segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Bento Domingues: "O Papa não é a cabeça da Igreja"

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem.


1. Quando a anormalidade se torna normal, o reencontro com a mais pura normalidade surge como algo de extraordinário. É certamente essa secular situação que explica o espanto, ora sincero ora fictício, diante da clarividente renúncia de Bento XVI. Além disso, as canonizações rituais dos titulares de certas funções na Igreja e a intensa promoção do culto da personalidade acabam por se exprimir numa beata retórica de finados: "Que iria ocorrer agora? Como continuaria sem ele o Ano da Fé?"

É precisamente porque estamos no chamado Ano da Fé, que importa não a desfigurar com expressões ridículas resvalando para a idolatria. Os católicos sabem que o Papa não é a Igreja, nem a cabeça da Igreja e que a si próprio se designa como "servo dos servos de Deus". Como diz S. Paulo, seguindo a verdade no amor, cresceremos em tudo em direcção Àquele que é a cabeça,Cristo; Cabeça da Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude daquele que plenifica tudo em todos (Ef. 4, 15; 1, 22-23 e par.).

O apóstolo escolheu e usou estas imagens para que ninguém, na Igreja, pretenda substituir Jesus Cristo, fundamento da unidade eclesial na pluralidade dos seus carismas, por qualquer culto idolátrico. Como os papas não são sucessores de Cristo, é de elementar decência teológica denunciar qualquer expressão de papolatria.

2. S. Tomás de Aquino teve o cuidado de lembrar que o terminal da Fé cristã não é o articulado do Credo, fruto das Igrejas cristãs, mas o próprio Mistério de Deus e, por isso, acrescentou que, em rigor, nem sequer é na Igreja que acreditamos, mas no Espírito Santo, que santifica a Igreja (Cf. ST II-II q. 1 a 1 ad 2; a. 9 ad 5).

Seria, no entanto, abusivo concluir: se o que importa é o Espírito Santo, então não se preocupem nem com a qualidade humana e espiritual da hierarquia eclesiástica, nem com as formulações da fé cristã. Deus providenciará!

Um tal sobrenaturalismo seria uma ofensa à própria teologia de Tomás de Aquino. Bento XVI, no dia 27 do mês passado, véspera da festa deste santo, aludiu a uma das suas mais ousadas buscas de harmonia, embora carregada de tensões, sobretudo em momentos de grandes viragens culturais: a fé cristã não eclipsa a razão; oferece-lhe até, no seu interior, uma nova paisagem e novos campos de investigação. Como diz no seu hino eucarístico, de poética modernidade, quantum potes tantum aude (atreve-te quanto puderes).

A graça não substitui a natureza, nem a natureza dispensa a graça do infinito amor. Importa derrotar as representações que substituem uma tensão existencial por uma persistente rivalidade: se damos muito a Deus, roubamos o ser humano, se concedemos muito ao ser humano, roubamos a Deus. Yves Congar, no diagnóstico da situação religiosa dos anos 30 do século passado, escreveu de forma lapidar: a uma religião sem mundo, sucedeu um mundo sem religião. Jesus Cristo é a radical superação desta rivalidade. Ele incarna a abertura humana ao Mistério de Deus e a abertura divina ao Mistério do Mundo. O encontro da finitude humana, do não divino, com a infinita profundidade divina, faz parte da identidade cristã.

3. Como escreveu E. Schillebeeckx, um dos grandes teólogos do séc. XX: não existe automatismo da graça. Os católicos acreditam que o Espírito de Cristo actua no mundo, na vida da Igreja e na acção ministerial das suas lideranças, mas também sabem que o povo crente e, dentro dele, a hierarquia eclesiástica podem, de diversas formas, acolher ou recusar os dons do Espírito. Quem não está atento à multiforme mediação eclesial da acção do Espírito Santo - porque supõe que goza do monopólio da verdade - acaba por se subtrair à sua influência.

Sempre que o magistério oficial deixa de estar atento às diversas instâncias de mediação que estruturam, o povo cristão corre o perigo de não escutar os reais apelos do Espírito de Deus. Quem ignora estas mediações sucumbe à tentação do facilitismo ou da negligência e torna-se vítima de cegueira e de surdez ideológicas.

