas condecorações, queria aproximar-se dele e ver a sua vida. Simplesmente, como vive, anda, sorri, sente. Então, perguntar-lhe-ia: Tu,quem és?
A. M. Bernard
A. M. Bernard
Bento Domingues: "O segredo da alegria de João XXIII (2)"
Bento Domingues no "Público" de hoje:
É próprio do moralismo destilar
maldições sobre as mais autênticas alegrias humanas. Instalou-se, há muitos
séculos, em certas correntes do cristianismo e reaparece, periodicamente, como
se fosse a sua versão mais genuína pelo seu “desprezo do mundo”. É, na verdade,
uma importação estranha à poética pregação de Cristo que respira, em cada gesto
e em cada parábola, o gosto da plenitude da vida ( Jo 20,30-31).
Sábado, 1 de Junho de 2013
De Corpus Christi
No "Público" de hoje. Uma ideia que também me tinha ocorrido, mas com mais piada nos desenhos de Luís Afonso.
Anselmo Borges: "Já não há valores"
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:
Já não há valores! Aí está uma afirmação que se ouve constantemente, vinda de ex-presidentes da República, bispos, professores, padres, pais e mães, educadores. De quase toda a gente.
A afirmação, porém, não é verdadeira. Evidentemente, continua a haver valores. Não é possível viver sem valores. Não há sociedade sem valores. O que se passa é que mudou a escala de valores. A hierarquia dos valores, agora, é outra.
Abraham Maslow estabeleceu uma famosa pirâmide: a pirâmide das necessidades humanas. Segundo o psicólogo norte-americano, essas necessidades têm uma hierarquia ascendente, que vai, portanto, da base até aos níveis superiores. As necessidades básicas confundem-se com as necessidades fisiológicas, condição de sobrevivência: respirar, comer, beber, dormir, reproduzir-se. No segundo patamar, encontra-se a necessidade de segurança, que tem a ver com a integridade do corpo, da saúde, a salvaguarda dos bens e da propriedade. As necessidades de pertença estão no terceiro plano e referem-se à necessidade de identidade e de afecto; daí, a importância da amizade, do amor, da vida familiar e grupal. O quarto nível é ocupado pelas necessidades de estima, tanto no que se refere a si mesmo - auto-estima - como confiança nos outros: estimar-se a si e aos outros e ser estimado e respeitado pelos outros. No quinto nível, temos a realização pessoal, com tudo o que isso implica de criatividade, ética, vida interior, sentido e transcendência.
Evidentemente, esta escala é discutida e discutível, pois pode não ser tão universal como pode parecer, não tendo na devida conta a sua determinação histórica e cultural. No entanto, como escreveu Frédéric Lenoir, parece possível "considerar estes cinco tipos de necessidades como sendo todos, e com a mesma dignidade, condições do bem-estar, da felicidade, da realização de si".
A esta escala de necessidades corresponde uma escala de valores. É claro que as necessidades biológicas são as mais urgentes - sem a sua satisfação, não se sobrevive -, mas isso não significa que sejam as mais humanas, já que são partilhadas com os outros animais.
Valor vem de valere - vale, valete era a saudação romana: passa bem!, passai bem! -, que significa ser forte, ter saúde, passar bem, estar de saúde. E está em conexão com perguntas como: quanto custa isto?, quanto vale?, qual o seu preço? No contexto desta conexão, percebe-se que rapidamente venha à ideia a ligação ao dinheiro.
E não é o dinheiro um valor? A questão é saber se é o valor primeiro - é o mais urgente, pois dele depende a salvaguarda da vida -, mas é o mais humano, aquele que determina verdadeiramente a nossa realização humana?
Jesus disse que havia incompatibilidade entre Deus e o Dinheiro: "não podeis servir a dois senhores, a Deus e ao Dinheiro; ou a um ou a outro." É evidente que Jesus não condena o dinheiro enquanto tal, isto é, enquanto meio. Ele próprio teve de servir-se dele, ganhando a sua vida através do trabalho. O que se passa é que a palavra utilizada no Evangelho para dizer este dinheiro é Mamôn, isto é, o Dinheiro divinizado e fim em si mesmo. De facto, não é possível servir o Deus da Vida, que quer a vida de todos, e o Dinheiro enquanto ídolo. Quem faz do dinheiro e da riqueza o objectivo essencial da sua vida de certeza que fará muitas vítimas pelo caminho e impedirá muitos de viver.
