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segunda-feira, 19 de maio de 2014

João César das Neves: "A Europa corre mal"


Gostei muito de ler o texto de João César das Neves no DN de hoje. Fala da Europa e das críticas justas que lhe fazem: 
Os membros do Sul acusam-na de injustiça e opressão e os do Norte de esbanjadora e parasita. Os americanos desprezam-na como decadente e preguiçosa, os africanos acham-na colonialista e pedante. No concerto das nações surge como caduca, enfatuada, sempre em discussão consigo e perdida em ideais. Todas as críticas são verdadeiras e justas.
E ainda mais do feito magnífico que é:
Que países vizinhos, inimigos seculares, chacinando-se em permanentes conflitos, se unam num magno esforço de partilha de soberania é uma ideia que desafia toda a lógica social e política. Que esse projecto tão ambicioso tenha gerado uma prosperidade, liberdade e progresso dos mais elevados de sempre, recuperando rapidamente do maior dos desastres bélicos, ainda mais o distingue. A maior coroa de glória é que, além disso, os seus membros não tenham medo de abrir a experiência a outros, passando, dos seis iniciais, para os actuais 28. E que o façam confiando plenos direitos aos recém-chegados, sem privilégios para os fundadores. Poucas organizações humanas alguma vez tentaram reger-se por princípios tão dignos e magníficos.Tudo isto está simplesmente omisso na maior parte das discussões sobre a União. A única hipótese de compreender a grandeza do projecto europeu, além das liturgias oficiais comunitárias, a que ninguém dá atenção fora dos círculos diplomáticos, está na involuntária homenagem que os países externos lhe prestam. A verdade é que a grande maioria dos vizinhos gostaria de aderir, e os países longínquos pretendem copiar.
Já agora, sobre este assunto da Europa e as origens da união, sugiro a leitura da nota 2 deste post (sim, não tenho tido muito tempo para coisas originais).

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Dois textos de João César das Neves

João César das Neves escreveu na segunda-feira, no DN, sobre "A festa dos cinco papas", os quatro da canonização do dia 27 mais um outro.
Ontem foi um dia especial. Dois papas vivos declararam perante o mundo que dois papas mortos estavam na vida plena. A canonização de João XXIII e João Paulo II pelo Papa Francisco, na presença do papa emérito Bento XVI, constitui um acto único na história do mundo. Será que interessa ao mundo?
Ler tudo aqui.

Oito dias antes, JCN escreveu um conto de Páscoa.

O meu amigo fora claro: o seu prédio ficava entre a igreja e a livraria. Cedinho nessa manhã de Páscoa ali estava eu totalmente perdido, apesar das indicações. Ele dissera que não havia nada que enganar, porque a grande cruz no cimo da torre se via à distância. Além disso eu visitara-o há uns anos e esperava reconhecer o local. Apesar disto, não fazia a menor ideia onde me devia dirigir. Estava totalmente perdido.
Ler tudo aqui.

quinta-feira, 6 de março de 2014

João Miguel Tavares: "Pinto Monteiro e Adolf Hitler"


Texto de João Miguel Tavares no "Público" de hoje. Se o ponho aqui, é apenas por uma razão. A "reductio ad Hitlerum" é uma técnica comum em discussões sobre aborto e eutanásia, geralmente com católicos pelo meio. E a Lei de Godwin também já por cá andou, quer em comentários, quer em posts, como aqui, usada por João César das Neves.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

João César das Neves: "O furacão Bergoglio"


Eu acho este diagnóstico de João César das Neves sobre a receção ao Papa Francisco acertadíssimo.
Nestes poucos meses, por inúmeras vezes, o Papa disse e fez coisas inesperadas, surpreendentes, incómodas até. Foi, mais do que lufada, furacão. Todos o notaram. A diferença está no que fizeram com isso. Todos gostam dele e o ouvem com interesse e prazer, às vezes com avidez. Mas existem duas maneiras diferentes de confrontar a sua pessoa. O consenso à sua volta sofre de um cisma fundamental, ainda oculto. 
Existem aqueles que o seguem como Papa e os que o usam como Papa; os que aprendem com ele e os que concordam com ele; os que aceitam as suas palavras como aviso e os que as vêem como argumento. As ovelhas do Papa tomaram-no como dirigido a si mesmas e fizeram exame de consciência, propósito de emenda, penitência reparadora. Mas muitos consideraram os mesmos elementos apenas como apontados a outros. Esses só o usaram como argumento de discussão, confirmação de juízos, arma de arremesso. Esperam de Francisco não o anúncio do Reino e a divulgação da Palavra, mas a realização de agendas particulares e modelos pessoais. Não o querem como pai e mestre, mas como agente e gestor.
Ler tudo aqui (DN de hoje).

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Conto de Natal de João César das Neves

Isabel empurrou a custo os últimos escombros e conseguiu ver o céu. Chovia e o vento era forte. À volta havia só destroços fumegantes do ataque nuclear. Ignorava se o país sobrevivera, mas ali a destruição era total.

