sábado, 30 de junho de 2012

Imagens de Jesus por todo o lado... onde há manchas



Num takeway de comida  chinesa, em Sunderland, Inglaterra, viram o rosto de Jesus (aqui). Mais um. O rosto do homem de barbas e cabelos compridos é um rosto verdadeiramente universal. Encontram-no nas manchas de uma parede, numa tosta, num cão, numa radiografia aos pulmões, no fundo de uma frigideira. Haja imaginação (fotogaleria aqui).

Teologia da catástrofe?

A fidelidade não significa rigidez e carência de vitalidade, porque só pode apreender-se no movimento recíproco de esperança e confiança. A confiança real na história, em virtude da fidelidade de Deus, proíbe toda a teologia e todo o sentimento de catástrofe que se limita a afirmar a total decadência da Igreja, nos tempos de hoje, só porque há muitas coisas em curso de mudança.


Walter Kasper, "Introdução à fé", pág. 162-3

Anselmo Borges; A caminho do Vaticano III?

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (tirado daqui).

Juan José Tamayo

Durante esta semana, em Santander, na UIMP (Universidade Internacional Menéndez Pelayo), realizou-se um Curso de Verão sobre os 50 anos do Concílio Vaticano II (1962-1965). A direcção pertenceu ao teólogo Juan José Tamayo.

O Concílio foi um enorme acontecimento. Sem ele, é inimaginável a situação da Igreja Católica e, consequentemente, dada a sua influência no mundo, também do próprio mundo. Como sublinhou Tamayo, operaram-se grandes transformações:

De uma Igreja que se considerava uma sociedade perfeita passou-se à Igreja como comunidade de crentes. Do mundo como inimigo da alma ao mundo como lugar da vivência da fé. Da condenação da modernidade e das religiões não cristãs ao diálogo multilateral. Da condenação dos direitos humanos ao seu reconhecimento e proclamação. Da condenação da secularização à sua defesa, no sentido do reconhecimento da autonomia das realidades temporais. Da Igreja imutável e imóvel à Igreja que deve estar em constante reforma. Do integrismo católico ao respeito pelas outras crenças. Do autoritarismo centralizado em Roma à colegialidade episcopal. Da Cristandade ao cristianismo. Da pertença à Igreja como condição necessária para a salvação à liberdade religiosa como direito humano fundamental. De uma Igreja europeia a uma Igreja verdadeiramente universal.

Houve limites? Alguns, maiores: apesar de certa abertura ao mundo, o seu carácter eurocêntrico - o horizonte de compreensão foi a modernidade europeia e, nesse quadro, a problemática da crise de Deus no mundo ocidental e o fenómeno da descrença -, e a não centralidade da opção pelos pobres, não se dando a devida atenção às maiorias populares do Terceiro Mundo. O Ocidente acabou por ser o destinatário principal do Concílio. Depois, o antropocentrismo exacerbado fez com que a problemática da ecologia fosse ignorada.

Alguns temas foram silenciados. O Papa Paulo VI impediu que o tema do celibato dos padres fosse debatido - mais tarde, num Sínodo Episcopal, submeteu-o a votação, mas a maioria dos bispos opôs-se. O lugar das mulheres na Igreja e, concretamente, a sua ordenação, bem como o controlo da natalidade, foram arredados do debate.

No dizer de Tamayo, "o Concílio foi uma curta Primavera a que se seguiu um longo Inverno, que dura há mais de 40 anos". Perante os excessos de então, Paulo VI, que tinha convictamente levado a termo o Concílio, mas que era um intelectual hesitante, teve receio e começou a pôr algum travão, numa história de avanços e recuos. Depois, já com João Paulo II, avançou a involução e pôs-se em marcha "um programa calculado de restauração". Acentuou-se o carácter hierárquico-papal da Igreja, limitou-se a liberdade de investigação teológica, muitos teólogos foram condenados, passou-se do pensamento crítico ao pensamento único e dogmático, a Cúria readquiriu poder, os bispos conciliares foram sendo substituídos por bispos fiéis ao neoconservadorismo e ao Vaticano.

Com Bento XVI, que constituiu uma surpresa pela sua humanidade, por medidas fortes contra o clero pedófilo, pela admiração por parte dos intelectuais, o caminho da involução continua: aí estão a restauração da Missa em latim, as negociações com os lefebvrianos, a condenação de teólogos, a centralização.

Perante a grave crise que atravessa hoje a Igreja, muitos reclamam um novo Concílio: um Vaticano III, convocado por um João XXIV. Mas há quem, para lá de outras objecções, lembre a questão financeira: um novo Concílio seria demasiado caro.

Pergunta-se, então, se não deveria dar-se, pelo menos, a convocação dos Presidentes de todas as Conferências Episcopais do mundo - há quem, com razão, questione a utilidade do cardinalato -, para resolver problemas urgentes: os escândalos no Vaticano, a questão do celibato, o lugar da mulher na Igreja, reformas das estruturas eclesiásticas, maior descentralização, uma linguagem nova para a expressão da fé, questões novas postas pela globalização e pelas novas tecnologias, tanto no domínio da comunicação como no da vida.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Luz e fraquezas do papado

Bento XVI entrega o pálio a D. Chaput, de Filadélfia (o bispo que conduziu o processo - apressado, dizem - contra o bispo australiano defensor da ordenação de homens casados, entre outros aspetos; sobre o australiano D. William Morris, ler aqui e aqui). Foto tirada da Ecclesia

Bento XVI disse hoje, numa cerimónia com os arcebispos metropolitas nomeados no último ano, que a história do próprio Papado é um “drama”, caracterizada por “dois elementos”: a “luz e força que provêm do Alto” e “a fraqueza dos homens”.

