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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Inspiração

Ó suma luz que mui te distancias
Dos conceitos mortais, à minha mente
Volta a dar um pouco do que parecias.

Dante

sábado, 13 de julho de 2013

Anselmo Borges: "A última encíclica de Bento XVI"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

"Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de Junho, solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, do ano 2013, primeiro do meu Pontificado. Francisco" (assinado à mão, sem a indicação habitual de papa). Termina assim a primeira encíclica do Papa Francisco, dedicada ao tema da fé: "Lumen Fidei" (a luz da fé).
Como ele próprio diz, a encíclica foi substancialmente redigida pelo seu predecessor: Bento XVI "já tinha completado praticamente uma primeira redacção desta Carta encíclica sobre a fé. Agradeço-lhe de coração e assumo o seu precioso trabalho, acrescentando alguns contributos". De facto, o papa emérito tinha em mente uma trilogia sobre as três virtudes teologais e já publicara uma encíclica sobre a esperança, outra sobre o amor, faltando a referente à fé, que aparece agora. Um texto belo, bem fundamentado, talvez demasiado académico, com citações de Nietzsche, Dante, Dostoievsky, Wittgenstein, Rousseau,T. S. Eliot.
A sua assunção por parte de Francisco revela humildade e também o reconhecimento do mérito intelectual do seu antecessor e, ao mesmo tempo, a importância da teologia para o cristianismo. Sem teologia, a fé não é argumentável. Mas, se a fé não dialoga com a razão, não tem lugar na Universidade, ficando reduzida a puro sentimento. Esta era uma preocupação fundamental de Bento XVI.
Será a fé religiosa uma mera ilusão, fruto do espelhismo? Lá está a citação de Nietzsche, numa carta à irmã, convidando-a a arriscar-se, a "empreender novos caminhos... com a insegurança de quem procede autonomamente". E acrescenta: "Aqui se dividem os caminhos do homem: se queres alcançar paz na alma e felicidade, crê; mas, se queres ser discípulo da verdade, indaga." Como se a fé fosse, portanto, o contrário de buscar, abandonando a novidade e a aventura da vida.
Aconteceu então que "o homem renunciou à busca de uma luz grande, de uma verdade grande", contentando-se com a verdade da tecnologia, com a verdade do cálculo, com pequenas luzes que iluminam o instante fugaz, mas incapazes de abrir o caminho da vida plena. "É urgente recuperar o carácter luminoso próprio da fé", pois, "quando falta a luz, tudo se torna confuso, é impossível distinguir o bem do mal". Aqui, acrescento eu, poderia citar a advertência que Nietzsche, sete anos antes do seu colapso pessoal, fez à mulher do seu amigo Overbeck, de nome Ida, para que não abandonasse a ideia de Deus: "Eu abandonei-a, quero criar algo novo e não posso nem quero voltar atrás. Vou perecer por causa das minhas paixões, que me atiram daqui para ali; desmorono-me continuamente, mas isso nada me importa."
A fé tem o seu fundamento na experiência crente de Jesus, naquela sua experiência avassaladoramente felicitante de Deus enquanto Abbá (querido paizinho). Acreditou, entregando a sua vida até à morte a esse Deus-Amor e ao seu Reino de vida digna para todos. Os cristãos acreditam como ele e nele, que está vivo em Deus, o Deus da Vida. E procuram agir como ele, levando avante, na confiança e no combate pela vida, o Reino do Deus da vida para todos.
Penso que é pena a encíclica não começar pelo dado antropológico de base: a vida humana está desde a raiz fundada na fé, na confiança. Na presente situação, percebemo-lo perfeitamente, pois o que nos falta é precisamente fé, confiança, crédito.
Leonardo Boff também chamou a atenção para outra lacuna: não aborda com profundidade a crise de fé do homem contemporâneo, as suas dúvidas, as suas perguntas. Onde está Deus, quando um tsunami faz milhares e milhares de mortos? Como crer ainda, depois dos campos de extermínio, dos milhões de torturados e assassinados no corpo e na alma? "Crer é sempre crer apesar de... A fé não elimina as dúvidas e angústias de um Jesus que grita na cruz: "Pai, porque me abandonaste?" A fé tem que passar por este inferno e transformar-se em esperança de que para tudo há um sentido, mas escondido em Deus. Quando se revelará?"
A encíclica: "A luz da fé não dissipa todas as nossas trevas, mas, como lâmpada, guia os nossos passos na noite, e isto basta para caminhar."

sábado, 28 de abril de 2012

Os santos, os seus exemplos e o amaciamento

Giotto: Francisco casa com a pobreza

Neste blogue, um texto de 26 de abril, no terceiro aniversário da canonização de Nuno Álvares Pereira, motivou alguns comentários sobre isso de ser santo. No mesmo dia, no jornal “Europa”, saía um texto que vale a pena ser lido sobre os santos e os seus exemplos. Reproduzo a parte que mais me tocou. Ler tudo aqui.