Início do conto de Natal de João César das Neves. No DN de ontem.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

João César das Neves disseca "o erro de Kant"

(...) O erro de Kant, corolário do erro racionalista de Descartes, está na origem desta sociedade rica e próspera, mas injusta, desorientada, deprimida. Os últimos dois séculos foram espantosos, mas, como o filho pródigo da parábola, o Ocidente esbanjou a vasta herança que exigiu e vê-se a guardar porcos.

Final da crónica de João César das Neves no DN de hoje.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

João Cesar das Neves: "Pedra de tropeço"

Quando a Igreja disser o mesmo que a multidão, opinião pública ou élite pensante, torna-se desnecessária. Para que serve uma doutrina que pactue ou tolere injustiças, abortos, interesses, adultérios, ficções, libertinagem, abusos? Por que razão quereríamos uma Igreja igual à RTP, PSD, UGT ou ONU? Os crentes querem ser, não populares, mas fiéis.

Texto de João César das Neves no DN de hoje:

Há cinco meses o mundo não sabia quem era Jorge Mario Bergoglio SJ; desde 13 de Março corre literalmente atrás do Papa Francisco. Há quase um concurso global para encontrar gestos inesperados e atitudes inovadoras do recém Sumo Pontífice.

A personalidade cativante de Francisco tem traços únicos, que o mundo e a Igreja ainda não compreenderam totalmente. Mas a unanimidade à volta deste carácter encantador é, pelo menos por enquanto, quase total. Ouvem-se muitos perguntar se ele é mesmo genuíno, ou se se trata de uma pose, pois parece bom demais para acreditar. Tanto os testemunhos dos íntimos como a experiência crescente destes meses indicam claramente que ele é exactamente como se vê: um grande homem de Deus, límpido, sábio, transparente. Isso leva todos os que se cruzam com ele a esperar muito do seu pontificado.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

João César das Neves "ao lado do essencial"

Texto de João César das Neves no DN de hoje.



Quando Jesus nasceu foi dito d'Ele: "Assim hão-de revelar-se os pensamentos de muitos corações" (Lc 2, 35). Parece que essa propriedade se mantém no Seu Vigário, pois muito do que se tem dito nestes dias acerca de Bento XVI manifesta mais a atitude pessoal de quem fala do que o problema que julga analisar.

A Igreja é a instituição mais comentada fora dela. Por todo o lado se proclamam opiniões taxativas sem lhe pertencer, ou sequer simpatizar. O Cristianismo é, sem dúvida, o tema com mais treinadores de bancada. Pelo seu lado o Papado, que é o seu elemento mais criticado, exerce a espantosa atracção que se vê. Não conseguem gostar dele, nem deixar de falar disso. O fenómeno merece análise.

É verdade que a Igreja Católica constitui uma realidade única no mundo. Existindo há 2000 anos, hoje com 1200 milhões de fiéis, é facilmente a maior e mais influente instituição da história. Bento XVI, o 265.º Papa, é também caso único. A mais antiga monarquia, a do Japão iniciada em 660 a. C., tem actualmente "apenas" o seu 125.º imperador, enquanto o Dalai Lama, que pode ser considerado o líder mundial mais parecido, é só o 14.º desde 1357. Em termos meramente estéticos e intelectuais é fascinante.

No entanto, essas análises incluem um elemento inesperado pois, em geral, os comentadores, sendo alheios, não fazem o menor esforço para entrar dentro da lógica daquilo que consideram. Mas não tomam isso como um obstáculo à qualidade do seu juízo. É evidente que quem emite opiniões sobre ciência, música, jardinagem ou alpinismo faz um esforço para entender essas entidades, mesmo que se mantenha exterior ao próprio. Ninguém escreve sobre indígenas do Pacífico, cinema japonês ou cultura punk sem procurar dominar o respectivo ponto de vista. No caso da Igreja isso não sucede, o que leva a generalidade dos críticos a pronunciar candidamente os dislates mais flagrantes, sem perceber que está totalmente ao lado da questão. O motivo desta situação é um fenómeno curioso.

Como se pode comprovar numa mera consulta dos jornais nos últimos dias, a grande maioria dos textos que se debruçaram sobre a decisão de resignação de Bento XVI nem sequer menciona aquele que foi, de longe, o factor mais decisivo no fenómeno que consideram: Deus. Concorde-se ou não, goste-se ou não da sua convicção, é evidente que Bento XVI tomou a sua decisão diante de Deus. Do mesmo modo, toda a Igreja recebeu a notícia como vinda de Deus, e espera do Senhor a continuação desta história. Ignorar isto é como discutir música sem som ou alpinismo sem montanhas.

Olhar para os recentes acontecimentos desta forma, ou seja a partir de dentro, muda completamente as conclusões. Bento XVI não renunciou por causa da Cúria, que é igual há séculos, ou devido a escândalos e ataques, iguais aos que acompanharam cada momento do pontificado. Nem sequer foi por motivos de saúde, apesar de o próprio os ter invocado. O seu gesto só aconteceu porque ele está plenamente convencido ser essa a vontade de Deus. Ele acha mesmo que é isso que aquele Senhor que segue atenta e minuciosamente em cada passo da vida há muito anos, e a quem entregou cada gota da sua existência, quer que ele faça.