Continua a haver valores. Mas a sua hierarquia transtornou-se e o que é meio tornou-se fim. E aí está o culto do bezerro de ouro, o egoísmo feroz, a avareza, a ganância sem limites. Mas são o dinheiro e a riqueza a finalidade última da vida? Os gregos apresentaram sabiamente a famosa lenda do rei Midas: tudo o que tocasse transformar-se-ia em ouro. Ora, quem ele tocou primeiro foi a filha. Depois, quando levava algo à boca para comer, também se transformava em ouro. E viu a sua desgraça trágica.
Precisamos é de repor uma escala decente de valores. Comecemos pela justiça, em ligação com a verdade e a igualdade; junte-se-lhe a liberdade, coroada pelo amor. Afinal, há gente riquíssima que é infeliz e quem viva feliz na sobriedade.
Sexta-feira, 31 de Maio de 2013
Teologia e espiritualidade
Diz Bruno Forte, "parafraseando Kant, uma teologia sem espiritualidade corre o risco de ser vazia, uma espiritualidade sem teologia corre o risco de ser cega" (pág. 102 de "Uma teologia para a vida").
Fica a mensagem. Mas não era Einstein que dizia: "A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega"?
Fica a mensagem. Mas não era Einstein que dizia: "A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega"?
Humor pela manhã
"Ah, não soubesse eu escrever!", dizia Nero, enquanto, supostamente relutante, assinava as ordens de execução das sentenças de morte.
Quinta-feira, 30 de Maio de 2013
Extrema esquerda na procissão
Li no rodapé dos telejornais que partidos da esquerda e extrema esquerda assinalaram o fim do feriado religioso. Assinalaram, opondo-se, evidentemente. Estranho. Quereriam eles ir à procissão do Corpo de Deus?
Bruno Forte: "Uma teologia para a vida"
O livro que me tem acompanhado nos últimos dias (e que fez com que a revisão do carro custasse menos a passar, por exemplo). É uma boa introdução à teologia. Sobre alguns pontos, inclusive de discordância, havemos de falar em breve. Informação da editora Paulus:
Num estilo de livro-entrevista com o escritor Marco Roncalli, Bruno Forte põe em relação fé e história, teologia e filosofia, reflexão e ação pastoral, religião e estética, educação e vida quotidiana. Um livro que apresenta a busca de Deus no nosso tempo, a crise da pós-modernidade, o confronto entre identidade e diálogo, a religião, a globalização, o futuro do Cristianismo. Temas que fazem parte da vida de crentes e não crentes.
"Precisamos de mais exorcistas"
No "Correio da Manhã" de hoje. As declarações do padre e o testemunho da ex-possessa confirmam o que tenho vindo a dizer (como outros): os céticos e os ateus estão mais bem preparados para combater o diabo. A eles o diabo não lhes toca.
Por outro lado, contrariando um comentário de alguém defensor da existência pessoal do diabo num texto anterior, os supersticiosos e adeptos de subprodutos religiosos e para-religiosos estão de facto mais vulneráveis aos ataques do mafarrico. Em vez de "precisamos de exorcistas" para combater os sintomas, deveria ser "precisamos de cristãos mais esclarecidos" que não procurem superstições e caminhos erráticos (causas).
Quanto ao recato destes atos, pois. Se deixassem entrar uma entidade independente (um parapsicólogo, um psiquiatra, um investigador destes casos - nos EUA há um grupo de cientistas que ainda está à espera de uma possessão real, embora confirme o efeito que dizem ser "placebo" dos exorcismos e orações), seria interessante.
Era feriado hoje?
Hoje seria feriado do Corpo de Deus se não tivesse aparecido a trindade profana que é a troika. Na realidade, quase ninguém sente a falta deste feriado, "dia santo de guarda". Perguntei a três pessoas e nenhuma delas sabia que hoje seria feriado noutras circunstâncias. Tenho cá para mim que nunca mais será feriado.
Novo
A vida de Jesus caracteriza-se pela pretensão (feita em nome do Deus com quem Jesus se sabe em particular intimidade) de um homem novo, "utópico".
