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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Hubert Reeves: "Nenhuma pessoa inteligente pode acreditar no criacionismo"


Excerto da entrevista que Hubert Reeves deu ao "Público":
Acredita que a divulgação tornou as pessoas mais conscientes da necessidade de ter conta as descobertas científicas? 
Tem de haver alguma coisa entre a religiosidade – num sentido absolutamente naïf – e a ciência pura. Não é preciso fazer parte de nenhum grupo evangelista, nem negar toda a possibilidade de espiritualidade. As pessoas hoje podem decidir por si. 
Como é que um homem de ciência vê o debate crescente nos EUA sobre o criacionismo? 
É ridículo. Nenhuma pessoa inteligente pode acreditar no criacionismo. 
Mas já há estados dos EUA onde há a possibilidade disto ser ensinado nas escolas. 
Acho que essa é mais uma questão política do que uma questão científica. Há uma pressão social e política de algumas pessoas com interesses. É difícil ver que um miúdo que tem algum cérebro possa acreditar que o mundo foi feito há 4000 anos. E é o caso. Acho que é inútil lutar contra o criacionismo.

Foto e excerto daqui.

Para algumas pessoas, a iniciação na literatura de divulgação científica foi com o livro (e a série) "Cosmos", de Carl Sagan. Foi o meu caso. Para outros, foi com o livro deste senhor, "Um pouco mais de azul", que foi buscar o título a um poema de Mário de Sá-Carneiro. Por pouco não foi o meu caso. Li-o logo a seguir ao "Cosmos", por influência do amigo Manuel Augusto Oliveira.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Mais que evolução

O Cristo meramente humano não é mais do que uma figura, uma peça de eleição artificial, como a do homem evolutivo.

Chesterton

sábado, 10 de março de 2012

Anselmo Borges: Ciência, espiritualidade e justiça


Artigo de Anselmo Borges no DN de hoje.

Quando se fala da Igreja e do mundo, há, à partida, um equívoco fundamental: a Igreja e as pessoas na Igreja querem dialogar com o mundo, como se também elas não fossem mundo. Ora, há um só mundo, no qual vivemos todos. Os cristãos também vivem neste único mundo, mas a partir da perspectiva do Deus revelado em Jesus Cristo. E dialogam com os outros, dando e recebendo luz, na procura comum da verdade e do sentido.

O equívoco alarga-se e aprofunda-se com o perigo de os "quadros" da Igreja - padres, bispos, papa - poderem viver dentro de um mundo muito artificial: de modo geral, nascem dentro de famílias católicas tradicionais, são formados em ambientes fechados, seguem uma carreira sem riscos, não vivem intensamente o que constitui o grosso das preocupações das pessoas: emprego, filhos, casa...
Leandro Sequeiros

Foi, pois, para mim gratificante a entrevista de Leandro Sequeiros, um jesuíta que acaba de jubilar-se, após quase 50 anos vividos no meio universitário, a José Manuel Vidal. Trabalhou em cinco Universidades, dedicado sobretudo à Paleontologia. Daí, a afirmação: "A vida não se pode explicar a não ser a partir do ponto de vista da evolução."

Nunca deixou de acreditar em Deus. "A minha fé em Deus não é um puro assentimento racional a um credo abstracto. Deus não é uma ideia. Tão-pouco uma divindade difusa no oceano dos confins do cosmos, como defende a New Age. O meu ponto de partida é a adesão e o seguimento de Jesus de Nazaré. A sua relação com o Pai é que me ensinou a saber o que é Deus. Há uma experiência interior que se vai consolidando, encarnando e com que se convive amorosamente. O grande problema de muitos cientistas é que mantêm uma imagem infantil de Deus e essa imagem não se dá bem com a maturação de uma visão científica do mundo. O conflito cognitivo não se resolve e quebra na parte mais débil: a experiência interior. Sem vida interior, não é possível crer. Mas essa vida interior não é intimista, ausente da realidade. A experiência de Deus deve alimentar-se da experiência humana, do contacto com a vida, com a realidade dura, com as mordeduras na própria carne da injustiça de um mundo desigual. O clamor das vítimas sobe até Deus e alimenta a nossa consciência profunda."