Ver assim as coisas também muda totalmente as conversas que estes dias se multiplicam sobre o próximo Papa. Aqueles para quem essa eleição terá consequências, porque seguirão realmente na sua vida o novo "Cristo na terra", como lhe chamava S. Catarina de Sena, vêem as coisas de outra forma. Eles estão pouco preocupados se ele será europeu ou africano, jovem ou idoso, alegre ou reservado. Essas são as questões das escolhas na ONU ou Comité Olímpico, mas o Conclave nada tem a ver com isso.

Para os eleitores o propósito é, como diz a Constituição Apostólica que regula o processo, ter "em vista unicamente a glória de Deus e o bem da Igreja" (Universi Dominici Gregis, 83). Quanto ao resto dos católicos, eles estão menos preocupados em saber quem querem que o novo Papa seja do que em saber o que o novo Papa vai querer que eles sejam.


Comentário: Um bom texto para confrontar com o de Bento Domingues e o de Anselmo Borges na última semana. Eu gosto dos três colunistas, embora sejam contraditórios. E até me sinto mais perto da ideologia económica de João César das Neves, tirando um ou outro ponto (eu acho que dou mais valor à DSI do que o professor da Católica) do que da de Bento e Anselmo (que não são totalmente  iguais entre sim, penso eu).

Também gosto dos paradoxos do professor de economia, mas já não consigo lê-lo sem lhe dar um desconto. Há muita coisa com aparência de verdade que não é. Neste texto, por exemplo, diz que em geral os comentadores da Igreja são-lhe (à Igreja) alheios. Mas como pode ser, se em geral são catolicamente batizados e se a Igreja se pronuncia sobre tudo o que diz respeito à vida humana? Ninguém é alheio à Igreja Católica no Ocidente. Podem não querer nada com ela, mas sentem-na presente.

Diz, citando Catarina de Sena, que o papa é o novo "Cristo na terra". Pois. Deus nos livre. Quer dizer, até é. No sentido em que todos os ministros são. E todos os cristão o são. E todos os seres humanos o são. Principalmente os mais frágeis. Caso contrário, é a papolatria de que falava Bento Domingues, com razão, porque de facto existe.

Diz que não renunciou por causa da Cúria e dos outros motivos todos, mas somente por causa da vontade de Deus... que se manifestou nas dificuldades todas com que o Papa se confrontou, acrescento. Ou terá Deus falado especialmente ao que, nas suas próprias palavras não é nada místico Joseph Ratzinger?

Diz que as pessoas estão pouco preocupadas se o novo Papa será europeu ou africano, jovem ou idoso, alegre ou reservado. É ir à rua e perguntar. De facto estão. Nunca de falou tanto destas possibilidades. Até os bispos e cardeais eleitores falam disto. Até Bento XVI está interessado no que lhe vai suceder, a julgar pela declaração de renúncia. Tem se ser forte para enfrentar todo um mundo de problemas. Liderar a Igreja neste mundo.

"Quanto ao resto dos católicos, eles estão menos preocupados em saber quem querem que o novo Papa seja do que em saber o que o novo Papa vai querer que eles sejam". Quem dera que assim fosse. Se trocarmos o "menos" pelos "mais"... É um sonhador o João César das Neves.

sábado, 29 de dezembro de 2012

A edição dos 148 anos do DN foi toda escrita com a mão esquerda?



O DN faz hoje 148 anos. Parabéns. É um jornal que leio quase todos os dias em papel e cuja página na Internet consulto várias vezes ao dia. E nunca esquecerei a alegria de ter visitado a redação deste jornal tendo por cicerone Acácio Barradas, grande jornalista que morreu no dia 28 de outubro de 2008. Nem as tardes maravilhosas que passei nos arquivos deste jornal a ler as edições à volta de morte de João XXIII (que andava eu lá a investigar? – disso não me lembro).

Mas hoje, apesar de a edição ser maior, em número de páginas e formato (“berliner”), sinto-me defraudado. Esperava o suplemento “Q” e nada. Esperava o texto de Anselmo Borges e nada.

A edição comemorativa é dirigida por Manuel Carvalho da Silva e, como opinadores, surgem, entre outros, Mário Soares, Boaventura de Sousa Santos e Carlos Carvalhas. Opiniões que não vou ler, porque já sei não saem da cartilha. Também lá está a opinião de D. Manuel Clemente. E essa vou ler e copiar para este blogue porque considero que o bispo do Porto lança pontes, enquanto os três opinadores atrás referidos dinamitam-nas. É a minha visão das coisas, com certeza.

O jornal tem algumas peças interessantes, como uma reportagem sobre o Estado social na China (hei de ler), e outras de interesse nulo (hei de evitar), como um debate com Arménio Carlos (CGTP), João Proença (UGT) e Manuel Carvalho da Silva (ex-CGTP). Deve ser algo como um debate entre Mr. Dupond, Mr. Dupont e, sei lá, Mr. Duponth. Só que uns estão mais à esquerda do que outros.

