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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Bento Domingues: "Lutero não passou por Portugal"


Bento Domingues escreveu no “Público” de ontem que “Lutero não passou por Portugal”. Primeira frase do texto. Grande síntese que, em cinco palavras, diz muito sobre a religião, o poder, a Bíblia e a liberdade em Portugal. Mas o que me deixou curioso foi a frase seguinte: “Na revista Brotéria, de Outubro, tentei explicar por que lhe negaram o passaporte”.

Vou procurar ler a Brotéria de outubro. Quero ver como o dominicano justifica o facto de os dominicanos terem sido a principal peça, por vontade própria ou a mando de outros, da engrenagem que negou o passaporte a Lutero.

domingo, 19 de março de 2017

Jesus Cristo fez muitas curas e até andou sobre as águas do mar, mas não deixou a receita

Bento Domingues escreve no Público de hoje um útil texto sobre a oração. E o antiexibicionismo de Jesus. E diz lá mais para o fim:


Jesus Cristo fez muitas curas e até andou sobre as águas do mar, mas não deixou a receita. Os seus gestos dizem que o mundo não tem de ser uma desgraça, mas somos nós os encarregados de cuidar da casa comum, habitável e bela.

domingo, 15 de novembro de 2015

O fim da papolatria?

Dizem-me que a papolatria, que denunciei várias vezes nestas crónicas, morreu.

Bento Domingues na crónica de hoje. Mas penso que, na realidade, a papolatria não morreu. Um certo tipo de papolatria morreu. Outro apenas adormeceu. Mas também há papolatria em relação a Francisco.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Bento Domingues: "Um milénio entre a excomunhão e a bênção"

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:

1. Segundo a cronologia, devia ter deixado para hoje o que escrevi no Domingo passado. Mas assim é melhor. Vamos, então, à fonte donde nasceram as questões que os jornalistas levantaram ao Papa, no voo de regresso da Turquia.

Foi uma peregrinação que durou três dias cheios de acontecimentos, cuja significação profunda e decisiva para o futuro passou quase despercebida. Começo pelo contraste complementar entre as declarações fervorosas sobre o Islão – a não confundir com as organizações que o invocam para matar em nome de Deus - e o apelo veemente aos dirigentes religiosos e políticos muçulmanos para que se unam na denúncia clara e pública desses crimes e ameaças.

 A Turquia é a fronteira de muitas fronteiras políticas, religiosas e cristãs. Bergoglio não foi lá dar lições a ninguém. Foi encorajar os que procuram caminhos de paz no Medio Oriente, intensificar o diálogo inter-religioso e revigorar a proximidade católica com o mundo cristão da Ortodoxia.

Era conduzido pelo desejo de congregar as energias de todas as pessoas de boa vontade, daquelas que vêem o mundo a partir do rosto das vítimas da violência, dos pobres e dos excluídos e que não aceitam esta vergonha como uma fatalidade.

2. Depois de se referir ao horror da islamofobia, da cristianofobia e de realçar a importância do diálogo inter-religioso, ele próprio explicou a alma da sua viagem: Eu fui à Turquia e fui como peregrino, não como turista. De facto, o que me levou, o motivo principal, foi a festa de hoje: fui precisamente para a partilhar com o Patriarca Bartolomeu; foi um motivo religioso. Depois, quando fui à Mesquita, não podia dizer: "Não! Agora sou turista!" Isto não; era tudo religioso. E vi aquela maravilha! O mufti explicava-me bem as coisas, com tanta serenidade e mesmo com o Alcorão, onde se falava de Maria e de João Baptista, explicava-me tudo... Naquele momento, senti necessidade de rezar. E disse: "Rezamos um bocado?" "Sim, sim!" – disse ele. E rezei… pela Turquia, pela paz, pelo mufti... por todos... por mim, que bem preciso... Rezei verdadeiramente. E, sobretudo, rezei pela paz. Disse: "Senhor, acabemos com a guerra!" Assim mesmo. Foi um momento de oração sincera.