Portanto, "ciência, liberdade e justiça não são três mundos incomunicáveis". Pelo contrário, "não se pode ser cristão, sem ser desesperadamente humano". A ciência sem espiritualidade está vazia, dizia Einstein, mas "uma espiritualidade que não brota do contacto com a vida, com as injustiças de inumanidade, não é espiritualidade". Assim, "todo o ser humano deve viver do seu trabalho. Para mim, a Universidade era, entre outras coisas, um posto de trabalho", dependendo de um contrato.

O nível intelectual está em baixa na Igreja? Algo que é fundamental: "Para poder exercer como intelectual, é necessário ter muita liberdade de espírito e muita maturidade. Com arrogância ou com medo, não se pode exercer de intelectual. E correm maus tempos para a liberdade."

Muitos dos seus contactos são pessoas que consideram a Igreja uma instituição longínqua. "Mas creio que da parte da Igreja há um excesso de preocupação com este assunto. A vida é muito mais ampla do que as capelinhas." Como ter afeição por instituições religiosas fechadas em problemas que nada têm a ver com a vida? "A vida humana plena e libertadora é muitas vezes maior e primaveril do que a que se oferece a partir das instituições." Como declarou António Gala, "desejo que, quando morrer, na minha lápide escrevam: 'morreu vivo'".

Convida à autocrítica: "aprendemos a viver num mundo plural e secular?" A verdade é que "sedução evangélica" só se vê em grupos à margem das Igrejas e das religiões. Por isso, "vários movimentos propugnam a convocação de um Vaticano III, e outros, mais ambiciosos, sonham com uma grande Assembleia inter-religiosa, na qual as religiões debatam o seu lugar nesta sociedade complexa". De qualquer modo, "ninguém deve ter privilégios: nem as Igrejas nem os partidos nem os políticos nem as culturas. Numa sociedade igualitária, são os Direitos Humanos que devem ser a norma de conduta".

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Bia Bang Big Boom

Esta curta ganhou há dias um prémio num festival internacional de cinema. É sobre uma história muito longa que acaba de repente.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

30 de Junho de 1860. Debate em Oxford sobre o darwinismo

Thomas Huxley (em cima) e o bispo Wilberforce.
Imagens da "Vanity Fair"

Ontem referi aqui o inventor da palavra “angosticismo”, Thomas Huxley. Hoje, reparo que no dia 30 de Junho de 1860 (há 150 anos) deu-se um dos mais célebres debates sobre a teoria da evolução, na Universidade de Oxford. De um lado, Thomas Huxley, defensor aguerrido de Darwin, do outro, o bispo (anglicano) Samuel Wilberforce, defensor da verdade das Escrituras.

Diz-se que foi neste debate que Wilberforce (“o melífluo” Sam e popular entre as senhoras da época) disse: “Gostaria de perguntar ao professor Huxley, que julga que descende do macaco e espera a hora de me desfazer em migalhas, de onde lhe vêm as suas origens simiescas, de do lado do seu avô ou da sua avó?”

Afirma Jacques Arnold, em “Requiem por Darwin” (ed. Gráfica de Coimbra 2; livro que há um ano andou muito por este blogue), que o episódio faz parte da “mitologia científica, tal como a maçã de Newton e a tina de Arquimedes”. É difícil separar a realidade da ficção. Para mais, parece que o interlocutor de Wilberforce mais interveniente foi Dalton Hooker e não Thomas Huxley, que no entanto era o principal defensor de Darwin nesta época.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Homem e evolução, acaso e necessidade, na reflexão sabática de Anselmo Borges

"Provas biológicas, paleontológicas, arqueológicas, convergem para a afirmação de que o Homem, dentro da história da evolução, emergiu de espécies anteriores, de outras formas de primatas e hominídeos", escreve Anselmo Borges em mais um texto sobre evolucionismo (científico) e fé (religiosa) e também sobre a "pergunta que o ser humano inevitavelmente põe e a que a ciência não pode responder, pois tem a ver com o fundamento e o sentido último da realidade: porque há algo e não nada?". Ler aqui.

domingo, 29 de novembro de 2009

Darwin, humanista vitoriano

Pedro Mexia diz que temia que "Darwin fosse um ateu fanático ou um desvairado eugenista".