E como se faltasse esquerda no jornal, ainda entrevistam Lula e publicam opiniões de Tarso Genro (PT - Brasil) e José Antonio Griñan (PSOE - Espanha) entre outros. Se escrevessem “Pravda” em gótico no topo da primeira página, ficava a condizer.

Para contrabalançar, talvez em 2013 convidem João César das Neves para diretor por um dia.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O Papa escreve na bíblia dos economistas


O Papa escreveu no Financial Times. É histórico porque, dizem, é a primeira vez que o Papa escreve um artigo de jornal – e logo no papa dos jornais económicos e financeiros.

O artigo pode ser lido todo online. Estive para copiá-lo para este blogue, por ser histórico, mas o FT pede que não copiemos (“High quality global journalism requires investment. Please share this article with others using the link below, do not cut & paste the article”. Está descansado, FT).

O artigo começa assim (copio um bocadinho e deixo o link):
“Render unto Caesar what belongs to Caesar and to God what belongs to God,” was the response of Jesus when asked about paying taxes. His questioners, of course, were laying a trap for him. They wanted to force him to take sides in the highly charged political debate about Roman rule in the land of Israel. Yet there was more at stake here: if Jesus really was the long-awaited Messiah, then surely he would oppose the Roman overlords. So the question was calculated to expose him either as a threat to the regime, or as a fraud.
Ler tudo aqui.

Começando por uma questão monetária, faz-me lembrar aquela tentativa de Paulo evangelizar na ágora ateniense aludindo ao “Deus desconhecido” e aos poetas gregos. Sabemos como acabou a cena: “Ouvir-te-emos numa próxima vez” (Atos 17,32). Hoje seria: “Está bem, mas agora não temos tempo”.

O Papa diz que Jesus não quer que se politize a religião nem que se deifique o poder temporal, que Jesus é herdeiro de David, mas sem armas, e que o nascimento do salvador desafia a reescalonar as nossas prioridades, valores e estilos de vida. “Desde a manjedoura, Cristo chama-nos a viver como cidadãos de um reino celeste, um reino que todas as pessoas de boa vontade podem ajudar a construir aqui na Terra”.

No final, um breve dado biográfico do autor, como é típico no FT: “The writer is the Bishop of Rome and author of ‘Jesus of Nazareth: The Infancy Narratives’”. Ainda bem, porque quem lê o FT é bem capaz de não saber quem é Bento XVI, ainda que também haja moedas com a sua cara, já que olham mais para Wall Street do que para a Via Apia.

Comentando este artigo, João César das Neves disse à Renascença:
 “É a primeira vez que o Papa escreve num jornal, ainda por cima no ‘Financial Times’, que para alguns é maldito e no qual o Papa não desdenhou participar. Depois ele centra-se na questão decisiva que é uma mudança de atitude. Parte da expressão ‘dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus’ para mostrar que vivemos no mundo, mas vivemos no mundo de outra maneira, que os cristãos têm de olhar para as suas realidades, seja o Parlamento ou na bolsa de valores, de uma maneira diferente. Não nos deixarmos prender nas ideologias nem nos ídolos, mas olharmos sempre para outra linha, sempre no mundo mas com outra atitude” (aqui).
Por curiosidade, gostava de saber o que pensam Manuela Silva ou Alfredo Bruto da Costa da colaboração do Papa nas páginas do clarim do capitalismo.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

João César das Neves sabe como detetar os novos hitleres


Peter Berger. Será este homem mais perigoso do que Hitler?

João Cesar das Neves, no DN de hoje (26-11-2012), dá a conhecer uma obra que deve ser interessante.
No seu recente livro “The Triumph of Christianity” (HarperOne, 2011) o reputado sociólogo da religião Rodney Stark faz um resumo de 40 anos de carreira e de uma impressionante lista de trabalhos de outros autores. O tema explícito é o paradoxo a que dedicou grande parte da sua atenção: "como foi possível que uma obscura seita judia se tenha tornado na maior religião do mundo?" (p.1). Só que, apesar de cobrir esparsamente os dois mil anos de história, pode dizer-se que o verdadeiro assunto do volume é bem diferente: derrubar uma enorme quantidade de mitos, erros e manipulações que a historiografia dos últimos séculos acumulou sobre a Igreja.
O economista aponta depois uma série de exemplos de mitos e manipulações que farão a delícia dos novos apologetas (em parte também me considero um):
- O sucesso da expansão cristã no Império Romano não se ficou a dever à decadência do paganismo, revolta de escravos ou favores de Constantino, mas ao facto de os cristãos, graças à sua caridade, "viverem mais tempo que os seus vizinhos pagãos... não 'descartarem' as crianças femininas e as mulheres cristãs não terem a mortalidade substancial por abortos feitos num mundo sem antibióticos" (p.417).
- A Idade Média europeia não foi uma "idade das trevas" de miséria e obscurantismo, mas uma época brilhante da história do mundo, pois a ausência de impérios eliminou a escravatura e monumentos grandiosos, e o génio humano pôde virar-se para descobertas pragmáticas, das esporas aos óculos e moinhos, passando pelo capitalismo (p.242-5).
- A religião não é inimiga da ciência, mas foi na Igreja que nasceu e grande parte dos maiores cientistas são e sempre foram devotos (cap.16).
- "A Inquisição Espanhola foi um corpo bastante moderado, responsável por poucas mortes e salvou muitas vidas por se opor à caça às bruxas que varreu o resto da Europa".
Talvez pudesse dizer também que o pacto das bruxas com o diabo é uma invenção da Inquisição medieval, pelo que não está isenta de culpa na paranóia contra as mulheres que varreu parte da Europa, mais a norte. Mas não há espaço para tudo. O texto pode ser lido aqui.

