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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Origem religiosa das pancadas de Moilère

Li ontem que as pancadas de Molière, que na realidade não são de Molière porque já se usavam na Idade Média, têm uma explicação cristã: as onze pancadas são uma para cada apóstolo. Judas só ficou pelos ensaios. As três pancadas finais, mais pausadas, são uma para cada pessoa da Santíssima Trindade.


Há outras explicações, como a que diz que uma é para o rei, outra para a rainha e outra para ao público. Mas sabendo-se que o teatro europeu tem origem nos autos medievais, religiosos, não é de admirar que haja uma explicação religiosa.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Como atirar granadas ao rosto de Cristo



Foi representada no Théâtre de la Ville, em Paris, por estes dias, e gerou protestos de católicos, como já gerara em Avignon, quando subiu à cena pela primeira vez. De 2 a 6 de Novembro está no espaço Cent-quatre, também em Paris. A peça “Sobre o conceito do rosto no filho de Deus” (“Sur le concept du visage du fils de Dieu”), do italiano Romeo Castellucci, é sobre um filho que tem de cuidar do seu pai idoso, que é incontinente. Daí que o filho passe parte do tempo a atirar objectos ao rosto de Cristo. Granadas, por exemplo. E outras coisas, no sentido escatológico que já se vê que a peça tem.

Ora, muitos cristãos, que nas notícias que li aparecem sempre apodados de fundamentalistas, não gostam de ver a peça e também atiram objectos, desde ovos a óleo de motor.


Os protestantes dizem que a peça é “cristianofóbica”, enquanto os defensores da peça, incluindo o presidente da câmara de Paris, dizem que não se pode tolerar tais “expressões de fundamentalismo e intolerância”.

Eu nunca estaria numa sessão de protestos deste género, porque as ofensas a Cristo que mais o magoam são as que são feitas contra os rostos dos mais frágeis. Mas também não percebo a indignação do autor, dos actores, dos políticos e outros perante os protestos. Mais que não seja, tais acções devem ser vistas como uma defesa da liberdade de expressão de quem se sente ofendido. Se se faz no próprio teatro, então até pode ser o público a manifestar-se artisticamente.

A sério. Não concordo com os protestos. Mas fico sempre espantado com a obsessão artística contra a figura de Jesus Cristo – que interpreto como sinal de que este homem será sempre sinal de contradição. Cristo é vulnerável, muito mais do que Maomé, por exemplo. Porque é mais democrática e tolerante a cultura a que deu origem. Que se possa ridicularizá-lo, riscá-lo, destruí-lo, só mostra a sua força.

domingo, 15 de maio de 2011

14 de Maio de 1912. Morre o escritor e dramaturgo August Strindberg


August Strindberg nasceu no dia 22 de Janeiro de 1849, em Estocolmo, e morreu no dia 14 de Maio de 1912, em Madrid. É um dos maiores escritores escandinavos e um dos pais do teatro moderno.
Em 1897, em francês, escreveu a autobiografia “Inferno”, revelando as suas neuroses, o seu complexo de perseguição, as forças misteriosas que dizia ser Deus ou o destino e que comandavam a sua vida. No fundo, considerava que a sua própria existência era um inferno.
Hoje considera-se que ele exagerou na autobiografia em prosa poética.

segunda-feira, 28 de março de 2011

28 de Março de 1994. Morre Eugène Ionesco



Eugène Ionesco, romeno (Slatina, 26 de Novembro de 1909), morreu em Paris, no dia 28 de Março de 1994. Dramaturgo do absurdo, escreveu “A Cantora Careca”, “O Rinoceronte”, “Jacques ou a submissão”, “A Lição”, “O Rei está a morrer”. E escreveram por ele na pedra do seu túmulo, no Cemitério de Montparnasse: "Prier le Je Ne Sais Qui. J'espère: Jésus-Christ".

"Deus não pode morrer. É a única coisa que Ele não pode fazer. Se (ou porque) o homem foi criado à imagem de Deus, o homem não morrerá. Deus não deixará que se extinga a sua imagem".

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Todos devíamos nascer velhos, mas paciência


Agora que estou mais velho, não me é possível conceber a vida a nível individual. Em relação a tipos mais novos, tenho quase a certeza de que essa consciência não existe: as pessoas limitam a sua vida ao período individual que vai do nascimento até à morte.

Luís Miguel Cintra em declarações ao “Ípsilon” (“Público”) de 25 de Fevereiro

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A peça e os actores

Deus escreveu mais uma peça do que um poema; uma pela que Ele quis que fosse perfeita mas uma peça necessariamente confiada a actores e encenadores humanos.

Chesterton (1874-1936)

sexta-feira, 28 de maio de 2010

É difícil ser Deus?

