segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Descubra as diferenças entre estes dois textos. É capaz de haver

Descubra as diferenças:

 No "Público" de 22 de dezembro de 2012

No "i" de 17 de dezembro de 2012

Isabel Jonet: "Recuperar Portugal"


Texto de Isabel Jonet no "Diário Económico" de hoje (que é gratuito, em papel, nas bancas). Também pode ser lido aqui, como muitas outras opiniões.

Ah, seu interesseiro...

Quando deixamos de sentir que temos de aderir acriticamente às religiões ou de as denegrir, estamos livres para as descobrir como repositórios de uma miríade de conceitos engenhosos com os quais podemos tentar mitigar alguns dos males mais persistentes e negligenciados da vida secular.

Alain de Botton, "Religião para ateus", pág. 15

domingo, 30 de dezembro de 2012

Maria Ratzinger, a esquecida


Georg, Joseph e Maria

Quando escrevi sobre o livro do irmão do Papa, “Meu irmão, o Papa”, de Georg Ratzinger (aqui), disse que houve dois aspetos que não apreciei lá muito. Um depende do próprio Georg e outro de Hesemann. Comecemos por este. A ver se o assunto fica encerrado antes que o ano acabe.

Ao historiador que entrevistou o irmão do Papa só faltou dizer que a ideia da realização do II Concílio do Vaticano se deveu ao próprio Joseph Ratzinger. Não exagero. Michael Hesemann diz que o cardeal Frings, arcebispo de Colónia, “a figura mais impressionante do episcopado alemão do pós-guerra” ouviu “«o menino-prodígio da Teologia» Ratzinger a esboçar os seus pensamentos sobre a «Teologia do Concílio»” e o convida para uma conversa. A seguir pede a Ratzinger que escreva uma conferência que o próprio arcebispo haveria de proferir em Génova sobre “o Concílio nos tempos atuais”. “O esboço que [Ratzinger] entregou pouco depois era tão bom que Frings só precisou de fazer uma correção” (p. 187). Com a conferência, “o cardeal parecia ter anunciado o programa teológico de todo o Concílio” (p. 188). Pouco depois, Frings encontra-se com João XXIII e este agradece-lhe o discurso de Génova. Em suma, tendo em conta que, segundo Hesemann, o cardeal de Colónia desejava um concílio mesmo antes da decisão do Papa, foi dos mais influentes na aula conciliar e teve  como principal perito Jospeh Ratzinger, “ele [Frings] e o seu grupo [ou seja, Ratzinger] conseguiram escrever a história do Concílio” (p. 189).

É claramente excessivo o que o co-autor do livro escreve sobre Joseph Ratzinger e o Concílio. É pouco sobre o acontecimento em si e muito sobre a influência de Ratzinger, que, na realidade, sem qualquer dúvida, foi menor do que a de Yves Congar, Henri de Lubac, Jean Daniélou, Karl Rahner, ou mesmo John Courtney Murray . Georg, sobre o seu irmão e o Concílio, é muito modesto. Diz só que o irmão fez uma conferência em 1964 sobre a falta de unanimidade entre teólogos e religiosos do concílio.

O segundo aspeto. Os irmãos Ratzinger são três: Maria (1921), Georg (1924) e Joseph (1927). No livro fala-se regularmente do pai e da mãe Ratzinger, mas quase nada da irmã Ratzinger, que morreu quase com 70 anos (nasceu a 7 de dezembro de 1921 e morreu a 2 de novembro de 1991). Maria Theogona Ratzinger acompanhou toda a vida os irmãos, principalmente Joseph, que serviu até morrer. Uma santa praticamente anónima, como muitas mulheres que no século passado se dedicavam completamente aos seus irmãos padres. Maria merecia mais memória.

Bento Domingues: Será Jesus Cristo uma causa perdida? (2)


Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje.

Escreve o dominicano: "Nenhum católico está obrigado a concordar nem com o diagnóstico, nem com a terapêutica que D. Manuel Martins propõe para sairmos do buraco que, dia a dia, se apresenta mais fundo". 

Ainda bem. É o meu caso. Ainda que concorde que o diagnóstico inspira cuidados (mas se formos ler as previsões do ano passado, não estamos tão mal como se dizia), não me revejo na cura preconizada pelo portuense ex-bispo de Setúbal (o comité de sábios para avaliar o candidato a ministro é mirabolante; ouvir aqui), que em agosto do ano passado temia que os portugueses deixassem de ser um povo de "brandos costumes" devido à crise e, salve-se a coerência, também criticava o governo de Sócrates.

Frei Bento: "Não me parece nada que Jesus seja uma causa perdia. Penso o contrário".

Ainda bem. Subscrevo totalmente.


"Será Jesus Cristo uma causa perdida? (1)"

Mais um ano

Todos querem viver muito tempo, mas ninguém que ser velho.

Jonathan Swift

sábado, 29 de dezembro de 2012

D. Manuel Clemente: "O papel da Europa na crise..."


Texto de D. Manuel Clemente no DN de hoje, edição comemorativa dos 148 anos do matutino lisboeta.

O meu resumo. A Europa enquanto identidade humana e cultural, que é mais a consequência do cristianismo pós queda do império do que propriamente do Império Romano (que não incluía grande parte da Europa atual e incluía muitas outras áreas que não são Europa), emergiu de dois conflitos mundiais mas está em em crise, pondo em causa o sonho dos pais fundadores, provenientes, justamente, dos dois lados conflituantes do Reno. Para ultrapassar a crise atual, há dois factores positivos e relativamente novos: a interdependência dos mercados e a geração "europeia" de migrantes e estudantes.

A edição dos 148 anos do DN foi toda escrita com a mão esquerda?



O DN faz hoje 148 anos. Parabéns. É um jornal que leio quase todos os dias em papel e cuja página na Internet consulto várias vezes ao dia. E nunca esquecerei a alegria de ter visitado a redação deste jornal tendo por cicerone Acácio Barradas, grande jornalista que morreu no dia 28 de outubro de 2008. Nem as tardes maravilhosas que passei nos arquivos deste jornal a ler as edições à volta de morte de João XXIII (que andava eu lá a investigar? – disso não me lembro).