Um apelo do Magistério ao Espírito Santo, sem ter em conta as mediações eclesiais, informando-se cuidadosamente antes de assumir as suas próprias responsabilidades, é um apelo em vão. Retirar-se para escutar os murmúrios do Espírito é, sem dúvida necessário, mas não basta nem dispensa o estudo das situações concretas de um mundo em mudança. A omnipresença do mistério da graça não suprime, automaticamente, a presença do mistério da iniquidade na história do mundo, das religiões e das Igrejas cristãs, no passado e na actualidade.

O Estado do Vaticano não é a Igreja Católica. Na opinião pública, até parece que sim. As frequentes narrativas sobre a corrupção e o crime organizado que afectariam algumas das suas instâncias exigem uma informação limpa, acerca de tudo o que vem minando a sua credibilidade e a do papado. As comunidades católicas, espalhadas pelo mundo, têm direito a essa informação. Não se pode esquecer que, sem ética, as invocações místicas são mistificações. O Vaticano só se justifica como instrumento de liberdade da missão da Igreja. Atraiçoa-se quando se deixa dominar pelo carreirismo e por endeusados negócios de banqueiros, nas suas vertigens criminosas.

19 comentários:

Anónimo disse...



Este anti-padre tem o seu texto publicado duas vezes neste blogue em menos de 2 dias. Afinal os livres pensadores também têm os seus papas. Só que em vez de se vestirem de branco vestem o avental.

Jorge Pires Ferreira disse...

Mais um comentário ambíguo e anónimo. Se algo é sobre a minha pessoa, ignoro. Mas tenho de justificar o porquê das duas vezes.

A primeira, no domingo, é só um parágrafo, uma ideia. Não ponho o texto, porque entendo que quem quiser lê-lo todo pode comprar o jornal, já que o texto não está disponível gratuitamente na Internet.

Na segunda, ponho o texto todo. Já tinha explicado isso noutro ponto. O leitor não leu e por isso cá está a minha explicação.

Acha-me livre pensador? Não tenha dúvidas de que o sou. Sem hífen. E também pensador livre. Só assim se pode ser cristão.

Anónimo disse...



claro que sim, um homem esclarecido, um homem das luzes, um humanista. não tenho nenhuma dúvida. nenhuma.

Anónimo disse...



claro que sim, um homem esclarecido, um homem das luzes, um humanista. não tenho nenhuma dúvida. nenhuma.

Anónimo disse...

e um amigo da fraternidade e da humanidade universal. Sem dúvida!

Anónimo disse...

e do Grande Arquitecto!

Anónimo disse...


Como diz o meu amigo Tiago, o Frei Bento é um teste que Deus nos enviou.

" Já aprendeste a amar todos os irmãos e, reconhecendo-te como grande pecador, a olhar com caridade os seus defeitos? Já? Então experimenta com este!

Rui Jardim

Anónimo disse...

É de começar a temer pela integridade física do Frei Bento. Insinuações, expressões de ódio, zero de argumentação no tocante a ideias... E tudo isto anonimamente.
Já agora, o que o seu amigo Tiago lhe diz, caro Rui Jardim, redunda numa evocação do nome de Deus em vão. Este não é, com certeza, o olhar de Deus em relação a ninguém, nem mesmo em relação a si. E Deus não nos anda sequer a testar. Condescender não é amar. E Deus só sabe, só é Amor.
Ester

Jorge Pires Ferreira disse...

Obrigado, Ester.

Anónimo disse...

Calma, Ester, era uma piada. Só.

De resto, acho que se ninguém bateu ao Frei Bento quando ele tanto mal fez à Igreja, quando ele tanto desrespeitou os Sacramentos, não seria agora que ele iria apanhar.
Trata-se de um homem de idade, já trôpego, cujo projecto religioso falhou redondamente e hoje pertence a um passado que quase todos os crentes querem esquecer. Bater-lhe seria uma crueldade imperdoável.
Estas velhas beatas dos desmandos pós-conciliares não têm hoje eco nos movimentos que verdadeiramente crescem dentro da Igreja. A sua fonte de atenção é o mundo anti-religioso em que vivemos e que pretende promover os mais perigosos inimigos da Igreja.