“Hard to be a God / Que difícil é ser Deus!” é o título do espectáculo de Kornél Mundruczó, integrado do alkantara festival 2010 (espectáculo em húngaro, com tradução simultânea em português), em Lisboa.

Parece claro que a peça não fala de Deus. Pelo menos a julgar pelo cartaz de onde tiro estas informações. “Objectos, pessoas e camiões num reality show onde estamos ansiosos por abandonar a posição do mirone. Permanecemos observadores ou tornamo-nos humanos?” Se calhar fala mesmo de Deus. Ao ver a confusão do mundo, Deus encarnou. Deixou a “posição do mirone”.

O que me interessa é a frase-título da peça. É fácil ou difícil ser Deus? Seria uma pergunta interessante num teste de teologia, mesmo que a tradução literal do titulo da peça seja antes "Difícil ser um Deus".

Fácil ou difícil? É difícil. Viu o Filho morrer. Sofre com a humanidade. É incompreendido, ignorado, odiado pela sua obra-prima. É fácil. Sabe como as coisas funcionam. Foi ele que as inventou. Conhece tudo. Sabe como a história acaba. É Ele quem manda.

E pensar sobre se é fácil ou difícil ser Deus o que significa? Que conhecemos algo de Deus? Que as categorias humanas se aplicam Deus? Que podemos dar instruções a Deus? Que sabemos como funciona Deus?

Lendo mais sobre a peça, aqui, vejo que, afinal, fala mesmo de Deus.

"O romance «Que difícil é ser Deus!» dos Irmãos Strugatski serve de inspiração para este espectáculo, examinado do ponto de vista da distância e responsabilidade divinas. Um infiltrado, que vê o que se passa mas não pode intervir, está presente como Deus, longe da alegria da criação, como observador dolorido. Até que o que há de humano nele prevalece, e tem de agir, mas conhecendo as leis sombrias do camião tem de usar os métodos deles: violência e destruição. Mostra-se o dilema da justaposição entre presença inactiva e vida activa num espaço confinado, questionando assim a própria posição do público. Objectos, pessoas e camiões reais num reality show onde estamos ansiosos por abandonar a posição do mirone. Permanecemos observadores ou tornamo-nos humanos?"

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Literatura judaica no Teatro D. Maria II

Ainda no "Ípsilon" de hoje:

O Teatro Nacional D. Maria II agendou uma sessão de leitura de de contos e poemas judaicos para a próxima terça-feira, às 19h, no Salão Nobre. A selecção dos textos desta Viagem pelos Grandes Temas da Literatura Judaica, que ficou a cargo de Lúcia Liba Mucznick, "procura dar uma imagem alargada das formas de expressão judaica na literatura, desde a mística ou o folclore de origem cabalística até à realidade actual no Estado de Israel", passando inevitavelmente pela Shoah. Os actores Ana Bustorff, Pedro Lamares e Rui Spranger farão as leituras.

23 de Abril de 1616. Morre Shakespeare

Estátua no túmulo de Shakespeare, em Strantford.
Na pedra tumular (não a da imagem), está escrito:

Bom amigo, por Jesus, abstém-te
de profanar o corpo aqui enterrado.
Bendito seja o homem que respeita estas pedras,
e maldito o que remover meus ossos.

William Shakespeare nasceu no dia 23 de Abril de 1564, foi baptizado no dia 26 seguinte e morreu no dia 23 de Abril de 1616. Há muito mistério sobre a sua identidade do mais influente dramaturgo de sempre. E de vez em quando corre a "suspeita" de que era católico (ver aqui um dos elementos mais recentes sobre o assunto).

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Ilda David' pinta «Breve Sumário da História de Deus», de Gil Vicente

A exposição «Vicente», com pinturas de Ilda David’, foi inaugurada a 20 de Novembro, no Salão Nobre do Teatro Nacional São João (Porto). A mostra foi concebida no âmbito da produção de «Breve Sumário da História de Deus», estreada no mesmo dia.
Os quadros ficarão expostos até 20 de Dezembro.

“Entra Abel, pastor, cantando o vilancete seguinte:

Adorai montanhas
o Deos das alturas
também as verduras.

Adorai desertos
e serras floridas
o Deos dos secretos
o senhor das vidas.
Ribeiras crecidas
louvai nas alturas
Deos das criaturas.

Louvai arvoredos
de fruto prezado
digam os penedos
Deos seja louvado.
E louve meu gado
nestas verduras
O Deos das alturas”.


Fonte: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Epitáfio de Ionesco

A tradução do epitáfio de Ionesco, na entrada anterior, não é literal. O que lá está escrito é "Prier le Je Ne Sais Qui. J'espère: Jésus-Christ", que, ao pé da letra, será isto: "Rezar o não sei quem. Espero: Jesus Cristo".