González Faus
González Faus
Quarta-feira, 29 de Maio de 2013
29 de maio de 1453. Queda de Constantinopla
No dia 29 de maio de 1453, termina o cerco de Mehmed II a Constantinopla. Ele conquista-a. Cai a "Roma do Oriente", termina a Idade Média. Na realidade, muitos anos antes diversos sábios bizantinos tinham fugido do império, procurando guarida na península itálica. Sabiam grego e eram altamente valorizados na Europa. Com as obras que trouxeram, reforçaram, sem dúvida, o Renascimento.
Eu e o Papa Francisco (2) - "A Festa de Babette"
Francesca Ambrogetti e Sergio Rubin perguntam a Jorge Bergoglio (agora Papa Francisco):
- Há algum filme que recorde especialmente?
Ele fala de vários argentinos, mas mas diz em primeiro:
- Há algum filme que recorde especialmente?
Ele fala de vários argentinos, mas mas diz em primeiro:
- A Festa de Babette, mais recente, tocou-me imenso.
Note-se que, para o Papa, "mais recente" corresponde a 1987, ano do filme dinamarquês.
Note-se que, para o Papa, "mais recente" corresponde a 1987, ano do filme dinamarquês.
Ainda estou a pensar nisto
O humorista segue o princípio do Evangelho: ama o próximo como a ti mesmo.
José Luis Martín Descalzo
José Luis Martín Descalzo
La Biblia de los Niños
Uma página de "La Biblia de nos Niños". Pode ver ou descarregar o primeiro capítulo aqui.
Terça-feira, 28 de Maio de 2013
Solução «jesuítica» para falar de temas tidos como controversos
Um dia convidaram Carlos González Vallés para fazer uma
série de conferências num país da América Latina sobre “Espiritualidade
Oriental”. Quando já tudo estava tratado, incluindo as passagens aéreas,
telefonam-lhe a dizer que tudo fora cancelado em certa diocese, porque o bispo
não autorizava tais palestras. Certamente, o bispo não conhecia o jesuíta
espanhol com longos anos dedicados à Índia.
Carlos González Vallés manteve a viagem. Se não podia falar
em público, dedicar-se-ia ao turismo, “que é mais divertido”. Mas quando chegou
ao aeroporto, receberam-no e disseram-lhe que estava tudo pronto e que no dia
seguinte iniciariam as conferências. O que acontecera?
Conta o jesuíta:
Todo o «oriental» era perigoso, e isso bastava para proibir-me de falar. Mas tampouco meus anfitriões eram tolos. Voltaram à presença do bispo, disseram-lhe que acatavam obedientemente a suas decisão e que eu, como consequência, falaria em minhas palestras de um tema diferente: «Espiritualidade inaciana». Algum problema? Nenhum, plena bênção episcopal. Ela me foi transmitida no aeroporto por meus amigos, que acrescentaram: «Agora você fala tranquilamente o que preparou». Solução «jesuítica». Atrapalharam o meu turismo.
Adaptado das páginas 71-72 de “Querida Igreja” (Paulus -
Brasil)
Eu e o Papa Francisco (1) - Marc Chagall
Esta é uma nova secção cá no blogue. Pouco mais que brincadeira.
Já disse que se o Papa acredita no diabo enquanto ser pessoal que de vez em quando possui pessoas (para mim ainda não é claro se ele acredita mesmo nisto), não estou com ele. E, digo já, também não estou com ele nas críticas abertas e sem grandes precisões ("quem não distingue confunde", como dizia um célebre professor meu) que faz ao "capitalismo". Na minha opinião, o capitalismo é como a democracia. Podem ser maus, mas ainda não temos sistemas melhores. São reformáveis. E os outros sistemas são muito piores.
Onde me encontro com papa Francisco? Refiro-me a coisas particulares, não às grandes linhas da fé católica, que, como é claro, pelo menos para mim, procuro seguir. Encontro-me com ele na pintura.
Perguntam-lhe Francesca Ambrogetti e Sergio Rubin:
- Um quadro?
E ele responde:
- "A Crucificação Branca", de Marc Chagall.