Mas hoje, apesar de a edição ser maior, em número de páginas e formato (“berliner”), sinto-me defraudado. Esperava o suplemento “Q” e nada. Esperava o texto de Anselmo Borges e nada.

A edição comemorativa é dirigida por Manuel Carvalho da Silva e, como opinadores, surgem, entre outros, Mário Soares, Boaventura de Sousa Santos e Carlos Carvalhas. Opiniões que não vou ler, porque já sei não saem da cartilha. Também lá está a opinião de D. Manuel Clemente. E essa vou ler e copiar para este blogue porque considero que o bispo do Porto lança pontes, enquanto os três opinadores atrás referidos dinamitam-nas. É a minha visão das coisas, com certeza.

O jornal tem algumas peças interessantes, como uma reportagem sobre o Estado social na China (hei de ler), e outras de interesse nulo (hei de evitar), como um debate com Arménio Carlos (CGTP), João Proença (UGT) e Manuel Carvalho da Silva (ex-CGTP). Deve ser algo como um debate entre Mr. Dupond, Mr. Dupont e, sei lá, Mr. Duponth. Só que uns estão mais à esquerda do que outros.

E como se faltasse esquerda no jornal, ainda entrevistam Lula e publicam opiniões de Tarso Genro (PT - Brasil) e José Antonio Griñan (PSOE - Espanha) entre outros. Se escrevessem “Pravda” em gótico no topo da primeira página, ficava a condizer.

Para contrabalançar, talvez em 2013 convidem João César das Neves para diretor por um dia.

Botton sobre os santos


A escassez de modelos ideais ajuda a explicar por que é que o catolicismo coloca diante dos seus crentes cerca de 2500 dos seres humanos mais grandiosos e virtuosos que, sendo ele, já pisaram a terra.

Alain de Botton, pág. 92 de "Religião para ateus" (D. Quixote)

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Se tivessem chegado com muita bagagem, estou certo de que lhes teriam arranjado lugar

Quando José e Maria chegaram ao albergue não os aceitaram: "Está cheio! Vão para além, para a gruta, com os animais". Se tivessem chegado com muita bagagem, estou certo de que lhes teriam arranjado lugar, mesmo que tivessem que mandar sair um mais pobre do que eles. Mas Jesus escolheu chegar assim, como um pobre entre os pobres, um sem-abrigo.

Abbé Pierre, 1992

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Pelo menos ainda temos o musgo



Neste Natal, foi curioso ouvir um ou outro assarapantado com a suposta expulsão do burro e da vaca do presépio. Um radialista perguntava, indignado, na Antena 3: “E agora, o que vou fazer com a burro e a vaca?” Na mesma estação de rádio, no programa “Portugalex”, alguém dizia que lhe era indiferente o desaparecimento dos animais, desde que não lhe tirassem o musgo.

Agora Bento XVI, o autor da expulsão dos animais (ainda que, na realidade, tenha escrito que “nenhuma representação do presépio prescindirá do boi e do jumento”), confirma via twitter que o musgo tem lugar no presépio.

24 Dez Bento XVI ‏@Pontifex_pt
Recorda ainda alguma tradição natalícia de família?

24 Dez Bento XVI ‏@Pontifex_pt
Dava-me grande alegria construirmos, juntos, o presépio em casa. Cada ano acrescentávamos novas figuras e, para o decorar, usávamos musgo.

Pastorícia

Fala-se sempre do bom pastor para designar o chefe da Igreja. Mas Jesus, outrora, dirigia-se a pastores ou filhos de pastores. E estes compreendiam a sua linguagem. Hoje, vejo-o [o Papa] mais como o primeiro da fila. Ser ovelhas, como destino, para os nossos contemporâneos, não é lá muito exaltante.

Abbé Pierre, 1991

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Reflexões de Natal e pós-Natal de um amigo padre


Dimensões do Natal

Apontamentos para Reflexões: Missa do “Galo” (e outras mais).
Disposição 1. – O Natal toca a pessoa que somos todos nós. Vale a pessoa.
Somos nós que contamos. Nós na nossa história em comum. Porque vivemos dias generosos diante do nascimento de Jesus, Senhor e Salvador, o Natal é o tempo de refazer o coração com a nossa generosidade para que haja solidariedade, em todos os dias necessários. Somos movidos pelo amor do Menino Deus, para olharmos com distancia tudo o que nos “amarra” para sermos mais de Deus. Um olhar sobre o mundo marcado pela Compaixão e pelo compromisso com o Bem.
Disposição 2. – É festa da nossa humanidade. Vale Deus que “se humanizou”.
Esta é uma lição perene, aprendizagem constante, que deve ser cultivada no coração e na inteligência das crianças, dos jovens, de todos. Uma humanidade que nasce doada. Não uma humanidade para si mesmo, mas para os outros. Não fechada mas aberta.
Deus sempre procura o ser humano, mesmo que ele não o saiba. É isso que vale. Embora negando a Deus; Deus procura-nos e nós procuramos o belo, a verdade, a justiça, trazendo para fora de nós o que está dentro do nosso coração (Cfr. o melhor presente de natal foi o sorriso de quem batizei e dei a santa unção, bem como o filme a “A vida de Pi”, aprender a consumir partilhando mais…etc). No coração de Deus está o Natal humanizado.
Disposição 3. – Não somos só nós, na pessoa e humanidade. O Natal abre o coração do tempo e do próprio Cosmos.
O Natal é acolhimento. Acolhimento de Deus, acolhimento da dádiva de Si à humanidade toda. Trazer o Natal para o nosso dia-a-dia, para a vida sofrida e gasta por tantas preocupações e dramas familiares é olhar o Presépio – nesse diálogo silêncio e singelo da história com Deus-que-assumiu-o-corpo – e transmitir a Esperança a quantos andam abatidos, transmitir Fé a quantos viram a sua fé diminuída e enfraquecida, transmitir Amor a quem tem razões de queixa para sentir, precisamente, os sentimentos contrários.
O Natal é a memória projetada no presente. Falamos de natais passados e do presente com mais Esperança. Esperança feita de ânimo do “Jesus que foi menino” mas cresceu, viveu e sofreu, lutou e ressuscitou. Nele está o nosso querer melhorar as coisas com trabalho e ajuda. Com este votos de Natal, agradecemos a Deus que veio até nós fazer uma «morada permanente» para que onde estivermos o Natal não seja esquecido como a visita e morada de Deus entre os seus Filhos.
Um Santo e Feliz Natal (depois do dia…) para cada um de nós, nossas respetivas famílias, nas suas dificuldades e projetos de vida!
Pedro José Lopes Correia

Uma pequenina luz

Ter-se-á vivido os últimos dias com a sensação de se estar a passar um Natal feliz? E poder-se-á esperar que o próximo vai ser melhor?
Apesar de tudo, as pessoas não deixam de se agarrar a "uma pequenina luz bruxuleante", como diria Jorge de Sena.