3. Ao participar na Oração Ecuménica, na Sede do Patriarcado Ortodoxo, no dia da festa de Santo André, fez e disse algo, que irritou os fanáticos da superioridade católica e à qual as outras igrejas se deveriam render: “(...) André e Pedro eram irmãos de sangue, mas o encontro com Cristo transformou-os em irmãos na fé e na caridade. E nesta noite jubilosa, nesta oração de vigília, quero, sobretudo, dizer: irmãos na esperança.

Que grande graça, diz Francisco a Bartolomeu, poder ser irmãos na esperança do Senhor Ressuscitado! Que grande graça – e que grande responsabilidade – poder caminhar juntos nesta esperança, sustentados pela intercessão dos Santos irmãos Apóstolos, André e Pedro! Saber que esta esperança comum não desilude: está fundada - não sobre nós e as nossas pobres forças – mas sobre a fidelidade de Deus.

Com esta jubilosa esperança, transbordante de gratidão e trepidante expectativa, formulo a Vossa Santidade, a todos os presentes e à Igreja de Constantinopla os meus votos cordiais e fraternos pela festa do Santo Patrono. E peço um favor: de nos abençoar, a mim e à Igreja de Roma.

Um milénio entre este pedido de bênção e o envio de uma excomunhão papal!

Com este espírito, não era difícil que, no final da Divina Liturgia, de Domingo, o Patriarca Bartolomeu e o Papa assinassem uma Declaração Comum de empenhamento em superar os obstáculos que dividem estas Igrejas.

Não é uma Declaração para servir as respectivas “sacristias”, mas para colocar as duas Igrejas no horizonte das suas responsabilidades no mundo, escutando as suas vozes: a voz dos pobres, que pedem uma ajuda material necessária em muitas circunstâncias, mas sobretudo que os ajudemos a defender a sua dignidade de pessoas humanas e a lutar contra as causas estruturais da pobreza; a voz das vítimas dos conflitos, em diversas partes do mundo - conflitos, muitas vezes entre grupos religiosos; a voz dos jovens, que vivem sem esperança, dominados pelo desânimo e resignação e que vão buscar a alegria apenas à posse de bens materiais e na satisfação das emoções do momento. Devemos encorajar as multidões de jovens, ortodoxos, católicos e protestantes, que se reúnem em Taizé, apressando o momento da unidade de todos.

Na Catedral Católica, o Papa sublinhou a nossa permanente tentação de resistir ao Espírito Santo, porque ele perturba, revolve, faz caminhar e incita a Igreja a avançar. É sempre mais fácil e confortável acomodarmo-nos nas posições estáticas e inalteradas. Na realidade, a Igreja mostra-se fiel ao Espírito Santo, quando desiste de o regular e domesticar e afasta a tentação de só olhar para si própria. Nós, cristãos, tornamo-nos autênticos discípulos missionários, capazes de interpelar as consciências, se abandonarmos um estilo defensivo para nos deixamos conduzir pelo Espírito. Ele é frescura, criatividade, novidade.

O diagnóstico das 15 doenças do Vaticano só pode vir de quem se incomoda e não se acomoda. Bom Ano!

domingo, 21 de dezembro de 2014

Bento Domingues: Quantos Cristos ressuscitaram? (1)


1. Nas crónicas de Natal, durante vários anos, preocupei-me, com questões de ordem histórica e teológica, levantadas pelo género literário dos chamados “Evangelhos da Infância”. Esses belos tecidos simbólicos, anunciando o reinado do Espirito de Cristo – recusa do mundo de senhores e escravos – são mal servidos por uma leitura estéril de biologia milagrosa.

Este ano, opto pela peregrinação ecuménica do Papa Francisco à Turquia, fundamental para o renascimento das Igrejas. Selecciono, apenas, duas respostas descontraídas a perguntas dos jornalistas, no voo de regresso [1]. Voltarei, em breve, a outros aspectos.

O Papa Bergoglio tinha afirmado que, para chegar à suspirada plenitude da unidade, “a Igreja católica não tem intenção de impor qualquer exigência”. Daí a questão: “estaria a referir-se ao Primado (do Bispo de Roma)?