O que me espanta, porém, é o parágrafo final:
Mas é assustador pensar no enorme poder que alguns pseudocientistas têm, se usarem a sua posição de prestígio e influência para veicular dogmas pessoais. Voltaire e Gibbon, como hoje Richard Dawkins ou Peter Berger, são um perigo para a liberdade maior que Napoleão, Hitler ou Mugabe. Manipular a mente é pior que controlar leis e polícias.
Não me impressiona por aí além que João César das Neves tenha caído na Lei de Godwin. Admiro-me é por incluir Peter Berger na lista dos manipuladores perigosos, ainda que Voltaire, Gibbon e Dawkins também tenham aspetos positivos.
Será o Peter Berger que muitos leem (ou leram, como foi o meu caso, nos anos 90) por causa da secularização, americano de origem austríaca (olhem, a pátria de Hitler), professor em Boston, doutor honoris causa numa universidade jesuíta? É dele uma expressão que entrou na cultura teológica, “rumor de anjos”, para significar os anseios de divino nas sociedades tecnológicas e os sinais de transcendência.
O Google não apresenta outros Peter Berger. E aponta o blogue deste teólogo e sociólogo, aqui. Não o leiam. “Manipular a mente é pior que controlar leis e polícias”, avisa César das Neves. Fui ler. Por sinal, por estes dias, a propósito do furação Sandy, o sociólogo-teólogo lembra o terramoto de Lisboa, quando os católicos diziam que foi um castigo de Deus por causa de haver alguns protestantes em Lisboa enquanto no norte da Europa diziam que era castigo divino por causa de os portugueses serem católicos (texto de 21 de novembro). Tem razão o professor César das Neves. “Manipular a mente é pior que controlar leis e polícias”. E parece que Peter Berger concorda.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

João César das Neves: A surpresa do Concílio


João César das Neves escreve no DN de hoje sobre "A surpresa do Concílio" (aqui).


Na próxima quinta-feira passa o cinquentenário de uma das realizações mais espantosas da humanidade. O início do 21.º concílio ecuménico da Igreja Católica constitui um acontecimento decisivo para os fiéis mas, mesmo em termos meramente históricos, é um facto ímpar.

Primeiro porque envolve uma das instituição mais notáveis da humanidade. Não só é a maior comunidade religiosa mas, em certo sentido, é também a maior, mais antiga e influente organização de sempre. Só que, como dizer isto criaria irritação em certos sectores, será mais pacífico afirmar que constitui indiscutivelmente uma das mais vastas e relevantes instituições mundiais.

Mais surpreendente, praticamente inédito, é que tal entidade possa entrar voluntariamente num processo de profunda reforma interna. É raríssimo que organizações desta dimensão e influência consigam sequer simples reestruturações, quanto mais esforços desta magnitude. A coisa fica ainda mais incrível ao notar que o projecto foi provocado, não por necessidade premente ou acontecimento externo, mas por intuição profética de um homem providencial. Isto faz que, até na longa lista dos concílios, o último seja único.

A Igreja Católica é sem dúvida a instituição mais reformada de sempre. Os sete primeiros concílios trataram da pureza da doutrina contra heresias, mas os 14 seguintes, ao longo de 1097 anos, ocuparam-se de reorganização eclesial. Em todos, porém, existia um problema urgente que exigia resposta dos padres conciliares. No maior e mais influente, em Trento de 1545 a 1563, fez-se o ajustamento ao humanismo, que criara já uma suposta "reforma" por parte dos luteranos, que realmente fora uma ruptura. Coube ao Concílio a verdadeira, e tão esperada, reforma. Mas em 1962 ninguém esperava nada. Foi surpresa total.

Realmente em meados do século XX a Igreja não defrontava nenhum desafio visível. É verdade que há mais de 200 anos sofria a atitude hostil, muitas vezes violenta, da modernidade. Pode dizer-se até que fora essa dificuldade a motivar o Concílio anterior, Vaticano I, aliás interrompido brutalmente à mão militar em 1870. Mas 92 anos depois a pressão já não era candente. O motor do Concílio foi apenas o ardor pastoral de João XXIII.