"Quando finalmente o li com atenção, percebi quão infundados eram tais receios. Darwin foi um humanista vitoriano, que descrevia e não prescrevia, e de quem aliás são conhecidas posições contra a escravatura, por exemplo. O abominável «darwinismo social» não é invenção nem culpa dele. Quanto à religião, não confundamos Darwin com Dawkins. Darwin escreveu na sua Autobiografia: «O mistério do início da todas as coisas é insolúvel para nós; e por mim contento-me em permanecer Agnóstico». Eu, que permaneço crente, concordo. O mistério é insolúvel. A humildade de dizer que é insolúvel já é muito" (A Lei Seca, post de 24 de Novembro).

sábado, 28 de novembro de 2009

Anselmo Borges: Darwin e a religião

Anselmo Borges escreve sobre Darwin e a religião, a propósito dos 150 anos da publicação de "A Origem das Espécies". Copiado daqui.

Ainda no contexto da dupla celebração neste ano de 2009 - 200 anos do nascimento de Charles Darwin e 150 anos da publicação de A Origem das Espécies -, fica mais uma reflexão sobre o tema em epígrafe.


Aquela história repetida - o bispo de Oxford, S. Wilberforce, perante enorme assistência a uma conferência, perguntou a Thomas Huxley, defensor de Darwin, se descendia do macaco pelo lado do avô ou pelo lado da avó; face à resposta, desconfortável para o bispo, uma senhora desmaiou e a mulher do bispo terá murmurado: "Só faltava esta: descender de macacos! Se for verdade, rezemos para que ninguém saiba" - não será completamente verdadeira, mas revela bem o abalo e a perplexidade causados pela tomada de consciência de que descendemos por evolução de outros animais.


Concretamente quanto à religião, é significativo que a obra de Darwin não tenha figurado no Índex (lista dos livros proibidos aos católicos). Por outro lado, Darwin foi sepultado com pompa na Abadia de Westminster, a alguns passos do túmulo de outro gigante da ciência, Newton.
Em 1996, o Papa João Paulo II declarou, perante a Academia Pontifícia das Ciências, que "a teoria da evolução é mais do que uma hipótese". E, para marcar os 150 anos de A Origem das Espécies, realizou- -se recentemente na Universidade Gregoriana de Roma um Congresso sobre "Evolução biológica, factos e teorias", patrocinado pelo Conselho Pontifício para a Cultura. Os organizadores fizeram questão de excluir os partidários do "criacionismo" e mesmo do "desígnio inteligente".


Há evolucionistas materialistas, ateus, mas também os há crentes. As relações só azedam, quando, de um lado e do outro, se ergue o fundamentalismo: cientista ou religioso. Ora, contra esse duplo fundamentalismo, é preciso saber que Deus não é objecto de ciência: cientificamente, não se demonstra nem que há Deus nem que Deus não existe. Deus é objecto de fé e há razões para acreditar como há razões para não acreditar.


Assim, é tão ridículo invocar o livro do Génesis, com o seu mito da criação, lido literalmente, para negar a evolução, como invocar a ciência para provar que não há Deus. O Génesis é um livro religioso e não científico e a ciência nega-se a si mesma, quando pretende pronunciar-se sobre questões da esfera metafísica e religiosa.


A evolução e a fé não são incompatíveis. A ciência responde ao "como" e não ao "porquê" da realidade. Porque há algo e não nada? Qual o sentido último da realidade? A própria afirmação do acaso cego confronta-se com o que se pode chamar o seu paradoxo: como é que por puro acaso surge um ser - o Homem - cuja questão fundamental é a do sentido.


Aliás, há o famoso "princípio antrópico", que não demonstra Deus, mas que dá que pensar. O físico R. Dicke apresentou-o, em 1961, na sua forma "fraca": "Uma vez que há nele observadores, o universo deve possuir propriedades que permitam a existência desses observadores". Depois, Brandon Carter apresentou-o na sua forma "forte": "O universo deve ser constituído de tal modo nas suas leis e na sua organização que não deixa de um dia produzir um observador". Mesmo se é menos justificável nesta forma "forte", há sempre esta pergunta: porque é que o mundo é como é, de tal modo que aparecemos nele, perguntando por ele e pelo seu sentido? De facto, a mínima variação nas suas condições iniciais faria com que não estivéssemos cá a colocar todas estas questões.


