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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Fernando Guedes e o Verbo

Morreu Fernando Guedes. O nome não me dizia nada até perceber que era o fundador da Verbo (e afinal já lera páginas dele sobre a história da edição em Portugal). Deu-nos livros como a "Apologia", de Henry Newman, ou os "Ensaios ecuménicos", de Yves Congar. E os "Diálogos sobre a Fé", de Ratzinger. Só por estas três obras (todas referidas diversas vezes ao longo deste blogue), já teria feito muito pela cultura católica em Portugal. E por mim. Evidentemente, Verbo tem conotações teológicas.

domingo, 9 de junho de 2013

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O mais maravilhoso

O mais maravilhoso não é  que Jesus Cristo seja  Deus, mas que Deus seja Jesus Cristo.

Yves Congar

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Atração

Hoje, quando a fé se apresenta tão difícil e a linguagem sobre Deus parece tão velada, Jesus Cristo mantém um grande poder de atração.

Yves Congar

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O livro sublinhado de João XXIII


João XXIII - daqui a dias faz 50 anos que ele morreu - foi núncio em Paris até 1953. Dizem que, apreciando o nível cultural do clero francês e não por ironia, um dia afirmou: "Nenhum padre francês se dá por satisfeito enquanto não fizer gemer as prensas com um livro seu".

Na realidade, lia os autores franceses. Mais tarde foi encontrado entre os seus haveres um livro intitulado "Verdadeira e falsa reforma na Igreja", sublinhado e anotado, publicado originariamente em 1950. Autor: Yves Congar, o teólogo mais influente no II Concílio do Vaticano.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

E por falar em poder, serviço e povo

Se a multidão sem unidade é anarquia, a unidade que não depende da multidão é tirania.

Yves Congar. Disse-o sobre a Igreja católica.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Tradição e mudança


O meu papel - se é que existe - consistirá sem dúvida em ser testemunha da Tradição no meio da mudança; sendo a Tradição completamente outra coisa que uma afirmação mecânica e repetitiva do passado: ela é presença ativa de um princípio a toda a sua história.

Yves Congar

terça-feira, 26 de março de 2013

Involucionismo

Frase do P.e Mersch que Yves Congar gostava especialmente de citar:

"É por falta de esqueleto que alguns animais têm de se envolver em carapaças".

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Bento Domingues: "O Papa não é a cabeça da Igreja"

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem.


1. Quando a anormalidade se torna normal, o reencontro com a mais pura normalidade surge como algo de extraordinário. É certamente essa secular situação que explica o espanto, ora sincero ora fictício, diante da clarividente renúncia de Bento XVI. Além disso, as canonizações rituais dos titulares de certas funções na Igreja e a intensa promoção do culto da personalidade acabam por se exprimir numa beata retórica de finados: "Que iria ocorrer agora? Como continuaria sem ele o Ano da Fé?"

É precisamente porque estamos no chamado Ano da Fé, que importa não a desfigurar com expressões ridículas resvalando para a idolatria. Os católicos sabem que o Papa não é a Igreja, nem a cabeça da Igreja e que a si próprio se designa como "servo dos servos de Deus". Como diz S. Paulo, seguindo a verdade no amor, cresceremos em tudo em direcção Àquele que é a cabeça,Cristo; Cabeça da Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude daquele que plenifica tudo em todos (Ef. 4, 15; 1, 22-23 e par.).

O apóstolo escolheu e usou estas imagens para que ninguém, na Igreja, pretenda substituir Jesus Cristo, fundamento da unidade eclesial na pluralidade dos seus carismas, por qualquer culto idolátrico. Como os papas não são sucessores de Cristo, é de elementar decência teológica denunciar qualquer expressão de papolatria.