Resposta: A questão do Primado não é uma exigência; é um acordo porque também os ortodoxos o desejam. É um acordo para encontrar uma modalidade que seja mais conforme com a dos primeiros séculos. Li, uma vez, algo que me fez pensar – um parêntesis – aquilo que sinto de mais profundo acerca deste caminho da unidade está na homilia que fiz, ontem, sobre o Espírito Santo. Li, com efeito, que só o caminho do Espírito Santo é caminho certo, porque Ele é surpresa. Ele mostrar-nos-á onde está o ponto decisivo. Ele é criativo…

Talvez isto seja uma autocrítica, mas corresponde, mais ou menos, ao que eu disse nas congregações gerais, antes do Conclave, o problema está no seguinte: a Igreja tem o defeito, o hábito pecador, de olhar demasiado para si mesma, como se imaginasse que possui luz própria. Mas, como sabem, a Igreja não tem luz própria. Deve voltar-se para Jesus Cristo!

À Igreja, os primeiros Padres chamavam-lhe mysterium lunae, o mistério da lua, porquê? Porque dá luz, mas não tem luz própria; é a que lhe vem do sol. E, quando a Igreja olha demasiado para si mesma, aparecem as divisões. Foi o que sucedeu depois do primeiro milénio. Hoje, à mesa, falávamos do momento, de uma terra – não me lembro qual – em que um cardeal foi comunicar a excomunhão do Papa ao Patriarca (ortodoxo). Naquele momento, a Igreja olhou para si mesma; não estava voltada para Cristo. Creio que todos estes problemas que surgem entre nós, entre os cristãos – falo pelo menos da nossa Igreja católica – surgem quando ela olha para si mesma: torna-se auto-referencial.

Hoje, Bartolomeu usou uma palavra, não foi "auto-referencial", mas era muito semelhante, uma palavra muito bela… Agora não me recordo, mas era muito bela, muito bela [o termo na versão italiana é introversão].

Eles aceitam o Primado [do Bispo de Roma]. Hoje, na Ladainha, rezaram pelo "Pastor e Primaz". Como diziam? "Aquele que preside…". Reconhecem-no; disseram-no, hoje, na minha frente. Mas, quanto à forma do Primado temos de ir um pouco ao primeiro milénio para nos inspirarmos. Eu não digo que a Igreja errou, não. Percorreu a sua estrada histórica. Mas, agora, a estrada histórica da Igreja é aquela que pediu João Paulo II: "Ajudai-me a encontrar um ponto de acordo à luz do primeiro milénio".

Este é o ponto-chave. Quando se fixa em si mesma, a Igreja renuncia a ser Igreja para ser uma ONG teológica.

2. Uma jornalista interpelou-o “acerca da histórica inclinação” que ontem o Papa Francisco tinha feito diante do Patriarca de Constantinopla: como pensa agora enfrentar a crítica de quem talvez não entenda estes gestos de abertura?

Resposta: Atrevo-me a dizer que não se trata de um problema só nosso; é também um problema dos ortodoxos. Eles têm o problema de alguns monges, de alguns mosteiros que estão nessa estrada. Por exemplo, há um problema que se discute desde os tempos de Paulo VI: é a data da Páscoa. E não nos pomos de acordo! Mas porquê? Porque, se a fizéssemos na data da primeira lua depois do 14 de Nisan, com o avanço dos anos, correríamos o risco – os nossos bisnetos – de ter de a celebrar em Agosto. E devemos procurar… Paulo VI propôs uma data fixa concordada, um domingo de Abril.

3. Bartolomeu foi corajoso, sublinhou o Papa. Por exemplo, em dois casos, recordo um, mas há outro. Na Finlândia, ele disse à pequena comunidade ortodoxa: festejai a Páscoa com os luteranos, na data dos luteranos, para que num país de minoria cristã não haja duas Páscoas. E o mesmo problema vivem os orientais católicos. Ouvi esta, uma vez, à mesa, na Via della Scrofa: preparava-se a Páscoa na Igreja católica e estava presente um oriental católico que dizia: "Ah, não! O nosso Cristo ressuscita um mês mais tarde! O teu Cristo ressuscita hoje?" O outro observou: O teu Cristo é o meu Cristo.

A data da Páscoa é importante. Há resistência a isto por parte deles e nossa. Quanto a estes grupos conservadores, devemos ser respeitosos, sem nos cansarmos de explicar, catequizar, dialogar, sem insultar, sem os denegrir nem criticar porque tu não podes arrumar uma pessoa dizendo: "este é um conservador". Não. Este é tão filho de Deus como eu. Mas convidemo-lo: vem cá, falemos! Se não quer falar é um problema dele, mas eu respeito-o. Paciência, mansidão e diálogo.