O Papa interpreta um trecho do Evangelho de Mateus em que num primeiro momento Jesus diz que Simão é rocha, pedra (daí o Pedro), “fundamento visível sobre o qual está construído todo o edifício espiritual da Igreja” (explica o Papa), e noutro diz que é Satanás (“Vai-te daqui, Satanás! Tu és para Mim uma ocasião de escândalo...» (16, 23).
O discípulo que, por dom de Deus, pode tornar-se uma rocha firme, surge aqui como ele é na sua fraqueza humana: uma pedra na estrada, uma pedra onde se pode tropeçar (em grego, skandalon). Por aqui, se vê claramente a tensão que existe entre o dom que provém do Senhor e as capacidades humanas; e aparece de alguma forma antecipado, nesta cena de Jesus com Simão Pedro, o drama da história do próprio Papado, caracterizada precisamente pela presença conjunta destes dois elementos: graças à luz e força que provêm do Alto, o Papado constitui o fundamento da Igreja peregrina no tempo, mas, ao longo dos séculos assoma também a fraqueza dos homens, que só a abertura à ação de Deus pode transformar.
Diz também o Papa que “a Igreja não é uma comunidade de seres perfeitos, mas de pecadores que se devem reconhecer necessitados do amor de Deus, necessitados de ser purificados através da Cruz de Jesus Cristo”.

Fica assim patente que alguns defensores do papado e da sua história são mais papistas do que Papa, já que Bento XVI reconhece fraquezas.


Porém, depois do reconhecimento de tanta fraqueza humana, como não admitir que nos unem mais as fragilidades do que os méritos? Como não sublinhar mais o perdão e a misericórdia (divinas) do que os méritos, as dignidades as distinções (humanas)?


Afirmações beneditinas retiradas daqui.

Quem escreveu isto? (9)

Os dogmas podem perfeitamente ser unilaterais, superficiais, autoritários, obscuros e precipitados.


a) Um perigoso relativista, com certeza.
b) Joseph Ratzinger?! Não acredito.
c) Hans Kung, para a seguir dar mais uma ferroada na infalibilidade.
d) Walter Kasper. E chegou a cardeal?


Resposta: d) Walter Kasper, na página 160 de "Introdução à fé" (ed. Telos, Porto, 1973). Ele acrescenta que "os dogmas submetem-se à historicidade de toda a linguagem humana e só são concretamente verdadeiros em relação ao contexto correspondente", como, aliás, já foi citado neste blogue.

Dignidade e dor na última coluna do Cardeal Martini


“Chegou o momento em que a idade e a doença me dão um claro sinal de que é o momento de me retirar mais das coisas da terra para me preparar para o próximo advento do Reino”.

O cardeal Carlo Maria Martini, arcebispo emérito de Milão, assinou pela última vez a sua coluna semanal no jornal “Corriere della Sera” (24 de junho). Vale a pena ler na íntegra (tirei daqui).

Desejo iniciar esta última página da coluna, confiada há mim há alguns anos, agradecendo a todos aqueles que me escreveram nesses anos. Recebi milhares de cartas de afeto, de gratidão, de estímulo e de crítica.
Peço perdão àqueles a quem não consegui responder e àqueles que, mesmo tendo recebido uma indicação de resposta, a consideraram pouco ou nada exaustiva. Agradeço ao diretor do "Corriere della Sera" que me concedeu um longo tempo de diálogo, apesar do enfraquecimento da voz. Agradeço também a todos os seus colaboradores. Um obrigado de coração também aos meus sucessores na Cátedra de Ambrósio pela paciência demonstrada, apesar da minha intervenção mensal.
Agora chegou o momento em que a idade e a doença me dão um claro sinal de que é o momento de me retirar mais das coisas da terra para me preparar para o próximo advento do Reino. Asseguro a minha oração para todas as perguntas que permaneceram sem resposta. Que Jesus possa responder às questões mais profundas do coração de cada um.
A maior dor: perder um filho criança
Caro cardeal Martini, segunda-feira, 2 de abril de 2012, perdi o meu filho de 10 anos. Peço humildemente ao senhor uma palavra de conforto e o caminho a seguir, para que, de algum modo, eu volte a viver. Mas como se fez, Eminência, para crer em Jesus? Peço-lhe, Eminência, ajude-me, o senhor é um homem especial (Francesco Rizzo).
Caro Francesco, não há palavras verdadeiras de conforto diante de uma dor tão grande, talvez a maior dor para um ser humano. Eu também não sei lhe indicar caminhos precisos. Posso lhe dizer que rezo por você, para que seja Jesus, o Filho, que lhe indique o caminho. Mas certamente não será logo, porque dores tão fortes tiram a força, a visão, a audição e ferem até a nossa força fundamental que é a coragem de enfrentar qualquer acontecimento.

Filha

"Al fin muero hija de la iglesia"


Últimas - e surpreendentes - palavras de Teresa de Ávila (1515-1582), hoje escritas numa das paredes do convento de Ávila. Dizem que o sentido é mais ou menos este: "Pelo menos não conseguiram expulsar-me da Igreja".

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Não ponhamos limites à Divina Providência



Um bispo cumprimenta Leão XII, já bastante debilitado:
- Santidade, desejo-lhe que chegue até aos cem anos.
O Papa respondeu-lhe:
- Cem anos? Por favor, não ponhamos limites à Divina Providência.

Leão XIII teve um dos maiores pontificados, 25 anos, e morreu com 93 anos, em 1903 (João Paulo II esteve mais dois anos na Cadeira de Pedro, mas pouco antes dos 85 anos).

Dogma e verdade

Todo o dogma olha uma verdade sob um aspeto predominantes, e na maior parte das vezes, numa delimitação de tom negativo e polémico. Não pretende nem pode dizer tudo o que, sob o ponto de vista teológico, pode e deve dizer-se acerca da questão abordada. Em última análise, a verdade jamais permite expressar-se numa única proposição.


Walter Kasper, "Introdução à fé", pág. 161

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O próximo inquisidor?



Gerhard Ludwig Müller

“Rumores muito confiáveis”, diz Marco Tosatti, no “Vatican Insider”, o sítio vaticanista do “La Stampa”, dizem que o cardeal William Levada vai deixar a Congregação para a Doutrina da Fé, talvez na próxima sexta-feira (dia de São Pedro e São Paulo, um dia ótimo para nomear que vigia pela ortodoxia da fé, já que Pedro e Paulo motivaram a primeira monumental discussão teológico-gastronómica do cristianismo – isto acrescento eu).

