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sábado, 3 de dezembro de 2011

Anselmo Borges: Nem Eva, nem Adão, nem pecado original


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

O que de modo grave infectou o cristianismo foi a doutrina infausta do pecado original. Escreveu o grande historiador católico Jean Delumeau: "Não é exagerado afirmar que o debate sobre o pecado original, com os seus subprodutos - problemas da graça, do servo ou livre arbítrio, da predestinação -, se converteu (no período central do nosso estudo, isto é, do século XV ao XVII) numa das principais preocupações da civilização ocidental, acabando por afectar toda a gente, desde os teólogos aos mais modestos aldeões. Chegou a afectar inclusivamente os índios americanos, que eram baptizados à pressa para que, ao morrerem, não se encontrassem com os seus antepassados no inferno. É muito difícil, hoje, compreender o lugar tão importante que o pecado original ocupou nos espíritos e em todos os níveis sociais. É um facto que o pecado original e as suas consequências ocuparam nos inícios da modernidade europeia o centro da cena mundial, sem dúvida muito atribulado."

Quando se fala em pecado original, é necessário atender ao seu significado. A língua alemã, precisa como é, distingue entre Ursünde (o pecado originário) e Erbsünde (o pecado herdado). O autor principal do pecado original enquanto herdado foi Santo Agostinho. Para explicar o mal, também o sofrimento e a morte, postulou que no pecado de Adão e Eva todos pecaram e não hesitou em deixar cair no inferno as crianças sem baptismo.

Neste contexto, Santo Anselmo, no quadro jurídico da doutrina da satisfação, ensinou que só a morte de Cristo na cruz podia pagar a dívida infinita da culpa do pecado. Só a morte do Filho podia aplacar a ira de Deus e reconciliá-lo com a Humanidade.

Jesus, porém, não falou em pecado original.

Depois, com a doutrina da evolução, como era possível conceber o pecado dos primeiros seres humanos (quem foram os primeiros?), ainda em processo de humanização, um pecado tal que tinha transformado a natureza das coisas?

Foi Hegel que viu bem: o que se chama pecado original não é senão uma metáfora para indicar a passagem da animalidade à humanidade, da saída do paraíso da inocência da inconsciência e da fusão com a natureza à consciência de si e da mortalidade: se comerdes da árvore do bem e do mal (como podiam pecar, se ainda não sabiam do bem e do mal?), sabereis que estais nus (cada um é ele mesmo, ela mesma, separados e já não fundidos com a natureza) e que sois mortais.

Agora, é Armindo Vaz, professor da Universidade Católica, que, numa obra de profunda e ampla investigação - Em vez de "história de Adão e Eva": O sentido último da vida projectado nas origens - vem esclarecer a problemática do Génesis, capítulos 2-3.

Evidentemente, só posso deixar algumas proposições inevitavelmente fragmentárias.

1. Trata-se de um mito de origem, e os mitos de origem são etiológicos, pretendem, projectado nas origens, "compreender, interpretar, dizer o sentido último, antropológico/religioso, das coisas da vida por meio da fé". 2. Adão e Eva não existiram: são personagens míticos e não históricos. 3. O "paraíso terreal" é o "pomar da várzea"; o que existe para a fé é, em esperança, o "paraíso celeste". 4. Com Adão e Eva, pretende-se exprimir a existência complementar do homem em relação com a mulher e vice-versa. 5. A nudez não é passível de interpretação sexual; o abrir-se dos olhos pelo conhecimento do bem e do mal é o evoluir do ser humano da incivilização para a civilização e a cultura. 6. Como se pode falar em pecado ou mal moral, se ao cometer a "transgressão" o Homem ainda não gozava de "conhecimento", que só adquire precisamente no acto de "comer" o fruto proibido? 7. Com o motivo da "árvore da vida", afirma-se que não pode viver para sempre, porque a imortalidade é prerrogativa exclusiva de Deus: o Homem não pode ser como Deus. 8. Não há ligação entre mal moral e mal natural.