Do artigo de Vasco Graça Moura no DN de hoje.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O ambiente de Jesus

Desde o seu nascimento, Jesus não pertence àquele ambiente que, aos olhos do mundo, é importante e poderoso; e contudo, é precisamente este homem irrelevante e sem poder que Se revela como o verdadeiramente Poderoso, como Aquele de quem, no fim de contas, tudo depende.


Joseph Ratzinger, "Jesus de Nazaré. A infância de Jesus", pág. 60

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Alegra-te, pois tu abres as portas do paraíso



Quando os pastores ouviram os anjos cantar a incarnação de Cristo, correram para junto do seu Bom Pastor, a contemplar o Cordeiro recém-nascido no colo de Maria. Exultaram, cantando:
Alegra-te, mãe do Cordeiro e do Bom Pastor
Alegra-te, redil onde as ovelhas se reúnem
Alegra-te, proteção contra os lobos que as arrebatam
Alegra-te, pois tu abres as portas do paraíso
Alegra-te, pois os céus rejubilam com a terra
Alegra-te, pois os homens exultam com os anjos
Alegra-te, pois tu dás segurança à palavra dos apóstolos
Alegra-te, pois tu dás força ao testemunho dos mártires
Alegra-te, coluna firme que nos seguras a fé 
Alegra-te, pois tu conheces o esplendor da graça
Alegra-te, pois que por ti os infernos se esvaziaram
Alegra-te, pois, por ti, nos cobrimos de glória
Alegra-te, Esposa não desposada.

De um hino bizantino à Mãe de Deus (séc. VII)

Oração de Deus aos homens: "E os outros, e os outros, e os outros?"

Quando nós, cristãos, vamos pelo mundo dizendo "Pai Nosso", a oração do homem a Deus, que ela nos faça ouvir a oração de Deus ao Homem, que deveria troar na nossa alma: "E os outros, e os outros, e os outros?"

Abbé Pierre, no Natal de 1970

domingo, 23 de dezembro de 2012

"O padre que foi de Leiria para Roma salvar judeus"


No "Público" de hoje, a história de um padre leiriense que, no Colégio Pontifício Português, em Roma, deu refúgio a alguns judeus. "Um novo Aristides de Sousa Mendes?" Trata-se do último trabalho do jornalista António Marujo neste jornal (é estranho que a imprensa de debata com dificuldades e prefira despedir os melhores). Alguns dos trabalhos deste jornalista, podem ser lidos aqui (75 referências!).

Deixo-lhe nestas linhas o meu reconhecimento. Graças a ele, pudemos ler as melhores reportagens e entrevistas de cariz religioso publicadas em português.

Quanto à reportagem, talvez no início do ano novo a copie para aqui.

Bento Domingues: "Será Jesus Cristo uma causa perdida? (1)"

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje.  "A contínua acusação contra Jesus residia, precisamente, nisso: estar à mesa com pecadores e publicanos, isto é, estar em comunhão com os que, supostamente, Ele deveria excomunhar".

A inclinação de Deus


Num texto sobre o Cardeal Martini, no "Corriere dela Sera" (em português aqui), o escritor Claudio Magris diz a certa altura que

 A ética não é uma sondagem estatística dos costumes que prevalecem naquele momento.

E escreve ainda que

Assim como o indivíduo, a Igreja também deve aceitar os desafios do tempo, justamente porque o cristianismo é a fé que mais se inclinou, inclinando-se Deus também, na historicidade e na precariedade do tempo.

Esta última frase tem tudo a ver com o Natal, essa inclinação máxima de Deus.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Cinco sugestões de livros por Tolentino Mendonça


Nas páginas 4 e 5 do "Q" (suplemento do DN aos sábados), há cinco sugestões de livros, três de discos e três de filmes dadas e comentadas por José Tolentino Mendonça. Já decidi comprar um dos livros. Os referidos são:

- Flannery O'Connor, Collected Works, The Library of America
- Mário Casariny, Cartas para a Casa de Pascoais, Documenta / Fundação Cupertino de Miranda
- Alfredo Teixeira (org), Idntidades Religiosas em Portugal. Ensaio interdisciplinar, Paulinas
- Daniel Marguerat e Yvan Bourquin, Para ler as narrativas bíblicas [o DN diz que é "os relatos bíblicos"], Paulinas
- Andrej Tarkovski, Leben un werk: filme, schriften, stills & Polaroids, Schurner / Mosel.

Anselmo Borges: "Natal da dignidade humana"

Eco e Martini em Espanha, no ano 2000

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui).

Numa troca célebre de cartas entre o cardeal Carlo M. Martini e o agnóstico Umberto Eco, publicadas com o título "In cosa crede chi non crede?", U. Eco escreve: Mesmo que Cristo fosse apenas o tema de um grande conto, "o facto de esse conto ter podido ser imaginado e querido por bípedes implumes, que só sabem que não sabem, seria miraculoso (miraculosamente misterioso)". O Homem teve, a dada altura, "a força, religiosa, moral e poética, de conceber o modelo do Cristo, do amor universal, do perdão aos inimigos, da vida oferecida em holocausto pela salvação dos outros. Se fosse um viajante proveniente de galáxias longínquas e me encontrasse com uma espécie que soube propor-se este modelo, admiraria, subjugado, tanta energia teogónica, e julgaria esta espécie miserável e infame, que cometeu tantos horrores, redimida pelo simples facto de ter conseguido desejar e crer que tudo isto é a Verdade."