O lugar que já foi de Joseph Ratzinger, diz o mesmo Tosatti, deverá ser ocupado por um ratzingeriano. Quer dizer, talvez não seja bem um ratzingeriano, pelos motivos à frente apontados, mas alguém ligado a um sítio onde Ratzinger foi muito feliz, durante anos, e, na minha opinião, inconsciente, durante momentos.

Gerhard Ludwig Müller, bispo de Regensburg (ou Ratisbona) é o provável sucessor de Levada (norte-americano de ascendência açoriana). Ratzinger foi professor em Regensburg, durante anos, e, é impossível esquecer, foi na universidade desta terra que proferiu, já como Papa, o discurso que inflamou a rua muçulmana. Digo que foi um momento inconsciente porque no meio daquele discurso belíssimo e com teses muito fortes sobre as liberdades de investigação e religiosa (“não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus”) e a marca helénica da teologia cristã (“a recíproca aproximação interior… entre a fé bíblica e a indagação a nível filosófico do pensamento grego é um elemento de importância decisiva sob o ponto de vista não só da história das religiões, mas também da história universal – um dado a que estamos obrigados ainda hoje”), as referências ao Islão, além de me parecerem forçadas, eram suscetíveis de provocar a fúria muçulmana. Não sei se alguém terá lido previamente o discurso papal, mas se o leram, esqueceram-se da palavra mais ouvida nos corredores eclesiásticos: “Prudência”. Este era um caso em que devia ter sido usada. (Eu penso que o Islão é geneticamente violento. Mas não tenho de ser diplomata, nem tenho câmaras apontadas a mim, e, claro, pouca gente liga ao que eu digo.)

Quem é Gerhard Müller?

Tosatti explica com mais um aspeto ratzingeriano:
É um homem de uma personalidade notável, que exerce uma certa influência sobre Bento XVI. Sem ser contado entre o círculo dos amigos próximos do papa, ele certamente tem uma figura significativa, do ponto de vista acadêmico, o que estabelece um vínculo. Ele também desempenhou, e desempenha, um papel de qualidade na criação e no trabalho da fundação nascida na Alemanha para cuidar e acompanhar a publicação das obras literárias de Joseph Ratzinger/Bento XVI.
E com outro aspeto pouco ratzingeriano:
Müller é um grande admirador e amigo de um dos personagens mais debatidos da Teologia da Libertação, Gustavo Gutiérrez. Sobre este e sobre a Teologia da Libertação, ele proferiu palavras muito calorosas de elogio em 2008, durante um evento público na América do Sul, em Lima, para celebrar o título de doutor honoris causa conferido a Gutiérrez pela Pontifícia Universidade do Peru, na mira da Santa Sé justamente nestas semanas. O prelado de Regensburg nunca escondeu a sua admiração pelo amigo e mestre peruano, hoje com 83 anos (li aqui, tal como a citação anterior). 
Vamos lá ver se isto se confirma. Algumas pessoas, só por causa da amizade com um teólogo da libertação, já devem estar a dar voltas na cadeira (sou eu a imaginar; não sei de nada em concreto). Lanço, então, mais um motivo para aguardar com expetativas positivas esta nomeação: a capacidade de pensar diferente deste teólogo, que tem mais de 400 publicações académicas. Diz Tosatti, mas num texto de março deste ano: 
Em seu livro Dogmatica Cattolica [Müller ] oferece uma imagem da virgindade de Maria que não se relaciona com “as características fisiológicas do processo natural do nascimento de Jesus, mas com o influxo de salvação e de redenção da graça de Cristo para a natureza humana”. 
 Em outro livro, ao tratar do tema da transubstanciação, desaconselha o uso do termo “corpo e sangue”, porque poderiam induzir a confusão. “Corpo e sangue de Cristo não significam as partes físicas do homem Jesus durante a sua vida ou em seu corpo glorificado. Corpo e sangue significam aqui antes uma presença de Cristo sob o signo do pão e do vinho”. E, ao falar da Dominus Jesus, o documento de Ratzinger no qual se sustenta que as comunidades eclesiais que não preservaram um episcopado válido (muitas confissões reformadas) não são igrejas, sustenta que defender esta opinião é um “mal-entendido” (aqui, num texto de março de 2012).

A confirmar-se a nomeação deste teólogo de 64 anos (nasceu no último dia de 1947), penso que podemos esperar um modo novo de entender ou pelo menos de executar o papel da Congregação para a Doutrina da Fé.

No mesmo saco, ou melhor, não encha o saco

O respeitinho é muito lindo.

Dogmas e historicidade

Os dogmas submetem-se à historicidade de toda a linguagem humana e só são concretamente verdadeiros em relação ao contexto correspondente. Necessitam repetidamente de nova exposição e de serem traduzidos em novas situações. Pouco se prova pela mera citação de um dogma; importa ainda interpretá-lo historicamente e segundo o conteúdo objetivo.


Walter Kasper, "Introdução à fé", pág. 161.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Adivinhe quem disse (8)



Quem escreveu isto?


Apesar das desilusões e dificuldades, mantenho-me fiel à Igreja Católica, a minha Igreja tão provada.


a) Hans Kung. Mas este tem de estar cá sempre?
b) Congar, após uma das muitas admoestações magisteriais
c) Um dos lefebvrianos, cada vez mais distantes de Roma
d) Leonardo Boff, mas só com muito descaramento.


Resposta: a) Hans Kung num artigo publicado no dia Corriere della Sera, no dia 20 de junho. O suíço-alemão diz que a Igreja católica tem no momento “três chagas”: a reconciliação com os lefebvrianos, o caso do IOR (“banco do Vaticano”) e o “Vatileaks”. Ler tudo aqui.

Vaticano pede maturidade afetiva e celibato a padres

No DN de hoje. A grande questão é: Onde está a novidade do título? Anteontem não era assim?  (O documento é de ontem.) Mesmo assunto, na Ag. Ecclesia, aqui. O documento ainda não está no sítio da congregação vaticana.