26 de Novembro de 1909. Nasce Ionesco

Eugéne Ionesco, criador e nome maior do Teatro do Absurdo (“A Cantora Careca”, “O Rinoceronte”, “Jacques ou a submissão”, “A Lição”, “O Rei está a morrer”…), nasceu há 100 anos.

Oriundo de Slatina, na Roménia, viveu parte da infância em Paris, voltou à Roménia, mas a partir de 1940 fixou-se na cidade-luz. Morreu no dia 29 de Março de 1994.

O “intérprete do mal-estar, das dúvidas e do desespero do homem contemporâneo” está sepultado no Cemitério de Montparnasse. O seu epitáfio diz: “Rezo a não sei quem. A Jesus Cristo, espero”.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Reconciliação, de Else Lasker‑Schüler

Um dos três poemas enxertados no auto "Breve Sumário da História de Deus". Os outros dois são o de Ruy Belo, já para este blogue transcrito, e o "Salmo 139 mudado por Herberto Helder".


Reconciliação


Há‑de uma grande estrela cair no meu colo…
A noite será de vigília,

E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.

Será noite de reconciliação –
Há tanto Deus a derramar‑se em nós.

Crianças são os nossos corações,
Anseiam pela paz, doces-cansados.

E nossos lábios desejam beijar‑se –
Porque hesitas?

Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.

Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.

Há‑de uma grande estrela cair no meu colo.

Else Lasker‑Schüler
In Baladas Hebraicas. Trad. João Barrento.
Lisboa: Assírio & Alvim, 2002. p. 45.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Manual de leitura de "Breve Sumário da História de Deus"

Quem está longe do Porto,
quem está no Porto mas não pode ir ao TNSJ,
quem se interessa pela questão*, mas não aprecia teatro
quem não se interessa pela questão*, mas gosta de teatro...
não deixe de fazer o download do Manual de Leitura de
"Breve Sumário da História de Deus" (aqui).

Desculpem o entusiasmo. Verão que vale a pena:
texto de D. Manuel Clemente,
entrevista a Nuno Carinhas,
textos de Artur Mourão, João Veloso e outros,
poemas e imagens,
explicação das personagens,
apresentação dos actores.

*A questão é, obviamente, Deus, ainda que mediada pela arte teatral.

Palavras de Jacob depois do sonho, por Ruy Belo

Amei a mulher amei a terra amei o mar
amei muitas coisas que hoje me é difícil enumerar
De muitas delas de resto falei
Não sei talvez eu me possa enganar
foram tantas as vezes que me enganei
mas por trás da mulher da terra e do mar
pareceu‑me
ver sempre outra coisa talvez o senhor
É esse o seu nome e nele não cabe temor
Mas depois deste sonho sou obrigado a cantar:
Eis que o senhor está neste lugar
Porquê não sei talvez uma pequena haste balance
talvez sorria alguma criança
Terrível não é o homem sozinho na tarde
como noutro tempo de esplendor cantei
Terrível é este lugar
Terrível porquê? Não sei bem
Talvez porque o senhor pisa esta terra com os seus pés
(lembro‑me até de que mandou tirar as sandálias a moisés)
Levanto os dois braços aos céus
Aqui – mulher terra mar –
Aqui só pode ser a casa de deus

Ruy Belo
In Todos os Poemas. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000. p. 209‑210.

Este poema faz parte do espectáculo "Breve Sumário da História de Deus", que o TNSJ leva à cena a partir de amanhã.


"Breve Sumário da História de Deus" - o cartaz

"Breve Sumário da História de Deus", no Porto

O TNSJ (Teatro Nacional São João - Porto) apresenta de 20 de Novembro a 20 de Dezembro, de terça a sábado às 21h30 e ao domingo às 16h, "Breve Sumário da História de Deus", de Gil Vicente (magnífico título).

Leio no sítio do TNSJ:

Estreado na corte de D. João III “na era do Senhor de 1527”, o auto propõe um especioso mosaico de passos das Sagradas Escrituras – da Queda do Homem à Ressurreição de Cristo – e possui uma densidade retórica que, cruzando a exaltação lírica e o impulso satírico, amplia as potencialidades de representação muito para lá do mero intuito doutrinal. Da adoração de Abel à “voz que clama no deserto” de João Baptista, passando pelas provações de Job ou pelas profecias de Isaías, Vicente promove um casting bíblico para contar (usemos, para efeitos promocionais, o título de um dos blockbusters de Hollywood) a maior história de todos os tempos. Também habitado por figuras malignas e pelas alegorias do Mundo, do Tempo e da Morte, "Breve Sumário da História de Deus" revela-nos, afinal, a misteriosa condição de criaturas cuja desesperada humanidade se redime na esperança de Deus.

Trata-se do primeiro texto encenado no TNSJ sob a direcção artística de Nuno Carinhas.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...