Mas Jesus não é um simples conto ou um mito. Hoje, ninguém com honradez intelectual põe em dúvida a sua existência e há um acordo de base quanto a dados históricos fundamentais, como mostra Xabier Pikaza, na obra Quem Foi, Quem É Jesus Cristo?, que coordenei, e na qual especialistas de renome mundial tratam das perguntas essenciais sobre Jesus: uma biografia 'impossível' de Jesus, Jesus e a gnose, Jesus e Deus, Jesus e o dinheiro, Jesus e a política, Jesus e as mulheres, Jesus e as religiões, que quer dizer: "ressuscitar dos mortos"? Sintetizo X. Pikaza quanto ao consenso de base sobre "Jesus: quem foi, o que queria, que final?"

1. Jesus foi um profeta escatológico, que anunciou e actuou na perspectiva da acção iminente de Deus, que iria transformar a ordem social e política do mundo. 2. Foi um sábio, perito em humanidade, contando histórias iluminantes para a condução da vida, para lá da banalidade do mundo e em ordem ao seu entendimento e transformação. 3. Foi um taumaturgo e um carismático. Tinha "poderes" especiais, com grande capacidade de influência. Colocou-se do lado dos oprimidos, com "sinais" a seu favor, preocupando-se com a saúde das pessoas, a sua libertação e autonomia pessoal. 4. Foi homem de mesa comum. Estava interessado na comunicação viva e fraterna entre todos, como mostram os banquetes com pecadores e excluídos, ultrapassando as divisões entre puros e impuros. 5. Criticou uma forma de família baseada só na genealogia, para procurar uma forma nova de comunhão e inter-relação entre todos: num momento de grande desestruturação social, apresentou-se como impulsiona- dor de um movimento messiânico, aberto a todos e integrando os diversos estratos da sociedade, especialmente os marginalizados. 6. Foi um comprometido radical, de tal modo que a sua proposta não foi aceite por muitos "bons" judeus do seu tempo. Rompeu com normas sacras aceites pela maioria religiosa e abriu-se aos marginalizados sociais, num momento de grande crise económica, cultural, social e familiar. A sua proposta tornou-se perigosa, originando um conflito com os defensores da ordem religiosa e os representantes de Roma. 7. Foi um pretendente messiânico, executado em Jerusalém. Foi um profeta, um sábio, um carismático, mas não apenas isso. Ele subiu a Jerusalém pela Páscoa do ano 30 como portador do Reino de Deus, ainda que se discutam as características da sua pretensão. Foi rejeitado pelas autoridades sacerdotais de Jerusalém e condenado à morte por Pôncio Pilatos como "rei dos judeus". 8. Depois da sua morte, o seu movimento profético-messiânico manteve-se e transformou-se. Muitos continuaram a acreditar nele, confessando que ele está vivo em Deus. Reflectindo sobre o modo como viveu, como agiu e se comportou, sobre a sua experiência de Deus, que proclamou, com palavras e obras, como amor incondicional, tiveram a experiência avassaladora de que ele não morreu para o nada, mas para o interior da Vida plena de Deus. É o Vivente em Deus.

Afinal, o Natal verdadeiro é o Natal da dignidade humana. Como dizia o filósofo ateu Ernst Bloch, foi com Jesus que sabemos que nenhum ser humano pode ser tratado como "gado". Já Hegel tinha escrito também que por ele sabemos da dignidade divina do ser humano. Bom Natal!

Homens e dinheiro

Com todo o dinheiro do mundo não se fazem homens, degradam-se; mas com homens que se entregam a si próprios fazemos tudo o que é preciso, incluindo o dinheiro necessário desde que ele não seja um amo, mas servidor.

Abbé Pierre, 1955

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O Papa escreve na bíblia dos economistas


O Papa escreveu no Financial Times. É histórico porque, dizem, é a primeira vez que o Papa escreve um artigo de jornal – e logo no papa dos jornais económicos e financeiros.

O artigo pode ser lido todo online. Estive para copiá-lo para este blogue, por ser histórico, mas o FT pede que não copiemos (“High quality global journalism requires investment. Please share this article with others using the link below, do not cut & paste the article”. Está descansado, FT).

O artigo começa assim (copio um bocadinho e deixo o link):
“Render unto Caesar what belongs to Caesar and to God what belongs to God,” was the response of Jesus when asked about paying taxes. His questioners, of course, were laying a trap for him. They wanted to force him to take sides in the highly charged political debate about Roman rule in the land of Israel. Yet there was more at stake here: if Jesus really was the long-awaited Messiah, then surely he would oppose the Roman overlords. So the question was calculated to expose him either as a threat to the regime, or as a fraud.
Ler tudo aqui.

Começando por uma questão monetária, faz-me lembrar aquela tentativa de Paulo evangelizar na ágora ateniense aludindo ao “Deus desconhecido” e aos poetas gregos. Sabemos como acabou a cena: “Ouvir-te-emos numa próxima vez” (Atos 17,32). Hoje seria: “Está bem, mas agora não temos tempo”.

O Papa diz que Jesus não quer que se politize a religião nem que se deifique o poder temporal, que Jesus é herdeiro de David, mas sem armas, e que o nascimento do salvador desafia a reescalonar as nossas prioridades, valores e estilos de vida. “Desde a manjedoura, Cristo chama-nos a viver como cidadãos de um reino celeste, um reino que todas as pessoas de boa vontade podem ajudar a construir aqui na Terra”.

No final, um breve dado biográfico do autor, como é típico no FT: “The writer is the Bishop of Rome and author of ‘Jesus of Nazareth: The Infancy Narratives’”. Ainda bem, porque quem lê o FT é bem capaz de não saber quem é Bento XVI, ainda que também haja moedas com a sua cara, já que olham mais para Wall Street do que para a Via Apia.

Comentando este artigo, João César das Neves disse à Renascença:
 “É a primeira vez que o Papa escreve num jornal, ainda por cima no ‘Financial Times’, que para alguns é maldito e no qual o Papa não desdenhou participar. Depois ele centra-se na questão decisiva que é uma mudança de atitude. Parte da expressão ‘dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus’ para mostrar que vivemos no mundo, mas vivemos no mundo de outra maneira, que os cristãos têm de olhar para as suas realidades, seja o Parlamento ou na bolsa de valores, de uma maneira diferente. Não nos deixarmos prender nas ideologias nem nos ídolos, mas olharmos sempre para outra linha, sempre no mundo mas com outra atitude” (aqui).
Por curiosidade, gostava de saber o que pensam Manuela Silva ou Alfredo Bruto da Costa da colaboração do Papa nas páginas do clarim do capitalismo.