Fé e proposições definitivas

Sem a coragem - poder-se-ia até dizer, sem a audácia - para decisões e proposições definitivas, a fé cristã eliminar-se-ia a si mesma. Reside aqui, precisamente, a sua força e energia. Ela pode prometer e afiançar ao homem o derradeiro sentido. Uma igreja que se mostrasse incapaz de o fazer mereceria bem que ninguém mais se interessasse pela sua proclamação, degenerada em simples palavreado.


Walter Kasper, Introdução à fé, pág. 160

segunda-feira, 25 de junho de 2012

D 02 - O demónio pode possuir quem não acredita nele?

Charles Baudelaire

O debate sobre o diabo acabou. A minha investigação, não, mas o debate neste blogue, sim, porque os meus amigos pró-crença no diabo e nos demónios, ou na doutrina tradicional do diabo e dos demónios (DTDD), incluindo possessões, debandaram. É um bom sinal porque assim aproveitam melhor o tempo. Pena não me terem convidado para um exorcismo, ao contrário do que prometeu um deles.

Não chegaram a citar aquela frase de Baudelaire que diz que “a maior astúcia do diabo é fazer-nos crer que ele não existe”, até porque ela já havia sido citada neste blogue. Nem aquela de Papini que diz que “a última astúcia do diabo foi a de espalhar a notícia da sua morte”, talvez porque, segundo dizem as estatísticas, o diabo está a regressar em força, pois rege-se por vagas e tendências, e os exorcistas não têm mãos a medir em certas épocas.

Às duas frases acima há que dizer, com Jean Vernette, que cita a frase sem dizer quem é o autor, que “os demónios só esperam uma coisa, especialmente em teologia: é que os achem apaixonadamente interessantes e que os levem a sério, sistematicamente, se possível”.

Não levar a sério. Rir é o melhor remédio contra os demónios? Ou quanto mais acreditamos neles, mais eles estão presentes? E não crer neles? Não será também um remédio contra o seu poder?

Muitos dizem que o ateísmo puro, a negação radical, a “aversão pronunciada pelos valores religiosos”, é sinal da possessão demoníaca (juntamente com outros, como as levitações; infelizmente as coisas só levitam quando não há câmaras a filmar para pôr no Youtube). Mas gostava de colocar a questão ao contrário: Alguma vez alguém que não acredita no demónio foi objeto de uma possessão?

É que uma ideia perniciosa (um “demónio”) a que se dá credibilidade pode levar uma pessoa a mostrar-se “possuída” por aquilo em que acredita, deixando patentes os ditos sinais da possessão. Ouvi um exorcista todo-o-terreno contar que lida principalmente com pessoas que antes de encontrarem o demónio andavam pela superstição e em ambientes parecidos, em sítios onde não deviam estar se tivessem uma fé um pouco mais, digamos, esclarecida. Mas quem não acredita mesmo nada no demónio pode ser possuído por ele? Estarão os ateus mais bem preparados para não ceder às insídias do demónio? Serão estas questões banais?

Desmond Tutu entrevistado no "Público"

 No "Público" desta segunda-feira, uma entrevista ao arcebispo anglicano da África do Sul.



A raposa entra no Vaticano

No JN de hoje.

Capacidade do definitivo

Na liberdade humana, não existe apenas a preocupação por isto ou por aquilo, mas pelo todo, pelo incondicional, decidindo-se nela o sentido do homem e do seu mundo. (...) Podemos definir a liberdade como a capacidade do definitivo.


Walter Kasper, "Introdução à fé", pág. 159

domingo, 24 de junho de 2012

O bispo argentino


Bernard Quiriny 

Li há pouco tempo um espantoso conto, “O episcopado da Argentina”, de Bernard Quiriny. Um dos melhores contos dos últimos tempos. Bem, outros terão opinião diferente. Dei-o a ler a alguém muito chegado e essa pessoa deu nota fraquinha: “Nada de especial”.

É narrado por uma senhora que entrou ao serviço do bispo de San Julián em 1939. Fala de um bispo argentino. Não sei se existe tal diocese. Mas de certeza que não existiu o caso narrado. Poderia resumir as 14 páginas do conto em três ou quatro frases, mas estragava o prazer de potenciais interessados na narrativa. De qualquer maneira, há um aspeto que posso já adiantar: a reputação do bispo e as suas virtudes de homem de Igreja nunca estão em causa.

Perguntaram-me por que é que eu não escrevi sobre o bispo argentino. Pronto. Está feito. Escrevi sobre o bispo argentino.

O resto do livro do autor belga, mas edições Ahab, é mesmo muito bom para quem aprecia histórias entre o fantástico e o assombroso. Chama-se “Contos Carnívoros”.

Porque hoje há Domingues: O Senhor dos Desamparados

No "Público" de hoje.

Porque hoje é domingo

Cartune do recentemente falecido Mingote.

sábado, 23 de junho de 2012

Milagre e misericórdia

Entretanto, no Facebook.



Anselmo Borges: Religião para ateus

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):


Uma amiga tinha-me oferecido a tradução francesa do livro, com o título: "Pequeno guia das religiões para uso dos não crentes".

Rapidamente, apareceu também a tradução em português, seguindo o título original: "Religion for Atheists". Entretanto, o autor, Alain de Botton, passou por Lisboa, para lançar a obra, que parece ser um êxito.

Alain de Botton assume-se como ateu convicto. Mas é talvez a partir da descrença que melhor se veja os benefícios das religiões, que os ateus deveriam recuperar. Há, de facto, necessidades cruciais sempre presentes, que são a razão das religiões e para as quais a sociedade profana não mostrou capacidade de resposta eficaz: "a necessidade de viver harmoniosamente em comunidade, apesar dos nossos impulsos egoístas e violentos profundamente enraizados" e "a necessidade de enfrentar graus terríveis de sofrimento por causa da nossa vulnerabilidade perante o fracasso profissional, as dificuldades das nossas relações com as pessoas próximas, o desaparecimento dos seres queridos e a nossa própria decrepitude".