Concluindo, o que este mito pretende é ligar os aspectos do mundo a uma Origem ou a um Criador divinos. Deus é apresentado como sentido último de tudo o que existe.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Delumeau: O grande problema da Igreja Católica Romana é a falta de um verdadeiro diálogo


Jean Delumeau escreveu no "La Croix" e é bom pensar nisso:
O clero hoje tem diante de si uma classe instruída de leigos, que é tão culta quanto o clero, se não mais. O clero deve ter em conta a necessidade de se expressarem, os seus ideais democráticos. O grande problema da Igreja Católica Romana é a falta de um verdadeiro diálogo. 
As dioceses convocam sínodos, mas advertem que certos assuntos não serão transmitidos a Roma. Mesmo as indicações das comissões no Vaticano não são seguidas pelo papa. A encíclica “Humanae Vitae”, em 1968, foi um exemplo disso. Essa encíclica esvaziou as igrejas. O facto de manter os fiéis à margem explica essa hemorragia. Hoje, a Jornada Mundial da Juventude é uma bela manifestação, mas não é um lugar de diálogo.
Li aqui.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Rousseau e a mudança de mentalidades na Europa - o caso do paraíso

De um livro de três entrevistas sobre a felicidade que li há pouco, no dia em que Rousseau faz anos (nasceu há 298 anos), realço isto:

"Após a revolução científica, não foi a revolução das mentalidades que transformou a representação do paraíso?

Jean Delumeau – A segunda revolução é, com efeito, a dos sentimentos, que se pode datar, em França, pelo menos, da publicação d’A Nova Heloísa, de Rousseau. Nessa obra, um pastor protestante pede a Júlia, que está a morrer, que se desprenda dos bens deste mundo, do rosto dos seres amados, pois no além já não há marido nem esposa. Júlia contesta que, pelo contrário, espera poder amar no além aquele a quem não teve o direito de amar na Terra. A Nova Heloísa de Rousseau corresponde a uma mudança das mentalidades que atingia não só a França mas a Europa: a felicidade definitiva foi, desde então, cada vez mais identificada com a ideia de reencontrar aqueles que amámos e que nos amaram. O paraíso tornou-se assim – e continua a ser hoje – o lugar do reencontro com os entre os entes queridos. No entanto, esse tema do reencontro não é novo no cristianismo e não esperou pela revolução dos sentimentos e pela época moderna para ser realçado. Um jesuíta do século XIX, F. R. Blot, retomando uma obra dominicana anterior, esforçou-se por recensear todos os textos cristãos antigos nos quais tinha sido desenvolvido o tema do reencontro dos entes queridos no paraíso. O título da sua obra é significativo: Au ciel, on se reconnaît (1863). De facto, a aspiração a reencontrar no além os entes queridos perpassou toda a história cristã".

André Comte-Sponville, Jean Delumeau e Arlette Farge, A mais bela história felicidade, Texto & Grafia, páginas 72-73.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Lutero e Teresa de Lisieux no paraíso

"A Reforma foi hostil às imagens. Sem ser iconoclasta, Lutero desconfiava das representações paradisíacas – permanecendo aberto em relação à música. O luteranismo fomentou, pois, uma interiorização do paraíso e reconciliou-se com uma tradição mística antiga, da qual também se encontram ecos na época contemporânea, nos escritos de Teresa de Lisieux: Lutero e a santa de Lisieux falaram a mesma linguagem, a da interioridade. Para eles, o paraíso está, em primeiro lugar, no interior de si, ainda que se possa passar a vida a procurá-lo sem o encontrar. Interiorizado, ele é forçosamente indizível e irrepresentável. Mas a convicção de que há uma felicidade possível, escondida em cada coração humano, é uma constante do cristianismo, que a partilha com outras religiões".