O nosso problema com o Natal

Diz o pastor batista e cantor rock (desconte-se-lhe o criacionismo biológico), Tiago Cavaco:


Não devíamos odiar o Natal porque o Natal nos torna hipócritas, mas devíamos amar o Natal porque o Natal nos mostra hipócritas. O problema não é o Natal, o problema somos nós.

Li aqui (ver dia 18 de dezembro de 2012).

Aceitação

A serenidade é a aceitação de si próprio e do que é. A vida espiritual oferece esse esplendor.

Abbé Pierre

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Não obedecerás a dois senhores, ao Papa e ao grande timoneiro


Universidade em Pequim. Uma delas

O Partido Comunista Chinês declarou guerra ao cristianismo nas universidades porque, diz num documento de maio de 2011 mas só agora divulgado, esta religião é uma doença, “uma conspiração política para dividir e ocidentalizar a China”. O documento tem como título “Sugestões para resistir bem ao uso da religião por indivíduos estrangeiros para ser infiltrarem em institutos de ensino superior e para evitar o evangelismo nos campus universitário”. Li no “Público” de hoje, embora duvide do título do documento e do plural de campus, que deve ser campi. Entre as medidas preconizadas pelas autoridades chinesas está “aumentar a propaganda e a educação sobre a visão marxista da religião e os princípios do partido”.

Diz ainda a notícia – e nunca tinha pensado nesta perspetiva – que a China é o sétimo país do mundo em número de católicos. Não diz quantos são em número absoluto, mas diz que são 3,1 por cento da população, o que dá mais de 40 milhões de católicos para uma população de 1,3 mil milhões. (Quais os seis com mais católicos? Penso que estes: Brasil, México, EUA, Filipinas, Itália e a seguir um destes três, mas não sei qual: Espanha, França, Polónia).


Mais uma vez, o medo de os católicos, principalmente esses, obedecerem a um outro soberano, o Papa, e não ao líder da China. Como se o dilema se pusesse habitualmente na mente de qualquer católico.

Por outro lado, é sabido que as autoridades chinesas não querem aplicar os princípios marxistas a outros âmbitos que o das crenças, como a economia ("é glorioso enriquecer", disse o sucessor de Mao Zedong). Se quisessem, a religião cristã e concretamente a fé católica poderiam sair prejudicadas. É que a China é a maior produtora mundial de Bíblias e de imagens de Nossa Senhora de Fátima.

Mas é certo que vai acabar


Hoje, em alguma imprensa, fala-se do fim do mundo agendado para amanhã. Por causa da tal pseudoprofecia maia. É curioso que vão perguntar a opinião a astrónomos e não a escatólogos, embora o tema seja, também, tipicamente religioso e mesmo cristão. Claro, os sábios das sociedades seculares são os cientistas, não os teólogos.

Natal versus Sinai

Ser cristão é acreditar no Todo-Poderoso, indo buscar a força para falar aos corações e os ganhar ao despojamento de Jesus menino no presépio de Natal, mais do que à intimidação dos trovões do Sinai.

Abbé Pierre, 1965

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Natal para quadrúpedes e ruminantes

Domenico Pezzini escreveu em 1996:

É fundamental que saibamos acolher o burro e o boi na nossa vida. Porque, apesar de nalguns dias não conseguirmos cantar nem falar, será importante que, pelo menos, possamos respirar.

"É preciso canonizar o Abbé Pierre..."

Os jornalistas, que são boas pessoas, ficaram de repente, não vejo porquê, com um fraquinho por mim. Alguns não se inibiram: "É preciso canonizar o Abbé Pierre...", escreveram. Isso inquieta-me um pouco. Gosto mais de me entregar a Deus um pouco mais tarde.

Abbé Pierre, 1957

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Humanidade versus pessoas



Wisława Szymborska, a polaca Nobel da Literatura que morreu no dia 1 de fevereiro deste ano, dizia que tinha sido comunista devido a um equívoco.

“Era por amor à humanidade. Depois entendi que não se deve amar a humanidade, mas sim as pessoas”.

O símbolo de Catalina


Catalina Pestana no "Expresso" de sábado. Não li. Não me interessa a questão do disse não disse (interessa, sim, que venha ao de cima a verdade e seja feita justiça). E se ela sabe, que seja investigado o que sabe.

O que atraiu a minha atenção foi o símbolo que Catalina traz ao pescoço. Não é a típica cruz, mas um ankh, o símbolo egípcio para a eternidade, o preferido do danbrowniano Robert Langdon. Estará Catalina envolvida numa conspiração?

Essencial definição do Homem

Aquele que pode perseverar no amor, num amor verdadeiro, capaz de velar pela alegria e pelo pão, aquele que pode perseverar nesse amor ou convencer-se para a ele regressar, eis a mais essencial definição do Homem.

Abbé Pierre, 1971

domingo, 16 de dezembro de 2012

Miguel Esteves Cardoso: Papa Twitter

Miguel Esteves Cardoso, no "Público" de hoje, cronica sobre o Twuitter do Papa Bento.

Bento Domingues: "O ser humano será uma causa perdida?"


Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje.

Percebi cada uma das afirmações do dominicano, mas acho que não alcancei o sentido do artigo. Terá a ver com o Natal? Pareceu-me que as partes, pequenas partes, valem mais do que o todo. "Uma boa filosofia baseada na experiência e guiada pela virtude da prudência, isto é, pela decisão avisada, exige muito tempo e contínuas conversões do desejo".