2. S. Tomás de Aquino teve o cuidado de lembrar que o terminal da Fé cristã não é o articulado do Credo, fruto das Igrejas cristãs, mas o próprio Mistério de Deus e, por isso, acrescentou que, em rigor, nem sequer é na Igreja que acreditamos, mas no Espírito Santo, que santifica a Igreja (Cf. ST II-II q. 1 a 1 ad 2; a. 9 ad 5).

Seria, no entanto, abusivo concluir: se o que importa é o Espírito Santo, então não se preocupem nem com a qualidade humana e espiritual da hierarquia eclesiástica, nem com as formulações da fé cristã. Deus providenciará!

Um tal sobrenaturalismo seria uma ofensa à própria teologia de Tomás de Aquino. Bento XVI, no dia 27 do mês passado, véspera da festa deste santo, aludiu a uma das suas mais ousadas buscas de harmonia, embora carregada de tensões, sobretudo em momentos de grandes viragens culturais: a fé cristã não eclipsa a razão; oferece-lhe até, no seu interior, uma nova paisagem e novos campos de investigação. Como diz no seu hino eucarístico, de poética modernidade, quantum potes tantum aude (atreve-te quanto puderes).

A graça não substitui a natureza, nem a natureza dispensa a graça do infinito amor. Importa derrotar as representações que substituem uma tensão existencial por uma persistente rivalidade: se damos muito a Deus, roubamos o ser humano, se concedemos muito ao ser humano, roubamos a Deus. Yves Congar, no diagnóstico da situação religiosa dos anos 30 do século passado, escreveu de forma lapidar: a uma religião sem mundo, sucedeu um mundo sem religião. Jesus Cristo é a radical superação desta rivalidade. Ele incarna a abertura humana ao Mistério de Deus e a abertura divina ao Mistério do Mundo. O encontro da finitude humana, do não divino, com a infinita profundidade divina, faz parte da identidade cristã.

3. Como escreveu E. Schillebeeckx, um dos grandes teólogos do séc. XX: não existe automatismo da graça. Os católicos acreditam que o Espírito de Cristo actua no mundo, na vida da Igreja e na acção ministerial das suas lideranças, mas também sabem que o povo crente e, dentro dele, a hierarquia eclesiástica podem, de diversas formas, acolher ou recusar os dons do Espírito. Quem não está atento à multiforme mediação eclesial da acção do Espírito Santo - porque supõe que goza do monopólio da verdade - acaba por se subtrair à sua influência.

Sempre que o magistério oficial deixa de estar atento às diversas instâncias de mediação que estruturam, o povo cristão corre o perigo de não escutar os reais apelos do Espírito de Deus. Quem ignora estas mediações sucumbe à tentação do facilitismo ou da negligência e torna-se vítima de cegueira e de surdez ideológicas.

Um apelo do Magistério ao Espírito Santo, sem ter em conta as mediações eclesiais, informando-se cuidadosamente antes de assumir as suas próprias responsabilidades, é um apelo em vão. Retirar-se para escutar os murmúrios do Espírito é, sem dúvida necessário, mas não basta nem dispensa o estudo das situações concretas de um mundo em mudança. A omnipresença do mistério da graça não suprime, automaticamente, a presença do mistério da iniquidade na história do mundo, das religiões e das Igrejas cristãs, no passado e na actualidade.

O Estado do Vaticano não é a Igreja Católica. Na opinião pública, até parece que sim. As frequentes narrativas sobre a corrupção e o crime organizado que afectariam algumas das suas instâncias exigem uma informação limpa, acerca de tudo o que vem minando a sua credibilidade e a do papado. As comunidades católicas, espalhadas pelo mundo, têm direito a essa informação. Não se pode esquecer que, sem ética, as invocações místicas são mistificações. O Vaticano só se justifica como instrumento de liberdade da missão da Igreja. Atraiçoa-se quando se deixa dominar pelo carreirismo e por endeusados negócios de banqueiros, nas suas vertigens criminosas.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Congar: "Felizmente, há Ratzinger"


Yves Congar (1904-1995) não é só um dos maiores teólogos do séc. XX (na minha opinião, faz parte de um trio de primeiríssimos que, já que estamos na semana do ecumenismo, inclui três confissões cristãs: os dominicanos, os jesuítas e os reformados). É capaz de ser também o mais linguarudo. E isso é bom para quem gosta de perceber como as coisas funcionavam, porque a língua de Congar deu para deixar tudo escrito nos diários. A diarística é sem dúvida uma boa forma de sublimar a língua comprida que todos temos.