Somos particularmente vulneráveis à solidão. Ora, aí está, por exemplo, a Missa, lugar de encontro de conhecidos e desconhecidos: aí está "a possibilidade rara de saudar um desconhecido sem correr o risco de ser julgado importuno ou louco". Aí, partilha-se a igualdade: "monarcas e magnatas ajoelham-se e inclinam-se diante da estátua de um carpinteiro". E, quando os fiéis, numa catedral, entoam o "Gloria in excelsis Deo", percebe-se que esta multidão é bem diferente das dos centros comerciais: um cântico exaltante que nos leva a pensar que "afinal, a humanidade talvez não seja uma coisa tão miserável".

No Dia da Expiação, Yom Kipur, os judeus, reunidos na sinagoga, repetirão: "Pecámos, agimos de modo pérfido, roubámos, caluniámos. Agimos de modo obstinado, e mau, e com presunção, fomos violentos, mentimos...". E é a possibilidade da reconciliação do culpado e da vítima, de quem causou o mal e de quem o padeceu e sofre. É aí também que se situa a confissão católica, com o perdão que chega a partir de Deus e que permite um novo recomeço.

Nas nossas sociedades libertárias, não se tolera repreensões morais, já que a liberdade é considerada a virtude política suprema e cada um deve poder agir à sua vontade. Mas então é o que se sabe e vê. As religiões, porém, são mais realistas em relação ao ser humano e, por isso, sabem dar orientações concretas para os vários domínios da existência. É que, por exemplo, "a insolência e a humilhação afectiva podem ser tão corrosivas como o roubo e o assassínio."

John Stuart Mill disse que "a finalidade das universidades não é tanto formar magistrados, médicos e engenheiros competentes como formar seres humanos capazes e cultos." Segundo Matthew Arnold, uma educação cultural autêntica devia inspirar em nós "o amor dos nossos semelhantes, o desejo de dissipar a confusão humana e diminuir a miséria humana" e não devia gerar nada menos do que "a nobre aspiração de deixar o mundo melhor e mais feliz do que o encontrámos". De facto, a universidade moderna parece quase não se preocupar com inculcar nos seus estudantes "aptidões emocionais ou éticas e, ainda menos, ensiná-los a amar os seus semelhantes e a deixar o mundo mais feliz do que o encontraram." A razão disso está, segundo Botton, no declínio do ensino das Escrituras: instalou-se a esperança de que "a cultura poderia ser não menos eficaz do que a religião na sua aptidão para guiar, humanizar e consolar."

Alain de Botton é particularmente sensível à arte sacra e nomeadamente à arquitectura. O feio poderá abençoar a nossa alma? A beleza é "uma versão perceptível da virtude". O cristianismo não nos deixa qualquer dúvida quanto à finalidade da arte: "é um meio de nos lembrar o que conta", da ternura à compaixão, da compreensão ao amor e à abertura e encontro com a transcendência.

Aí ficam breves apontamentos sobre um livro belo. Raramente se chamou tão bem a atenção para as dimensões humanizantes das religiões.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Lutero no banco; Agostinho e Tomás na equipa de arbitragem

Este vídeo já por cá andou, mas nunca como hoje à noite, com o Grécia-Alemanha, virá tão a propósito.

"Negócios obscuros do banco secreto do Vaticano"


Da "Sábado" de ontem. Grande título: "Negócios obscuros do banco secreto do Vaticano". Dinheiro, falta de ética, dinheiro, outra vez, secretismo, religião. Só falta sexo.

Igreja e história



O pensamento histórico dos tempos modernos não se originou independentemente do influxo da fé histórica da Bíblia; representa, por assim dizer, a sua consequência secularizada. O pensamento histórico moderno não precisa de ser necessariamente, para a teologia, uma contestação; pode mesmo avaliar-se positivamente como nova possibilidade para uma melhor e mais apta apreensão e formulação da mensagem original da fé; não tem de olhar-se apenas como ameaça, mas, acima de tudo, com o kairós para a Igreja.

Walter Kasper, "Introdução à fé", pág. 157



Tenho andado a citar este livro e um leitor pediu-me mais referências sobre a obra.

"Introdução à fé" foi publicado pela editora Telos, do Porto, julgo que já sem atividade enquanto editora, mas com livraria aberta na Rua Santa Catarina, 521. Ainda se encontra nas livrarias católicas. Há dias alguém me disse que acabara de comprar um.

Ano de publicação em português: 1973. A versão original foi publicada pela Matthias-Grunewald-Verlag, em Mainz, um ano antes da edição portuguesa. Título: "Einfuhrung in den Glauben".

No prólogo explica-se que as "dez lições" (dez capítulos) "são resultado da experiência ocorrida durante o semestre de verão de 1970, no departamento de teologia católica em Munster, e igualmente durante o semestre de verão de 1971, no departamento de teologia católica, em Tubinga. Um ótimo livro.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

D 01 - Rahner e Kasper afastam-se do diabo

Karl Rahner

Quem acompanha este blogue sabe que tem andado por aqui e aqui uma discussão sobre o diabo e outras questões diabólicas. Quase um pandemónio.

Algumas questões interessantes têm sido levantadas e outras mirabolantes. Irei respondendo a algumas, porque de facto há muita confusão sobre o assunto (mas não na cabeça dos meus principais interlocutores; não é para eles o que se segue porque não lhes faltam certezas), ao ponto de conhecer pessoas que têm dúvidas sobre a existência de Deus, mas não sobre a existência do diabo e demónios.

Eu não tenho a pretensão de falar pela Igreja, mas escrevo como cristão. Considero que o que escrevo, fundamentado no que outros refletiram e escreveram, não se afasta do catolicismo, dentro da legítima pluralidade teológica.

Quem quiser esclarecer a questão tem uma boa introdução no livro de Vasco Pinto de Magalhães, “O Olhar e o Ver” (ed. Tenacitas), pág. 323-340 (com indicações bibliográficas na página 340). É lá que leio isto de Karl Rahner:
“Não faz sentido tomá-lo [o diabo] como pura personificação do mal existente no mundo. E, realmente, o mal não é uma contra-energia ou um fantasma, é sempre fruto de atos livres e pessoais”. 
“A crença nele não constitui senão um elemento secundário da revelação a que podemos ter acesso apenas por reflexão. Não há nenhuma doutrina explícita do Demónio nos grandes símbolos da fé…”
Para quem aprecia os argumentos de autoridade (não é o meu caso), é sempre bom saber o que pensa um dos maiores teólogos do séc. XX.