Mais listas de Eco

Na pág. 94 do mesmo livro do post anterior:
No século quinto, Enódio escreveu que Cristo era a «fonte, caminho, direita, pedra, leão, portador da luz, cordeiro; porta, esperança, virtude, palavra, sabedoria, profeta; vítima, rebento, pastor, montanha, laço, pomba; chama, gigante, águia, cônjuge, paciência, verme».
Há muitas listas do género na literatura cristã, mas... "verme"? Cristo, o verme?

sábado, 15 de dezembro de 2012

Como Umberto Eco começou com as listas



Tive uma educação católica e, consequentemente, habituei-me a recitar e a ouvir litanias. As litanias são por natureza repetitivas. Normalmente são listas de frases laudatórias, como as Litanias da Virgem: «Sancta Maria», «Sancta dei genitrix», «Sancta Virgo virginum», «Mater Christi», «Mater divinae gratiae», «Mater purissima», etc.
As litanias, como as listas telefónicas e os catálogos, são um tipo de lista. São casos de enumeração.

Umberto Eco nas "Confissões de um jovem escritor" (ed. Livros Horizonte), pág. 91.

Anselmo Borges: "Ciência e religião: um desafio, não um conflito"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

George Coyne, s.j.

Ele sabe do que fala. É o jesuíta George Coyne, director emérito do Observatório do Vaticano, onde desempenhou um papel relevante no quadro das relações entre conhecimento científico e religião, dialogando com alguns dos mais prestigiados cientistas contemporâneos: Stephen Hawking e Richard Dawkins, entre outros.

Numa entrevista à US Catholic, defende precisamente que, mesmo que a Igreja nem sempre tenha sido dessa opinião, entre a ciência e a religião não há conflito, mas um desafio, ajudando ambas, desde que se trate da verdadeira fé religiosa e da verdadeira ciência, a compreender um universo dinâmico e criativo.

O universo é "um desafio incrível". Em primeiro lugar, lida-se com números avassaladores: o universo tem 13 700 milhões de anos - mil milhões é um seguido de nove zeros - e o número de estrelas existentes, nos cem mil milhões de galáxias, é um seguido de 22 zeros.

Neste universo gigantesco, não podemos, pois, excluir a existência noutras paragens de vida inteligente. E nós, como aparecemos nós? Isto aconteceu por acaso ou num processo necessário? Tudo foi por acaso ou por necessidade?

A sua resposta: "Segundo a ciência moderna, pelas duas coisas ao mesmo tempo: somos o resultado do acaso e da necessidade num universo fértil." O nosso Sol é uma estrela de terceira geração. Precisamos de três gerações de estrelas para conseguir uma capaz de fornecer os elementos necessários para a vida. É isso que se quer dizer com a fertilidade do universo: mediante processos físicos no universo, construir a química necessária para a vida.

É preciso contar com as leis da natureza. Por exemplo, quando dois átomos de hidrogénio se encontram, pode formar-se uma molécula de hidrogénio, mas também pode acontecer que não, devido às condições de temperatura e pressão. Não deve surpreender-nos que, por acaso, dois átomos se encontrem num momento em que as condições são adequadas, formando uma molécula de hidrogénio. Isso é "acaso", mas também é algo mais. Podemos determinar uma probabilidade de que isso aconteça. Nalgumas galáxias, é mais provável. É uma combinação de acaso e de necessidade, mas, num universo fértil, há muitas possibilidades de que isso ocorra.

Então, "com toda esta química à disposição durante 14 mil milhões de anos, o acaso e a necessidade trabalharam juntos para construir moléculas cada vez mais complexas. Assim, obtemos proteínas, aminoácidos e açúcares, ADN, fígados, corações, e, por fim, o cérebro humano, através da evolução biológica".

Conhecemos, portanto, o processo científico que nos levou a ser o que somos. Foi Deus que fez isto? "Falando como cientista, a minha resposta é: não sei." A ciência não tem possibilidade de responder. Posso ficar e fico surpreendido com a existência deste movimento. Para mim, como cientista, "o ser humano é um organismo biológico complexo" e "não posso falar sobre o seu carácter espiritual"; "como objectos materiais no universo, seria difícil para mim, como cientista, defender que somos especiais". A criação tem carácter evolutivo e há processos aleatórios, e não sabemos completamente para onde se dirige. Enquanto cientista, "também não posso falar de Deus", pois, nessa altura, não estaria a fazer ciência. "Creio que é muito importante na sociedade moderna, sobretudo na América, não confundir o que sabemos pela ciência com o que sabemos pela filosofia, a teologia, a literatura e a música."

Há cientistas que dizem que os crentes estão enganados, mas a maioria respeita profundamente a fé religiosa. Aliás, o próprio ateísmo "já é uma prática da fé", pois "um ateu não pode demonstrar que não há Deus". A experiência humana é mais ampla do que as explicações racionais, e "a fé vai para lá da razão, mas não está em contradição com a razão". G. Coyne acredita no Deus revelado por Jesus.

De novo: o homem é especial? "Ser especial enquanto peça material no universo é uma coisa; ser especial ao conhecer a história religiosa e viver uma vida cheia de fé é outra. Mas continua a ser um desafio."

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O twitter do papa no "Público"


No "Público" de hoje.

Eu acho que ganhava o Wolverine porque Jesus
a) não fazia milagres por espetáculo
b) não fazia milagres para derrotar ninguém, mas em favor de alguém
c) os milagres de Jesus não são demonstrações de força.

Ou então nem havia disputa porque Jesus convencê-lo-ia a fazer outra coisa com um dilema tipo o da moeda ou o das pedras.

Mas só Jesus salva.

A pedreira e a catedral

O que vivi dá-me a convicção de que o meu reino não é deste mundo. Tenho a impressão de ter ouvido falar de uma pedreira de mármore maravilhosa. Vou lá e vejo pedras partidas, inutilizáveis. É realmente na pedreira que se prepara o material, mas não é aqui que construímos a catedral. Ela é edificada noutro sítio. Estou convencido de que vivemos num esboço contante.

Abbé Pierre, 1989

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Ensaios sobre literatura e crença



Dei com este livro por acaso, quando andava à procura de um outro, coisa que não é nada incomum. Já conhecia o autor de “A Mecânica da Ficção”, que julgava já ter citado neste blogue. Não citei, apenas o usei sem citar, esperando que um leitor culto que me criticou chegasse ao autor. Todas as informações deste texto tinham sido tiradas de “A Mecânica da Ficção”. Daí que eu afirmasse no final do texto: “O meu caríssimo leitor que se queixa da descida de nível decerto saberá encontrá-las no agradável bosque de Jacob”.