Uma vez deflagrado o processo, tornou-se evidente a razão por que outras instituições nunca o fazem: é muito difícil equilibrar a neces- sidade de mudança com o risco de fractura ou distorção. A ânsia que sempre motivou a Igreja nos sucessivos concílios foi o regresso à pureza da sua identidade e missão, mas a multidão histórica de heresias mostra a dificuldade de fazê-lo com verdade. O processo foi longo e doloroso mas 50 anos depois vemos hoje que foi coroado de um êxito espantoso e inesperado. Ainda existem os que recusam a mudança ou condenam a inércia, mas a verdade é que o II Concílio do Vaticano conseguiu uma transformação formal mais profunda do que alguém poderia prever, enquanto reforçava a fidelidade doutrinal e a concórdia interna. Ninguém esperaria mais e melhor dos padres conciliares.

O propósito da reunião era claro: "O que mais importa ao Concílio Ecuménico é o seguinte: que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz" (João XXIII, discurso na abertura do concílio, V.1). Porquê a doutrina?

Vivemos numa época que pensa poder viver sem colocar as perguntas fundamentais da existência, embriagado num utilitarismo míope. Reduzindo a Caridade a mera solidariedade e sem saber onde radicar a Esperança, torna-se cada vez mais claro que o que falta no mundo é a Fé. Ignorando o significado da vida, tudo o resto perde sentido. "O mundo actual apresenta-se, assim, simultaneamente poderoso e débil, capaz do melhor e do pior, tendo patente diante de si o caminho da liberdade ou da servidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade ou do ódio" (Gaudium et Spes, 9).

O mundo, que nunca seria capaz de fazer um concílio, precisa da Fé que este proclamou. Meio século depois Bento XVI, último dos papas do Concílio, propõe um Ano da Fé.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"Desporto por desporto" - a mística olímpica por João César das Neves


Meditação de João César das Neves, no DN da semana passada (6 de agosto, aqui), sobre a dimensão pararreligiosa dos jogos olímpicos. Pus a negrito as palavras mais explicitamente religiosas.

A sociedade moderna, cortando as relações com o transcendente, teve de arranjar mitologias, cultos, teologias para se inspirar. O desporto, como a ciência, música e heroísmo, é um elemento central dessa espiritualidade. Os atletas alegadamente mostram o melhor do ser humano, esquecendo misérias, desgraças e maldades, promovendo a auto-superação, camaradagem, colaboração e paz. Os Jogos Olímpicos são a grande celebração mundial da mística, proclamando bem alto este evangelho.
Mas existe um abismo entre desporto e a alta competição dos certames mundiais que bate recordes. Aí a situação aproxima-se do que a sociedade moderna mais se orgulha de erradicar: a escravatura. O facto de ser voluntária e rodeada de fama não a redime. Torna-a paradoxal.
A vida dos atletas manifesta bem este paralelo. Treinos, dietas, disciplina, lesões, exaustão e sofrimento são coisas que, se fossem impostos a alguém, seriam consideradas campo de concentração. Além disso, há a rivalidade, obsessão pelas marcas, pressão psicológica, humilhações, violência moral, isolamento, exclusividade que são brutais. Até o mandamento central desta fé, levar-se a si próprio ao extremo, é vicioso, pois a virtude está no equilíbrio e moderação. A vida de atleta é, realmente, bastante miserável, destruindo a humanidade, em vez de a ampliar, como garante a mística. 
O dogma oculta a verdade com um truque. Não nega a violência e angústia, mas, centrando a atenção nos vencedores, garante que tudo vale a pena perante a alegria do sucesso e a glória da vitória. Mas, ao contrário dos filmes de aventuras, os adversários vencidos não são vilões malvados. São outros atletas, que também pagaram os custos altíssimos, também forçaram e esfrangalharam a sua humanidade, tendo como única recompensa vergonha e fiasco. 
A isto junta-se extrema injustiça e impiedade, oculta debaixo do rigor dos resultados. Com os níveis a que chegaram os recordes, o fracasso acontece por milésimos de segundo, centímetros, queda na pirueta, pequeno deslize, ligeira indisposição. Esse nada deita a perder anos de trabalho brutal, que valem zero. E o injustiçado, que se escravizou voluntariamente, nem sequer pode protestar contra o cronómetro, a fita métrica e evidência dos árbitros. Só tem de desaparecer e tentar outra vez, se ainda tiver idade. 
Isto aponta outra evidente falha da mística: desporto é para jovens saudáveis. Uma fé que apenas dá sentido à vida a alguns durante uns anos, não presta. Os apóstolos defendem-se dizendo que desporto é para toda a vida, sendo a alta competição apenas dos mestres, como os mosteiros e eremitérios na religião. Mas no desporto, ao contrário da religião, vitória e fama fazem parte da mística. A falsidade da tese vê-se na vida posterior dos grandes atletas.Tirando o pequeno punhado de superestrelas que vive da celebridade, à esmagadora maioria dos desportistas, mesmo grandes campeões, espera-os anos de nostalgia, anonimato, até miséria, pois muitos desperdiçaram a juventude sem aprender uma profissão útil. A mística tenta esconder a verdade, celebrando glórias passadas, mas ela por vezes emerge, como no filme Belarmino (Fernando Lopes, 1964) ou nas notícias recorrentes de ex-campeões que vendem as medalhas para comer. 
É verdade que estes são precisamente os pontos em que toca o espírito olímpico. Ao contrário dos campeonatos, os Jogos dirigem-se a amadores, pessoas que praticam desporto por desporto, não por obrigação. Participar é mais importante do que vencer ou bater recordes. Esta é a teoria, muito longe da realidade. Repetidamente se ouvem os sumo sacerdotes lamentar a perda do espírito olímpico. Em grande medida, os Jogos são apenas mais um campeonato, para os mesmos profissionais que batem o circuito. Mas o mal estava na origem: se apenas interessa a prática, porquê criar medalhas e podium? 
O desporto é uma excelente actividade humana, como a arte ou ciência, mas, como elas, não suporta ser erigida em finalidade de vida. O desporto só é desporto se for praticado por desporto.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Coisas do demo - a propósito de um texto de João César das Neves