O filósofo Massimo Cacciari reflete a respeito de modo admirável no livro “Doppio ritratto, San Francesco in Dante e Giotto” (Ed. Adelphi) (outra referência a este livro aqui). Segundo Cacciari, Francisco testemunhou com a sua vida um modo de conceber a relação com o mundo, até então impensado senão por Cristo e jamais seguido depois dele. Com Francisco, o pobre não é mais "a figura de quem, absolutamente nada possuindo, está à mercê de todos, encolhido no canto. (...) Pobre não é o necessidade, aquele que “carece-de”, mas, pelo contrário, o perfeito, aquele que imita perfeitamente o Filho". 
Antes de Francisco, a pobreza parecia apenas sacrifício e renúncia, enquanto, com ele, "através da experiência da pobreza", o homem renasce, "rico de um novo olhar sobre o real". Francisco não faz como os estoicos ou os sábios que convidam a desprezar os bens terrenos pela sua vaidade. A pobreza nele é uma escolha "que nada inveja, nada quer à disposição. Pobre é aquele que tudo “tem” como irmão e irmã, isto é, sem ter". "Somente o Pobre é verdadeiramente poderoso", porque a sua comunhão com as coisas é "livre da cadeia do possuir e do depender". 
Essa revolução de pensamento permanece, porém, in-audita, não ouvida, a tal ponto que apenas "na solidão, em meio aos animais, ele a prega". Para Cacciari, essa novidade foi incompreendida seja pelos seus coirmãos, quanto por Giotto e Dante. 
Giotto, nos afrescos da Basílica Superior de Assis, representa Francisco como uma figura pacificada, em harmonia com a sua Ordem, com a Igreja e a sociedade, enquanto, ao invés, o santo, quando vivo, foi uma alma em luta, dividiu grupos e pessoas, ficou desapontado com a sua própria Ordem, muitas vezes dilacerado em seu interior. E Dante, no Paraíso, trai a força de Francisco, porque não sente o porte inaudito da sua pobreza. O livro de Cacciari se detém no santo de Assis e nos dois sumos artistas, mas são claros as possíveis referências ao nosso tempo. 
Matteo Renzi disse ter ficado impressionado com Nelson Mandela, mas o que aconteceria em Florença se Renzi tivesse a mesma radicalidade de visão que Mandela demonstrou? Walter Veltroni se inspirava muitas vezes em Martin Luther King, mas o que aconteceria com o Partido Democrático se Veltroni tivesse seguido concretamente a mesma subversiva novidade de valores que levou Luther King a abalar os fundamentos da sociedade norte-americana? 
Todos nós sentimos a força catalisadora desses homens, mas, ao invés de igualá-la, a adaptamos, suavizando o seu ato subversivo, atenuando o seu radicalismo. Citamo-los, representamo-los como mitos, mas não queremos ser como eles.

terça-feira, 27 de março de 2012

Dante e Giotto: Duplo retrato de Francisco de Assis



Saiu em Itália um livro sobre Francisco de Assis a partir das imagens (pintadas e escritas) que dele fazem Giotto e Dante: “Doppio ritratto. San Francesco in Dante e Giotto” [“Duplo retrato. São Francisco em Dante e Giotto”] (Ed. Adelphi, 86 páginas), do político e filósofo Massimo Cacciari (em baixo).


O texto que Pierluigi Panza escreveu no Corriere della Sera (22-03-2012) a propósito deste livro é muito elucidativo sobre como diferem as interpretações sobre alguém que deixa um legado inconfundível. Vem mesmo a calhar, quando por estes dias andou por aqui uma discussão sobre santos e santidade, entre o uniformismo e a autoridade, de um lado, e a pluralidade e subjetividade, do outro. Eu continuo pelo outro.

O texto de Pierluigi Panza (ler tudo aqui):
Giotto e Dante são ambos católicos, nascidos cerca de 40 anos depois da morte do Santo (1226). E o fato de se ocuparem de Francisco já é um testemunho de como a figura do santo era percebida como coesa pela Igreja. Mas os dois artesãos não conseguem dar razão totalmente ao "crucificado de Assis", porque a sua força é muito vasta: ambos o traduzem e o traem.

Giotto representa Francisco nos afrescos da Basílica Superior de Assis, referindo-se à Legenda Maior de Boaventura de Bagnoregio, e, em Florença, na Capela Bardi de Santa Cruz. Dante o coloca nos Céu dos espíritos sábios (Paraíso, Canto XI) e confia a ele o elogio a São Tomás de Aquino.

"A visão giottesca parece ser mais ingênua e nova; na realidade, é uma operação política precisa", destaca Cacciari. No ciclo de afrescos da Basílica Superior de Assis, de fato, falta o encontro de Francisco com os leprosos, o dom dos estigmas, e a cena do manto doado ao pobre é adoçada, parece uma troca entre cavaleiros. O episódio da morte também não mostra Francisco nu sobre a terra nua da Porciúncula. "Em síntese, uma representação homogênea com as exigências do primeiro papa franciscano (Nicolau IV): Francisco está em perfeita harmonia com a Igreja e se inclina a ela".