Já disse que se o Papa acredita no diabo enquanto ser pessoal que de vez em quando possui pessoas (para mim ainda não é claro se ele acredita mesmo nisto), não estou com ele. E, digo já, também não estou com ele nas críticas abertas e sem grandes precisões ("quem não distingue confunde", como dizia um célebre professor meu) que faz ao "capitalismo". Na minha opinião, o capitalismo é como a democracia. Podem ser maus, mas ainda não temos sistemas melhores. São reformáveis. E os outros sistemas são muito piores.
Onde me encontro com papa Francisco? Refiro-me a coisas particulares, não às grandes linhas da fé católica, que, como é claro, pelo menos para mim, procuro seguir. Encontro-me com ele na pintura.
Perguntam-lhe Francesca Ambrogetti e Sergio Rubin:
- Um quadro?
E ele responde:
- "A Crucificação Branca", de Marc Chagall.
Segunda-feira, 27 de Maio de 2013
27 de maio de 1871. Nasce Georges Rouault, autor de alguns dor mais belos rostos de Cristo
Georges Rouault, francês, nasceu no dia 27 de maio de 1871 e morreu no dia 13 de fevereiro de 1958. Pintou alguns dos mais belos rostos de Cristo.
História sem história
Que desolada, que vazia e que morta parece a história, privada de conteúdo divino, a partir do momento em que se abandona a sua relação com a história interior, divina, transcendente, quer dizer, com a verdadeira história, a história por excelência.
Schelling
Schelling
Domingo, 26 de Maio de 2013
Amor e audácia
Lido num livro de Carlos González Vallés:
Karl Rahner disse pouco antes de morrer que lamentava duas coisas em sua vida: não ter amado mais as pessoas e não ter tido mais audácia com as hierarquias da Igreja.
Karl Rahner disse pouco antes de morrer que lamentava duas coisas em sua vida: não ter amado mais as pessoas e não ter tido mais audácia com as hierarquias da Igreja.
Bento Domingues: "O segredo da alegria de João XXIII (1)"
Primeira parte (de três) do texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:
Para certos frequentadores dos textos do Novo Testamento não lhes basta o simples prazer de os ler. Interessa-lhes o que neles podem encontrar para a orientação da sua vida pessoal, familiar e social. Querem, talvez, descobrir o programa de Jesus de Nazaré e o que dele podem tirar para resolver os problemas do seu dia-a-dia. Não me parece que seja fácil satisfazer este pendor pragmático. Se quiserem colher, nos Evangelhos, um programa de governo, seja para que país for, fi carão decepcionados. Jesus, no sector da agricultura, manifestou que conhecia bem as condições e técnicas para as boas sementeiras e colheitas. Mas uma reforma agrária não se faz recomendando: Olhai os lírios do campo e as aves do céu. Quando aborda a questão dos trabalhadores para a vinha, tem uma política de salários que prima pelo arbitrário e que qualquer central sindical teria de combater. No sector das pescas, provocou iniciativas que multiplicaram o peixe, mas não deixou a receita para garantir futuras experiências de sucesso. Além disso, até retirou barcos e pescadores à sua utilidade normal, fazendo dos pescadores pregadores. Para a montagem de uma indústria próspera, como podia ser a da construção e a dos têxteis, não foi boa ideia recomendar que não se preocupassem com o dia de amanhã. No sector de comércio e negócios, tinha uma teoria que levaria tudo à falência: não encoraja nem exportações nem consumo interno. A atitude perante o dinheiro e a riqueza provocava a troça dos fariseus. A saúde e a assistência foram a sua preocupação permanente. No entanto, não criou uma rede hospitalar, nem lares de terceira idade. Resolvia tudo com milagres. Rejeitou, liminarmente, qualquer programa político, tanto para Si como para os discípulos. Seria de supor que, pelo menos, no plano religioso, se apresentasse como um grande especialista em organizar lugares de culto, peregrinações e cerimoniais que se impusessem como a melhor alternativa para o contacto com o divino. E nada.
O resto cá estará amanhã.