No mesmo artigo se diz que, para Walter Kasper (outro dos grandes, ainda entre nós; na reforma, tem andado a publicar as suas obras integrais, como Ratzinger também gostaria de fazer; quem me dera saber alemão), que já depois disso foi cardeal e presidente do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos (por acaso, tendo andado a citá-lo todos os dias de manhã), “interpretando os textos bíblicos com a exegese atual não é possível manter a doutrina tradicional” do diabo e dos demónios.

Para já, fica a questão: por que será que dois dos maiores teólogos católicos se afastam da "doutrina tradicional" sobre o diabo?

D. José Policarpo: Missas difíceis de entender

No "Correio da Manhã" de hoje.

Fé e história

A história e a historicidade são categorias fundamentais da fé cristã. Relativamente ao conteúdo, ao ato, à mediação e ao horizonte global, a fé cristã surge como histórica.


Walter Kasper, "Introdução à fé", pág. 157

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Nuno Teotónio Pereira e a liberdade de informação


Na atribuição do «Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes» pode-se destacar o percurso artístico de Nuno Teotónio Pereira, mas não será descabido recordar a sua oposição à ditadura enquanto católico.

Leio em “Entre as brumas da memória. Os católicos portugueses e a ditadura”, de Joana Lopes (ed. Âmbar), na pág. 26, e é só um exemplo :
A existência do Direito à Informação – tanto ou mais do que o seu conteúdo – foi por si só uma pedrada no charco. 
Ficou a dever-se a Nuno e Natália Teotónio Pereira. Eles foram os fundadores, os impulsionadores, os coordenadores durante toda a existência da publicação: dezoito números em seis anos, entre 1963 e 1969. (…) 
Nuno Teotónio Pereira faz questão de mencionar, de entre os primeiros colaboradores do Direito à Informação, António Jorge Martins (então padre) e frei Bento Domingues, bem como as «datilógrafas» que passavam o texto para estêncil: Maria Vitória Pato, Maria da Conceição Neuparth e Ana Vicente.

Imagem retirada da pág. 27 da obra acima referida

Prémio "Árvore da Vida" para Nuno Teotónio Pereira


O arquiteto Nuno Teotónio Pereira é a personalidade escolhida pela Igreja Católica em Portugal para receber o «Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes» de 2012, atribuído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC). 
(…) Os responsáveis pela entrega do galardão entendem que o trajeto de Teotónio Pereira, de 90 anos, oferece “uma luz oportuníssima para pensar o lugar e o modo da Arquitetura reinscrever-se no presente e no futuro”, destacando a "arte e a dimensão moral" do seu percurso de vida.
Da Agência Ecclesia
Edifício Franginhas, na Rua Braamcamp, Lisboa (projeto de Teotónio Pereira e João Braula Reis)

Igreja de Sagrado Coração de Jesus, na Rua Camilo Castelo Branco, Lisboa (projeto de Teotónio Pereira e Nuno Portas)

Nuno Teotónio Pereira foi um dos católicos abertamente resistentes à ditadura do Estado Novo, um dos "vencidos do catolicismo". Fundou, por exemplo, a publicação "Direito à Informação", com a sua mulher. Espero ainda hoje voltar ao assunto.

Igreja e infalibilidade

A infalibilidade da Igreja não constitui peculiarmente uma função da Igreja; em última análise, trata-se antes da fidelidade de Deus em Jesus Cristo.


Walter Kasper, "Introdução à fé", pág. 162.

terça-feira, 19 de junho de 2012

"National Geographic" no interior do Vaticano



A revista da moldura amarela dedica 22 páginas aos Arquivo Secreto do Vaticano, embora só seis sejam de texto. É pouco, para quem gosta. Mas dá para perceber que o arquivo secreto, isto é, privado, não é assim tão secreto. Tem partes que não estão disponíveis, como qualquer arquivo de Estado.

Com a revista pode ser adquirido um vídeo sobre “o rosto oculto do Estado mais pequeno do mundo”. Tem alguns clichés do género “o Estado mais pequeno e um dos mais poderosos do mundo”, mas, até onde vi (ainda não a vi toda), é um boa reportagem no interior do Vaticano, seguindo os passos do fotógrafo do Papa, Francesco Sforza, e de um jovem que anseia por ser acólito do Papa.

O diabo e o demónio são o mesmo?

Respondendo a alguns leitores, deixo aqui um artigo de Ariel Álvarez Valdés sobre a distinção, nos evangelhos, entre diabo e demónio. O texto foi retirado de "Que sabemos da Bíblia? - IV", edição Paulus, 1996, pág. 5-18. É, digamos, um texto de divulgação, mas faz distinções, numa linguagem mais do que acessível, que ajudam a esclarecer a questão. Mais subsídios noutra altura.