Boas festas.

[1] Cf. Seguirei, de perto, a narrativa do L’Osservatore Romano, 04.12.2014

domingo, 9 de novembro de 2014

“Senhor, ilumina-o ou elimina-o”

Conheço a oração, “Senhor, ilumina-o ou elimina-o”, as acusações de ser “comunista” e de usar os métodos do “prec” na reforma da cúria, de abusar da noção de hierarquia das verdades e de estar a perder, por palavras, gestos e atitudes, a tradicional dignidade de um “verdadeiro” Santo Padre. Há quem discuta a legitimidade da sua eleição e não só.

Bento Domingues
Público, 09-11-2014

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A prova da catolicidade de Bento Domingues

De vez em quando dizem cá pelos lados do blogue que Bento Domingues é pouco católico, tal como este blogue (Jacob é judeu, ainda não repararam?). Pois esta foto saída na "Sábado", há semanas, mostra que o dominicano é profundamente católico. Está aqui toda a exuberância e universalidade do catolicismo. Nada de puritanismo, calvinismo, jansenismo. Desarrumação imensamente católica.


domingo, 14 de setembro de 2014

Bento Dominguues: "O desterro da teologia"

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje,

Se a teologia foi “desterrada” da cultura moderna é por ter sido considerada inimiga da razão, da filosofia e de todos os modos de criatividade humana. Nas Igrejas, ao ser instrumentalizada pelo poder eclesiástico, perdeu o carácter de instância da liberdade da fé e das suas expressões mais genuínas. O autoritarismo desvirtuou a sua função na Igreja e tornou-a incapaz de dialogar com a sociedade, de a fecundar e ser fecundada por ela.

terça-feira, 4 de março de 2014

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Bento Domingues: "Código genético (3)"

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem:


1. Os seres humanos só podem viver como humanos acolhendo, criando e recriando, desconstruindo e reconstruindo as narrativas simbólicas da sua condição inacabada. Apesar de todas as máquinas de desumanização, nunca esgotaremos a música, a poesia, a literatura, a pintura, a beleza das civilizações antigas e modernas.

É próprio da linguagem simbólica viver em figurações materiais, finitas, historicamente marcadas, em passagem permanente ao intemporal, ao infinito, superando-se na sua própria configuração concreta, limitada. A religião e as artes vivem do mesmo fundo de intranquilidade. Apesar de todas as tensões, têm, no impulso de transcendência, uma alma comum, que só morre ou se eclipsa quando instrumentalizada.

 Como escreveu Fernando Pessoa, a literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Mas também não a pode substituir.

“A vida é breve, a morte é certa”, gritava durante toda a Quaresma, um ancião, meu vizinho. A religião é a revolta contra os limites, a simbólica da absoluta transcendência, a voz do impossível. A morte não é remédio para a falta de vida. Diz apenas que o nosso exílio teve mais ou menos lágrimas. Morremos inacabados. O silêncio de Deus na cruz de Cristo é a sua linguagem, perante as diabólicas tentações messiânicas. Ao entregar o seu espírito nas mãos do Pai, Jesus recebe o Espírito da ressurreição, a fonte de uma Igreja sem fronteiras que O poderá reconhecer na diversidade das culturas, pois é Ele que sempre a precede.

2. O código genético do Cristianismo, na sua nascente e nas suas configurações históricas, brota do monoteísmo trinitário que as religiões do Livro – Judaísmo e Islão - consideram impuro e ao qual não pode renunciar sem cair no deus abstracto do deísmo, da metafísica das Luzes e que infeccionou a catequese e a pregação do séc. XIX.

No Vaticano II, D. Hakim, bispo grego-melquita de Akka, denunciou os esquemas da teologia latina, por ignorarem a catequese e a teologia orientais de Cirilo de Jerusalém, de Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa, de Máximo Confessor e de João Crisóstomo. Com a mesma preocupação, na Assembleia Geral do Conselho Mundial das Igrejas, em Upsala (1968), o notável bispo I. Hazim (1920-2012), mais tarde Patriarca de Antioquia, fez uma intervenção inesquecível.