Para certos frequentadores dos textos do Novo Testamento não lhes basta o simples prazer de os ler. Interessa-lhes o que neles podem encontrar para a orientação da sua vida pessoal, familiar e social. Querem, talvez, descobrir o programa de Jesus de Nazaré e o que dele podem tirar para resolver os problemas do seu dia-a-dia. Não me parece que seja fácil satisfazer este pendor pragmático. Se quiserem colher, nos Evangelhos, um programa de governo, seja para que país for, fi carão decepcionados. Jesus, no sector da agricultura, manifestou que conhecia bem as condições e técnicas para as boas sementeiras e colheitas. Mas uma reforma agrária não se faz recomendando: Olhai os lírios do campo e as aves do céu. Quando aborda a questão dos trabalhadores para a vinha, tem uma política de salários que prima pelo arbitrário e que qualquer central sindical teria de combater. No sector das pescas, provocou iniciativas que multiplicaram o peixe, mas não deixou a receita para garantir futuras experiências de sucesso. Além disso, até retirou barcos e pescadores à sua utilidade normal, fazendo dos pescadores pregadores. Para a montagem de uma indústria próspera, como podia ser a da construção e a dos têxteis, não foi boa ideia recomendar que não se preocupassem com o dia de amanhã. No sector de comércio e negócios, tinha uma teoria que levaria tudo à falência: não encoraja nem exportações nem consumo interno. A atitude perante o dinheiro e a riqueza provocava a troça dos fariseus. A saúde e a assistência foram a sua preocupação permanente. No entanto, não criou uma rede hospitalar, nem lares de terceira idade. Resolvia tudo com milagres. Rejeitou, liminarmente, qualquer programa político, tanto para Si como para os discípulos. Seria de supor que, pelo menos, no plano religioso, se apresentasse como um grande especialista em organizar lugares de culto, peregrinações e cerimoniais que se impusessem como a melhor alternativa para o contacto com o divino. E nada.
O resto cá estará amanhã.
"Se Jesus fala de demónios e eles não existem, enganou-nos"
Por estes dias, regressou um velho argumento sobre a
existência real de demónios (enquanto seres sobrenaturais que por vezes possuem
pessoas e depois são expulsos por exorcismos). Digo regressou porque já por cá andou há um
ano. E regressou num ou noutro comentário
de entradas recentes neste blogue, tal como nas mensagens privadas do meu
espaço no Facebook. É de lá que retiro as seguintes frases, sem dizer quem é o
autor. Ele poderia ter escrito no blogue, mas preferiu o recato do FB e por isso não digo o seu nome.
Cristo expulsou demónios. Está em todos os evangelhos. Os apóstolos fizeram o mesmo. Está nos Actos dos Apóstolos. Também nega isso tudo? Ou Cristo (que é Deus, nisso concordamos) desconhecia factos clínicos psicológicos, inacessíveis à ciência da época? Os apóstolos, coitados, ainda vá lá: poderiam desconhecer as diferenças entre doenças psicológicas e possessões. Agora, Deus? Cristo não consegue ver a diferença entre epilepsia e possessão? E, já agora, Cristo não podia ter sido mais claro, e ter dito que o Diabo não existia? É que Cristo, ao falar sobre o Diabo como se ele existisse, acaba por nos baralhar...
Resumiria assim o que está acima: Jesus Cristo sabe tudo e
não engana ninguém (ou não seria Deus). Jesus Cristo expulsou demónios, como os
evangelhos atestam. Logo, eles existem, pois Jesus não quereria induzir-nos em
erro.
Em parte, estas questões já aqui foram abordadas. Primeiro,
nos evangelhos, Jesus expulsa demónios (e não o diabo – são distintos) pela
força da palavra e não por sortilégios (como faziam outros) no contexto do
anúncio da soberania absoluta de Deus (reinado de Deus); depois, é possível
interpretar as possessões como doenças do foro psíquico e, mais do que isso,
vitimizações num contexto social opressor. Diz um autor, em parte afastando-se
da ideia das doenças, que as possessões eram uma estratégia complexa utilizada
de maneira mórbida por pessoas oprimidas para se defenderem de uma situação
insuportável. Vale a pena ler e reler o texto (aqui, refiro-me às páginas digitalizadas). No final, com aquela
interpretação, sinto que os evangelhos são ainda mais reais e significativos
para aqueles tempos e os tempos de hoje.