Congar começou a escrever diários praticamente no berço. Quer dizer aos 10 anos, pelo menos. E já então escrevia que os alemães são “os boches os canalhas os ladrões os assassinos os incendiários” (falei disso aqui). Mas tarde diria bem de um alemão em concreto.

No tempo do Concílio, como é sabido, escreveu um diário que é bem capaz de ser mais útil para compreender o que se passou no Vaticano entre 1962-65 do que as atas do concílio (desconfio, já que, quanto às atas, só as vi encaixotadas, por encadernar, à porta de uma biblioteca eclesiástica).

No dia 31 de março de 1965, sobre o grupo que estava a redigir o decreto “Ad gentes” (sobre a Igreja e as missões), escreveu:

- "o padre Seaumois é realmente um burro", com a sua "bagagem de ideias e as suas respostas já prontas";
- Dom Yago "não diz nada e parece se aborrecer muito";
- Dom Perrin "quase não acompanha e não é de nenhuma ajuda";
- "Felizmente, há Ratzinger. É razoável, modesto, desinteressado, de boa ajuda" (li aqui).

sábado, 13 de outubro de 2012

Anselmo Borges: 11 de Outubro de 1962



Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

"Devemos discordar desses profetas das desgraças, que anunciam acontecimentos sempre funestos, como se o fim do mundo estivesse próximo." A Igreja quer ir ao encontro dos homens nas suas alegrias e esperanças, nos seus problemas e dificuldades. "Nos nossos dias, a Igreja de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade: julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validade da sua doutrina do que condenando erros."

Foi com estas palavras que o Papa João XXIII inaugurou há 50 anos, precisamente no dia 11 de Outubro de 1962, o Concílio Ecuménico Vaticano II, um dos acontecimentos maiores do século XX - o Presidente da França, Charles de Gaulle, considerou-o "o mais importante". Nele, como ironicamente escreveu a "Der Spiegel", deu-se "uma viragem copernicana, na qual Roma confessou que o Céu talvez ainda gire à volta da Basílica de São Pedro, mas a Terra não".

A Cúria Romana preparava-se para manter praticamente tudo na mesma. Houve, porém, um conjunto de cardeais que obrigaram à viragem. Um deles foi o cardeal Josef Frings, de Colónia, que tinha como assessor um jovem professor de Teologia, Joseph Ratzinger, crítico de cinco dos sete esquemas preparatórios fundamentais do Concílio. Ele e outros peritos, como Karl Rahner, Edward Schillebeeckx, Yves Congar, Hans Küng pensavam na urgência de uma renovação profunda e reconciliação da Igreja com o mundo moderno. Ratzinger foi então um provocador, até certo ponto um rebelde, favorável às línguas vernáculas na liturgia e criticando duramente a Cúria e a sua "atitude antimoderna": "A fé tem de enfrentar-se com uma nova linguagem, uma nova abertura."

Só quem viveu antes do Concílio pode aperceber-se da revolução que ele constituiu. Foi um esforço real e sincero de aproximação de todos. Como se diz no início da Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo, Gaudium et Spes, "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e das mulheres do nosso tempo, sobretudo dos pobres e de todos os aflitos, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo, e nada existe de verdadeiramente humano que não encontre eco no seu coração".

E talvez o mais paradoxal é que a Igreja, com o seu aggiornamento, diálogo, abertura, apenas estava, no essencial, a reconciliar-se com o melhor do Evangelho, que, desgraçadamente, tinha tido de se impor na modernidade contra a Igreja oficial: os direitos humanos, a dignidade sagrada da pessoa humana, a liberdade religiosa, a inviolabilidade da consciência.

