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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Slender Man ataca


O Slender Man (a wikipedia explica quem é, para quem, como eu, nunca de tal ouviu falar) inspirou duas crianças a assassinar uma terceira (apesar das 19 facadas, felizmente sobreviveu). Foi nos EUA, como poderia ter em qualquer lado com internet. Li aqui.

O que é que isto quer dizer? Muitas leituras possíveis, uma delas, sobre a indistinção entre imaginação e realidade; outra, sobre a ausência da ética elementar que diz que matar ou é mal; e outra sobre como o pior da personalização do mal é a o poder da própria personalização.

sábado, 26 de outubro de 2013

Anselmo Borges: "O mal e Deus: com Valter Hugo Mãe"

Valter Hugo Mãe, Nuno Camarneiro e Anselmo Borges

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

1. Foi um convite amável e insistente. Para uma conversa com Valter Hugo Mãe. Na Universidade de Aveiro, no dia 8 de Outubro. O tema: Mal.

O que é que se diz sobre o mal? Comecei por recordar que há muitos tipos de mal: o mal físico, o mal moral, o mal metafísico, o mal fora de nós, o mal em nós..., chamando sobretudo a atenção para o facto de, se estávamos ali para essa conversa-debate, é porque nos sentíamos razoavelmente, com algum conforto e sem grandes aflições. Porque, quando o mal se abate sobre nós - um cancro, um terramoto, um tsunami, um filho que se nos morre desfeito em dores e perante a nossa impotência total, quando nos destruímos mutuamente, quando tudo se afunda sob os nossos pés, quando o futuro todo se apaga... -, aí gritamos, choramos, blasfemamos, rezamos..., não debatemos.

Ao longo do tempo, houve tentativas várias de solução para o mal, sobretudo quando nos confrontamos com Deus. Como é que Deus é compatível com todo o calvário do mundo? Lá está Epicuro: ou Deus pôde evitar o mal e não quis; então, não é bom. Ou quis e não pôde; então, não é omnipotente. Ou quis e pôde; então, donde vem o mal? Na sua justificação de Deus, Leibniz concluiu que este é o melhor dos mundos possíveis. Schopenhauer contrapôs: este mundo não passa de uma arena de seres torturados, que sobrevivem devorando-se uns aos outros, ele "é o pior dos possíveis". A solução gnóstica e dualista coloca o mal no interior da Divindade. Há quem pense que devíamos despedir-nos do Deus omnipotente e ir ao encontro do Deus sofredor e crucificado. Segundo Kant, toda a tentativa de teodiceia teórica fracassa.

Penso que é o teólogo A. Torres Queiruga que abre para uma correcta reflexão, ao exigir uma ponerologia (de ponerós, mau): tratar do mal, antes de qualquer referência a Deus, pois o mal atinge todos, crentes e não crentes. Aí, percebe-se que a raiz do mal é a finitude. O mundo é finito e, por isso, não podendo ser perfeito, tem falhas e carências, choques.

Assim, Deus é omnipotente e infinitamente bom. Mas pretender que poderia acabar com o mal no mundo, criando-o perfeito, mas não quer, é uma contradição. Não tem sentido perguntar por que é que Deus não criou um mundo perfeito, pois Deus não pode criar outro Deus. Não se diz que há algo que Deus não pode fazer, apenas se nega uma contradição. Se o mundo inevitavelmente finito não pode ser perfeito, não podemos pretender que Deus o faça.

A pergunta é outra: se o mal é inevitável, porque é que Deus o criou? Aqui começa a pisteodiceia (de pistis: justificação da fé). Há diferentes pisteodiceias, pois todos têm de enfrentar-se com o mal e cada um encontra a sua resposta. O crente religioso também tem a sua: crê em Deus como Amor e anti-Mal e espera a salvação definitiva e plena para lá da morte. Sem Deus, fica-se com o mal e sem esperança, também para as vítimas inocentes.

2. Poucos dias depois, uma jovem senhora, com uma tese académica já pronta, que acabara de sepultar o pai ainda relativamente jovem, telefona-me e eu sinto e ouço as lágrimas a correr e a voz embargada, a tremer e a suplicar, porque também uma irmã acabava de ter um AVC: "É de mais; por favor, reze, por favor reze, a razão não sabe nada, não pode nada..."