A linha de fundo do argumento “não podia enganar-nos”
repousa na convicção de que Jesus, sendo Deus, sabe tudo; ou, sendo Deus, não
pode mentir, errar, enganar.
Há aqui três questões subjacentes. Aponto: a) O que é
Jesus ser Deus? (podemos ter entendimentos diferentes sobre isto); b) Estar
errado é pecado? (julgo que todos concordamos que não) c) Podemos dizer que
mente ou erra quem pensa de acordo com as conceções do seu tempo, se estas mais
tarde mudam? (julgo que todos concordamos no não).
Fica-se com a ideia, obviamente inaceitável para um crente, de que se Jesus falou de demónios e eles não existem, enganou-nos,
esquecendo que mentira (e erro moral) seria se Jesus soubesse uma coisa e
dissesse algo deliberadamente diferente (alguns dizem: “Sendo Deus, tinha de
saber”; nós dizemos: “Não tinha, não”). Mas se pensava de acordo com as
conceções culturais do tempo (e temos muitos motivos para pensar que sim), não
é mentir dizer algo que não corresponde ao que em fase posterior é tido por
verdade. Jesus diz que o grão de mostarda é a semente mais pequena. Talvez
pensasse mesmo que é. Fala do sinal de Jonas. Como qualquer judeu da época,
pensava num Jonas real e não numa figura literária. Diz que “o princípio não
foi assim”, ao falar do divórcio. Certamente pensaria num Adão e Eva reais,
como aparecem nas primeiras páginas da Bíblia. E os exemplos poderiam
continuar.
Desconfio que o tipo de teologia que nega a comunhão de
Jesus com os conhecimentos do tempo desconhece o significado da kenose de
Jesus, do abaixamento, do fazer-se humano, do caminhar com os contemporâneos.
Desconhece, certamente o que Bento XVI escreveu no livro
sobre a infância de Jesus:
É verdade também que a sua sabedoria cresce. Enquanto homem, Jesus não vive numa omnisciência abstrata, mas está enraizado numa história concreta, num lugar e num tempo, nas várias fases da vida humana, e de tudo isto toma forma concreta o seu saber. Manifesta-se aqui, de modo muito claro, que Ele pensou e aprendeu de maneira humana.
Ele pensou e aprendeu de maneira humana.
Com isto chego finalmente ao que me moveu a escrever isto.
Relendo um livro de Carlos González Vallés, dei com a página que condiz com as
cristologias do Jesus que sabia tudo mesmo tudo. Quando a mim, padecem, como noutra altura já escrevei, de uma espécie de docetismo gnoseológico.
O jesuíta cita gigantes da teologia (Santo Hilário: “Jesus
comia e bebia, não porque precisasse de fazê-lo, mas tão-somente para que não
se surpreendessem os que viviam com ele”; São Cirilo de Alexandria: “Jesus
sabia tudo desde seu berço, mas aparentava ir-se inteirando das coisas para
dissimular”; Santo Atanásio: “Jesus nunca pôde adoecer nem envelhecer”; os
salmanticenses: “Jesus foi de facto desde o princípio, e não apenas em potência
como possibilidade futura, o maior filósofo, matemático, pintor, navegador…
jamais existente” [esta faz lembrar os ditadores norte-coreanos]) e seguir fala
da sua experiência:
Eu ouvi dizer em sermões que Jesus, desde o berço em Belém, poderia ter contado à Mãe tudo o que lhe aconteceria na vida; que podia ter falado com os Reis Magos na língua destes; que quando o Evangelho diz que «se surpreendeu» diante da fé do centurião, isso não passava de um gesto condescendente de Jesus, que na realidade não podia «surpreender-se» com nada, já que conhecia tudo; que, quando perguntou ao cego: «O que quer que eu faço por você?», esta era uma simples pergunta teórica, já que Jesus sabia sempre o que cada um pensava e queria; que, quando rezava era sói para dar bom exemplo aos discípulos, uma vez que ele, sendo Deus não precisava de oração; que, se dormia na barca, não era por cansaço físico, mas para testar a fé dos apóstolos; e que, se gritou na cruz: “Por que me abandonaste?”, não foi por sofrimento pessoal, mas como consolo para os nossos.
Como ficamos em relação aos demónios? Repito Bento XVI: “Ele [Jesus Cristo] pensou e aprendeu de maneira humana”.