O gato não tem culpa nenhuma de aqui estar

João César das Neves fala na sua crónica de hoje, no DN (aqui), do diabo.

Eu gosto de ler os textos do professor de economia, ainda que muitas vezes discorde. Como é o caso de hoje. Aprecio os seus paradoxos, mas evito cair neles. Dão jeito para sofismos, mas não passam disso. Ainda há dias, ao vivo, ouvi mais um, desta vez sobre as reivindicações das mulheres. Era mais ou menos assim: “Dizem que elas foram oprimidas durante milhares de anos. E nunca se queixaram? Há aqui qualquer coisa que não joga bem”. A pergunta pode fazer pensar. Mas se pensarmos mais um pouco percebemos que fazia parte da opressão não se queixarem, tirar-lhes as hipóteses de pensar, convencê-las de que não se podiam queixar, nem sequer colocar a possibilidade. Usando um paralelo que não é assim tão descabido, podemos dizer: “A escravatura estava contra a dignidade humana? Hummm. E os escravos não se queixaram durante milhares de anos [na Mauritânia só foi proibida em 1981]?” Podíamos responder-lhe: “Queixaram-se, sim. Escreveram tratados sobre a dignidade humana e apresentaram teses de doutoramento sobre a igualdade dos seres humanos”, quando a única possibilidade de se queixarem era usar o que melhor sabiam usar, os pés, e fugir. E quando o faziam, matavam-nos.

O que faz hoje o professor? Fala do demo. Do diabo. Tudo muito bem, tudo muito certinho. Só há um problema. Confunde diabo e demónio. Está contra os evangelhos, onde nunca o diabo é confundido com o demónio. Em resumo, nos Evangelhos, os demónios "possuem", mas são expulsos, porque se trata de doenças curáveis. Já o diabo tenta, mas nunca possui ninguém. É a força do mal. Sem dúvida que o mal existe e por vezes atrai. Mas para quê e porquê a personificação?

O argumento, também teológico, de que a liberdade é suficiente para explicar o mal moral, humano, é por isso subvertido, bem ao seu jeito:
É curioso perceber porquê [a recusa de Satanás]. A razão liga-se ao axioma mais central e indiscutível da nossa cultura. Somos o tempo da liberdade, humanismo, técnica e poder sobre a natureza. Ora nada destrói mais esses valores que saber-nos sujeitos a influências maléficas, que turvam as nossas escolhas, distorcem a nossa humanidade, pervertem as nossas obras e podem dominar a nossa vida. Se existem tentações demoníacas, lá se vão os sonhos de tolerância, humanismo, liberdade. Caímos no real. O ser humano, que se acha radicalmente autónomo e soberano, ainda tolera com diplomacia um deus longínquo, mas nunca se considerará sujeito ao demónio.
É preciso estar atendo às ilusões dos que defendem a existência do diabo/demónio. Também isso pode ser demoníaco. A minha tese, à João César das Neves, é precisamente essa. Acreditar no demónio/diabo não é evangélico, não é responsabilizante, pode ser traumatizante, é intelectualmente infantilizante e teologicamente contraditório. Pode ser caso de médico e de psicólogo. Acreditar no demónio pode, de facto, tornar-se demoníaco.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

"«Derechona» eclesiástica es sumamente dañina”

José Manuel Vidal

“La homofobia ideológica de la «derechona» eclesiástica es sumamente dañina”, escreve o jornalista espanhol José Manuel Vidal, a propósito de declarações contra os homossexuais e a homossexualidade de alguns membros do clero espanhol (e chileno, reportando-se a D. Jorge Medina).
(…) Quando escuchan a obispos y cardenales como Reig y como Medina, se les parte el alma y se alejan de la Iglesia para siempre. Porque ya no es su casa. Porque en ella ya no se les quiere. Porque se les manda al infierno o a las clínicas. Por mucho que, después, para reparar el escándalo, vengan otros voceros oficiales diciendo que se les respeta. 
¡Cuánto dolor sembrado! ¡Y cuánta hipocresía! Porque, el clero católico está lleno de gays. Es algo que todo el mundo sabe y que todo el mundo puede comprobar. Porque la homosexualidad es algo tan constitutivo de la persona que, a duras penas, se puede ocultar. 
Y porque, durante siglos, la Iglesia se convirtió (y sigue siendo) una institución refugio de gays. Cumpliendo, en ese sentido, una cierta misión liberadora. Les proporciona uan salida, aunque el precio que tengan que pagar sea el silencio total o la expulsión. Ahora, hasta quieren prohibirles el acceso al sacerdocio. Simplemente por ser gays. Aunque, como los heterosexuales, acepten el celibato y prometan castidad. Dos varas de medir. Una discriminación más. 
Si no tienen entrañas de misericordia, al menos que se callen estos jerarcas talibanes, que van sembrando dolor e indignación. Y falta de caridad.
Ler tudo aqui. Sobre a polémica, fiz aqui um apanhado.