Bertone e o diabo

Cardeal Bertone


Nos comentários a textos deste blogue, já alguém disse que o Cardeal Bertone atribuía as complicações vaticanas ao diabo (de que muito se tem falado por aqui). Uma notícia sobre o assunto (ler tudo aqui):
O Vaticano parece já ter encontrado os culpados do escândalo sobre a divulgação de documentos que alegam corrupção e divisões no seio da Igreja Católica. Segundo o secretário de Estado Tarcisio Bertone, os responsáveis são os jornalistas e... o diabo. 
«Muitos jornalistas estão a tentar imitar o Dan Brown. Eles continuam a inventar histórias e a repetir lendas», afirmou o número 2 do Vaticano, referindo-se ao escritor de «O Código Da Vinci» e «Anjos e Demónios», livros sobre, precisamente, escândalos e lutas de poder na Igreja Católica. 
Numa entrevista à revista católica italiana «Famiglia Cristiana», que estará nas bancas na quinta-feira, o cardeal critica a «veemência» com que os jornais italianos pretendem criar polémicas entre o Papa e os seus colaboradores. «A verdade é que há uma tentativa de criar uma divisão que vem do diabo», acrescentou. 
Este é o primeiro sinal de que o Vaticano passou ao ataque em relação ao caso dos documentos confidenciais tornados públicos. E não é por acaso que é Tarcisio Bertone, o principal alvo de um livro recentemente divulgado, o porta-voz da indignação. 
«Nenhum de nós quer esconder as sombras e os defeitos da Igreja, mas nunca vi nenhum sinal de cardeais ou personalidades da igreja envolvidos em alguma conquista por um poder fantasma», continuou, alegando que os media violaram o direito à privacidade através da divulgação da correspondência do Papa Bento XVI. 
Para o secretário de Estado do Vaticano, a imprensa «ignora intencionalmente» as coisas boas que a Igreja faz, numa «tentativa de desestabilizar» a estrutura, com «mesquinhez e mentiras».
Não sei se o Cardeal fala do diabo como um ser pessoal, se como uma metáfora, um personagem histórico ou algo perdido na arqueologia. (Suspeito que alguns leitores saibam exactamente a que é que se refere D. Bertone e que até já o tenham visto por aí, e não me refiro ao cardeal). Mas com certeza que o número dois do Vaticano sabe grego. É que "diá+bolos" quer dizer "aquilo que divide". "A verdade é que há uma tentativa de criar uma divisão que vem do diabo", disse D. Bertone. "Diá-bolos" opõe-se a "sim-bolos". Eu sou pelo símbolo.

Cristianismo e impaciência


O cristianismo é uma religião do futuro. Não olha a realidade como ordem eterna e fixa, mas como história, orientada para um futuro sempre maior. Ensina a superar tudo o que é dado, no sentido das suas mais ricas possibilidades. Não é religião dos saciados e complacentes, mas de todos os que têm fome e sede de justiça. A fé no Reino de Deus não traduz só paz, mas também impaciência. Não constitui ópio soporífero, mas fermento ativo.

Walter Kasper, “Introdução à fé”, pág. 179

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Liberdade e marginalização

Outro animal que não tem culpa nenhuma

Não sou eu quem o diz, é Vito Mancuso, no “La Repubblica”. Eu só li aqui:

(…) Que o nosso tempo necessitaria de homens de fé capazes de conduzir verdadeiramente esse diálogo [entre religiões e ciências] – enquanto, ao contrário, a estrutura da Igreja atual é feita de tal modo a marginalizar pensadores proféticos como Raimon Panikkar e Hans Küng e a promover desoladores yes-men prontos a se transformar em corvos – é toda uma outra dolorosa questão.

Portugal pagou parte importante da Basílica de São Pedro


No "Jornal de Notícias" de ontem. A notícia tem muitas lacunas: Que valores, em moeda compreensível, estão em questão? Quanto pesava a conta nas contas públicas em 1940? Quem foi salvo com tais indulgências?

E ainda mais estas: Podemos vender a nossa parte para pagar o défice do Estado? Será que esta notícia finalmente vai acabar com a expressão idiomática italiana, "entrar à português" ("entrar de borla"), porque a conta está bem paga? As onças que D. Afonso Henriques deveria ter pagado pelo reconhecimento da independência estão finalmente saldadas?

Coisas do demo - a propósito de um texto de João César das Neves


O gato não tem culpa nenhuma de aqui estar

João César das Neves fala na sua crónica de hoje, no DN (aqui), do diabo.

Eu gosto de ler os textos do professor de economia, ainda que muitas vezes discorde. Como é o caso de hoje. Aprecio os seus paradoxos, mas evito cair neles. Dão jeito para sofismos, mas não passam disso. Ainda há dias, ao vivo, ouvi mais um, desta vez sobre as reivindicações das mulheres. Era mais ou menos assim: “Dizem que elas foram oprimidas durante milhares de anos. E nunca se queixaram? Há aqui qualquer coisa que não joga bem”. A pergunta pode fazer pensar. Mas se pensarmos mais um pouco percebemos que fazia parte da opressão não se queixarem, tirar-lhes as hipóteses de pensar, convencê-las de que não se podiam queixar, nem sequer colocar a possibilidade. Usando um paralelo que não é assim tão descabido, podemos dizer: “A escravatura estava contra a dignidade humana? Hummm. E os escravos não se queixaram durante milhares de anos [na Mauritânia só foi proibida em 1981]?” Podíamos responder-lhe: “Queixaram-se, sim. Escreveram tratados sobre a dignidade humana e apresentaram teses de doutoramento sobre a igualdade dos seres humanos”, quando a única possibilidade de se queixarem era usar o que melhor sabiam usar, os pés, e fugir. E quando o faziam, matavam-nos.

O que faz hoje o professor? Fala do demo. Do diabo. Tudo muito bem, tudo muito certinho. Só há um problema. Confunde diabo e demónio. Está contra os evangelhos, onde nunca o diabo é confundido com o demónio. Em resumo, nos Evangelhos, os demónios "possuem", mas são expulsos, porque se trata de doenças curáveis. Já o diabo tenta, mas nunca possui ninguém. É a força do mal. Sem dúvida que o mal existe e por vezes atrai. Mas para quê e porquê a personificação?

O argumento, também teológico, de que a liberdade é suficiente para explicar o mal moral, humano, é por isso subvertido, bem ao seu jeito:
É curioso perceber porquê [a recusa de Satanás]. A razão liga-se ao axioma mais central e indiscutível da nossa cultura. Somos o tempo da liberdade, humanismo, técnica e poder sobre a natureza. Ora nada destrói mais esses valores que saber-nos sujeitos a influências maléficas, que turvam as nossas escolhas, distorcem a nossa humanidade, pervertem as nossas obras e podem dominar a nossa vida. Se existem tentações demoníacas, lá se vão os sonhos de tolerância, humanismo, liberdade. Caímos no real. O ser humano, que se acha radicalmente autónomo e soberano, ainda tolera com diplomacia um deus longínquo, mas nunca se considerará sujeito ao demónio.
É preciso estar atendo às ilusões dos que defendem a existência do diabo/demónio. Também isso pode ser demoníaco. A minha tese, à João César das Neves, é precisamente essa. Acreditar no demónio/diabo não é evangélico, não é responsabilizante, pode ser traumatizante, é intelectualmente infantilizante e teologicamente contraditório. Pode ser caso de médico e de psicólogo. Acreditar no demónio pode, de facto, tornar-se demoníaco.