Jean Delumeau in "A mais bela história da felicidade", pág. 71

terça-feira, 15 de junho de 2010

Segurança material e felicidade no além

"A morte captura-nos sempre, mas passamos a vida a evitar pensar nisso. A morte desertou das nossas sociedades: ela é sempre, mesmo para os crentes, para mais tarde e para os outros. Quanto mais o medo e o desconforto diminuem, mais a ideia de um paraíso e de uma felicidade no além se afastam. Nos períodos de medo, nos momentos sombrios da História, nos quais a vida era penosa e miserável, o paraíso e a esperança de uma felicidade eterna no além constituíam uma espécie de antídoto. Agora que a vida é materialmente mais fácil, esfuma-se a imagem desse paraíso. Porque temos em abundância os meios materiais para aproveitar a vida, atribuímos muito mais importância ao destino terreno e recuamos sempre no momento de pensar na morte".

Jean Delumeau in "A mais bela história da felicidade", Edições Texto & Grafia, pág, 129.


terça-feira, 13 de abril de 2010

Fronteira que se alonga

Quanto mais cresce o país do conhecimento humano, mais se alonga a fronteira ao longo do mistério do próprio ser de Deus, fronteira que só Ele pode nos permitir de franquiar.

Jean Delumeau (1923-…)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

“Deus está de volta”


O livro chama-se “God is Back: How the Global Revival of Faith is Changing the World” (algo como “Deus está de volta: Como o renascimento global da fé está a mudar o mundo”), de John Micklethwait e Adrian Wooldridge, na Penguin Press. Um é católico, o outro é ateu (não sei qual deles é o quê). Ambos são jornalistas da “Economist”.

Uma leitura sumária de críticas (na “Sábado” de 18 de Junho, no FT.com, no site da Amazon) revela o teor do livro: o capitalismo é benéfico para a religião e a religião é benéfica para o capitalismo. E isto faz-se por duas vias: 1.ª, o capitalismo, com a mudança permanente, deixa as pessoas vulneráveis e fá-las procurar segurança na religião; 2.ª, a religião usa os meios do capitalismo – a tecnologia e os mercados – para se expandir.

Mas o livro fala também de uma mudança de percepção na Europa, que vai “Da Necessidade de Ateísmo” (título do primeiro capítulo, que começa com a expulsão de Oxford do poeta Percy Bysshe Shelley, por ter escrito um panfleto precisamente intitulado “A Necessidade do Ateísmo”), às “Guerras culturais globais”, ao “Aprender a viver com a Religião” (conclusão).

O livro tem uma visão global, ainda que realce o arco Europa – EUA. A religião, dizem, está a deixar de ser vista como uma força da ignorância e obscurantismo. É “uma grande força para o progresso social no mundo em vias de desenvolvimento”. Sobre o Pentecostalismo dizem que “dá às pessoas uma predisposição psicológica para os conduzir ao capitalismo, pela sua ênfase na disciplina, nos hábitos, na poupança, na preservação da família”.

Quatro comentários à queima-roupa (como disse um crítico, quando não se sentir inspirado para escrever uma crítica, em último recurso, leia o livro):

* Quantas vezes já se falou de regresso do religioso, da fé, do sagrado? Muitas. Desde finais dos anos 80 que se fala disso e dos “rumores dos anjos”, da secularização frustrada… Agora acrescenta-se a globalização e a Internet.

* A tese do refúgio na religião não se assemelha àquela do senhor de barbas que mais criticou o capitalismo, cujo nome num livro dos anos 50 era traduzido por Carlos Marques?

* A tese de o Pentecostalismo ajudar ao capitalismo (ou criar a predisposição para tal) não é a mesma que a de Max Weber com o seu “A ética protestante e o espírito do capitalismo?”

* Finalmente, este livro insere-se numa observação que já tem pelo menos uma década: “Deus, outrora menos vivo do que se julgava, está menos morto do que se diz” (Jean Delumeau).

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...