Por outro lado, João César das Neves tenta pôr água na fervura.
Aqui surge uma segunda confusão entre discriminação e opinião. Existe realmente o crime grave de homofobia, que consiste no tratamento injusto, ou pior a agressão, a alguém por opção sexual. Isso é muito diferente da opinião que cada um possa ter sobre essa actividade. Chamando "homófobo" a quem quer que, sem prejudicar ninguém, considere a prática uma perversão, confundem-se as coisas e comete-se uma outra discriminação, aqui por delito de opinião. Também existem no mundo graves perseguições contra católicos, que não podem ser confundidas com o repúdio particular por essa religião, manifestado de forma civilizada. A fúria actual contra qualquer pessoa que não alinhe com a visão dominante da naturalidade e equivalência de todas as opções sexuais é, ela sim, uma forma grave de totalitarismo cultural.
Ler tudo aqui, no DN. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Como lidar com uma vaga cultural? - João César das Neves responde



Como lidar com uma vaga cultural? Esbracejar face à onda é tolice e fugir cobardia. Devem evitar-se a atitude apática e facilitista, que escamoteia a gravidade do tema em nome da paz podre, e o fanatismo intolerante, que transforma essa gravidade em agressão. Nestas discussões vitais existem três exigências básicas. Primeiro ter ideias claras e opiniões firmes, ao nível da importância do assunto, com argumentos sólidos e elaborados para as suportar. Depois respeitar sempre os opositores, por mais chocantes que sejam as suas posições, procurando um diálogo sereno e profundo. Acima de tudo, deve reinar a certeza que no fim a verdade triunfará.


João César das Neves no DN de ontem (aqui).

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

João César das Neves sobre Christopher Hitchens



João César das Neves escreveu na segunda-feira passada, no DN, sobre o "cavaleiro do Apocalipse" Christopher Hitchens, que morreu no dia 15 de dezembro passado.
O ateísmo é a doutrina religiosa com o dogma de que Deus não existe. Embora se considere científica é uma crença como as demais, pois relativamente à divindade o ser humano nada conhece. A única coisa que podemos é formular convicções. Eu acredito que Deus existe, Hitchens tinha a certeza que não, mas ninguém realmente sabe. Um dia veremos, mas então será demasiado tarde.
…
(…) Existe aqui uma assimetria curiosa. Se eu escrever algo contra uma fé alheia ou atacar o ateísmo, sou intolerante e fanático. Mas um ateu que critique abertamente a religião e até faça disso carreira profissional, manifesta liberdade de expressão. Durante muito tempo atacar a Igreja era, não perseguição e chauvinismo, mas suprema prova de democracia e humanismo. Os mais ferozes anticlericais chamavam a si mesmos "livre pensadores". 
O "novo ateísmo" caracteriza-se precisamente por esta dureza contra a religião, o que é compreensível por várias razões. Primeiro por ser comum em crenças pequenas e inseguras. Depois porque este novo ateísmo tem de viver na evidência do fiasco do antigo. Até há cem anos todos os pensadores cépticos acreditavam piamente na morte próxima da religião e num futuro ateu, crença que falhou redondamente. 
Acima de tudo, o ateísmo é a certeza de que a vida não tem sentido e a morte é o nada. Por isso era tão importante observar o fim de Christopher Hitchens. Este autor, a quem os conhecidos descrevem com uma personalidade encantadora, sabe agora se a sua aposta é certa ou errada. Como pessoa religiosa, rezo sinceramente pela alma que ele achava não ter. Faço-o confiante no sentido de humor do Senhor do universo, que deve esmerar-se em receber com especial delicadeza aqueles que pessoalmente O negam.
Ler tudo aqui.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

João César das Neves: "O burro do Presépio"

Texto de João César das Neves no DN de hoje. Ler tudo aqui.


O Presépio podia existir sem vaca. Podia existir sem pastores, carneiros ou magos. Até podia existir sem S. José ou os Anjos. No Presépio existem apenas três personagens indispensáveis: Jesus, Maria e o burro. Jesus é o Deus que se faz homem, que muda o sentido do universo, que cria o Presépio. Maria é o caminho que Jesus escolheu para vir. O burro é o meio de lá chegarem. Sem Jesus o Presépio não havia. Sem Maria, Jesus não tinha nascido. Sem o burro, Maria não chegaria ao Presépio.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...