E eu lembrei-me das palavras do início em Aveiro: que, perante o sofrimento atroz, as pessoas não debatem, mas choram, gritam, blasfemam, rezam (talvez tudo isto ao mesmo tempo).

E também me lembrei do que escreveu o filósofo agnóstico J. Habermas sobre o último encontro com o filósofo ateu H. Marcuse, que tinha citado: ele "estava na sala de cuidados intensivos de um hospital de Frankfurt, rodeado de aparelhos nos dois lados da cama. Nesta ocasião, que foi o nosso último encontro filosófico, Marcuse, em conexão com a nossa discussão de dois anos atrás, disse-me: "Sabes? Agora sei em que é que se fundamentam os nossos juízos de valor mais elementares: na compaixão, no nosso sentimento pela dor dos outros"".

Estou convicto de que, nisto, quanto à compaixão, Valter Hugo Mãe estará totalmente de acordo comigo.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Rouco compara la persecución religiosa española con la de la Unión Soviética?

O título diz que...

...Rouco compara la persecución religiosa española con la de la Unión Soviética


Mas não é bem isso. O que diz o cardeal é:
Hemos celebrado esta mañana en Tarragona la beatificación de 522 mártires de la persecución religiosa en España del siglo XX. Se trata de Obispos, sacerdotes, consagrados y laicos, unidos a otros muchos que por odio a su fe fueron perseguidos, torturados y asesinados en la Europa del siglo XX. Lo que ocurrió en España y en muchos otros lugares, como la antigua Unión Soviética, sigue teniendo lugar hoy a diferente escala en muchos países donde no se respeta la libertad religiosa y el carácter sagrado de cada persona humana.
También el pueblo judío sufrió el siglo pasado la espantosa desgracia del holocausto, la Shoah, -¡un verdadero genocidio!- cuya causa profunda, junto al antisemitismo que hemos de luchar por erradicar en todas sus formas, hay que buscarla en la negación radical de Dios que conduce a un no disimulado desprecio del hombre, que es siempre su criatura independientemente de su condición social, raza y religión.

Aponta mais exemplos do que faz comparações. Não se pode comprarar a perseguição em Espanha com o Gulag ou o Holocausto. Mas também é verdade que o mal não se mede pelo número de mortos. Ler notícia e discurso aqui.

sábado, 8 de junho de 2013

Anselmo Borges: "O diabo, possessões demoníacas e exorcismos"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

O Papa Francisco terá alegadamente realizado um exorcismo num mexicano. O porta-voz do Vaticano apressou-se a desmentir. Mas o célebre exorcista Gabriele Amorth, a caminho dos 90 anos e que diz já ter feito mais de 70 mil exorcismos, não duvida de que "o Papa fez mesmo um exorcismo". Por mim, confesso que estou plenamente convencido de que Francisco não o fez: apenas tentou ajudar aquela pessoa doente, impondo-lhe as mãos e rezando.

Diabo é, etimologicamente, o contrário de símbolo: enquanto diabállo, em grego, significa desunir, enganar, symboléo quer dizer encontrar-se com, reunir. O simbólico une; o diabólico desune.

O diabo é uma figura com muitos nomes, embora o seu sentido não seja exactamente idêntico: satã, demónio, satanás, belzebu, lúcifer, mafarrico, maligno... Aqui, serão usados indistintamente.

Seja como for, o decisivo é que o diabo aparece no contexto do sofrimento, da maldade, enfim, do mal. Como se explica tanto mal e sofrimento no mundo? Uma vez que Deus não pode ser a causa do mal, pois é infinitamente bom, supõe-se que o diabo poderia ser uma boa explicação. Ele tentou e tenta o ser humano, que cai na tentação e provoca o mal. Mas já o filósofo Kant colocou na boca de um catequizando iroquês esta pergunta: Por que é que Deus não acabou com o diabo? E sobretudo: quem é que tentou os anjos, para que, de bons, se transformassem em anjos caídos e maus, demónios?

Para explicar o mal, contrapor o diabo a Deus, como se fosse uma espécie de anti-Deus, no quadro de um dualismo maniqueu, não passa de uma explicação aparente e, sobretudo, é uma contradição.