“Bosque de Jacob” é uma referência a James Wood. Demasiado rebuscado. E irrelevante, admito.

Incomum foi só ler o título completo ao chegar a casa. James Wood garante ensaios rigorosos, apetecíveis e informativos sobre literatura. Lendo o índice, vi que os ensaios tinham todos uma temática religiosa e para-religiosa, razão por que o comprei à primeira vista. Como trabalho ao pé de várias livrarias, só compro determinado livro depois da segunda ou terceira sessão de namoro.

No índice deste volume dei com títulos como: “Sir Thomas More: Um Homem para a Efemeridade”, “O todo e o Se: Deus e Metáfora em Melville”, “As Perversões Cristãs de Knut Hamsun”, “O Misticismo de Virginia Woolf”, “O Antissemitismo Cristão de T. S. Eliot”, “A Herança Perdida: O Legado de Ernst Renan”. São 21 ensaios, todos eles, sei-o agora, com temática de fundo religioso, mesmo “O Shakespeare de Bloom”. Mas só quando cheguei a casa reparei que o título, completo, é “A Herança Perdida. Ensaios sobre Literatura e Crença”.

Na pág. 23, e foi o primeiro anticlímax do livro, vem que "como Lorde Conselheiro, [Thomas More] prendera e interrogara luteranos, por vezes na sua própria casa, e enviou seis defensores da Reforma para a fogueira (...)".

Com certeza que voltarei a este livro, mais que não seja para falar da tese da herança perdida, que diz que, mais do que a ascensão da ciência, foi a ascensão do romance que arrumou com a divindade de Jesus.

O Papa no Twitter

Mandam mensagens por ele, claro, mas a questão é:

Não podiam ao menos sair dos lugares comuns? Nem um bocadinho de provocaçãozinha, originalidade, audácia?

A marca Twitter, pelo menos, deve estar contente com a bênção.

Bispos católicos poluem mais do que protestantes - na Alemanha


Deixem esse e tragam outro que polua menos. Karl Lehmann

Os carros dos bispos católicos poluem mais do que os dos bispos evangélicos (169 gramas de emissões de CO2 por quilómetro dos católicos contra 140 dos evangélicos).

Dos 47 que responderam ao inquérito de uma associação ambientalista, apenas cinco, todos eles protestantes, respeitam o limite europeu de emissões que é de 130. 19 apanham com o “cartão amarelo” e 23 recebem o “vermelho”.

O menos poluidor é Jochen Bhol, da Igreja Evangélica da Saxónia. Anda de Mercedes Classe E híbrido. 

Dos 23 "reprovados", dois provêm da Igreja Evangélica, 21 da Igreja Católica. O último da lista é o cardeal Karl Lehmann, bispo de Mainz e ex-presidente da Conferência Episcopal da Alemanha. O seu Mercedes Classe R a diesel emite 223 gramas de CO2 por quilómetro.

Liberdade

A liberdade deve ser de um valor incomensurável para que o Eterno tenha assumido o risco de no-la conceder! Sem ela seríamos autómatos. Tomai cuidado! Com ela temos a capacidade de amar. Ou de recusarmos a amar. Ele arrisca nisso a sua glória...

Abbé Pierre, 1965

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Segunda parte da entrevista a José Tolentino Mendonça

Segunda parte da entrevista da "2" a José Tolentino Mendonça. Dois leitores disseram, e agradeço-lhes a indicação, que a entrevista pode ser lida no sítio do SNPC, aqui.




Primeira parte da entrevista a José Tolentino Mendonça



Primeira parte da entrevista de Anabela Mota Ribeiro (esteve no Átrio dos Gentios nortenho) a José Tolentino Mendonça. Na "2" de domingo, 9 de dezembro. (Dá para ler bem se tiver um computador de grande ecrã ou se fizer um "salvar como / save as").

Bispo da Guarda pede desculpas


No JN de hoje (depois de uma na capa, há dias, altamente repudiável, quaisquer se sejam as conclusões da investigação). É de saudar o desejo de transparência e colaboração que a diocese de Guarda demonstrou. Ler comunicado aqui.

Segredo

Dai, partilhai o vosso tempo, o vosso saber, a vossa experiência. Mais do que todo o ouro do mundo. Uma felicidade intensa que se baseia no segredo do Evangelho que tanta gente atira diariamente para o lixo, achando-o demasiado exigente: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo».

Abbé Pierre, 1993

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Nódoa?


Humanista, moderno, amigo de Erasmo (inspirador do "Elogio da Loucura"), sonhador de sociedades novas. Queria que as filhas fossem cultas.

Tinha Tomás Moro em grande conta. Altíssima conta. Mártir da consciência. (E o quadro de Hans Holbein é sem dúvida um dos mais admiráveis retratos que alguém já pintou; aqui pode-se apreciá-lo com grande pormenor.) Mas então não é que mandou perseguir e matar seis reformadores luteranos? Pensava que ele neste assunto saía do "espírito da época".

Fé e força

"A fé é uma aventura perigosa para os fracos"...

...dizia Soren Kierkegaard, que habitualmente não se sentia lá com muita força.

"No princípio era a relação"

Na "2" de ontem (revista do "Público" ao domingo) vem uma entrevista de Anabela Mota Ribeiro ao padre Tolentino Mendonça. Talvez a copie para aqui. Seis páginas, três de texto. Depende de como corre a tarde. Mas deixo uma frase lida à sorte (tomara que a maior parte das entrevista tivesse uma frase para reter, um conhecimento para fixar): «A Simone Weil propunha que se traduzisse "No princípio era o Verbo" por "No princípio era a relação". Acho que se devia traduzir assim».

Sete exigências da discussão epistemicamente proba

Cá pelo blogue andam algumas discussões estimulantes e outras mais ou menos insólitas, mas todas interessantes, ainda que por vezes anónimos discutam com anónimos parecendo que se conhecem. Às tantas conhecem-se mesmo. Pouco tenho participado nelas, mas, como é natural, revejo-me mais nos argumentos de um dos lados.