O próprio Darwin viveu a questão religiosa em perplexidade. Na sua Autobiografia, escreve que é extremamente difícil, ou melhor, impossível "conceber este imenso e maravilhoso universo, incluindo o homem, como sendo o resultado do acaso cego ou da necessidade. Quando começo a reflectir assim, sinto-me obrigado a recorrer a uma Causa Inicial que possua uma mente inteligente, até certo ponto análoga à mente do homem; e mereço ser chamado Teísta". Mas, depois, "surge a dúvida" e confessa: "Não posso pretender lançar qualquer luz sobre problemas tão abstrusos. O mistério do início de todas as coisas é insolúvel para nós; e por mim contento-me em permanecer Agnóstico."

terça-feira, 24 de novembro de 2009

24 de Novembro de 1859. Darwin publica "A Origem das Espécies"

No dia 24 de Novembro de 1859, Charles Darwin publica "On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life" ("Acerca da origem das espécies através da selecção natural ou a preservação das raças mais fortes na luta pela vida"), uma obra que (r)evolucionaria o modo de entender a Biologia, a vida, a criação.
Na edição de 1872, a sexta, o título seria abreviado para "A Origem das Espécies".

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Darwin e a Igreja católica - 2


D. Manuel Clemente disse há dias no Porto:

"Termino com as estimulantes palavras de John F. Haught, teólogo e professor da Universidade de Georgetown, num livro dedicado à oportuníssima temática da relação entre cristianismo e evolucionismo:

Depois de Darwin, a redenção é melhor entendida como São Paulo a entendeu: como nova criação. A nossa esperança é de uma renovação e realização de todo o cosmos, não apenas a salvação das nossas almas individuais. […] A perspectiva evolucionista da natureza sugere que, de algum modo, Deus quer que o mundo ‘se torne ele próprio’. À medida que o Amor divino Se entrega a Si mesmo à criação, a independência e a liberdade do mundo não diminuem, mas antes se consolidam. E quando os seres humanos surgem nesta história incrivelmente fascinante, a evolução passa a estar dotada de uma liberdade e de uma consciência sem precedentes. Mas esta liberdade traz consigo uma capacidade para o pecado. A fé em Deus, porém, implica a fé na redenção. O mal, o sofrimento e o pecado podem ser vencidos pela nova criação (John F. Haught, Cristianismo e evolucionismo em 101 perguntas e respostas, Lisboa, Gradiva, 2009, p. 216-217)".

Ler aqui o que o prelado terminou com estas palavras (mas só as citadas dizem respeito ao darwinismo).


sexta-feira, 10 de julho de 2009

A estrada de Damasco de Darwin

No ano em que a Igreja católica celebrou São Paulo e o mundo ainda celebra os 200 anos do nascimento de Darwin e os 150 da publicação de “A Origem das Espécies”, é legítimo perguntar: “A escala nos Galápagos teria sido a estrada de Damasco de Darwin?”

A pergunta é colocada por Jacques Arnould, em “Requiem por Darwin” (ed. Gráfica de Coimbra 2), tal como a resposta.

“O risco de fazer Darwin o São Paulo de uma nova religião – a evolução –, o fundador de uma igreja moderna – a do darwinismo –” é enorme. Mas “Darwin não tem nem a energia de um apóstolo, nem a tenacidade de um revolucionário; basta-lhe não duvidar da veracidade das suas observações, hipóteses, teorias, nem da confusão que iriam certamente provocar”.

“Requiem por Darwin”, escrito por um francês, consegue em certos pontos citar franceses mais ou menos contemporâneos de Darwin, a propósito e a despropósito – o que para alguém que não é francês parecerá sempre a despropósito.

Mas é um livro de leitura muito sugestiva, ultrapassadas algumas idiossincrasias. Tem-se uma boa noção do trabalho e significado de Darwin, da recepção pelas igrejas anglicana e católica da sua obra, do próprio cientista enquanto pessoa. O livro cita, por exemplo, a lista de motivos elaborada por Darwin para se casar ou não se casar. Darwin não deixava nada ao acaso. Era tudo muito ponderado, racionalizado, não pré-determinado pela biologia – quer dizer o autor.

Charlie casa-se com a prima Emma em 1839.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...