Rui Jardim

Anónimo disse...

Então, Rui Jardim, adopto o seu ponto de vista para, em coerência com ele, lhe dizer que conheço quem tenha feito muito, mas muito pior à Igreja. Volte ao Evangelho, leia bem e veja se Jesus não fez e não faz muito pior à Igreja do que qualquer um de nós, tão pouco radicais na entrega, podemos alguma vez fazer. Que me diz?
É que, pelo que o Evangelho nos deixa entender, não só "o Papa não é a cabeça da Igreja", como a Igreja (qualquer ela) não se confunde com o Reino de Deus. É este "desmando" de Jesus que nos deve continuamente interpelar.
E medo de quê, de que "perigosos inimigos", rancor e azedume por quem, quando um horizonte tão vasto se nos abre diante dos olhos?
Ester

Anónimo disse...

O que o Evangelho a deixa entender é para mim insondável. Prefiro, na minha liberdade, perceber que o a interpretação do Evangelho deve ser guiada pelo Magistério da Igreja.

Rui Jardim

Anónimo disse...

Frei Bento tem a liberdade de pensar e escrever, nós temos a liberdade de ler ou não mas o dever de o respeitar. Sem tolerância a religião não faz sentido. Moderação é a palavra.

Anónimo disse...

Se me permite, eu tomo a liberdade de não o respeitar. Considero Frei Bento Domingues um sacerdote indigno, e já aqui apresentei razões.

Rui Jardim

Anónimo disse...

E o que lhe revela o magistério da Igreja sobre o Evangelho, Rui Jardim? Diverge em quê do que aqui eu tropegamente escrevi, ouvido precisamente do magistério da Igreja?
Ok. Dir-me-á que, se o ouvi, foi a algum bispo no exercício do magistério ordinário, e, por isso, não imune ao erro... Mas, sabe que mais? "O vento sopra onde quer, ouves a sua voz mas não sabes donde vem nem para onde vai, assim é todo aquele que nasce do Espírito. (Jo 3, 8).
O que aqui está em causa é uma tensão eterna, presente em graus diferentes em todos nós: entre o poder e a liberdade, o cálculo suspeitoso e a confiança no Espírito, o medo e a fé, a doutrina católica e o reino de Deus...
Ester

Anónimo disse...

Não sei quem lhe ensinou essa filosofia requentada, dona Ester, mas parece daquelas femininas que ensinam as senhoras a viver. Boa noite e boa sorte.

Rui Jardim

Anónimo disse...

Caro Rui Jardim,
se calhar é mesmo conforme aqui diz: o que está em causa poderá ser mesmo uma diferença de matrizes culturais de acordo com o género sexual. Eu não o diria com a convicção com que o Rui Jardim o veicula. Mas não posso, não podemos, escamotear que existe uma cultura feminina, cultura essa que o Rui Jardim desconhece (senão através de esteriótipos risíveis), incompreende, ridiculariza e, por isso, desrespeita: "filosofia requentada [...], daquelas femininas que ensinam as senhoras a viver".
Tem uma mãe, a senhora sua mãe, que, espero eu e para o seu bem, o tenha apertado sempre nos braços e coberto de beijos e de toda a atenção e cuidado. Isso é saber viver. Se a sua mãe aprendeu a viver, desejo muito que também lho tenha ensinado, a si. É que é isso que sustém o mundo, que semeia a confiança e prepara o coração de qualquer ser humano para o essencial, i.e., para acolher e irradiar o amor de Deus.
Posso dar-lhe um conselho, caro Rui Jardim? Conheça as mulheres, aprenda a amá-las e será um homem mais completo!
Ester

Anónimo disse...


Que enjoo de conversa, bolas!

Rui jardim

Anónimo disse...

Lamento muito. Por si, caro Rui Jardim, por tantos enjoos, nojos...
Ester

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