Sábado, 25 de Maio de 2013
Anselmo Borges: "O mundo dos afectos, a fé e a cura"
Artigo de Anselmo Borges no DN de hoje:
A definição do Homem como animal racional não dá conta adequada do que somos: de facto, não começamos por pensar, mas por sentir. Somos afectados pelo meio ambiente, desde o ventre materno. Daí, não ser indiferente uma gravidez querida e serena e uma gravidez vivida no meio da inquietação e do sobressalto.
No instante da concepção, está-se no que alguns chamam a "inocência do sentimento". Depois, começamos a ser afectados, positiva ou negativamente, e assim se vai formando uma atitude positiva ou negativa face ao mundo e aos outros, com consequências na auto-estima e autoconfiança ou não, com confiança no mundo e nos outros ou, pelo contrário, com desconfiança e inquietação.
Na altura, ainda se não pensa, mas sente-se. Primeiro, são os afectos. Suponhamos que, depois do nascimento, não se cuida convenientemente do bebé, ninguém lhe sorri, ninguém o acarinha. O que fica? O sentimento de frustração. Afinal, o que vale o mundo? Para que serve? Não começa aqui o sentimento de revolta, violência e destruição?
Depois, com a aquisição lenta do uso da razão, há-de estudar-se a vida afectiva, para aproveitar a sua força - querer ser e viver - na condução da existência, sabendo conviver com ela nas suas dimensões positivas e negativas. Porque a razão, sem os afectos, pode ficar paralisada, mas estes, sem aquela, podem tornar-se cegos. E assim se constata a importância do que hoje se chama a razão que sente, razão sensível, razão emocional.
É neste fundo anímico-vital afectivo que mergulha a própria fé religiosa. Esquece-se frequentemente que a fé não começa por ser religiosa, mas uma atitude fundamental da existência enquanto confiança de base. Hoje, quando o que faz falta é confiança e crédito, percebe-se melhor o tema. Mas, a um dado momento, há-de colocar-se também a questão da fé religiosa, na medida em que se põe a pergunta pelo fundamento último da confiança.
A realidade da fé como atitude fundamental de toda a existência e como possível abertura à fé religiosa, garante do sentido último e pleno, é sublinhada cada vez mais, também em estudos científicos referentes à doença e à cura. Aliás, não há aqui nenhuma descoberta, pois sempre se soube que a atitude do Homem face à vida, à doença e à própria morte depende do grau da sua confiança.
Também da confiança em Deus? "Uma grande maioria do corpo científico considera que a religião tem um impacto positivo na saúde", explicou na Time Magazine Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia.
Agora, Le Monde des Religions (n.° 54, 2012) foi investigar e dá conta de um artigo da Universidade de Oxford em 2001, com a síntese de 1200 estudos sobre a questão, concluindo que "crer , rezar, praticar uma religião levam a uma melhor resiliência às doenças mentais como a esquizofrenia e têm uma acção positiva sobre a pressão arterial e as funções imunitárias". Isto não significa que a oração seja um medicamento, mas que acreditar permite suportar melhor a doença, favorecendo o tratamento. A imagem de Deus, bom ou castigador, é fundamental.
Gail Ironson, da Universidade de Miami, num estudo sobre a ligação entre VIH e crença religiosa, conclui que, "mesmo tendo em conta os medicamentos, a espiritualidade traz um melhor controlo da doença". Nel Krause, da Universidade do Michigan, mostrou que as pessoas que acreditam que "a sua vida tem um sentido" vivem mais tempo.
O acto médico não pode ser de modo nenhum o de um técnico perante uma máquina estragada que é preciso reparar. É necessário aproximar-se do paciente dentro de uma compreensão global do Homem. Georges Engel, num artigo célebre - "The Need for a New Medical Model" -, falou de uma aproximação "bio-psico-social", que, segundo o teólogo Guy Jobin, teve enorme impacto. "Já não se trata de uma divisão do trabalho entre cura do corpo e cura das almas. Em vários sectores do cuidado - em geriatria, nos cuidados de longa duração, nos cuidados paliativos -, o acompanhante espiritual faz agora parte integrante da equipa de cuidados. É considerado um profissional como os outros membros da equipa."
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