“Eis a novidade: a ressurreição de Jesus Cristo, o mistério pascal,  não se explica pelo passado, mas pelo futuro.

Deus vem ao mundo, ao seu encontro; está diante de nós e chama, sacode, faz crescer, liberta. Qualquer outro deus é um falso deus, um ídolo. Está na hora de a nossa consciência moderna o enterrar. Esse deus multiforme, que habita na velha consciência do ser humano, está como que por trás do ser humano, como uma causa. Manda, organiza, faz regredir, aliena. Nada tem de profético, pelo contrário, vem sempre depois como a única razão do inexplicável, ou como o último recurso dos irresponsáveis. Esse falso transcendente é tão velho como a própria morte.

A novidade criadora vem ao mundo com o mundo. Essa novidade não se inventa nem se prova, revela-se, mostra-se. Diante dela, ou se diz sim ou se diz não. Vem como um acontecimento.

Esta é a acção do Espírito Santo que introduz a novidade no mundo. Sem Ele, Deus fica longe; Cristo habita no passado; o Evangelho não passa de letra morta; a Igreja não seria mais do que mera organização; a autoridade, dominação; a missão, propaganda; o culto, evocação mágica e todo o agir cristão, pura moral de escravos”.

Este cristão, mostrou que o seu discurso não era retórica vazia. Depois da sua eleição como patriarca, disse o que gostaríamos de ouvir a toda a hierarquia: "Serei julgado se não levar a Igreja e cada um de vós no meu coração. Não me é possível falar convosco como se fosse diferente de vós. Nenhuma diferença nos separa. Sou uma parte de vós; estou em vós e peço-vos que estejais em mim. Pois o Senhor vem e o Espírito desce sobre os irmãos reunidos, unidos em comunhão, manifestando uma diversidade de carismas na unidade do Espírito."

3. Depois do Vat. II, a teologia latina revisitou a teologia oriental. Passou a respirar, simbolicamente, com dois pulmões. Leonardo Boff, no contexto da teologia da libertação, tentou repensar o mistério sacrossanto da Trindade, que sempre o tinha desafiado. Publicou várias obras para responder a esta questão: se Deus não é a solidão do Uno, ao revelar-se e entregar-se como comunidade, quais as consequências para entender a nossa história una e plural?

Não lhe bastou afirmar que Deus era a melhor comunidade. Foi mais longe: Não há nenhuma razão teológica que nos obrigue a parar na encarnação do Filho. Sustentei a tese que o Pai se personalizou em São José, o Filho se encarnou em Jesus e o Espírito Santo se espiritualizou em Maria. Assim temos a família divina inteiramente presente na família humana.

As reticências que estas Josefologia e Mariologia suscitam, obrigam a continuar a investigação: afinal, que implicações espirituais tem a fé na misteriosa trindade de Deus, na transformação da nossa vida na Igreja e na sociedade?

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Bento Domingues: "Código genético (2)"

Texto de Bento Domingues no "Público" do último domingo (aqui):


1. Nada é inocente, nada está irremediavelmente perdido, tudo precisa de nascer de novo, a começar pelas palavras da fé cristã e dos seus rituais. A dignidade essencial do ser humano manifesta-se, precisamente, na capacidade de se interrogar, de se corrigir, de mudar de rumo, de não se conformar com o mundo tal como se apresenta. A história do cristianismo está carregada de ambiguidades, de equívocos, de pecados, mas a conversão faz parte do seu caminho de reencontro com o seu “código genético”.

É legítimo dizer, ainda que de modo esquemático, que o cristianismo foi-se afirmando face à cultura e à religiosidade antigas, seguindo um duplo caminho, nem sempre linear, como afirma Isidro Lamelas. Em relação ao judaísmo, rompeu com as práticas rituais e prescrições legais impostas pela religião da Lei, mas não deixou de assimilar muitos dos seus hábitos litúrgicos e cultuais. A prioridade da fé sobre as obras, pelo menos na perspectiva de S. Paulo, implicava, segundo uns, uma ruptura total com a religião de Moisés, enquanto outros preferiam sublinhar a continuidade entre a fé de Abraão e a nova fé em Cristo. No extremo da primeira tendência, temos Marcião e os seus seguidores; no outro extremo, encontramos o judeo-cristianismo persistente, em muitas versões.