Devia tornar-se claro que a Igreja, "luz dos povos", é, antes de mais, "povo de Deus" e não a hierarquia e mesmo esta tem de contar com a colegialidade episcopal e a participação dos leigos, contra uma estrutura piramidal. A revelação não pode ser concebida como um ditado de Deus; apela-se, portanto, à leitura da Bíblia, que estava afastada dos fiéis, mas no quadro de uma investigação histórico-crítica. A Igreja deve estar atenta aos "sinais dos tempos", como a emancipação das mulheres, a descolonização, o mundo do trabalho, da ciência e da técnica. As realidades terrestres são autónomas e não há oposição entre a criação de Deus e a acção criadora dos homens no mundo; a esperança da salvação no além tem de dar sinais e começar já aqui. Denunciou-se o anti-semitismo, a Igreja abriu-se ao diálogo ecuménico com as outras Igrejas e confissões cristãs, com as outras religiões, com os não crentes, com todos os homens de boa vontade. A viragem mais visível foi na liturgia: em vez do latim, adoptou-se a língua vernácula, o presidente deixou de celebrar de costas para o povo, todos eram convocados para uma participação activa, fraterna e festiva.

Passados 50 anos, muito falta fazer por uma Igreja verdadeiramente conciliar. O ecumenismo não dá passos. Os bispos, como faz notar a "Der Spiegel", continuam "marginais", "a Perestoika na Cúria não se realizou". Continua a dominar em Roma "uma corte medieval" e lutas pelo poder. Sobretudo, falta a fé e o ânimo de então.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Adivinhe quem disse (8)



Quem escreveu isto?


Apesar das desilusões e dificuldades, mantenho-me fiel à Igreja Católica, a minha Igreja tão provada.


a) Hans Kung. Mas este tem de estar cá sempre?
b) Congar, após uma das muitas admoestações magisteriais
c) Um dos lefebvrianos, cada vez mais distantes de Roma
d) Leonardo Boff, mas só com muito descaramento.


Resposta: a) Hans Kung num artigo publicado no dia Corriere della Sera, no dia 20 de junho. O suíço-alemão diz que a Igreja católica tem no momento “três chagas”: a reconciliação com os lefebvrianos, o caso do IOR (“banco do Vaticano”) e o “Vatileaks”. Ler tudo aqui.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Até onde chegam os tradicionalistas

Yves Congar observou, com humor, que os tradicionalistas, tão "autênticos", não vão para além do século XIX ou XVIII.

sábado, 17 de março de 2012

Anselmo Borges: 50 anos depois

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui).

Este ano passam 50 anos sobre um dos acontecimentos mais importantes do século XX: o Concílio Vaticano II, que o Papa João XXIII abriu em Outubro de 1962. Sem ele, é impossível imaginar o que seria hoje a Igreja Católica e, por arrastamento, o mundo.

Quem não viveu a situação e quiser aproximar-se do que era então a Igreja vá ler os manuais de teologia dogmática, de teologia moral, de direito canónico, de liturgia, pelos quais estudavam os futuros padres antes do Concílio. Pense-se, por exemplo, que, na década de 50 do século XX, ainda se proibia às freiras a leitura da Bíblia e que estava em vigor o Índex ou catálogo dos livros proibidos aos católicos, onde figuravam não só teólogos e críticos da Igreja, mas também os pais da ciência e da filosofia modernas e grandes nomes da literatura.