Em Dante, a perspectiva é diferente. Francisco é o alter Christus, que recebe os estigmas no Monte Alverne. Não se prostra, mas submete realmente ao papa a sua Regra. Não faz milagres, mas é o serafim de uma religião quase solar ("não diga Assis, que pouco e mal diria / Mas diga Oriente, por melhor falar"). Em Dante, Francisco está em guerra com as forças que transformaram o sólio de Pedro em uma Babilônia e morre pobre e nu como um "profeta" de uma nova ordem. Na Comédia, ele é tratado ao lado de São Domingos, porque Dante busca no cristianismo uma concórdia de opostos e aprecia tanto a força regeneradora da pobreza, quanto a da sabedoria dominicana.

Mas a preferência do poeta é por Francisco e pela sua loucura profética, embora nem Dante nem Giotto parecem compreender até as extremas consequências a força da revolução da pobreza: "Pobreza é a violência de quem quer o Reino. Somente o pobre é verdadeiramente poderoso", escreve Cacciari. Francisco vive um "esvaziamento de si mesmo" semelhante ao desejado por Deus para criar o universo.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Responsabilidade

O caminho para a meta começa no dia em que assumes a total responsabilidade pelo teu agir.


Dante Alighieri (1265-1321)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

25 de Novembro de 1277. É eleito o sucessor do Papa português

Nicolau III (Giovanni Gaetano Orsini) foi Papa de 25 de Novembro de 1277 a 22 de Agosto de 1280. Sucedeu a João XXI, o português Pedro Hispano.

Se Dante colocou o português no Paraíso, já o Nicolau III não teve a mesma sorte. O vate coloca-o no Inferno por causa do pecado da simonia, isto é, a venda de cargos, bênçãos e favores eclesiásticos.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O que está à porta do Inferno?

Dante morreu no dia 13 de Setembro de 1321. Ou talvez no dia 14 desse ano. Seja de que maneira for, é sempre bom lembrar a frase que está à porta do seu "Inferno": "Deixai toda a esperança, ó vos que entrais!"

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

24 de Dezembro de 1294. Eleição do Papa Bonifácio VIII

Bonifácio VIII por Giotto

Benedetto Caetani (1235 - 1303) foi eleito Papa no dia 24 de Dezembro, após a abdicação de Celestino V, no dia 13 de Dezembro anterior.

Benedetto Caetani influenciou a abdicação de Celestino V, um humilde monge beneditino (de certa forma lembrando-o, Giovanni Papini publicou as “Cartas aos Homens de Celestino VI”, que obviamente não existiu, mas seria um Papa exemplar), pelo menos sugerindo tal possibilidade, e a seguir foi eleito para a Cadeira de Pedro.

Defensor da supremacia espiritual e temporal dos Papas (acrescentou à tiara papal sua segunda coroa que representa a Ordem, o poder espiritual, uma vez que a primeira coroa já representava a Jurisdição, o poder régio ou temporal), Bonifácio VII viveu conflitos com as principais famílias e reis europeus. Os conflitos com Filipe IV são os mais conhecidos. Filipe IV tentou, sem conseguir, que Bonifácio VIII fosse condenado post mortem.

Bonifácio VIII institui em 1300 o primeiro jubileu cristão por meio da bula Antiquorum fide relatio, o que levou a Roma muitos cristãos e permitiu ao Papa restaurar as basílicas de São Pedro, São João de Latrão e Santa Maria Maior. A partir desse data houve jubileus de meio em meio século.

Este Papa foi patrono de Giotto. Dante, que não gostava dele por causa das concepções papais do poder, coloca-o no Inferno, pelo crime de simonia, apesar de Bonifácio ainda estar vivo na data em que se passa o poema. Boccaccio também o satiriza no Decameron.

domingo, 13 de setembro de 2009

13 de Setembro de 1321. Morre Dante Alighieri

No dia 13 de Setembro de 1321 (ou talvez no dia 14), aos 66 anos, morreu Dante Alighieri, “sumo poeta” de Itália. Nesse mesmo dia, mas 45 anos antes, em 1276, tinha Dante 11 anos, é eleito papa Pedro Hispano (ou Pedro Julião), o médico e matemático de origem portuguesa que adoptou o nome de João XXI (por vezes surge 0 dia 20 de Setembro como o dia da eleição – qual será a data correcta?).

Na “Divina Comédia”, Dante coloca a alma de João XXI no paraíso, junto ao teólogo franciscano Boaventura. João XXI é “aquele que brilha em doze livros” – referência aos tratados do intelectual português, que parecia ser mais dado às erudições do que à governação da Igreja. Os seus sete meses e 26 dias de pontificado foram demasiado breves para uma apreciação fundamentada.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...