Se é certo que Jesus, nos Evangelhos, aparece expulsando demónios, isso deve ser compreendido no contexto das crenças da altura. Hoje, sabemos que se tratava de doenças do foro psiquiátrico ou de pessoas com ataques epilépticos ou sofrendo de histeria. De qualquer forma, Jesus anunciou Deus e não satanás, e, felizmente, o diabo não faz parte do Credo cristão. O núcleo da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, e o Reino de Deus consiste na salvação total e plena do ser humano. Neste contexto, o diabo pode aparecer apenas como um símbolo personificado de todo o mal que ainda aflige o homem, mas a que Deus há-de pôr termo, segundo a promessa de Jesus. O diabo é a expressão personificada do que não é o Reino de Deus. Precisamente para realçar mais e melhor o que constitui o centro da mensagem de Jesus enquanto notícia boa e felicitante: o futuro do Reino de Deus.

O diabo não pode, pois, ser apresentado como uma espécie de concorrente de Deus. E não tem sentido continuar a pensar e a pregar que ele se mete nas pessoas, para tomar conta delas através das possessões diabólicas. Não há possessos demoníacos. Apenas há doenças e doentes de muitas espécies e com múltiplas origens e com imenso sofrimento, a que é preciso pôr fim, na medida do possível e, pelo menos, aliviar. Os rituais de exorcismos não têm justificação.

Se Jesus não pregou satanás, mas Deus, então a fé do cristão dirige-se a Deus e não ao diabo, o que inclui na prática a urgência de expulsar da vida pessoal e pública tudo o que é demoníaco e diabólico.

Já em 1969, Herbert Haag, um dos maiores exegetas do século XX, que conheci bem, se despedia da crença na existência pessoal do diabo, na obra Abschied vom Teufel (Adeus ao diabo). H. Bietenhard também escreveu: "A pregação cristã não deve especular sobre a origem e a essência ou o ser de Satanás - a Bíblia também não o faz: as pregações sobre o diabo e sobre o inferno, quando não fomentam a necessidade de emoções de pessoas pseudopiedosas e a excitação dos seus nervos, só servem para difundir a insegurança, a angústia e o medo. Essas pregações, em vez de libertar, colocam fardos aos ombros das pessoas".

Como diz o teólogo José M. Castillo, a Igreja, em vez da preocupação com o número de exorcistas para os demónios inexistentes, deve preocupar-se com os outros demónios, os que na realidade existem, que andam por aí à solta e são responsáveis por imensos sofrimentos de milhões de pessoas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O mal

O mal, a meu ver, é em grande parte acreditar orgulhosamente que nos bastamos a nós mesmos. É o sentimento da própria suficiência e o desprezo pelo outro levado até ao absurdo. Escândalo da vida ridicularizada, do esbanjamento, da indiferença para com os velhos e os pobres, os famintos, os sem-trabalho, os excluídos de todo o tipo... Tudo isto é responsabilidade e problema nosso, e não de Deus.

Abbé Pierre, 1995

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Abismática maldade do mal



A grande mascarada do mal transtornou todos os conceitos éticos. Para quem provem do nosso tradicional mundo de conceitos éticos, o facto de o mal aparecer sob o aspeto da luz, da ação benéfica, da necessidade histórica, da justiça social, é simplesmente perturbador. Para o cristão que vive da Bíblia, este facto constitui a confirmação da abismática maldade do mal.

Dietrich Bonhoeffer em 1943. Excerto de umas reflexões dirigidas a um grupo de amigos e a alguns membros da sua família implicados no atentado contra Hitler.

sexta-feira, 23 de março de 2012

A causa dos incêndios


Gerard W. Hughes, padre jesuíta, conta em “Deus de Surpresas” (ed. AO) como o moralismo católico (também o haverá noutras fés e religiões) pode fazer mal às pessoas sensíveis e imaginativas, o que, além de trágico, é uma perversão do Evangelho. E relata:
Após ter escutado, de modo especial, uma pessoa que sofrera uma tortura interior devido a tais ensinamentos, não fiquei nada surpreendido quando, em resposta à minha pergunta «Se estivesse completamente livre de todas as obrigações morais, o que é que mais gostaria de poder fazer?», ela respondeu: “Incendiar Igrejas”.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...