Bernard Haring 

Quando se lê essa lista, se não se mantiver algum humor, fica-se atónito. Depois, é preciso lembrar que, por exemplo, o insigne renovador da moral católica, padre B. Haring, escreveu, pouco antes de morrer, que tinha passado por dois processos na sua vida - o que lhe fez a Gestapo na segunda guerra mundial e o que lhe fez o Santo Ofício em Roma - e assegurava que o da Gestapo tinha sido mais suportável do que o do Santo Ofício. E o padre Y. Congar, eminente professor de teologia e, no final da vida, nomeado cardeal, escreveu à mãe, já anciã, a partir da sua experiência de censura por parte do Vaticano: "Praticamente destruíram-me. Na medida da sua capacidade destruíram-me. Não tocaram o meu corpo; em princípio, não tocaram a minha alma. Mas a pessoa de um homem não se limita à sua pele e à sua alma. Sobretudo, quando esse homem é um apóstolo doutrinal, ele é a sua actividade, é os seus amigos, as suas relações, é a sua irradiação normal. Tudo isto me tiraram; espezinharam tudo isso, e feriram-me profundamente. Reduziram-me a nada e, consequentemente, destruíram-me. Em certos momentos, sou prisioneiro de um imenso desconsolo."

Yves Congar

O Vaticano II foi, depois da decisão, logo no início, da aberrora do cristianismo aos gentios, o acontecimento mais importante para a história da Igreja. Foi a partir dele que ela se viu como verdadeiramente Universal, já não romanocêntrica, com sucursais ou filiais espalhadas pelo mundo. A Cúria Romana, mesmo que de forma tímida, internacionalizou-se, e as Conferências episcopais adquiriram autonomia. 0s leigos assumiram responsabilidades na Igreja, que se autocompreendeu mais como Povo de Deus.

A Igreja tentou então uma reconciliação com a modernidade, estabeleceu-se uma atitude fundamentalmente positiva em relação à democracia, à ciência, ao progresso, afirmou-se claramente a liberdade religiosa e de consciência, os direitos humanos foram inequivocamente afirmados, reconheceu-se a separação da Igreja e do Estado, do poder religioso e do poder político, a autonomia das realidades terrestres, da ciência, da economia, da política, da própria moral. Abriu-se uma era ecuménica, assumindo a Igreja muitas das exigências da Reforma. Outras comunidades cristãs foram reconhecidas como Igrejas, as celebrações litúrgicas viram consagrado o uso das línguas vernáculas, o padre deixou de celebrar de costas para o povo, a Bíblia tomou o seu lugar central na liturgia, na pregação e na vida dos crentes, e o seu estudo histórico-critico devia ser continuado. Condenou-se o anti-semitismo com o qual a Igreja tinha sido cúmplice, abriu-se um caminho novo de respeito, de diálogo e cooperação com todas as religiões e também com os não crentes.

A Igreja encontra-se hoje numa crise, que alguns, sem razão, querem atribuir ao Concílio. Passados 50 anos, é tempo para celebrar e sobretudo para reflectir. Há dias, o novo bispo de Lamego, António Couto, foi dizendo, com razão, que, infelizmente, a Igreja comunica a sua mensagem de forma "chata". Julgo que é preciso ir mais longe e perguntar se a Igreja anuncia e pratica verdadeiramente o Evangelho enquanto notícia felicitante ou, pelo contrário, tantas vezes, o Disangelho (má notícia), como denunciou Nietzsche.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

terça-feira, 22 de junho de 2010

O petit Yves Congar escreveu um "Diário da Guerra 1914-1918"


Procurando na Internet, encontrei no Canadá uma recensão à obra de infância de Congar (aqui, em pdf). O grande teólogo escreveu um diário, ao longo dos quatro anos de guerra, em cinco cadernos escolares. Note-se que era natural de Sedan, nas Ardenas, junto à Bélgica, uma região onde, naturalmente, abundaavm preconceitos sobre os alemães, como, aliás, em toda da França da época.

Yves Congar escreve no dia 25 de Agosto de 1914 que os alemães são “os boches os canalhas os ladrões os assassinos os incendiários” (sem vírgulas, que a edição respeita a grafia original, incluindo nos erros, e reproduz os desenhos).