No respeitante ao mundo pagão, também foi duplo o critério seguido. Por um lado, foram rejeitadas as suas práticas e convicções religiosas, na medida em que não eram compagináveis com a revelação bíblica. Por isso, os primeiros cristãos foram acusados de ateísmo. Por outro lado, foi assumida a natural religiosidade pagã como preparação para acolher a “verdadeira religião”, identificada com o cristianismo. Enquanto, porém, no paganismo a religião se resume ao culto que, por sua vez, não se distinguia da cultura (vida social e política), no cristianismo, a fé precede o culto, sem se confundir com nenhum tipo de cultura ou sistema religioso (1).

2. O duro e persistente conflito que opôs o cristianismo ao judaísmo e ao paganismo explica-se pela clara destrinça que Jesus Cristo e a sua herança vieram estabelecer entre fé e religião.

A fé cristã não assenta, de facto, nem num Livro sagrado nem na observância da Lei e na reverência ao “Deus dos Pais”, dos antepassados. A sua referência existencial é a experiência do encontro com Jesus real reconhecido como Cristo, Filho de Deus (Abba) e que partilha connosco o seu Espírito de amor filial ( Rom. 8, 14-17).         

Como lembrei no Domingo passado, é num credo trinitário que renascem, por uma radical transformação espiritual, os que acedem ao Baptismo cristão: ”Eu te baptizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Essa invocação é tão decisiva que, no começo da Eucaristia, é sempre com ela que marcamos o nosso corpo celebrante. O desejo de quem preside à Eucaristia retoma as palavras de Paulo (2Cor.13,13): A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco!

Compreende-se que para o Judaísmo e para o Islão, o Cristianismo continue a ser considerado uma religião politeísta ou, pelo menos, um monoteísmo impuro. No cristianismo de rito latino, tirando a atracção que a fé trinitária exerce em algumas correntes místicas, não vai muito além de uma misteriosa fórmula abstracta, de uma matemática estranha, sem influência real, concretizada apenas no nome ligado a algumas pessoas, igrejas ou hospitais. A rede de subtilezas dos teólogos parece o fruto de uma ociosidade mal empregue. O grande filósofo da modernidade, I. Kant, confessava a inutilidade religiosa e ética do dogma da Trindade.

3. Resta portanto a questão de fundo: adianta ou não a fé trinitária das igrejas cristãs implicada na Incarnação do Verbo? Sem ela que perdem os cristãos, as igrejas e a sociedade? Será mesmo assim tão essencial para viver e entender o sentido da vida?

Segundo o filósofo, teólogo e politólogo dominicano, Paul Blanquart (2),a simbólica trinitária é um modelo social e uma forma de pensar e repensar o mundo e a sociedade. É o modelo da perfeita democracia: na indestrutível unidade de Deus, as pessoas são todas iguais, todas activas, todas diferentes, sem subordinação e em comunhão. É a existência simultânea do uno e do múltiplo.

Se o ser humano, no mundo, é criado à imagem de Deus, não é indiferente que esse Deus seja pura solidão ou uma comunhão de pessoas. Na experiência humana, se insistimos apenas na unidade, esquecendo as diferenças, temos uma unidade vazia. Se, pelo contrário, insistirmos nas diferenças, pomos em causa a igualdade. A simbólica trinitária serve para, no plano mental e na realidade social, promover a máxima unidade na máxima diversidade. Se nesse modelo, não existe a subordinação das pessoas, também não existe a vontade de poder de umas sobre as outras, existe a alegria da comunhão nas diferenças.

Não é por acaso que Paulo, nas suas cartas, é pela unidade da Igreja na multiplicidade de carismas. Não existe nenhum carisma para abafar os outros.

Não podemos deixar de ouvir a voz de Leonardo Boff, que entende a Trindade como a melhor comunidade. Fica para a próxima.


1)Sim, Cremos. O credo comentado pelos Padres da Igreja, UCP, 2013


2) Paul Blanquart, Une Histoire de La Ville, Découverte, 2005


Ler "Código genético (1)" aqui.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...