Fé e futuro - 2

A descoberta da dimensão do futuro é efeito da religião bíblica. Todas as outras religiões do mundo antigo celebravam apenas o terno retorno das origens divinas; estavam orientadas para o modelo do movimento cíclico. Nada de novo acontece debaixo do sol; só é real o o que sempre foi e é eterno. O pensamento bíblico rompeu este ciclo infernal. Para ele, existe a ação e o evento, dão-se inícios realmente novos, que garantem a esperança. A salvação não consiste no começo, mas é uma promessa para o fim da história. O pensamento bíblico eliminou assim o fatalismo do eterno retorno do idêntico.


Walter Kasper, "Introdução à fé", Telos, pág. 172

domingo, 17 de junho de 2012

Bento Domingues: Etty Hillesum e a única solução

Texto de Bento Domingues no "Público" de 17 de junho de 2012.

Fé e futuro

A absoluta ausência de futuro é a essência da morte. Fé sem futuro seria uma fé morta. Revelar-se-ia como irrealizável para o homem aplicado ao amanhã e não conseguiria fascinar ninguém. Também mais ninguém se engajaria por ela. Uma fundamentação da fé, de acordo com a problemática atual, tem de empenhar-se primeiramente em salientar a dimensão do futuro próprio da fé.


Walter Kasper, Introdução à fé, Telos, pág. 172

sábado, 16 de junho de 2012

Porta-voz da CEP gosta de futebol

No "Correio da Manhã" de ontem. Um porta-voz tem de estar preparado para as imensas solicitações da imprensa. E mais ainda se o assunto é futebol.

Anselmo Borges: Um homem livre pode acreditar em Deus?

Charles Pépin


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

É este o título de um pequeno livro, recentemente publicado, de um prestigiado jovem filósofo francês, Charles Pépin: Un homme libre peut-il croire en Dieu?

Em primeiro lugar, a fé é do foro íntimo livre de cada um, de tal modo que, mesmo que se tente forçar alguém a acreditar ou a abandonar a fé, o que se pode conseguir é que manifeste gestos ou sinais exteriores de fé ou descrença, mas, no seu íntimo, continuará livre para acreditar ou não.

Mas a pergunta quer ir mais longe e mais fundo, pois há dois modos de entendê-la: "o homem é livre de crer em Deus?", e sobretudo: "é possível permanecer um homem livre, crendo em Deus?"

Deus é uma questão livre. Porquê? Deus não é objecto de demonstração científica e, portanto, não sendo possível demonstrar a sua existência, fica entregue à liberdade. Se se pudesse demonstrar a sua existência, não se estaria no plano da fé, do crer, mas do saber. Uma vez que Deus não é demonstrável, é possível acreditar ou não acreditar. Como dizem aliás as próprias palavras crença, que vem de credere, crer, crédito, dar crédito, e fides, fé, confiança, ter confiança.

Nisto, Kant é inultrapassável. Porque o saber científico tem como uma das suas condições que o objecto conhecido seja do domínio da experiência, não se pode demonstrar cientificamente nem que Deus existe nem que não existe. Deus é um postulado da razão prática e objecto de esperança, respondendo à pergunta: o que é que nos é permitido esperar? O homem só age moralmente quando age por dever. Mas, cumprindo o dever, que pode exigir heroicidade e até a morte, merece ser feliz. Ora, só Deus pode ser o garante da harmonia entre o dever cumprido e a felicidade. Exige-se então moralmente que Deus exista.

O acto de fé, que não é cego, pois tem as suas razões, implica, pois, pela sua própria natureza, a liberdade, é um acto livre. Não admira então que Tomás de Aquino tenha escrito que a fé convive com a dúvida. O crente autêntico é aquele que não acredita pura e simplesmente por ouvir dizer ou por educação ou pressão social. Como escreve Pépin, se alguém acredita verdadeiramente, é porque "parou um instante, duvidou, sentiu-se livre e deu esse passo." Certamente, o ateu e o agnóstico, conscientes e também com as suas razões, procederam do mesmo modo.

Aqui, surge a outra pergunta: evidentemente, a fé é um acto livre, mas pode o homem livre continuar livre, crendo em Deus? É que Deus não é um "objecto" qualquer, como os outros: é infinito, omnisciente, omnipotente, criador. Como pode então o homem ser livre, se deve a sua liberdade a Outro, a Deus? Afinal, como escreveu Feuerbach, não é o homem que criou Deus e não o contrário, devendo, portanto, recuperar o que colocou fora dele, alienando-se? Para se poder criar a si mesmo, ser livre para inventar valores, decidir o valor dos valores, ter a liberdade de inventar o sentido da vida, não deve o homem deixar de crer em Deus? Não foi isso que reivindicaram concretamente Sartre, Marx, Nietzsche?

Será necessário responder, perguntando: o que seria uma liberdade que não implicasse a liberdade de crer em Deus? Depois, não é a liberdade total um fantasma? Não reconhece o próprio Sartre que, mesmo sem Deus, estamos sob o olhar do outro? E não postula Marx um sentido pré-existente da História? E Nietzsche não crê no Super-homem?

Mas Pépin vai mais longe, perguntando se a liberdade não é uma invenção do cristianismo, precisamente a partir da fé, no sentido de dar crédito, crer, ter confiança, confiar, que arrastam consigo a dúvida, o direito à dúvida, a legitimidade da hesitação. Foi o cristianismo, e concretamente São Paulo - o homem é justificado pela fé, lê-se na Carta aos Romanos -, que inventou a ideia de que o homem pode crer ou não em Deus, confiar ou não nesse Ser, que é omnipotente e Amor infinito, e essa ideia estende-se ao futuro, a um mundo melhor, a um amigo, a uma mulher. Esta possibilidade de fé face ao Infinito descobre simultaneamente o eu, a pessoa e a sua dignidade. "Um homem livre pode crer em Deus, ou mais precisamente: a questão da liberdade só se põe para este homem que o cristianismo inventou."

Agora que a Quaresma acaba