O teólogo viria mais tarde a viver na Alemanha. Neste país, o contacto com os luteranos seria muito importante para o futuro de teologia ecuménica, que, com Yves Congar, passa a ter como objectivo o alargamento da ideia de catolicidade (presente nas outras confissões), em vez de ser uma tentativa de fazer regressar os presumivelmente separados.

O livro é contextualizado por Stéphane Audoin-Rouzeau, um especialista na Grande Guerra, e comentado por Domenique Congar, sobrinho do teólogo, que pede aos numerosos amigos alemães do tio que compreendam o que está escrito.

O diário foi publicado em 1997, após a morte do teólogo.

22 de Junho de 1995. Morre Yves Congar

Yves Congar (08-04-1904 – 22-06-1995), dominicano francês, é um dos grandes teólogos do século XX. Pode não ser tão conhecido como Karl Barth ou Karl Ranher, mas talvez tenha sido mais influente no modo de ser da Igreja Católica, a começar pelo II Concílio do Vaticano. A teologia do laicado (os fiéis têm direitos e deveres, têm uma missão e um estatuto digno, contra uma teologia secular que dizia que só tinham a prender do clero), a eclesiologia de comunhão (igreja como grande assembleia à volta de Jesus Cristo e não como sociedade estruturada hierarquicamente) e o ecumenismo (diálogo e procura de união entre cristão) devem muito a este teólogo que, proibido diversas vezes antes do Concílio, foi elevado a cardeal em 1994.

Entre as muitas obras de Congar (uma aqui) destaco os seus três diários: “Journal de la Guerre (1914-1918)”, “Journal d'un théologien (1946-1956)”, “Mon Journal du Concile, I : (1960-1963) e II (1964-1966).

Se o segundo e o terceiro são importantes para a teologia, o primeiro é curiosíssimo para a cultura do séc. XX. Publicado postumamente, mostra como uma criança e adolescente (10-14 anos), com palavras e desenhos, viu a I Guerra Mundial.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Clássicos 13: “Ensaios Ecuménicos”, de Yves Congar

(Primeiro parágrafo:) “Hesitei em reunir e publicar estes textos, de tal modo tenho consciência de que ficaram muito aquém da realidade ecuménica que hoje vivemos. Pois, contrariamente ao que repetem os menos entusiastas, o ecumenismo avança em planos diferentes ou segundo os diversos modos da sua prática, que não tem esmorecido. Estes textos são de um teólogo. Não me envergonho deste qualificativo – exprime a minha vocação e o meu serviço. Serviço necessário: será de lamentar, isso sim, que não seja mais aplicado ao ecumenismo. Alguns destes textos datam de há dez ou mesmo quinze anos, como aquele que trata da avaliação da eclesialidade dos outros, por exemplo. Mas, no âmbito da teoria, não se adiantou nada desde então; o reconhecimento prático, esse progrediu. Evidentemente, tínhamos considerado a questão do ponto de vista católico”.

Ensaios Ecuménicos | Essais oecuméniques, le mouvement, les hommes les problèmes | Yves Congar | Verbo, 1985, 330 páginas


Obra fundamental para a história do ecumenismo do lado católico até ao pontificado de Paulo VI. Yves Congar, francês, “o apóstolo da paciência” – tantas foram as vezes que se calou por ordens superiores –, foi padre dominicano (1904-1995). Em 1994, foi nomeado cardeal por João Paulo II. Os seus “Diário de um teólogo” e “Diário de um teólogo no concílio” são obras espantosas para perceber a grandeza do homem e a sua actividade (e também o seu sofrimento).

terça-feira, 30 de junho de 2009

Rahner e Ratzinger - III

Rahner e Ratzinger, numa altura em que se considerava que ambos estavam na dianteira da Igreja, ou melhor, do pensamento teológico. Muitos dizem que Rahner foi o teólogo mais influente do Concílio. Outros dizem que foi Congar. E outros, ainda, Ratzinger.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...