Em todo o caso, deixo aqui “sete exigências da discussão epistemicamente proba”. Alguns bem precisam. Para mim, foi útil ler isto no Rerum Natura (aqui).

1. Ouvir ou ler atentamente o interlocutor e tentar genuinamente compreender as suas ideias e razões. 
2. Explicar com a máxima clareza e rigor as nossas ideias e razões. 
3. Estar disposto a mudar de ideias e a ser corrigido. 
4. Aceitar o direito de o interlocutor pensar de maneira diferente da nossa, ainda que não tenha razões adequadas a seu favor. 
5. Informar-se adequadamente sobre o tema em discussão, estudando livros e artigos relevantes. 
6. Dominar os instrumentos lógicos da discussão crítica de ideias. 
7. Encarar a discussão como uma maneira de descobrir a verdade, e não como um despique para ver quem ganha.

Vistas seletivas

Se olharmos apenas para as flores que florescem e para a beleza das estrelas, pomos a mão sobre a outra vista para não vermos o horror e mentimos a nós próprios.

Abbé Pierre, 1994

domingo, 9 de dezembro de 2012

Bento Domingues: Cortar nas gorduras do presépio


Bento Domingues no "Público" de hoje: "Há limites para cortar nas gorduras do presépio. Por este caminho, ainda vão despedir os pastores, cortar os presentes dos Reis Magos e racionar as horas de iluminação do presépio. Perigo maior: teremos a família da crise, pai, mãe e um filho, cortando as narrativas sobre os «irmãos e irmãos» de Jesus".

Eterno é o amor

Eterno é o amor
Somos amados
Somos livres para sermos capazes de amar.

Abbé Pierre

sábado, 8 de dezembro de 2012

Anselmo Borges: A mulher mais importante de Portugal?

Rainha de Portugal (imagem de Vila Viçosa)

Texto de Bento Domingues no DN de hoje.

Uma vez, numa entrevista na rádio, um jornalista atirou-me: "qual é a mulher mais importante de Portugal?" E eu, naquela perplexidade de quando somos apanhados de surpresa: "Penso que é Nossa Senhora, Maria, a mãe de Jesus."

À distância e mais reflectidamente, julgo que respondi bem, pois é mesmo isso: Maria, a mãe de Jesus, Nossa Senhora, é, muito provavelmente, a mulher mais importante de Portugal e, possivelmente, até a mais influente. Pergunto a mim próprio o que seria a Igreja em Portugal sem Fátima e mesmo o que seria o país sem a Nossa Senhora. Frei Bento Domingues foi quem melhor definiu Fátima: "o cais de todas as lágrimas dos portugueses."

Assim, lá está Fátima e milhões de peregrinos, as romarias em todas as cidades, vilas e aldeias, uma devoção enraizada, mesmo para lá da prática religiosa oficial. Talvez porque a Igreja é profundamente masculina - Deus é Pai, Filho e Espírito Santo; a hierarquia é masculina: papa, bispos, padres, diáconos - e porque os portugueses interiorizaram uma imagem tradicional severa do pai, Maria aparece como almofada e afago, sobretudo em tempos dramáticos de crise, de guerra, de becos sem saída. É a Mãe.

Tem mesmo direito a dois dias santos de guarda, com feriado nacional. Um deles celebra-se hoje: a Imaculada Conceição. Ninguém sabe ao certo o que é que a maioria dos portugueses, mesmo católicos praticantes, entende por isso, isto é, o que se celebra na Imaculada Conceição Alguns pensarão na virgindade de Maria. Mas, de facto, o que se celebra tem a ver com a doutrina do pecado original, segundo a qual todos os seres humanos nascem em pecado, por causa do pecado de Adão e Eva. Maria, porém, constituiria uma excepção, pois foi concebida sem pecado.

Ora, é preciso confessar que precisamente aqui se concentra um nó de confusões. O Evangelho desconhece essa doutrina, que provém fundamentalmente de Santo Agostinho: em Adão, todos pecaram. Mas como sustentá-la, no quadro da evolução, quando ninguém sabe quem foram os primeiros humanos, já que a tomada de consciência foi lenta e progressiva?

E quem acredita sinceramente que os seres humanos são gerados em pecado? Uma vez, uma senhora, numa conferência, atirou-me que sempre era verdade que sou herege, pois nego o pecado original. Perguntei-lhe, porque é mãe de duas filhas, se acreditava sinceramente que elas tinham sido geradas em pecado e se ela tinha andado ao todo 18 meses com o pecado dentro dela. E ela, fulminante: "Nem pensar!" Conclusão: quando a fé não é reflectida como razoável, assistimos à dissonância entre o que se diz crer e o que realmente se crê. Afinal, o que está no Génesis é, decisivamente, em linguagem simbólica, outra coisa: o significado da passagem da animalidade à humanidade: como seres humanos, temos consciência de sermos únicos e mortais - cada um é ele/ela e sabe de si como único e mortal.

Maria não é importante por ser mãe de Jesus, mas, como diz o Evangelho, por tê-lo acompanhado, mesmo quando não compreendia. Procurou entender e seguiu-o até à cruz. E tornou-se sua discípula, convertendo-se ao Deus que Jesus anunciou: o Deus-amor, que não nos abandona, nem mesmo na morte, que é próximo de todos, que quer a libertação de todos, a começar pelos mais fracos, humilhados e ofendidos - entre estes estão as mulheres.

Como escreveu o biblista Xabier Pikaza, numa longa e densa investigação sobre o Evangelho, "Jesus não quis algo de especial para as mulheres. Quis, para elas, o mesmo que para os homens. Não procurou um lugar especial para elas, mas o mesmo lugar de todos, isto é, o dos 'filhos de Deus'". Depois, veio a traição: "Ao transformar-se em instituição de poder religioso e social, deixando de ser um movimento messiânico de libertação, a Igreja teve de aceitar as estruturas normais de poder, que tinha estado (e estava) nas mãos de homens. Logicamente, os homens justificaram depois essa situação (domínio patriarcal) com pseudo-argumentos religiosos, que vão contra o espírito de Jesus".

Lucas 15, a esquerda e a direita

Tem piada o artigo de Inês Teotónio Pereira, "A esquerda que queremos ser", no DN de ontem. "Somos [os da direita] aquele i...